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Colunas de


  • 25/10/2015

    Marcos Feliciano, um talentoso contador de histórias


    Entre os privilegiados talentos da geração de ouro que dominou a cena estudantil dos anos setenta, na Faculdade de Direito da UFPB, destacava-se a figura carismática de Marcos Feliciano Pereira Barbosa, desde então um palrador e envolvente contador de histórias e estórias, no estilo do grande escritor e memorialista em que notoriamente se converteria.

    Nenhum colega contemporâneo deixou de se comprazer, ouvindo e testemunhando, nos corredores, na sala de aula ou nos jardins da Faculdade, as narrativas inteligentes e espirituosas ou, quando nada, as tiradas súbitas e hilariantes, produzidas, até diante da surpresa trivial, pela verve encantadora de Marcos Feliciano, livros a braços, sempre cercado por circunstantes, seduzidos com a prosa imperdível, nos intervalos do curso jurídicos.

    Principalmente do cenário rupestre e da ambiência da vida campesina eram os personagens protagonizados, com a voz e gesticulação arremedados da legítima oralidade matuta, traduzidas assim nas peculiares manifestações pelo engenho do novo e apaixonado intérprete de nossa íntima regionalidade e seus costumes cheios de aventuras e desventuras.

    Toda essa dramaturgia fermentada por uma admirável maturidade literária, restaria, afinal, consagrada nas páginas ficcionais de “Vazantes”, uma estilosa e fantástica novela, povoada da efervescente fabulação e das tintas multicores com as quais, um dia, urdiram suas tramas os gênios de José Lins do Rego, José Américo e Graciliano Ramos. O personagem Bastião, por exemplo, tipifica o sertanejo em toda sua grandeza de virtudes e de generosa índole, inarredável, entretanto, quando desafiado a mostrar coragem ou solidariedade humana, em momentos inesperados da vida. Essa a lição dominante fluida de suas entrelinhas.

    Esse evolver de sentimentos, próprio da criação notável, revela-se contudo lapidado, na obra recente intitulada “A rede do quarto do meu pai”, onde verte o autor toda a febricitante admiração e idolatria pela figura paterna, um ser humano especial e realmente forrado por raras virtudes, recordado com seus muitos “causos” em páginas tocadas de nostalgia, graça e senso de humor, absolutamente comparáveis às melhores produções do gênero.

    Atrasou o relógio a passagem do tempo em Marcos Feliciano, favorecido, ontem como hoje, pelo magnetismo pessoal, capacidade de trabalho e o preclaro conhecimento dos livros e da vida, trilada com honradez e tenacidade nos cargos públicos exercidos e na convivência familiar, construída em parceria com Liliane, a sublime companheira e incentivadora de todo o seu humano e artístico trajeto. Tem induvidosamente esse imaginoso escritor muitas outras histórias e estórias a contar, dormentes nos refolhos da criação cerebral, com o lacre da simplicidade e pureza, própria dos espíritos qualificados.

     


  • 12/10/2015

    José Octávio e um perfil antológico de Samuel Duarte


                   Um dos mais ilustre paraibanos do Século XX, de cultura invulgar e extraordinária desenvoltura, exibidas, desde cedo, no exercício de inúmeros cargos públicos e no mandato parlamentar, Samuel Vital Duarte é analisado sob a perspectiva professoral do historiólogo José Octávio de Arruda Melo, num resgate biográfico indispensável a qualquer antologia da historiografia paraibana.

                Incluso na série “Perfis Parlamentares”, patrocinada pela Câmara de Deputados, o mais recente livro do polimático cientista social José Octávio de Arruda Melo, tal como os demais de sua exuberante e respeitável obra, refoge dos moldes comuns do memorialismo convencional, trazendo a conhecimento dos pósteros singularidades pouco enfocadas de uma personalidade da magnitude de Samuel Duarte, marcante e decisiva no cenário político e cultural do país, na segunda metade do século transacto.

                Na esteira do novo leitmotiv vem a lume a importe participação do perfilado nos arranques do jornalismo em graves momentos de transe político nacional, a exemplo do alistamento, ainda jovem, na luta pela derrocada do governo Washington Luiz culminante no advento da era Vargas.

                Nas páginas do novel e necessário compendio infere o leitor, portanto, a exata dimensão do vulto ressurgido da penumbra histórica, máxime como um paraibano “emergente” da classe média, um segmento dissecado pelo autor, com larga visão sociológica da quadra republicana resultante nas marchas e contramarchas elisivas da incipiente democracia brasileira.

                Egresso das estepes brejeiras galgou o paraibano e jurista de escol as alturas da presidência da Câmara dos Deputados, de 1944 a 1947, e posteriormente, da Ordem dos Advogados do Brasil, deixando, a marca do gestor produtivo, honrado e destemido na obra amalgamada com estrênuo interesse pelo bem coletivo, tão raro na maioria dos políticos atuais.

                Nesse período, importa frisar, o realce conferido pro Samuel Duarte à cúpula nacional do importante órgão classista, especialmente a partir de 1964 com a brava insurgência contra a nova ordem política, instalada pelo regime militar, e seus atos de arbítrio e violação aos mais elementares direitos civis da sociedade, notadamente as cassações de mandatos eletivos outorgados legalmente pelo povo, inclusive de figuras paraibanas do porte de Pedro Gondim, Ronaldo Cunha Lima, Silvio Porto, Chico Solto e Agassis de Almeida.

                Não tendo deixado, entretanto, uma obra compilada em livros, devido certamente ao temperamento retrátil e arredio de que nunca se livrou, todo o acervo do pensamento e da notável atuação parlamentar, de grande alcance sócio-político restaria enfeixado na produção jornalística, nas conferências  e admiráveis discursos parlamentares, os quais revelam um homem público diferente, modelar, extraordinariamente puro, além do seu tempo, com propostas e projetos precursores e hoje consagrados, a exemplo da legislação trabalhista e da irrigação de terras as populações campesinas carentes, tudo a corroborar o justo merecimento do apologético, oportuno e antológico ensaio.


  • 02/10/2015

    Carolina, na vida e obra de Machado


                Muito lida, inteligente e desembaraçada, recém chegada ao Rio de Janeiro, em 1866 conquistou Carolina Novais a simpatia de todos, mas principalmente o apaixonado amor de Machado de Assis, de quem se tornara esposa amantíssima e a grande companheira de todos as jornadas da vida.

                Era notória desde o início do lendário romance a “cumplicidade” entre ambos, de modo a marcar visceralmente, todos os instantes da gloriosa e atribulada existência do extraordinário escritor, com a certeza desde então, de que um não viveria jamais sem o outro.

                Juntos suplantariam, entre outros diferenças, a resistência hostil, sobremaneira na época, dos que repudiavam o matrimônio de uma senhora de tez branca, de fina educação, com um “mulato” feio e gago, rebento da classe proletária, sem nenhuma referência familiar.

                A união dos apaixonados nubentes, assim admiravelmente comprometidos até a morte, foi, entretanto, a sorte grande, o esteio maior da célebre carreira do esposo fiel e absolutamente devotado, sem o qual não teria Joaquim Maria superado tantos percalços de ordem pessoal, nem produzido a fantástica obra, traduzida hoje para o mundo inteiro a exemplo de romances como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Helena”, “ Dom Casmurro”, “Quincas Borba”, “Esaú e Jacó”, “Ressureição”, entre outras portentosas criações, verdadeiros tesouros do patrimônio literário da humanidade.

                Carinhosa, colaboradora e dedicada, com distinguida instrução e disfarçado talento, conseguiu Carolina preencher algumas lacunas do enredo machadiano, com a perspicácia da psicologia feminina, sugerindo-lhe incidentes e desfechos interessantes sobre os quais, na revisão conjunta, discutiam em busca da perfeição artística, fosse no romance, no drama, no conto ou na poesia.

                Aos conselhos e estímulos da consorte querida, sempre a mostrar o crescimento do seu nome prestigiado pelos meios culturais do pais e a grandeza de seus livros insuperáveis, afastaria “Machadinho” o velho e incorrigível complexo de inferioridade que lhe atormentara a vida inteira, desde menino pobre do morro, doente e sem nenhuma perspectiva de bem sucedido futuro.

                Grisalho e movido, na maturidade, pela esperança de melhorar a saúde hospedou-se por uma longa temporada, em Nova Friburgo, sob o bálsamo do clima serrano, mas na volta ao Rio, inesperadamente, morre sua Carolina, a 20 de outubro de 1904, depois de trinta e cinco anos da mais pura e invejável felicidade de um casal.

                A separação abrupta inspira o belo soneto “Carolina”, deixando-o, aos setenta anos, triste e solitário para sempre o majestoso escritor, a conversar com os pertences e objetos domésticos da mulher ausente. Sobretudo com o seu travesseiro, conservado no leito comum, sobre o qual todos os dias vertia o pranto da solidão e da saudade, tristemente confessada nas páginas imortais de “Memorial de Aires”, sua última expressão de um amor incomparável entre um homem e uma mulher.


  • 18/08/2015

    Os desembargadores vindos da advocacia


               Uma aspiração de grandes advogados, principalmente na maturidade profissional, consiste na ascensão ao cargo de desembargador, assegurado constitucionalmente a um representante da classe advocatícia, na proporção de um quinto da composição dos Tribunais Federais e Estaduais, apesar de não simbolizar unicamente o coroamento da carreira, diferente da magistratura, cuja cátedra no egrégio Colegiado, como derradeiro e mais alto posto, constitui uma espécie de merecimento.

                O primeiro investido nesse lugar foi o erudito Flósculo da Nóbrega, nos idos de 1935, quando era o nosso Tribunal denominado Corte de Apelação e constituído apenas de sete julgadores. Advogado e jurisconsulto renomado, senhor de vasta cultura universal, autor de obras ainda referenciadas, Flósculo concorreu à vaga em lista tríplice em que também figuravam Irineu Joffily e Renato Lima, enviada à escolha do interventor Argemiro de Figueiredo.

                Após mais de vinte anos dedicados à magistratura superior o consagrado jurista foi sucedido por João Santa Cruz de Oliveira, notável criminalista, intransigente defensor das liberdades políticas e individuais, nos auditórios e na praça pública, cujo nível de saber e preparo nada ficava a dever ao sucedido titular da cadeira. Em seguida veio o eminente professor Hélio de Araújo Soares, uma das personalidades mais distintas dos círculos forenses no Estado, impondo-se à admiração coletiva pela versatilidade e decência de caráter. Após deixar o pretório voltou-se à docência, lecionando direito comercial até alcançar a inatividade compulsória.

                No páreo à indicação como seu substituto, em 1965, enlistou a seccional local da O.A.B. os nomes dos mais respeitados causídicos da Paraíba, na época, Samuel Duarte, Botto de Menezes e Osias Gomes, sendo escolhido este último, num pleito histórico e memorável, dado o inexcedível valor jurídico e notória cultura dos submetidos ao escrutínio da veneranda Corporação.

                Na ordem cronológica o posto foi, seguidamente, ocupado por Luís Pereira Diniz e Rafael Carneiro Arnaud, dois incansáveis e proeminentes paladinos do estrado forense, julgadores intocáveis, equilibrados e cultos, o primeiro mais aferrado aos rigores dos preceitos legais, o outro inclinado ao sentimento de uma Justiça mais próxima da realidade humana. Também oriundo das hostes advocatícias assumiu o cargo Sílvio Pélico Porto, grande esteta da palavra e das letras jurídicas, cuja biografia merece capítulo à parte. Seguiu-se a Porto foi seguido, na linha sucessória, Marcos Souto Maior, uma revelação como aplicador da lei, tal o descortino de suas decisões corajosos e autenticas, e na vaga aberta com a aposentadoria de Carneiro Arnaurd, o preenchimento ocorreu com a posse do jovem jurista Joás de Brito Pereira Filho, um perfeito modelo de moderno magistrado revestido de saber e integridade a se valer da mais atualizada jurisprudência.

                Sendo a vez da OAB  na compartilhada alternância com o Ministério Público, eleito por quase a unanimidade da categoria e referendado pelo então governador, em 2012 assumiu a honrosa representação o admirável e carismático José Ricardo Porto a engrandecer, com a desenvoltura e o brilho de seus votos o valoroso e histórico rol de antecessores.


  • 11/06/2015

    “Minha Terra” e a paixão telúrica de Botto de Menezes


                     Versado em muitos saberes, aprendido em muitas filosofias, desde a mocidade impulsiva e devotada a memoráveis cruzadas cívicas o político, tribuno e escritor Antônio Botto de Menezes personificou uma época, com a notoriedade do peregrino talento, comprometido somente com o bem coletivo e o imenso amor pela terra natal.

                Herdeiro da consanguínea nobreza paterna flameja em toda a história desse eminente paraibano um verdadeiro hino de glorificação ao berço nativo, entoado sob os mais variados ângulos de sua fecunda vida política e cultural, sobretudo no jornalismo, na liderança partidária, na advocacia e no exercício dos cargos públicos.

                O saliente traço de uma biografia com tamanho apelo mesológico, viceja a partir de “A União” e, logo depois, de “O Combate” quando, já integrado à intelligentsia  juvenil da época, assumira a liderança oposicionista ao poder dirigente local, com a mesma e insopitável rebeldia oposta um dia ao infame decreto governamental resultante no exilio definitivo de Augusto dos Anjos para outras plagas.

                No itinerário da atribulada carreira pública, como chefe do partido Republicano Libertador e parlamentar na Assembleia Legislativa e depois na Câmara Federal, não somente professava um culto perene a figuras pontificais de nossa história, sugerindo-lhes  homenagens condizentes e duradouras, mas também e invariavelmente se batia, com a eloquência do seu verbo incendiário, pelo bem material coletivo, pleiteando rodovias, escolas, hospitais e proteção institucional aos menores abandonados, em projetos de irrecusável visão futurista.

                Mas é no romance memorialista “Minha Terra – Memórias e confissões”, escrito e publicado no Rio de Janeiro em 1944, quando expatriado do torrão dileto onde verte a confissão da mais saudosa e profunda paixão telúrica pelos pagos de origem, realçando sua virtuosa e predestinada vocação de “gerar gigantes e heróis”. Uma bela declaração de um filho intelectual por sua terra-mãe.

                Salta aos olhos, com efeito, o agarradio atávico que atormenta Antônio Botto de Menezes nas páginas do reminiscente compêndio, algo sobrelevante à própria narrativa dos feitos pessoais e ao recorte biográfico do livro sobre tão gloriosa vida, com esmerilhada descrição histórico-geográfica da pequena e inefável Paraíba, desde o período colonial às refregas do Estado Novo, dos arrecifes do Atlântico à singularidade climática dos sertões fronteiriços, culminante numa das mais completas e romanescas obras do gênero em nossas letras.

                É lamentável, contudo não mais existir o imponente solar onde residiu o grande paraibano, falecido em 1971, palco de tertúlias e decisivos episódios históricos, no Bairro de Mandacaru, hoje Av. Walfredo Leal, identificado outrora por suas linhas clássicas, o prolífico arvoredo ao derredor, mas principalmente pela referência ao ilustre proprietário e, no entanto, demolido pela mediocridade alheia e indiferente nos tempos hodiernos aos símbolos maiores da história de um povo.

     

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  • 28/05/2015

    Capistrano de Abreu e a desigualdade geopolítica


     Ao contrário do tom inicial do seu discurso alusivo à distribuição de recursos federais entre as unidades federativas do país, ante a inconformação dos governadores nordestinos é visível a discriminação da política distributiva da presidente Dilma, em flagrante prejuízo de nossa região sofrida. Com efeito, não passa de parolagem demagógica a promessa presidencial de tratamento isonômico entre os estados, anunciada, alto e bom som, na última campanha eleitora, embora tão antiga essa aviltante disparidade deformadora do corpanzil brasileiro. Vem didaticamente da histórica e curiosa desigualdade espacial entre os estados a casuística relação beneficiária, em suma dependente do Poder Executivo Central, a quem por legitimidade é facultada a capacidade concessiva do benefício, tal como assinala a crítica científica de Capistrano de Abreu, a partir de obras angulares do século XIX, como “Os Caminhos Antigos do Povoamento do Brasil” e “Capítulos da Historia Colonial”. Já no seu tempo o grande historiador, etnógrafo e linguista cearense explanava, com autoridade, que o Amazonas, Pará, Goías, Mato Grosso, Maranhão, Minas e Bahia têm dimensões equivalentes ou superiores a muitos países europeus, contrastando com exemplos diminutos como Sergipe, Paraíba, Alagoas, Espírito Santo e Rio de Janeiro, isto resultante de um povoamento a ermo e da improvisada divisão do nosso mapa geopolítico, então convalidado no período imperial sem nenhum respeito ao território das antigas capitanias hereditárias e aos critérios de equidade vitoriosos nos Estados Unidos, na França e na Suíça, onde departamentos estados e cantões guardam, praticamente, a mesma simetria e uniformidade. Vale frisar, entretanto, que o princípio da isonomia, esteio do regime democrático, tem de ser interpretado de forma restrita, conforme ensinam Rui Barbosa e Pontes de Miranda, isto é de maneira relativa e não absoluta, desde que subordinado à lei maior da natureza das coisas. Todos são iguais perante a lei, porém sendo os indivíduos física e somaticamente desiguais, a verdadeira equanimidade consiste em tratar de maneira desigual os desiguais. Portanto, são assim legalizados privilégios irrecusáveis como o foro especial a certas categorias, a prisão especial a graduados, a isenção tributaria para empresas de pequeno porte entre outros. Por outro prisma, o mesmo que acontece com os indivíduos deveria ocorrer em relação às regiões geográficas de um país, ou seja, sendo diferentes nos modos de vida e nas condições fisiográficas devem, portanto, merecer do poder público tratamento respectivamente diferençado, através do qual possam todos alcançar o mesmo grau de civilização. Na partilha, por exemplo, de recursos orçamentários destinados ao desenvolvimento o fiel da balança tem de inclinar-se em favor dos pequenos e pobres Estados, como pretendem os governadores nordestinos, a fim de garantir a coesão nacional e espancar secretas e temerárias aspirações de separatismo pátrio.


  • 05/03/2015

    O paraibano fundador da nacionalidade


     Quando, no século XVII, reconquistou ao reino lusitano o domínio sobre o esbulhado território colonial, como líder heroico da sangrenta expulsão dos holandeses do Nordeste, André Vidal de Negreiros despertou o sentimento pátrio a lhe exalçar como fundador da nacionalidade brasileira.

    Tão intenso e portentoso é o seu legado em marcantes episódios de nossa história, principalmente na peleja memorável contra o domínio batavo na região nordestina que a guisa de recompensa e reconhecimento pelo denodo de seus feitos, lhe confiara o soberano português, sucessivamente, o governo do Maranhão, Pará, Pernambuco e de Angola no continente africano, onde se tornara figura mítica pelo triunfo no confronto de Ambuila e a fortificação de Luanda, capital angolana.

    Em obras indispensáveis, historiadores do quilate de Liberato Bittencourt e Adolfo Varnhagen narram a bravura e tenacidade do soldado paraibano, logo elevado a general e chefe militar, sempre exposto ao risco de morte, em batalhas encarniçadas como Casa Forte e Guararapes, no intento de restaurar a integridade dominial portuguesa de sua maior e mais rica colônia e impor o respeito da Europa à metrópole reinol.

    Filho de portugueses ricos, senhores de propriedades e engenhos nas várzeas da Paraíba poucos, no seu tempo, deixariam a mansuetude de herdeiro afortunado pelas escaramuças enfrentadas ao ímpeto de um ideal quase mirabolante, nada almejando individualmente senão a transformação social e a unidade do povo brasileiro.

    Cingido, portanto, com indelével brilho nas páginas da história, ao ressalte das incríveis façanhas, foi sua naturalidade posta em dúvida e depois atribuída ao estado de Pernambuco, cenário maior de suas lutas e galardões, uma impudência sutilmente urdida e difundida ao longo dos séculos, inclusive por notórios historiadores do vizinho estado, arrimados na escassa prova documental a tal respeito.

    Coube, todavia, ao general Lyra Tavares, ex-ministro do Exercito, na década de setenta e seu conterrâneo, restabelecer definitivamente a verdade, dirimindo a controvérsia, ao crismar como patrono do 15º Regimento de Infantaria de João Pessoa o herói Vidal de Negreiros, respaldado em cópia autêntica de um testamento lavrado, no final da vida pelo grande vulto militar, em cujo introito claramente se qualifica como paraibano. A essa prova irrefutável acolitou fotos da restauração da lápide, com a inscrição do seu nome no túmulo onde estão os restos mortais do primevo construtor dos nativos sentimentos patrióticos, encravados na

    Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, em Guararapes, no Recife, reascendendo, enfim, o invejável orgulho cívico de nossa paraibanidade.


  • 25/02/2015

    O filósofo e sacrossanto Monsenhor Pedro Anísio


     Tímido, introspectivo, envolto por uma humildade sem par, diante da inteligência incomum e do seu raro grau de cultura todos, no seu tempo, reconheciam no Monsenhor Pedro Anísio Dantas, o sábio e teólogo oracular, uma referência de insuperáveis virtudes eclesiais da Igreja Católica na Paraíba.

    Comumente não causa espécie a conduta sóbria e recatada de um clérigo, sincera e abnegadamente cultivada no seu ministério, inclusive fielmente submissa aos castos princípios do celibato e a intransigentes dogmas sacerdotais, mas é de pasmar a insólita existência de um espírito puro, algo cândido e angelical, alheio a qualquer interesse material, como o encarnado na figura culta e sacrossanta desse padre, tão venerado na sua época, quanto esquecido pela conterrânea posteridade.

    Surdiu o seu nome na década de vinte quando o jovem franzino e retraído de Bananeiras do nosso Brejo, possivelmente insatisfeito com a formação humanista e teológica haurida no seminário paraibano aspirou, menos por veleidade que por amor à fé cristã e ao saber acendrado, patamares mais altos, indo, a todo custo, com relevante proveito, cursar em Roma a Universidade Gregoriana, de onde, anos depois, regressaria diplomado em filosofia e dogmática.

    Com esse raro cabedal revelaria o religioso, ao longo da fecunda vida de noventa e seis anos as múltiplas facetas do talento, como um dos maiores oradores sacros de nossa terra, mas também como professor e jornalista reverberante na defesa de importantes causas de jaez educativo e religioso, lapidando todos os seus trabalhos com um vernáculo de fazer inveja a Rui Barbosa e Coelho Neto.

    Tirante essas lides, vivia recluso e ensimesmado na sua vasta biblioteca doméstica, onde produzira, incansável e meticulosamente, as grandes obras de impressionante teor filosófico e científico, felizmente divulgadas por terceiros, nos meios culturais de todo o país, como “Tratado de pedagogia” “A religião e o progresso”, “A filosofia tomista e o agnosticismo contemporâneo” entre outras, aplaudidas pelo respeitável crivo crítico de um Afonso Arinos, Silva Melo, Barbosa Lima Sobrinho e de um Otto Maria Carpeaux, como verdadeiras joias do pensamento especulativo pátrio.

    Cultor da história e artista da palavra escrita e falada desapareceram, entretanto, os fulgores desse erudito patrimônio, depois de sua morte, em 1979, esfumados pelo esquecimento, quando não eventualmente lembrados por algum memorialista do imenso paraibano em cuja casa simples, na Av. Trincheiras, hoje em devolutos escombros, sob

    sua iluminada presença adentrei, um dia, como no mais sagrado dos tempos.


  • 11/02/2015

    O Liceu do meu tempo


     Construído e inaugurado no governo Argemiro de Figueiredo, em meados dos anos quarenta, preserva o Liceu Paraibano, com seu prédio sobranceiro e referencial, principalmente devido aos memoráveis nomes do seu corpo docente, um destacado lugar na história do ensino na Paraíba.

    Localizado na mais larga e bela avenida da capital, a Getúlio Vargas, o vetusto educandário de arrojada arquitetura funcional, amplas salas e corredores, por décadas, desde sua instalação, educando sucessivas gerações de ilustres paraibanos, importou verdadeiro salto na então canhestra e obsoleta educação pública de nosso estado.

    Honrando o pomposo nome, inspirado no magistério do grego Aristóteles, mas, sobretudo a conceituada didática do curso de humanidades, nos primeiros e áureos tempos, brilhavam, nas respectivas cátedras, lentes do cerne de Matias Freire, Álvaro de Carvalho, Lindolfo Correia, Celestin Malzac, Sinézio Guimarães, Juvenal Coelho, Olívio Pinto, Luiz Gonzaga Buriti, Rita Miranda, entre outros vocacionados e comprometidos, cada um a seu estilo, com o devotado e magistral exercício da pura e admirável docência.

    Eram verdadeiras conferências as aulas ministradas por esses turunas do conhecimento, atraindo às classes apinhadas, além do alunado regular, eventuais assistentes e curiosos seduzidos pelo carisma professoral dos mestres, quase todos dotados de notável poder retórico e persuasivo, derramando erudição e cultura, comparáveis mesmo aos grandes scholars das universidades europeias.

    Quando em 1971 tive o privilégio de envergar sua farda no curso clássico, ao lado de colegas do valor de Francisco Gil Messias, Alcides Jansen, Isaura Souza, Fátima Evangelista e Eitel Santiago de Brito Pereira, ouvindo ainda histórias de professores como José Perez, Luizito Dias e a lendária Daura Santiago Rangel, ainda resplendia a iluminada aura de outrora.

    Foi a quadra do diretor Martinho Lisboa, de Fernando Barbosa lecionando filosofia, Francelino Soares o mais lídimo vernáculo e a talentosa Maria das Neves do Egito, na cadeira de sociologia hoje, por reconhecidos méritos, desembargadora ao nosso Tribunal de Justiça, a quem deve a minha geração idealista todo o incentivo e descortino aos movimentos culturais precursores da futura carreira jurídica. Vale memorar, pelo menos, sob seus auspícios, o badalado júri simulado do famigerado Lampião, um evento que sacudiu o contingente estudantil da época.

    Algum dia, certamente, quem sabe, todo esse dourado e nostálgico passado de gratas e imperecíveis recordações, algumas esmaecidas pelo tempo, ilustre um indispensável capítulo da histórica civilização paraibana.


  • 03/02/2015

    ‘Ali mora Zé Américo- Um super-homem‘


     Nos passeios domingueiros pela orla de Tambaú, na década de setenta, mostrava-me sempre o saudoso avô Osias Gomes, com expressivo entusiasmo, a casa onde residia o ministro José Américo de Almeida, então o mais insigne paraibano vivo, um prédio referencial entre os casarões da Avenida Cabo Branco.

    O tom admirativo, no entanto, não se devia à imponência e arquitetura clássica do solar à beira do Atlântico, onde se refugiara definitivamente “o solitário de Tambaú”, recolhido ao remanso do berço natal, depois de jornadear pelos mais altos escalões políticos, administrativos e culturais do país, mas ao aclamado paladino, sobre o qual completava o destaque exclamando categoricamente: “Um super-homem!”.

    Em que pese o conhecimento, após a adolescência, dos livros e da importante trajetória do excelso conterrâneo, principalmente pela leitura deleitosa de “A bagaceira”, o marcante e inaugural romance do modernismo literário pátrio, orientado exatamente pelo mestre-avô, supunha que tamanha louvação resultasse de sua antiga e empática relação humana e intelectual, desde os prélios de 1930, com o grande escritor e líder político, tendo ambos compartilhado memoráveis eventos da história paraibana, o velho Osias inclusive como secretário de estado de seu governo.

    Irresignado, um dia ao suscitar o bordão, com o mesmo ímpeto e reverência, indaguei-lhe, curiosamente: Por que um super-homem?

    - Porque é uma estátua viva, de extraordinárias personalidades amalgamadas, jamais antes vistas ou reconhecidas num só homem público brasileiro – respondeu e continuou: - A esse respeito, certa feita, questionou-me Celso Mariz, objetando tratar-se de apologia exagerada, diante de tantos e tão fulgurantes vultos do Império e da própria República, mas lhe fiz observar que nenhum, nem mesmo Epitácio, reunira a grandeza multifária de estadista, escritor e pensador com tão completa obra e espetacular dimensão como o fenômeno José Américo.

    Era notório sábio, segundo a espontânea lição, a um tempo aristocrático e popular, dono de aliciante poder de manifestação verbal e do mais belo estilo literário. Ilibado e inatacável gestor público de raríssima visão executiva e sociológica, estadista perfeito e clarividente, único premiado pelo destino com o dom de consorciar a artística inteligência criadora aos meios políticos e construtivos do bem coletivo.

    Reportando-se às balsâmicas medidas do seu governo lembrou a construção de inúmeros açudes e até a distribuição avulsa de víveres às

    populações carentes, além do famanaz dístico “vamos fazer a política dos pobres que a dos ricos já está feita”.

    Ante o vivo e inconteste testemunho, sem mais nada dizer nem lhe perguntar, afirmei com meus botões: Um super-homem!


  • 19/01/2015

    A figura paterna e a idolatria filial em notáveis


     Desde os povos primitivos pulsa entre os sentimentos humanos uma acendrada e referencial admiração, observada em todas as culturas, pela figura familiar do pai, esse provedor instrutivo e alimentar transformado, quase sempre, pela memória sensitiva, em venerado e incomparável ídolo.

    A habitual exaltação derivou do costume, ainda encontradiço, segundo o qual, nos lugares nativos, eram as pessoas comumente conhecidas pela referência ao prenome paterno, a exemplo de Cristo, vezes referido no relato bíblico, como “Jesus, filho de José”.

    Tão importante identidade individual assegurou, em todas as épocas e continentes, a predominância da chamada sociedade patriarcal, onde a presença e autoridade senhorial do chefe de família tem distinguida e decisiva influência na vida da estirpe e de sua descendência. E, de fato, tem o progenitor um merecido e singular destaque no íntimo de qualquer filho, inclusive órfãos ou eventualmente afastados de sua convivência doméstica.

    Tamanha é a repercussão desse elo genético que em todos os recantos civilizados do mundo, ainda hoje, importa honroso conceito social o reconhecimento da paternidade, em favor da prole legítima, incestuosa ou adulterina, de modo a possibilitar a aquisição do alusivo sobrenome e dos direitos hereditários.

    Nos grandes artistas, escritores, cientistas e outros espíritos qualificados o decantado orgulho filial ganha proporções inimagináveis e até fantasiosas pintando, em obras consagradas, o retrato indefectível de um pai cheio de virtudes e grandezas modelares, paradigma único e inafastável até mais genial e esplendoroso do que o próprio autor.

    Para Luis Gonzaga, o rei do baião, ninguém foi maior sanfoneiro do que Januário, com seus oitos bastos, enquanto outro rei, o nosso Pelé afirma, sem meias palavras, que “não se compara, nem de longe, a seu Dondinho”, na verdade, um jogador sofrível, somente lembrado pela fama avassaladora do inigualável rebento. Franz Kafka, o grande romancista tcheco, no comovente “Cartas ao pai”, revela semelhante e idólatra paixão, de par com o melancólico Augusto, comprometido, num belo poema, a trilhar as mesmas e doloridas ruas do inesquecível ascendente.

    O irresistível fascínio, despontado noutros gêneros da arte, se reveza no cancioneiro popular nas maravilhosas vozes de Altemar Dutra, Roberto Carlos, Fabio Júnior e Sergio Bitancourt para o qual “naquela mesa tá faltando ele”, tudo, enfim, a revelar um incontido e natural

    arrebatamento pelo mítico e insubstituível herói da ilusória e sentimental imaginação pueril.


  • 10/12/2014

    O sábio e incorruptível Álvaro de Carvalho


    Um dos maiores intelectuais paraibanos de todos os tempos, filósofo e mestre-escola, autor de vários e importantes livros, Álvaro de Carvalho exerceu altos cargos públicos, como secretário de estado, deputado federal e, interinamente, governador da Paraíba, mas viveu e morreu pobremente, tendo, no final da vida, de ministrar aulas particulares de inglês para sobreviver.

    Originário de Mamanguape esse extraordinário e incorruptível homem da política e de letras, moldado por raro caráter e espírito público, ao longo de toda sua carreira, seja no executivo, no parlamento, seja no magistério, jamais se afastou, a nenhum interesse ou vantagem pessoal dos princípios e virtudes singulares indispensáveis a uma biografia verdadeiramente admirável!

    Filho de barbeiro humilde se iniciou na profissão paterna, mas logo cedo despertou ao universo do saber, entregando-se, de corpo e alma, ao apaixonado estudo do direito e de múltiplas ciências até, vencendo enormes dificuldades, lograr o título de bacharel em direito na faculdade do Recife, em 1912, sendo, no ano seguinte, nomeado lente de italiano do Lyceu Paraibano.

    Com notória pureza e simplicidade apostolar de gestos e palavras, nunca ostentou a jactância de falar e escrever fluentemente vários idiomas e de discorrer com impressionante mestria e desenvoltura não somente sobre os segredos da ciência jurídica, da filologia e das artes, porém, com o mesmo brilho e versatilidade, como nenhum outro autodidata do século XX no país, acerca dos mais diversos temas da sapiência humana, desde a física einsteiniana à psicanálise de Sigmund Freud.

    Dono de um único bem material – a casa modesta em que morou até a morte, a política, ao revés de tantos outros do seu tempo, não o cingiu de vaidosas pretensões, mas das marcas do sofrimento e do infortúnio. Eleito primeiro vice-presidente do estado, assumiu o governo, como substituto eventual do presidente João Pessoa, durante três ausências do titular, até que a 26 de julho de 1930 é investido em caráter permanente, após o crime da capital pernambucana, como tudo memorou no seu livro “Nas vésperas da revolução – 70 dias na presidência da Paraíba”.

    Destituído do cargo, súbita e inesperadamente, decerto por sua divergência à mudança do nome da capital em homenagem ao governante sacrificado, emigrou a longo ostracismo na cidade de Santos, em São Paulo, onde, dedicado ao jornalismo e ao ensino, mantivera uma retilínea e silenciosa conduta em relação à nova ordem governamental, somente regressando uma década depois cercado do respeito e admiração dos

    conterrâneos, para reassumir sua cadeira no Lyceu Paraibano em que se aposentou, com parcos e aviltantes proventos.

     


  • 28/11/2014

    Pecados literários veniais


     Quase todas as grandes obras da literatura, em diversos gêneros, como a prosa, o drama e poesia, sobremaneira as denominadas clássicas, são tão profundas e notáveis que continuam lidas e parodiadas milhares de anos após a criação, algumas com literal apropriação de suas máximas por outros livros e autores da modernidade.

    Quem não ouviu ou leu, muitas vezes sem menção à autoria, o propalado e universal aforismo de Shakespeare, um dos maiores dramaturgos de todos os tempos, “há muito mais coisas entre o céu e a terra do que pensa a nossa vã filosofia”, alusivo a dissimulados interesses numa relação aparentemente sincera?

    No mesmo diapasão, não era originariamente do brigadeiro Eduardo Gomes ou de seu “ghost writer” a advertência de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância”, uma expressão emblemática, retirada, com todas as letras, do romance futurista de Aldous Huxley e identificá-la não é tarefa difícil a qualquer leitor atento das páginas de “Admirável Mundo Novo”.

    Jean Paul Sartre, numa de suas peças frementes de paixão humana, põe na boca de certo personagem a delirante exclamação: “Mi alma es triste asta la muerte” – pronunciada, na verdade, segundo a narrativa bíblica, por Jesus, na agonia do Getsêmani, momentos antes da crucificação no calvário. E Eugene Ionesco, o príncipe dos romancistas do absurdo, escorrega na farsa “Rinocerante” ao copiar literalmente a definição da vida como um sonho, difundida pelo belo e precedente soneto de Calderon de La Barca.

    Também não é do erudito filósofo e imortal da A.B.L. Silva Melo o apotegma “o homem é a medida de todas as coisas” a que, sem a menor ressalva, alude o humanista, no denso estudo analítico da natureza humana, intitulado “O homem – sua vida, sua educação, sua felicidade”, eis que fora o filósofo grego Protágoras o seu verdadeiro autor.

    Aqui, em nosso meio, a sentença fatalista atribuída, nunca por ele próprio, ao grande José Américo, mestre das tiradas de efeito, segundo a qual “o que tem de ser tem muita força” não seria genuinamente do admirável estadista e precursor da literatura modernista, porém extraída de anônimo autor da velha e infalível sabedoria popular.

    Não obstante, tais repetições ou paráfrases, segundo os entendidos em psicologia anímica, não significam, propriamente, censurável plágio. É que escritores desse jaez jamais desceriam ao terreno da improbidade literária, porquanto apenas revelam pecados veniais que não chegam a

    macular o currículo de espíritos reconhecidamente consagrados, cometidos, conforme Eric Fromm, por meros equívocos do subconsciente do escritor excessivamente produtivo e prolífico, contra os quais, no entanto, deve o artista, acender todos os censores da autocrítica.


  • 18/11/2014

    Augusto um século sem à estátua pública referencial


     A recente inauguração da estátua, de corpo inteiro, em memória de Augusto dos Anjos, na Academia Paraibana de Letras, não atenua a incúria dos Poderes Municipais, responsáveis pela presença estatuária de nossos vultos nos logradouros públicos, ante a ausência, na capital, de semelhante homenagem ao “paraibano do século”, mais lido poeta brasileiro e um dos maiores do século XX.

    A despeito de tantas vezes e de longas datas implorada pela coletividade e por figuras do naipe de Gilberto Freire, Câmara Cascudo, Hildeberto Barbosa, Carlos Aranha e Gonzaga Rodrigues, a evidentes e irrecusáveis argumentos cívicos, culturais e turísticos nunca, incrivelmente, manifestou a edilidade, até hoje, passados já agora cem anos da morte do grande e inigualável bardo, o mínimo interesse de erigir o vistoso e referencial monumento, não de forma sedestre como se encontra defronte do teatro Santa Rosa, mas de pé e grandioso, principalmente digno do universal valor literário e da vertiginosa popularidade de sua obra.

    Indagar se valaria a pena a despesa pública com o pomposo monumento – assim teria de ser, sobre alto pedestal, ao panorâmico e fácil vislumbre de todo transeunte – importaria na ridícula mediocridade de se desconhecer ou, pelo menos, subestimar a dimensão artística do genial versejador e a previsível repercussão do ainda esperado empreendimento.

    Afinal, tirante qualquer idolatria paraibana, tanto pelo estilo incomum desatrelado de notórias escolas líricas como pela transcendência da temática filosófica e científica explorada pelo “singularíssimo” e melancólico vate, Augusto brilha supremo e solitário na constelação literária brasileira, com seu “Eu e outras poesias” de quase trezentas edições, desde publicado em 1912, a que dificilmente se equipara outra poesia, mesmo na história da literatura mundial. Essa a ilação de um sem número de críticos e estudiosos, por todo o país, debruçados sobre a intrigante versalhada povoada de agnosticismo e desespero.

    O aspecto mais curioso, entretanto, desse vôo às altitudes do cenário mental, é a unânime glorificação de um estro que arrebata as elites pensantes e, ao mesmo tempo, apaixona as camadas populares, onde é declamado, aos borbotões, nos mais diversos ambientes, inobstante seu visório amargo sobre a fatalidade da morte, a decomposição da humana matéria orgânica e o desdenho pelas belezas triviais da vida.

    É certo que a desídia histórico-cultural do Município, nunca vista nos berços de Castro Alves, Bilac, Gonçalves Dias e Drummond, onde se encontram perpetuados no bronze monumental, somente empobrece culturalmente a Paraíba, exacerbando-lhe as dores do sofrido e injustificado (ou justificado?) preconceito.


  • 05/11/2014

    O aventureiro "Pedro Malasarte"


     Excessivamente humilde e introspectivo, sem vaidade alguma na vida, mesmo depois de exaltado por Machado, José Lins e José Américo, como um dos maiores romancistas da língua portuguesa, nunca experimentou o paraibano José de Araujo Vieira, quase desconhecido na atualidade, a glória literária que, certamente, ainda lhe deve o Brasil. A índole genuinamente desprovida de maldade e egoísmo afastou do portentoso escritor natural de Mamanguape, de sorriso triste e semblante bisonho, o menor sentimento de ambição, cerceando o estímulo de amigos e admiradores da estirpe literária de Carlos Dias Fernandes, Barbosa Lima Sobrinho, Manuel Bandeira e Valdemar Cavalcanti, em favor de seu prodigioso talento e divulgação de sua obra. Este último, por exemplo, a tal respeito, deu-lhe emblemático perfil, retratando-o como “um homem algo tímido, de fala mansa, ar de vencido, seco de gestos (...). Fazia questão de atravessar a cidade das letras sem acotovelar ninguém, indiferente aos cartazes, aos grupos, sozinho no seu andar pausado e macio (...). A imagem que dele me ficou foi exatamente essa – a do caramujo incapaz de qualquer arrebatamento. Do solitário. Do caladão.”. Toda uma vida de inglórios sacrifícios, marcada por dissabores pessoais os mais diversos, desde o berço paupérrimo a uma lacerante maturidade, não impedira a que, de obscuro guarda-livros em bibliotecas públicas, quando amealhara estupenda cultura, lograsse o estilista de linguagem límpida e impecável, no Rio de Janeiro, então capital da república, onde se radicou em busca de melhores condições, orbitar brilhante círculos culturais, inclusive como funcionário dileto da Academia Brasileira de Letras, mas também editar seus incríveis romances, cheios de psicologia e revelações da alma humana e com os quais ganhara até a reputação de “Gautier” de nossas letras. Despontara, assim, os originais e envolventes enredos de caráter universal, um após outro, livres do batido regionalismo do escritor nordestino, insertos em “Espelhos de casado”, “Romance da solteirice” e “Um reformador na cidade do vício” entre outros, porém saltando ao status de arte genial sobreveio, em 1944, “Vida e aventura de Pedro Malasarte”, sagrado, segundo o juízo da crítica contemporânea, dentre as obras primas da romanceria brasileira. Uma trama realmente fantástica, super imaginosa que, no entanto apenas, lhe deu, e ao travesso personagem, uma fugaz notoriedade, essa, na sua modéstia, sequer pretendida pelo autor, conforme dizeres de um biógrafo – “Não lhe seria difícil alçar-se a posições mais altas, ainda assim por direito de conquista. Não procurou esse caminho, o que escolheu conciliava com sua própria consciência. E isso lhe bastava!”.


  • 29/10/2014

    Manoel da Nóbrega e um equívoco da historiografia


     Anchieta pode ter sido o maior dos místicos entre os missionários portugueses da Companhia de Jesus, mas, apesar de não figurar nas páginas da história com tal destaque, o grande vulto da catequese brasileira, no início da colonização foi, sem dúvida, o padre Manuel da Nóbrega.

    Imerecidamente relegado a segundo plano por quase toda a crítica historiográfica do colonialismo brasileiro, nenhum outro personagem, entre os missionários jesuítas de nossos primórdios civilizatórios, exerceu papel mais relevante e fundamental na construção embrionária de nossa nacionalidade.

    Tendo aqui aportado, em companhia de Tomé de Souza, em 1549, o primeiro governador-geral, foi Nóbrega não apenas o grande e incansável pregoeiro do catolicismo e da fé cristã entre os gentios do ocidente, porém, sobretudo, com seu extraordinário espírito humanitário e conciliatório, o indispensável pacificador dos conflitos, entre indígenas e colonos, ajudando, sobremais, a fundar futuras e grandes metrópoles como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.

    O clima belicoso, no início da colonização, com a franca revolta dos índios contra as tentativas de os fazerem escravos atingira a temperatura máxima com o motim conhecido como “Confederação dos Tamoios”, formado pela aliança de várias tribos do Vale do Paraíba e, afinal, aplacado sob a liderança do notável catequista, abertamente inimigo da escravização do índio e de qualquer espoliação à raça nativa do novo mundo.

    Além da estrênua devoção ao seu ministério revelara o intrépido sacerdote, vencendo a resistência dos silvícolas, o propósito ímpar de difundir a religião reinol nas terras descobertas podendo, pelos resultados de sua obra, sem favor algum, figurar na galeria dos grandes portugueses da era dos descobrimentos, ao lado de Vasco da Gama, de Afonso de Albuquerque e do próprio Cabral.

    No Brasil, contudo, desde muito tempo, onde apenas se idolatra expoentes historicamente simbólicos, o padre Manuel da Nóbrega, tal como outros nomes esquecidos de sua íntima e precursora grandeza, permanece desprezado em lugar secundário, recoberto pelo véu do mais insulso desinteresse historiográfico ou, quando nada, em referências entremeadas na biografia de seu discípulo José de Anchieta, este sim tido e havido como o “apóstolo do Brasil”!

    Uma grave falta de reconhecimento lesiva à verdade histórica, certamente porque nada deixou escrito o missionário pioneiro senão singelas cartas aos superiores eclesiásticos de Lisboa com que dava conta do estupendo trabalho construtivo do nascente país!


  • 25/10/2014

    Celso Mariz - O legendário autodidata


     

    Egresso de Belém do Pará, onde residiu por influência de um irmão ali radicado, tornou-se Celso Mariz um habitual viageiro como inspetor de escolas no interior do estado, colhendo, assim, a matéria-prima para a elaboração de “Através do sertão”, a estreante e esplêndida obra do primeiro grande autodidata da Paraíba.

    Raro exemplo de uma personalidade pública, alçada ao auge do sucesso e da admiração coletiva, sem nenhuma formação universitária ou qualquer grau acadêmico, esse paraibano de Sousa, que somente freqüentou o curso primário revelou, no entanto, por toda a longeva existência, seja no jornalismo, seja em dezenas de livros, incrível ilustração, estilo e domínio do vernáculo, somente vistos em notáveis espíritos da intelectualidade. Muito cedo, aliciado pela leitura de tudo que lhe caia às mãos, desde jornais trazidos pelo correio ao seu distante e atrasado burgo natal a livros de todos os gêneros de quem os tivesse para dar-lhe ou emprestar-lhe, instruiu-se por si mesmo o jovem Celso, mostrando o brilho inato de uma especial vocação humanística.

    Com o surpreendente cabedal, portanto, o sertanejo também admirado pela prosa espirituosa, partiu rumo à capital paraibana, onde, em 1915, fundou em parceria com os chamados “jovens turcos”, o jornal “A Notícia”, logrando, depois de inflamadas campanhas jornalísticas, se eleger deputado estadual, quando então era a Paraíba governada por João Suassuna.

    Embora literalmente dedicado às letras encontrou tempo, nos anos vindouros, para ocupar cargos de notória expressão executiva, a convite de Argemiro de Figueiredo, como titular da Secretaria da Agricultura Comercio e Obras Públicas, então a mais importante pasta estadual, com marcante e fecunda passagem. Dotado de prodigiosa memória e autor de sábias e irreverentes tiradas sobre medalhões de nosso antigo meio político e social, conquistava sempre, com tal senso de humor, as atenções de todos, nos ambientes aos quais comparecia sob torrentes de elogios e mesuras.

    São os seus livros preciosas relíquias aos interessados, de todas as gerações, pela memória da Paraíba, notadamente “Cidades e Homens” e “Ibiapina, um apóstolo do Nordeste”, esgotados com remanescentes exemplares no sebo cultural de João Pessoa.

    Aos noventa e cinco anos, numa visita a Ernani Sátiro, foi-lhe exibida uma foto antiga e esmaecida, de 1920, em que figuravam vários e importantes políticos paraibanos, entre eles o próprio Celso. Ernani observou, admirado, que somente o visitante tivera o privilegio de sobreviver aos demais. Por que isso? – indagou o então governador. Celso

    sem titubear exclamou: oh, Ernani, eu não sou culpado por eles não terem esperado por mim!


  • 13/10/2014

    Vive ainda o gênio de Clóvis Bevilacqua


     Quando Clóvis Bevilacqua recebeu, em 1899, aos trinta anos, o convite do presidente Campos Sales para idealizar um projeto de codificação do direito civil brasileiro, severas restrições lhe foram assacadas por sumidades jurídicas de todo o país, incrédulas no talento do jovem e brilhante professor da faculdade de direito do Recife.

    Um dos mais acerbos opositores à escolha do seu nome foi o então senador Ruy Barbosa, uma das maiores figuras da cultura e do direito pátrio, em cuja coluna no jornal carioca “A Imprensa” deflagrou sistemática campanha desfavorável ao jurista pouco conhecido, contra o qual pesava, sobretudo, a falta de maturidade para elaborar tarefa de tão grave magnitude.

    Na verdade, a concepção de um novo estatuto civil, adequado às mudanças políticas e sociais da época, era tarefa ciclópica em virtude das grandes transformações na civilização brasileira resultantes da abolição da escravatura e do advento do regime republicano recém instalado no país.

    No entanto, surpreendentemente, numa quadra em que não se contava com os atuais meios da informática, nem mesmo a futura máquina de escrever, auxiliado apenas pelo prodígio de sua iluminada inteligência e por uma infatigável disposição para o labor mental, concluíra Bevilacqua, no assinalado prazo de seis meses o projeto do novo código.

    Realizara, enfim, em lapso inesperado, um empreendimento admirável, uma das mais completas construções legais do mundo ocidental. Obra só produzida pela força criativa de privilegiada genialidade. Em pouco tempo o incipiente jurista cearense, aviltado pelo consagrado Ruy e visto com reservas pela alta comunidade jurídica do país, conseguira visualizar de modo irrepreensível os direitos e obrigações de ordem privada, inerente às pessoas, aos bens e suas relações jurídicas, concebendo, afinal, um complexo e perfeito conjunto de regras, coligidas em centenas de ditames e dispositivos harmoniosos entre si.

    Executara sozinho um extraordinário trabalho de equipe, exibindo vasto domínio do direito privado, sem nenhuma ajuda ou assessoramento para enfrentar tão grande desafio. O jurista Pontes de Miranda condensaria, numa coleção de quase sessenta volumes, a interpretação doutrinária do então novo estatuto civil ainda hoje influente nos institutos do diploma civil em vigor.

    Promulgado em 1916, esse monumental compêndio resistiu ao tempo, perpassando todas as décadas do século passado, sempre enaltecido pelos maiores exegetas e doutrinadores do direito civil em todo o mundo, por sua clareza, riqueza e precisão conceitual, poder de síntese e técnica jurídica. Reproduzido parcialmente pelo atual Código Civil, em

    centenas de dispositivos, permanece, portanto, ainda vivo como fonte inexaurível de direito, vivo e imortal como toda obra de gênio!


  • 29/09/2014

    A Formidável tese de Agassiz Almeida


     Ninguém ousaria produzir e publicar uma obra tão profunda e, decerto, isolada no gênero do ensaio histórico-científico, por sua febricitante intelecção e inusitada temática, sem amealhar a indimensível erudição de um Agassiz Almeida, somente vista, na atualidade, em raríssimas individualidades do excelso pensamento especulativo.

    Sinceramente, custa a crer como um humanista de sua geração, comprometido principalmente com a narrativa do martirologio político resultante de duas décadas de regime militar, no governo brasileiro, refoge do lôbrego memorialismo e se confina a elaborar, anos a fio, uma tese verdadeiramente revolucionária, bombástica e literalmente inédita no terreno abissal da genetriz cósmica e do próprio fenômeno da vida.

    Sobremaneira quando suscita, destemida e decididamente, no impressionante empreendimento, a queda de um dos mais cingidos vultos da ciência genética e ontológica do alto do pedestal onde há séculos encarapitado fustiga a imaginação humana sobre o misterioso princípio do universo e de todas as criaturas, com sua famosa e burlesca concepção evolutiva das espécies.

    É surpreendente como o ensaísta paraibano – um dos maiores intelectuais brasileiros – numa linguagem culta e inteligível, à luz de extraordinário senso investigativo e enciclopédicos saberes, vislumbra o sub-reptício patrocínio do império britânico à histórica viagem de Charles Darwin pela América do Sul, com o dissimulado interesse de, mais tarde, solapar as riquezas naturais descobertas no Novo Mundo e assinaladas numa carta geográfica pelo astuto “naturalista”.

    Com esse tom desmistifica o sortilégio de “Origem das espécies pela seleção natural”, com que intentara provar o servil inglês a evolução dos seres vivos a partir de ancestrais comuns com outros grupos do reino animal, a exemplo do homem, nessa esteira descendente do chimpanzé(!), tudo, entretanto a disfarçar os propósitos da expedição náutica, inclusive aos mananciais litorâneos do Brasil.

    Desmascarada a farsa incursiona com fluente coerência científica e filosófica ao cerne da complexa matéria, culminando com a dialética de suas maiores doutrinas, até propriamente encontrar uma “organização inteligente”, na qual reconhece a primitiva capacidade criadora da vida e do grandioso, dinamogênico e imutável sistema que lhe assegura a perpetuidade.

    Portanto, salta ao curioso olhar do leitor esse formidável compêndio de quatrocentas páginas, jamais escrito e legitimamente intitulado “O fenômeno humano”, pelo menos ante a impactante força

    verbal e argumentativa fincada numa originalíssima e irrecusável formulação, própria das grandes e geniais mudanças ideológicas da história.


  • 15/09/2014

    A letra do nosso Hino


     Apesar de acender o orgulho pátrio sempre que entra em jogo os interesses e valores brasileiros, como um dos símbolos da nacionalidade, em competições esportivas ou quaisquer eventos internacionais, é notória e reconhecidamente medíocre a letra do hino nacional.

    Desde sua oficialização, em 1922, o mais significativo louvor em honra da nação tem merecidamente suportado as mais severas críticas, notadamente pelo gongorismo e pieguice dos versos enfronhados na bela e vibrante melodia de Francisco Manoel da Silva.

    Em que pese o esforço não exibiu o autor, o escritor e professor Osório Duque Estrada, o esmero esperado de um poeta à altura da histórica missão, derramando-se em expressões incoerentes, exageradamente afetadas e, vezes, de ridícula semântica, inobstante as lembradas belezas naturais de nosso país e o heroísmo de seu povo.

    Pelo menos a mais fraca viga da poesia cívica, o verso “deitado eternamente em berço esplêndido”, há décadas vem sendo objeto da discutível mudança. Nenhum patriota esclarecido e de bom senso jamais aceitou essa imagem de um Brasil dorminhoco, num berço tão esplêndido quanto improfícuo, em cujo estrado jazem as nossas riquezas! E como aceitá-la, em pleno século XXI, quando o gigante desperta insone aos clarões da ciência, da economia, das artes e do desenvolvimento social e dá provas concretas de ter acordado definitivamente a buscar o tempo perdido sob o acalanto da inépcia e da demagogia?

    Ora, a bem da verdade, a terra onde os “bosques têm mais vida” e os “risonhos, lindos campos têm mais flores”, passou da era das panacéias discursivas e das louvações que nunca encheram barriga e nada contribuíram para enfrentar os graves desafios do povo brasileiro.

    Urge, dessa feita, substituir definitivamente toda a letra do nosso hino por um belo, realista e atualizado poema patrício, condizente com a tocante música original, porém com referências mais sinceras e aceitáveis sobre nossos feitos, lindezas e primazias mundiais.


  • 04/09/2014

    A erudição de Luiz Nunes e a poesia de Severino Sertanejo


     Uma das altas expressões da erudição paraibana o professor de Finanças, ex-secretario de estado, ex-Conselheiro e Acadêmico Luiz Nunes, usando o prosaico cognome de Severino Sertanejo, construiu, AO Longo da Carreira Literária, a Mais Interessante e Admirável Obra cordelista das Nossas letras, nos ultimos tempos. 

    Localidade: Não E Fácil trazer AOS Meios cultos e Acadêmicos e MESMO à Preferência fazer Leitor urbano, Hoje aliciado pelas desconcertantes INFORMAÇÕES da internet e de To Us Link Canais Informativos da Modernidade, a Linguagem ea verve popular, cultivadas Pela literatura sertaneja de cordel, SEM Que tenha o autor, a despeito de TODO o talento, a telúrica Percepção ea profunda sensibilidade de Quem Realmente nasceu e viveu NAS buliçosas entranhas do Sertão.

    Antes de ascender ÀS culminâncias da Bem sucedida e Meritoria Vida Pública, FOI Nos Pagos natais de SUA nostálgica Água Branca Onde, Testemunha sensivel, conheceu Luiz Nunes dramas OS, Lendas, tragédias e fantasias da gente forte that alude o imortal Euclides e da quali se fez intérprete Autorizado fazer Seu "dialeto" e de Seu Mais pulsante Sentimento atávico.

    Era, entao, o Severino Sertanejo das Futuras e fulgurantes Páginas da poesia popular, do Texto Poético desembaraçado, imaginativo, Cheio de irreverência e bom humor, da estrênua Pesquisa e da notável Narrativa SOBRE Vultos e acontecimentos Históricos e Sociais, Onde se Percebe uma rara Simbiose da oralidade Ordinária fazer interiorano despretensioso com o pelo substrato cultural de Um verdadeiro e versátil estudioso, nos Primeiros e oníricos contatos com o torrão natal, a experimentar OS Impulsos da Inteligência Artística promissora.

    Na Verdade Seu Trabalho versifico, apesar da modéstia do autor, verdadeiramente surpreende OS Círculos letrados fazer país, sobremaneira Pela "Ressurreição" da prosódia peculiares e Algo de esotérico de da Região Nordestina, Terra Mãe de incomparáveis ​​gênios das Artes e das Ciências, COM uma Visão das encontra em Coisas do Mundo soluçar Perspectivas Mais Próximas da Criatura Humana e de SUA contundente Realidade.

    Com ESSE Teor Distinguido o poeta e trovador los Livros aclamados Como "A História da Paraíba los verso", "Inácio da Catingueira - o Gênio escravo", Napoleão - amor e guerra "EO récente" Juscelino - Vida e Obra em versos ", Entre To Us Link, logrou mostrar UMA irrecusável e Semelhante grandeza com a literatura los prosa de Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, e Luís da Câmara Cascudo, nada Ficando um Dever, POR Outro Lado, AO lirismo matuto de Catulo da Paixão Cearense.

    E com o ressalte, Único nenhum país, de abordar Temas e Personagens Universais soluçar o visório da Cultura Popular e com a Linguagem peculiar fazer cordel, num Surpreendente Desafio a hum acurado Estudo da antropossociologia brasileira.


  • 25/08/2014

    As fantásticas previsões e o suposto plágio de H.G.Wells


     Um dos mais notáveis nomes da literatura, no gênero da ficção científica, H.G.Wells produziu dezenas de romances futuristas, com fascinantes e inequívocas previsões e nem mesmo uma rumorosa suspeição de plágio denegriu sua reputação de grande e imaginoso escritor.

    Conhecido universalmente, desde meados do século XX, como “o homem que inventou o amanhã”, por mostrar nos mirabolantes enredos, com repercussão por todo o mundo, uma inusitada antevisão de vindouros acontecimentos políticos, científicos e belicosos, não conquistou o inglês Herbert George Wells o merecido lugar na história da literatura sem permear uma trajetória pontilhada de surpreendentes dissabores.

    Somente depois da intensa divulgação internacional de seus temas singulares definiu a arte literária didaticamente os traços do empolgante gênero ficcional, verdadeiramente inaugurado com “A máquina do tempo”, em 1895, em cujas páginas antecipa Wells os mais arrojados e inimagináveis avanços, experimentados pela civilização hodierna décadas depois, inspirando ficcionistas do naipe de George Orwell, Aldous Huxley e Osvald Spengler.

    Dentre as inúmeras profecias esse Nostradamus da modernidade vislumbra o advento da guerra nuclear (foi ele quem primeiro usou o termo “bomba atômica”), da manipulação genética, do aparelho do ar-condicionado, da televisão, dos gravadores, dos aviões em combates aéreos, além de vaticinar, com absoluta precisão, o início e o fim da segunda guerra mundial.

    Dos impressionantes prognósticos ainda não se realizou, por óbvia intempestividade, a assombrosa extinção da espécie humana num período de mil anos, numa hecatombe mundial, e seu retorno ao estágio primitivo das cavernas.

    Contudo em 1925 viu-se Wells emaranhado num escandaloso processo de plágio, movido pela escritora canadense Florence Deeks sob a acusação de haver furtado os manuscritos de um de seus livros e com esse material praticamente copiado, com poucos retoques, toda a célebre “História Universal”. Teria a improbidade ocorrido por desídia de uma editora onde se achavam abandonados os ditos originais, a mesma pela qual publicara o escritor a sua obra, tal a semelhança entre ambas, nos diversos aspectos do contexto narrativo.

    Traduzido em diversas línguas e já glorioso ícone da moderna romanceria, embora tendo suportado a lassidão judicial de anos a fio,

    nenhum dos juízes da Suprema Corte americana se convencera da alegada desfaçatez mantendo-lhe a autoria do famoso compêndio e o renome endeusado por milhões e milhões de leitores.


  • 16/08/2014

    As contradições de Jean Paul Sartre


     Notabilizado por sua filosofia existencialista Jean Paul Sartre tornou-se um dos pensadores e romancistas mais influentes do intelectualismo europeu, na segunda metade do século XX, revelando, entretanto, no final da vida, uma gritante e inesperada contradição com os princípios outrora defendidos.

    Reverenciado como herói nacional o feioso e falastrão filósofo francês, de envolvente dialética, pouco antes da grande honraria fora alvo da ira popular ao ultrajar a sociedade burguesa, incitando, publicamente, à deserção os soldados de seu país aquartelados na Argélia.

    Indagado por que não mandara encarcerar aquele agitador, respondera sereno, o emblemático presidente De Gaulle: “Não se manda prender Voltaire”, denotando, com isso o quanto, mesmo assim, era respeitado o famoso escritor na sua pátria.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, tendo trabalhado como meteorologista do exército francês, terminou Sartre capturado pelos alemães e, levado a um campo de prisioneiros, ali surpreendentemente encontrou um ambiente receptivo aos seus dramas e divagações, somente retomando a liberdade depois de convencer as autoridades de sua parcial cegueira, quando então logrou regressar a Paris, indo ministrar literatura numa confortável cadeira de professor universitário.

    Entrementes, foi sob a atmosfera do jugo nazista que produziu o discutido tratado existencialista “O ser e o nada”, inspirado em Heidegger e Kierkeggard, tendo logo depois se filiado, por mero oportunismo, à chamada Resistência Francesa, em cujas fileiras, notadamente, pouco ou em nada contribuíra para a expulsão dos invasores. Porta voz dos movimentos socialistas do terceiro mundo fez-se membro do partido comunista francês até se rebelar com o livro “As mãos sujas”.

    Idoso, alquebrado pela doença e pressentindo a morte, renegaria, literalmente, toda a lógica filosófica do “existencialismo”, inclusive a força metafísica da matéria como significado da origem de todos os seres e coisas existentes. Repensando seu ateísmo findou confessando, enfim, numa entrevista amplamente divulgada em 1980, a mudança de opinião sobre a existência de Deus. “Não sinto que sou produto do acaso, originário de um grão de poeira no universo”, admitiu, “mas alguém criado por um ente vivo, onipotente e voluntarioso”.

    Irresignada com a surpreendente reviravolta a ex-companheira e também escritora Simone de Beauvoir apressou-se em repudiar a bombástica retratação chamando-a de “ato senil de um vira-casaca”.

    Com a casaca suficientemente virada morreu o polêmico filósofo, meses depois, sendo, não obstante, por seu pranteado funeral decretado luto nacional na França de ídolos e ídolos.

     

     


  • 07/08/2014

    Salinger - A bizarra solidão de um consagrado


     Aclamado como um dos autores mais lidos em todo o mundo, nos últimos tempos, com apenas três livros publicados Jerome David Salinger saiu de cena, isolando-se completamente, no esconderijo de New Hampshire, até o final da vida, a impedir qualquer divulgação a seu respeito e até mesmo a venda milionária de direitos autorais da esplêndida obra.

    A despeito das críticas acerbas de eminências literárias suportadas, nos anos imediatamente seguintes à primeira edição, em 1951, o mais famoso livro do misantropo e bisonho escritor americano aos poucos atingiu imprevisto sucesso, traduzido a dezenas de idiomas, com ciclópicas e sucessivas tiragens por todos os continentes.

    A impactante surpresa, tão grande o gosto pela trama de “O apanhador no campo de centeio”, teria incutido no romancista, certamente ainda cético da magnitude de sua criação, o incorrigível receio de nunca mais produzir algo de mesma dimensão, equiparável ao estrondoso êxito inaugural.

    Na verdade a leitura do célebre romance, onde o próprio Salinger, transfigurado no personagem principal, enseja uma vingança quixotesca e retórica contra todos os que o fizeram se sentir alijado da sociedade, prende e arrebata, despertando um voraz interesse pelo desfecho da narrativa, até a última página.

    É bem possível que a febre avassaladora disseminada ao público leitor, tal como acontecera com aficionados de “Os sofrimentos do jovem Werther”, do grande e eterno Goethe, contenha o vírus alucinatório causador da onda de suicídios na Europa do século XVIII e oriundo do látego entre o desejo de uma vida intensa e livre, como a experimentada por Holden Caufield no campo da colheita, e um mundo citadino com suas agressivas e sufocantes regras sociais, destruidoras de sonhos e quimeras, afinal os verdadeiros amálgamas da felicidade.

    Continuando a vender milhões de exemplares por ano, em todas as regiões civilizadas do planeta, “O apanhador no campo de centeio” permanece a inspirar leitores angustiados, tornando-se, numa irônica reviravolta dos postulados originais, o guia mágico de depressivos solitários, melancólicos, psicopatas e até virtuais criminosos, como Mark Chapman, autor do assassinato de John Lennon, segundo o qual perpetrado sob a inspiração da polêmica novela.

    Sem jamais haver confessado os íntimos motivos da súbita aversão social e da irrevogável reclusão, rabugento, indisponível e inabordável o célebre escritor retirado – um dos maiores da literatura americana, em meio à insólita guinada da vida pessoal, segundo o relato da filha Margaret, continuara, entretanto, a escrever, dia e noite sem parar, até morrer, aos 91 anos, em 2010, deixando um sem número de manuscritos inéditos,

    expressamente proibidos à divulgação porque “tal atitude representaria terrível invasão” à sua privacidade e ao legado de suas memórias.


  • 02/08/2014

    O dicionário filosófico de Órris Soares


     Há quase cem anos mergulhado na penumbra de um inaceitável esquecimento o paraibano Órris Soares, incentivado pelo Instituto Nacional do Livro do Rio de Janeiro, elaborou um completo e incrível dicionário de filosofia, provavelmente o único do gênero, escrito em língua portuguesa e de todo o mundo ocidental.

    No seu tempo, mais notabilizado por ter prefaciado a segunda edição do “Eu” de Augusto dos Anjos e, com seu irmão Oscar, fundado o jornal “O Norte”, esse erudito e notável escritor, nascido na capital da Paraíba, depois de servir ao governo do tio, Camilo de Holanda, como Secretário Geral, em 1926, emigrou definitivamente ao Rio, então capital da República, onde, celibatário, adotou uma vida de anacoreta convicto, dedicado exclusivamente à copiosa atividade intelectual.

    Numa época de crepitante especulação filosófica ninguém melhor exerceu, neste vasto país de pensadores diletantes, mais, profunda e obstinadamente, a mineração nos segredos da ciência ontológica, desde a borbulhante fonte socrática até o hodierno existencialismo de Sartre e Camus e, somente com tal bagagem, sopesada no auge da maturidade, se lançara, decididamente, a organizar a oceânica empreitada.

    Com dez volumes compactos, enfeixando metodicamente e por ordem alfabética o significado de cada verbete relacionado, todos com original contribuição e sua marca personalíssima, a tarefa resultou numa indiscutível obra prima sobre a matéria, um espantoso glossário, segundo cultores da filosofia, de transcendente saber, até mais detalhado e opulento do que o próprio Lelande, publicado posteriormente na Europa.

    Entretanto, editados os três primeiros tomos com aplausos de luminares pátrios do pensamento e dos meios culturais brasileiros a tiragem do grande e inigualável projeto terminou, inexplicável e surpreendentemente trancada até hoje, privando o culturalismo mundial da extraordinária enteléquia brasileira, num dos mais complexos campos do conhecimento.

    Da mágoa dessa interrupção morreu, acabrunhado e totalmente deprimido, no Rio de Janeiro, onde fora sepultado sem quase nenhum acompanhamento, o estupendo humanista, autor de inúmeras outras obras, inclusive romances e peças teatrais, sobretudo porque tendo confiado no compromisso da impressão oficial pelo Instituto Nacional do Livro recusara a oferta de uma editora privada que lhe quis comprar os direitos autorais, como tudo fidedignamente narra o burlesco episódio o escritor e crítico

    literário Augusto Frederico Schimidt, testemunha irresignada de todo o acontecido, no seu livro de memórias.


  • 27/07/2014

    Mona Lisa o amor platônico de da Vinci


     Ainda permanece em intrigante mistério, apesar de muitas conjecturas ao longo de cinco séculos, toda a história do quadro mais famoso da arte pictórica, principalmente pela enigmática expressão facial e o riso triste do rosto feminino modelado.

    Estaria seu portentoso autor enamorado da graciosa Gioconda ao resolver colocá-la sob a mira do pincel enfeitiçado? Era ela uma mulher trivial ou, pelo contrário, complicada, sutil e profunda como aparenta na tela?

    Inúmeras são as indagações acerca do mais célebre e incompreendido sorriso da história humana e sobre o próprio Da Vinci, seu criador e, nomeadamente, o maior e mais admirável gênio de todos os tempos em relação à clássica obra-prima – uma apenas dentre as múltiplas vertentes de sua fecunda criação.

    Das biografias sobre o prodigioso italiano resulta uma infinidade de contradições e mesmo diante de uma vida envolta por mistérios insondáveis, afirmam alguns biógrafos que nos cinco anos dedicados à pintura polêmica nutrira o artista, sem jamais o revelar, ardente e platônico amor por Mona Lisa, algo limitado aos seus loucos e inquietantes devaneios.

    Tanto tempo, de fato, expendido numa obra por um pintor de tal magnitude faz realmente pensar numa empatia romântica entre ambos, mas a suspicácia, contudo, se mostra inverossímil porque, além de desinteressado em relações afetivas com o sexo oposto, jamais tivera Da Vinci oportunidade de vê-la a sós, nas dependências de sua oficina, a todo tempo freqüentada por amigos, discípulos e até músicos incumbidos de aliviar a fatigante postura voluntária da modelo.

    Percebendo que se aproximava o término do caprichoso empreendimento não conseguira Mona Lisa evitar o reflexo da infinita tristeza, esboçada no sorriso tímido e incompatível com as pretensões artísticas do mestre, oferecendo-lhe, segundo respeitáveis memorialistas, uma imagem dissimulada e um tanto desiludida pela paixão insatisfeita e o amor não correspondido, fixada assim num momento ímpar da arte para toda a posteridade.

    Decidira, portanto, esquecer a angustiante frustração, com uma viagem definitiva à Calábria, de onde jamais voltaria indo ao estúdio a que tanto comparecera se despedir, sob o olhar saudoso de Leonardo, lançado ao seu vulto entre as sombras do entardecer.

    Era o último encontro de um amor impossível de acontecer senão em sonhos e mesmo assim jamais confessado, levando a Gioconda consigo

    sozinha, no mais secreto recôndito da alma, a pungente causa do interessante e eterno enigma.


  • 18/07/2014

    Em busca de Marcel Proust no tempo reencontrado


     Excessivamente mundano nos salões parisienses da chamada belle é poque e, portanto, nunca seriamente compreendido pelos contemporâneos, a certa altura da vida Marcel Proust se recolhera a uma monástica solidão até morrer, apenas dedicado à enorme tarefa que lhe converteu numa das glórias da literatura mundial.

    Na época de luxúria e diversão todo o fermento intelectual do postumamente celebrado autor de “Em busca do tempo perdido” se limitara a crônicas frívolas, em Le Fígaro, sobre o ambiente festivo e sofisticado da “Cidade Luz” em que, alegre e prazerosamente, transitava e onde desfilavam vaidosos socialites, músicos, políticos e potentados da elite francesa, com suas intrigas e habituais mexericos – desejosos cabotinos do elogio gracioso.

    Era então um confesso e pedante deslumbrado a comprometer seu talento com referências amáveis e lisonjeiras a figurões de uma aristocracia hipócrita e decadente, mais tarde ironizados, na ciranda da memória, como caricaturas da monumental obra que suplantaria o molde da romanceira francesa de fins do século XIX, produzida por conterrâneos do cerne de Victor Hugo, Stendhal, Flaubert e Émile Zola.

    Não seria propriamente um único romance a inovadora criação, mas uma cordilheira ou cadeia de enredos, com sete volumes, intimamente ligados pelo fluxo e refluxo evocativo de um narrador falando na terceira pessoa e, no entanto, interessado em recuperar o tempo desgastado com tantas e tão improfícuas banalidades. O tempo da juventude vã do Proust sempre de flor à lapela, ostensivamente esnobe, com obsessivas preocupações de elegância e exageradamente presunçoso, almejando a todo custo ser recebido e bajulado pela grã-finagem convivente.

    Nas páginas transcendentes, ao revés do estilo fútil do passado, uma completa reviravolta espelhando a necessidade premente de encontrar o escritor o sentido profundo da vida e de seus sublimes valores, o lado verdadeiramente humano da aventura existencial, tão desprezado na fase estéril de sua atribulada existência, o que, afinal, lhe consagraria entre os maiores nomes da arte literária de todos os tempos.

    Misantropo e solitário, com pouco mais de cinqüenta anos, morando num apartamento longe do medíocre burburinho social de outrora sofria de súbitas crises de asma, enquanto se ocupava inteiramente esquecido do mundo exterior, numa veleidade da consciente capacidade criadora, a escrever anos a fio, a fulgurante obra prima que a si próprio parecia interminável.

    Doente e assim recluso no final da vida, um dia ao colocar a palavra fim na última lauda de seus manuscritos suspirou aliviado exclamando: “Felizmente! Agora já posso morrer...”


  • 05/07/2014

    O fascínio do poder


     Desde o passado mais remoto o poder exerce tão arraigado fascínio sobre a natureza do homem que se desconhece, em personagens como Hitler, Stalin e Mao Tsé Tung os limites da sanha pelo seu alcance e domínio a qualquer custo, inclusive com a tortura e o sacrifício inocente de milhões de seres humanos.

    Por sua conquista e preservação, nos mais diferentes regimes políticos, de todo o mundo, tal como ressuma das páginas ensanguentadas da historia, não se quedaram receosos, nem um pouco, líderes, estadistas e guerreiros gloriosos ante a possível perda da própria vida, por assassinatos brutais ou pelo infando gesto do suicídio.

    Obcecados pela cadeira da autoridade suprema, nos seus países, tamanha desdita sucedeu a governantes da histórica reputação de Luís XVI, Nicolau II, Abraham Lincoln, Getúlio Vargas, Anuar Sadat, Yitzhak Rabin, Salvador Allende, Indira Gandhi e John Fitzgerald Kennedy entre outros.

    Tão grade é o desvario ao encalço do posto todo poderoso que até na família, a desmedida ambição além de garantir a sucessão ao trono nas monarquias, o comando ditatorial nas ditaduras e na democracia a presidência do país a membros de oligarquias, também traz a cizânia, a ponto de filho desconhecer pai e irmão conspirar contra irmão, conforme o episódio da insurreição português pelo qual o nosso D. Pedro I, de regresso ao reino lusitano, destronara D. Miguel, numa luta fratricida por seus direitos sucessórios de primogenitura.

    À luz de um cotejo historiográfico os faraós, os imperadores romanos e os czares, na plenitude da tirânica soberania, em nada eram diferentes de dirigentes golpistas da marca de Tito, Benito Mussolini, Saddan Hussein e Hugo Chavez, todos, em maior ou menor grau, senhores da vida e da morte, picados pela mosca do mais nefasto e odioso autoritarismo.

    Na França, enfermo, François Mitterrand mandou sozinho quase uma década, enquanto a Rainha Elizabeth II, octogenária, nem de longe fala em sucessão. Fidel Castro só entregou as rédeas de sua esquipática ditadura socialista ao irmão Raul devido a incapacitante enfermidade, mas continua a expedir suas ordens. Nem o nosso Pedro II, cuja confessada vocação pessoal se limitava a uma cátedra de professor, abdicara do longo reinado de meio século, embora delegando a ministros o verdadeiro controle do império.

    Inobstante, incentivado pelo apóstolo Pedro a liderar uma revolução contra o império romano, na província da Judéia, onde pregava às multidões, Jesus não manifestou o mínimo interesse pelo poderio terreno –

    afinal tão fugaz quanto a própria existência, ensinando, diferentemente, que o seu reino não era deste mundo!


  • 11/06/2014

    Ridalvo Costa - um juiz para entrar na historia


     Ao longo de toda sua honrada judicatura manteve Ridalvo Costa, entre outras notáveis qualidades, a espontânea simplicidade com que, por décadas, prolatando sentenças, se consagrou, à voz unânime do jurisdicionado e dos meios forenses, como um dos maiores julgadores brasileiros de todos os tempos.

    Bem humorado e desprovido de frívolas cerimônias, o ilustre paraibano adotivo, proveniente de Caicó do vizinho Rio Grande do Norte, nascido numa família de bem sucedidos homens públicos, depois de incursionar brevemente pela política e advocacia, na terra natal, decidira, jovem ainda, enveredar pela magistratura, onde, afinal, encontrou o vocacionado destino, preservando então na ascendente carreira o conhecido e admirado estilo, nunca desvirtuado pela importância de altas posições.

    Investido, portanto, na egrégia função, em meados da década de sessenta, na longínqua Rondônia, cedo e merecidamente, logrou voltar ao seu Nordeste, se radicando na capital paraibana, próximo dos pagos de origem, em cujo Fórum Federal titular da Vara Única, com reputado saber, sozinho instruíra e julgara, sem a mínima leniência, milhares e milhares de processos da iniciante jurisdição.

    Sensato e justo, ao arrojo de marcantes décadas, judicou sobre os mais diferentes litígios e direitos de todo o ordenamento jurídico, lapidando as singularidades do cargo com o toque da personalidade carismática e do cabedal profundo, notoriamente interessado numa excelente e funcional prestação da tutela judicial e, mais tarde, diretor do Fórum, no aprimoramento orgânico da Justiça Federal, ainda recente no Brasil.

    Magnânimo e gentil no diálogo com as partes e seus patronos, respeitado na audiência até por rudes testemunhas, inaugurou um novo e admirável perfil de julgador, com visão mais íntima e compreensiva da realidade humana, contrária ao anacronismo da rigidez legal e dos ritos processuais, contribuindo nesse e noutros aspectos, com decisões inovadoras e, reconhecidamente, antológicas ao alcance dinâmico e reformador da jurisprudência pátria, como a proferida na questão dos náufragos da lagoa do Parque Solon de Lucena, em 1975, desfavorável à União, que se tornou lição indelével sobre a responsabilidade civil objetiva e indenizatória das pessoas jurídicas de direito público.

    Alçado a desembargador no Tribunal Regional Federal da 5ª Região, foi seu decano e primeiro presidente, conservando intocado o sublime caráter, a independência judicante e a desconcertante naturalidade, a mesma da velha e rotineira caminhada matinal e do papo solto e descontraído entre amigos, própria de todo sábio e elevado espírito, até enfrentar, sem o peso das virtuais mudanças da vida, a honrosa e meritória

    aposentadoria, deixando às gerações presentes e futuras, mais do que um nome no frontispício do Fórum, a biografia diferente de um juiz para, verdadeiramente, entrar na história!


  • 03/06/2014

    Policarpo Quaresma e o triste fim de Lima Barreto


     Vítima do infamante preconceito de cor e da paupérrima condição social até a morte, o mulato Lima Barreto perambulava bêbado pelos bares e botequins cariocas, abatido pela discriminação das elites intelectuais e da própria Academia Brasileira de Letras, que não lhe admitira, com desdém por uma obra antológica e imortalizada pelo tempo.

    Corajosamente avesso aos padrões estilísticos da época, numa linguagem coloquial e impregnada de expressões populares do “português brasileiro”, com menos de quarenta anos e uma fisionomia velha e desiludida, resultante do inveterado alcoolismo, o autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, já havia produzido uma quinzena de livros notáveis, com o mesmo brilho e a portentosa imaginação dos europeus Honoré de Balzac, Stendhal e Anatole France, notadamente influentes no seu prosaísmo.

    Além de retratar, quase sempre, o drama de suas amarguras e ressentimentos íntimos, com fortes traços autobiográficos em ficções como a reportada e “Recordações do escrivão Isaias Caminha”, no formidável acervo, promovera uma velada e solidária campanha contra as barreiras sociais do racismo e o desprezo ao proletariado de pele negra e mestiça.

    Num Brasil ainda convalescente de preconceitos, uma luta praticamente solitária, em defesa do pobre e do miserável, encarnados em personagens suburbanos das feiras livres e dos trens lotados, então completamente esquecidos pelos poderes públicos, numa verdadeira crônica dos costumes e eventos do Rio antigo somente avaliada, tempos depois, como valoroso e indispensável documento de nossa realidade pós escravagista.

    Estereótipo do talento frustrado, os livros inovadores do funcionário público relapso e morador da vila Quilombo, certamente, desagradavam medalhões da romanceria acadêmica – o oficialismo cultural, onde pontificavam, entre outros, Machado, Raimundo Correia, Graça Aranha, Coelho Neto e Bilac, cultores da erudição lusitana e antípodas de sua vida escandalosa, irreverente e malfadada.

    Trafegando, portanto, na contramão do intelectualismo burguês tornou-se irremediavelmente marginalizado e de tanto se deparar com portas fechadas ao merecimento encontrou na bebedeira contumaz a terrível válvula de escape que, afinal lhe conduziria a lancinantes internamentos por alienação mental e a inevitáveis quedas, maltrapilho e malcheiroso, na sarjeta imunda, reduzido a mísero derrelito, até morrer no calabouço do vício, aos 41 anos.

    Esse o triste fim do extraordinariamente grande Afonso Henriques de Lima Barreto, somente não comparável ao de Quaresma do seu romance

    imortal, porque fora sepultado por numerosa multidão de humildes admiradores, sem ilustres sobrenomes, numa homenagem, pelo menos na morte, que nunca recebera em vida!


  • 29/05/2014

    A lealdade e o incrível caráter de Carlos Gomes


     Interiorano de origem humilde, marcado desde a infância, por uma vida cheia de desgostos afetivos e aperturas materiais, a despeito do fulgurante talento musical não teria Carlos Gomes chegado a tamanho estrelato sem a proteção benfazeja de um ilustre brasileiro – o imperador D. Pedro II.

    Notório mecenas, apaixonado pela cultura e pelas artes, interessava-se o soberano pela descoberta de novos e promissores valores, nos diversos campos da criação artística, entre brasileiros cujos reconhecidos pendores, com seu influente respaldo, elevassem, mais e mais, o nome e a imagem do Brasil, fora do país.

    Impressionados com o então desconhecido compositor, amigos e admiradores, com trânsito na Corte, principalmente a Condessa de Barral, se devotaram a lhe aproximar do monarca e dos favores da realeza, com os quais, de anônimo idealizador de marchinhas se tornaria o aclamado maestro de glamorosos concertos, freneticamente aplaudidos na Europa, nos Estados Unidos e ao derredor de todo o mundo, como nenhum outro de seu tempo.

    A cada ópera exibida, com originais composições, em teatros ou a céu aberto, despontava a peregrina quintessência da vocação, ante os gritos de bravo e de bis, entre ruidosos aplausos. Assim fora, espontânea e apoteoticamente, saudada “A última hora do calvário”, “A noite do castelo” e o triunfalmente consagrado “O guarani”, tendo a seu respeito exclamado o experiente Verdi: “este moço começa por onde eu termino”.

    Apesar do sucesso e da fama nunca se libertara o artista das dificuldades financeiras decorrentes de seu ingênuo desinteresse pela riqueza e até pelos lucros da grandiosa produção, se limitando a viver modestamente com parca pensão do governo imperial, concedida por interferência de Pedro II, junto ao Poder Legislativo e com a qual se mantivera até o final da vida.

    Proclamada a República no Brasil e banido ao exílio o imperador e toda a família, Carlos Gomes não só recebeu, no estrangeiro, a triste notícia, como, inesperadamente, um convite para compor o hino oficial do novo regime, tendo a Comissão de emissários oferecido à sua disposição alta quantia a guisa de pagamento adiantado, exatamente quando, cheio de dívidas, necessitava, imensamente, do numerário.

    Contudo, não vacilou, renunciando à histórica e providencial distinção, com sublime espírito:

    - Não, não posso! Seria aceitar o eterno castigo de me ver sempre manchado pela ingratidão!! – declarou com dignidade ímpar e decidida

    expressão de um raro caráter, pensando no saudoso benfeitor degredado, a quem tantos e tão grandes favores devia!


  • 07/05/2014

    A obra eterna de Kafka


     Um dos maiores escritores do século XX, autor de obras lidas e consagradas mundialmente, Franz Kafka não valorizava a própria criação literária, quebrantado, durante toda a existência, por uma incorrigível timidez que, afinal, lhe retirara a consciência do prodigioso talento.

    Sumamente fecundo e traduzido em todos os idiomas o singular escritor tcheco, nascido na cidade de Praga, numa época de intensas luzes culturais, produziu livros e mais livros, estranhamente originais no domínio da ficção romanesca, sem qualquer comparação, em toda a história da arte literária.

    Quase todos, exceto “A metamorfose”, foram publicados postumamente, sendo resgatados da destruição a que o autor os havia condenado, por um grande e dedicado amigo e biógrafo, sem cuja iniciativa salvadora teria desaparecido completamente todo o bizarro e glorioso patrimônio imaterial do povo tcheco.

    Foi o interesse e iniciativa de Max Brod, companheiro e compartilhante dos meios intelectuais por ambos freqüentados, intelectual e profundo conhecedor da genial verve e imaginação de Kafka que, contrariando o estapafúrdio desejo autoral levado ao túmulo e, principalmente, inconformado com uma grande e virtual perda artística da humanidade, mandara publicar, às suas expensas e responsabilidade, os notáveis monumentos insculpidos pelo inditoso novelista, reduzidos então a manuscritos sentenciados às cinzas.

    Atormentado por toda a vida, seja por insucessos amorosos, seja pelo complexo de inferioridade trazido da infância, seja pela tuberculose que o transformara em hospedeiro de muitos sanatórios, terminou morrendo solitariamente antes de completar quarenta e um anos, assistido, unicamente, pelo fiel amigo Brod, sem jamais imaginar a futura e impressionante popularidade de seu nome e de seus romances.

    De tal sorte e somente por um meio acidental deu-lhe o destino, depois da morte, a impensável celebridade, decorrente do conhecimento pelo mundo de preciosidades como “O Processo”, “O Castelo” e “Carta ao Pai”, num verdadeiro e irônico paradoxo ao ingênito pessimismo e incredulidade que sempre, curiosamente, dispensara às suas extraordinárias criações.

    Tanta baixa estima e inquietude teriam resultado, segundo seu magistral memorialista, de insanáveis traumas, causados no verdor dos anos, pela excessivamente severa e tirânica educação paterna de influencia malsã, numa personalidade reservada e submissa, inteiramente frágil e até

    ingênua do ponto de vista prático, para enfrentar a vida com sua agressiva e enorme complexidade.


  • 30/04/2014

    'A agonia de Cristo' e o crime do artista genial


     Considerado, ao longo dos séculos, como um dos grandes mestres da pintura sulamericana o equatoriano Miguel de Santiago foi tocado, em dado momento da vida, pelo ardente e obsessivo desejo de pintar a agonia de Cristo, durante seu calvário na cruz, segundo o relato bíblico.

    Muitas vezes pôs mãos à obra, intentando traçar a feição angustiada do “salvador”, sem que a imagem produzida lhe satisfizesse completamente, sobremaneira, a justificar, já no seu tempo, a reputação de exímio e genial artista.

    Infatigável, procurava, a todo custo e modo, a inspiração de fazê-la, irretocavelmente, até que um dia descobriu, entre seus discípulos, um apolíneo e formoso jovem, de pele branca e cabelos nazarenos, a que julgara o perfeito modelo da pretendida criação. Induziu-o, então, a trajar-se conforme as supostas vestes de Jesus, colocando-o na posição adequada ao seu visório, isto é, preso numa cruz vertical de madeira.

    No entanto, ao revés de exprimir qualquer tormento, o jovem, de índole paciente e blandiciosa, sorria ingênua e docemente, com o fito de agradar o respeitado, porém rabugento e irritadiço pintor, levando-o, assim, à conclusão de não servir o aluno solícito aos propósitos da imaginada tela, por mais que lhe sugerisse a necessária expressão de sofrimento facial.

    Irado e movido pela conhecida têmpera violenta, friamente, sem nenhuma cautela, traspassou com uma lança as costas do modelo, infelizmente, atado ao madeiro, de modo a provocar uma intensa dor no rosto juvenil, seguida de convulsões mortais.

    No doloroso instante da inopinada agressão o moribundo bradava e se retorcia inutilmente, porque diante de Miguel de Santiago não havia um ser humano a se debater morrendo, porém a representação viva da tremenda e imponderável elucubração artística!

    Somente quando terminou o quadro sem nada, conscientemente, perceber, sequer ouvir os gritos da cobaia e avaliar as conseqüências do ato desvairado e criminoso, desatou a vítima e, voltando a si, deu conta do horrendo crime praticado, certo de nada mais poder fazer para salvá-la.

    Desapareceu, então, do atelier, sem mais regressar até o fim dos seus dias, suportando o estigma do delito perpetrado por mero delírio de inspiração, mas, sobretudo, numa manifestação do temperamento impulsivo e incontrolável.

    Absolvido pela justiça de seu país, tornou-se marcado, triste e empobrecido, carregando na alma a reprovação social dos contemporâneos

    e da própria consciência que lhe martirizou até a morte, poucos anos depois, em fins do século XVI, com freqüentes e terríveis alucinações.


  • 09/04/2014

    Santos Dumont - A glória e as causas do suicídio


     Primeiro brasileiro de grande repercussão mundial, Santos Dumont viveu toda a plenitude da glória que o invento do avião lhe ofereceu, tendo a fama propagado tanto o seu nome e imagem, principalmente por revistas e jornais europeus, que o típico chapéu panamá de abas largas tornou-se, na época, uma moda internacional.

    Franzino, pálido e de baixa estatura, tanto pelas atitudes excêntricas e imprevistas, quanto pelas incríveis proezas com que arriscava a própria vida, sobre suas estrambóticas máquinas voadoras, ganhou a popularidade de uma figura mítica, legendária, romanesca, risível mesmo, devido à expressão pré-chapliniana, exibida espontaneamente nos trajes, nos modos e na conduta social.

    Certo de seu raro talento pôde, todavia, o cientista caricato, com a proverbial modéstia mineira, conciliar a aplaudida genialidade à alma do homem simples e, intimamente, despretensioso, presente a todas as homenagens e cerimônias em seu elogio, sem se deixar empolgar pelos esplendores da celebridade, conquistada depois do salto da ciência moderna, resultante dos seus feitos.

    Humanista, achava que a ciência e a técnica eram bens coletivos pertencentes ao acervo da humanidade e, como tal, deveriam, universalmente, contribuir para o desenvolvimento cultural de todos os povos, sem uma bandeira nacionalista.

    Contudo, a despeito da reivindicação dos Estados Unidos sobre o pioneirismo da fantástica e revolucionaria invenção, em prol dos irmãos Wright, quase todos os notáveis aeronautas e entidades do gênero, até hoje, conferem ao nosso “Pai da Aviação” a comprovada primazia e o inconteste mérito, sobretudo com o argumento segundo o qual, os aeroplanos rivais, de fato, contemporâneos, somente eram projetados ao espaço sob o impulso de uma catapulta, enquanto os do prodigioso brasileiro subiam do solo, exclusivamente, com força própria.

    A civilização francesa, testemunha ocular de suas experiências e de sua inventiva inovadora, foi a primeira a desfazer a controvérsia criada pelos norte-americanos, desde o histórico passeio aéreo do 14-Bis, em 1904, em volta da Torre Eifell, ao entusiasmo e admiração de milhares de parisienses, dando-lhe o nome numa das praças da Cidade Luz, onde também erguera um imponente monumento em sua memória.

    Espírito sensibilíssimo, de regresso ao Brasil onde voltara a viver, constatou o uso de sua criação como instrumento bélico, pelas notícias vindas da Europa, a partir da primeira guerra mundial. Entrou, assim, o grande e consagrado inventor em profunda misantropia e irreversível depressão psíquica, somente findando a angustia, revelada nas fotos de semblante triste, com o comovente suicídio, perpetrado em 1932, durante a revolução paulista, quando sob os céus da praia de Guarujá, onde se

    encontrava em descontraído lazer, vislumbrara, pessoalmente, o conflito entre dois aviões bombardeiros de bandeira brasileira, numa inaceitável luta fratricida.


  • 27/03/2014

    Alexandre Gusmão - construtor do Brasil continental


     Vítima do terremoto que abalou a cidade de Lisboa, em 1751, morreu pobre, doente e esquecido o autor do inigualável feito diplomático de nossa historia que incorporou ao mapa do Brasil metade do seu imenso e atual território.

    Foi o brasileiro Alexandre Gusmão um brilhante historiógrafo e erudito professor da Universidade de Coimbra, respeitado na Corte de D. João V, onde transitava livremente, por seus invulgares saberes de geografia e historia política, o personagem pouco memorado, sem o qual não teriam Portugal e Espanha celebrado o histórico tratado de Madri que mudou o antigo conceito de fronteira, entre as colônias sul-americanas, pertencentes aos dois reinos, duplicando as dimensões de nosso país.

    Decorridos mais de dois séculos da descoberta do novo mundo, os domínios partilhados entre as duas nações ibéricas, ainda não exibiam limites geográficos definidos, a despeito da previsão de Tordesilhas, firmada trezentos anos antes, cujos termos fixaram os portugueses na costa atlântica e castelhanos, principalmente no lado oriental do novel continente.

    À luz de profundo conhecimento geopolítico da cartografia colonial e dos tratados e convenções pelos quais as nações procuravam estabelecer seus direitos sobre as terras descobertas e inexploradas, encetou Alexandre Gusmão uma longa e doutrinária luta diplomática para dirimir, definitivamente, a batida controvérsia, o que, finalmente, acontecera a partir da convenção madrilena assinada, solene e festivamente, com a presença dos monarcas envolvidos no litígio.

    Essa a grande e eterna obra, habilmente construída pelo admirável diplomata, que assegurou meio continente a Portugal e, ao porvir de nossa gente, um dos maiores e mais ricos celeiros do mundo, sobretudo com as novas lindes reconhecidas, inclusive após nossa independência, pela comunidade internacional.

    Ao formidável êxito se respaldara Gusmão no largo conhecimento sobre a saga dos bandeirantes e desbravadores, o avanço espontâneo dos colonizadores e das missões religiosas por campos inabitados, floresta adentro, erguendo vilas, conventos e fortificações do Amazonas ao Prata.

    Com tal bagagem e ciente da presença portuguesa por inimagináveis quadrantes, até as proximidades dos Andes, defendera, então, a aplicação ao pacto conciliatório do princípio romano de “uti possidetis”, segundo o qual pertenceriam as áreas questionadas ao país efetivamente imitido na posse, ficando os marcos limítrofes balizados por vizinhos acidentes naturais, como o curso de rios, lagos montes e serras.

    Ao longo dos tempos seriam corroboradas as novas fronteiras do mapa brasileiro, preservando as bases geográficas e fundamentos jurídicos delineados pelo insigne precursor, cujo nome, no entanto, permanece desconhecido pela maioria dos brasileiros e sequer denomina uma rua ou

    praça do país que tanto engrandeceu, dando-lhe um invejável tamanho continental.


  • 19/03/2014

    A simplicidade Einstein


     Arredio e desprovido de interesses materiais, ninguém ficou mais surpreso com o repentino dilúvio de fama que recaiu sobre o seu nome, ao redor de todo o mundo, que o próprio Einstein, depois de haver mudado a Ciência, dando-lhe uma nova concepção do universo. 
    Saudoso recordava a época em que, sem alardes nem ostentações, encontrava silêncio e sossego para se aprofundar na apaixonada procura pelo esconderijo último da verdade – a cadência íntima do movimento dos astros e sua relação com o tempo e o espaço. 
    Era notoriamente um tipo diferente, solitário e taciturno, pouco lhe importando, realmente, a reputação de “vencedor de Newton” e de um dos maiores cientistas da história, senão explorar os temas insondáveis que lhe davam asas ao portentoso pensamento especulativo. Não se comprazia com o dinheiro da consagração, tendo inclusive partilhado os valores do prêmio Nobel com a ex-esposa e carentes de casas filantrópicas. 
    Desejando passar o resto da vida apenas a proferir suas aulas ou, tranquilamente, debruçado sobre insólitas investigações científicas, certo dia despertou estarrecido com sua imagem, um tanto irreverente, de língua pra fora, estampada em jornais de todo o planeta. 
    Exasperado, depois de tamanha popularidade, não podia mais fazer o seu costumeiro passeio diário pelas ruas, sem ser abordado por fotógrafos, repórteres e caçadores de autógrafos, enquanto no modesto apartamento de Berlim chegavam todos os dias, pacotes e mais pacotes de cartas, endereçados por gente de todos os lugares, não somente pesquisadores e expoentes, eis que a humanidade lhe convertera no gênio do século. 
    “Agora que se demonstrou, comprovadamente, a exatidão de minha teoria da relatividade”, comentou entre alunos, num singelo e irônico desabafo, “a Alemanha vai proclamar que sou alemão, e a França vai dizer que sou cidadão do mundo. Se se provasse falsidade nas minhas idéias a França diria que sou alemão, e a Alemanha logo me chamaria de judeu”. 
    Certa feita, convidado pela rainha da Bélgica, sem imaginar que um Comitê de recepção da Corte iria esperá-lo na estação de Bruxelas numa pomposa limusine, desceu do trem, com a velha pasta numa das mãos, se dirigindo a pé ao palácio real. 
    Os dignitários reais avistaram então o vulto empoeirado de um caminhante grisalho que vinha pela estrada. 
    - Por que não usou o carro que lhe mandei professor? Indagou a soberana. 
    O homenageado olhou-a com um ingênuo e sincero sorriso. 
    - Foi uma caminhada espontânea e bastante aprazível, majestade! 
    Não pedia limusines nem semelhantes vaidades sua extraordinária viagem pela vida, como a de todo grande e notável homem, verdadeiramente sábio!


  • 06/03/2014

    A morte de Antenor Navarro


     No momento em que se afirmava a vocação de líder e homem público, revelada na conspiração de 1930, sobretudo pela ousadia, visão administrativa e intransigência de princípios éticos e morais, perdeu a vida, aos 32 anos, o paraibano Antenor Navarro, interrompendo uma ascendente e fulgurante carreira de estadista.

    Noticiado por toda a imprensa brasileira da época, o sinistro que lhe causou o passamento e também fez outras vítimas, sucedeu em abril de 1932, no litoral da Bahia, quando o avião “Savóia Marchetti”, em que viajava com destino ao Rio, então capital da República, onde pleiteava recursos para mitigar os efeitos da seca na Paraíba, tombou subitamente, adernando nas águas do Atlântico, onde restaram sobrevivos, entre outros, o ministro José Américo de Almeida e o escritor Nelson Lustosa Cabral, milagrosamente resgatados do palco da tragédia.

    “O ânimo forte que expusera o peito às balas, em 1930, teve um momento de fragilidade, ao sentir que ia ser fulminado sem nenhum heroísmo”, descreveria depois, no consabido estilo, o autor de “O ano do nego”, em capítulo intitulado “Um mergulho no abismo”, sobre a reação do companheiro de viagem, no derradeiro instante, evocando o pavor com que arrostou a abrupta e imponderável fatalidade.

    Sem pertencer a nenhuma estirpe política, nem antes haver se encarreirado pelos cargos eletivos, a indicação do jovem engenheiro, jornalista e esteta de múltipla sensibilidade intelectual, ao governo do seu estado, sem jamais o almejar, fora, notadamente, uma exceção, patrocinada pelo prestigioso general Juarez Távora, comandante nortista do movimento revolucionário, em cujas fileiras se destacara Anthenor, como prócer fardado e combativo, seduzido pelos ideais da Aliança Liberal.

    Espírito privilegiado e erudito sobressaía na índole carismática e asceta, dócil aos rigores da lei e aos sentimentos de justiça, os arrojos visionários da liderança estratégica e organizada, como sói ocorrer a notáveis dirigentes, deixando na exígua quadra de seu governo um extraordinário legado antecipatório do futuro, em favor do bem comum.

    Investido na interventoria, não houve setor da administração estadual que não experimentasse o sopro de suas idealizações, a exemplo do aparelhamento e ampliação da rede pública escolar e da malha rodoviária interiorana, os primeiros conjuntos residenciais do antigo Montepio, a edificação do hotel termal-balneário do Brejo das Freiras, o quartel da Polícia Militar do Estado, o Parahyba Palace Hotel, o campo de aviação do estado, a construção do porto de Cabedelo, para navios de grande calado, entre outras relevantes e auspiciosas listadas, minuciosamente, pela professora Glauce Burity, no mais completo ensaio historiográfico já editado acerca do operoso período governamental.

    Desaparecido no verdor dos anos, seus feitos permanecem inapagáveis, desafiando o irônico destino que, lhe permitindo, muito moço, subir tão alto, contraditoriamente, privou a terra dileta, prematuramente, da inteligência de um dos maiores paraibanos de todos os tempos.


  • 23/02/2014

    A poesia de Francisco Gil Messias


     


    Além de surpreendente bagagem humanista e literária, aos dezessete anos Francisco Gil Messias já revelava uma capacidade incomum para o exercício da arte poética e, a despeito da notória simplicidade, não lograva esconder ao punhado de companheiros do Liceu, a notável sensibilidade criadora, destacando-se como um dos mais admiráveis talentos de sua geração.

    Era a década de setenta uma época inteiramente hostil a manifestações intelectuais e artísticas, principalmente da classe estudantil, mas nem por isso se quedou submisso o jovem liceano, poeta e idealista, mostrando, nos rebentos da criação juvenil e nos discursos inflamados dos grêmios colegiais, as ardentias de sua alma transcendente e inquieta.

    O eloqüente grito de protesto, inconformação e repúdio de sua juventude pura e meritória contra as iniqüidades de uma sociedade hipócrita e estruturalmente corroída pelos mais nefastos e dissimulados interesses, ressoaria incontido por toda a vida, ora nos gestos públicos e pessoais, ora no íntimo da formidável e então inédita construção poética, mais tarde insculpida nos livros intitulados “Olhares – poemas e bissextos” e a “A medida do possível (e outros poemas da Aldeia)”, produzidos no curso de vários e meditativos anos, porém só recentemente divulgados.

    Leitor intérprete e reflexivo, grande pensador e respeitável guardião do enredo literário, ainda soam nas especulações cerebrinas de Gil Messias a dialética de um Kant e de um Schopenhauer, de um Voltaire e de um Rousseau, o romance comprometido de um Thomas Mann, de um Kafka e um Rilke, mas, sobretudo, os versos tocantes e angustiados de Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Augusto, Fernando Pessoa e Carlos Drummond.

    Aliás, foi o verso drummondiano que, particularmente, incendiou a consciência versejadora, desatando na alma sensível e introspectiva a vocação lírica e a diletante paixão pelo gênero poético, o verdadeiro instrumento de seu universo pensante. Tal como os do imortal itabirense, os seus poemas sugerem uma inelutável aversão a vaidades e orgulhos frívolos, ao medíocre e dominante interesse pelo “ter”, mas, sobretudo, certo desencanto pela vida, cheia de tormentos e angustias, entre as quais sua imperscrutável e misteriosa finalidade.

    Traz, portanto, a sua lira a marca de um poeta singular, inconformado, desde os fulgores da juventude audaz, com o dramático fenômeno existencial, uma visão livre e filosófica, cuja publicidade, em livros de alta aceitação, coloca o despretensioso autor entre as mais lúcidas inteligências da nossa intelectualidade.

    Advogado, escritor e professor a trajetória de Francisco Gil Messias é exemplo ímpar de um sublime ser humano, exclusivamente dedicado aos estudos, ao bem e ao raciocínio profundo, sem olvidar as raras qualidades herdadas pelo berço e pela educação.


  • 30/01/2014

    A arte genial de aleijadinho


     Povoada de lendas e estórias inverossímeis a obra do escultor, entalhador e arquiteto Antônio Francisco Lisboa, conhecido por Aleijadinho, devido a uma moléstia deformante, se incorporou ao orgulho pátrio, desde sua época, como uma das maiores expressões do gênio artístico de todos os tempos.

    Na há prova ou explicação mais plausível de predestinação e do inato pendor vocacional trazido, desde as entranhas maternas, pelos gênios e superdotados, do que a escultura imortal cinzelada em imagens, altares e igrejas pelo mineiro feio, pobre doente e provinciano de Vila Rica (hoje Ouro Preto), que nunca saiu do berço natal, nem angariou formação acadêmica, não leu mais que a Bíblia e uns poucos livros e, na prenda em que se notabilizou, somente recebeu rudimentares lições do pai e de eventuais mestres autodidatas.

    Depreende-se de toda a incrível produção do célebre escultor uma relação invulgar entre o criador e suas criações, o contrário, certamente, de um artista viajado e de conhecimentos universais, adquiridas em adiantadas fontes civilizatórias, onde, na verdade, devido à origem humilde e ao ambiente colonial do século XVIII, nunca colocou o pé, nem lograra incentivar o reconhecido e prodigioso talento.

    Já doente, a partir de 1796, superando milagrosamente a degeneração orgânica, esculpira obras primas indeléveis, como os Passos e os Profeta de Congonhas do Campo, construindo então um admirável santuário num recanto naturalmente circundado por montanhoso e deslumbrante vale, escolhido, hoje, entre os melhores roteiros turísticos internacionais.

    Depois de acometido pelo mal que lhe deu o nome, então perto dos cinqüenta anos, não queria ser viso por ninguém, martirizado, até a morte, pelas limitações orgânicas. Irritava-se facilmente, trancava-se em desconfianças e recalques, revelando uma conduta incoerente com o antigo temperamento alegre e efusivo.

    De má vontade e péssimo humor, fora, certo dia, atender ao chamado do governador, interessado na confecção de uma imagem de São Jorge para desfilar numa iminente procissão de Corpus Christi. Recebido com escárnio pelo conhecido ajudante-de-ordens, Coronel José Romão, que lhe ressaltara a feiúra e a deformação física, quase ia embora magoado quando apareceu o governante, contornando o vexame:

    - Peço-lhe uma imagem grande do venerado Santo para, no evento religioso, desfilar a cavalo, assim esbelto e robusto como este meu auxiliar.

    Focado pelos olhos precisos do artista, São Jorge foi assim esculpido, surpreendentemente, com o rosto do servidor indelicado, e saindo às ruas de Vila Rica, sob o riso e sarcasmo da multidão, a uma só voz, ninguém duvidou:

    “O São Jorge que ali vai, com ares de santarrão, não é São Jorge nem é nada, é o Coronel Zé Romão!”


  • 19/01/2014

    O legendário Michelangelo


     Um ícone da medicina pátria, reconhecido e consagrado mundialmente, o médico e cientista Ivo Pitangui não deixa aspecto menos curial ou menos brilhante, nos vários campos de sua brilhante e multifária atuação a dispensar o interesse de seus ilustrados biógrafos e de um universo de admiradores.

    Cientista, cirurgião plástico, professor, conferencista, escritor, essa a variação das muitas atividades com que conquistou esse mineiro, de índole arejada, benfazeja e aliciante um esmerado lugar entre os mais ilustres e respeitados brasileiros da atualidade.

    Desde a infância, revelando um singular interesse por complexas e fascinantes vertentes do saber, às custas de invulgar disposição para o trabalho, de uma paixão febril pela pesquisa inovadora e de uma surpreendente visão para o fenômeno da ciência médica, conquistou o médico ilustre, pela versatilidade a vida inteira cultivada, o conceito meritório que marca , até hoje, sua trajetória cientifica e profissional.

    Mas é, notadamente, na cirurgia plástica, essa ainda recente e desafiante especialidade da ciência de Hipócrates, onde deságua o afluente mais denso dos seus pendores, desenvolvendo geniais criações, com exímia mestria, habilidade e magia das mãos, de modo a ascender ao merecido grau de celebridade internacional.

    As técnicas revolucionárias e surpreendentes de Pitanguy e o seu bisturi, qual o buril de um Miguel Ângelo ou um Donatteli, desenhando, construindo ou reconstruindo órgãos do corpo humano, em benefício da estética ou da reparação humana, não apenas estabeleceram um marco precursor neste segmento da medicina brasileira, mas à luz dos seus avanços precursores aproximaram mais o homem, falível e mortal, da perfeição e, sobretudo, da semelhança divina.

    Ao contrário do imortal escultor Florentino que, soberbo, ao concluir seu Moisés, guardado hoje em relicário do Vaticano, a mais perfeita obra das artes plásticas produzida pelo engenho artístico humano, incitou o monumento inanimado a falar, Ivo Pitanguy fez milagres com as mãos com que Deus lhe ungiu, sem perder a consciência e o senso de simplicidade, da pureza e do altruísmo necessário ao engrandecimento da vida e da solidariedade humana.

    No currículo se destacam inúmeras homenagens e condecorações dos mais conceituados organismos e entidades da ciência médica nacional e internacional, porém a referencia de grande benfeitor, dedicado ao tratamento das vítimas do famoso incêndio do Gran Circo Norte-Americano

    em Niterói, o maior em recinto fechado já registrado no mundo, deu-lhe, afinal, o raro molde de grandiosos espíritos como o de Madre Tereza de Calcutá ou de um David Levingston.


  • 14/01/2014

    Uma literatura terapêutica


     Apesar da crescente preferência do público leitor por uma literatura do gênero trágico, absurdo ou cataclísmico, concebida, por exemplo, na trama de Albert Camus, André Gide, Vargas Llosa, Spengler e, mais recentemente, Alvim Tofler, no seu polêmico “O choque do futuro”, ainda há, no mercado livreiro, bastante e apropriada leitura para os mais diferentes estados de espírito.

    Não aconselho, por experiência pessoal, aos que desejam escapar das cadeias lancinantes da angústia, do tédio e da misantropia as obras de tão premiados e discutidos autores. E nem tampouco os versos tristes e melancólicos de Rimbaud, Edgard Alan Poe, Antero e, mesmo a despeito de toda sua genialidade, a lira bizarra do nosso incomparável Augusto.

    Nada trazem a mitigar o quadro de aflições, dores existenciais e desilusões íntimas, produzidas pela inquietude mental. Somente recrudescem o baixo astral e alimentam a sensação de incompatibilidade com a vida, de que se ressentem os envolvidos pelos tentáculos da depressão circunstancial ou duradoura e profunda.

    Ora, se realmente o caminho da felicidade está no conhecimento, conforme Bertrand Russel, não conhece depressão, como bem lembra o nosso admirável cronista e escritor Carlos Romero, “quem tem o hábito da leitura”. Melhor, portanto, nas recaídas ao abatimento psíquico e emocional, tão freqüentes na atualidade, recorrer à consolação de velhos e infalíveis textos de esperança, fé e otimismo. Inclusive os de natureza sagrada, despojados de influência ortodoxa, como os Salmos e os Cantares de Salomão, as Orações de São Francisco de Assis e de Madre Tereza de Calcutá. E ainda, na velha Bíblia, ao bálsamo eficaz das bem aventuranças e das prédicas cristãs: “Não se turbe o vosso coração” e “vinde a mim todos os cansados e oprimidos e eu os libertarei”.

    Por outro lado, essa terapia psicológica, aos amantes das letras, melhor que as publicações de auto-ajuda, produzem também as páginas aprazíveis de Saint-Exupéry, Pascal, Proust, Dickens e Marco Aurélio. Particularmente, nessa fuga, encontro lenitivo, na moral dos contos e estórias infantis, voltando às fantasias de Robson Crusoé, Viagens de Gulliver e ao mundo fascinante de Julio Verne e de La Fontaine. Ou relendo, leniente e meditativo, romances da categoria inconfundível de “A cidade e as serras” de Eça e “Horizonte perdido” de James Hilton.

    Ingressando no paraíso de Tormes, imaginado pelo escritor português, enfeitado de paisagens paradisíacas ou na filosofia lamaica do Shangri-La, entretecida de amor e solidariedade, encontramos, decerto,

    todos os filtros para a cura de mórbidos sentimentos e a restauração da saúde da alma. Literatura repousante e naturalmente terapêutica, para convalescer, recriar planos e restabelecer a crença no prodigioso dom da vida.


  • 23/12/2013

    Retratos de minha vida


     O sol já se inclinava ao poente e o quadro desenhado à nossa frente, vislumbrado de estratégico restaurante, à beira-mar do Cabo Branco, continuava a oferecer o espetáculo do oceano gemebundo, àquela hora, sob a evolução da maré alta, açoitada pelos ventos que, no mesmo empuxo, sacudiam as palhas do coqueiral eriçado.

    Olhos fitos no horizonte, ora sob as águas azuis do Atlântico, ora dirigidos ao belo e referencial promontório de nossa geografia litorânea, o elegante e culto Yanko Cyrillo, sem perder o fio da meada, se deixava embalar pela “sinfonia das ondas”, em pleno delírio da sensibilidade incomum e do exercício dialético de sua formidável virtuose mental.

    A conversa, conduzida com mestria, pelo notável causer, talvez o mais completo de nosso estrelário intelectual, nimbada por inconfundível dicção e magnetismo pessoal, capturava a atenção do pugilo de amigos ao derredor, fascinados pelo brilho e fluência dos saberes jorrados, mesmo de um papo coloquial, em momento descontraído de lazer.

    Era a peregrina expressão do escritor-pensador, poeta, jurista e consagrado orador, se agigantando, como sempre em qualquer roda informal ou auditório solene, a cada referência do próprio cabedal ou de outros príncipes da dinastia literária e, até mesmo, pela não rara imitação vocal, cheia de graça e humor, encenada com a recordação de ilustres e antigos personagens do meio forense local.

    Presentes ao farnel espíritos como Romain Roland, André Gide, Somerset Maughan, Bilac, Guerra Junqueiro, Augusto e Castro Alves, eis que, dado momento, entra ao convívio entusiasta, o irônico e irreverente Voltaire, filosofo, poeta e dramaturgo, da particular e cultivada predileção yankiana, tão satírico e galante quanto nos salões imperiais franceses dos tempos de Luís XV, a destilar suas verrinas, recitado pelo grande e estiloso apreciador.

    Foi quando, sem tergiversar da filosofia zombeteira do imortal autor de “Cândido, ou O Otimismo”, porém ainda tocado pelo visual do mar, indaguei: Mestre, tendo você andado por quase todo o mundo, qual bela praia supera, em maravilhas naturais, a nossa Tambaú?

    - Nenhuma, sem qualquer ranço de bairrismo ou desmedida exaltação telúrica. Nenhuma outra tem, assim, um recorte simétrico, num incomparável conjunto de enseadas de águas mornas, límpidas e azuladas, sob uma plataforma, pavimentada pela natureza, sem pedras nem depressões, com gradual inclinação e perfeita balneabilidade.

    - Uma verdadeira e inigualável piscina natural, presente dos céus, essa orla, pouco avaliada por seus beneficiários, cujas lindezas, indiscutivelmente, não as encontramos no Caribe, na Côte d’Azur, na Costa

    Malfitana, nas Filipinas, nas Ilhas Gregas ou noutros pretendidos paraísos turísticos, concluiu, convictamente.

    Um encontro lúdico e memorável, guardado para sempre, como os melhores retratos de minha vida!


  • 17/12/2013

    As mulheres e a desculpa de Bernard Shaw


     As mulheres não são em nada inferiores ao homem. São apenas diferentes. O passado retrógrado não lhes oferecia, em muitas civilizações, chance de exibir as qualidades necessárias às posições relevantes na sociedade, onde viviam como criaturas submissas e discriminadas, até no seio familiar.

    Hoje, depois de longo percurso pela conquista de direitos políticos e sociais, lograram a igualdade a que se reportam as leis constitucionais de quase todo o mundo. Dessa feita, invadiram – e com que vantagem – todos os campos profissionais, inclusive os arriscados e periculosos, outrora, tipicamente, reservados à presença masculina.

    São advogadas, juízas, médicas, engenheiras, professoras, jornalistas, de reconhecido e brilhante desempenho nas carreiras abraçadas, ao estimulo da equidade assegurada pelos tempos hodiernos.

    São elas, na verdade, mais honestas, responsáveis e operosas do que nós e possuem, diferentemente, infinita capacidade de amar fiel e sinceramente. Resignam-se com situações difíceis, embelezam o ambiente de convivência doméstica e profissional, lidam melhor com o público e, se necessário ou por opção, cultivam inflexível espírito de sacrifício e de renúncia.

    Tais atributos, entretanto, não concorreram historicamente, decerto, pelos motivos lembrados, ao aparecimento de celebridades femininas, afora Jane Austen, Gabriela Mistral e Emily Bronte, pelo menos na literatura clássica. Dizem que alguns romances de Machado foram concluídos por sua amada Carolina. E, nas ciências, fala-se da inteligência ímpar da matemática Mileva Maric, primeira mulher do grande Einstein.

    Heroínas também são raras, como Joana D’Arc imolada viva numa fogueira, e a brasileira Maria Quitéria, destemida guerreira de nossa independência. Estadistas fulgurantes, no entanto, bem que encontramos: Cleópatra, Vitória da Inglaterra, Catarina da Rússia, Golda Meir e Indira Gandhi, Margareth Thatcher, Corazón Aquino, Eva e Isabelita Perón e, na atualidade, Angela Merkel e Cristina Kirchner e a nossa voluntariosa presidente Dilma.

    A bela dançarina Isadora Duncan foi a primeira insurgente contra o preconceito da exclusiva iniciativa masculina para início da relação amorosa, no começo do século XX. Fascinada com a genialidade de George Bernard Shaw convidara o admirável pensador a um encontro íntimo, imaginando que da cópula poderia resultar o nascimento de um verdadeiro super-homem, isto é, uma criança com a inteligência do ilustre irlandês e com a sua sedutora beleza física.

    A transa, afinal, não acontecera ante a recusa do celebre cantado, receoso do contrário e sob a irônica desculpa, segundo a qual o bebê poderia nascer com a sua “beleza” de barbarrão e a “inteligência” da fogosa beldade!


  • 10/12/2013

    Lobato e o nosso petróleo


     Assim como Tiradentes sonhou com uma nação livre, Benjamin Constant com um regime republicano no país, Luís Carlos Prestes com um Brasil mais justo e igualitário, também Monteiro Lobato figura entre os nacionalistas históricos, com o ideal da soberana exploração do nosso petróleo, exclusivamente pelos brasileiros.

    No entanto, os atuais e inflamados debates, nos meios políticos e científicos, e a expectativa atual da sociedade sobre a recente descoberta de uma inimaginável reserva do precioso óleo mineral, no subsolo do mar territorial brasileiro, ainda não acenderam os ânimos por uma campanha com o alcance da intitulada “O petróleo é nosso”, com que o autor de “Urupês” sacudiu o país, no governo Vargas, resultando na criação da Petrobras.

    A estatal destinada, inicialmente, a monopolizar e garantir a auto-suficiência da valiosa matéria prima, com investimentos próprios do capital nacional, descaracterizou-se, entretanto, disfarçadamente, ao longo dos anos, pela inesperada interveniência e participação do braço empresarial estrangeiro na sua extração e mercantilização, desvirtuando, afinal, a grande causa do visionário tabaréu paulista.

    Lobato foi um super excelente espírito de sua época, defendendo projetos políticos e progressistas somente comparáveis aos do barão de Mauá, no império, enchendo todo o espaço disponível deste país, então rarefeito de figuras geniais. Notável criador da literatura infantil, ensaísta e polemista temido, tradutor e primeiro editor brasileiro, imortalizou no cenário épico o seu caricato Jeca Tatu, um ironizado protótipo do nosso rurícola, esmagado pelo latifúndio e, segundo célebre discurso de Rui Barbosa, abandonado pelos poderes públicos à mais infanda miséria.

          Contudo, foi o combate a evasões de nossas inestimáveis jazidas petrolíferas, a maior agora revelada ao mundo e encravada no leito geolítico do Atlântico, como opulento colar da costa nordestina, o supremo ideal de sua vida e da luta, sobretudo jornalística e panfletária, em razão da qual suportara toda a sorte de desditas pessoais, inclusive a prisão política sob injustas e injuriosas acusações.

    É possível que à falta de um grito rebelde e inconformista, tal qual o de Lobato, há sessenta anos, a ambição de multinacionais do gênero e o olho grande de nações economicamente poderosas, compactuadas com o frouxo regime gestor de uma Petrobrás servil, deserde o povo brasileiro, definitivamente, como acontecera com o pau-brasil, as minas de ouro e prata da colônia e a riqueza vegetal amazônica, desta última e exuberante herança da natureza, adormecida no fantástico reservatório do chamado pré-sal, que supera, de longe, comprovadamente, segundo a palavra da exímia tecnologia, as maiores e mais produtivas regiões do ouro negro no planeta. 

    Deus salve o Brasil! “Não verás nenhum país como este!”.


  • 04/12/2013

    O quadro que Pedro não pintou


     Considerado nos meios artísticos e culturais, e mesmo pelo povo brasileiro, como o grande e genial pintor de inigualáveis telas sobre a nossa independência e soberania política, pesa em desfavor de Pedro Américo a pecha de apatia pelo torrão natal, algo, realmente, perceptível na biografia e obra do prodigioso paraibano.

    De fato, embora marcado pelos sofrimentos da infância pobre, por onde passou, inclusive nas peregrinações pelo Velho Mundo, deixou o indimensível artista o sinal indelével de seu talento, retratando alusivos personagens e feitos históricos, porém não o fez, curiosamente, apenas em relação à terra de origem.

    Observadamente, não se tem notícia, por toda a aclamada carreira, de nenhum quadro ou gravura, sob sua assinatura, que recorde ou enalteça a Paraíba, os seus belos e inefáveis campos, os hábitos e costumes de sua gente ou, quando nada, a heróica e pioneira resistência em prol da nacionalidade, liderada por Vidal de Negreiros.

    Diferentemente de ícones da latitude de José Américo, José Lins do Rêgo e Ariano Suassuna, envolvidos pela inspiração ficcional do ambiente primitivo da existência, desapareceu completamente no glorioso areiense a sensibilidade de tamanha motivação após largar, definitivamente, o berço nativo e emigrar para a capital do país. Nunca, portanto, a paisagem colorida e vibrante dos trópicos e o fulgor incomparável do sol nordestino, que tanto impressionaram um Monet ou um Debret, reluziram na arte imortal do pincel enfeitiçado.

    Que tão amargo e insólito recalque teria produzido na alma do grandioso retratista, fascinado pelas belezas virentes da natureza e proezas da história, esse absoluto alheamento dos sentimentos telúricos, reconhecidamente, contrário ao senso comum?

    Que dizer de uma imagem de nossas paragens, focada sob tão eloqüente capacidade ilustrativa, como a vislumbrada em “A batalha de Avaí” ou na figura de Joana D’Arc, em que o autor eleva ao máximo o poder de expressão da fisionomia humana, com uma cintilação invulgar nos olhos da heroína francesa, salvadora de sua pátria?

    Invejado no Brasil, por toda a elite artística de seu tempo, seus triunfos eram os de um protegido do imperador D. Pedro II, sem cujo respaldo não teria alcançado qualquer projeção, nem tampouco se firmado na Europa, onde, na verdade, estudara longos anos, mantido pelos cofres

    imperiais, respirando a atmosfera da esplendida e ilustrada civilização, num perfeito caso de transoceanismo de que fala Capistrano de Abreu.

    Cidadão do mundo, gloriado em vários países, cortejado por monarcas e presidentes, a indiferença do nosso celebrado conterrâneo aos pagos natais somente terminaria no leito de morte, quando, surpreendentemente, preferiu a sepultura na montanhosa e pitoresca Areia, manifestando, assim, um intrigante remorso pelo quadro que não pintou!


  • 30/11/2013

    Lobato e o nosso petróleo


     Assim como Tiradentes sonhou com uma nação livre, Benjamin Constant com um regime republicano no país, Luís Carlos Prestes com um Brasil mais justo e igualitário, também Monteiro Lobato figura entre os nacionalistas históricos, com o ideal da soberana exploração do nosso petróleo, exclusivamente pelos brasileiros.

    No entanto, os atuais e inflamados debates, nos meios políticos e científicos, e a expectativa atual da sociedade sobre a recente descoberta de uma inimaginável reserva do precioso óleo mineral, no subsolo do mar territorial brasileiro, ainda não acenderam os ânimos por uma campanha com o alcance da intitulada “O petróleo é nosso”, com que o autor de “Urupês” sacudiu o país, no governo Vargas, resultando na criação da Petrobras.

    A estatal destinada, inicialmente, a monopolizar e garantir a auto-suficiência da valiosa matéria prima, com investimentos próprios do capital nacional, descaracterizou-se, entretanto, disfarçadamente, ao longo dos anos, pela inesperada interveniência e participação do braço empresarial estrangeiro na sua extração e mercantilização, desvirtuando, afinal, a grande causa do visionário tabaréu paulista.

    Lobato foi um super excelente espírito de sua época, defendendo projetos políticos e progressistas somente comparáveis aos do barão de Mauá, no império, enchendo todo o espaço disponível deste país, então rarefeito de figuras geniais. Notável criador da literatura infantil, ensaísta e polemista temido, tradutor e primeiro editor brasileiro, imortalizou no cenário épico o seu caricato Jeca Tatu, um ironizado protótipo do nosso rurícola, esmagado pelo latifúndio e, segundo célebre discurso de Rui Barbosa, abandonado pelos poderes públicos à mais infanda miséria.

          Contudo, foi o combate a evasões de nossas inestimáveis jazidas petrolíferas, a maior agora revelada ao mundo e encravada no leito geolítico do Atlântico, como opulento colar da costa nordestina, o supremo ideal de sua vida e da luta, sobretudo jornalística e panfletária, em razão da qual suportara toda a sorte de desditas pessoais, inclusive a prisão política sob injustas e injuriosas acusações.

    É possível que à falta de um grito rebelde e inconformista, tal qual o de Lobato, há sessenta anos, a ambição de multinacionais do gênero e o olho grande de nações economicamente poderosas, compactuadas com o frouxo regime gestor de uma Petrobrás servil, deserde o povo brasileiro, definitivamente, como acontecera com o pau-brasil, as minas de ouro e prata da colônia e a riqueza vegetal amazônica, desta última e exuberante herança da natureza, adormecida no fantástico reservatório do chamado pré-sal, que supera, de longe, comprovadamente, segundo a palavra da exímia tecnologia, as maiores e mais produtivas regiões do ouro negro no planeta. 

    Deus salve o Brasil! “Não verás nenhum país como este!”.


  • 17/11/2013

    O diálogo de Jesus e Pilatos


     Nenhum outro episódio da história humana encena diálogo mais importante e categórico sobre a espiritualidade e a suposta vida além da morte do que o protagonizado por Jesus e Pilatos, no julgamento sumário do errante pregador e taumaturgo da Galiléia.

    Interpelado acerca de sua origem e identidade pelo frio e dissimulado governador romano, respondeu-lhe serenamente o acusado, aos apupos da turba clamante por condenação, que se fizera criatura em testemunho da verdade, corroborando, assim, toda a prédica de seu ministério, segundo o qual não era deste mundo o seu reino.
    - Eu sou a verdade! Teria asseverado, absoluta e conclusivamente, silenciando à indagação seguinte, tocante ao significado da tal verdade.


    A conversa, no entanto, revela um confronto inusitado, hipoteticamente, entre as maiores forças existentes – o poder temporal encarnado no interpelante, de um lado, e de outro, o próprio Deus, personificado em Jesus.


    Apesar de não o eximir da crucificação a ousada afirmativa permeou os séculos, irradiando-se por todos os rincões da terra. Irrompeu da Palestina por toda a Ásia Menor, subindo daí, pelo Cáucaso, para contaminar a Macedônia, Roma e Espanha até superar o paganismo mitológico Greco-romano. Converteu-se em religião de Estado, nos tempos do Imperador Constantino e, com a propagação da Bíblia, impressa por Gutemberg e levada pelos navegantes, alcançou as terras do Novo Mundo tornando-se um credo com milhões de fies.


    A narrativa dos evangelhos e um simples cotejo entre os mais venerados líderes morais e religiosos mostram, inequivocamente, que o fundador do cristianismo tem uma incomparável singularidade jamais observada em qualquer outro. Foi o único a se proclamar filho de Deus, operar milagres desconcertantes, garantir a remissão de pecados pelo sacrifício da própria vida e, extraordinariamente, ressuscitar três dias após a morte, a olhos estupefatos de contemporâneos, deixando o sepulcro vazio, diferentemente dos demais cujos túmulos ainda hoje guardam os respectivos restos mortais.


    Além disso, já agora, a própria ciência de Newton e Einstein aceita uma revisão conceitual de assertivas bíblicas diante da comprovação de eventos do velho testamento, pela descoberta de documentos, inscrições arqueológicas e vestígios naturais preservados, como os pergaminhos do Mar Morto, os poços desérticos de água potável de Abraão, os destroços da Arca de Noé e as marcas da fuga hebraica sobre o leito do Mar Vermelho. Não enseja controvérsia, ademais, a presença terrena do próprio Cristo, fora do contexto religioso, desde o registro de Flávio Josefo, o grande historiador da antiguidade.


    Evidências que, tirante o polêmico sentimento da fé, induzem à crença num ente eterno, onipotente e voluntarioso, criador de todas as coisas, exatamente segundo o modelo da cultuada verdade cristológica


  • 07/11/2013

    Os 100 anos do Eu e Outras Poesias


     Não há quem negue a centelha de genialidade que singulariza a poesia de Augusto dos Anjos e a célere escalada, nas últimas décadas, como nenhuma outra obra do gênero, do “Eu e outras poesias”, às máximas alturas da consagração literária, pelo menos, em todos os lugares de língua portuguesa.

    Nesse ponto estão de acordo dezenas de notáveis críticos de todo o país, debruçados sobre o único, originalíssimo e intrigante livro do amargurado paraibano, banido para Minas, onde na remota e fria Leopoldina, morreu antes dos 30 anos, em completo esquecimento.

    Contudo ainda causa perplexidade a aparição de uma versalhada, tão inusitada e impactante, numa das menores e mais atrasadas províncias do Brasil de cem anos atrás, tanto pelo estilo excêntrico quanto pela profundidade da temática filosófica e cientificista. E do punho não de um intelectual prestigiado nas rodas políticas ou de um áulico palaciano, mas de um bacharel recém formado que, até a morte, só obteve o mal remunerado emprego de professor primário.

    Indiferente ao amor e às belezas da vida Augusto preferiu se colocar no meio do mundo como uma Pedra de Escândalo, a cantar a poesia de tudo que é morto. Tomou por inspiração o horrível, a tristeza e a melancolia, nas suas manifestações mais agressivas ao ser humano. Enveredou por ásperos e repulsivos caminhos ensombrados pelo susto e pelo pânico, de modo a oscilar todo o seu estro entre o desespero pela fatalidade da morte e os mistérios da cosmogonia e da composição físico-química da matéria orgânica, sobretudo com a insólita descrição de convulsos fenômenos da natureza.

    Em vários sonetos não raro se sucedem estrofes aparentemente desconexas e fragmentadas, as quais revelam, no entanto, uma unidade semântica de irrecusável e chocante sentido, o mais das vezes contrário à aversão das criaturas pelo que existe de asqueroso e horripilante, como podridões de todo o gênero, dejeções, embriões abortados, o revolver de sepulturas e de restos morais e a índole malévola do ser humano, algo, portanto, jamais visto ou encontrado na arte literária em todos os tempos.

    A par de tão estranha abordagem a ciência sob cuja égide lançou o desventurado poeta suas atrevidas hipóteses lhe retirou, afinal, a reputação de visionário, ao realizar, principalmente a partir de Einstein, descobertas e invenções, no campo da astro-física, extraordinariamente previstas e antecipadas, há um século, pelos insólitos e formidáveis versos. 

    A vertiginosa aceitação da lira augustiniana, exatamente por isso, desbordou dos meios letrados e acadêmicos para, inesperadamente, arrebatar as camadas populares, recitada pelo homem comum, inclusive das zonas suburbanas, nas feiras livres, bares e restaurantes, teatros e telenovelas triviais, em paródias sobre as trágicas realidades versejadas, simplesmente, porque caiu em cheio no gosto e na curiosidade do povo, como tudo o que tem a marca da eternidade. 


  • 30/10/2013

    Injustiças históricas


     Cristovão Colombo descobriu a América, numa incrível odisséia, navegando com três embarcações toscas, por um oceano desconhecido, mas quem deu nome ao Novo Mundo foi Américo Vespúcio, um rival fanfarrão, que chegou do lado de cá do Atlântico, na rota já percorrida, com numerosa frota, quase uma década depois.

    Essa a primeira grande e irreparável injustiça perpetrada pela história contra a memória de um importante vulto da humanidade.

    O filósofo Giordano Bruno, intrépido pioneiro contra os velhos dogmas religiosos, desfavoráveis às descobertas científicas, dos fins da Idade Média, findou queimado vivo pela Santa Inquisição e, completamente, ofuscado pela histórica dimensão atribuída a Galileu, na posteridade, como precursor da corajosa insurreição. E, no entanto, o inventor do telescópio abjurou de suas convicções, para escapar da fogueira!

    Semelhante descaso tem propalado, ao longo dos tempos, que o fantástico invento do avião é dos americanos irmãos Wright, deixando, assim, o nosso Santos Dumont em plano secundário em relação ao grande salto da ciência, mesmo tendo o genial brasileiro, publicamente, em 1901, diante de parisienses atônitos, elevado do solo, com impulso próprio, o primeiro engenho humano dirigível, num ostentoso passeio aéreo ao derredor da Torre Eiffel.

    No Brasil, o verdadeiro idealizador da Academia Brasileira de Letras não foi Machado de Assis, a quem é atribuída, até hoje, a excelsa iniciativa, mas Lúcio de Mendonça, um escritor e jornalista, quase totalmente esquecido, pela própria e legendária instituição cultural, sem cujo entusiasmo não se teria realizado, em 1897, o movimento fundador, na redação da “Revista Brasileira”.

    Além disso, é sabido que o símbolo da inteligência e erudição em nosso país não é outro senão o grande Rui Barbosa, que, realmente, deu vasta contribuição às letras, como jurista, parlamentar, ministro da República e publicista, porém ninguém dominou mais profundamente o idioma português do que o maranhense Coelho Neto, único brasileiro, autor de todos os gêneros literários, com mais de 100 livros editados em vernáculo erudito, assim considerado pelo próprio “Águia de Haya”.     

    Aqui, na terra de Augusto dos Anjos, sequer encontra o turista uma estátua de corpo inteiro, em logradouro referencial da capital, compatível com a gloriosa enormidade do poeta mais editado, lido e debatido da literatura brasileira, enquanto homenagens, antigas e de tal pompa, são vistas aos irmãos Álvaro e João Machado, políticos, notoriamente inexpressivos, responsáveis pelo exílio espontâneo e definitivo do grandioso e incompreendido vate, para o estado de Minas Gerais, onde, com o emprego de professor, morreu pobre e esquecido.

    Injustiças gritantes como estas atravessam séculos permanecendo recobertas pela versão enganosa da fama, um irreversível e imponderável fenômeno social.


  • 11/10/2013

    João Jurema


     Seu nome era falado e ouvido com respeito, entre professores e alunos, como lente da disciplina Introdução ao Direito, em cuja cátedra brilhava o saber do jurista de escol, experiente e culto, mas também, e notadamente, a mestria, em toda sua dimensão, de um vocacionado para as lides do magistério.

    De fato, logo nas aulas inaugurais do período letivo, como seu aluno, comprovei o referencial e unânime conceito a respeito de João Guimarães Jurema, no professorado de uma disciplina que interessava, vivamente, a todo o alunado, sobretudo recém-chegado aos bancos da veneranda Faculdade de Direito.    

    Bem vestido, sempre de paletó e gravata, desdobrava-se no oficio, quase sacerdotal. Postura elegante, poucas vezes erguia-se do birô para acentuar algum trecho curial da aula, a que nunca faltava, no horário matinal, proferida com voz firme e altissonante, enchendo toda a sala.

    Sacava da imaginação, com irrepreensível fluência, uma esteira de conhecimentos acumulados no curso da vida inteira dedicada às atividades jurídicas, desde o bacharelado em Recife, na renomada escola de Tobias Barreto, seja como advogado militante, consultor jurídico, seja como Procurador da República. Falando de improviso, sem consulta a qualquer nota ou compêndio, com notável riqueza vocabular, ostentava indefectível memorização ao aludir, com paráfrases completas a autores indispensáveis da matéria lecionada e dos demais ramos do direito.

    Este o primeiro ângulo, certamente devido ao ensejo privilegiado de lhe ter sido discípulo, pelo qual colecionei as impressões, ora narradas. Contudo, logo adiante, depreendi que o distinguido mestre não se limitara ao ensino exclusivamente, mas já apresentava àquela altura da vida, longa e respeitável folha de serviços públicos, nomeadamente, como Deputado Estadual e Secretário de Estado da Pasta das Finanças, na década de cinqüenta, quando, então governava José Américo de Almeida.

    Na verdade, iniciara João Jurema sua trajetória pública em Cajazeiras, a cidade natal, onde advogando no júri popular, propagou o nome por toda a região sertaneja como eloqüente e carismático orador, cheio de recursos no domínio da tribuna forense. No parlamento estadual sua voz intrépida e eloqüente se fizera inelutável na defesa da gente desamparada do campo e das povoações remotas do alto sertão.

    Iluminado pelo cariz do sucesso que envolvera toda a existência deixou o cargo de Secretário de Estado, após retilínea e incensurável gestão, para ocupar, como primeiro titular, na Paraíba, as altas funções de Procurador da República, em cujo exercício permaneceu até a inatividade.

    Íntegro sob todos os prismas, rigorosamente probo na gestão da coisa pública, sem nenhuma eiva de soberbia ou arrogância, João Jurema é um personagem raro da história da Paraíba, que deixou um modelo, ainda tão necessário, do antigo e ilibado homem público.  


  • 05/10/2013

    O genial Hildeberto


     Apesar da sombria atmosfera do repressivo regime militar, encastelado no Poder dirigente do país, era a velha Faculdade de direito da UFPB, na década de setenta, além de entidade universitária, um palco eclético e ideológico de manifestações culturais, resistente ao arbítrio contra o livre direito de pensamento e expressão.

    Em meio ao fragor desse confronto, silente e invisível, crepitava, entretanto, no âmago da classe estudantil, a chama audaz de um grupo gerado por mera casualidade e envolvido por utópico idealismo sócio-cultural, cujos nomes, mais tarde, se revelariam notórios expoentes nos campos múltiplos do direito, do jornalismo e da arte literária na sua mais genuína legitimidade.

    Essa a diferença palmar da grei entusiasta, seleta e virtuosa, a se reunir, sem calendários nem rituais, ora sob a epígrafe de Centro de Oratória Alcides Carneiro, ora sob a nomenclatura de Academia Universitária de Letras, em recintos e corredores da própria escola superior, principalmente no vetusto mosteiro de Malagrida, onde, então, despontava a presença ímpar de Hildeberto Barbosa Filho, no formidável esplendor mental de sua juventude.

    Ao despretensioso convívio se juntara, entre outras, figuras do porte de Eitel Santiago Pereira, Francisco Gil Messias, Alexandre Luna Freire, José Ricardo Porto, Antônio do Amaral, Alcides Jansen, José Aurélio da Cruz, José Adalberto Targino, Magno Meira, Everaldo Nóbrega, Hélio Silva, Levi Borges, Marconi Chianca, além do autor desta crônica memorativa.

    Eram valorosos jovens e plumitivos intelectuais sem, precisamente, nenhuma tendência político-partidária, porém apenas comprometidos com a paixão pura e incoercível pelos livros e pela reposta do saber às complexas indagações do conhecimento, que tanto inquietam o homem individual e coletivo. Uma raridade, enfim, numa época literalmente devastada pela mediocridade e submissão de movimentos fúteis e estéreis.

    Espírito irrequieto, perspicaz e sensível, favorecido por uma prodigiosa inteligência e extraordinária capacidade dinamogênica de exegese e conceituação, cultivando, desde moço, como sempre cultivou, com absoluto domínio e irretocável fluência, o exercício da palavra erudita, escrita e falada, Hildeberto, de sinceras e duras opiniões, logo maravilhou os companheiros do pugilo culturalista, afinal o cenário que se tornou o limiar da fulgurante e genial carreira intelectual.

    Isto, tanto pela profunda e variegada cultura geral, vazada em brilhantes e improvisados pronunciamentos, quanto pelas altas notas, no curso jurídico, a que chegou vindo dos pagos de Aroeiras, mediante vestibular, no qual se classificara em primeiro lugar.

    Único da turma que, logo cedo, largou a lida forense, permutando-a, pela cátedra docente, produziu o admirável e dileto convivente das calorosas e inesquecíveis tertúlias juvenis, como poeta, escritor e crítico literário, ao longo da afortunada carreira, uma vasta e consagrada obra, compreendida por mais de cinqüenta volumes, inscrevendo, assim, à luz de méritos nacionalmente aclamados e para orgulho da notável geração, o seu nome entre os maiores do gênero na atualidade brasileira.     


  • 27/09/2013

    Padre Rolim e Cajazeiras


     Ao distinguir Cajazeiras como “a cidade que ensinou a Paraíba a ler”, num de seus memoráveis discursos, poderia o incomparável Alcides Carneiro ter aludido a ministério bem mais amplo, porque, na verdade, essa obra precursora ganhou inesperado vulto, se propagando por toda a região nordestina.

    Fundada em meados do Século XIX, com nome arbóreo nativo, sobre terras então pertencentes aos pais do padre Rolim, foi na majestosa urbe, de nossos confins ocidentais, onde surdiu o primeiro e auspicioso movimento educativo e cultural do Estado, a ensinar o então bizarro gosto pelo saber e pelo conhecimento, como princípio básico da vida social e prerrogativa iniludível da criatura humana.

    Coube ao padre Inácio Rolim, um erudito missionário da Igreja, a São Tomás de Aquino e a Santo Agostinho, por D. Pedro II, cognominado de “O Anchieta do Norte”, mesmo isolado no alto e inóspito Sertão, sem o mínimo contato com os centros adiantados do País, trazer ao esquecido rincão a luz dos evangelhos e também a dos clássicos e de todas as ciências, ao longo da vida apostolar, descobrindo a extraordinária vocação didática do berço natal.

    E isto só possível através do célebre Colégio Diocesano, ainda hoje lembrado como um dos símbolos miliários da civilização brasileira, em cuja construção se empenhou o notável sacerdote, literalmente a braços com pedras e fundações, na aludida propriedade familiar, ao derredor da qual se expandira e cresceu a metrópole sertaneja.

    Poliglota, filósofo, cientista, vernaculista, senhor de uma cultura universal, jamais experimentada por outro paraibano, o renomado clérigo se devotara, por inteiro idealismo, ao magistério filantrópico, lecionando, como o fez até a morte, com as fascinações de uma inteligência invulgar, disciplinas as mais diversas, formadoras da consciência acadêmica, à época, somente ministradas em respeitadas faculdades européias.

    Em busca de tal preparo acorriam, enfim, nordestinos de todos os recantos, ávidos pela excelência dos raros ensinamentos e pelo título instrutivo e honroso, outorgado por aquela verdadeira e insólita universidade, um admirável polo educacional, no remoto, desolado e agreste Sertão do Brasil Imperial.

    Entre os que lá, no discipulado se ilustraram, figuram no registro histórico, o lendário padre Cícero Romão, cardeal Arcoverde, desembargador Peregrino de Araújo, governante da Paraíba no início do século passado, historiador Irineu Joffily, professor e magistrado Joaquim Bilhar, o herói da guerra do Paraguai Tomás Duarte Rolim, deputado provincial Joaquim Antonio Cartaxo, além de outros conceituados escritores,

    políticos, juristas e jornalistas, reconhecidamente bem sucedidos nos seus Estados originários.

    Diante de um legado de tão grave importância ao grande esteio da civilização brasileira, continua a se ressentir o historicismo pátrio de estudo compatível, relevante e mais acurado sobre a fundamental contribuição da entidade secular e seu glorioso padre-mestre e da cidade vocacionada ao estrato profundo e genuíno da nacionalidade.


  • 24/09/2013

    O talento de João Lelis


     João Lelis de Luna Freire foi, indiscutivelmente, um dos mais notáveis paraibanos do Século XX, deixando, com essa marca, um nome emblemático no meio letrado e uma obra, de caráter social e antropológico, ainda hoje, admirada por sucessivas gerações.

    Notoriedade respeitável e merecida, conquistada desde a mocidade, por méritos inatos e, precisamente, esmerada desenvoltura, naturalmente, exibida nos múltiplos campos de sua fecunda e impressionante lida intelectual.

    Pertenceu esse iluminado rebento de Alagoa Nova a uma lendária estirpe de carismáticos homens públicos, na Paraíba de 1930. Era a escola de Carlos Dias Fernandes, em plena ebulição, sob a égide da velha “A União”, onde, em sua companhia, também cintilavam João da Mata, Osias Gomes, Ernane Batista, Botto de Menezes, Adhemar Vidal, Eudes Barros, entre outros idealistas e próceres do admirável causer.

    Lelis, a exemplo dos demais, inobstante falecido prematuramente, com pouco mais de quarenta anos, percorreu brilhante trajetória como professor, ensaísta, jurista e autor de vários livros. Foi também político, se destacando como Prefeito de cidades interioranas e parlamentar, no Legislativo estadual, de verbo temido e eloqüente.

    Porém, como jornalista se elevara à todos, ao escalar o altíssimo patamar de herói, reservado a poucos, quando aceitara a temerária missão de empreender a reportagem completa do conflito armado no Município de Princesa, encravado no Semi-Árido paraibano, cujo governo, naquela quadra, se proclamava independente da República.

    Ali, no palco remoto e hostil de uma luta encarniçada, durante sete meses, testemunhara, no epicentro, horrores indizíveis, redigindo a matéria noticiosa aos clarões e estrépitos dos intermitentes confrontos, sem a mínima assistência dos recursos técnicos, meios de transportes e de segurança da atualidade. Expondo, assim, a própria vida ao sacrifício, além da prova incomum de bravura, escreveu, com respaldo no tirocínio prodigioso, um capítulo inédito e angular na história paraibana.

    Tornou-se, portanto, com a proeza jamais igualada, no posto mais avançado e intimidante, o primeiro correspondente de guerra na Paraíba, à semelhança de Taunay em relação à retirada da Laguna e de Euclides da Cunha, ao embate de Canudos, transmitindo impressões e conceitos de profundo alcance sociológico sobre o panorama físico e humano da região conflituosa. Uma densa e definitiva análise sobre o camponês nordestino, as populações campesinas e sua lancinante relação telúrica com a dura e paradoxal realidade da terra nativa.

    Passada a cruenta refrega da qual, felizmente, saíra totalmente ileso, coligiu João Lelis, anos depois e refletidamente, sem artifícios surrealistas,

    com a autoridade de personagem e testemunha ocular, o exato e completo relato da memorável conflagração intestinal, no célebre “A Campanha de Princesa”, um compêndio verdadeiramente atual e espetacular, necessário à perfeita compreensão dessa rara história de talento e heroísmo.


  • 12/09/2013

    O célebre escritor


     Uma mera e despretensiosa visão intemporal da arte literária revela que a eternidade bibliográfica dos mais prodigiosos autores, de todos os tempos, sobremaneira nos países, historicamente, civilizados, foi, cediça e notadamente, conquistada, apenas por uma única e consagradora obra-prima.

    Resultou, portanto, em qualquer época, somente de um livro incomparável, genialmente inspirado e escrito por notável e indimensível expressão da inteligência criadora, sobre curiais ou mesmo comezinhas temáticas, inerentes ao fenômeno da existência humana e suas mais desconcertantes circunstâncias.

    Vivo e influente ao longo dos séculos, esse compêndio, ímpar e inigualável, resistiu ao tempo, traduzido em várias línguas e difundido por todos os povos, em prosa ou verso, com o distinguido conceito de “clássico”, de modo a converter-se em monumento do processo civilizatório e relíquia do patrimônio cultural da humanidade.

    Com essa grandeza, milhares de anos após a sua criação, a “Ilíada” e a “Odisséia”, do poeta grego Homero, ainda despertam imutável interesse, pela beleza espiritual e sensibilidade épica. Também elencado entre os do gênero, bastaria ao obscuro Shakespeare de fins da Idade Média, pela cintilação do estilo e mestria da construção dramatológica, um “Hamlet” para lhe assegurar a imortalidade e o extraordinário renome, como insuperável dramaturgo, assim como a Oscar Wilde, o seu indelével “O Retrato de Dorian Gray”, um romance apátrido, mundialmente consagrado.

    Não fosse “A Divina Comédia”, uma das maiores e mais lidas peças das belas artes, sequer teria o florentino Dante Alighiere a devoção oracular do seu país natal, tanto quanto não a experimentariam os festejados franceses Honoré de Balzac e Victor Hugo, se lhes faltasse a chama das páginas imorredoiras de “A Comédia Humana” e “Os Miseráveis”. Igualmente, assim afastados da notoriedade um Goethe, sem a publicação de “Fausto” ou um Thomas Man, longe da magnitude de “A Montanha Mágica”.

    À falta do impactante e polemizado “O Processo”, por sua vez, recairia em igual esquecimento o notabilíssimo judeu-theco Franz Kafka. Cervantes, apesar de suas múltiplas narrativas, se tornara referência planetária, unicamente, com a sátira “Dom Quixote de La Mancha”, o mais editado volume gráfico da história, depois da Bíblia e, Tolstoi, ícone do povo russo, exclusivamente, pelo grandioso “Guerra e Paz”.

    No Brasil, Machado de Assis escreveu dezenas de romances e novelas, mas tão apenas com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, teria escrito o seu nome ao primado das letras pátrias. Lima Barreto, de outro flanco, ainda é lembrado, até hoje, somente pelo comovente “Triste Fim de Plicarpo Quaresma”, enquanto Euclides da Cunha deixou laudas e laudas, em diversos tomos do legado, porém nenhum lhe deu a memorável dimensão de “Os Sertões”, o mais fantástico enredo social e antropológico do idioma português.

    Portanto, sem prejuízo dos visíveis traços do talento em qualquer texto de sua autoria, é, comprovadamente, da chamada obra-prima, espetacularmente perpetuada, de onde vem a universal consagração do grande e genial escritor.


  • 03/09/2013

    A primazia cultural da PB


    A Paraíba sempre se destacou, mais no campo cultural e artístico que pela ceifa do seu algodão ou cana-de-açúcar, com o brilho de seus filhos egrégios e suas obras imortais, ocupando, nesse aspecto, uma comprovada e singular primazia entre todos os estados nordestinos.
    Tamanha distinção, apesar de pouco difundida e festejada, é, facilmente, aferida, pelo menos, numa comparação numérica e qualitativa de celebridades literárias, consagradas nacionalmente, desde a colonização, entre as unidades federativas da região.
    O Maranhão, por exemplo, entra no insigne páreo com Gonçalves Dias, Humberto de Campos, Artur e Aluísio de Azevedo, Catulo da Paixão Cearense, Coelho Neto, Graça Aranha e Ferreira Gullar, autores antológicos da literatura pátria. O Piauí, nenhum nome ofereceu, salvo engano, até hoje, ao cenário das letras nacionais, enquanto apenas, desse naipe, José de Alencar, Araripe Júnior, Raquel de Queiroz e Clóvis Beviláqua exibem a naturalidade cearense.
    O Rio Grande do Norte figura no cotejo com três legendas de irrecusável peso: Câmara Cascudo, Seabra Fagundes e o jornalista Gaudêncio Torquato. De Pernambuco sobressaem Joaquim Nabuco, Gilberto Freire, Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Marcos Vilaça, ao passo que Alagoas ostenta, a esse nível, os notórios Graciliano Ramos, Pontes de Miranda, Jorge de Lima e Elísio de Carvalho. Sergipe, de outro lado, elenca, tão somente, Sílvio Romero, Gilberto Amado e o filósofo Tobias Barreto. Já os baianos comparecem à liça com os fulgurantes Gregório de Matos, Castro Alves, Ruy Barbosa, Jorge Amado, Pedro Calmon e João Ubaldo Ribeiro.
    A nossa “pequenina e heróica”, da eloqüente prosa alcideana, palmilha o gramado do certame, queiram ou não, com um time de luminares bem mais numeroso e respeitado em todo o país: Pedro Américo, Padre Rolim, Epitácio Pessoa, Augusto dos Anjos, José Lins do Rêgo, José Américo de Almeida, Celso Furtado, Assis Chateaubriand, Pereira da Silva, Osvaldo Trigueiro de Albuquerque, Ariano Suassuna, Órris Soares, Flósculo na Nóbrega, Paulo Pontes, Aristides Lobo, entre outros.
    Contudo, a despeito de tão gloriosa representação de nossa inteligência criadora e de recentes e meritórias ações do governo Ricardo Coutinho, com empreendimentos como a restauração da Ponte da Batalha, do Engenho Corredor e a prevista revitalização do Centro Histórico, persiste uma flagrante dívida com a conterrânea e proeminente constelação cerebral.
    É que ainda não erigiu a prefeitura da Capital o monumento referencial à Augusto dos Anjos, de corpo inteiro, sobre alto pedestal, numa
    de nossas praças principais, nem conferiu o nome de Celso Furtado ou José Lins do Rêgo a qualquer das grandes avenidas pessoenses, tampouco instalou o museu da cidade no solar da Praça da Independência, onde morou o presidente João Pessoa, doado a essa finalidade, incorrendo, portanto, num pungente desperdício do valoroso privilégio, que tanto orgulha nossa invejável paraibanidade.
     


  • 24/08/2013

    Os 70 anos de Epitácio Pessoa


    Há exatos setenta anos expirava, em Petrópolis, num sítio encravado entre serranias, tão parecidas com as do seu Umbuzeiro natal, o paraibano Epitácio Pessoa, único, entre todos os brasileiros, que chegou ao ápice dos três Poderes da República e, ainda, sozinho, ostenta o título de “Cidadão Benemérito da Pátria”, jamais concedido a nenhum outro vulto de nossa história.
    Deputado Federal aos 25 anos, Ministro da Justiça aos 32, Presidente aos 54, no entanto, vem dos arroubos no parlamento, quando se defrontara com Floriano – o Marechal de Ferro, numa luta verbal de titãs, sua fama de tribuno impetuoso, culto e elegante. Mas também a de político íntegro, qualificado por incorruptível espírito público e, sobretudo, pela bravura cívica e pessoal invulgar com que marcou todos os atos decisivos da fulgurante e admirável trajetória até a suprema chefia da nação, a que alçou desmoronando o mitológico Ruy Barbosa.
    Além disso, foi “a patativa do norte” embaixador do Brasil na Conferência de Paz em Versalhes e também o único sul-americano, em meio século, a vestir a toga de magistrado da Corte Internacional de Haia, onde, ao brilho de suas teses, se agigantara na cena internacional, com a defesa em prol da igualdade entre os povos, da justiça social e dignidade do ser humano, então, subjugado, nos países pobres, ao látego da mais execranda miséria.
    Toda a sua vida, pelo gosto do arriscado e das atitudes temerárias, a par das fulgurações da inteligência, foi um permanente e desassombrado desafio ao perigo e até ao dolo homicida de adversários, a exemplo do episódio do Forte Copacabana, quando sob a alça de mira de canhões, no Palácio Catete, reagira, bradando, firme e determinado: “Este é o meu posto. Daqui só saio morto”. E, com igual ousadia, quando advertido da trama para assassiná-lo, na descida de Petrópolis, marchou, conscientemente, com hora marcada, ao encontro do atentado, felizmente malogrado.
    No governo epitacista, ainda convalescendo a humanidade dos reflexos da Primeira Guerra Mundial, valeu-se o paraibano da consciência nacionalista, aflorada por todo o País, para beneficiar o seu Nordeste, castigado pelas secas, com a construção dos grandes reservatórios, mesmo sob o fogo cruzado da oposição sulista, como Piranhas, São Gonçalo, Boqueirão, Orós, Coremas, entre outros, os quais, afinal, se tornaram definitivos e prôvidos focos de salvação humana e coletiva, ajudando, como ocorre até hoje, a fixar o sertanejo, pela irrigação da terra semeável no seu dramático hinterland.
    Ao término da emblemática e gloriosa carreira deixou Epitácio, em célebre relatório intitulado “Os meus haveres”, o mais impressionante gesto do formidável legado, rara prova de ética e lisura de um homem público, em cujo detalhado texto escancarou o seu patrimônio pessoal e a respectiva origem ao conhecimento geral do povo brasileiro, sem subterfúgios, nem temer vexames, numa veleidade reservada somente aos maiores estadistas da história.
     


  • 20/08/2013

    As coletâneas de Wellington


    No livro intitulado “Dona Joaquina, as normalistas e outros textos”, lançado ano passado, o intrépido e notável historiador e acadêmico Wellington Aguiar, rebuscando graves e longínquos eventos, reúne, em primorosa coletânea, seletas crônicas, divulgadas pela imprensa, desmistificando, entre outros temas, a versão oficial e lisonjeira sobre notórios episódios e personagens da história.
    Além de reacender, portanto, irresolutas e impactantes controvérsias no campo da historiografia, o compêndio realça tipos, costumes e fatos esfumados pelo tempo, resgatando-os da negligente e passional narrativa de historiadores épicos, comprometidos, o mais das vezes, com interesses servis e até inconfessáveis, perante políticos influentes e potentados dos respectivos tempos.
    Nesse tom, assevera o ilustre e incombatível escritor, por exemplo, que a nossa martirizada Branca Dias, condenada à fogueira da inquisição clerical, no século XVI, não passa de mera fabulação de imaginosos e delirantes literatos locais como Carlos Dias Fernandes J.J. Abreu e Ademar Vidal, pois, de fato, nunca existira, conforme sóbrios e verossímeis estudos, inclusive nos arquivos da Torre do Tombo em Lisboa, por um dos maiores e mais ilustrados pesquisadores brasileiros da atualidade.
    Entre outros vultos enfocados, arrosta D. Pedro II, um monarca ainda hoje venerado, severa diatribe da pena realista de Aguiar, segundo a qual era o magnânimo e indolente imperador um inequívoco imobilista, inculpado pelo atraso secular de um país, praticamente, iletrado e ainda escravagista, em fins do século XIX.
    A antologia é enriquecida, além disso, por um sincero panegírico a ilustres biografados e seus feitos em prol da Paraíba, sempre numa linguagem tersa, sem adjetivação graciosa, mas, sobretudo, com a necessária e criteriosa dosimetria do senso crítico indispensável a um verdadeiro cientista da história. João Pessoa é focalizado sob os mais diversos aspectos, principalmente como estadista e político emblemático, líder do inusitado processo de mudança estrutural do poder, na Paraíba, a partir de 1928, com a ressalva de haver o seu nome contribuído sensível e potencialmente para o renome do turismo em nossa terra.
    Contudo é a projeção da ousadia feminina o que traz algo de novo e sensacional ao florilégio, reportada em dois espetaculares episódios, um alusivo à pioneira e entusiástica participação das alunas normalistas no movimento revolucionário de 1930, outro referente ao propósito com que uma viúva, dona Maria Joaquina de Santana, após anos de preparação, sozinha, num ato de ousadia invulgar, protagoniza a desforra pelo assassínio covarde e hediondo do marido, um herói paraibano da confederação do Equador, abatendo o criminoso, convencido da impunidade, a tiros de bacamarte numa emboscada.
    Livro fundamental e corajoso, esse de mestre Wellington, tão cheio de ardentes paixões, quanto de nuas verdades e desafiantes contraditas, de cujos textos podem os leitores, naturalmente, inferir, com exigência culturalista, a genial expressão de Oscar Wilde, segundo a qual todos sabem fazer história, mas só os grandes é que sabem escrevê-la.
     


  • 09/08/2013

    Ética e honorários


     Na imaginação de alguns incautos o advogado hábil e exitoso é aquele cujos meios empregados na defesa da causa, mesmo ilícitos ou insidiosos, ao arrepio da ética, da lealdade processual e da própria lei, resultam, a toda sorte, no sucesso da demanda sob seu patrocínio.

    Logo cedo, quando ingressei nos prélios da profissão, lá por meados da década de setenta, constatei, surpreso, importar mais a certos colegas, insensíveis e inescrupulosos, a esperteza com que, induzindo o juiz a erro, mediante a prática de atos solertes e dissimulados e da chamada rasteira no patrono adverso, logravam “proveitoso” resultado da deplorável e aventureira chicana forense, corroborando a equivocada impressão.

    Era perceptível, nestes casos, o ajuizamento adrede e premeditado da lide temerária, em detrimento da parte antagônica, e mais grave, a presença facinorosa da colusão, isto é a transgressão ética pela qual o processo judicial, instaurado, intencionalmente, se constitui numa farsa, mero pano de fundo, com supostos e acumpliciados litigantes, colimando o alcance de escusos fins comuns. Tudo feito despudoradamente, sem nenhum sentimento de remorso pelo confiante mandato das partes, lesão a terceiros, eventualmente, envolvidos e pela própria boa-fé do julgador sentenciante no feito.

    Terrível desilusão causava ao iniciado idealista como os autores de tão censuráveis “façanhas” chegavam a se vangloriar, alto e bom som, nos corredores do próprio Fórum, narrando, sem qualquer cerimônia, a desfaçatez perpetrada, não raramente, exibindo à mão o produto ilícito, ostentosamente tirado do bolo.

    Não calhou, entretanto, no militante novel, o exemplo pérfido, moralmente rechaçado pela força do inato caráter e da herança moral assimilada nas lições do proverbial avô e mestre Osias Gomes. Dessa quadra, ao revés, guardou o lendário modelo de uma advocacia verdadeiramente honrada, revestida por certo romantismo, pelo desinteresse mercantilista e imperioso zelo aos seus princípios éticos e disciplinares, absolutamente infensa a qualquer pretensão espúria ou compensação material alheia à devida contrapartida.

    Memorável escola, essa de que também, a esse tempo, participaram luminares dos embates forenses, alguns ainda em exercício, do porte de Yanko Cirillo, Joás e Joacil de Brito Pereira, Sílvio Porto, Roberto de Luna Freire, Paulo Américo Maia, Vital do Rêgo, Sá Leitão, Leidson Farias, Bráulio Chaves e Geraldo Beltrão, dentre outros, e, em tempos mais recuados, notáveis como João Santa Cruz, José Mário Porto, Severino Alves Aires, Otávio Amorim, Pereira Diniz, Hélio Soares, Alfredo Pessoa de Lima, Manuel Figueiredo, Agemiro de Figueiredo, Samuel Duarte e Luis de Oliveira Lima.

    Profissão liberal, obviamente, atrelada a condigna e merecida remuneração, tal como regulado pelas normas estatutárias da categoria, por sua história e permanente importância na efetiva distribuição de justiça, na preservação do estado de direito e na segurança das relações jurídicas e sociais, há de manter e cultivar, seriamente, o seu militante, uma conduta profissional irrepreensível, com absoluta e inquestionável probidade.

    É de se trazer, portanto, às gerações presentes e vindouras, comprometidas com tal legitimidade, além do ensinamento quanto à indispensável obediência aos preceitos éticos do seu exercício, também o romantismo, nunca ultrapassado, da insigne exemplaridade evocada, que, afinal, contribuiu, na Paraíba, para sua histórica dignidade.


  • 07/08/2013

    Tarcísio Burity


     Era meados do regime de exceção no governo do país, precisamente o ano de 1978, quando, inesperadamente, o jovem professor e humanista Tarcísio Burity sem o almejar, foi alçado de Secretário da Educação e Cultura do Estado ao cargo de Governador, notoriamente cobiçado pelos políticos de carreira, tendo, à semelhança de Osvaldo Trigueiro de Albuquerque e José Américo de Almeida, homens de pensamento e ação, realizado uma das mais fecundas e inovadoras gestões da história da Paraíba.

    A súbita ascensão, ao mais alto posto do executivo estadual, nunca sequer sonhada pelo distinguido mestre, de aulas magistrais e admirado por todo o alunado da Faculdade de Direito, nas décadas de sessenta e setenta, resultou de alternativa a que lançara mão o comando dirigente do governo militar, por indicação de representantes da Paraíba, principalmente o então Governador Ivan Bichara Sobreira, para desarmar o entrechoque de veteranos líderes partidários locais, nos escalões decisórios da República, cada um a reivindicar a própria nomeação, valendo-se da vigente via eletiva indireta no pleito sucessório daquele ano.

    Além disso, o “tertius” sugerido à pacificação do renhido confronto de bastidores, ostentava um renomado e austero perfil de administrador público, revelado em funções de grave responsabilidade, exercidas, anteriormente, com probidade e esmero, no Tribunal Regional Eleitoral, na Universidade Federal e na referida Secretaria de Estado.

    Sem nenhum pendor inato para a atividade político-partidária e suas intrigantes peculiaridades, devido, certamente, ao temperamento, um tanto tímido e reservado, Tarcísio Burity, com a polida educação de berço, era, sobretudo, um intelectual de ebuliente paixão pelos livros e incrível carisma professoral, dotado de peregrina inteligência e grande bagagem de conhecimentos. Na verdade, cultivara esse raro diletantismo a vida inteira, lapidado, inclusive, pelos saberes acadêmicos da civilização européia, onde se especializara, com notável desenvoltura.

    Encarou então o desafio, estimulado, entretanto, por uma impressionante dialética e o inquestionável dom da oratória, retocados na cátedra do magistério. Compensou, assim, com a sedução da palavra, a combatida e ironizada condição de “neófito” no campo político, pronunciando discursos cheios de brilho e persuasiva argumentação, ao alcance das massas populares, tanto nos palanques a céu aberto, quanto nos auditórios e recintos fechados, a lembrar o estilo de um Argemiro e de um João Agripino, deixando, nas duas passagens pela direção do estado, vasta e insuperável obra de caráter social e futurista.

    A Costa do Sol, a via litorânea, o Espaço Cultural, o abastecimento completo de águas e esgotos da capital e milhares de casas populares dos grandes conjuntos residenciais, transformados, progressivamente, em bairros, onde, hoje, vivem mais de cem mil paraibanos, têm, indiscutivelmente, a sua marca criadora.

    Esposo dedicado, pai extremoso, cidadão e homem público íntegro, decorridos dez anos de sua morte, a Paraíba ainda não lhe perpetuou a memória excelsa, com a histórica dimensão do seu legado e a reverência da posteridade aos verdadeiramente grandes paraibanos.                


  • 01/08/2013

    Ilusório orgulho


    Recente descoberta de ocultas nascentes constatou que o Amazonas não é somente o maior rio do mundo em volume d’àgua, porém também em extensão e número de afluentes, com mais de mil em ambas as margens, assegurando ao Brasil o capricho de possuir, entre outras superioridades naturais, a mais vasta bacia hidrográfica do planeta.
    A primazia mundial recentemente reconhecida, na verdade, contraria antiga e batida lição de nossa geografia escolar, segundo a qual era o Nilo do Egito o detentor dessa grandeza, além de ressaltar sua fluente navegabilidade, por todo o curso, em todas as épocas do ano, o que não acontece com o rival africano.
    Elevado a essa categoria o velho e fascinante “mar doce”, a serpentear pela maior e mais densa floresta tropical existente, preserva uma vegetação hídrica única e um imenso viveiro de espécimes aquáticos, compondo incomparável biodiversidade. Afora isto, oferece, de resto, a beleza inefável dos lagos adjacentes, e de seu estuário, com o raro fenômeno da pororoca – o estrepitoso encontro das águas fluviais com o oceano – ouvido a quilômetros de distância.
    Devido ao majestoso caudal e à diversidade ecológica a hiléia amazônica tem servido, até hoje, de principal motivo de nossas parolagens acerca da suposta e insuperável riqueza ambiental brasileira. De outro lado, no cenário internacional, continua sendo considerada zona remanescente de uma fauna e uma flora singular sob cujas matas repousam inexploradas e cobiçadas reservas geológicas, inclusive petrolíferas, comprovadamente encontradas no Alto Amazonas.
    Certamente a opulência em potencial desse vasto quadrante das terras brasileiras, tido como “o pulmão do mundo” e conquistado a oeste do meridiano de Tordesilhas dos vizinhos sul-americanos, pela habilidosa diplomacia colonial, guarda infinitas preciosidades, acima de qualquer cálculo estimativo, mesmo em trilhões de dólares.
    Sabe-se, pelo menos, da exuberância ali predominante, nos reinos vegetal, animal e mineral, de belas aves e criaturas ainda não classificadas, incontáveis plantas medicinais, da miríade de metais nobres, inclusive ouro e prata, ainda intactos e de todo um cabedal ímpar da natureza, no seu mais estuante e pomposo espetáculo.
    Além disso, todos sabem que, apesar do descontrolado e lancinante desmatamento, sobretudo pelo braço estrangeiro na exploração mercantil da matéria-prima, exportada, a mancheia, por multinacionais da indústria resinal e farmacológica, a nossa selva ainda pode contribuir para salvar a humanidade do cataclísmico aquecimento global.
    Contudo do ponto de vista utilitário e sócio-econômico, essa Canaã dos novos tempos, quase totalmente devoluta, verdadeiramente nossa há séculos, em nada contribuiu para melhorar a vida do brasileiro ou mitigar a pobreza, a miséria e a desigualdade social de nosso povo, senão para inflar um peito patriótico de ilusório orgulho, exatamente aquele dos encantos do futebol canarinho e das escolas de samba do nosso animado carnaval.
     


  • 24/07/2013

    O fatídico 26/07/1930


    Chamado muito cedo a palácio o jovem auxiliar apressou-se a atender à convocação do presidente João Pessoa, cioso de suas responsabilidades de porta-voz do governo e integrante de sua cúpula, por dirigir um jornal oficial, o de maior circulação do Estado, naqueles dias de grave e acirrada turbulência política.
    Era 25 de julho de 1930, véspera da morte do governante, abatido, oportunistamente, em Recife, pelo advogado João Dantas, quando distraído e indefeso, compartilhava, com amigos, um chá na confeitaria Glória.
    A capital amanhecera em franco rebuliço, com inflamados grupos de liberais e perrepistas, em manifesto confronto verbal nas ruas e esquinas do centro, principalmente sob o impacto das últimas medidas do governo.
    No gabinete, após cumprimentos, disse-lhe o presidente, em tom informal, porém de comando:
    - Dr. Osias, vamos continuar o ataque veemente, sem tréguas e sem perdas de oportunidades, principalmente, sob a prova de documentos autênticos, os quais são verdadeiros recibos da sordidez de que são eles capazes... Essa gente não tem a mínima autoridade moral prá se insurgir contra o governo!
    - Mas presidente, não acha que a publicação das cartas, às mãos de V.Exa., foi algo muito afrontoso porque violou o sigilo de uma correspondência pessoal. Afinal, já usamos uma linguagem panfletária, excessivamente, violenta, considerando que “A União” se trata de um jornal oficial – ponderou o diretor, com os olhos fitos no estadista, a quem era, decididamente, fiel e solidário.
    - É, mas é necessária. Guerra é guerra - redarguiu-lhe o presidente e completou: - Precisamos mostrar, visceralmente, o tipo de gente que, injustamente, nos atassalha e qual o destino que tem dado aos recursos federais na Paraíba, desviados para fins políticos e compra de armas, em criminoso e venal prejuízo dos interesses do povo.
    - Tenho receio, presidente, sinceramente, de que a publicação de tais cartas, encontradas pela polícia no escritório de um correligionário dos adversários, o Dr. João Dantas, tenha sido a gota d’água, com o sacrifício de nossas vidas, responsáveis direitos pelos acintosos gestos de ousadia – atalhou Osias.
    Assinados os papéis do despacho, João Pessoa acrescentou: – Sei que não se trata de tibieza sua, pois antes de lhe confiar a direção do jornal
    tive plena ciência do seu talento e coragem prá enfrentar esse desafio, por isso sei que estas palavras revelam somente fiel preocupação com minha vida, pois afinal, sou o único responsável por todas as eventuais conseqüências.
    E, quebrando a seriedade, com fisionomia descontraída, disparou, gracejando, surpreendente: - E quer saber de uma coisa, Dr. Osias, nesta luta eu mato ou morro, ou seja, corro pro mato ou corro pro morro...! Noticie amanha a minha viagem a Recife, ressaltando, porém, que regresso sem demora.
    Esta história contou-me, mais de uma vez, meu avô Osias Gomes, sempre impressionado com a coragem e determinação do dirigente e sua indiferença aos perigos da contenda, mesmo num momento crítico, a ponto de brincar com as ciladas soezes do destino, jamais acreditando no iminente e trágico desfecho.