Página inicial

Colunas de Sérgio Botelho


  • 27/04/2018

    Absoluta imprevisibilidade


     Encontrar, no momento, algum favoritismo entre as candidaturas já postas, para a eleição 2018, é como você descobrir o que representam pequenos pontos de luz em uma sala absolutamente escura. Sendo muita escuridão para insuficientes emanações de claridade, o ato de enxergar fica bastante prejudicado.

    Portanto, do jeito que está o quadro, e com tudo o que pode acontecer até o pleito de 7 de outubro, é tarefa cercada de imensas dificuldades apontar quem serão os dois felizardos (literalmente, isso, felizardos!) que vão passar para o segundo turno do pleito.

    Falar em segundo turno da eleição presidencial deste ano de 2018, esta é a única previsão que encontra consenso generalizado para quem observa, nesse preciso instante, o quadro de pré-postulantes ao Palácio do Planalto. Mantidas as condições de tempo e temperatura, haverá segundo turno.

    Com efeito, o que mais tem, e mais podem surgir, são candidatos a candidatos ao lugar de Temer, sendo, ele próprio, uma possibilidade de candidatura cada vez mais possível no embaralhado quadro de postulações presidenciais.

    A plêiade de candidaturas lembra, muito bem, o que aconteceu na primeira eleição livre, pós ditadura, em 1989, quando 22 candidatos disputaram as preferências dos eleitores no primeiro turno daquele pleito.

    Essas preferências, naquele primeiro turno, terminaram fazendo com que o candidato Collor de Melo, do então PRN, e o candidato Lula da Silva, do PT, fossem conduzidos à disputa no segundo turno, Collor com 30% dos votos e Lula com 17%.

    Ao lembrar que Lula chegou ao segundo turno – e quase ganhava a disputa, no segundo -, com apenas 17%, nos revela o quanto fica difícil prever quais são os candidatos que estarão no segundo turno em outra eleição que, como aquela outra, tem tantos postulantes.

    Além de tantos postulantes, há outra semelhança no atual pleito (esclarecendo, bem, neste preciso momento), que é o de um governo central sem qualquer poder de influência no resultado, a não ser para o lado negativo. Sarney, em 1989, Temer, agora.

    A diferença é que, naquela oportunidade, Sarney não podia ser candidato, uma vez que a Lei Eleitoral não previa a possibilidade de reeleição, e, agora, Temer pode. Não se sabe qual teria sido a decisão de Sarney caso a reeleição presidencial fosse possível.

    Todo esse confuso quadro está a exigir dos analistas políticos muito mais acuidade nas análises do que em qualquer outro pleito, mesmo o de 1989, quando a gente tinha, um pouco mais nitidamente, 3 candidaturas que iam se firmando: Collor, Lula e Brizola, com Covas correndo por fora.

    Pena, embora compreensível, mas, não aceitável, que esteja se firmando, entre os analistas, frente às dificuldades de apreensão da realidade, peças cada vez mais empanzinadas pelos vieses ideológicos ou pré-concebidos, por qualquer motivo, até por preferências pessoais, do que por imparciais avaliações de conjuntura que venham a ajudar na compreensão do quadro.


  • 25/01/2018

    Memória Pessoense: Jornal O MOMENTO


     Em tempos, ainda, dos diários O Norte (na época, o de maior circulação) e Correio da Paraíba, em João Pessoa (afora, Diário da Borborema e Jornal da Paraíba, em Campina Grande), surgiu um semanário que marcou época na história do jornalismo local.

    Estou falando do jornal O Momento, que pontificou na chamada mídia impressa durante boa parte da década de 70 e início dos anos 80, empreendimento do jornalista Jório de Lira Machado, natural de Teixeira, mas com larga vivência na capital do estado.


    O Momento nasceu debaixo de pompas e circunstâncias, em 1974, na festejada boate O Circo, que era uma empreitada no campo do lazer pessoense, idealizada por gente muito amiga de “Jorinho”, nas pessoas de Adalberto Barreto e Pedro Santos.
    Os convivas da festa de lançamento, na mesma noite, foram surpreendidos com a primeira edição de O Momento, com a solenidade de O Circo devidamente registrada em foto na capa do jornal. Um avanço tecnológico para a época, como lembra Cristiano Machado, filho de Jório.


    O Momento circulava semanalmente, impresso em gráfica própria, num prédio (ainda hoje, existente, e onde funciona um self servisse) na esquina da Praça Dom Adauto com a rua Joaquim Nabuco, na entrada do Roger.
    A gráfica de O Momento, por sinal, foi berço de muitos tabloides eventuais da imprensa alternativa de João Pessoa, que aproveitava suas potentes impressoras para permitir a impressão de sonhos jornalísticos.
    O Momento circulava em meio a um segmento influente da sociedade de João Pessoa, e, por isso, contou, desde o início, com gente que já fazia ou se iniciou para valer no chamado colunismo social pessoense.
    No início, em 1974, ocupou-se do ofício de noticiar os fatos da sociedade paraibana o colunista Heitor Falcão, mais conhecido como Agá, já bastante calejado nesse segmento da mídia, que, depois, fundou seu próprio jornal, o Jornal de Agá.
    Depois de Agá foi a vez de Abelardo Jurema Filho, Abelardinho, se iniciar na profissão, que lhe permitiu construir uma carreira de sucesso, até hoje, passando pelas páginas sociais de O Norte e Correio da Paraíba.
    Também o ex-radialista Luiz Otávio, que fez sucesso até o fim de sua vida, na rádio Correio da Paraíba, foi um dos colunistas sociais de O Momento, onde teve início sua trajetória de grande sucesso na mídia da capital paraibana, irradiando-se pelo estado.
    Outra que marcou época nas páginas de O Momento foi Astrid Bakke, sucesso que mantém até hoje, nesse mesmo segmento, que inclui a promoção de eventos que marcaram época em nossa Cidade de Nossa Senhora das Neves.
    O jornal de Jório exerceu significativa influência política na década de 70, culminando com a eleição do próprio dono e editor geral ao cargo de deputado estadual, nas eleições de 1982, pelo então PMDB.
    Em 1983, Jório arrendou prédio e máquinas do jornal a Walter Vinagre. Um ano depois, vendeu o jornal e a gráfica. O prédio foi vendido mais recentemente, após a morte de Jorinho, que ainda foi secretário de Comunicação no governo José Maranhão.

    Fica, então, registrada nessa série de post sobre memórias pessoenses a existência, entre as décadas de 70 e início da década de 80 do jornal O Momento, do jornalista Jório Machado, figura 100% paraibana.


  • 03/01/2018

    O crime da Bambu


    Em novembro de 1971 um crime abalou João Pessoa. Jovens de classe média alta, da capital paraibana, após uma noite de bebedeira, resolveram encerrar a farra envolvendo-se em uma briga contra um taxista, ao lado da icônica Churrascaria Bambu, na Lagoa.

    Dessa briga, disseram os autos da investigação, após ‘exemplar’ surra no profissional do volante, um tiro encerrou o ato, tendo como resultado a morte do taxista, e a prisão, quase que imediatamente depois, de alguns desses jovens.

    Vivíamos uma época dura da política nacional, em meio a uma sociedade, como a de João Pessoa e outras pelo Nordeste afora, de arraigados sentimentos patriarcais e aristocráticos uma vez que alicerçados no poder das famílias mais abastadas ou bem-postas na sociedade.

    Para resumir os fatos, apesar de alguns terem sido presos, um último e definitivo júri popular acabou por livra-los definitivamente de responderem criminalmente pela morte do taxista, encerrando a disputa judicial.
    Como o episódio aconteceu vizinho à Churrascaria Bambu, ali, na parte do Parque Solon de Lucena que dá continuidade à Souto Maior, onde existia uma praça de táxis dispostos a levar para casa os bêbados da noite, ficou conhecido como “o crime da Bambu”.
    É impossível registar fatos que compõem a memória pessoense sem que tenhamos de, necessariamente, revisitar aquela situação, em virtude da imensa repercussão que alcançou nos órgãos de imprensa de então.

    A maior vítima do episódio foi, indubitavelmente, o motorista, que morreu, e sua família, que perdeu o chefe, aquele que levava o de comer para casa. Saiu perdendo, também, a sociedade paraibana, que, à época, chorou a impunidade.

    A Bambu, enquanto histórico local onde se encontravam intelectuais da mais vária orientação ideológica, com nada a ver com aquilo, também saiu perdendo já que, dizem as más línguas, acabou fechada, dois anos depois, para que o episódio acabasse esquecido.

    Os rapazes envolvidos, eram, a um só tempo, vítimas e algozes. Vítimas por que resultantes da ideologia de uma sociedade onde os mais ricos se sentiam estimulados a agirem estupidamente, garantidos pela impunidade, apenas para mostrarem força e poder. Algozes, evidentemente, pelo fato de terem morto violentamente um trabalhador.
    Assim, enquanto o tempo correr, o assunto haverá de voltar à tona, como tem acontecido desde que o crime foi perpetrado, marcando, indelevelmente, a história da Bambu, do Parque Solon de Lucena e de João Pessoa.

    A grande maioria daqueles jovens, ou, mesmo, a sua totalidade, deve amargar profundo arrependimento por conta do acontecido, e, certamente, não criaram seus filhos orientados com a mesma filosofia de vida que os marcaram tão dramaticamente naquele infeliz momento da vida pessoense.

    Mas, a história existiu, e não pode ser apagada. 


  • 13/11/2017

    Memória Pessoense: Bar Querubim


     Dia desses, Petrônio Souto postou, no Facebook, uma bela foto da Guedes Pereira pegando aquele conjunto de prédios que fica no primeiro quarteirão da rua que leva ao comércio da cidade baixa, ou o último que nos traz de volta ao Ponto de Cem Reis.

    A foto nos remete, muito provavelmente, à segunda metade da década de 1940, e mostra um conjunto de edificações bem novas, ainda. Entre os prédios, há um equipamento bastante nítido, marcado por um toldo à frente da entrada: o Bar Querubim.
     
    Com efeito, o Querubim foi criado em 1946, e, de lá até hoje, pouco a pouco, conseguiu incorporar-se indelevelmente à vida e à paisagem urbana de João Pessoa. Aliás, como raramente acontece com empreendimentos brasileiros.
     
    É comum você encontrar na Europa (apenas conheci a cidade de Lisboa, mas, segundo relatos, é assim pelo velho continente inteiro) cervejarias de 1800 e lá vai fumaça, gingerias de 1700 e alguma coisa, restaurantes de 1800 e tantos. É, sem exagero, emocionante de ser ver.
     
    Portanto, encontrar um serviço de 1946 ainda funcionando, e no mesmo espaço, no Brasil, é coisa rara. Em João Pessoa, então... Pois bem. O bar Querubim é mais novo, de 1946, tendo servido a gerações e, ainda mais, com o mesmo tipo de serviço.
     
    O caldo-de-cana com pastel, bolinhos, o pão-doce, entre outras iguarias, assim, ligadas a um lanche ligeiro, sempre fizeram o sucesso do Querubim, não somente matando fomes também ligeiras, mas, também, fomes de um dia inteiro.
    Resultado de imagem para pao doce com caldo de cana
     
    Para os jovens pobres hospedados na Casa do Estudante, ali perto, o caldo-de-cana com pastel ou com pão-doce, principalmente, significava o almoço dos sábados e dos domingos, por anos a fio -para alguns, até, por conta da ajuda de colegas.
     
    Nessas pessoas, o Querubim está definitivamente soldado às memórias do passado de cada uma delas, mesmo que, de forma amarga, mas, incapaz de ser arrancado, de maneira até contraditória, como argamassa indispensável à construção de suas vidas.
     
    Ao lado dos estudantes, em dias úteis, dezenas de pessoas costumavam se acotovelar junto ao balcão em U, do Querubim, nas descidas ou nas subidas para a parte mais baixa, do ponto de vista geográfico, da querida João Pessoa.
     
    Ao fundo, na parte interna, junto à moenda do indefectível caldo-de-cana, uma velha escada de ferro, bela e marcante, constituindo uma paisagem bucólica e única, e, ela mesma, testemunha muda de tantas vidas que ali trabalharam ou se deliciaram com os seus lanches.
     
    Ao lado de construções históricas centenárias da Parahyba do Norte, o bar Querubim faz parte do inconsciente coletivo do pessoense, e, basta uma relembrada, para que sua existência e história aflore à memória de cada um.
    Todo aquele Centro de João Pessoa está hoje devidamente tombado para que não haja mais aventuras do tipo da que, um dia, derrubou o velho prédio de A União para construir aquele monstrengo modernista que é a Assembleia Legislativa, totalmente por fora do conjunto arquitetônico do qual faz parte.
     
    Tenho a impressão de que o mesmo deveria acontecer, não apenas com o prédio onde funciona o Bar Querubim, mas, com o próprio empreendimento em si, para que um dia não vire outra coisa, senão o Bar Querubim.
     
    Aqui, longe, em Brasília, agora, me bateu uma bruta saudade de João Pessoa. E quando voltar à nossa querida capital, a primeira coisa que farei é ir ao Bar Querubim para pedir, em alto e bom som, um caldo-de-cana com pastel. 
     
    Nesse momento, estarei repetindo o que já fizeram centenas de milhares pessoas pela história da capital paraibana, afora, o que faz do Bar Querubim testemunha e artífice da edificação do que pode ser chamado de espírito pessoense.