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  • 04.04.2026 - 06:07

    Quando a religiosidade vira palanque: símbolos “sagrados” entram no jogo pelo poder na Paraíba


    O Brasil segue sendo um País profundamente marcado pela religiosidade.

    Com milhões de católicos e uma presença crescente de outras denominações cristãs, a fé continua sendo um dos pilares da vida social.

    Mas esse mesmo capital simbólico, que deveria unir e orientar valores, tem sido cada vez mais explorado como ferramenta política.

    Na prática, o que se vê é a transformação de atos de fé em atos de campanha, ainda que fora do calendário eleitoral.

    Gestos, símbolos e eventos religiosos passam a ser incorporados ao roteiro de pré-candidatos, numa tentativa clara de conexão direta com o eleitorado por meio da emoção e da identidade espiritual.

    Foi exatamente nesse contexto que o ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), recém-desincompatibilizado do cargo para disputar o Governo da Paraíba, iniciou sua caminhada política.

    Sem perder tempo, nesta sexta-feira (3), participou de um evento religioso da igreja católica e foi além: carregou uma cruz, um dos símbolos mais fortes do cristianismo, associado ao sacrifício e à redenção.

    O gesto, naturalmente carregado de significado para os fiéis, também traz uma leitura política difícil de ignorar.

    Em um ambiente onde a imagem vale tanto quanto o discurso, a exposição em um cenário de fé não é neutra.

    Ela comunica, aproxima e, sobretudo, constrói narrativa.

    Mas, nos bastidores, a leitura é mais pragmática do que espiritual.

    Não se trata de sacrifício. Trata-se de poder.

    O objetivo é claro: chegar à chamada “caneta”, expressão recorrente no meio político para simbolizar a autoridade de governar, influenciar decisões e direcionar políticas públicas nos 223 municípios da Paraíba.

    Uma caneta carregada de tinta e que desde quinta-feira (2) está nas mãos do recem-empossado governador Lucas Ribeiro (Progressistas), que ocupa o comando do Estado, é pré-candidato à reeleição e não demonstra qualquer disposição em abrir mão desse espaço.

    Durante a caminhada religiosa, um detalhe chamou a atenção: Cícero Lucena passou pela Praça dos Três Poderes, onde está localizado o Palácio da Redenção, justamente o centro do poder Estadual que ele pretende ocupar a partir de 1º de janeiro de 2027.

    Um percurso que, para além da geografia, carrega forte simbolismo político.

    Ainda assim, há um dado que impõe cautela a qualquer estratégia: a Paraíba vive sob um modelo de gestão que já se sustenta há 16 anos no poder, com respaldo popular consolidado.

    Enfrentar essa estrutura exige mais do que gestos simbólicos ou aparições em eventos religiosos.

    A tentativa de associar fé à imagem política pode até gerar identificação momentânea, mas dificilmente sustenta um projeto de poder a longo prazo sem consistência administrativa, articulação política e propostas concretas.

    No fim das contas, a fé do eleitor pode até emocionar, mas é a política que decide.

    E, nesse terreno, carregar uma cruz por alguns metros está longe de ser suficiente para garantir a travessia até o poder.

    Fonte: Portal HELENO LIMA