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Colunas de Sérgio Botelho


  • 13/11/2017

    Memória Pessoense: Bar Querubim


     Dia desses, Petrônio Souto postou, no Facebook, uma bela foto da Guedes Pereira pegando aquele conjunto de prédios que fica no primeiro quarteirão da rua que leva ao comércio da cidade baixa, ou o último que nos traz de volta ao Ponto de Cem Reis.

    A foto nos remete, muito provavelmente, à segunda metade da década de 1940, e mostra um conjunto de edificações bem novas, ainda. Entre os prédios, há um equipamento bastante nítido, marcado por um toldo à frente da entrada: o Bar Querubim.
     
    Com efeito, o Querubim foi criado em 1946, e, de lá até hoje, pouco a pouco, conseguiu incorporar-se indelevelmente à vida e à paisagem urbana de João Pessoa. Aliás, como raramente acontece com empreendimentos brasileiros.
     
    É comum você encontrar na Europa (apenas conheci a cidade de Lisboa, mas, segundo relatos, é assim pelo velho continente inteiro) cervejarias de 1800 e lá vai fumaça, gingerias de 1700 e alguma coisa, restaurantes de 1800 e tantos. É, sem exagero, emocionante de ser ver.
     
    Portanto, encontrar um serviço de 1946 ainda funcionando, e no mesmo espaço, no Brasil, é coisa rara. Em João Pessoa, então... Pois bem. O bar Querubim é mais novo, de 1946, tendo servido a gerações e, ainda mais, com o mesmo tipo de serviço.
     
    O caldo-de-cana com pastel, bolinhos, o pão-doce, entre outras iguarias, assim, ligadas a um lanche ligeiro, sempre fizeram o sucesso do Querubim, não somente matando fomes também ligeiras, mas, também, fomes de um dia inteiro.
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    Para os jovens pobres hospedados na Casa do Estudante, ali perto, o caldo-de-cana com pastel ou com pão-doce, principalmente, significava o almoço dos sábados e dos domingos, por anos a fio -para alguns, até, por conta da ajuda de colegas.
     
    Nessas pessoas, o Querubim está definitivamente soldado às memórias do passado de cada uma delas, mesmo que, de forma amarga, mas, incapaz de ser arrancado, de maneira até contraditória, como argamassa indispensável à construção de suas vidas.
     
    Ao lado dos estudantes, em dias úteis, dezenas de pessoas costumavam se acotovelar junto ao balcão em U, do Querubim, nas descidas ou nas subidas para a parte mais baixa, do ponto de vista geográfico, da querida João Pessoa.
     
    Ao fundo, na parte interna, junto à moenda do indefectível caldo-de-cana, uma velha escada de ferro, bela e marcante, constituindo uma paisagem bucólica e única, e, ela mesma, testemunha muda de tantas vidas que ali trabalharam ou se deliciaram com os seus lanches.
     
    Ao lado de construções históricas centenárias da Parahyba do Norte, o bar Querubim faz parte do inconsciente coletivo do pessoense, e, basta uma relembrada, para que sua existência e história aflore à memória de cada um.
    Todo aquele Centro de João Pessoa está hoje devidamente tombado para que não haja mais aventuras do tipo da que, um dia, derrubou o velho prédio de A União para construir aquele monstrengo modernista que é a Assembleia Legislativa, totalmente por fora do conjunto arquitetônico do qual faz parte.
     
    Tenho a impressão de que o mesmo deveria acontecer, não apenas com o prédio onde funciona o Bar Querubim, mas, com o próprio empreendimento em si, para que um dia não vire outra coisa, senão o Bar Querubim.
     
    Aqui, longe, em Brasília, agora, me bateu uma bruta saudade de João Pessoa. E quando voltar à nossa querida capital, a primeira coisa que farei é ir ao Bar Querubim para pedir, em alto e bom som, um caldo-de-cana com pastel. 
     
    Nesse momento, estarei repetindo o que já fizeram centenas de milhares pessoas pela história da capital paraibana, afora, o que faz do Bar Querubim testemunha e artífice da edificação do que pode ser chamado de espírito pessoense.