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Colunas de Ramalho Leite

Ex-deputado e jornalista


  • 16/05/2017

    Como se fazia um senador


     Tudo remonta a Roma, inclusive o Senado. O nome vem do latim. Sen,senex,senior que, etimologicamente, significa velho, idoso. Entendia-se, então,  que os mais idosos seriam os mais sábios. Aqui se entendeu que eles deveriam ser os “mais sabidos”. Da mesma origem, vem a palavra senilidade.

    Na sua verve, Dorgival Terceiro Neto costumava dizer que, para ser senador era preciso já ter feito três operações: cataratas, próstata e hemorróidas. Os tempos mudaram e o Senado já aceita até não operados de fimose. Mas, mesmo diminuindo a média etária dos seus membros, a chamada&nbs p; Câmara Alta continua a ser aquele “paraíso” batizado pelo senador Geraldo Melo(RN).

     

    Os oligarcas da República Velha mantinham-se sempre no exercício do mandato de senador e, da metrópole, impunham sua vontade aos seguidores que ficavam na província aguardando as ordens. Na antiga Parahyba foi assim até 1915 com o predomínio de Álvaro Machado e desde então, até  1930, com Epitácio Pessoa. Ambos moraram sempre no Rio e, esporadicamente, foram obrigados a visitar seus conterrâneos.

    No ano de 1904 governava o nosso Estado o desembargador José Peregrino de Araujo e a eleição do seu sucessor já estava marcada para o dia 22 de junho. O presidente gostaria de eleger seu chefe de policia, Semeão Leal que, todavia, só  completaria 30 anos, idade exigida para o cargo, no dia 11 de maio. Reformou-se a Constituição para conceder elegibilidade ao preferido do governo. 

    Peregrino  alcançou seu objetivo mas, enfrentou e venceu insistente campanha da imprens a capitaneada pelo valoroso jornalista Artur Achilles no seu “O Commercio”. Semeão tornou-se, de direito, elegível, mas faltava ser acolhido pela vontade do chefe da oligarquia alvarista, o próprio senador Álvaro Machado, que se sentiu desprestigiado com a indicação de um governante à sua revelia. Foi obrigado a visitar a Parahyba para resolver esse imbróglio.

    A vontade do chefe era uma vontade de ferro. O comando foi exercido com tanta perfeição que o próprio Álvaro foi escolhido sucessor de Peregrino. Semeão teve que  se conformar em ser o primeiro vice-presidente, mesmo sem a confiança do titular. A solução, mesmo satisfatória por restaurar a autoridade do chefe, não era do seu agrado. Para ele, o bom mesmo era viver no Rio e ter uma cadeira no Senado, mandando de lá as suas determinações.

    E passou a agir com esse objetivo. Sem ferir a Constituição ou a lei eleitoral, foram realizados três pleitos extraordinários assim motivados: quando assumiu o Governo, Álvar o abriu vaga no Senado e para o seu lugar elegeu o seu alter ego monsenhor Walfredo Leal que era deputado federal. Para a cadeira  de deputado foi eleito Semeão Leal e, em conseqüência, abriu-se a vaga de vice, na qual foi entronizado o Monsenhor Walfredo.

    Para a vaga de Walfredo no Senado, foi novamente eleito o próprio Álvaro, que retornava em menos de um ano ao seu mandato senatorial e  ao seio da família que nunca desejou morar na Paraíba. Para Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo,” na Velha Republica esses arranjos eram freqüentes, se bem que não edificantes”.

    Na Nova República, nascida após a revolução de 1930, as coisas não mudaram muito. Houve até quem proclamasse que “houve apenas  uma troca: os carcomidos velhos, pelos novos”. Os arranjos políticos do tipo acima narrado voltaram a se repetir. O exemplo que escolhi teve como protagonista o jornalista e empresário midiático Assis Chateaubriand.

    Em 1945 a Paraíba mandou para o Senado Adalberto Ribeiro e Vergniaud Wanderley. Em 1947, a terceira vaga foi preenchida por José Américo de Almeida e, eleitos os suplentes dos três: Carlos Pes soa, Antonio Pereira Diniz e Epitácio Pessoa Cavalcanti, filho do presidente João Pessoa. Chatô, “o Rei do Brasil” como foi consagrado na obra de Fernando Morais, queria ser senador, mas não existia vaga.

    Sua força era grande perante Getulio Vargas. Conseguiu que o senador Vergniaud Wanderley fosse nomeado ministro do Tribunal de Contas da União. Seu suplente, Pereira Diniz, então deputado federal, preferiu permanecer na Câmara mas foi compensado com um cartório no Rio de Janeiro. Para preencher a cadeira de senador pela Paraíba, foi realizada uma eleição suplementar em 1952.

    Chateaubriand foi candidato único, tendo Drault Ernani como suplente . Obteve cem por cento dos votos válidos e tornou-se nosso represente no Senado. Na Velha República, como na Nova, era assim que se fazia um senador.

     


  • 01/05/2017

    ‘Os boêmios cívicos‘


    Como eles trabalhavam até altas horas, “desvirginando a madrugada” como diria no futuro o nosso Gonzaquinha, Getúlio Vargas os apelidou de “boêmios cívicos”. Era a Assessoria Econômica, capitaneada por Rômulo de Almeida e da qual faziam parte ainda o sociólogo Jesus Soares Pereira e o paraibano Cleanto de Paiva Leite, além de outros igualmente talentosos e que se demorariam ainda muito tempo servindo à Pátria na área do desenvolvimento. Foi dessas cabeças pensantes, reunidas por Getúlio em quase sigilo, que surgiu o projeto de criação da Petrobrás, com esse acento agudo retirado mais tarde. “A Assessoria foi uma solução informal e muito imaginativa do presidente Getulio Vargas para escapar do cerco político ao qual ele tinha sido obrigado na escolha dos ministros”, conceituaria Cleanto de Paiva Leite.

    A Assessoria Econômica previa que o investimento da Petrobras alcançaria o triplo do gasto em Volta Redonda, esta, produto de negociação de Getulio com os americanos em troca da participação do Brasil na segunda guerra. A proposta original previa a criação de uma sociedade de economia mista, com a União proprietária de 51% das ações, e permitindo que o restante fosse composto pelo capital privado, com a concessão de 10% às mãos de estrangeiros. A UDN, partido em oposição ferrenha ao governo, sempre defendera essa participação do capital privado nas empresas estatais, mas diante do projeto de Getulio, passou a chamá-lo de entreguista e abraçou o monopólio estatal.

    Depois de mais de dois anos de discussões acirradas no Congresso, finalmente, a empresa foi criada, e reservado o monopólio ao estado brasileiro. A UDN, històricamente, se arvorou em “mãe do monopólio da Petrobras”, pois da sua bancada surgiu a formulação finalmente aprovada. O resultado, porém, nasceu da astúcia política de Getúlio, segundo conta o cearense Lira Neto, um dos principais biógrafos de Vargas.
    Lastreado em informação de Tancredo Neves, Lira conta que certo dia Getulio mandou chamar alguns parlamentares ao Catete. Entre eles, o próprio Tancredo, o baiano Antonio Balbino e o gaúcho Brochado da Rocha. Getúlio lhes confessou que sempre fora favorável ao monopólio estatal do petróleo. Todavia, temendo que sua proposta fosse derrubada por mera pirraça da oposição, preferiu esperar que “algum parlamentar mais neutro propusesse uma emenda”. “A malícia do presidente era realista”, diz Tancredo. “Os parlamentares da Uniao Democratica Nacional passaram a apoiar a tese do monopólio estatal do petróleo”.

    Getúlio não poderia prever, porém, que do final do século passado e antes de chegar à segunda década do seguinte, a empresa que criou para prospectar, refinar e comercializar petróleo, em terra, e em mar revolto, fosse atacada por um verdadeiro tsunami. Mãos inidôneas que não se sujaram de óleo, foram contaminadas pelo vírus da corrupção, sugando o produto mais valioso do povo brasileiro.

    Quem foi contaminado, está identificado e vai pagar pelos prejuízos causados à nossa maior empresa estatal. Os crimes apurados não podem, todavia, servir de motivo para a derrubada de um governo legitimamente constituído. Na democracia, quem manda é o voto. É pelo voto que o eleitor exerce sua cidadania, elegendo, ou derrubando quem elegeu.


  • 10/04/2017

    Os jovens turcos


    A queda do Império Otomano e a fundação da república turca teve como líder Mustafá Kemal Ataruk, militar graduado, revolucionário e primeiro presidente da Turquia. Antes, porém, ganhou renome com sua atuação na primeira guerra mundial. Lutou ao lado dos alemães e foi derrotado pelas forças aliadas. A partir de então, passou a liderar a Guerra da Independência Turca que culminou com a proclamação da república em substituição ao Império Otomano. Na sua juventude, por volta de 1907, promovido a capitão do exército, Mustafá passou a integrar o Comitê para a União e o Progresso, cujos integrantes eram chamados de “jovens tur cos”. A chamada “revolução dos jovens turcos” alcançou algum poder e chegaria finalmente à República sob a liderança de Kemal. A notíciaDA ATIVIDADE kemaliana ganhou o mundo. No Brasil, Benjamim Constant defendia a tese do soldado-cidadão: antes de ser soldado, o militar seria um cidadão a serviço do regime republicano. Pregava a extinção das forças armadas que seriam reduzidas a atividades policiais vinculadas à ordem pública. Na oposição a ess a tese, a partir da Primeira Guerra, surgiram militares nacionalistas e defensores da profissionalização do exército. Até um jornal editavam: “A Defesa Nacional”. A essa geração de militares intelectualizados foi denominada   de “jovens turcos”. Na Parahyba, não foram os militares, mas  uma plêiade de  políticos seguidores de Epitácio Pessoa que se apropriaram do nome e das idéias  dos militares turcos e nacionais. Marcaram época e alcançaram o poder com o nome de “jovens turcos”.

    Segundo Cunha Pedrosa, deputado, senador e ministro do TCU, os “jovens turcos” paraibanos reuniram-se pela primeira vez em 1916, na Fazenda Roma, em Bananeiras, residência de Solon de Lucena. O mentor do grupo era o coronel Antonio Pessoa, irmão de Epitácio, que deixara o governo daPARAHYBA NAS MÃOS de Solon, então presidente da Assembléia. Esses jovens, a maioria egressa dos bancos da faculdade de direito do Recife, sonhava em suceder a geração que aportara na política paraibana a partir de 1880 e alcançaria a Primeira Republica. Os “jovens turcos” eram adeptos da  pregação epitacista que buscava o desenvolvimento do estado, via integração do nosso interior produtivo com o mercado  litorâneo. Essa união visava uniformizar o crescimento econômico que seria estimulado, sem dúvida, pela influência política de Epitácio no cenário nacional.Do outro lado estavam os “guelas”, assim chamados por sua preferência pela ocupação dos melhores cargos públicos.

    Os “jovens turcos”, liderados por Solon de Lucena, era ainda  integrado por Álvaro de Carvalho, que se agregara a Solon desde quando fizeram parte do corpo docente do Instituto Bananeirense. Chegou à presidência do Estado com a morte de João Pessoa. José Américo incorporou-se ao grupo a partir de 1917. Lá  estavam Celso Mariz, Demócrito de Almeida, Walfredo Guedes Pereira, o grande prefeito da Capital na gestão de Solon, João Suassuna, ANTONIO PESSOA FILHO e outros menos conhecidos. Há quem defina os “jovens turcos” como um grupo de doutores do litoral que se opunha aos coronéis do sertão. Para Fernando Nóbrega, porém, essa hipótese se desmerece a partir da identificação que faz dos jovens turcos: José Parente, do Piancó; coronel José Pereira, de Princesa; coronel Targino Pereira, de Araruna; Benedito Queiroga, de Pombal; Solon de Lucena, pelo litoral e brejo; Celso Mariz, pelo sertão.Essa funalização expressa pelo ex-secretário de Suassuna sugere mais uma adesão dos coronéis ao grupo, quando este passou a dominar a política paraibana, a começar do governo de Solon de Lucena até Álvaro de Carvalho, passando pelo João, que era mais Pessoa do que turco. José Américo só chegaria ao poder após a revolução de 1930 e por eleição, na memorável campanha de 1950.

    Os “jovens turcos” começaram a ocupar cadeiras no governo da Parahyba  desde a gestão de Camilo de Holanda mas, hostilizados, revolveram abandonar o barco, deixando o governo sem deixar Epitácio. Demócrito foi Chefe de Polícia, Solon,  secretário de governo e Antonio Pessoa Filho, prefeito da capital. Menosprezados como “parentes de Epitácio”, foram atormentados por Camilo até que pedissem demissão. Camilo passou a preferir seus próprios sobrinhos aos sobrinhos de Epitácio, não sem receber deste várias reprimendas.

    Para Epitácio, Camilo no governo estaria “procedendo como não procederia um adversário.Basta notar que o seu governo só considera adversários os parentes e amigos mais íntimos, meus ou de minha família.Pelo menos só a eles trata como tais. Valfredo, Semeão,(dos Santos Leal) José Rodrigues (de Carvalho),Heráclito (chefe da oposição), para não citar senão os adversários, são cumulados de todas as deferências e favores...enquanto Solon,  Pessoa Filho, Suassuna, Carlos Espínola, para indicar também só quatro amigos, são desc onsiderados ostensivamente” (centenária carta de Epitácio a Camilo em  6 abril de 1917).

    Os “jovens turcos” Antonio Pessoa, Solon de  Lucena, João Suassuna eÁLVARO DE CARVALHO ocuparam a cadeira presidencial parahybana. Mustafá Kamel jamais imaginou que os seus “jovens turcos  teriam seu exemplo copiado nos confins do brejo paraibano, a partir da Fazenda Roma, na distante Bananeiras, onde morava  Sólon de Lucena - o maior de todos os seus filhos.


  • 29/03/2017

    O último presidente da Parahyba


    Pelo decreto número 01, de 15 de novembro de 1889, que instituiu a República Federativa do Brasil, as antigas províncias imperiais passaramA SE DENOMINAR estados. Seus gestores seriam chamados de governadores e nomeados na qualidade de delegados do governo provisório que se estabelecera sob a chefia do marechal Deodoro da Fonseca. A primeira Constituição republicana, de 24 de fevereiro de 1891, mudou a designação dos administradores estaduais para presidentes de estado. Assim, o primeiro governante da Parahyba, o juiz Venâncio Neiva era tratado por governador. Seu sucess or, o major do exército Álvaro Machado seria o nosso primeiro presidente do Estado. O último foi o intelectual e imortal, um dos fundadores da nossa Academia de Letras, Álvaro Pereira de Carvalho, que sucedeu a João Pessoa.

    Até receber das mãos de João Pessoa o cargo de presidente da Parahyba, o professorÁLVARO DE CARVALHO percorreu um longo caminho. Encontrei-o em 1908, nas páginas de “A Cidade de Bananeiras”, em um sábado festivo, participando ao lado do mestre-escola Sólon de Lucena, ambos acadêmicos de direito, de solenidade no Instituto Bananeirense. O jornal narra sua participação: ”Nesse momento assomou a tribuna o professorÁLVARO DE CARVALHO. A oração do nosso talentoso colega, além dos bens lançados conselhos sobre a responsabilidade e o objeto da educaç&ati lde;o de nosso tempo,foi um brado sincero de estimulo,uma cadeia de palavras confortantes e animadoras para os que ensinam e os que aprendem”. A platéia ouviu ainda a Solon de Lucena, sem imaginar que, em futuro próximo seriam os dois, nomes de elevada projeção no cenário político estadual. Há quem atribua a Celso Cirne a iniciativa de levar para o distrito de Moreno o professor Álvaro de Carvalho, depois, requisitado por Sólon, para Bananeiras, e com ele irmanado na caminhada que empreenderam até o fim de suas vidas.

    Com Solon de Lucena, Álvaro de Carvalho incorporou-se aos “jovens trucos”, grupo epitacista de vanguarda que acreditava na força do mercado do interior incorporando-se ao litoral, para promover o desenvolvimento do Estado. A ascensão de Solon ao governo da Parahyba levaria Álvaro ao seu secretariado e, depois, ao mandato de deputado federal, donde saiu para exercer a primeira vice-presidência do Estado. Aí começaram os seus dissabores. O crime da Confeitaria Glória iria encontrá-lo à frente do governo. Na noite anterior, João Pessoa lhe passara o cargo. De substituto eventual, tornou-se presidente efetivo com a morte do titular. Começava a gestão, que durou 70 dias, do último presidente da Parahyba. Era 26 de julho de 1930.

    Na véspera, Álvaro tentara demover João Pessoa dessa temerária viagem ao Recife, cidade infestada de inimigos. Seu irmão Osvaldo, desejava acompanhá-lo. Foi demovido da idéia, sob a ameaça, caso insistisse, de desistir da viagem projetada.O que tem de acontecer tem muita força, diria José Américo. A triste notícia chegou ao início da noite e “espalhou-se célere e, dentro em pouco, a Paraíba levantava-se desvairada como um só homem, num grito horrível de desespero e de vingança”,conta Álvaro de Carvalho. O sucessor de João Pessoa manteve todo o secretariado escolhido pelo pranteado morto. E era dentro desse corpo que se tramava a conspiração que culminaria na chamada Revolução de 1930. Juarez Távora estava escondido “na casa do meu líder na Assembléia, e eu não o sabia”. Logo na manhã de 4 de outubro a Revolução fez de Álvaro a sua primeira vitima.

    Segundo José Américo, “não foi deposto oficialmente, a meu pedido.Nossas relações tinham esfriado, mas eu devia esse gesto.Pensei encontrá-lo sucumbido e estava,admiravelmente sereno, a mostrar que a hora da adversidade era também a das afirmações”. Para Álvaro de Carvalho essas “relações esfriadas” só chegaram ao seu conhecimento a partir da publicação das memórias do autor de A Bag aceira em 1948. Desde então, afastaram-se definitivamente: “Mas continuo a julgá-lo, hoje, como sempre: honesto,apaixonado,medianamente sociável para os que o procuram,agressivo para os desafetos,cheio de excelências para o seu Eu, virtude que as posições exaltaram,talvez desmesuradamente”, escreveria anos depois.

    Homem comedido e, preocupado, apenas, em atender aos reclamos da sua consciência, Alvaro de Carvalhoa não agradou aos mais apaixonados seguidores do Presidente imolado. A Revolução estava sendo tramada ao seu redor, sem que ele tomasse conhecimento de nada. Gerou-se uma agressiva desconfiança contra seus atos. Foi censurado até por designar o tratamento de Excelência ao presidente da República, a quem se queria atribuir responsabilidade pela morte de João Pessoa. Considerado, injustamente, um traidor dos ideais defendidos pelo seu antecessor, teve que se afastar na Para&iacu te;ba por alguns anos. Foi levar sua experiência de professor à juventude da cidade de Santos. Pobre a vida inteira, regressando ao Estado, conseguiu uma modesta moradia para a família através do antigo Montepio. Nessa casa da rua Artur Aquiles foram feitas as primeiras reuniões da Academia Paraibana de Letras.

    Membros do Congresso Nacional registraram-lhe o perfil, nas homenagens tributadas por ocasião de sua morte, em 1952. O então deputado Samuel Duarte, encaminhando o requerimento de pesar, destacou: “Os acontecimentos de 30 o surpreenderam no exercício da Suprema Magistratura do Estado e ele se conduziu com tal espírito de tolerância, de elevação e de patriotismo que pode conquistar a admiração de seus próprios adversários”.

    “No tumulto que caracterizou seu breve período de governo, conduziu-se o dr. Álvaro de Carvalho com inexcedível dignidade,deixando em nossa história política um alto exemplo de fidelidade aos deveres do seu partido e mais particularmente à liderança de Epitácio Pessoa”, registrou o deputado Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Mello. Para o jornalista Assis Chateaubriand, à época senador, Álvaro de Carvalho “como mentor da juventude do Liceu Paraibano, como guia político dos seus concidadãos fazia questão de ser impecável, antes de tudo, com a sua consciência”.

    Darei, afinal, a palavra, a esse grande paraibano de quem me ocupo hoje, para encerrar, neste espaço, sua pequena grande história: “Tres dias depois da Revolução, voltei ao Liceu e assumi o meu posto de professor.Deste modo,renunciei ao cargo que ocupava e à vida publica em que fui mal sucedido.Decididamente não tinha o estofo onde se talham os heróis”. ( Consultei Ademar Vidal, Osvaldo Trigueiro Mello e Álvaro de Carvalho em, “Nas Vésperas da Revolução”)


  • 16/03/2017

    O trabuco venceu a lei (1)


     Era julho de 1930. Na Capital da Parahyba, a Escola Normal e o Liceu Paraibano eram os estabelecimentos de ensino mais avançados. O estado estava convulsionado com a rebelião surgida no município de Princesa Isabel, declarado “território livre” pelo deputado e coronel José Pereira Lima. Era presidente da Parahyba o ex-ministro do Tribunal Militar, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa.

    Para combater os rebeldes, faltava ao presidente o indispensável apoio do governo federal, com quem perdera o diálogo desde a mais recente eleição presidencial, disputada e perdida por Getúlio Vargas, tendo o paraibano como integrante da sua chapa. A tudo João Pessoa r ecorria para conseguir armar sua polícia e manter a integralidade dos seus domínios, dividido pela  insurreição. As alunas da Escola Normal encetaram uma campanha visando arrecadar fundos para reforçar os cofres do estado. Foram, incorporadas levar ao presidente o produto daquela ação cívica. O diretor da escola fez, em nome da instituição, um patriótico discurso. No seu agradecimento, emocionado e penhorado, João Pessoa concluiu:

    “Deus não permitirá a vitória do trabuco sobre a lei”. Permitiu! Nove dias depois desse encontro do presidente com as jovens normalistas que o cobriram de flores vermelhas, seu corpo chegava a esta capital, coberto de flores brancas . Fora vítima do trabuco.

    A tragédia da confeitaria Glória, no Recife, foi o  estopim que deflagrou a chamada revolução de 1930, entronizando Getulio Vargas no Catete por prazo indeterminado. Dali só sairia em 1945, com a promessa de um retorno triunfal. Era 26 de julho. João Pessoa, contrariando a opinião dos que o cercavam, dirigiu-se à capital pernambucana, cidadela inimiga e acolhedora dos que lhe faziam oposição.

    Entre estes estava o advogado João Dantas, injuriado com a campanha que  o governo da Parahyba movia contra si e seus familia res, publicamente, através do jornal oficial A União e, disfarçadamente,  em ações policiais nos redutos eleitorais dos Dantas.  João Dantas procurou vingança quando soube da presença do seu inimigo no Recife. Saiu à procura de João Pessoa pelos lugares mais prováveis, encontrando-o na confeitaria cujo nome, por coincidência, escreveria a sua triste glória. “Eu sou João Dantas!”.

    Puxou a arma e atirou. “Canalha, não se mata assim covardemente um homem”, teria dito a vítima. O agressor foi rechaçado pelo motorista do presidente, recebendo um tiro superficial. Preso, réu confesso, perdeu a vida enquanto hóspede na Casa de Detenção.

    Como a Parahyba recebeu essa noticia, é tema que ocupou muitas mentes. Interessa-me contar como o restante do Brasil chorou a morte de João Pessoa. A Parahyba formou com Minas Gerais e o Rio Grande do Sul a chamada Aliança Liberal  para enfrentar a candidatura de Julio Prestes, o vitorioso governador paulista. O presidente Washington Luiz quebrara a gangorra do “café com leite”, acordo das lideranças civis com beneplácito militar, que visava colocar, alternadamente, um paulista e um mineiro na presidência da Republica. A repetição de um paulista preteriu a vez de Minas. Os gaúchos aproveitaram o ensejo para empin ar a candidatura de Vargas. Com fraude ou não, a verdade é que a chapa oposicionista Getúlio/João Pessoa foi derrotada pelos governistas.

    Naquela noite de 26 de julho, Getúlio Vargas estava com a família no Cine Central, em Porto alegre. De repente acenderam as luzes e alguém subiu ao palco e gritou: “João Pessoa foi assassinado”. Enquanto a platéia, atônita, tentava descobrir os detalhes do crime, Getúlio saía de mansinho e retornava ao palácio do governo. As informações que chegavam ao sul eram ainda incompletas, mas já adiantavam que o presidente paraibano fora vitima de um adversário político.

    No Clube do Comércio estava sendo realizado um banquete em homenagem a Osvaldo Aranha, que estava deixando o governo ga ucho para se dedicar à conspiração, evitando comprometer Getúlio. Alguém passou um bilhete para o homenageado. O jantar foi imediatamente suspenso e todos se dirigiram ao Palácio do Governo. Antes, porém, Osvaldo Aranha e outros eminentes oradores, como João Neves da Fontoura, falaram à multidão que se formara rapidamente, diante da comoção provocada pela trágica noticia.

    Osvaldo Aranha começou: “Quero afirmar aos que me ouvem neste instante que podem voltar para suas casas, certos de que não vão desonrar seus lares nem suas tradições...Está para breve a hora em que o povo do Rio Grande há de se redimir dos insultos com que o poder nos tem procurado diminuir e há de transformar o sangue de João Pessoa na ressurreição e reintegração da Republica brasileira...Mais hoje, mais amanha, será vingada a morte de João Pessoa”. Para os defensores da revolução, o difícil era convencer Getulio Vargas a dar uma voz de comando. “Vargas conservou-se, todo o tempo, hermético, como nunca”, revelaria João Neves, citado por Lira Neto.

    Virgilio de Melo Franco, político mineiro, chegou a Porto Alegre no momento da eclosão da comoção pública com a morte de João Pessoa. Foi levado à presença do presidente gaucho. A cidade estava em agitada desordem cívica. As passeatas se sucediam, os comícios eram improvisados, mas Getulio era uma esfinge. Seu silencio era ensurdecedor!.( Consultei Lira Neto, em “Getúlio” e jornais da época) (CONTINUA)

     


  • 22/02/2017

    O dia em que queimaram A União


     O presidente Solon de Lucena realizou, na Parahyba, um dos mais operosos governos de que se tem notícia, na República Velha. Também pudera! Na presidência da nação estava seu parente e chefe, Epitácio Pessoa. Este, paraibano de Umbuzeiro, aquele, de Bananeiras. O jornal  Cidade de Bananeiras, edição de 19 de junho de 1908, dá notícia da presença do mestre-escola Solon, ao lado do também professor Álvaro de Carvalho, no encerramento do semestre letivo do Instituto Bananeirense, renomada escola local que educou várias gera&ccedi l;ões. Alguns anos mais tarde, os dois professores citados alcançariam o mais alto cargo do Estado. Sólon, interinamente, na qualidade de presidente da Assembleia, entre os anos 1912-1915 e eleito, a partir de 1920 até 1924. Álvaro, após a morte trágica de João Pessoa,de quem era primeiro vice-presidente. Em setembro de 1923, por pouco, Solon não foi deposto do cargo de presidente da Parahyba.

    É essa a história que quero contar. Era um  sábado,  22 de setembro de 1923. As duas principais escolas da Parahyba eram o Liceu Paraibano e a Escola Normal, localizadas ambas na praça comendador Felizardo, hoje, João Pessoa. O monsenhor João Milanez, diretor da escola normal, visando preservar a decência de suas alunas e a manutenção da ordem pediu uma autorização especial ao chefe de Polícia, Demócrito de Almeida, para que a Guarda Civil p oliciasse a praça e impedisse os encontros dos jovens alunos dos dois estabelecimentos de ensino público. Essa vigilância foi entregue ao guarda Antonio Menezes, de número 33. Por conta própria, o padre estabeleceu uma linha imaginária, cognominada de “linha da decência”, cuja travessia era proibida aos jovens do Liceu, enamorados ou não,  das suas normalistas e vice-versa. Naquele sábado, Sadi Castor Correia Lima ao tentar aproximar-se de sua namorada Ágaba Gonçalves de Medeiros foi impedido pelo guarda civil citado.

    Da discussão entre o Guarda 33 e o estudante, surgiu um tiro que atingiu, mortalmente, o jovem Sadi, de 25 anos, que viera de Soledade estudar na capital. O monsenhor Milanez não tinha a menor idéia de que o guarda encarregado na vigilância da praça era um homem violento e com antecedentes criminais. A morte do estudante comoveu o estado e mobilizou seus colegas, revoltados com o crime, atribuído à responsabilidade das autoridades constituídas a começar do Presidente do Estado até o Chefe de Polícia e, principalmente, ao diretor da Escola Normal. Um enterro simbólico do padre, acompanhado de perto pela polícia, seguiu até a sua residência onde foi depositado o caixão fúnebre. A repercussão quase derruba o pres idente Solon de Lucena que agiu rápido e, como ainda hoje acontece, fez o pau  quebrar-se no espinhaço do mais fraco. O presidente, de imediato, exonerou o diretor Milanez  e suspendeu, por decreto, as aulas das duas escolas. Para substituir Milanez, foi nomeado o monsenhor Pedro Anísio, um conterrâneo do presidente. Um mês depois, o fato criminoso ainda em evidência, é agravado pelo suicídio da namorada enlutada.ont>

    No domingo, 23 de setembro, quando o sepultamento do estudante Sadi era realizado, os estudantes do Liceu permaneciam com o espírito alterado. As passeatas, os discursos inflamados, serviam para reavivar a ferida recentemente aberta. Ao tomar conhecimento de que a edição do jornal A União, daquele dia, “registrara de maneira agressiva e impiedosa o crime da tarde anterior”, como registra Apolônio Nóbrega, os estudantes que já haviam apedrejado a sede da Guarda Civil e transitavam em atitude agressiva perante o Palácio do Governo passaram a recolher  nos pontos de v enda do jornal A União todos os exemplares entregues à distribuição. Amontoados em praça pública, foram queimados em sinal de protesto. A Parahyba, que no passado assistira ao empastelamento e ao incêndio de jornais da oposição, a exemplo de “O Commercio”, de Artur Aquiles e, de “O Combate”, do jovem Boto de Menezes,  pela primeira vez, testemunhava uma atitude de intolerância contra seu jornal oficial. (Consultei “História Republicana da Paraíba” e “Política e Parentela na Paraíba”, de Apolônio Nóbrega e Linda Lewin, respectivamente)


  • 06/02/2017

    Princesa vista lá fora (3)


     Na imprensa de todo o País repercutiam os acontecimentos que tinham como palco o território livre de Princesa. Os rebeldes comandados pelo deputado e coronel José Pereira infligiam sucessivas derrotas à nossa briosa policia militar, aquartelada no Piancó e entrincheirada nos arredores das cidadelas ocupadas pelos pereristas. Lutando em território que conheciam com a palma da mão, os rebeldes levavam vantagem diante das tropas legais. Além do mais, enquanto o presidente João Pessoa tinha dificuldade em aparelhar suas fileiras, os rebeldes recebiam armas e munição através da fronteira com Pernambuco, onde os primos de João Pessoa, com seus interesses comerciais na Paraíba dificultados pelo parente, resolveram se alinhar com o coronel Pereira.

    Apesar das dificuldades, a PM conseguia ser armada de forma clandestina, fugindo ao cerco que o governo federal impunha à Paraíba . O jornal “A Noite”, do Rio, em sua edição de 9 de maio de 1930, publicou notícia oriunda de Princesa: “Entre o material aprehendido pela columna de Marcolino Diniz, no combate do Gavião, foram encontradas munições que assignalam aquisição clandestina feita pelo Governo do Estado e contendo os nomes e firmas que serão oportunamente divulgadas”. Segundo o noticiário, a tropa de Marcolino “destroçou  a polícia parahybana” e fez mais de doze prisioneiros, alguns deles feridos. E concluía: “ o deputado José Pereira mandou internal-os no hospital de sangue recomendando o melhor tratamento para todos”.

    O noticiário da capital da República dá conta de que o presidente João Pessoa recorreria ao Supremo Tribunal Federal visando conseguir comprar armas e munições para sua polícia. Divulgava o Diário de Notícias, em 3 de julho de 1930: “ O STF, ao que estamos informados, vae ser solicitado a pronunciar-se sobre o caso da Parahyba, porque em favor do Sr. João Pessoa será requerido um recurso judiciário, que lhe permitta adquirir armamentos e munições para a policia estadual, baseado em que cabe ao governo do Estado manter com a sua policia a ordem interna”. Na justificativa se propagava qu e o território paraibano estava convulsionado por bandoleiros e o Presidente não poderia armar sua policia em virtude dos impedimentos opostos pelo governo federal.

    A guerra era também travada nas páginas dos jornais. Divulgava-se, com ênfase, apoios recebidos pelo presidente João Pessoa e, por outro lado, as estratégias armadas para atacar Princesa. Algumas notícias tinham cheiro de terrorismo. Vejamos esta: “Recife, 9, (especial para A Noite): O deputado José Pereira recebeu o seguinte telegrama, procedente da Parahyba: “Nosso amigo Heitor Santiago acaba de informar estar inteirado de fonte official, que Princeza será bombardeada, de hoje até sábado, por um avião que se encontra em Teixeira, e que empregará gazes  asphyxiantes fabricados num laboratório allemão de Rio Tinto...Confio na altivez dos princezenses, que manterão,serenos, sua defesa heróica. Abraços (a) João Dantas”.A essa altura, o lado rebelde pressentia que João Pessoa tinha pressa em acabar com a luta de guerrilha instalada nas cercanias de Princesa, antes que um projeto de intervenção no Estado, fosse aprovado.

    O Jornal do Comercio, do Recife, pintava um João Pessoa apavorado com a iminência de uma intervenção. Publicou e mandou para a imprensa do Rio, o seguinte despacho: “Parahyba, 8, Aterrorizado com a possibilidade de uma intervenção federal, o presidente João Pessoa, procura por todos os meios, insinuar e até forçar manifestações de protesto pelo Estado, com objectivo de impressionar o povo e provocar grande repercussão em todo o paiz.Nesse sentido tem exercido forte pressão até junto aos alumnos das escolas da capital do estado, que foram obrigados a andar de porta em porta, angariando assignaturas para telegramas de protesto contra  a intervenção federal, dirigidos aos altos poderes da Republica. A todos os collegios  e escolas publicos e particulares em toda a Parahyba foram transmittidas instruções com o mesmo fim”

    As manifestações de solidariedade ao presidente, imolado alguns dias depois, entretanto, surgiam espontâneas e, até inusitadas. “O maior proprietário da Parahyba hipoteca solidariedade ao Sr.João Pessoa”. O jornal A Noite , do Rio, na edição de 3 de julho contava que o Sr. Alfredo Atahyde, que é “talvez o maior proprietário desta Capital”, acumulou uma fortuna de dois milhões de contos de reis. Procurou o presidente e disse: “com satisfação e orgulho, a um aceno do presidente João Pessoa, recolheria elle imediatamente ao Thesouro do Estado essa importância.”. As alunas da Escola Normal, por outro lado, cobriram João Pessoa de flores em visita devidamente documentada e relatada na imprensa do sul.”Parahyba, 17- Cerca de trezentas alunas da Escola Normal estiveram ontem em Palácio, onde foram entregar a sua contribuição para as viúvas dos soldados mortos em Princeza.Falou em nome das alumnas o Sr.Matheus de Oliveira, diretor da Escola, tendo o presidente João Pessoa agradecido em vehemente discurso terminando por dizer: Deus não permitirá a vitória do trabuco  sobre a lei.As alumnas cobriram o Sr.João Pessoa de flores vermelhas”...Nove dias depois, o presidente paraibano voltaria do Recife coberto de flores brancas! O trabuco venceu!(Nas transcrições,mantive a grafia da época.Obs. O Sr. Alfredo Atahyde veio a ser sogro do ex-governador Clovis Bezerra, portanto, avô do ex-deputado Afrânio Bezerra)


  • 16/01/2017

    “O PAIZ” visita o Estado


     O imigrante português João José dos Reis Junior, portador do titulo nobiliárquico de conde São Salvador de Matosinho, era o proprietário da casa número 63 da Rua do Ouvidor, no centro do Rio, onde, por inspiração de Quintino Bocaiúva, “o príncipe da imprensa brasileira” fundou e instalou “O Paíz”, jornal “independente, político, literário e noticioso”. Era primeiro de outubro de 1884. O diário adotaria diversos perfis políticos ao tempo em que, enfrentava também, dificuldades financeiras. Sobreviveu até os anos 1930. Foi grande instrumento da causa abolicionista. Atravessou a República Velha sempre ao lado do poder. Intransigente adversário da Aliança Liberal, ao chegar à era Vargas, já estava nos estertores devido à longa noite de censura imposta a partir de 1924 na gestão de Artur Bernardes na presidência da Republica. O permanente “estado de sitio” amordaçou a imprensa e deixou em situação desfavorável os órgãos que se propunham a defender o governo, como era o caso de “O Paiz”. Durante sua existência, o jornal registrou a passagem por sua redação de figuras eminentes da intelectualidade nacional, a exemplo de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Alcindo Guanabara, João Lage e Eduardo Salamone, este ultimo um veterano desde os tempos da fundação e que assumiria a chefia de redação a partir de 1891.Com sua sede invadida por uma multidão de fanáticos getulistas, e incendiada, a historia desse jornal  chega ao final com suas rotativas arrematadas em um leilão pelo paraibano Assis Chateaubriand.

    Eduardo Salamone, já referido anteriormente, redator chefe de “O Paiz”, esteve em visita à Paraíba e foi festivamente recebido pelos integrantes do jornal O Commercio, conforme noticia  em sua primeira pagina a edição de 8 de maio de 1900. A rapidez da visita foi lamentada pelo jornal de Artur Aquiles que assim dirigiu-se aos seus leitores: “ A inesperada partida do porto de Pernambuco do vapor Planeta, não nos deo tempo sulfficiente para aparelharmos a recepção que merecia Eduardo Salamone, entretanto, proporcionamo-lhe quanto nos permittio a restrição do tempo e nas poucas horas que esteve entre nós manifestamo-lhe a satisfação, a ufania e apreço recebidas da imprensa e moços d’ esta terra. A uma hora da tarde, em bonde especial, gentilmente offerecido pelo Sr Gerente da Companhia, percorremos todos  as partes da cidade servidas por este meio de transporte, até que pelas 3 horas o notável homem de letras teve de regressar a estação central, a tomar o trem que o havia de condusir ao bojo do “Planeta” fundeado em Cabedello”.

    O ilustre visitante estava acompanhado da esposa e dois filhos e foram hospedes de O Commercio. Na estação ferroviária estavam a esperá-lo o próprio Artur Aquiles, responsável pelo diário e seu co-proprietário, jornalista Eduardo Fernandes, e Affonso Gouveia. O tesoureiro Diomedes Cantalice deslocou-se até Cabedelo para abraçar o periodista carioca, também acolhido  pelo correspondente de “O Paiz” entre nós,  Tito Enrique da Silva. O jornal paraibano não esqueceu de registrar que a família visitante passou por alguns momentos de repouso,” preenchidos pela prosa castiça de Salamone” antes que lhe fosse servido um modesto almoço na residência dos moços Manoel de Carvalho,Joaquim Etelvino e Antonio Peixoto, “muitos distintos moços de nosso commercio”.

    O Commercio fazia oposição ao governo estadual da Paraíba e aproveitou para alfinetar seus adversários, censurando a ausência de representante do jornal oficial A União, na recepção ao badalado jornalista brasileiro: “Tornou-se notável a ausência de qualquer dos confrades da “União” na recepção ao talentoso redactor do “Paiz”, tanto mais  quanto fora ella avisada com antecedência do facto de sua passagem por esta capital. Eduardo Salamone é um dos luminares da imprensa do Brasil; eis a explicação da falta do nosso colega indígena,cuja preocupação exclusiva é, actualmente, a politicagem de aldeia e o engrossamento aos que afinam só pelo diapasão do partidarismo armado a dynamite”.

    Detalhe curioso sobre a história desse importante periódico: Rui Barbosa só assumiria a chefia da sua redação por três dias, sendo substituído por Quintino Bocaiúva que ali permaneceu até ser nomeado ministro de Deodoro da Fonseca. Joaquim Nabuco, apesar de abolicionista, era monarquista e por divergir da linha editorial do jornal, que defendia a República, despediu-se de suas páginas.

    E aqui termina a narrativa da visita de “O Paiz” à Paraíba.( Nas transcrições mantive a grafia da época)


  • 13/01/2017

    Tio Pita deu a ordem


     Muito se tem escrito sobre os acontecimentos que culminaram com a chamada revolução de 1930. Não terei a veleidade de, neste pequeno espaço, analisar fatos ou emitir conceitos. Prefiro o registro dos acontecimentos deixando aos leitores seu juízo de valor. Todos sabem que Getúlio Vargas manteve o presidente Washington Luiz, de quem foi ministro da Fazenda, por longo período, acreditando na sua fidelidade. O gaúcho, enquanto permitia seus seguidores tramarem, em surdina, sua candidatura presidencial, negociava créditos federais para obras prioritários no Rio Grande do Sul. Uma carta de sua lavra, jurando apoio ao Catete, foi amplamente divulgada.

    Posteriormente, outra missiva juntou-se à primeira no arquivo de Washington Luiz, com pensamento totalmente oposto. Osvaldo Aranha ouviu o seu desabafo: “A última carta de Getulio foi para mim uma surpresa brutal”, como conta Lira Neto em um dos três volumes sobre o caudilho dos pampas. À época, os fatos políticos eram gerados por cartas e telegramas. Getúlio terminou ganhando o apelido de “Getúlio Cartas”.

    Decidida sua candidatura para enfrentar a chapa oficial, Getúlio precisava de um vice. Uma consulta feita por Washington Luiz sobre o apoio ao nome de Júlio Prestes, então presidente de São Paulo, para seu sucessor, recebera a aprovação da ampla maioria dos estados. Minas, de Antonio Carlos, a Paraíba, de João Pessoa e o Rio Grande, juntos, adotaram o NEGO paraibano e passaram a compor a chamada Aliança Liberal que apresentaria a chapa Getúlio presidente, João Pessoa, vice. Antes de se chegar ao nome de João Pessoa, sondaram Paulo de Frontin, senador pelo Distrito Federal e grande prefeito do Rio. Alegando ser amigo do Presidente, aderiu a Júlio Prestes. Outro consultado foi o Simões Filho, líder da bancada baiana na Câmara e fundador do jornal A Tarde. Este recusou, veementemente, e foi acusado por João Neves da Fontoura, líder gaúcho, de estar negociando para a Bahia a mesma posição na chapa oficial em troca de favores inconfessáveis. Chegaram aos empurrões. O vice escolhido foi o presidente dos baianos, Vital Soares. Subindo o mapa do Brasil, os emissários de Getúlio ainda procuraram Estácio Coimbra, presidente de Pernambuco. A sua negativa levou ao nome de João Pessoa, destacado governante da Paraíba que ganhara o noticiário nacional com medidas austeras e práticas inovadoras, enfrentando a política dos coronéis. “Só uma vassourada em regra pode purificar a vida pública, rebaixada por figuras sem significação e aproveitadores gulosos”, diria. Terminaram por varrê-lo.

    O imposto que João Pessoa instituiu e que lhe valeu o epíteto de “João Porteira” visava fortalecer a economia interna e canalizar nossas exportações para o porto de Cabedelo, o que desagradou, principalmente, à praça pernambucana, acostumada desde os tempos coloniais a explorar as riquezas da nossa “capitania”. A reação não intimidou João Pessoa que avisou pelo jornal A União: “Os descontentes que se mudem para o Ceará ou Pernambuco, vivam por lá, e não se lembrem de voltar, porque voltando, terão de pagar a incorporação, ( era o imposto novo) talvez acrescida”. Pois esse espírito bravio, austero e que dava demonstrações de uma coragem exemplar, politicamente, era dependente do tio Pita, ou seja, seu tio Epitácio Pessoa, ex-presidente do Brasil e naquele tempo, membro da Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda.

    Vejam o que nos narra Lira Neto: “Naquele fim de julho de 1929, dezenas de telegramas cruzaram o Atlântico pelo cabo submarino internacional que então servia às comunicações entre o Brasil e a Europa. Apesar do temperamento aguerrido e autoritário de João Pessoa, havia um ritual hierárquico a ser cumprido.Somente após o necessário consentimento de Epitácio- tio Pita, é que o sobrinho passou a ser abordado de modo direto pelos mensageiros de Getúlio....Na segunda feira, 29 de julho, Epitácio escreveu mensagem ao sobrinho para avisá-lo que autorizara o presidente mineiro Antonio Carlos a oficializar o convite (para vice de Getúlio). Isto significa que aceitarás”. Ordenou Epitácio Pessoa.

    O professor Lira Neto vai mais longe na sua avaliação: “A despeito de representar um pequeno estado e de ter entrado na política paraibana pela janela das contingências oligárquicas, Pessoa vinha causando perplexidade nas lideranças estaduais mais conservadoras ao mandar cortar despesa supérfluas,demitir pessoal excedente, extinguir secretarias que funcionavam como meros cabides deEMPREGO e impedir a reeleição indefinida dos intendentes municipais”.

    De longe, porém, o tio Pita advertia: “Sei que as medidas que está tomando são todas de moralidade e justiça. Não estão acostumados a isto. A grita está sendo e há de ser enorme. Não se extirpam num instante hábitos enraizados desde muitos anos”.

    A impaciência de João Pessoa levou-o ao trágico final. A mudança brusca que procurou imprimir aos costumes da terrinha, terminou por fulminá-lo. Seu cadáver seria o estopim que deflagraria o movimento de 1930. Mas essa é outra história.


  • 11/12/2016

    Recortes de jornais


     Recebi desde o início do ano passado, em meio eletrônico, o acervo de minhas atividades como deputado estadual, incluída a elaboração da nova Constituição do Estado. Projetos, requerimentos, indicações e discursos abordando os mais variados temas, foram resgatados e fazem parte do memorial da Assembléia. Somente agora foi possível mergulhar no passado e rever alguns assuntos que polemizaram os debates na imprensa, durante a elaboração dos trabalhos da Constituição de 1989. Graças a Cida Lobo, pude reviver aqueles dias em que, como líder do Governo Burity, enfrentava uma maioria ruidosa e aguerrida, preocupada, como dizia, em dar o melhor para a estrutura institucional da Paraíba. Havia também muita incompreensão.

    O jornal “O Combate”, de propriedade do jornalista e ex-deputado Jório Machado, sob a assinatura de Sandra Moura (não confundir com a renomada arquiteta) traçava um perfil infame dos deputados constituintes: “...usam gravata e paletó.A maioria tem entre dois e quatro filhos.Quase todos são médicos e advogados com idade superior a 35 anos.Foram a eles a quem os mais de 1,6 milhão de eleitores paraibanos confiaram a tarefa de elaborar a Nova Constituição do Estado.Passados quatro meses da abertura dos trabalhos da Assembléia Estadual Constituinte, inúmeros paraibanos já têm a certeza de que essa confiança atribuída nas urnas aos 36 parlamentares não está sendo correspondida....salvando-se alguns, os parlamentares estão sem fazer nada na Constituinte.Para quem acompanha os trabalhos é fácil notar que eles caíram na ociosidade. Na verdade, muitos deles estão indo à Assembléia para fazer três coisas: dar entrevista, assinar a valiosa lista de presença ( cada deputado recebe 300 cruzados novos por participar de cada sessão constituinte) e jogar conversa fora.(08.07.1989).

    “A pressa é inimiga da perfeição”, rebatia o presidente João Fernandes acolitado pelo o relator Egídio Madruga. A conclusão dos trabalhos ocorreria em 05 de outubro de 1989, debaixo de muitas críticas, poucos elogios e alguns protestos. O mais relevante deles protagonizado pelo Governador do Estado, Tarcisio Burity, que recusou o juramento à nova Carta, no que foi seguido pelo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Josias Pereira do Nascimento, ausente da Paraíba, e pelo seu substituto legal, o vice-presidente Evandro de Souza Neves, este justificando para tanto, uma decisão da Corte à qual pertencia.Na realidade, o Tribunal de Justiça estava inconformado com o aumento do numero de membros daquela Corte e, também, com criação do Conselho de Justiça, obra do Voto de Minerva do presidente João Fernandes, depois considerado inconstitucional pelo Supremo.

    O governador Burity, por sua vez, apontava vários pontos da Carta que visavam não somente facilitar o seu afastamento do Governo como também à implantação de uma espécie de regime parlamentarista a que chamei de “parlamentarismo tupiniquim”. A maioria da Constituinte tentou fazer da nova constituição um instrumento de oposição a Burity. Não poucas vezes eu repeti: “Burity não é eterno”. O procurador Romero Nóbrega derrubou um a um na suprema Corte, os dispositivos estranhos ao corpo legal e que se chocavam com a Carta Federal. Ao se recusar a comparecer à solenidade de promulgação da nova Constituição, Burity muniu-se de um habeas-corpus, impetrado pelo seu advogado, Joacil de Brito Pereira.Nem por isso, o presidente João Fernandes deixou de, a cada dez minutos da sessão, convidar o governador ausente a tomar assento no lugar que lhe fora reservado. O mesmo procedimento não foi adotado com referência ao representante do Poder Judiciário.

    “Burity foi grosseiro” disse João Fernandes ao Correio da Paraíba de 06.10.1989. Mas, comedido, anunciou que não tomaria qualquer decisão precipitada com relação aos ilustres ausentes que se negaram jurar à Carta, acrescentando, porém: Burity não foi apenas grosseiro com os deputados que trabalharam na elaboração do texto, mas praticou “um ato de desrespeito a todos os paraibanos”. Por outro lado, Burity justificou que não iriajurar uma Constituição com a qual ele discorda, e tem a intenção de recorrer ao Supremo. “Burity acha que a Constituição foi feita contra ele”, conclui o jornal. O fato gerou especulações de alguns juristas, inclusive o ministro Rafael Mayer, para quem, a ausência dos chefes dos dois poderes ao juramento da Carta poderia resultar na declaração de vacância dos seus cargos.

    Nada disso aconteceu, mas Burity escreveu na sua história esse capítulo inusitado: foi o único governador do Brasil que se negou a jurar a Nova Constituição do seu Estado.


  • 04/12/2016

    Paraibanos pais da Republica


     Terminei de ler há pouco mais um livro do paranaense Laurentino Gomes- 1889. É o ultimo da trilogia que começou com o 1808 e continuou com 1822. Se todos os que cuidassem da história, narrassem os fatos da forma como ele o faz, todo mundo gostaria de ler livros de história. O singular da sua escrita é que ele conta os bastidores dos acontecimentos que a versão oficial não passou adiante. Até os detalhes sórdidos e o burlesco dos fatos e seus atores, são transmitidos aos que se debruçam sobre os livros. Foi assim com a transmudação da Família Real para o Brasil, a Independência e agora, a República que, para ele, foi fruto da existência de um imperador cansado (Pedro II), um marechal vaidoso (Deodoro da Fonseca) e um professor injustiçado (Benjamim Constant).

    O Imperador deposto por um golpe de estado foi embarcado em uma madrugada para o exílio, mesmo tendo radicais, como o advogado paulista Silva Jardim, que pregavam o trucidamento da família real, a exemplo do que sofrera a Corte francesa de Luiz XVI onde a estrela fora Maria Antonieta. Deodoro teria aderido à Republica diante de um fato consumado: o manifesto publicado no jornal do abolicionista José do Patrocínio que, como o Marechal, era monarquista empedernido. Patrocínio, por ser negro, devotava amor infinito à Princesa Isabel, por motivos óbvios, sendo o responsável pelo titulo de A Redentora com que a filha de Dom Pedro entrou para a história.

    Na movimentação militar que antecedeu o 15 de novembro, dois paraibanos se destacaram: um militar, o general Almeida Barreto e o jornalista Aristides Lobo, o primeiro nascido em João Pessoa e o segundo em Cruz do Espírito Santo. O jornalista viveu parte de sua vida em Alagoas onde, mais tarde, disputaria dois mandatos consecutivos de deputado geral, como eram chamados os parlamentares federais no Império. Expunha a defesa da mudança do regime no jornal A República, fundado por ele e outros companheiros de empreitada. Instalada a nova ordem, Aristides Lobo foi nomeado Ministro do Interior, cargo que ocupou por pouco mais de dois meses, rompendo com Deodoro.

    A participação do paraibano Almeida Barreto foi mais polêmica. Conta Laurentino Gomes que o Visconde de Ouro Pedro, chefe do ultimo ministério monárquico, refugiara-se em um quartel e tinha a garantir sua integridade e da monarquia agonizante, justamente as tropas sob o comando do general Almeida Barreto. Sem que o governo soubesse, o general também estava comprometido com os golpistas, mas não tinha a absoluta confiança de Deodoro. Este, ao se deparar com as tropas diante do quartel, mandou intimar o general Barreto a mudar de posição. Como Pedro negou a Cristo três vezes, o general teria deixado de atender ao chamamento do proclamador da República. Na terceira convocação, irritado, Deodoro verbera:

    - Menino, vá dizer ao Barreto que faça o que já por duas vezes lhe ordenei, ou então que meta sua espada no ...,pois não preciso dele!

    O conteúdo chulo da frase de Deodoro tem sido amenizado por outros historiadores que preferem se referir a “frase impulsiva e vigorosa” ou “uma exclamação violenta”. Para o coronel Ernesto Sena, citado por Laurentino, Deodoro mandou o general meter “ a espada... na bainha”. Seja como for, o recado surtiu efeito. O general Almeida Barreto saiu do muro, juntou-se a Deodoro e, mais tarde, ganhou um mandato de senador pela Paraíba. Esteve aqui em visita, recebido com muitas festas. E hoje é nome de rua.( Do meu livro “Gente do Passado,Fatos do Presente”, à venda na Livraria do Luiz)


  • 30/10/2016

    Umbuzeiro: terra de grandes


    Para mim era desconhecida a informação de que a cidade de Umbuzeiro tem a mesma padroeira de Bananeiras - Nossa Senhora do Livramento. E ambas as paróquias devem o incentivo maior da edificação de suas matrizes ao abnegado pastor José Maria de Ibiapina. Data de 1870 a primeira Igreja de Umbuzeiro, situada à rua coronel Antonio Pessoa. Em Bananeiras, pela rua do mesmo nome chega-se à Matriz do Livramento, iniciada em 1861.Mas as ligações históricas entre os dois municípios não param por aí. 

    O major José Fabio Lira era prefeito de Umbuzeiro quando foi involuntàriamente envolvido em um conflito de ordem pessoal. Escapou de um atentado à bala e escolheu Bananeiras para sua nova morada. Levava uma carta do seu compadre “Toinho” Pessoa ( coronel Antonio Pessoa, irmão de Epitácio) para o primo Solon de Lucena, ao tempo uma liderança emergente no brejo.

    O major Zé Fabio como era conhecido, era um autodidata e estudioso da biologia e da aplicação da flora regional aos males do corpo. Inventou uma vacina produzida pela saliva humana e com ela promoveu a cura de várias moléstias, inclusive diabetes e tuberculose, antes do surgimento da penicilina. Seu “método consistia na esterilização a frio do liquido bucal das pessoas sãs e novas e transmudando ainda vivo para os doentes”. Sua fama correu o mundo e o jornal carioca A Noite chegou a compará-lo com o cientista russo Voronoff que difundiu um tratamento de rejuvenescimento que lhe deu fama, ao tempo em que ganhava a censura dos órgãos médicos oficiais. José Fabio sabia estar à margem da lei e, por essa razão chegou a se evadir para outros centros urbanos fugindo da perseguição da Associação Médica da Paraíba. Deusdedith Leitão encontrou-se com ele em afogados de Ingazeira, Ceará. Sua maior frustração foi não ter oferecido a cura ao seu compadre e amigo Solon de Lucena.

    Umbuzeiro tornou-se cidade a partir de 1938 apesar de município desde 1890. Deve ter sido na década de 1920 que o major Zè Fabio aportou em Bananeiras. Com ele “vieram” o coronel Antonio Pessoa, João Pessoa, Epitácio Pessoa e Castro Pinto que, juntos com Solon marcaram sua época. Por conta dessa ligação política e familiar esses filhos de Umbuzeiro passaram a denominar ruas e praças da cidade brejeira. Mas se Bananeiras era governista desde os tempos do coronel Felinto Rocha, Umbuzeiro, já no inicio do século passado ensaiava um coro oposicionista. Encontrei em O Comércio, jornal das classes conservadoras, na edição de sábado, 5 de maio de 1900, uma carta dos umbuzeirenses, denunciando Gama e Melo, “governo d´este infeliz Estado”.


    A carta dos habitantes da terra de Epitácio fazia queixa ao governo através do jornal, contra “as arbitrariedades e violencias de que, a cada passo, somos victimas, por parte de uma autoridade tão ignorante quanto desmoralizada, e esse propósito é devido ao fato de não vermos para quem appellar, uma vez que o governo do Sr. Gama e Mello, é isso ai que todos nós presenciamos, mas para que ao menos o publico tenha conhecimento da nossa triste situação derigimo-vos estas linhas pedindo-vos que as publiqueis no vosso independente jornal”.

    E não se pense que denúncias de fraudes eleitorais são coisas do presente. O relato dos umbuzeirenses nos dá a certeza de que sempre existiram: “começo relatando o que aqui ocorreu por ocasião da eleição, que se devia proceder hoje. Como é do costume n´esta terra, não se reunio a meza e isto pelo fato de ter o desmoralizado Sr. Toné, arvorado em chefe político, reunido, apenas 14 eleitores”. Segundo o missivista, a oposição reunia cerca de 71 votos que não puderam votar.

    Ao que parece o Sr. Toné era um pequeno ditador e, segundo a nota, “despeitado com o numero esmagador dos nossos amigos, que impossibilitados de votar fizeram valer os seus direitos protestando perante a autoridade competente, o Sr. Toné, que desde pela manha se entregava as libações costumeiras, achou opportunidade de desabafar seu despeito, indo tomar uma faca de um nosso amigo, quando este se retirava para sua residência fora d´esta povoação”. E continua a carta, de um humor duvidoso: “o nosso amigo Manoel Tenente, moço morigerado e que colloca a integridade do seu caracter em altura onde os Toneis jamais conseguirão attingir, vendo o estado lastimo em que se achava o Sr Toné, não fez questão de entregar-lhe a referida faca retirando-se pacifica e precipitadamente, não com receio da autoridade, mas da pipa, pois podia dar-se um incendio...”

    Para os umbuzeirenses responsáveis pela denuncia, o sr,Toné “ é uma autoridade que persegue tudo quanto é bom e honesto, deixa que neste distrito os ladrões andem impunemente, deixa que os cangaceiros freqüentem desasombrados este povoado e até lhes dá dinheiro...estamos nadando em um mar de infelicidades, pois alem de todas essas misérias,encontramo-nos a braços com uma seca horrorosa”.


    Deve ter sido por não querer nadar nesse mar de infelicidades que o major Zé Fabio resolveu mudar-se para Bananeiras, mantendo-se sob o manto protetor de Nossa Senhora do Livramento. Amém.(Nas transcrições mantive a grafia da época)


  • 17/10/2016

    Vila de Bananeiras


    Uma povoação, no regime monárquico, adquiria sua independência política ganhando o status de Vila. Bananeiras, como povoado, estava inserida no mapa da Vila de São Miguel da Baía da Traição até que passou a integrar o território da Vila Real de Brejo de Areia em 1872. Seis anos depois, em 10 de outubro de 1833, foi dada emancipação política e criada a Vila de Bananeiras, “arrastando consigo os territórios de Guarabira, Cuité e Pedra Lavrada”, segundo Horácio de Almeida. O artigo segundo da lei que criou o novo município, ao invés de Pedra Lavrada, por certo fazendo parte de Cuité, se refere a Serra da Raiz. Guarabira chama-se, então, Independência.E prossegue Horácio: “em densidade demográfica, coloca-se Areia em terceiro lugar na Província, seguido apenas pela Capital e por Bananeiras. Nessa época, Bananeiras era a maior município do Brejo em extensão territorial, com uma área que ia até os limites de Areia ao Rio Grande do Norte, inclusive, o atual município de Araruna”.

    Araruna esteve sob a jurisdição da Vila de Bananeiras até 11 de julho de 1877 quando se instalou como Vila, com a posse dos seus primeiros vereadores, perante o presidente Manoel da Costa Espínola, da Câmara de Bananeiras. Desde 1871, porém, nasceria a inconformação dos moradores de Araruna com a dependência de Bananeiras, principalmente devido à distância entre o distrito e a sede municipal. Araruna era administrada à distância pelos chefes políticos de Bananeiras. Um documento descoberto pelo historiador Humberto Fonseca de Lucena e firmado pelas figuras mais representativas de Araruna, datado de 1871, defende a criação daquele município. Os moradores da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Povoação de Araruna, Termo e Comarca de Bananeiras reclamavam a distancia de nove léguas para se alcançar a sede municipal onde “são obrigados a prestar serviço do júri, reunir colégio eleitoral e requerer qualquer ato judicial”. O Barão de Mamanguape, senador do Império e presidente da Província sancionou a lei 616 que criou a Vila de Araruna, desmembrando-a de Bananeiras.

    Está comprovado, pois, que Bananeiras emancipou-se em 1833 quando foi elevada à categoria de Vila, ganhando foros de município independente. Dois anos depois, seria criada a Freguesia de Nossa Senhora do Livramento e, apenas em 1879, seria elevada à categoria de cidade. Era assim no passado. Hoje, um distrito tem a sede em uma Vila, e ganhando emancipação passa a ser uma cidade, sede do respectivo município. É, portanto um equivoco histórico e que precisa ser corrigido, referir-se a 16 de outubro de 1879 como data da emancipação política de Bananeiras. Esta é a data da elevação da Vila à categoria de Cidade. Independência política e administrativa Bananeiras possui há cerca de 182 anos, isto é, desde 10 de outubro de 1833, quando deu adeus à Vila Real de Brejo de Areia.

    A comarca de Bananeiras, porém, seria criada, apenas, em 1857, pois permanecia vinculada à jurisdição de Areia desde que se tornara Vila. A Província, contudo, não se descurara da cobrança de impostos. Por volta de 1844 foi instalada a coletoria de Bananeiras e seu primeiro coletor foi Estevão José da Rocha, agraciado, quase trinta anos depois, com o titulo de Barão de Araruna. O cemitério de Bananeiras, onde procurei o tumulo desse Barão, como se procura uma agulha no palheiro e não encontrei, seria construído em 1856. Mas a Vila ganhou o Correio dois anos depois de sua emancipação política, em 1835. A energia chegou na segunda década do século passado, em 1919 e o trem apitou pela primeira vez depois do Túnel da Viração em 15 de novembro de 1925. Humberto Nóbrega registra que em 1908 havia uma rede telefônica ligando Bananeiras a Moreno e às fazendas Jardim, Cardeiro, Gamelas, Muquem, Roma, Pilões, Genipapo e Cananfístula. De Borborema, José Amâncio falava por telefone com as cidades para as quais vendia energia. Nos anos 1940, Pedro de Almeida foi buscar água na Bica do Gato e distribuiu na cidade. O distrito de Chã do Lindolfo, hoje quase um bairro da antiga Vila de Bananeiras foi fundada por Lindolfo Américo Ferreira Grilo, justamente o primeiro escrivão do cartório do registro civil de Bananeiras, instalado em 1888.

    Uma curiosidade revelada pelo historiador bananeirado Humberto Nóbrega: o primeiro estrangeiro a fixar residência em Bananeiras foi o português Tomás de Aquino Freire de Andrade que ali aportou por volta de 1887. Acrescento eu: esse portuga viria a ser o pai de dona Maria Eugenia Andrade Bezerra, esposa de Francisco Bezerra Cavalcanti, de cujo casamento nasceu uma única filha: Azeneth Bezerra Aragão, minha sogra.

    Outra curiosidade: a energia vinda da Hidroeletrica de Borborema não era lá essas coisas... Que o diga o padre José Pereira Diniz quando registrou no Livro de Tombo da Igreja de N S do Livramento que o dr.Jose Amâncio fornecedor de energia à Igreja desde 1930, mandou em 1938 cortar a luz da Igreja. Motivo: todas as vezes que se acendiam as luzes da Matriz, havia uma queda de potência na iluminação publica, resultando em multa municipal contra a empresa. Corrobora com esse fato, a história do professor Waldez Borges: seu pai, Manoel Soares, comprou o primeiro ferro elétrico da cidade e quando sua mãe ligava o ferro as lâmpadas dos postes piscavam e o povo reclamava: “Mané Soares ligou o ferro elétrico!” (do livro GENTE DO PASSADO,FATOS DO PRESENTE. Republicado em homenagem aos 183 anos de emancipação política de Bananeiras, e não 137, como se comemora amanhã,16)


  • 09/10/2016

    Como era um dia de eleição


     Quando eu “era uma criança pequena” lá em Borborema um dia de eleição era um dia de festa. Também de brigas e muitas discussões, logo esquecidas. Mas a estrutura montada para receber os eleitores, demandava recursos próprios e por isso, poucos tinham direito de pleitear votos. Somente a partir de 1974, com a Lei Etelvino Lins, que proibiu o fornecimento de transporte e comida aos eleitores, gente enxerida da minha qualidade pôde disputar um mandato de deputado. A lei do pernambucano, ex-ministro do TCU, senador e governador daquele estado colocou na responsabilidade da Justiça Eleitoral a organização do translado de eleitores da zona rural para a urbana onde se concentram a maioria das urnas. Alimentar eleitor virou crime eleitoral e, somente em casos excepcionais, a própria Justiça Eleitoral poderá fazê-lo.

    Antes dos anos 1970, porém, a coisa funcionava de forma muito diferente. Vou contar o que me lembro. Em Bananeiras, UDN e depois a ARENA armavam um jiqui no armazém de fumo do Major Augusto e os eleitores enfileirados chegavam ao prato de comida. No braço recebiam uma marca de tinta, a exemplo do que fazem os palhaços com os meninos que os acompanham nas ruas, valendo o ingresso para o circo. A marca dos eleitores era para evitar que o “dito cujo” repetisse o prato. Mas antes de comer, tinham que mostrar o titulo para comprovar que já haviam votado.Na campanha de prefeito em 1963, Pedro Pessoa de Aguiar, o jovem que inventou oposição na Bananeiras redemocratizada, aludindo à marca gastronômica, pedia aos eleitores que não se deixassem “ferrar”, “como os bezerros de seu Mozart.” O deputado Clovis Bezerra e seu irmão Mozart investiam na estrutura do dia da eleição e a oposição somava votos sem gastar nada. “Comam lá e votem cá”, era a cantinela.

    O deputado Clovis Bezerra distribuía dezenas de bois que seriam mortos e distribuídos na sede e nos distrito. Estes viraram cidades, mas o costume continuou. Meu pai, Arlindo Ramalho, era candidato a prefeito de Borborema e, de acordo com o eleitorado existente, tinha direito a três bovinos bem curtidos e ao aluguel de alguns veículos para o transporte de eleitores. Nada disso era fiscalizado. Não se prestava contas a ninguém. Era um acordo explícito entre o líder político e seus liderados. Quando matavam os bois, surgia outro problema: os bilhetes e os pedidos de quem se dizia enfermo e não poderia comer junto com os demais. “Minha carne eu mesmo preparo”, exigiam. Meu pai retalhava um dos bois com esses eleitores privilegiados. Os pacotes de carne eram embrulhados e enviados aos compadres e afilhados. Além disso, outras casas eram reservadas para a alimentação de algumas famílias “mais lordes”, que não queriam se misturar com a “plebe ignara”.

    Sobre esses requintados eleitores, em uma reunião de véspera de eleição entre Clovis Bezerra, cabos eleitorais, motoristas transportadores e fiscais do dia da eleição, ele distribuía tarefas a alguns de seus correligionários. Olhou para o administrador do Engenho Caboclo, propriedade da família e orientou: - Compadre Ribeiro, as moças do Caboclo vão comer na sua casa. Seu Mica, um amigo do peito, resolveu ajudar: - Dr. Clovis, por que essas moças do Caboclo não já vêm comidas de lá? Foi uma risadagem geral.

    O deputado Clovis Bezerra costumava visitar as cidades vizinhas no dia da eleição. Na casa do meu pai, onde estavam servindo refeições foi até o quintal. Abriu as panelas e resolveu orientar as cozinheiras. Pegou uma colher de pau e mexeu o seu conteúdo. Demorou-se na tarefa. - É assim que se faz, ensinou. Dionísio Pereira dos Santos, naquele ano o escalado pelo PSD para enfrentar meu pai nas urnas de Borborema, por cima do muro, testemunhou a aula de culinária do deputado. Quando perdeu a eleição, resumiu sua vindicta:

    - Perdi a eleição mas obriguei o deputado a assar carne pros eleitores...

    A cabine eleitoral era mesmo indevassável. No canto da parede, uma cortina encobria o sigilo do voto. As cédulas individuais eram depositadas nas urnas e o exercício do dia era a “troca de chapa”. Em uma eleição prometi ao deputado Silvio Porto que pelo menos meu irmão Antonio Carlos, depois promotor de justiça, votaria nele. Mas ele esqueceu e na hora de votar colocou na urna uma cédula de Clovis Bezerra. Quando descobri fui a procura de alguém para cumprir minha promessa.Só restou minha mãe, que não aceitou dar esse voto contra dr.Clovis. Ainda bem que alguns eleitores vieram de Guarabira e votaram em Silvio Porto.

    Dia de eleição deixou de ser uma festa menos romântica quando surgiram os marqueteiros e com eles as pesquisas, a boca de urna e outras ações que passaram a exigir muito dinheiro. Melhor tivessem deixado o transporte e os bois. A exigência de muito dinheiro fez nascer a arrecadação espúria e, a partir daí... Acabou o meu espaço...


  • 04/10/2016

    A corrupção do eleitor


    Publiquei recentemente uma coletânea de autoria do meu filho Flávio, falecido há um ano, contendo temas eleitorais vistos sob o ângulo do eleitor, do candidato e da Justiça. Ao livro dei o título de “Polêmicas Eleitorais”. Em busca de assunto para a coluna de hoje, sentei-me para escrever sobre a fidelidade de certos eleitores ao seu candidato, e escolhi um deles. Ele andava pelo nordeste inteiro acompanhando as linhas do trem, por ser ferroviário, mas na véspera da eleição chegava em Borborema para votar no meu pai para vereador e depois para prefeito. Vou deixar a sua história para outra oportunidade. Ao abrir o livro de Flávio deparei-me com o título “Vender o Voto Também è Corrupção Eleitoral” e resolvi apreciar o seu escrito e o outro lado da moeda – o eleitor que vende o seu voto ou troca, como se mercadoria fosse.

    O autor começa por demonstrar que “a conduta de vender voto, no Brasil, está inserida na cultura popular. Se ainda hoje existem candidatos comprando votos é porque existem milhares de eleitores vendendo seus votos, sempre amparados na certeza da impunidade, da ineficiência da estrutura governamental encarregada de aplicar as devidas punições, na expectativa da “delação premiada”, ou no frágil argumento do “estado de necessidade” de quem recebe pequenas doações em troca do voto.” Na realidade a lei prevê a conduta ilícita ao se referir a “solicitar para sí ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem” como se pode ler no nosso Código Eleitoral vigente. E a pena é de reclusão de até quatro anos, além de multa.

    Não se conhece, porém, nenhum eleitor condenado por exigir ou receber algum bem em troca do voto. Quando um juiz resolve cumprir a lei e prender eleitores, é considerado exagerado e/ou excêntrico. Eleitores que se prestam a testemunhar em Ações de Impugnação de Mandado Eletivo ou de Investigação Eleitoral confessam que foram cooptados mediante oferta, receberam, votaram como lhe mandaram, às vezes prestam falso testemunho e saem da audiência palitando os dentes. Nada lhes acontece.


    Constata Flávio, vivido no cenário dos candidatos- a Assembleia Legislativa, e no seio da Justiça, como servidor judiciário, que “Atualmente é inegável que a Justiça Eleitoral pune muitos candidatos que cometem esse tipo de ilícito, mas deixa de punir os eleitores também corruptos”. Eu só vivi um lado dessa questão: o de candidato. Como tal, recebi os pedidos mais esdrúxulos de eleitores. Uma jovem senhora, por exemplo, queria que eu lhe conseguisse um emprego urgente. Tinha recebido um presente do amante e não podia usá-lo sem despertar suspeitas do marido. A renda do emprego camuflaria seu pecado.


    A ausência de punição do eleitor vem acompanhada da excludente de criminalidade que faz par com a legítima defesa: o estado de necessidade. A carência do eleitor fala mais alto aos ouvidos da Justiça que, no caso da venda do voto, permanece com a venda nos olhos, perdoem o trocadilho.


    Outro aspecto que merece destaque é a investigação eleitoral focada quase que, exclusivamente, em quem ganhou a eleição. As testemunhas arroladas são direcionadas a cassar o diploma do empossado. As ações contra os que perdem a eleição ficam esquecidas nos escaninhos dos tribunais, “como se vencer o pleito, por si só, já fosse uma infração eleitoral”. O sem número de ações que surgem durante e, principalmente, após o pleito contestando seu resultado, ameaçam transformar a Justiça Eleitoral na antiga “Comissão de Verificação de Poderes como existia na época da República Velha, e dessa forma avalizando uma equivocada e preocupante transferência de poder, por via judicial, aos candidatos que foram rejeitados nas urnas, como se santificados fossem pela derrota, apesar de todos saberem que os candidatos derrotados também usaram e abusaram dos mesmos ilícitos eleitorais que costumam denunciar, num verdadeiro e incontestável exercício da hipocrisia”, destaca Flávio Ramalho.


    Eis um pequeno retalho do Brasil de hoje, de ontem e de sempre que nos levam cada dia aos escândalos do financiamento ilegal de campanha. Os eleitores são insaciáveis...(Do livro GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE)


  • 21/09/2016

    Primeira conversa (1)


     

    Este é mais um volume de conversas com meus poucos leitores, publicadas nos jornais desta antiga província da Parahyba do Norte e enfeixadas em livro. Já ocupei espaços dos falecidos Tribuna do Povo e O Norte, e dos sobreviventesCorreio da Paraíba e A União, este com coluna cedida aos sábados a partir de 2011, quando exerci a sua direção. A publicação em papel se junta a um arquivo que vem dos idos de 1893, quando o presidente Álvaro Machado transformou o diário porta-voz do seu partido em órgão oficial do Estado. Mas, se sou prestigiado pela Velha Senhora, também me cedem espaço virtual os sítios da rede mundial de computadores que por estas plagas também atendem pelo nome de sites e blogs, fazendo a febre dos mais jovens e cansando a vista dos mais velhos que desejam  atualizar-se com o mundo mais rapidamente. Tenho que agradecer aos que me publicam em suas páginas:wscom, blogdotiaolucena, blogdopredromarinho, agendaparaiba, cristianomachado, expressoparaiba, caririligado, focandoanoticia, giropb, hermesdeluna, bananeirasagora, nordeste1 e blogdevavadaluz

    A esta coleção denominei GENTE DO PASSADO, FATOS DO PRESENTE, e saí um pouco, mas sem ausentar-me totalmente, da paixão pelo memorialista que reina em mim, para mergulhar em páginas do passado que despertaram a minha atenção e, por certo, tendem a prender os  que, por acaso, se debruçarem sobre os meus textos. Quem já me conhece sabe que costumo colocar em fatos sérios uma pitada de humor, dourar com ironia atitudes muitas vezes equivocadas e criticar com acidez atos que incomodam a perspicácia deste ativista político que exerceu mandatos, ajudou outros a conquistá-los e, por isso mesmo, acumulou a experiência que o transformou em um gestor p úblico requisitado por vários governos. Iniciando na cátedra de história incursionei pelo jornalismo antes de escolher a advocacia como profissão. Foi lá, na faina diária da busca pela Justiça, que foram me buscar para a tribuna política, quando apenas  inaugurara  a tribuna do júri, à qual pensava me dedicar como Promotor de Justiça. A falta de um mandado eletivo que não mais busquei,  fez-me retornar à atividade do passado e cuidei de construir uma nova tribuna - a imprensa.

    Surgiram então, Dá Licença,um AparteNos Espelhos do PalácioEm Prosa e No VersoO Vendedor de Calúnias e A Botija de Camucá, a exceção do último, todos com edição esgotada. Em 2013, quando me inscrevi para concorrer a uma cadeira na Academia Paraibana de Letras e, no ano seguinte, ao Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, fui obrigado a recorrer aos sebos para encontrar exemplares dos meus trabalhos até então publicados. Em conseqüência dessa busca, ao acervo já nominado acrescentei um trabalho sobre a vida e obra de Solon de Lucena, bananeirense que chegou à presidência do Estado, sob o titulo: Solon de Lucena-Democracia e  Década de Vinte na Paraíba, com a respeitável companhia de José Octávio de Arruda Melo, Joacil de Brito Pereira e Humberto Lucena, publicado por ocasião do centenário do ilustre paraibano desaparecido em 1926. Encontrei ainda no Sebo Cultural, uma instituição que ocupa espaço elogiado na Paraíba,  um trabalho técnico - A Constituição de 1967 e A Doutrina do Poder Constituinte, dissertação aprovada com nota dez&nb sp; pelo professor paulista Manoel Gonçalves Ferreira Filho um dos mestres a USP que ministraram o curso de pós-graduação a que freqüentei na UFPB.

    Eleito para essas duas respeitáveis instituições, adicionei ao meu trabalho jornalístico e de pesquisa, os discursos  pronunciados por ocasião da minha posse na Cadeira 07, da Academia de Letras e na Cadeira  45, do Instituto Histórico, cujos patronos e seus ocupantes até então, engrandeceram a historia paraibana do século passado. A primeira tem como patrono Artur Aquiles, o destemido e perseguido jornalista, e nela tiveram assento, Coriolano de Medeiros, Maurílio Augusto Almeida e Dorgival Terceiro Neto. A segunda, sob o patronato do historiador, governador da Paraíba e ministro do Supremo Tribunal Federal Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo, foi fundada po r Dorgival Terceiro Neto. Para minha honra, nessas duas solenidades fui saudado pelo acadêmico Juarez Farias e pelo historiador Renato Cesar Carneiro, e seus pronunciamentos enriquecem este compêndio e o meu curriculum.(CONTINUA)


  • 13/09/2016

    Dorgival Terceiro Neto


    Dificilmente eu deixava de ir abraçá-lo a cada 12 de setembro.Se levasse uma simples gravata de presente, era recriminado. Dispensava qualquer afago, mas não me negava a alegria de um abraço sincero.Era o seu jeito. Acostumado ao poder sem dele tirar proveito, sabia como ninguém viver longe dele e reconhecer os verdadeiros amigos. Na despedida, concluía: você é dos poucos que se lembram de mim...E continuo me lembrando, Dorgival, e lhe rendendo as melhores homenagens.Hoje me falta o abraço, mas não deixo de re gistrar minha saudade.

    Em um discurso, chegou a traçar o seu perfil: “Ninguém procura o destino; percorrem-se caminhos que levam até ele. Menino do mato, nascido nas terras sáfaras de Taperoá, que foi meu berço e será meu túmulo, criei-me contemplando, a pouca distância das fraldas da Borborema, a pedra do pico, segundo ponto mais alto da Paraíba, com o feitio de um polegar gigante apontando para o infinito. Mas minha admiração silenciosa para o alto, nunca me infundiu inveja e nem ambição para alcançar mais do que a vida me reservasse.”

    Dorgival Terceiro Neto não procurou o seu destino. O destino o procurou e fez dele um dos grandes da Paraíba. Deixou o Colégio de Padre Vieira, em Patos, e virou comensal da Casa do Estudante da rua da Areia, onde ingressou em 1951. Foi concluinte da Faculdade de Direito em 1957, já federalizada.Enquanto estudava, iniciava-se no jornalismo na velha escola da Praça João Pessoa- A União. Foi servidor da Universidade e do Judiciário, recebendo do governador Flávio Ribeiro seu primeiro emprego, no DER. Diretor do Paraiban, dalí saiu para governar nossa Capital.

    Como prefeito de João Pessoa estruturou a edilidade e deu-lhe o primeiro Plano Diretor. Fez seu cadastro imobiliário e instalou um Centro de Processamento de Dados quando pouco se falava em computador por estas bandas. Os servidores municipais passaram a receber salário mínimo como piso. Começou a pagar a previdência nunca honrada em seus créditos. Até o Fundo de Garantia, um ilustre desconhecido por ali, sentou praça na Prefeitura.Construiu 16 unidades escolares e acabou com os “pardieiros”, como chamava as escolas então existentes.Deu sede a várias secretarias e a cidade ganhou um novo Pronto Socorro.

    Quando ainda não se falava em mobilidade urbana, avançou no tempo e abriu a Pedro II, ligando-a ao Castelo Branco; a BR-230, chegou à Beira-mar pelo retão de Manaíra; o Cabo Branco ganhou uma avenida de retorno e o contorno do Farol; paralela à Epitácio, surgiu a Beira-rio e da favela removida de suas margens, nasceu a Cidade Padre Zé. Deixou a Lagoa toda ajardinada e com um sistema de irrigação permanente; reformou a Bica e levou para a maré a água que transformava o Bairro dos Estados em uma lagoa a cada inverno. Construiu os mercados do Bairro dos Estados, Jaguaribe, Castelo Branco e Oitizeiro . Tudo isso em apenas dois anos e dez meses.

    A ligação da Cidade Alta com a Cidade Baixa deu lugar ao Viaduto da Miguel Couto. Como era o terceiro viaduto da cidade, eu o batizei de Terceirão, na data de sua abertura. Passaram a chamá-lo de Viaduto Dorgival Terceiro Neto. Nunca houve uma lei que concedesse esse batismo. Aguardo a iniciativa de um licurgo municipal.

    Antes que me esqueça: a antiga Universidade Autônoma de João Pessoa, hoje UNIPÊ, empreendimento vitorioso de um grupo empresarial/religioso foi viabilizada em seu nascedouro por que Dorgival criou a Fundação Municipal exigida pelo MEC. Nunca se fez esse reconhecimento histórico.

    Pela obra que realizou na Capital, Dorgival foi escolhido vice-governador de Ivan Bichara e ocupou em caráter definitivo o cargo de governador da Paraíba.

    Como advogado manteve um respeitado escritório de advocacia e, na qualidade de mais antigo filiado à OAB, foi o principal homenageado durante os 80 anos daquela Casa.Ocupou a Cadeira 07 da Academia Paraibana de Letras e a Cadeira 45 do Instituto Histórico. Se vivo estivesse, completaria, hoje, 83 anos.Para resumir a vida e obra de Dorgival Terceiro Neto, concedo-lhe, novamente, a palavra:

    “Assumi compromissos e tomei responsabilidades, mas tão logo me desincumbia dos afanosos ofícios, saia às pressas, sem olhar para trás, por que não carregava pesadelos”.(Do capítulo Gente do Meu Passado, no livro Gente do Passado,Fatos do Presente,republicado nos 84 anos de DTN)


  • 09/09/2016

    Quem foi o Barão de Ramalho?


    Vim descobrir recentemente por que a família da minha esposa fazia restrições ao seu casamento comigo. Para casar, tive que roubar a moça. O coronel Camporra, irmão do Barão de Araruna era seu trisavô. Com essa ascendência nobre, como permitir a união com o filho de um plebeu, cujo mais ilustre membro familiar era tenente da Guarda Nacional? Mas a história abre caminhos e a genealogia nos leva a conhecer o passado. Em busca desses ancestrais encontrei Joaquim Inácio Ramalho, Barão de Ramalho, um ilustre homem do direito, contemplado com todas as honrarias do Segundo Império. Um dia ainda vou reivindicar esse titulo de nobreza. Só não sei perante qual juízo...

    Filho de um espanhol, o futuro barão nasceu a 6 de janeiro de 1809, em São Paulo.Os irmãos Antonio Nunes Ramalho (parente da Elba) e Anna Felisberta Ramalho foram seus pais de criação, recebendo deles o sobrenome Ramalho. Foi dos primeiros alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco onde se bacharelou em 1834 e foi doutor em 1835. No ano seguinte já era professor substituto da mesma escola onde se graduara. Dez anos depois foi eleito vereador e presidente da Câmara de São Paulo. Sua destacada atuação lhe valeu a nomeação, através de decreto imperial, para a presidência da Província de Goiás, até 1848 quando se elege deputado geral por Goiás. No retorno, foi deputado provincial paulista, por duas legislaturas. É ainda comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo.

    Conselheiro do Governo Imperial lidera um grupo de advogados para fundar o Instituto dos Advogados de São Paulo, ativo ainda hoje. Depois de aposentado como catedrático da Faculdade de Direito foi distinguido pelo Império com o baronato. Denominado Barão de Água Branca, em homenagem à cidade alagoana do mesmo nome, recusou o titulo. Somente aceitaria o titulo de Barão, caso houvesse referencia à família de sua esposa Paula da Costa Ramalho, filha de um dos Ramalho que o criara. Assim, em 28 de maio de 1887, torna-se o Barão de Ramalho.Nomeado diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ocupa esse cargo até sua morte em 15 de agosto de 1902, aos 93 anos.

    Em artigo sobre os Notáveis do Direito, Alessandro Hirata, livre docente da USP, considera o Barão de Ramalho “um exemplo de carreira dedicada à academia.Passou a maior parte de sua longa vida nos bancos da São Francisco. Sua atuação é modelo não apenas para a tradicional faculdade paulistana, mas para todo o mundo acadêmico jurídico”.

    Acabei de falar sobre o Barão de Ramalho brasileiro. Dona Maria II, de Portugal, contudo, destacou um político do Açores com o titulo de Barão do Ramalho.Chamava-se Antonio Tomé da Fonseca Carvão Paim Câmara, o 1º Barão. Seu neto, Antonio da Fonseca Carvão Paim da Câmara, foi o 2º. Barão e além de político e jornalista foi governador civil, por diversas vezes, do Distrito de Angra do Heroismo e de Ponta Delgada até 1878. Cavalheiro da Casa Real, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, eram alguns dos seus títulos. Era formado em Ciências Naturais pela Universidade de Bruxelas.

    Com essa ascendência nobre, tanto brasileira quando d’além mar, juntei a Casa dos Aragão com a Casa dos Ramalho e ainda hei de reivindicar o meu titulo de nobreza. O coronel Camporra que me aguarde!


  • 14/08/2016

    Os reclames do Plin-Plin


    Aquele famoso apresentador de nossa televisão faria melhor o programa sem a sua presença. O cara é chato e só é superado por outro exemplar que elege como heróis alguns casais de desocupados, confinados em uma casa para engorda e, outras “cositas” mais por baixo do edredom. Mas nós, mortais comuns, temos que conviver com a fama deles ou trocar de canal. O programa melhora nos intervalos quando são apresentados os “reclames do plin plin”. São as mensagens dos anunciantes que pagam toda a parafernália armada a cada domingo da graç a global. Melhor faria o programa se desse mais espaço ao seu corpo de balé, uma seleção de pernas e bocas de fazer inveja a algumas atletas olímpicas de países que nunca ouvi falar. Os reclames de hoje são muitos divertidos e prendem o telespectador. Acostumado a voltar para a leitura, nos intervalos, muitas vezes me delicio apreciando a forma mágica que os marqueteiros encontraram para vender seus produtos. Mas nesse espaço, tenho preferido mostrar fatos do passado e, hoje, levo os meus poucos leitores ao inicio do século passado, a edição de 8 de março de 1900, do jornal O Com mercio, editado pelo jornalista Arthur Achilles, nesta cidade de Nossa Senhora das Neves que acaba de aniversariar.

    Na sua página comercial, os reclames de remédios, como eram chamados, ganhavam destaque. Sob o titulo de “Remédios que Curam: Nevralgias, Rheumatismo agudo ou chronico, dor de dentes, SELLOS ante-rheumaticos do dr.Heinzelman”. Para a cura certa da “Dyspepsia, falta de appetite, náuseas, prisão de ventre e tonturas, recomendavam-se as Pílulas Ante-dyspépticas”do mesmo farmacêutico. Também estava no comércio um fármaco para combater as tosses, a rouquidão e o catarro - as Pílulas Expectorantes, que não serviam para eliminar as anemias, fraqueza ou inchação no rosto e nas pernas. Para esses males, a Pharmácia Londres tinha à venda as Pílulas Ferruginosas.

    Naquele tempo, a Homeopatia já ganhava espaço e, visando desclassificar os charlatães, anunciava-se a Homeophatia Verdadeira, cujo especialista chama-se Umbelino Álvares, sediado na Rua Larga do Rosário, 38, no Recife. Para evitar as falsificações, a marca era a foto do famoso homeopata estampada em tinta azul, com a recomendação: “Exija-se o seguinte retrato”. Mas para comprar com confiança, devia ser procurada a Pharmácia Londres, situada na rua Maciel Pinheiro, 76, na cidade da Parahyba.

    Não posso deixar de lembrar o Específico Áureo de Harvey, que prometia “cura infalível” para “Debilidade Nervosa, Espermatorreia, Perdas Seminaes noturnas ou diurnas, Inchação dos testículos, Prostração nervosa, Moléstias de rins e da bexiga, Emissões involuntárias e fraqueza dos órgãos genitaes”. Era uma oportunidade para se largar o chá de catuaba ou a gemada, já que o ovo de codorna foi indicado décadas depois pelo rei Luiz Gonzaga.

    Nas páginas dos jornais se vendia tudo: vinho de Málaga, para os convalescentes; Alcatrão Benzoico, para “bronchite ou laryngite” e também o Xarope de Cumarú. Phosphoros Cruzeiro, Salitre e Enxofre; Cimento e, um óleo denominado de Luz Brilhante, próprio para a iluminação aromática de lamparinas, sem produzir fumaça. Nessa época, é bom que se diga, a Drogaria Rabelo, fazia concorrência com a Pharmácia Londres.

    Os reclames chamavam a atenção do belo sexo, eternamente em busca de elegância e beleza, para os calçados oferecidos pela loja “A Botina Elegante, um grande empório de calçados”.E destacava o anuncio: “Esta casa, a primeira nesse gênero n’esta praça, recebe regularmente das principais fabricas estrangeiras e nacionais as mais altas e primorosas novidades em calçados em todos os feitios e tamanhos”. Respondia pela firma, J. Etelvino & Mo ntenegro, a rua Maciel Pinheiro 50.

    E para encerrar, a Casa da Fortuna, de Marcionillo Bezerra anunciava os prêmios da Loteria Esperança, que chegava a doze contos de reis; a Grande Loteria Nacional, poderia fazer um milionário de duzentos contos, prometendo descontar dos premiados uma “diminuta percentagem”.

    Não vou perguntar, mas tenho certeza: vocês vão preferir os reclames do Faustão. Não por ele, mas pelas meninas do balé!


  • 07/07/2016

    O crime de Carlota nas memórias de Zé Lins


    Relembrar José Lins do Rego é sempre um regalo para o espírito. A Academia Paraibana de Letras realizou um seminário sobre sua obra. Ali, percorri o Engenho Corredor e revi seus moradores assustados com as enchentes do rio Paraíba. As peripécias do menino Carlinhos e do moleque Ricardo, suas aventuras e inconfidências voltaram à cena. O encerramento foi coroado com a presença de Walter Lima Junior, o cineasta que colocou na tela o romancista de Menino de Engenho. O reviver de Zé Lins me levou também a páginas já visitadas. Fui em busca de “Meus Verdes Anos”, memórias da primeira infância, e encontrei uma referência que me transportou para o Brejo de Areia e à tragédia que vitimou duas famílias, armando mentes e mãos criminosas, que nem o castigo da fo rc a fez esquecer.

    Para Zé Lins, seu mundo terminava nos limites do Corredor, e ninguém era maior que seu avô, senhor do Engenho e dono dos votos sob sua influência. E tanto era verdade que lhe concederam uma cadeira de deputado e ele designou seu genro, Cazuza Trombone, para a vaga. Mas sua vó Janoca “também mandava no Corredor; e tinha seus protegidos...havia porém limites para o poderio da velha. Quando ela quis trazer para a casa de dona Delmana o negro Domingos, não o permitiu o meu avô.A casa de dona Delmana ficava dentro do cercado grande.Vivia sempre fechada.Quem teria sido aquela dona Delmana? As negras não sabiam e aquele mistério permaneceu até que me fiz homem”.

    Já homem feito, Zé Lins tomou ciência da história que quase lhe comera os miolos em formação. Dona Delmana fora viúva de um deputado assassinado em Brejo de Areia, a mando de uma mulher. O clima na cidade, após a morte de seu esposo, tornara-se inseguro para ambas as famílias envolvidas no crime, e ela resolveu migrar para perto dos parentes do marido, nascido no Pilar. Partiu em companhia de um filho e de um serviçal do deputado para morar no Engenho Santa Fé, do velho Lula de Holanda Chacon. Na viagem, segundo Zé Lins, apaixonou-se pelo empregado, chamado Cabral, e terminou cansando-se com ele. O segundo casamento não foi aceito pela família do falecido e, desprezada, a ex-viúva terminou seus dias naquela casa do Engenho Corredor cedida pelo avô do imortal.

    A mulher que mandou matar o deputado Trajano Chacon, chamava-se Carlota, e o fez, como vingança pela desfeita que recebeu do político, seu vizinho. O deputado chegou a ameaçar com um rebenque a futura algoz quando a encontrou em animado papo de calçada com sua esposa. Na ocasião, ela prometeu vingança, e logo contratou pessoas de sua confiança para a empreitada. No dia em que foi eleito deputado geral (deputado federal) o ex-promotor Trajano Chacon encontrou a morte, nas cercanias do Quebra, em Areia. O derrotado era justamente o amante de Carlota, o major Quincas, que estava foragido no cariri por outro fato e tomou ciência do ocorrido a posteriori. “Aquela mulher me mata. Mas o que está feito, está feito”, teria dito. Mesmo assim, sofreu condenação juntamente com Carlota e os executores do crime.

    De todos os condenados à forca, apenas Beiju- Antonio das Virgens, que não atendeu ao apelo de misericórdia da vítima, conheceu o patíbulo. Em segundo júri, as penas dos demais foram transformadas em prisão perpétua, inclusive, a de Carlota. Esta cumpriu pena em Fernando de Noronha. A República reduziu a pena máxima para trinta anos. Carlota foi solta e terminou a vida como dona de uma pensão no Recife. Em Fernando Noronha abandonou o ex- amante à própria sorte e se fez constante na cama e na mesa do seu carcereiro. Em Areia, porém, seu tempo de fama e de poder ficou marcado na história da cidade. Segundo Horácio de Almeida, até os presos clamavam a sua proteção. Diariamente, saiam da prisão com um barril de excremento para jogar em local ermo. “A isso c ha mavam de faxina”. Ao ganhar as ruas, os presos cantavam: “Rua abaixo, rua acima/ Com meu chapéu de bolota/Me solte seu major Quincas/ Me valha dona Carlota”.


  • 31/05/2016


    Depois de revelar alguns registros do Livro de Tombo da paróquia de Bananeiras durante a gestão do monsenhor José Pereira Diniz, resolvi contar algumas histórias do folclore local, envolvendo a figura singular do vigário.Tido e havido como um homem de posses, senhor de engenho e de poucos amigos, fabricava rapadura e cachaça. O fisco estadual chegou a apreender um carregamento de álcool destinado à fabricação não muito pura, da chamada “cachaça milagrosa”. O batismo é da Revista O Cruzeiro, na sua famosa coluna “O impossível Acontece”, ao noticiar sobre a ação fiscal e a atividade extracurricular do vigário.

    O advogado Alfredo Pessoa de Lima em júri popular (eu estava presente na platéia), negou a autoria da notícia que lhe atribuíram. E justificou: “cachaceiro não é aquele que ingere em excesso a bebida, produto da cana-de-açúcar. Cachaceiro, pelo sufixo eiro, indica profissão. Cachaceiro, é, portanto, quem fabrica a cachaça”, ensinou, e concluiu: “Tivesse sido eu o autor da matéria, teria completado que em Bananeiras quase todo mundo é cachaceiro. É cachaceiro não somente o padre, (Zé Diniz, dirigia o Engenho de Nossa Senhora) mas o juiz, (SemeãoCananéa tinha um engenho em Remígio), o promotor (não sei onde era o engenho de Onaldo Montenegro) e o prefeito (José Rocha era dono do Engenho Jardim). A notícia publicada na principal revista do país, à época, teve ampla repercussão, e gerou contrao padre comentários desconfortáveis. O monsenhor era um homem rico e, Zé do Cinema, seu colaborador, afilhado e um dos seus poucos interlocutores, preocupado,contou-lhe o que se dizia na rua. O padrinho não tinha por que se explicar e, encerrou o assunto:

    - Zé, eu fiz voto de castidade! Quem fez voto de pobreza foi Frei Damião!

    O monsenhor era conhecido pela pouca convivência social. Dificilmente comparecia a qualquer evento que não dissesse respeito às suas atividades religiosas. Seu veículo, um jeep, cortava as estradas de barro e deixava os transeuntes na poeira. Contam que um frade, à época seu coadjuvante, voltava esbaforido e a pé, de Vila Maia, onde fora celebrar uma missa. A passagem da condução do padre Diniz só fez aumentar a poeira na túnica marrom do capuchinho, esperançoso por uma carona. Mesmo com essa fama de uso individual de sua viatura, Zé do Cinema insistia com o padrinho para que comprasse um jeep de quadro portas, os jipões que estavam na moda e, justificava: dr. Clovis e seu Mozart Bezerra já compraram; seu Zé Rocha recebeu o dele;major Jurandir também; só falta “meu padim” comprar o seu:

    -Pra que eu quero quadro portas Zé! Meu jeep tem duas portas e eu só uso uma...

    O meu amigo Vicente da Nóbrega, pai do jornalista Rubens Nóbrega e professor do Colégio Agrícola, morava na rua principal de Bananeiras, em casa alugada ao padre, também administrador dos bens da Sociedade São Vicente. Uma chuva forte revelou uma porção de goteiras. Aproveitando uma tarde de folga, o professor subiu ao telhado e tentava realizar o conserto. De repente, estaciona no meio da rua o padre Diniz e, de dentro do seu veículo, grita:

    - Você ai em cima, está destruindo minha casa?

    A resposta de Vicente veio desassombrada, como manda a tradição familiar:

    - Sua casa não! Essa casa é de Nossa Senhora. Só não sei se ela está recebendo o aluguel...

    Sobre a definição de cachaceiro, aludida acima, encontrei recente canção de um sertanejo chamado Eduardo Costa, que parece ter ouvido a lição do advogado Pessoa de Lima: “Dizem que sou cachaceiro/ cachaceiro eu não sou/ cachaceiro é quem fabrica a pinga/Eu sou só consumidor”.


  • 14/04/2016

    Celso Cirne o visionário de Moreno


    Segundo Celso Mariz, o seu xará Celso Columbano da Costa Cirne teria sido o verdadeiro fundador da rivalidade que existiu entre Bananeiras e Solânea, notadamente, quando essa vila que se chamava Moreno, contava fábricas,tinha comércio crescente, expandia-se em uma planície com perspectiva de superar a sede municipal. Tornar-se-ia uma porta de saída para os sertões, com a certeza da chegada do trem. Para Celso Cirne, a ferrovia deveria aportar, diretamente, em Moreno , deixando Bananeiras à margem do progresso. Fez gestões nesse sentido e conseguiu que a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS) realizasse estudos “a fim de modificar o traçado da linha que, escalando a serra da Borborema, teria de penetrar no vale do rio Curimataú e na região das minas de Picuí”*. O trecho era uma continuação da Estrada de Ferro Conde D´eu, e partiria de Independência (Guarabira) até Picuí, onde o trem nunca chegou.

    Celso Cirne fói eleito deputado estadual em 1912, juntamente com seu cunhado Sólon de Lucena. Celso juntava ao seu prestígio pessoal a força política do sogro, o comendador Felinto Rocha, que morreria em 1913, antes do término do único mandato do genro. Na vitória política de Epitácio Pessoa, em 1915, os dois políticos do brejo já estavam unidos. Com os votos de Celso e dos moradores da Vila Branca, Solon de Lucena tornou-se chefe político de Bananeiras, tomando o trono dos Rocha. Foi a parceria de Solon com seu parente Epitácio que conseguiu o prosseguimento da linha férrea até Bananeiras. Em um aditivo contratual de 1922 foi incorporada à Great Western o trecho entre Borborema e a Boca do Túnel, este em construção pelo IFOCS. Se con trapondo, pois, ao traçado idealizado por Celso Cirne, Solon proclamou: “o trem chegará a Bananeiras, nem que seja por debaixo da terra”.Terminado o túnel, o trem chegou em 1925.

    Descrito por Celso Mariz como “vulto de esquisita singularidade, tão bom, vivaz e inteligente, quão desinteressado de si próprio,magnânimo,desorganizado e sonhador” Celso Cirne foi um propulsor do desenvolvimento do brejo. Fixado em Moreno, ali centrou suas atividades políticas, sociais e econômicas. Havia muita banana na região? - Vamos abrir uma fábrica de doces! Plantamos fumo? - Vamos fabricar charutos! Fundou colégios, e trouxe professores de fora para aprimorar o ensino. Um deles, Álvaro de Carvalho, fez amizade com Solon e com ele ingressando na atividade política chegou à presidência do Estado após a morte de João Pessoa. Nem sempre as iniciativas de Celso Cirne foram vitoriosas. Ele sonhava acima da realidade e muitas de suas ações redundaram em prejuízo financeiro, mesmo com apoio oficial.

    Um decreto do presidente Epitácio, de dois de agosto de 1922, autorizou o Ministério da Agricultura a contratar com Celso Cirne a instalação de uma fábrica de farinha de mandioca no distrito de Moreno, com capacidade para a produção diária de duzentas sacas, e concedia um empréstimo de 75 contos de reis para o empreendimento. Outro edito presidencial, este do dia 30 do mesmo mês e ano, abriu um credito especial ao Ministério da Agricultura para pagar ao industrial morenense. Não se sabe se algum dia o governo colheu retorno desse empréstimo, mas é sabido que um pequeno fracasso não levava o nosso herói ao desânimo.

    Os seus planos, às vezes mirabolantes, prendiam o ouvinte pela força dos argumentos, mesmos que revelassem uma distância entre o sonho e a realidade.Coriolano Medeiros, patrono da nossa Academia de Letras, foi seu hóspede por uma noite, quando se dirigia a Barra de Santa Rosa. Recebido afavelmente em uma mesa farta, mesmo cansado da longa caminhada em lombo de animais, achegou-se para uma conversa na sala. E se pôs a ouvir. Aquele homem era atualizado com as coisas do mundo e, os ouvidos de Coriolano, mesmo num corpo fatigado, ficaram impressionados com a palestra “afável e cerrada do hospedeiro”. Nessa noite, eu não diria que se discutiu, pois era Celso que discorria sozinho sobre o desenvolvimento da região, com a estrada de ferro em Moreno. Saindo da órbita local, “conversava sobre o futuro da alimentação concentrada e na viagem de horas ao Rio, quando a aviação pouco subira além da Torre Eiffel e o almoço de uma pílula ainda não pesava na maca do soldado alemão”, conforme a narrativa de Celso Mariz.

    O dia amanheceu ouvindo-se a voz de Celso Cirne. Coriolano, o hóspede, partiu sem conhecer a cama que lhe haviam preparado para o pernoite.(*Euclides Pinto,in História de Uma Estrada de Ferro no Nordeste)


  • 28/03/2016

    O crime do guarda 33


    No tempo em que a Paraíba só oferecia a seus filhos os estudos preparatórios, existiam dois estabelecimentos de ensino referenciados: o Liceu Paraibano e a Escola Normal. Ambos se localizavam no antigo Pátio do Colégio, depois praça Comendador Felizardo e finalmente, Praça João Pessoa. Era nesse largo, à época cercada por um gradil, que se concentrava a estudantada, belas normalistas e os futuros bacharéis, se tivessem condições de chegar à vetusta faculdade de direito do Recife. Da convivência desses jovens, com suas vistas voltadas para o futuro, nasceram muitos casamentos. Famílias distanciadas umas das outras por divergências políticas ou entreveros pessoais, podiam se reunir através dos seus rebentos e encontrar a paz. O contrário, poder ia também acontecer e, de namoros proibidos, surgirem motivos para uma guerra de linhagem, afetando a vaidade genealógica de alguns.Nunca se esperou, porém, que o local fosse reservado a testemunhar uma dos mais trágicos incidentes da historia paraibana na década dos anos vinte.

    Era setembro de 1923, e dirigia a Escola Normal o monsenhor João Milanez que, incomodado com a algazarra dos estudantes do Liceu e a proximidade deles com suas preciosas alunas, resolveu estabelecer uma linha divisória no logradouro. A partir daquela linha imaginária, ninguém poderia ultrapassar para ir ao encontro das normalistas. A guarda civil estava encarregada de manter essa determinação. Um sábado à tarde, Sady Castor, aluno do Liceu, pretendeu ir ao e ncontro da sua namorada, a futura professora Àgaba Gonçalves de Medeiros. Foi admoestado pelo Guarda 33, que fazia o papel de “guardião da honra das moças”, um pernambucano batizado Antonio Carlos de Menezes. O estudante resolveu desobedecer à autoridade e ultrapassou a faixa proibida. Surgiu uma discussão entre os dois, resultando daí a morte de Sady, atingido por um tiro certeiro do destemperado guardião da praça.

    O estudante Sady Castor foi socorrido pelos médicos Newton Lacerda e Ademar Londres, cujos esforços para salvar-lhe a vida, foram em vão. Conduzido para a casa do seu parente, dr.Gouveia Nóbrega, o corpo do inditoso jovem recebeu “absolvição in limine do padre Jos&eacut e; Coutinho” conforme noticiou a União do dia seguinte. O Guarda 33 foi “preso em flagrante pelo Sr. Dr. Mariano Falcão, entregue ao Guarda 41...e recolhido à cadeia pública”.Sady tinha apenas 25 anos e era filho do major Emiliano Castor de Araujo, residente em Soledade. Os estudantes do Lyceu Parahybano transformaram sua escola em palco de protesto e revolta contra as autoridades estaduais. O presidente Solon de Lucena se fez representar no funeral pelo secretario geral Álvaro de Carvalho, e substituiu o diretor da Escola Normal pelo seu conterrâneo do Bananeiras, o cônego Pedro Anísio.Nesse dia, a terceira escola entã ;o existente, a Academia de Comercio, liberou seus alunos que, incorporados, compareceram ao funeral.

    Mas não terminaria aí essa tragédia que quase derruba o presidente Solon de Lucena. A jovem Ágaba, inconsolável com a perda do namorado, cometeria suicídio alguns dias depois. Em carta, pediu desculpas àquela que seria sua futura sogra e, revelou suas razões: “ Resta-nos confiar na justiça da terra? Não, confiarei na Divina, pois que aquela falha e esta jamais falhará”. E conclui: “Peço-vos que abençoeis aquela que amanhã irá fazer companhia àquele que soube honrar e fazer-se honrar”.

    A inconformada normalista pertencia a família importante da nossa sociedade. A União e o Governo, acossados por uma opinião pública, abalada com a tragédia que vitimou dois jovens enamorados, não quis agravar os fatos e tratou de minimizá-los. Seu noticiário, na edição de 07.10.1923, assim registrou o passamento da infeliz jovem: “Hontem às 18 horas, mais ou menos, sentindo-se mal do estômago, a senhorita Àgaba diluiu num copo d´água uma droga qualquer, e julgando tratar-se de bicarbonato de sódio, ingeriu a solução.Ocorre que a infeliz moça por um equivoco fatal, trocara os vidros do medicamentos, tomando arsênico em vez de bicarbonato”


  • 15/03/2016

    Antigas páginas de jornais


     O saudoso escritor Wellington Aguiar contou quase toda a história da Paraíba, através das páginas dos jornais. Do Império, quando os periódicos começaram a transmitir as noticias da Corte, passando pela Abolição e chegando à República, tudo foi comentado a partir de uma notícia ricamente expressa em detalhes e adjetivos. Quando na direção de A União, passei a conviver com  traças e ácaros mas, de luvas e máscara, arriscava-me  a mergulhar naqueles preciosos arquivos em busca do passado, em  fatos e  curiosidades de épocas distintas. Que vício! Apaixonei-me por essas pesquisas e até no Arquivo Nacional encontrei páginas que me impressionam pelo inusitado de sua forma de redação. Era assim que se noticiava o nascimento de uma criança: “O ilustre Sr. Francisco Paulino de Figueiredo e  sua Exmª. Senhora  tiveram ante-hontem o seu lar domestico  ale grado pelo chilrear innocente  de mais juma creancinha que lhe veio aumentar a prole. Nossos parabens”.

    Os atos oficiais, emanados do Palácio do Governo, eram igualmente publicados no jornal do Partido Republicano Federal do Estado da Parahyba. Para ocupar esse meu espaço semanal, busquei algumas portarias que referenciam figuras ilustres do passado, hoje, quase todos, nomes de ruas e praças. Na edição de 04 de novembro de 1898, encontramos o nosso futuro presidente Castro Pinto, no inicio da uma careira que chegou ao Senado da República: “Por acto de hontem do governo do Estado, foi nomeado o dr. Castro Pinto para a cadeira de sociologia e moral do Lyceu Paraibano.Similhante nomeação, tendo recahido sobre pessoa muito competente e de tão invejável talento como é o dr. Castro Pinto , é digno de todo applauso”.

    Outra noticia, nos dá ciência de  importante nomeação, essa de interesse do setor econômico. “Por telegramma que vai na secção competente, sabemos ter sido nomeado Gerente da Caixa Economica d´este Estado, o nosso distincto e particular amigo e colega de redacção, dr.Joao Leopoldo da Silva Loureiro.Nossas cordiais felicitações a este nosso amigo pela prova de confiança com que acaba de ser distinguido e ao governo pela feliz escolha”.

    Não fugirá dos meus olhos qualquer referencia à minha região brejeira, principalmente Bananeiras, o segundo maior território ali sediado a partir de 1833, segundo Horácio de Almeida, que aponta Areia em terceiro lugar. Para a cidadela dos barões do café foi nomeado para o cargo de carcereiro, o cidadão Antonio Paulino dos Santos Filho, por indicação do “respectivo delegado de policia”. Em data próxima, para sub-prefeito, assumiria o cafeicultor Sigismundo Guedes Pereira Filho.O padre Walfredo Leal, que dirigia o Estado, em 1 de outubro de 1896 assinou portaria removendo de Bananeiras para Mamanguape o professor João Ignácio da Silva Queiroz, enquanto o titular da cadeira de ensino primário de Mamanguape, ocuparia seu lugar em Bananeiras. Ao que parece, o primeiro removido adoeceu com o impacto da transferência. O mesmo diário nos dá conta de que o mencionado professor foi afastado do cargo, “com ordenado, durante três meses para tratar sua saúde, onde lhe convier”.

    Pelas páginas de A União, temos noticia de que a Intendência Municipal de Bananeiras resolveu ceder à Diretoria Geral dos Correios e Telegraphos a casa da rua do Livramento daquela cidade, “com a mobília precisa para nela ser estabelecida a estação telegráphica”. A cessão era condicionada. Dentro de um ano, o Correio obrigava-se a construir sua sede própria. O acordo foi cumprido e a sede dos correios de Bananeiras é um centenário prédio bem conservado até hoje.A inauguração da linha  telegráfica ligou a “florescente cidade ao mundo civilizado”, diz o jornal.

    E para não dizer que não falei de flores, digo, das flores de café que mantiveram a riqueza do brejo por muitos anos, registro o seguinte anuncio: “Oliveiros Coriolano P. de Lucena, avisa aos senhores plantadores de café, que em sua propriedade Angicos, acha-se  a venda pelo preço de vinte a trinta mil reis o milheiro, cem mil pés de café próprios para muda.Bananeiras  8 de abril de 1896”.Nessa propriedade o menino Iveraldo Lucena, futuro andarilho, corria c&eac ute;lere entre os pés de café.    (Mantive nas transcrições a grafia da época)


  • 09/03/2016

    Convocado o décimo quarto constituinte


    A Constituição da Paraíba de 1989 se aproxima dos trinta anos de vigência, com emendas aditivas ou supressivas, mas firme na sua permanência. Como participante daquela Assembléia Constituinte, fui um dos homenageados com a “Medalha Constituição Cidadã Ulisses Guimarães”, quando da passagem dos vinte anos dessa nossa última Carta. Ao meu lado, outro companheiro, convocado pelo presidente Artur Cunha Lima, recebeu a mesma comenda. Esta semana, Múcio Wanderley Satyro acatou a convocação definitiva. É o constituinte numero 14 que nos deixa.

    Dos trinta e seis deputados-constituintes, despediram-se Ademar Teotônio, Aércio Pereira, Waldir Bezerra, Antonio Ivo, Ernany Moura, Egídio Madruga, Fernando Milanez, Francisco Pereira, José Fernandes, Soares Madruga, Leonel Medeiros, Oildo Soares e Judivan Cabral. Agora, Mucinho, tratamento familiar do tio Ernani que se expandia para os amigos mais chegados.

    Múcio Satyro chegou à Assembléia para cumprir mandato na Sétima Legislatura, iniciada em 1971. No mesmo ano seu tio Ernani Satyro assumia o Governo da Paraíba, eleito pela via indireta, graças ao Colégio Eleitoral criado pelo regime militar. Não foi fácil sua convivência nesse primeiro mandato, tendo que enfrentar uma oposição raivosa que, não podendo chegar aos chefes militares, conformava-se em atacar seu delegado local. Sobre o sobrinho recaiam todas as críticas e censuras ao tio governador. Assis Camelo, seu companh eiro de bancada, lembra, porém, que apesar de gozar da intimidade do poder e do governante, Múcio “nunca se aproveitou dessa força para atropelar qualquer companheiro”.

    Em 1974, quando cheguei à Assembléia, integrava um grupo nascido à sombra do governo de Ernani, juntamente com Evaldo Gonçalves, Manoel Gaudêncio, Nilo Feitosa, Sócrates Pedro e Chico Soares. Este último, substituía, em nome de Patos, justamente, o deputado Múcio, impedido de renovar o mandato pelo parentesco com o governador.Em 1978, Múcio retomaria sua cadeira e Chico Soares voltaria à sua tarefa no Ministério Público.

    A risada de Chico Soares ainda ressoava pelos corredores da Casa de Epitácio quando Mucinho voltou e, longe do poder exercido pelo tio, mostrou seu valor e conquistou luz própria. Nesse rastro, uma legião de amigos que choram a sua partida.

    Com a convocação de Múcio Satyro, a Assembleia Constituinte da Paraiba de 1989 já tem número suficiente para se instalar no Céu. Desta feita, não somente “invocando a proteção de Deus”, mas ao alcance de Sua vista. Descanso eterno, dai-lhe Senhor !


  • 29/02/2016

    O Voronoff brasileiro surgiu em Bananeiras


     O epíteto de “Vornoff Brasileiro” foi dado ao major José Fábio da Costa Lira, farmacêutico em Bananeiras mas nascido em Umbuzeiro, onde foi prefeito municipal. O jornal “A Noite”, do Rio de Janeiro, em edição de 11 de agosto de 1936, na primeira página, revela a existência, “no interior da Parahyba, do autor de um processo a que se atribuem curas assombrosas”. Doentes com tuberculose, câncer, lepra e diabetes eram objeto de tentativas de curas pelo método que denominou “lymphotherapia” e que consistia na “transmutação do princípio vital que afflora de certas glândulas de creanças e menores, desde que estejam sãs, para pessoas doentes, isto é, para aquelas cuja energia orgânica esteja perturbada, diminuída ou esgotada”, explica José Fabio, para finalmente comparar: “se posso dizer, é a voronofftherapia simplificada”.

    Ao usar o neologismo voronofftherapia, o criador da famosa “vacina de cuspe”, como ficou conhecida a injeção que aplicava nos enfermos, refere-se ao cirurgião russo radicado em Paris, Serge Voronoff (1866-1951) que foi pioneiro em método de transplante e prometia recuperar e garantir a vitalidade, a plena atividade física e mental... por meio do enxerto de glândulas sexuais de primatas não humanos, conforme explica Renata Moehlecke, da Fiocruz.A reportagem de “A Noite” sobre o “modesto farmacêutico do interior” também aludia à possibi lidade de seu sistema provocar o rejuvenescimento e garantir uma “velhice mais sadia e mais alegre”.

    O jornal carioca mandou a Bananeiras um repórter ouvir o esculápio, para tentar explicar aos leitores a razão da sua fama que já alcançava a Paraíba e os vizinhos Rio Grande do Norte e Pernambuco. Tal qual uma romaria, doentes de toda parte vinham pedir arrego na Farmácia de Zé Fábio. Sua atividade, porém, foi considerada irregular pela Sociedade de Medicina da ParaÍba e ele mesmo reconhece – “sei que venho agindo fora da minha profissão, pois não sou m&eac ute;dico,mas comprehendo também que a sciencia não pode ser patrimônio de uma classe”... Revela que suas experiências não fazem “victimas” e, conformado, conclui: “já me compensam as emoções de ter com o meu méthodo aliviado algumas dores humanas”

    Depois do pronunciamento negativo da entidade médica paraibana começaram as perseguições ao boticário. O vigário de Bananeiras, José Pereira Diniz, “na qualidade de guia dos destinos espirituaes da parochia” ao tomar conhecimento de que José Fábio havia dito que “ a lymphother apia provinha de uma missão divina recebida de um espírito superior que não era o Deus da religião de vocês”, resolveu interpelá-lo por carta, devidamente registrada no Livro de Tombo da Paróquia. A resposta às indagações do sacerdote foram respondidas uma a uma. “O meu methodo de cura lymphotherapia ou sialotherapia é resultado de estudos científicos publicados em dois livros e um memorial inédito lido perante o corpo médico do Hospital Pedro I, de Campina Grande” informa. E conclui o cientista autodidata: “Vossa Reverendissima sabe que tenho idéias espíritas, mas, que em tempo algum as empreguei para a cura do corpo e sim para as do meu espírito”.

    Proibido de exercer suas experiências na Paraíba, o major José Fabio da Costa Lira (naquele tempo em Bananeiras todo ilustre era major) mudou-se para Serra Negra, no Rio Grande do Norte. Em pouco tempo, a categoria médica local agiu contra sua atividade. Deusdedith Leitão, conta em “Inventário do Tempo” que era um jovem viajante e, na sua faina comercial, encontrou José Fabio em plena atividade em Lavras de Mangabeira, no Ceará. E tomou a “vacin a de cuspe” por recomendação de sua mãe, crente dos resultados advindos da injeção “milagrosa”. “Era o que ele chamava de salioterapia que nada mais era de que a saliva transformada num liquido injetável que se indicava a qualquer tipo de doença”, explica Deusdedith.

    O trabalho experimental de José Fabio da Costa Lira está detalhado no livro “Da Lymphotherapia ao Physio-Pschismo” publicado em 1924 sob o patrocínio do seu compadre Sólon de Lucena, então presidente do Estado. Ele narra os resultados satisfatórios de seu método de curar e revela, na reportagem de 1936, que conseguiu curar a tuberculose, “onde reste ainda uma parte do pulm ão e espero retrogradar a lepra ao estado de eczema, como já tenho feito da tuberculose uma bronquite commum.Conforme observações mais recentes, consegui reduzir o assuca, num diabético, a mais da metade, e levantar-lhe as forças, dissipar-lhe a catarata e abater a febre do enfermo”.

    Correligionário dos Pessoa, compadre e amigo do coronel Antonio Pessoa a quem chamava de Toinho, foi por ele escolhido prefeito de Umbuzeiro. Desgostoso da política local, trazendo uma carta de apresentação de seu chefe político para Solon de Lucena, em Bananeiras instalou-se e se tornou, além de amigo-irmão de Sólon, seu colega como professor de francês no Instituto Bananeirense, por eles fundado ao lado de Dionísio Maia e outros.

    Foram vãs as tentativas do avô de Waldir dos Santos Lima em legalizar o seu método cientifico de curar. José Fabio da Costa Lira teria que se conformar com o apoio moral que recebia dos que alcançavam a saúde plena. Não acumulou fortuna, mas lhe sobraram sofrimento e frustrações, fruto das perseguições sofridas ao longo da existência. Sua maior consternação, porém, foi não ter conseguido, com a lymphotherapia, prolongar a vida do seu compadre Solon de Lucena. O clima saudável do curimataú, da Fazenda Pedra D´Àgua, onde morreu o ex-presidente da Paraíba, foi insuficiente para a sua cura.


  • 14/02/2016

    O padre que acusou Ibiapina


    Transcorria uma madorra sessão da Assembleia Provincial de 1885, em que se discutia as parcas  verbas do Erário e o seu destino. Havia uma proposta de que se retirasse parte do bolo destinado à Santa Casa da Misericórdia para as Casas de Caridades fundadas pelo padre Ibiapina- José Antônio Maria de Ibiapina, àquela altura, já falecido. De onde menos se esperava surgiu a reação: o deputado padre Joel Esdras Lins Fialho resolveu detonar a Casa de Caridade de Santa Fé e seus dirigentes, notadamente, dona Cândida, desprendida e rica dama que largou a família para se dedicar à missão iniciada pelo padre-mestre. A crítica foi ampliada para outras unidades, mas, aquela situada  às portas de Arara, onde o deputado fora capelão, mereceu maior censura.

    Para o padre Joel, as Casas de Recolhimento, como as preferia chamar o padre Euphosino Maria Ramalho, também deputado naquela legislatura, estavam sendo desvirtuadas de suas finalidades iniciais. Denunciou a existência de uma dependência que serviria de prisão para castigo das internas, muitas das quais, padecendo de males incuráveis e não merecendo a devida atenção da diretora. Seu discurso, interrompido por protestos de “não apoiado”, mereceu contestação do deputado José Campelo Galvão, além de sucessivos apartes do vigário de Bananeiras-padre Euphosino e, de Irineu Joffily, conforme nos conta o padre Ernando Teixeira de Carvalho, confrade do IHGP. < /font>

    O deputado José Campello, nobre representante de Mamanguape, terminou por admitir que o acusador tivesse “sido acometido de uma alucinação de momento” e rechaçou o que considerou um “escárnio contra as casas de caridade da província fundadas por este grande homem - o padre Ibiapina, cuja memória é sagrada em nossos corações...um verdadeiro apóstolo da sociedade”. Ao que parece, as Casas de Caridade não conseguiram levar qualquer parcela das verbas destinadas à Santa Casa, daí por que o padre Euphosino resolveu recorrer ao Imperador Pe dro II reivindicando uma pensão mensal, para manter as internas de Santa Fé e de Cabaceiras (vide A União, de 16.01.16).

    O autor de “Ibiapina e Santa Fé” não sabe a que atribuir os ataques do padre Joel  à obra de Ibiapina, mesmo proclamando: “doe-me dentro da alma, sr.Presidente,ter necessidade de tratar aqui de uma questão tão ingrata e espinhosa”. Imaginei que essa posição adversa houvesse nascido em Areia, terra da origem do padre Joel e por onde havia passado Ibiapina como advogado. Mas por esse tempo Joel era criança. Não encontrei nenhum vestígio de qualq uer animosidade porventura surgida no passado areiense de ambos. Talvez o padre houvesse puxado ao avô, capitão-mor Bartolomeu da Costa Pereira, dono do engenho Viração, “um temperamento estourado e de pouca vocação para a política”, segundo Horácio de Almeida. O capitão era presidente da Câmara Municipal de Areia em 1837 e abandonou o cargo “para não se envergonhar de continuar servindo a um governo indigno”. A força política dos Lins Fialho vem do Velho Capitão, que elegeu deputado o filho Francisco Lins Fialho e depois seu irmão Joaquim Álvares, padre como o sobrinho Joel, filho de Francisco.

    O presidente da Casa interferiu nos debates e tentou parar o denunciante com a expressão latina “parce sepultis” a que o padre Ernando traduziu ao pé da letra como “enterrado,perdoado”. Uma forma de dizer: “perdoa os mortos que não podem se defender”.

    Padre Joel Esdras quando assumiu a cadeira de deputado respondia pela nóvel freguesia de Currais Novos-RN. Segundo Celso Mariz, chegou à Assembleia em virtude da anulação da eleição do bananeirense Ascendino Neves e mais dois falecimentos. Foi um dos três suplentes convocados. Os votos que adquirira vieram do Distrito Eleitoral que tinha sede em Areia e incluía Alagoa Nova, Bananeiras, Araruna, e Cuité, onde então era vigário. Seu único mandato o tornou famoso pelo discurso contra as Casas de Caridade. Criada a Arquidiocese da Paraíba, em 1895, o padre Joel Esdras foi designado vigário encomendado de Araruna, onde permaneceu até a morte.

    O historiador Humberto Fonseca nos revela que o padre, mesmo quando se tornou avulso e passou as obrigações sacerdotais da paróquia de Nossa Senhora da Conceição para outro clérigo, não se ausentou da politica local. Foi conselheiro municipal várias vezes e presidente desse Conselho. Uma das querelas em que se envolveu contou com a ingerência do presidente Castro Pinto que, a princípio, conciliador, terminou por enviar um contingente policial para aclamar os ânimos da disputa politica envolvendo os vários candidatos a conselheiros, entre os quais se destacava o padre Targino Pereira da Costa, filho da terra e acostumado ao poder de mando de sua família, uma oligarquia que ainda hoje sobrevive na política de Araruna.

    E por falar em família, o padre Joel Esdras resolveu constituir a sua, e renunciando ao voto de castidade, botou no mundo enorme descendência que ocupa posição de prestígio por esse Brasil a fora, na cátedra, na magistratura, na medicina  e em outros ramos de atividade, sempre orgulhosa desse tronco genealógico.

    Mas foi com seu discurso na Assembleia Provincial da Parahyba do Norte, que o padre Joel conquistou seu lugar na história.

    P.S. É a segunda vez que abordo esse assunto: o padre José Euphosino Maria Ramalho, nascido e batizado no Piancó com o nome de José Euphosino Pinto Ramalho, foi vigário colado de Bananeiras até 1903. Na legislatura de 1884-1885, como colega do padre Joel Esdras, Celso Mariz nos dá noticia da presença do deputado padre José Euphosino Maria de Carvalho. Só posso atribuir a um erro de grafia que vem sendo repetido, pois, inclusive, o nome Maria foi acrescentado em homenagem ao padre-mestre José Antonio Maria de Ibiapina, ao lado do qual, foi sepultado, a seu pedido. Que me tirem essa dúvida o padre Ernando e Humberto Fonseca, já que não posso invocar os saudosos Celso Maria e Deusdedith Leitão, responsáveis pela Memória da Assembleia Legislativa da Paraiba.


  • 08/02/2016

    Uma ‘velha senhora‘ jovial


    Era uma quinta feira, 2 de fevereiro do ano de 1893, quando o Partido Republicano do Estado da Parahyba fez circular a primeira edição de A União. Na capa, os editores pediam aos seus leitores, “o obsequio de devolvel-o á respectiva typographia” no prazo de três dias. Não explicaram o motivo para essa restituição, mas o Walter Galvão, hoje diretor desta folha, acredita que se tratava de uma pesquisa para avaliar o alcance do periódico.

    Na edição inaugural, o novo órgão de imprensa traçava o seu perfil, e se identificava como veículo político-partidário, disposto a defender a agremiação e seus integrantes. O jornal e o partido eram um só corpo e um só espírito. Por isso, se dirigiu ao publico leitor “não para anunciar qualquer nova transformação mas para configurar os motivos de sua origem, as formulas que condensaram os seus primeiros pensamentos,suas aspirações, no começo vagas,depois francamente definidas e encorpadas aos caracteres que dirigiam o movimento.A única modificação que lhe anunciamos, é a creação d´esta folha, poderoso meio externo da cohesão e disciplina partidária.Iremos á luz da  imprensa, visitar os arrayaes de nossos amigos, e crear-lhes um centro de intelligencia, e de conselho. Iremos  a mesma luz prestar nossa decidida cooperação ao illustre administrador do estado, o exm.sr.dr. Alvaro Lopes Machado. O nosso apoio igualmente ilimitado, e sem nenhuma reserva extenderemos ao benemérito governo da União, e ao glorioso chefe da Republica, Sr. marechal Floriano Peixoto”.

    Da pia batismal aos dias de hoje, a linha editorial deste jornal permanece a mesma. Mudam os governos, mas sua fidelidade, jamais. A única mudança foi a oficialização dessa lealdade. Em determinado momento, o jornal do Partido tornou-se o jornal do Governo. A União publicaria além do noticiário palaciano, os atos emanados da administração pública. O Diário Oficial, em separado, é obra mais recente. O modelo serviu até para enriquecer nosso folclore político. Zé Américo, no Piancó, definiu o político Antonio Montenegro: “é mais fiel ao Governo que o chumbo do diário oficial”. Na minha irreverência já conhecida, prefiro dizer que A União “é o órgão mais independente que  conheço: é do governo e não nega”.

    No primeiro número do periódico, temos conhecimento de que, naquele ano de 1893 era Chefe de Polícia da Paraíba o dr. Antonio Ferreira Baltar; seu irmão, de nome Abílio Ferreira Baltar, nomeado Fiscal, realiza a primeira extração da  Loteria, à  época,  uma concessão particular entregue a um  felizardo chamado Bernardino Lopes Alheiros.  O primeiro delegado da Capital era Francisco Chateaubriand Bandeira de Mello. O Assis, do mesmo sobrenome e criador dos Diários Associados, tinha, então, um ano de idade. Naqueles dias, por emissão de notas falsas, foram presos dois diretores de bancos nacionais; “as notas falsas do Banco Emissor de Pernambuco se distinguem pela imperfeição do mau papel”; o ministro da Fazenda manda que se recebam as notas do Banco Emissor, tidas como verdadeiras, até que sejam substituídas pelo Banco da República; é nomeado um novo diretor para o Banco da República, o Sr. Tomaz Coelho;  o governador do Rio de Janeiro sanciona lei que transfere a sua Capital para a cidade de Theresópolis; morre a esposa do ministro da Guerra.

    A denominação do jornal deve-se à união dos próceres dos velhos partidos, ao novo Partido Republicano comandado por Álvaro Machado. “No intuito de justificar o nome desta folha” foi relatada com detalhes a reunião de criação do novo partido realizada no Palácio do Governo, quando “duas ordens de cadeiras foram insuficientes para acomodar os convidados”. Foi designada uma comissão provisória para comandá-lo, eleita, democraticamente, entre os presentes ao evento.

    O governador Álvaro Machado asseverou “que não tinha vindo a Paraíba se não para reconstruir o que fora demolido e por em ordem o que fora desorganizado”. No campo partidário desejava juntar os bons elementos de outros partidos e “fundi-los em um só, compacto e disciplinado”. A votação, apurada entre outros por Artur Aquiles e Tomaz Mindelo, proclamou como escolhidos para a primeira diretoria do Partido Republicano os srs Diogo Sobrinho,Eugenio Toscano,Gama e Melo,Moreira Lima e José Evaristo, os mais votados.Os srs Targino Neves e Cunha Lima, de Bananeiras e Areia, respectivamente, ficaram na suplência juntamente com outros nomes de rua menos votados.

    E encerra sua narrativa o jornal A União: “Servido em seguida um agradável copo de cerveja, retiraram-se os convidados plenamente satisfeitos, não só quanto ao cavalheirismo de trato do honrado governador, como em relação à phase de verdadeira actividade política, iniciada por tão solene reunião”. Estava fundado o Partido Republicano do Estado da Parahyba e o seu porta-voz, A União.

    Esta semana A União entrou na era de informática, inaugurou sítio e um sistema on-line de envio de matéria para a publicação no Diário Oficial. A Velha Senhora de 123 anos está cada dia mais jovem e dinâmica, sob o comando de uma equipe que se desdobra para oferecer seus melhores serviços à Parahyba do Norte. Parabéns !( Nas transcrições mantive a grafia da época)


  • 25/01/2016

    Ricardo, Coelho Lisboa e Abelardo


    Testemunhei recentemente o drama enfrentado pelos paraibanos com o desabastecimento de combustíveis e a tentativa de normatizar o suprimento do nosso Estado através do porto de Suape. Lembro que essa  supremacia  de Pernambuco sobre a Paraíba vem  do Brasil Colônia. Mesmo existindo duas Cartas Régias que mandavam a Capitania da Paraíba comercializar diretamente com a Coroa portuguesa, o nosso açúcar partia do Recife com destino à Corte. A Paraíba era explorada dupla mente: pelos portugueses e pelos comerciantes pernambucanos. Agora haveria uma inversão de percurso. O combustível deixaria de ser entregue em Cabedelo e sairia de Suape em caminhões tanques que invadiriam as estradas para nos atender. Se ontem os donatários não reclamaram, hoje, ouviu-se o grito altaneiro do nosso Capitão Mor. A reação do governador Ricardo Coutinho encontrou eco no Planalto e a Paraíba voltou a ter navios no seu porto.

    Do Império à República sempre os estados maiores tentaram  usurpar os direitos do seu vizinho de menor porte.  Foi preciso afiar sempre as garras para evitar ser engolido. Outro exemplo: no passado, as estradas de ferro eram o marco do progresso. Um decreto fixava na Paraíba a chefia dos serviços ferroviários em execução neste território. Revogou-se o decreto e Pernambuco passou a  centralizar a autoridade ferroviária.Houve protesto. No Congresso Nacional o deputado Coelho Lisboa foi à luta. Da tribuna, firmou posição:

     “Sr Presidente, em vista das declarações cathegóricas que acaba de fazer um dos illustres membros da comissão de orçamento com relação às emendas  apresentadas devo sentir-me desanimado”.

    O pernambucano Artur Rios se disse condescendente. Veio a réplica de Coelho Lisboa:

    “- V.Excia foi condescendente, é verdade, concordando com uma terça parte  das minhas emendas,mas não foi condescendente com a Parahyba quando como principal golpe contra ella desfechado propôs a revogação do decreto 1705, de 30 de abril de 1894” (Que retirava a chefia dos trabalhos da estrada de ferro, da Paraíba para Pernambuco).

    E continuou o deputado areiense:

    “Sr.Presidente, os pequenos estados luctam desde a colônia. E não sei até quando continuarão a luctar, contra a prepotência dos grandes estados visinhos. V.Excia. como representante do poderoso estado de Pernambuco, V Excia mesmo reconhecerá e no mesmo momento em que me dá a palavra deve guardar consigo a convicção de que o humilde batalhador da Parahyba não vem mais do que levantar um protesto, um protesto talvez inútil contra o predomínio de que teem sido victimas e por muitos anos hão de ser ainda todos os pequenos estados que tenham ao seu lado estados com força e representação sufficientes para suffocar todas as aspirações de independência e autonomia que aspiram”.

    Disse tudo, e  disse muito bem! Esse Coelho Lisboa foi também Senador no inicio do século passado. Muito prestigiado, sua chegada à Paraíba era festejada, até porque, vinha de quatro em quatro anos.

    A partida, de volta às suas atividades no Congresso Nacional, era destaque na primeira pagina do Órgam do Partido Republicano do Estado da Paraiba – A União:    “S.Exc. dr. Coelho Lisboa tomou ante-hontem, o trem do Pilar, de onde seguirá para a cidade do Recife com destino á Capital Federal.Á estação acompanharam-n´o diversos amigos, entre os quaes s.exc. o dr.Gama e Mello, presidente do Estado,dr.José Pereira Maia,chefe de policia,major Bento Paes, comandante do batalhão de segurança,chefes e empregados de repartições estaduaes e federaes, representantes de todas as classes sociaes e amigos pessoaes do simpáthico e illustre deputado que na Parah yba é uma das individualidades mais bemquistas e prestigiadas”.

    A propósito, ontem, a Academia Paraibana de Letras preencheu a cadeira 12, que tem Coelho Lisboa como patrono. Jornalista e advogado como seu patrono, Abelardo Jurema Filho passou a ocupar a cadeira que pertenceu ao imortal Wellington Aguiar, de saudosa memória. Abelardo, do lado paterno, é neto de Geminiano Jurema Filho, nome in pectoris do deputado José Pereira para ocupar a vaga de João Pessoa, em caso de um hipotética intervenção na Paraíba por conta da “guerra de Princesa”. Do lado materno, Abelardo é neto de Osvaldo Pessoa e, assim, se diz um conciliador, por correr nas suas veias sangue perrepista e liberal a um só tempo.

    O patrono da cadeira 12 era aguerrido e veemente nos debates, mas também um espírito apaziguador. Conta A União que, no  parlamento, tentou evitar um desforço pessoal com um certo deputado Seabra.   “O Dr Seabra recusou a luva atirada pelo seu collega Dr. Coelho Lisboa, dizendo, entretanto, estar prompto para brigar em plena rua.”  (Textos do noticiário de A União, novembro de 1894. Mantive a grafia da época)


  • 18/01/2016

    Uma carta ao Imperador


     Ao pesquisar a origem dos Ramalho no brejo deparei-me com a figura do padre José Euphrosino Maria Ramalho, nascido no vale do Piancó mas vigário colado de Bananeiras até o inicio do século XX. Sob a jurisdição da Freguesia de Bananeiras estava incluída a Casa de Caridade de Santa Fé, localizada à chegada de Arara, hoje território de Solânea. A dedicação do pároco ao empreendimento do padre-mestre Ibiapina, levou-o a deixar aos próximos seu desejo de ser sepultado ao lado do mestre e, assim foi feito. Antes, porém, revelou ao Imperador Pedro II sua preocupação com as dificuldades financeiras do empreendimento social e rogou de sua majestade ajuda financeira para a manutenção do lar das órfãs.Sua carta ao Imperador merece ser transcrita:


    A S. M. Imperador, Senhor: O padre José Euphrosino Maria Ramalho, párocho collado da egreja de Nossa Senhora do Livramento de Bananeiras, director e encarregado da casa de caridade ou recolhimento de Santa Fé, fundada pelo benemérito missionário apostólico Rvm padre Dr.José Antonio de Maria Ibiapina, em a sua referida parochia, bem como da de Cabaceiras, pelo mesmo Rvm missionário fundada na Villa e freguezia deste nome,ambas na província da Parahyba do Norte,profundamente compenetrado da situação afflictiva, em que actualmente permanecem as órphãs na sobreditas casas recolhidas, e cujo numero attinge a cento e sessenta na primeira mencionada e a sessenta na segunda as quaes inevitavelmente succumbirão pelo rigores da fome, se uma mão bemfazeja não lhes vierem em auxilio;por isso que por sua natural condicção e educação não podem absolutamente concorrer aos logares em que são dispensados soccorros públicos, vem com o mais respeitoso acatamento, em nome da pátria, que V.M I. tanto estremece como em nome da caridade, que tão felizmente enobrece o magnânimo coração de V.M.I. pedir que se digne em sua alta munificência imperial arbitrar mensalmente uma pensão pecuniária para as referidas casas ou recolhimentos, até que melhorem os tempos, afim de serem soccorridas tão desprotegidas creaturas, as quaes, falhando as contribuições que lhes dispensam os fies, em virtude da desastrada crise que a todos affecta,arrostam o mais imminente perigo, não só proveniente de fome e nudez, como por falta d´água potável que para o recolhimento de Santa Fé em Bananeiras, é procurada na distancia de três léguas, sem que tenha recurso para acquisição e condução desse elemento tão indispensável.
    Senhor, o humilde e obscuro párocho de Bananeiras recorrendo à magnanimidade de V.M.I. em favor de suas infelizes jurisdiccionadas, victimas do mais desastrado e atterrador flagello, nutre a mais doce e a mais lisongeira esperança de ser attendido;pelo muito que respeitosamente ousa declinar nesta humilde supplica os nomes das respectivas superioras encarregadas pelo benemérito dr.Ibiapina na direção interna e da economia dos ditos estabelecimentos pios, as quaes V.M.I. dignar-se-há mandar, com a presteza que o caso exige, endereçar o que houver por bem arbitrar:D.Felismina da Rocha Ibiapina, superiora do recolhimnento de Santa Fé em Bananeiras ; D. Veneranda de S.José Ibiapina, superiora do recolhimn ento de Cabaceiras.

    Assim, P.E. deferimento,Vigário José Euphosino de Maria Ramalho.
    Padre Euphosino foi deputado provincial em 1884-1886 mas seu nome foi grafado como padre José Euphosino Maria de Carvalho, no livro de Celso Mariz sobre o legislativo paraibano. Um equívoco que Deudedith Leitão não corrigiu ao continuar a história até os anos 1980. A petição ao Imperador está publicada na edição de domingo, dia 1º. de setembro de 1880, do jornal católico O Apóstolo, editado no Rio de Janeiro.

    Não posso dizer se o padre de Bananeiras foi atendido. Creio que não.Para viajar à Parahyba do Norte consta que D.Pedro II teria tomado um empréstimo ao cofre da Imperatriz, mas assim mesmo, fez doação de algum à Santa Casa da Misericórdia. Destinou também um dinheiro para a remoção do Matadouro Publico que achou em lugar impróprio. Não preciso dizer que todo esse dinheiro foi desviado para despesas mais urgentes. Esse vício vem de longe...

    P.S A citada Dona Felismina da Rocha Ibiapina, chamava-se na verdade Felismina Maria dos Santos Peregrino e vem a ser filha do Barão de Araruna.


  • 06/01/2016

    Waldir, o rebelde


    Nascido no dia de São Sebastião, eu costumava brincar com ele: se fosse filho dos moradores do Engenho Avenca, seu nome seria Bastião. Mas Waldir Lira dos Santos Lima nasceu na Casa Grande e seu destino seriam as alturas. Sua vida pública começou nos anos 1960 com Pedro Gondim lhe abrindo as portas do Palácio e o introduzindo na política. Daí para  frente, ele passou a abrir as portas do poder para os outros e conseguiu manter-se por muitos anos na cúpula governamental. Aclamado com respeito, de Pedro Gondim a Ronaldo Cunha Lima, sua presença foi constante e indispensável nos pleitos eleitorais travados na Paraíba, fossem eles diretos ou indiretos.

    Página inesquecível da história da Paraíba teve em WaldIr um dos principais protagonistas. Foi o apoio de Waldir como Presidente da ARENA que viabilizou a disputa de Antonio Mariz à convenção daquele partido, contra Tarcisio Burity, enfrentando a ira dos quartéis e o poderio econômico do Grupo da Várzea, que defendiam o regime de exceção mascarado por uma Constituição fardada. Waldir, além ficar ao lado  de Mariz, pôs também sua cabeça a prêmio aceitando disputar a vaga de vice-governador. Sua fama de conspirador vinha, porém, de longe, desde os tempos em que um nascente Partido Democrata Cristão a tilde;o, invenção gondinista, servia para acirrar os ânimos dos udeno-agripinistas.

    Nascido em Serraria, só teve direito de disputar os votos de sua terra quando o filho de Antonio Carvalho, amigo de Pedro Gondim, despediu-se das várias tentativas de se eleger deputado estadual. Naquele tempo, as amizades eram respeitadas. Um Waldir correto e disciplinado foi completar sua votação na região de Umbuzeiro onde mantinha laços familiares. Presidente da Assembleia Legislativa em duas oportunidades realizou o primeiro concurso publico para preenchimento de cargos, naquela casa que dirigiu com raro brilho e acatamento geral.

    Rebelde contra as injustiças, bravo no combate aos desatinos dos áulicos do poder, era severo na crítica e contundente nos protestos. No governo de Ernani Satyro sua oposição quase isolada compôs com Edvaldo Motta e Eilzo Matos  um trio apelidado pela imprensa de Tupamaros, numa alusão aos rebeldes Uruguaios. Esse grupo, para  tirar o sono do governador, chegou a mirar no que ele possuía de mais sagrado: sua produção literária.O grupo anunciou que iria queimar em praça publica, o livro “O Quadro Negro”  de autoria do imortal da APL que ocupava o Palácio. Egídio Madruga que presidia a Assembléia, assistiu certa feita WaldIr rasgar o Regimento Interno em sinal de protesto: “já que Vossa Excelência não o cumpre”!

    Na eleição de 1978 fomos delegados da Paraíba ao Colégio Eleitoral que elegeu o general João Figueiredo, presidente da República. WaldIr, derrotado na convenção da Arena para vice-governador, candidatou-se a deputado federal. Fizemos uma dobradinha em todo o brejo: ele federal  e eu estadual. Àquela altura, era tempo de Burity, e a razão nos aconselhava: cada um cuide de si... Os reflexos da nossa rebeldia assustaram os eleitores da Arena. Os eleitores do Presidente deram dois bons suplentes. Ficamos sem mandato.

    Quando Waldir pensava em comemorar seus 81 anos, no próximo dia 20, eis que a vida se retira e deixa apenas a saudade e a história de um político digno, competente e probo. A pequenina Paraíba ficou menor com a sua ausência.


  • 05/01/2016

    “Pra Não Dizer Que Não Falei De Flores”


    Tenho ocupado esse espaço para uma volta ao passado ao invés de incursionar pelo presente. Não por alienação ou omissão, mas por vocação: amo a pesquisa e exalto a memória histórica como lições de antanho para nortear o futuro. Assim chegamos aos primeiros dias de um novo ano  com a esperança nascente de que, nos próximos, a vida melhore e as flores voltem a exalar seus melhores perfumes.

    Testemunhamos, ao longo desse período, uma invasão traumática às entranhas da Nação, revelando excrementos acumulados e acobertados pelo disfarce, a simulação, a impostura ou a fraude. “Nunca na história deste País  os olhos e os ouvidos de todos foram tão ofendidos pela ação nefasta de uns poucos que se protegiam com a certeza da  impunidade. O império da lei prevaleceu e a Justiça invadiu territórios jamais acessados. Se antes apelavam aos quartéis e colocavam os tanques nas ruas, agora se preferiu acreditar “nas flores vencendo os canhões”. A democracia só floresce na paz.

    Está por demais justificada a razão pela qual preferi compor os meus textos com  a pesquisa  e aproveitar da história seus aspectos mais pitorescos e inusitados, chegando ao burlesco. Preferi Pedro II como amante da Condessa de Barral, presente às aulas de suas filhas, ao tempo em que namorava ostensivamente sua preceptora. As peripécias de Pedro I, visitando as mais variadas alcovas e requisitando companhia intima desde as senzalas aos conventos, passaram por este recanto de página. Getúlio Vargas ameaçou por várias vezes o suicídio e o cometeu quando ninguém esperava. Foi um amante apaixonado pelo Brasil e pelas belas mulheres. No advento da República, o herói não teria sido Deodoro mas o seu cavalo. Pelo feito de conduzi-lo, permaneceu até o fim da vida com direito a fartura de feno e a honrosa aposentadoria. Foi o inventor da sinecura.

    Preparo para este ano um novo livro a que denominei Gente do Passado Fatos do Presente e cuidei de me explicar: “quem já me conhece sabe que costumo colocar em fatos sérios um pitada de humor,dourar com ironia atitudes muitas vezes equivocadas e criticar com acidez atos que incomodam a perspicácia desse ativista político que já exerceu mandatos, ajudou outros a conquistá-los e, por isso mesmo acumulou a experiência que o transformou em um gestor publico requisitado por vários governos”.Com o perdão da imodéstia, quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo haverá de concordar com esse perfil.

    A rememoração de fatos pretéritos é para mim uma forma de, ao lembrá-los, transmitir a certeza de que estou aprendendo e ensinando uma nova lição”, para repetir  Geraldo Vandré, que neste fim de ano revisitou a sua Paraíba. Nunca a pregação de sua canção esteve tão presente e necessária a incutir na mente dos brasileiros o desejo de mudança. Que cada um faça a sua parte: “vem, vamos embora que esperar não é saber/quem sabe faz a hora não espera acontecer”.  


  • 21/12/2015

    A família RAMALHO, no brejo da Paraíba


    O padre Florentino Barbosa Leite, que presidiu o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano por mais de seis anos, até 1956, nos legou o único documento conhecido sobre as origens da Família Leite e seu entrelaçamento com a família Ramalho, no Estado da Paraíba.Seu livro data de 1948 e dá como raiz da família a chegada, à ribeira do rio Piancó, vindo da Bahia, do casal Pedro Ferreira Leite e Isabel Gomes de Almeida, por volta do ano de 1755.

    Sua numerosa prole distribuiu-se pelo Vale do Piancó ocupando os territórios dos municípios de Conceição, Piancó, Teixeira, Bonito de Santa Fé e até Brejo do Cruz.O padre concentrou a família em três ramos distintos: ConceiçãoPiancó e Teixeira. Pela sua classificação, os Ramalho do brejo estão enquadrados no veio de Conceição.Começo pelos meus avós maternos: A história de todo sertan ejo sempre começa ou termina com uma seca.  Em uma dessas estiagens prolongadas, Isidro Pinto Ramalho deixou a casa de seu sogro, Antonio Pinto Ramalho,no sítio Manguenza, município então denominado de Misericórdia, e partiu para a região amazônica em busca de melhor sorte. Nunca mais voltou, morreu de béri-béri. Sua única filha, Leonor Pinto Ramalho, sem arrimo familiar naquelas plagas, foi trazida para Bananeiras pelo padre José Eufhrosino Pinto Ramalho, que depois mudou seu nome para José Eufhosino Maria Ramalho, talvez em homenagem ao Padre Ibiapina, ao lado do qual fez questão d e ser enterrado, na Casa de Caridade de Santa Fé, hoje município de Solânea,vizinha à cidade de Arara.

    Isidro Pinto Ramalho era filho de Francisco Pinto Ramalho,comerciante em Misericórdia, e genro de Antonio Pinto Ramalho. Portanto, era genro do seu tio. Sua mãe chamava-se Alexandrina Leite Ramalho. Teve irmãos e irmãs, entre os quais um mais conhecido por ser considerado um bom maestro e fundado bandas de musica em várias cidades do sertão e do brejo- José Leite Ramalho, o Zeca Ramalho, pai do desembargador Luiz Silvio Ramalho, de Milton Ramalho e de Dudu Ramalho, para lembrar apenas aqueles que conheci.Terminou tabelião em Santa Rita. Is idro teve uma irmã, de nome Clotilde Leite Ramalho que casaria com o senhor do Engenho Poço Escuro, em Borborema,PB, tenente da guarda nacional José Rodrigues da Costa Neto.

    Clotilde, primeira mulher do tenente Zé Rodrigues, tia de Leonor Pinto Ramalho,pois era irmã de seu pai, Isidro Pinto Ramalho,adoeceu de grave enfermidade. O padre Eufhrosino, que havia internado Leonor na Casa de Caridade de Santa Fé para receber ali a melhor educação da época, levou sua sobrinha neta para o Engenho Poço Escuro. Ela iria cuidar da tia enferma e de uma criança ainda de braço, a menina Conceição. Ficando viúvo o tenente Zé Rodrigues, o Pároco de Bananeiras apressou-se em ir buscar sua pupi la para retornar ao convívio das beatas do Padre Ibiapina. Não esperava pela recusa da moça. Sertaneja destemida e já acostumada aos desafios da vida alegou que se apegara demais à criança sob seus cuidados, e ali queria ficar.

    “Uma moça jovem e solteira na casa de um viúvo, não pode dar certo”...ponderou padre Eufhrosino. “Vamos fazer logo esse casamento”. Desse enlace, surgiu um novo ramo da família, os Rodrigues Ramalho. Fruto desse matrimônio nasceram Maria Rodrigues Ramalho (Tia Lica) casada com Sebastião Barbosa de Sena; Diomedes Rodrigues Ramalho, casado com Erotildes Leite de Queiroz; Elpídio Rodrigues Ramalho, casado com Inez Leite Ramalho; Anatil de Rodrigues Ramalho, casada com Manoel Patrício;Edith Rodrigues Ramalho, casada com José Leite;Clotilde, que viveu pouco tempo;Arlindo Rodrigues Ramalho casado com Maria Eurídice Leite Ramalho; e Elvídio Rodrigues Ramalho casado com Ivanilda Pinto Ramalho. É grande a descendência desses casais, onde estou incluído e, também, o Eutímio Pinto Ramalho, um dos organizadores desse encontro familiar.( Resumo da palestra sobre o tema acima, proferida durante o Encontro da Familia Ramalho, em Cabedelo,PB, em 11.12.2015)


  • 16/12/2015

    A Vila de Bananeiras


     Uma povoação, no regime monárquico, adquiria sua independência política ganhando o status de Vila. Bananeiras, como povoado, estava inserida no mapa da Vila de São Miguel da Baía da Traição até que passou a integrar o território da Vila Real de Brejo de Areia em 1872. Seis anos depois, em 10 de outubro de 1833, foi dada emancipação política e criada a Vila de Bananeiras, “arrastando consigo os territórios de Guarabira, Cuité e Pedra Lavrada”, segundo Horácio de Almeida. O artigo segundo da lei que criou o novo município, ao invés de Pedra Lavrada, por certo fazendo parte de Cuité, se refere a Serra da Raiz. Guarabira chama-se, então, Independência.E prossegue Horácio: “em densidade dem ográfica, coloca-se Areia em terceiro lugar na Província, seguido apenas pela Capital e por Bananeiras. Nessa época, Bananeiras era a maior município do Brejo em extensão territorial, com uma área que ia até os limites de Areia ao Rio Grande do Norte, inclusive, o atual município de Araruna”.

    Araruna esteve sob a jurisdição da Vila de Bananeiras até 11 de julho de 1877 quando se instalou como Vila, com a posse dos seus primeiros vereadores, perante o presidente Manoel da Costa Espínola, da Câmara de Bananeiras. Desde 1871, porém, nasceria a inconformação dos moradores de Araruna com a dependência de Bananeiras, principalmente devido à distância entre o distrito e a sede municipal. Araruna era administrada à distância pelos chefes políticos de Bananeiras. Um documento descoberto pelo historiador Humberto Fonseca de Lucena e firmado pelas figuras m ais representativas de Araruna, datado de 1871, defende a criação daquele município. Os moradores da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Povoação de Araruna, Termo e Comarca de Bananeiras reclamavam a distancia de nove léguas para se alcançar a sede municipal onde “são obrigados a prestar serviço do júri, reunir colégio eleitoral e requerer qualquer ato judicial”. O Barão de Mamanguape, senador do Império e presidente da Província sancionou a lei 616 que criou a Vila de Araruna, desmembrando-a de Bananeiras.

    Está comprovado, pois, que Bananeiras emancipou-se em 1833 quando foi elevada à categoria de Vila, ganhando foros de município independente. Dois anos depois, seria criada a Freguesia de Nossa Senhora do Livramento e, apenas em 1879, seria elevada à categoria de cidade. Era assim no passado. Hoje, um distrito tem a sede em uma Vila, e ganhando emancipação passa a ser uma cidade, sede do respectivo município. É, portanto um equivoco histórico e que precisa ser corrigido, referir-se a 16 de outubro de 1879 como data da emancipação política de Bananeiras. Esta é a data da elevação da Vila à categoria de Cidade. Independência política e administrativa Bananeiras possui há cerca de 182 anos, isto é, desde 10 de outubro de 1833, quando deu adeus à Vila Real de Brejo de Areia.

    A comarca de Bananeiras, porém, seria criada, apenas, em 1857, pois permanecia vinculada à jurisdição de Areia desde que se tornara Vila. A Província, contudo, não se descurara da cobrança de impostos. Por volta de 1844 foi instalada a coletoria de Bananeiras e seu primeiro coletor foi Estevão José da Rocha, agraciado, quase trinta anos depois, com o titulo de Barão de Araruna. O cemitério de Bananeiras, onde procurei o tumulo desse Barão, como se procura uma agulha no palheiro e não encontrei, seria construído em 1856. Mas a Vila ganhou o Correio dois anos depois de sua emancipação política, em 1835. A energia chegou na segunda década do s&eacut e;culo passado, em 1919 e o trem apitou pela primeira vez depois do Túnel da Viração em 15 de novembro de 1925. Humberto Nóbrega registra que em 1908 havia uma rede telefônica ligando Bananeiras a Moreno e às fazendas Jardim, Cardeiro, Gamelas, Muquem, Roma, Pilões, Genipapo e Cananfístula. De Borborema, José Amâncio falava por telefone com as cidades para as quais vendia energia. Nos anos 1940, Pedro de Almeida foi buscar água na Bica do Gato e distribuiu na cidade. O distrito de Chã do Lindolfo, hoje quase um bairro da antiga Vila de Bananeiras foi fundada por Lindolfo Américo Ferreira Grilo, justamente o primeiro escrivão do cartório do registro civil de Bananeiras, instalado em 1888.

    Uma curiosidade revelada pelo historiador bananeirado Humberto Nóbrega: o primeiro estrangeiro a fixar residência em Bananeiras foi o português Tomás de Aquino Freire de Andrade que ali aportou por volta de 1887. Acrescento eu: esse portuga viria a ser o pai de dona Maria Eugenia Andrade Bezerra, esposa de Francisco Bezerra Cavalcanti, de cujo casamento nasceu uma única filha: Azeneth Bezerra Aragão, minha sogra.

    Outra curiosidade: a energia vinda da Hidroeletrica de Borborema não era lá essas coisas... Que o diga o padre José Pereira Diniz quando registrou no Livro de Tombo da Igreja de N S do Livramento que o dr.Jose Amâncio fornecedor de energia à Igreja desde 1930, mandou em 1938 cortar a luz da Igreja. Motivo: todas as vezes que se acendiam as luzes da Matriz, havia uma queda de potência na iluminação publica, resultando em multa municipal contra a empresa. Corrobora com esse fato, a história do professor Waldez Borges: seu pai, Manoel Soares, comprou o primeiro ferro elétrico da cidade e quando sua mãe ligava o ferro as lâmpadas dos postes piscavam e o povo reclamava: “Mané Soares ligou o ferro elétrico!”


  • 07/12/2015

    FHC e os paraibanos


    O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, antes de se despedir da terra está brindando os brasileiros com a memória do seu governo. Pela espessura do primeiro volume que, revela fatos, apenas, do ano inicial da sua gestão, tenho a impressão que ainda gastará muito papel para contar o que viveu e com quem conviveu nos oito anos em que foi inquilino do Palácio do Planalto. A composição do ministério, as vinculações e exigências partidárias, as restrições pessoais aos indicados e os motivos da rejeição de alguns, são particularidades reveladas sem reservas de adjetivos. Fui em busca dos paraibanos que naquela quadra da política brasileira militavam em apoio à situação ou faziam parte da bancada de sustentaç ão das ações governamentais. O primeiro paraibano a ser entronizado no primeiro time do tucanato em ascensão foi o nosso caboclinho Cícero Lucena, nomeado para a nova Secretaria de Políticas Regionais.


    Conta FHC que o catarinense “Luiz Henrique insistiu num nome, aliás, numa solução, pois 51% da bancada do PMDB era nordestina, Cícero Lucena para o Ministério da Integração Regional”. Ao aceitar a sugestão revela que repeliu a maledicência ligada ao nome Lucena, por causa do senador Humberto Lucena, “primo do indicado”, em face da suspensão dos seus direitos políticos por utilizar a gráfica do Senado para a confecção dos famosos calendários. Justifica que aquele argumento “ não pode servir para afastar uma pessoa, até por que o senador terá lá os seus problemas de clientelismo mas é um homem honrado”. A escolha, porém, por questões meramente políticas, não foi bem acolhida pelos nordestinos, a exemplo da gente de Pernambuco e do Ceará que nã o desejavam a criação dessa Secretaria de Integração mas reforçar os órgãos regionais, a exemplo da SUDENE e SUDAM, assevera FHC.


    Recebendo a visita do governador Antonio Mariz e dos senadores Humberto Lucena e Ronaldo Cunha Lima, FHC tratou com os “chefes paraibanos” antes mesmo de conversar com Cícero Lucena, como seria essa nova área do governo, com dupla ligação, uma ao Planejamento e outra a uma Secretaria Técnica composta por vários ministros e presidida pelo Chefe do Executivo. Cícero temeu o esvaziamento do órgão mas FHC rebateu: “Você vai definir com o Eduardo Jorge, Clovis Carvalho e Gustavo Kause as suas funções. As funções que quero de você são mais importantes. O importante não é ter cargo para nomear, é ter capacidade política de influir no conjunto do governo para que o nordeste e o norte tenham os recursos adequados para que nós minoremos as desigualdades regionais”. E assim foi feito, pelo menos foi essa a intenção.

    Mas nem tudo eram flores no jardim palaciano. Quando pretendeu reformar a Previdência, o governo de FHC sofreu uma derrota fragorosa na Comissão de Justiça e, para isso, contribuíram os deputados do PP, que se diziam aliados, e a bancada da Paraíba. FHC conversara com Ney Suassuna, então relator da Lei das Patentes e que, se “no início atrapalhara bastante” estava disposto a dar um parecer equilibrado sobre esse assunto. Acertou com Ney o apoio da bancada. No final da conversa, Ney pediu a nomeação de um paraibano para o Banco do Nordeste mas, mesmo assim, não comandou os votos. Pior, além de votarem contra, os deputados paraibanos mandaram dizer, pelo líder da bancada, que queriam mais verbas para o ministério de Cícero Lucena. “Não tive duvida, liguei para o Lucena e cobrei dele”. Lamenta FHC que a conversa tenha sido publicad a no dia seguinte no Jornal de Brasília. As testemunhas da conversa eram da mais absoluta confiança e, mesmo mandado investigar, não descobriu quem foi o indiscreto: “talvez o próprio Lucena”, desconfia. Mas confessa: “eu não queria que a conversa com Lucena tivesse vindo a público, para não constrangê-lo. Esse não é o objetivo e sim fazer com que se alinhe ao governo”.

    Surgiram os pacificadores. FHC anuncia: em maio vou jantar com a bancada da Paraíba e, mais adiante revela: no fim do dia jantei com a bancada da Paraíba. Tempos felizes aqueles em que bastava encher o bucho dos parlamentares para angariar votos...


  • 22/11/2015

    Foram dois enforcados em Areia


    As peças da forca existente em Areia permaneceram durante sessenta anos no salão do júri local. Com a demolição do prédio, em 1922, esse madeiramento histórico, que deveria ser peça de museu,  foi reaproveitado na construção civil, sem que “uma voz desse um  grito de alerta”, reclama o areiense Horácio de Almeida. Enquanto existiu a pena de morte no Brasil, os jurados da Vila Real de Brejo de Areia autorizaram a pena capital em várias oportunidades, todavia, apenas em duas ocasiões  o carrasco foi chamado a colocar a corda no pescoço do condenado. Um “simples roceiro” escapou do cadafalso e seu processo conquistou espaço na história mais pelo advogado que o defendeu. O promotor Trajano Chacom tentou levá-lo à força mas esbarrou com a defesa do advogado José Antonio Pereira Ibiapina, depois Padre Mestre Ibiapina, que lhe salvou a pele. O sentenciado cometera homicídio ao flagrar  a esposa em adultério com o próprio pai. O futuro padre conseguiu provar a improcedência da acusação.Só mesmo um milagre....

    O primeiro sentenciado a morrer na forca em Areia foi o escravo Marçal, por volta do ano de 1847. Pertencia à senzala de Manoel Gomes da Cunha Lima, senhor do Engenho Mundo Novo, território herdado por seu filho o doutor José Antonio Maria da Cunha Lima e depois passado para o neto major Cunha Lima. Marçal era casado e tinha filhos a serviço da mesma Casa Grande. Não suportou assistir sua mulher ser chicoteada no tronco e, ao reagir, além de ferir o patrão, tentou estrangulá-lo. Foi condenado à morte na forca, por tentativa de homicídio. Até o seu senhor considerou exagerada a pena, mas já era tarde demais, conta o autor de Brejo de Areia. A sentença foi executada.

    Caso famoso e ainda despertando a curiosidade dos historiadores dos nossos dias, foi o processo a que respondeu Carlota e seus asseclas, pela encomenda e morte de Trajano Augusto de Holanda Chacon Cavalcanti de Albuquerque. Era o dia da eleição de 1849, quando ainda comemorava sua vitória para exercer mandato de Deputado Geral, derrotando o Coronel Quincas, que assinava Joaquim Jose dos Santos Leal, e se fizera  amante da sertaneja Carlota, que aportara no brejo há menos de cinco anos. A morte do deputado Chacon foi uma verdadeira conspiração que procurava obter dividendos políticos mas movida pelo ódio que Carlota nutria contra o adversário de seu amante, este, por sinal, estava h&aa cute; muitas léguas da cena do crime, mesmo disputando a eleição pelo Partido Liberal.  No primeiro julgamento, Carlota e Antonio Beiju, a mandante  e o executor do crime foram condenados à morte. Como o pau só se quebra no espinhaço do mais fraco, apenas Beijú conheceu o carrasco areiense.

    O segundo julgamento ocorreu em 1853 e, nessa ocasião, vamos encontrar  debatendo-se no júri, como acusador, o promotor Diogo Velho Cavalcanti, mais tarde Visconde de Cavalcanti e, na defesa, o advogado bananeirense Manoel de Aragão e Melo.Os jurados obedeceram aos chefes políticos locais e a sentença foi mantida quase integralmente. Apenas Carlota teve a pena comutada para galés perpétua a ser cumprida em Fernando de Noronha. Seu tempo de confinamento na ilha não foi dos piores. Durante seu “suplício”, além das delícias das praias de Noronha, abusou das regalias de se ter tornado amante do governador da ilha. Uma figura do mal, essa Carlota. Destaque-se que o Imperador era magnânimo em caso de pena de morte e seria possível obter o seu perdão. Temia a família Chacon que Antonio Jose das Virgens, o Antonio Beiju, não chegasse à forca. Um irmão da vítima, Padre Antonio Chacon, vigário do Pilar, partiu para a Corte e conseguiu chegar aos pés de Pedro II levando como prova a camisa ensangüentada do irmão trucidado. Seis anos depois desse encontro, o Imperador manteve a sentença e Beiju foi enforcado.

    A cerimônia de execução da pena de morte obedecia a um ritual surrealista, e ninguém melhor que Horácio de Almeida para nos legar essas cenas. Procurarei resumir, sem perder de vista o palco dessa festa macabra. Tres dias antes da execução se armava um oratório na cadeia.O padre confortava o condenado no primeiro dia, ouvia-o em confissão e lhe  dava  a comunhão no segundo e, no terceiro, levava-o ao sacrifício. Formava-se uma procissão com todas as autoridades, as ordens religiosas  e o povo em geral. Os estudantes das escolas eram obrigados a acompanhar o cortejo. O réu era coberto com um manto e capuz brancos, pés descalços e algemado seguia à igreja onde ouvia a missa até a recitação do Credo e em seguida beijava a imagem do Cristo que lhe era apresentada pelo vigário. A força publica fazia  essa procissão andar e, a cada parada, o meirinho repetia a sentença. Subiam ao cadafalso o condenado, o carrasco e o padre. Colocada a corda  no pescoço do infeliz, a voz do padre descendo as escadas e rezando o Credo em voz alta era o único som permitido. O carrasco colocava os pés  no  ombro do enforcado e fazia força para apressar a sua  morte.Os estudantes, após assistirem á execução,  de volta à escola, eram castigados com a palmatória, para que não seguissem o exemplo do condenado. O pregão do meirinho nunca mais seria ouvido naquelas plagas: “que morra de morte natural no lugar da forca”.


  • 17/11/2015

    Boa Vista, Camucá e Borborema (2)


    Boa Vista foi a denominação dada pelo bacharel José Amâncio Ramalho às terras que comprou ao capitão João da Mata. O rio Canafístula circundava o aglomerado, e quando foi barrado, inundou imensa área pertencente a vários proprietários. Antonio Nogueira Campos, outro pioneiro, ficaria com seu engenho ilhado do outro lado do rio, com grande porção de terras cobertas pelas águas do açude. Nas cheias invernosas, o engenho de seu Tota  só era alcançado por rudes embarcações. Em escritura lavrada em  1920, Amâncio  adquiriu  terras de um pernambucano domiciliado em Timbaúba, chamado José Cavalcanti. Essa gleba ficava entre o rio Canafístula e a estrada de rodagem que vai de Borborema à Bananeiras, limitando-se com as terras de doutor Nuno Guedes e que seriam inundadas pelo açude de propriedade da Hidroelétrica Borborema.

    Com os empreendimentos que Amâncio implantou - a fecularia, um engenho de rapadura, uma despolpadeira de arroz, a usina hidroelétrica - e a chegada do trem em 1913, Borborema tornou-se um centro comercial regional com muitos empregos garantidos e um comércio florescente. Era um bom lugar para se investir. Guilherme Groth, o alemão comerciante em Moreno  e vítima de manifestantes que lhe queimaram os pertences após o afundamento de navios brasileiros pelas forças do Eixo, era previdente e temia o seqüestro de seus bens. Daí por que, comprara  duas casas em Borborema. Em fevereiro de 1939 vendeu-as ao industrial Amâncio Ramalho. Cheguei à conclusão que se tratou de uma venda simulada. O que o alemão queria mesmo era evitar perder tudo em conseqüência da guerra de seu País contra os Aliados, entre os quais o Brasil. Pela descrição das casas no registro escritural, identifico que em uma das casas seu Guilherme se instalou comercialmente, fazendo de meu pai seu sócio. Ficava na avenida Paraíba, praça 12 de novembro, hoje avenida Arlindo Ramalho. A segunda casa, “vendida” pelo alemão ficava na av. Ceará e tinha “quatro janelas de frente,entrada de lado e alpendre s endo murada do lado da av Pará e dando fundos para a av Amazonas”. A homenagem aos estados brasileiros nas ruas de Borborema foi também iniciativa do velho Amâncio. Os nomes das avenidas mudaram e como não existe na Câmara nem mesmo o registro de minha passagem como vereador, difícil será identificar essas ruas. Tarefa fácil para Rejane Sena, a escrivã local, pois essas escrituras foram lavradas por seu avô, Osias Guedes Alcoforado, casado com minha tia-avó Natércia.

    Em 1943, o distrito bananeirense passou a denominar-se Camucá, cujo significado “terra deserta” não fazia jus à realidade. Cinco anos depois, o topônimo Borborema era novamente entronizado até ser consagrado na lei que criou o município, em 1959. Em 1962 chegaria a energia de Paulo Afonso, inaugurada na gestão do meu pai, Arlindo Ramalho.

    Meu pai foi o primeiro prefeito eleito. Nas duas vezes em que ocupou o cargo, ao sair, elegeu seu sucessor Aristeu Uchoa Pinto como candidato único, completando ainda a façanha com a eleição de José Florêncio de Lima, o sexto prefeito eleito, por sinal, genro do primeiro prefeito nomeado, o ex-vereador Antonio Barbosa da Costa. A partir de então, quando meu pai passou a fazer política em Bananeiras, as disputas eleitorais tornaram-se mais acirradas.

    Quem governou a cidade por mais de uma vez, também, foi o filho do pioneiro, José Amâncio Ramalho Junior que, igualmente, elegeria seu sucessor, Severino Maria do Nascimento. Depois surgiria José da Costa Maranhão, primeiro prefeito a ser  reeleito. Amâncio Ramalho Junior,  prefeito pela terceira vez,  faleceu no exercício do cargo. Seu vice, José Renato Eduardo dos Santos assumiu e foi reeleito.  Paula Gomes Pereira, é a primeira mulher a ocupar a prefeitura.

    Todas essas recordações servem para homenagear a terra que me viu nascer, festejando, apenas, 56 anos como cidade- Borborema, “a bela adormecida dos eucaliptais”, para não esquecer o imortal Manoel Batista de Medeiros. Em temp: os eucaliptos desapareceram, vítimas do machado bronco.


  • 09/11/2015

    Boa Vista, Camuçá, Borborema


     A notícia histórica que se tem é a partir de 1912, quando o advogado José Amâncio Ramalho, em disputa com os Targino, em Araruna, resolveu adquirir terras onde surgiria a cidade de Borborema, largando a núcleo do seu nascimento e adotando as novas terras a que denominou de Boa Vista. Consta que teria comprado as glebas a um certo capitão João da Mata, possuidor de um sitio de goiabeiras. Encontrei em Humberto Fonseca, historiador respeitado, um João da Mata Lins Fialho, agricultor e pecuarista, entre os assinantes de um manifesto em defesa da independência de Araruna, então pertencente à Vila de Bananeiras. O documento data de 1871. Houve outro João da Mata Lins Fialho, filho do primeiro. Não pude comprovar se foi o pai ou o filho o vendedor da propriedade ao desbravador Ramalho. Lembro, porém, que o hospital de combate à bouba existente em Borborema e administrado pelo médico Arnaldo Tavares, chamava-se Hospital João da Mata, por certo em homenagem ao antigo dono do prédio ou das terras onde funcionava o nosocômio.

    Na lei que fixou a Divisão Administrativa do Estado da Paraíba, nos anos 1936/37, o nome Borborema designa distrito incorporado ao município de Bananeiras. Um decreto estadual de 1943, muda sua denominação para Camucá e, novamente, para Borborema, através de lei estadual datada de 1948. Com esse nome aparece na nova lei da Divisão Administrativa publicada em 1950, assim permanecendo até ser transformada em cidade, desmembrando-se de Bananeiras. A cidade foi instalada em 12 de novembro de 1959 com a posse do prefeito Antonio Barbosa da Costa, nomeado pelo governador Pedro Gondim. Uma resolução da Câmara Municipal de Bananeiras sugeria a incorporação do distrito de Vila Maia ao novo município. A Assembléia Legislativa rejeitou a proposta mas aprovou a criação da Comarca, vetada pelo governador. A vila se fez cidade graças a projeto de autoria do deputado Nominando Diniz, o pai.

    Os deputados Orlando Cavalcanti e Clovis Bezerra, maiores interessados nos votos da nova cidade, não quiseram indispor-se com os bananeirenses mais exaltados, representados pelos vereadores Santos Guedes e Antonio Vaz,defensores da integralidade do território de Bananeiras. Apesar da reação, três novas cidades surgiram: Solânea, Borborema e Dona Inez.

    A primeira eleição para prefeito e vereadores de Borborema ocorreu em 1960 em conjunto com a eleição do presidente da república e do governador do estado. Nesse memorável pleito foram eleitos Janio Quadros e Pedro Gondim. O primeiro prefeito eleito foi o vereador à Câmara de Bananeiras, Arlindo Rodrigues Ramalho, meu pai, que disputou a eleição com o agrônomo Rubens Guerreiro de Lucena. Eu faria parte da segunda câmara de vereadores, da qual fui presidente por quatro anos.

    Em Borborema, pela iniciativa do empreendedor José Amâncio Ramalho surgiria a terceira hidroelétrica do país, que distribuiu energia para sete comunidades ao seu redor. A rede ferroviária parou ali em 1913, seguindo até Bananeiras depois de 1925, quando foi concluído o túnel da Serra da Viração.A cidade possuía o melhor comercio da região. A barragem construída para movimentar as turbinas da usina de energia, cobriu com suas águas as principais casas comerciais. Em reparação a esse fato, Amâncio contratou um engenheiro para projetar a nova cidade, de ruas amplas e bem traçadas, estirando-se preguiçosamente sob as vistas de Nossa Senhora do Carmo, instalada no monte mais alto do lugar. Essa história continua.


  • 02/11/2015

    Deputados à moda antiga


     Nos dias de hoje as casas legislativas são entidades fartas em recursos e seus membros recebem uma remuneração difícil de ser somada. Antigamente, um deputado federal tinha que enfrentar “esse marzão” como dizia Ernani Satyro, para desestimular Walter Arcoverde a tentar uma cadeira igual à sua. Depois vieram as passagens aéreas e o velho Rui Carneiro fazia questão de lembrar o risco que corria ao enfrentar um avião da “Panair”. Brasíli a tornou o exercício do mandato um paraíso com direito a verba para moradia, passagens, comunicação e otras cositas más... Até bem pouco tempo, o direito às passagens para o Estado de origem, incluía, também, um bilhete extra para se matar a saudade do Rio de Janeiro. Comparando, as mordomias do passado remoto seriam risíveis hoje, pois, incluíam até um estábulo, onde os deputados guardavam suas montarias.

    Com a evolução das coisas, os subsídios dos deputados também evoluíram. Na Paraíba, ainda alcancei deputado vendendo antecipadamente seus rendimentos. Posso dizer que, quando secretário do Poder Legislativo acabei esse comércio de juros altos, transferindo para o Banco do Estado o pagamento dos parlamentares e afastando os agiotas da tesouraria da Assembléia. Esses foram problemas republicanos mais recentes. Mas ninguém pense que durante a Monarquia o exercício dos mandatos eram gratuitos. Naquele tempo, Celso Mariz informa que os deputados ganhavam de acordo com a distancia entre sua cidade de origem e a Capital. Pagava-se por léguas. E o negócio era meio rigoroso. Contavam-se as léguas de vinda. Ao Imperador não interessava como o deputado retornaria aos seus pagos. As pressões foram grandes e no final da Monarquia passaram a contar as léguas de ida e volta, pois ninguém é de ferro... Tudo isso dava quatro mil réis diários e mil e duzentos réis por légua a ser percorrida. Quem faltasse não recebia.

    Com a República o subsídio alcançava dez mil réis diários e trezentos réis fixos “para o trem, a fatiota nova, o transporte dos queijos que traziam para o chefe do partido” ironiza Celso Mariz, deputado nos idos de 1924-27, quando já se percebia uma representação de um conto de réis e quarenta mil réis de diária, ou jetom, palavra que apropriamos do francês ( jeton). Os tempos modernos fixaram o subsídio parlamentar em duas partes, uma fixa para declarar ao Imposto de Renda, e uma variável que servia de incentivo ao comparecimento das sessões. A nossa ultima Constituição vedou o pagamento de jetom pela presença, até em sessões extraordinárias e, antes como agora, a ausência continuada vive sob a ameaça de cortes nos contra-cheques dos faltosos.

    Mesmo com um recesso prolongado, a produção legislativa, tanto no passado quanto no presente abordava os mais variados assuntos. Se em 1947, o deputado Pedro de Almeida preocupou-se com o prejuízo que os caprinos soltos poderiam conferir à agricultura de subsistência, muito antes, nos idos de 1862, o presidente Francisco Araujo Lima, desta Província da Paraíba do Norte, editou uma lei que protegia as cabras de leite, por servirem para “amamentação das crianças”. As cabras de leite poderiam ser criadas soltas, desde que conduzissem “cangas de quatro palmos” e fossem recolhidas até as seis horas da tarde. Esta exceção, aberta para as criações da Vila de Campina Grande, não atingiam bodes, ovelhas, porcos e cães que, caso encontrados soltos pela fiscalização, seriam os seus proprietários multados em dois mil réis.

    Para incentivar o cultivo do café, em Bananeiras e Areia, a Assembléia Provincial estabeleceu um prêmio ao cafeicultor que exportasse pela primeira vez em um ano, duas mil arroubas de sua produção.

    Estas reminiscências históricas me fazem lembrar que o jornalista e historiador Rui Leitão é candidato a uma cadeira no IHGP. Torço pela sua eleição, principalmente, para que dê continuidade às pesquisas de seu genitor, Deusdedith Leitão, recuperando até os nossos dias a memória do Poder Legislativo.


  • 25/10/2015

    Pedro de Almeida e a Lei do Bode


     Sua origem, como de todo Almeida da gema, é a Vila Real do Brejo de Areia. No sobrado de Marinheiro Jorge, seu pai, Rufino de Almeida, tentou o comércio. Sem vocação para esse ramo de negócio, terminou voltando para Várzea, seu engenho de cachaça e rapadura, enquanto os filhos venciam a pé a distancia entre o engenho e escola, em Areia. Pedro Augusto de Almeida deixou um dia esse cenário e, às escondidas, fugiu para a casa de parentes. Fixou-se na Capital onde trabalhou no comércio, continuou seus estudos e se iniciou como missionário da educação. Pelos idos de 1917 vamos encontrá-lo em Bananeiras, como agente fiscal da mesa de rendas, nomeado pelo presidente Camilo de Holanda. Esse mesmo governante o designou professor para a escola noturna de adulto e o prefeito Antonio Barbosa de Farias Coutinho faria o mesmo para as cadeiras de português e aritmética da escola secundária municipal.

    Antes de ser professor da escola pública, Pedro de Almeida fundara um externato para receber o alunado do Instituto Bananeirense, fundado em 1906 pelo poeta e advogado Dionísio Maia mas com suas atividades suspensas. Era sonho da comunidade a reabertura daquele educandário, reconhecido, à época, como dos melhores do interior do estado, rivalizando, até, com o Liceu Paraibano. Sua reativação foi efetivada em 1920 e contou com a direção honorária de Dionísio Maia e a executiva de Pedro de Almeida, seu vice-diretor. Entre seus professores estavam Álvaro de Carvalho e Vieira de Alencar. Este último deixou o Instituto e ingressou no Banco do Brasil. Chegou à sua presidência e exerceu, ainda, eventualmente, o Ministério da Fazenda. O primeiro substituiu o presidente João Pessoa, e foi um dos fundadores da Academia Paraibana de Letras.

    A projeção social de Pedro de Almeida terminaria por levá-lo ao exercício da política partidária. Pelas mãos do prefeito José Antonio da Rocha, depois deputado constituinte em 1935, Argemiro de Figueiredo nomeou Pedro de Almeida prefeito de Bananeiras. Os laços familiares o levaram a esse destino. Pedro de Almeida casara-se com uma neta do comendador Felinto Rocha, sogro e tio do cel.José Antonio da Rocha. A prefeitura ficaria na família. O velho coronel iria para a Assembleia Constituinte e Pedro de Almeida ficaria na prefeitura. Testado com êxito na gestão pública, em 1936 seria eleito prefeito com 84% dos votos, destituído em função do golpe do Estado Novo. Nomeado, novamente, por Argemiro, retorna à prefeitura onde permaneceu até 1940. Na redemocratização, ganhou assento na Assembleia Constituinte de 1947.

    Vinculado a uma aristocracia rural, Pedro de Almeida voltou-se para os problemas econômicos que envolviam a produção agrícola e os recursos hídricos indispensáveis. Foi dos primeiros a denunciar a desertificação do Estado em função do desmatamento indiscriminado. A energia a vapor tinha na lenha o seu material de combustão, ”as nossas florestas estão se extinguindo pela ação nefasta do machado”, advertiu em discurso na Assembleia.

    Maior repercussão, contudo, alcançou a sua emenda à Constituição que ficou popularmente conhecida como Lei do Bode. Inserida nas Disposições Transitórias, proibia a criação de caprinos em regime aberto e definia áreas onde seria permitida a criação, desde que em compartimentos cercados para essa finalidade. “Criado solto, sem disciplina, o bode destruiria a seu talante as plantações constitutivas de sustentação do homem do campo, criando problemas sociais e econômicos graves” justificou Pedro de Almeida, segunda narrativa de seu filho, o imortal Maurílio Almeida. No curimataú, encravado no município de Casserengue, existe um lugar denominado “Travessa” que o vulgo chama “Trevessa”. A partir dali, os bodes e cabras poderiam atravessar os limites agrícolas e correrem soltos, livres como Deus os criou e Pedro de Almeida legalizou. Reeleito, Pedro de Almeida faleceu antes de assumir o novo mandato.Para a sua vaga foi chamado o primeiro suplente Humberto Coutinho de Lucena. Mas essa é outra história!


  • 10/10/2015

    Mariz o coerente


     O AMIGO VELHO Ernani Satyro , quando censurado por contestar o regime que ajudara a implantar e lhe exigiram coerência, respondeu bem humorado:“quem tem coerência tem idéia fixa e quem tem idéia fixa é doido”. Logo, não se exija coerência dos políticos, pois a política é dinâmica e muda como as nuvens, levando nos ventos das mudanças, os seus protagonistas. Antonio Marques da Silva Mariz, promotor de justiça, prefeito, deputado, senador e governador, não era adepto dessa teoria. O silogismo dele era outro e não partia de premissas falsas. Podia a política mudar, ele mesmo mudar de partido, mas não renunciava aos seus princípios. Estes eram imutáveis. Nos vinte anos da ausência de Mariz, muitas passagens de sua vida pública vieram à tona. Escolhi duas, que representam sua paixão pela coerência e firmeza de princípios:

    O cenário era o gabinete do senador Humberto Lucena, em Brasília. Os aliados do governo e integrantes da bancada federal paraibana foram reunidos pelo ex-governador João Agripino. Agripino prometera ao presidente Sarney o apoio unânime de seus correligionários à tese dos cinco anos para o mandato presidencial que estava prestes a se findar.Passou essa informação aos deputados e foi ouvindo um a um. A maioria era a favor dos cinco anos, mas havia discrepâncias: João Agripino Neto, Cássio Cunha Lima e Antonio Mariz.

    Agripino começou cobrando a posição do próprio filho. Agripino Neto reafirmou sua posição em favor dos quatro anos para o mandato presidencial, todavia, afirmou: “se o partido fechar questão, eu voto pelos cinco anos”. Chegando a sua vez, Cássio acompanhou a posição de Agripino Neto, apesar de defender o mandato de quatro anos, mas diante do “fechamento de questão”, não iria contrariar o partido. Mariz ouviu seus companheiros, contudo, não esperou ser cobrado: “Sou a favor dos quatro anos de mandato. Se o partido fechar questão, continuo votando a favor dos quatro anos”, encerrou o assunto. Fui testemunha da contrariedade de João Agripino.

    Na batalha pela indicação para governador da Paraíba, pela via indireta, a ARENA estava dividida em dois blocos. O capitaneado pelo governador Ivan Bichara defendia a indicação do senador Milton Cabral e o outro queria a ascensão do deputado Mariz. Os ânimos ainda não estavam acirrados e os blocos dialogavam entre si. Conseguimos um encontro de Mariz e seus contestadores com a participação também dos que o apoiavam.

    O cenário foi o antigo Elite Bar, de saudosa memória, em Tambaú, em frente à gameleira também desaparecida. A mesa que se formou era enorme, acomodando doze deputados de ambas as facções. Houve quem lembrasse a Ceia Larga, sem a presença do Cristo, mas com alguns candidatos a Judas. Pelos governistas falou o deputado Egidio Madruga expondo seus pontos de vista, mas asseverando que, pessoalmente, nada tinham contra o nome de Mariz. Como o processo de escolha era uma inc&o acute;gnita, qualquer um poderia ser escolhido, disse Egídio. Aquela reunião era para abrir o diálogo, por isso, “queremos saber, de logo, qual a sua posição com relação a nós que não o apoiamos, caso seja escolhido governador”? A resposta veio rápida, no estilo inimitável de Mariz:

    - Se eu for governador, vou ensinar vocês a ser oposição durante quatro anos.

    O desfecho desse episódio todos sabem: o escolhido para governar a Paraíba foi o professor Tarcisio de Miranda Burity.


  • 27/09/2015

    O Imperador na Paraíba


     Muito já se escreveu sobre a visita do Imperador Pedro II à Paraíba. Sabe-se que ele chegou à nossa capital na tarde de uma véspera de Natal. Era um sábado do ano de 1859. Um vapor da Marinha do Brasil conduzia o monarca e sua numerosa comitiva nessa viagem de quatro meses pelas províncias. Cinco dias foram dedicados à Parahyba do Norte. As cidades de Pilar, Mamanguape e Cabedelo tiveram a honra de ver de perto a coroa de D.Pedro que, a cavalo, conheceu ainda alguns engenhos da Várzea. A pompa com que foi recebido, as despesas do erário com as festividades, reformas e adaptações das instalações palacianas, tapetes, móveis, e talheres condignos às bocas imperiais, importaram na abertura de um crédito especial para tal finalidade. Um conto de réis que mandaram da Corte foi insuficiente. Há registro de que o Imperador tomara emprestado alguns contos de réis para arcar com as despesas da viagem. O tesouro imperial era parco de recursos, mas, assim mesmo, S.M., “do seu bolsinho”, fez algumas doações que, infelizmente, foram desviadas das suas finalidades.

    Quem pensar que essa história de desviar dinheiro público é invenção republicana, está muito enganado. Governava a Paraíba quando da visita do monarca, o paraense Ambrósio Leitão da Cunha que foi deputado, senador e presidente, ainda, do Pará, Pernambuco, Maranhão e Bahia. No seu périplo pela Província, o Imperador teve ao seu lado o governante local que, como é costume até hoje, rogava ajuda real para todos os males que não podia resolver.Pedro II comoveu-se em duas oportunidades e resolveu atendê-lo. Não voltaria, jamais, para saber o resultado dos investimentos que fez. É essa a história que estou querendo contar...

    Na visita à Santa Casa da Misericórdia, Dom Pedro efetuou um donativo de seis contos de réis para serem transformados, pelo governador local, em apólices da dívida pública em favor da entidade. O novo governante, o gaúcho Silva Nunes, ao assumir, procurou saber como fora processada aquela operação, tomando conhecimento de que nada fora efetivado. Determinou de imediato, a sua execução. Qual não foi sua surpresa ao ouvir do Inspetor do Tesouro que esse dinheiro, saído “do bolsinho” do Imperador, sumira em função das necessidades urgentes de outros serviços da Província. Naquele tempo, os sucessores ainda não brigavam com os antecessores, e Silva Nunes justificou a falha: “Sem dúvida, se por mais algum tempo permanece na administração o meu antecessor, teria realizado a sua intenção, satisfazendo assim as vistas do Soberano”.

    Andando pela nossa cidade, Dom Pedro repudiou a localização do matadouro público, construído às margens de uma estrada com prejuízo para o meio ambiente. Novamente, como narra Silva Nunes em mensagem ao legislativo de então, o Imperador entregou à Presidência quatro contos de réis para a remoção do abatedouro para terreno mais condizente. “Sinto ter de dizer-vos (explica aos deputados provinciais) ainda esta vez que o estado dos cofres não me consente ocupar-me por ora com essa obra nem mesmo dispondo para seu começo desses 4.000$rs devidos à generosidade do Imperador, e de que meu digno antecessor viu-se obrigado a lançar mão para acudir a encargos urgentes da Província”.

    Esse presidente Silva Nunes veio governar a Paraíba graças ao fato de ser genro do Barão de Maurití, com grande influência na Corte onde era reverenciada essa nobre genrocracia. Tanto é, que, saiu daqui para o Senado, e governou outras províncias enquanto seu sogro viveu sob o manto protetor de Pedro II. Foi o primeiro governante paraibano a visitar o nosso interior. Recebido com muitas festas por ande passava viajou trinta dias a cavalo, comendo a poeira do sertão e a lama do brejo, além das iguarias dos banquetes. Em sua primeira mensagem ao legislativo provincial relatou as duas peripécias do antecessor que resumi acima. Mas, ao que parece, era um homem pacato e não fazia mau juízo de ninguém. Os desvios de verbas do seu antecessor mereceram pálida referência e nenhuma censura, sendo até justificadas.Ele porém, prometeu consertar aquelas irregularidades: “Trato de economizar quanto posso para restituir essa soma ao fim a que foi destinada pelo Augusto Doador”. Só quem não brigou com o antecessor, porque não o teve, foi Tomé de Souza, primeiro governador do Brasil. Eis outra exceção que, seguida desde então, teria evitado muitos episódios da nossa história.Quase ia esquecendo: o Imperador assistiu à Missa do Galo, à meia-noite, na Igreja da Conceição, ao lado do Palácio. (Consultei Wilson Seixas e Maurílio Almeida.Nas transcrições, mantive a grafia da época)


  • 21/09/2015

    Os nobres paraibanos


    • Meus poucos leitores já devem ter notado minha predileção por assuntos que envolvem a história pátria. Tenho saído do dia a dia, e assim, evito desagradar aos vivos, pois os mortos não reclamam.Os personagens que por aqui têm passado já se foram de há muito e, seus feitos, bons ou maus, fazem parte da história. Comecei com o Barão de Araruna e enveredei pelas espadas dos coronéis, quase todos, donos da terra e dos seus ocupantes, fossem servís ou libertos. Mas a Paraíba, terra de grandes, que exportou inúmeros filhos seus para dirigir outras terras, teve também a sua pequena nobreza, situada, é bem verdade, na base da escala nobiliárquica. A nossa safra de nobres não passou do baronato e de um visconde, embora devessem sonhar com a mesma ascensão que teve o marechal Luiz Alves de Lima e Silva, que começou barão, ascendeu a visconde, conde, e finalmente Duque de Caxias.

      Já vimos que o Barão de Araruna – Estevam José da Rocha, foi político eminentemente municipal, prendendo-se ao seu burgo e não aceitando ascender a qualquer posição a nível estadual.Desfrutou pouco o baronato: ungido em 1871, faleceu em 1874. Mais famoso e tendo ocupado os mandatos de deputado geral e senador do Império, Flávio Clementino da Silva Freire, o Barão de Mamanguape a partir de 1860, governou a Província da Paraíba do Norte em várias oportunidades entre 1853 a 1877. Era também comendador da Ordem da Rosa e faleceu em agosto de 1900.

      Fazendeiro e político, falecido em Mamanguape aos 75 anos e nascido na capital desta província em 1798, chegou à sua presidência. Refiro-me a José Teixeira de Vasconcelos, o Barão de Maraú, que, além de comendador da Imperial Ordem da Rosa ocupou o comando superior da Guarda Nacional. Foi casado com Francisca Monteiro da Franca e não deixou filhos.

      Em prestígio perante o Império ninguém superou Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, o primeiro e único Barão de Abiaí. Formado pela Faculdade de Direito de Olinda, foi deputado provincial em várias legislaturas. Notabilizou-se, porém, como presidente das províncias do Rio Grande do Norte, Alagoas e Maranhão. Recusou do gabinete Rio Branco a oferta de dirigir o Ceará e o Pará. O gabinete Cotegibe lhe ofereceu a Bahia, igualmente recusada. Sua desistência em governar os baianos não impediu que presidisse sua Paraíba do Norte em duas oportunidades entre 1869 e 1876. Foi Inspetor da Alfândega na Paraíba, no Amazonas e no Maranhão e depois de todos esses encargos monárquicos, por decreto imperial de 18 de janeiro de 1882, recebeu o titulo de Barão de Abiaí, numa referência à localidade do mesmo nome, hoje município de Pitimbú. Comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo, foi casado com Adelina Bezerra Cavalcanti de Albuquerque. Falecida esta, sua irmã Leonarda Mirandolina Bezerra Cavalcanti, casaria em 1878 com o futuro barão. A segunda esposa seria a baronesa consorte de Abiaí.

      Outro paraibano, este de Pilar, Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, teve promoção maior na nobreza, recebendo o titulo de Visconde de Cavalcanti. Advogado da escola do Recife, promotor e ministro do Império em várias pastas.Foi responsável pela construção da estrada de ferro Conde D´Eu entre Cabedelo e Alagoa Grande. Não presidiu a Paraíba, mas governou o Piauí, o Ceará e Pernambuco entre 1859 a 1871. A partir de então, foi senador do Império até 1889.Alcançou os primeiros anos da Republica. Seu nome patrocina a Cadeira 13 da Academia Paraibana de Letras. Seu parente e conterrâneo Damião Cavalcanti preferiu a Cadeira 33.

      Alguns topônimos de municípios paraibanos serviram para nomear o baronato brasileiro. Assim tivemos o Barão da Alhandra, que era pernambucano; o Barão de Itapororoca, baiano;Barão de Pilar, carioca falecido em Petrópolis; Barão de Itaporanga, nascido em Sergipe; Barão de Lucena, pernambucano, e até um Barão da Paraíba, vinculado à Paraíba do Sul. E para não dizer que não tenho parente na nobreza, encontrei um Barão do Ramalho, assim denominado Antonio Tomé da Fonseca Paim da Câmara,político de Açores. Esse título passou para o seu neto também chamado Antonio. Estou pensando em regatar essa patente para ilustrar o meu sangue que não tem um pingo azul. Faltar-me-ía, apenas, os 750 contos de réis do custo da patente.

      Sobre o citado Barão de Lucena, consta que Solon de Lucena era seu parente. Deixo a duvida para o nobre Iveraldo Lucena, também filho de um Henrique e tio de outro do mesmo nome. O Barão de Lucena, chamava-se Henrique Pereira de Lucena e governou Pernambuco com grande brilho e um acervo de obras considerável. Como deputado geral e presidente da Câmara fez transitar com urgência o projeto da abolição da escravatura conquistando a simpatia da Princesa Isabel que lhe concederia o baronato. Foi ainda presidente da Bahia, do Rio Grande do Norte e do Rio Grande do Sul. Formado pela Faculdade de Direito do Recife, o Barão de Lucena foi ministro de Deodoro da Fonseca, de quem era amigo. Derrubado Deodoro, caiu também em desgraça quando pretendia exercer o cargo de Ministro do Tribunal Militar para o qual fora nomeado. Floriano o aposentou. Faleceu no Rio de Janeiro em 1913.(Consultei obras de Wilson Seixas e Apolônio Nóbrega. Otinaldo Lourenço,aos 81 anos, o único monarquista que conheço, me ajudou com sua memória privilegiada. 


  • 13/09/2015

    Dorgival Terceiro Neto


     Dificilmente eu deixava de ir abraçá-lo a cada 12 de setembro.Se  levasse uma simples gravata de presente, era recriminado. Dispensava qualquer afago, mas não me negava a alegria de um abraço sincero.Era o seu jeito. Acostumado ao poder sem dele tirar proveito, sabia como ninguém viver longe dele e reconhecer os verdadeiros amigos. Na despedida, concluía: você é dos poucos que se lembram de mim...E continuo me lembrando, Dorgival, e lhe rendendo as melhores homenagens.Hoje me falta o abraço, mas não deixo de registrar minha saudade.

    Em um  discurso, chegou a traçar o seu perfil: “Ninguém procura o destino; percorrem-se caminhos que levam até ele. Menino do mato, nascido nas terras sáfaras de Taperoá, que foi meu berço e será meu túmulo, criei-me contemplando, a pouca distância das fraldas da Borborema, a pedra do pico, segundo ponto mais alto da Paraíba, com o feitio de um polegar gigante apontando para o infinito. Mas minha admiração silenciosa para o alto, nunca me infundiu inveja e nem ambição para alcançar mais do que a vida me reservasse.”

    Dorgival Terceiro Neto não procurou o seu destino. O destino o procurou e fez dele um dos grandes da Paraíba. Deixou o Colégio de Padre Vieira, em Patos, e virou comensal da Casa do Estudante da rua da Areia, onde ingressou em 1951.  Foi concluinte da Faculdade de Direito em 1957, já federalizada.Enquanto estudava, iniciava-se no jornalismo na velha escola da Praça João Pessoa- A União. Foi servidor da Universidade e do Judiciário, recebendo do governador Flávio Ribeiro seu primeiro emprego, no DER. Diretor do Paraiban, dalí saiu para governar nossa Capital.

    Como prefeito de João Pessoa estruturou a edilidade e deu-lhe o primeiro Plano Diretor. Fez seu cadastro imobiliário e instalou um Centro de Processamento de Dados quando pouco se falava em computador por estas bandas. Os servidores municipais passaram a receber salário mínimo como piso. Começou a pagar a previdência nunca honrada em seus créditos. Até o Fundo de Garantia, um ilustre desconhecido por ali, sentou praça na Prefeitura.Construiu 16 unidades escolares e acabou com os “pardieiros”, como chamava as escolas então existentes.Deu sede a várias secretarias e a cidade ganhou um novo Pronto Socorro.

    Quando ainda não se falava em mobilidade urbana, avançou no tempo e abriu a Pedro II, ligando-a ao Castelo Branco; a BR-230, chegou à Beira-mar pelo retão de Manaíra; o Cabo Branco ganhou uma avenida de retorno e o contorno do Farol; paralela à Epitácio, surgiu a Beira-rio e da favela removida  de suas margens, nasceu a Cidade Padre Zé. Deixou a Lagoa toda ajardinada e com um sistema de irrigação permanente; reformou a Bica e levou para a maré a água que transformava o Bairro dos Estados em uma lagoa a cada inverno. Construiu os mercados do Bairro dos Estados, Jaguaribe, Castelo Branco e Oitizeiro. Tudo isso em apenas dois anos e dez meses.

    A ligação da Cidade Alta com a Cidade Baixa deu lugar ao Viaduto da Miguel Couto. Como era o terceiro viaduto da cidade, eu o batizei de Terceirão, na data de sua abertura. Passaram a chamá-lo de Viaduto Dorgival Terceiro Neto. Nunca houve uma lei que concedesse esse batismo. Aguardo a iniciativa de um licurgo municipal.

    Antes que me esqueça: a antiga Universidade Autônoma de João Pessoa, hoje UNIPÊ, empreendimento vitorioso de um grupo empresarial/religioso foi viabilizada em seu nascedouro por que Dorgival  criou a Fundação Municipal  exigida pelo MEC. Nunca se fez esse reconhecimento histórico.

    Pela obra que realizou na Capital, Dorgival foi escolhido vice-governador de Ivan Bichara e ocupou em caráter definitivo o cargo de governador da Paraíba.

    Como advogado manteve um respeitado escritório de advocacia e, na qualidade de mais antigo filiado à OAB, foi o principal homenageado durante os 80 anos daquela Casa.Ocupou a Cadeira 07 da Academia Paraibana de Letras e a Cadeira 45 do Instituto Histórico. Se vivo estivesse, completaria, hoje, 83 anos.Para resumir a vida e obra de Dorgival Terceiro Neto, concedo-lhe, novamente, a palavra:

    Assumi compromissos e tomei responsabilidades, mas tão logo me desincumbia dos afanosos ofícios, saia às pressas, sem olhar para trás, por que não carregava pesadelos”.


  • 08/09/2015

    A Guarda Nacional e os coronéis (2)


     O meu avô, José Rodrigues da Costa Neto, era tenente da Guarda Nacional. Nunca vi o titulo que lhe teria sido conferido, mas lembro da sua espada prateada presa a um suporte de madeira, próximo ao teto da casa grande do engenho Poço Escuro, do qual era o Senhor.Falava-se que herdara o título e espada do pai ou do avô.Pelas suas posses, tinha também direito a votar e no dia da eleição saía paramentado, a cavalo, e com a espada a tiracolo.É o que me contavam.

    A Guarda Nacional, como frisei em artigo anterior,com a República, deixou de exercer funções paramilitares, mas seus integrantes não largaram as patentes e continuaram a exercer influência política nos municípios de suas áreas de atuação. Daí surgiram os coronéis sem farda e sem espada, mas como forte influência social e econômica. A força dos coronéis seria sentida até a chegada do Estado Novo, ultrapassando os ideais da Revolução de Trinta e, aos poucos, desaparecendo, graças à principal arma da democracia - o voto secreto.

    Muito mais atrás, porém, a influência da Guarda Nacional era imprescindível à segurança do Estado. O primeiro presidente da Paraíba que resolveu conhecer o nosso interior, o gaucho Silva Nunes, nomeado por ser genro do Barão de Muritiba ( o nepotismo vem de longe),fazia questão da presença da Guarda Nacional em todas as cidades por onde passou. O jornal “O Imparcial”, contratado pelo governo da província para publicação dos atos oficiais, acompanhou a viagem do Chefe do Governo, de mais de trinta dias, à cavalo, e relatou aos seus leitores os detalhes da aventura.

    No Pilar, a banda de musica da Guarda tocou “o hino marcial e várias peças, ao som de estrondosas girândolas que subiam ao ar”. O presidente foi recebido pela “Câmara Municipal em grande gala na casa de suas sessões, decentemente preparada”. No Ingá, “foi sentida a ausência da Guarda Nacional, o que é bem censurável; porque toda a gente se empenha e procura ser incluído na proposta para os postos e nas ocasiões como a presente não aparecem”, reclama o jornal oficial de então. Houve uma exceção: o Comandante apresentou-se “a paisano”, conforme o cronista da viagem. Em São João, a Câmara Municipal da vila seguiu o exemplo de Cabaceiras, e “esqueceu-se dos seus deveres administrativos e de civilidade”, não comparecendo à recepção. O comandante da Guarda apresentou-se fardado, contudo, justificou a ausência da oficialidade por falta de fardamento.

    A viagem do presidente Silva Nunes virou livro do historiador Wilson Seixas e começou por Santa Rita, ganhou o sertão, subiu as serras dos brejos de Areia e Bananeiras, voltando por Patos e Mamanguape. No retorno, foi recebido com muitas festas e um baile em sua homenagem. Em Patos, “a Guarda Municipal não deu sinal de vida, faltando a oficialidade ao cumprimento de seus deveres, e iludindo, portanto, a lei de sua criação”, reclama “O Imparcial”.Em 1860, Patos era “uma vila de acanhadas proporções e não possui edifício algum de importância”. O gaúcho que governava a Paraíba não arrefecia o ânimo e, mesmo com uma crise de asma, subiu a Serra do Teixeira e constatou que “a vila tem calçamento de pedra natural, por assim dizer; pois é uma lage só, sobre a qual foi situada a povoação”. A Guarda Nacional ... “tem escrúpulos em apresentar-se; sendo que foram cumprimentar a S. Exa. três oficiais sem espadas”. Antes de subir até Teixeira, o Presidente Silva Nunes arranchou-se no Gerimum, hoje município de São José do Bonfim. Gerimum era uma pequena fazenda onde se destacava, apenas, a casa do vaqueiro. Foi alí que o governante teve acolhida.”Teve S.Exa. por mesa duas malas coberta de couro, da bagagem, e por cadeira uma pequena mala inglesa de viagem” revela o periódico, citado por Wilson Seixas.

    O jornal não perdoou aos integrantes da Guarda Nacional que fizeram desfeita ao Presidente da Província, deixando de comparecer à sua recepção em cada uma das cidades e vilas por onde passou. E não deixou de lavrar seu protesto contra aqueles que “ só se lembram dos postos que exercem na guarda nacional, das honras que lhes são conferidas, quando é preciso perseguir a certos e determinados indivíduos, quando é necessário abusar do cargo para ajudar esta ou aquela parcialidade, para ser chamado de Sr.Tenente- coronel, Sr.Major, Sr, Capitão”. E pede ainda providência contra “indivíduos oficiais da guarda nacional que não estejam fardados, que gosem dos cômodos sem suportarem os incômodos..” (adotei nas transcrições a grafia da época)

    Muitos coronéis chegaram aos nossos dias e conviveram com a redemocratização do país. Na Paraíba, o cel.José Antonio Maria da Cunha Lima Filho chegou a deputado federal no início da Republica. Seguidor de Argemiro de Figueiredo, exerceu influência política até a eleição de 1965 quando deixou seu antigo chefe, e aderiu à candidatura de João Agripino a governador. Sua adesão deu lugar a slogan de grande repercussão mas de poucos votos : “É o mundo todo e o Mundo Novo, também!”. “Mundo Novo” era o engenho do coronel.


  • 02/09/2015

    A Guarda Nacional e os coronéis


    Quando D.Pedro I abdicou do trono do Brasil, ficou difícil ao governo imperial conter as escaramuças entre os nacionais e os portugueses saudosos do Monarca. Havia um receio de que os militares se posicionassem pelo retorno de D.Pedro, principalmente, pela falta de confiança no exército, então formado por homens de origem humilde e sem nenhuma qualificação, além do mais, chefiados por estrangeiros. A chamada Regência Trina Permanente, que ocupava o vazio do trono na minoridade de D.Pedro II, passou a diminuir o efetivo do exército e ao mesmo tempo tentava encontrar uma alternativa que garantisse a manutenção da ordem pública. Era agosto de 1831, (sempre agosto) e para suprir essa necessidade, foi criada a Guarda Nacional a ser instalada pelos Juízes de Paz em cada município. Os membros da Guarda seriam recrutados entre os eleitores com renda superior a 200 mil réis nas grandes cidades e 100 mil réis nas demais.

     

    A Guarda Nacional era uma instituição civil, mas em caso de guerra, serviria de força auxiliar do Exército. Seus préstimos poderiam ser requisitados pelos juízes de Paz e Criminais, pelo Presidente da Província e pelo Ministro da Justiça aos quais estava subordinada. Ao governo cabia a escolha dos coronéis e majores da Legião da Guarda Nacional. Os demais oficiais, foram, inicialmente, eleitos pela tropa para um mandato de quatro anos. Posteriormente, passaram a ser nomeados pelo presidente da Província, mediante propostas das Câmaras Municipais. A Guarda Nacional começou a ser desmobilizada a partir da República e sua ultima aparição ocorreu no desfile de 7 de setembro de 1922, nas comemorações do Centenário da Independência.

    A República deu adeus à Guarda Nacional mas deixou florescer por muitos anos ainda a figura do Coronel como fenômeno social e político. A escolha dos coronéis recaía sempre entre grandes proprietários de terra que somavam o seu poder econômico à força política. Os coronéis tanto ajudavam a subir, como arquitetavam a queda de um governo. O governo dependia dos coronéis, políticos locais, donos da terra, do voto e da liberdade dos seus adeptos.O coronel se sobrepunha ao Estado e prevalecia o seu mandonismo. Durante toda a República Velha vigorou esse coronelismo, baseado na formação de uma clientela subserviente mas agradecida... A troca de favores estabelecia um liame de gratidão entre o soba e o cidadão, deixando este à mercê do senhor do baraço e cutelo. Do coronel Felinto Rocha na feira de Moreno: “Aqui eu quero, posso e mando”.

    Herdeiros dos títulos da antiga Guarda Nacional, outros coronéis e majores foram assim batizados como sinônimos de chefe político. Ainda nos dias de hoje, o tratamento de Coronel serve para agradar pessoas de posses ou de importância política, seja ela analfabeta ou graduada. Cheguei a conhecer o coronel José Antonio Ferreira da Rocha, já velho e doente, morando nesta Capital à rua Duque de Caxias. Herdeiro político e de parte do bens do seu sogro, comendador Felinto Rocha, foi deputado à Assembléia Constituinte de 1933. Em Bananeiras, porém, só alcancei o poderio dos majores. Na primeira eleição que participei, com meu pai candidato a prefeito, seu adversário era o promotor publico da comarca. Era uma evolução. A prefeitura estava saindo das mãos de um major. Aproveitei para fazer um slogan: quem não é doutor nem major/ tem que ser o melhor! ( Continua na próxima coluna)


  • 17/08/2015

    O Barão de Araruna existiu (1)


     O Barão de Araruna não é só uma figura de ficção. A personalidade do personagem de Maria Dezonne Fernandes no seu romance de maior sucesso, “Sinhá Moça”, pouco se aproxima do verdadeiro Barão. Há, porém, algumas coincidências: a atividade política do Barão da literatura, do cinema e da televisão desenvolveu-se na cidade de Araras, topônimo que muito se aproxima de Araruna. A atividade econômica desenvolvida pelo trabalho escravo, a serviço do nobre da novela, era o café, mesmo ramo de negócio do verdadeiro Barão. O violento Barão da ficção, useiro e vezeiro no uso do tronco como forma de se fazer respeitar na senzala, em nada se aproxima do verdadeiro Barão, este, “a um caráter estóico aliava a grandeza de sua alma e a bondade de um coração sempre voltado para o bem”, na definição de José Ferreira Novais, citado por Maurílio Almeida, o principal biógrafo do seu trisavô, o Barão de Araruna.

    O Barão da novela de Bendito Ruy Barbosa, sucesso em 1986, repetido em 2006, teve sua vida retratada entre 1840 e 1850 e durou pouco mais de sete meses na convivência dos lares brasileiros que apreciam a telinha. O verdadeiro Barão, chamava-se Estevão José da Rocha e seu “mandato” de Barão durou apenas três anos. Foi ungido pela Princesa Isabel em 1871 e faleceu em 1874, em Bananeiras, onde ocupou quase todo o território plantando café da melhor qualidade. Nasceu na Casa Grande da Fazenda Serra Branca, no então Distrito de Pedra Lavrada, hoje município desmembrado de Cuité. O Barão é “sangue dos Arruda Câmara do Piancó e Ferreira de Macedo, de Picuí” relata Câmara Cascudo. Por razoes desconhecidas, Estevão José da Rocha recebeu esse nome, excluindo sua descendência paterna.Deveria chamar-se Estevão José Ferreira de Macedo. O Barão da ficção é chamado de Coronel José Ferreira. É muita coincidência para ser só coincidência.

    O Barão de Araruna nunca aceitou posições de mando que o mantivessem longe da sua querida Bananeiras. Residia na propriedade de nome Jardim, onde plantava café e tinha engenho de açúcar. Por pouco tempo foi Comissário da Instrução Pública da Vila de Bananeiras, sendo atendido na sua exoneração pelo Presidente Beaurepaire Rohan. Por insistência do governo da Província, foi ainda Juiz dos Órfãos e Chefe da Mesa de Rendas. Coronel da Guarda Nacional, Estevão substituiu o Juiz de Direito durante a Revolução Praieira que irrompeu em 1848 em Pernambuco com ramificações na Paraíba.

    Diferentemente do barão imaginário, sanguinário na perseguição aos seus escravos, Estevão José da Rocha ao falecer contava apenas com treze deles a seu serviço. Já vigorava a Lei do Ventre Livre que considerava libertos os nascidos a partir da data daquela lei. Muitos já haviam recebido do Barão, a Carta de Alforria, a exemplo da escrava Bernarda, retratada por Maurílio Almeida com 53 anos. Já enfermo, o Barão não pode assinar o documento, o que foi feito pelo seu genro e testemunhado pelo filho Felinto Rocha, mais tarde Conselheiro da Ordem da Rosa também uma concessão da Princesa Isabel, e pelo vigário da Paróquia.

    O acervo de Maurílio Almeida ( O Barão de Araruna e sua Prole) guarda a Carta Imperial que deu o titulo de Barão a Estevão José da Rocha: “ A Princesa Imperial Regente, em nome do Imperador o Sr. D. Pedro II, faz saber aos que esta Carta virem que, atendendo aos relevantes serviços que tem prestado Estevão José da Rocha, da Província da Paraíba do Norte, querendo distingui-lo e honrá-lo, há por bem fazer-se mercê do Titulo de Barão de Araruna e com o referido titulo goze de todas as honras, privilégios e isenções, liberdade e franquezas que hão e tem e de que se usou e sempre usaram os Barões, e que de direito lhe pertencerem.O por firmeza de tudo que dito é, lhe mandou dar esta Carta, por ela assinada e selada com selo das Armas Imperiais. Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 3 de junho de 1871, quinquagésimo da Independência e do Império.Princesa Isabel Regente e João Alfredo de Oliveira Correia”.Como se vê, o Barão de Araruna existiu. (Continua no próximo capítulo, digo,coluna)


  • 09/08/2015

    Um alemão na vida do meu pai (2)


     Quando arribaram de Moreno para Borborema, em uma madrugada de agosto de 1942, meus pais, Arlindo e Eurídice, vinham no rastro do alemão Guilherme, já acomodado naquele burgo pelo manto protetor do doutor José Amâncio Ramalho, o chefe político e provedor econômico do lugar. Meu pai conseguira salvar o estoque de sua loja financiada pelo alemão, mas este perdera quase tudo quando incendiaram sua casa de comercio e residência. Uma vida nova seria aberta para os dois- meu pai e o alemão- sócios em uma firma de tecidos e ferragens. Quem não teria esperança de vida, seria a minha irmã Tereza Newman. Carregada no ventre da minha mãe, pagou pela aflição da gestante durante aqueles dias de horror. Foi a primeira paraibana vitima da Segunda Grande Guerra, mesmo a milhares de quilômetros do campo de batalha.

    Segundo me contaram, a população da Vila de Moreno (Solânea) tinha estima pelo alemão. Detestava, porém, sua mulher, dona Margarida. Por conta dela, o comércio do europeu virou alvo dos justiceiros após ser transmitida a noticia do fundeamento de navios brasileiros na nossa costa, por obra de submarinos alemães e/ou italianos. Dona Margarida era defensora da sua pátria e, por conta dessa paixão, chegou a proclamar que, vencendo a Alemanha, faria uma “calcinha” com o tecido da nossa bandeira. Irritava os locais com essas chacotas. Pagou por isso.

    Em Borborema já residia outro patrício de “seu” Guilherme. “Seu” Harris Kramer, mecânico dos melhores, atendia aos engenhos de rapadura e participara da montagem de Hidroelétrica Borborema. Constituiu família na cidade. Dona Alzira, sua esposa, era filha de Adelson Lucena, tio do estimado senador Humberto Lucena. Dona Alzira foi agente dos Correios até sua aposentadoria. O casal era compadre dos meus pais.Um de seus filhos, Artur, é auditor fiscal do Estado. O trio de alemães no brejo seria completado com “seu” Frederico, que se fixou em Bananeiras e depois migrou para Natal.

    Um outro alemão teve importância na história de Bananeiras em épocas mais remotas. Chegou trazido sob custódia, do Recife, pelo cafeicultor Antonio Alves da Rocha, filho do Comendador Felinto e neto do Barão de Araruna, para montar uma usina de beneficiamento de café e de arroz. Esse alemão, chamado Wildt, era engenheiro mecânico e estava detido em função da primeira grande guerra. Antonio Rocha conseguiu sua liberação, e mediante assinatura de um termo de responsabilidade trouxe o alemão para Bananeiras. Este, logo cedo encantou-se com

    uma filha do seu guardião, conhecida como Dina.O casamento não demorou, mas essa família cresceria sem o pai, acometido de febre tifóide e falecido prematuramente. Uma de suas filhas – Herta, viria a ser avó da primeira coronel da Policia Militar da Paraíba- Cristiane Wildt.

    Mas o alemão da minha história é outro. Seu Guilherme era um comerciante nato. Tal uma fênix, renasceu das cinzas, literalmente. Sua casa de comércio em Borborema vendia de tudo. Tecidos, material elétrico, ferro, parafusos, prego, graxa, óleo lubrificante, gasolina, querosene e até água destilada para renovar baterias. Meu pai, como seu sócio, era cumpridor do ritual da severidade germânica. A grave enfermidade do alemão levou-o de volta à família, no Recife. Com o seu falecimento, meu pai compraria a parte dele na empresa. Bastou ficar sozinho e se encantar com os acenos da política, para jogar fora o que amealhara durante anos. Quebrou.

    O que quebrou também foi um gramofone de cordas do alemão. Na mudança apressada, a geringonça jogada por cima de um muro, caiu na cabeça de Antonio Souto, filho de outro com o mesmo nome que Arnóbio Viana batizou uma escola na Vila Gama. Souto foi o menino que ajudou meu pai no esforço de salvar alguma coisa do alemão. Carregou para sempre uma cicatriz na testa. A geringonça funcionava pressionando-se e rodando o dedo sobre o disco. Era meu brinquedo preferido. A música alemã arranhada por uma agulha enferrujada, ainda hoje ressoa nos meus ouvidos.


  • 28/07/2015

    Vamos falar de trens (2)


     Fiquei impressionado! Como o trem exerce ou exerceu influência na vida das pessoas...Quando eu escrevi “Vamos Falar de Trens”, colhi manifestações de toda parte, cada leitor contando a sua história. Resolvi voltar ao assunto narrando alguns episódios e revelando seus personagens. Começo com minha primeira viagem de casado, de Borborema para a Capital. Estudava no Liceu e prometera ao meu pai que o casamento prematuro não atrapalharia meus estudos. A bagagem era quase nenhuma, mas o Chapeado 20 ficou encarregado do translado até a casa dos meus avós, onde morei até que pude alugar uma casinha. Foi minha viagem de lua -de -mel, encolhido do frio e limpando a fuligem que jorrava da locomotiva, mesmo com as janelas fechadas. Abri-las, só com o raiar de um novo dia, na passagem por Guarabira. E o Trem de Ferro, resfolegando: “Café com pão/café com pão/café com pão/Virge Maria, que foi isso maquinista?”,como diria Manoel Bandeira, até chegar ao seu destino, me abrindo as portas para uma nova vida.

    O desembargador Aurélio de Albuquerque, meu professor de geografia no Liceu, foi promotor em Bananeiras, e contava com muito humor suas viagens de trens saindo nas madrugadas frias e chegando a João Pessoa perto do meio dia. Um guarda-noturno se encarregava de acordar os passageiros e era o mesmo que conduzia a bagagem. No meio do caminho não tinha um pedra, tinha um buraco. Drumont não esqueceria que “no meio do caminho tinha uma pedra”, mas o nosso promotor sempre esquecia que no meio do caminho tinha um buraco. E nele caiu todas as vezes que, na escuridão das noites sem lua, resolveu subir a Ladeira da Estação para a pegar o trem.

    Meu tio Elvídio era rapazinho e chegado à algazarra da própria idade.Na saída do trem,em Borborema, colocou o braço para fora do vagão e o manteve estendido até que o comboio atingisse o fim da plataforma. Quem estivesse na rota do seu braço seria atingido, sem dúvida. Nesse dia, a sorte não seria sua companheira. Na plataforma deserta estava apenas o condutor, espécie de chefe do trem, esperando para subir no último carro. O braço de tio Elvídio o alcançou no meio da face. O quepe caiu e seu apito perdeu-se na escuridão. Ele, porém, não perdeu o trem e nem a fúria com que foi em busca do seu agressor. Os ânimos se acalmaram quando o “gaiato” foi reconhecido. O condutor era acostumado a receber dele, uma propina, toda vez que os “meninos de Poço Escuro” queriam descer no Engenho, que não tinha uma parada. Bastava diminuir a velocidade do trem na subida de Samambaia, e isso eles conseguiam num acerto entre o condutor e o maquinista. Meu tio Zé Rodrigues, certa feita, errou no salto e quebrou a cara. Para quem já era apelidado de “Zé Bonitinho”, o estrago não foi tão grande assim.( que me perdoe meu padrinho de crisma).

    E a festa que se fazia na saída ou na chegada do trem? Vendia-se de tudo. Da água fria em quartinha, à tapioca. Da cocada, ao cuscuz molhado no coco. No período das festas juninas, além do milho assado, da pamonha e da canjica, também se vendia beijo-de-moça, pequenas bombas que os meninos compravam para assustar os passageiros que conseguiam dar um cochilo, mesmo com os balanços do vagão.Nas estações onde a máquina “bebia água”, dava tempo para estirar as pernas e visitar as mesas de quitutes. Em cada estação militava um vendedor mais afamado.

    “Seu” Veludo, integrante da Assembléia de Deus de Borborema, até enquanto o trem parou na sua estação, manteve uma mesa com café, leite e todos os bolos conhecidos naqueles tempos. Encho a boca d´água quando me lembro do pé- de- moleque de “seu” Veludo. Era adocicado com rapadura e cozido na folha da bananeira. Antes que o trem desapareça na curva do túnel de Samambaia, devo registrar que “seu” Veludo viria a ser o avô do nosso distinguido jornalista e empresário midiático Walter Santos.

    Quem tiver mais histórias que envolva o trem e seu romântico roteiro de viagem, mande para ramalholeite@uol.com.br. Vão fazer parte de um novo livro que pretendo publicar.Por enquanto, não vou mais aborrecer vocês com a saudade que sinto do apito do trem nas serras do brejo da Paraíba.


  • 21/07/2015

    Zé Amâncio em Araruna


    Conviver com quem gosta de história é um privilégio. E como eu gosto de contar histórias... Muitos historiadores me brindam com as suas pesquisas e iluminam meu conhecimento. Marcelo Cerqueira, por exemplo, me presenteou seu livro onde traça a evolução da iluminação pública na Paraíba e, notadamente, nesta Capital. Eu já sabia que um Vilar, parente de Ariano Suassuna e Dorgival Terceiro Neto, ocupante do Palácio muito antes do pai do primeiro, e da gestão do segundo, fora o responsável pela introdução da iluminação pública à base de lampiões. Também sabia que José Amâncio Ramalho instalou a segunda hidroelétrica do nordeste, em Borborema, e até que chegasse a energia de Paulo Afonso vendeu energia a boa parte do brejo.

    Agora fui visitado por Humberto Fonseca de Lucena, que me fez reviver em “O Mercado de Araruna e seus arredores”, o início da trajetória desenvolvimentista do mesmo José Amâncio Ramalho, pacificamente, tido e havido como fundador da minha terra natal, a pequenina cidade de Borborema, “deusa adormecida dos eucaliptais”, segundo o imortal Manoel Batista de Medeiros. Nascido em Tacima, ainda por concluir o curso de direito no Recife, onde seria colega de turma de José Américo de Almeida, Zé Amâncio, como era conhecido, idealizou a construção de um mercado público em Araruna, como marco inicial do progresso daquela cidade serrana. A prefeitura ou o antigo Conselho Municipal não tinha receita para tanto. Zé Amâncio tinha. Condicionou sua construção à concessão da exploração comercial do imóvel. “Sua obra é um divisor de águas e divide a história de Araruna em dois tempos: antes e depois do Mercado. Nem por isso seu nome foi lembrado para batizar alguma rua ou qualquer logradouro público de Araruna”, reclama Humberto.

    Araruna vivia a primeira década do século XX. Os Targino, ontem como hoje, mandavam e desmandavam nos destinos da cidade e na vontade dos cidadãos. Concordaram com a idéia de Zé Amâncio e o Conselho conseguiu arrecadar seis contos de reis para a obra. O restante seria por conta do empreiteiro, beneficiário “ do imposto de chão, de açougue e de lojas, pelo prazo de dez anos” para se ressarcir do investimento que chegaria a trinta contos de réis. A construção foi iniciada em 1908, data em que o construtor concluiria o curso de direito no Recife, opção não vocacionada, pois seu desejo era cursar engenharia no Rio de Janeiro.

    Há de se registrar que, paralelamente ao prestígio dos Targino, àquela altura contando com o cargo de prefeito, de juiz e de padre na família, crescia também em Araruna a popularidade de Zé Amâncio. Vem de longe a ação dos coronéis contra quem lhes ouse fazer concorrência. Faltando ainda quatro anos para terminar o contrato firmado com a municipalidade para exploração comercial do mercado, Zé Amâncio foi dispensado, depois de uma batalha que envolveu até noticiário na imprensa desta capital. Desgostoso, mas conciliador, Zé Amâncio aceitou receber quatro contos de réis de indenização e retirou-se de Araruna para sempre.

    Borborema, então Boa Vista, ganhou esse empreendedor que adquiriu terras ali em 1912. Construiu um açude, e com a força da água passou a produzir energia e vendê-la a vários municípios. Instalou uma usina de beneficiamento de arroz e de mandioca. Zé Amâncio era um visionário. Do alto da serra de Araruna ele avistara o progresso chegando ao brejo: o trem aportaria em 1913. Faltava a energia para impulsionar a indústria, florescer o comércio e encher os trens de produtos locais. Sua visão de futuro e sua força empreendedora fizeram nascer uma cidade. O que Araruna perdeu, Borborema lucrou.


  • 13/07/2015

    Vamos falar de trens


     O trem chegou a Bananeiras em 1925. Solón de Lucena, contrariando seu cunhado Celso Cirne, (queria que o trem aportasse em Moreno/Solânea), profetizou: “O trem chegará a Bananeiras nem que seja por debaixo da terra”. A construção do túnel da Serra da Viração levou dez anos. Enquanto isso, desde 1913, o comboio de ferro despejava seus passageiros na Estação de Borborema e, depois, em Manitú. Cavalos selados esperavam os passageiros para levá-los a Bananeiras, território fértil dos Barões do Café.

    A linha de ferro Independência (Guarabira) a Picuí constituía uma linha de penetração nos sertões da Paraíba e do Rio Grande do Norte e, por essa razão, sua construção foi confiada à Inspetoria de Obras Contra as Secas.A Great Western, companhia inglesa que participou da nossa história, abandonara o trecho e não cumprira o contrato inicial de 1909. Posteriormente, em 1922,por novo contrato, os ingleses se obrigaram a construir o trecho entre Borborema e a Boca do Túnel. Este estava sendo construído pelo Governo. Era obra de Epitácio e seu parente Solón.
    A construção de ferrovias de propriedade da União não deveriam ter “o intuito de proporcionar lucros diretos ao Estado”, mas aproveitar os lucros indiretos advindos do incremento econômico proporcionado pele rede ferroviária. Daí, seu arrendamento aos ingleses até 1960, quando seria devolvida ao patrimônio federal sem direito a quaisquer indenizações. O governo não agüentou muito tempo e, de logo, em 1967, extinguiu os ramais considerados deficitários. Obra de Juarez Távora e da “redentora” de 64.

    A linha da Paraíba (João Pessoa) a Alagoa Grande, teve sua construção concedida pelo governo imperial ao conselheiro Diogo Velho, ao bacharel Anísio Carneiro da Cunha e ao engenheiro André Rebouças. No contrato, uma ramificação para Ingá e Independência. Essa concessão foi depois transferida para a Ferrovia Conde d´Eu, organizada em Londres em 1875. O Conde d´Eu era marido da Princesa Isabel, estigmatizado por ser estrangeiro,era impopular até dizer basta.O sotaque Frances ajudava sua imagem negativa. A linha da Conde D´Eu terminava em Guarabira. Esses mesmos incorporadores conseguiram financiamento do Governo para um ramal até Cabedelo. Para André Rebouças, o porto de Cabedelo, o mais oriental do Brasil, seria futuramente a “estação marítima do maior caminho-de-ferro inter-oceânico da América do Sul.”.


    Em 1883, o trem chegou a Mulungú e, no mesmo ano, a Pilar, a tempo de ser apreciado pelo menino de engenho Carlinhos e seu companheiro de folguedos, o moleque Ricardo, compondo o cenário de Zé Lins do Rego. Somente em 1884 seriam inauguradas as estações de Cachoeira e Independência. Cabedelo só viu o trem em 1889. Era nesse terminal que deveria aportar o café de excelente qualidade produzido em Bananeiras, Serraria e Areia. A ciclópica construção do túnel favoreceu a ação do ceracocus parahybensis e as plantações de café foram dizimadas.Quando o trem atravessou o túnel e parou em Bananeiras, não havia mais café para ser transportado.

    Devo a mim mesmo um estudo mais alentado sobre a implantação das linhas de trem na nossa região, e sua influência na mudança dos costumes locais. Não preciso lembrar que nasci na beira da linha, e o apito do trem, talvez tenha sido o primeiro som que meus ouvidos escutaram. Neste texto, compilei apenas alguns dados da Historia de Uma Estrada de Ferro do Nordeste, de Estevão Pinto, escrito a pedido de Gilberto Freyre. Descobri o documentário através de um sebo eletrônico. Comprei um exemplar que pertenceu a Clemente Mariani, ex-ministro da Fazenda de Jânio Quadros. O autor escreveu simpática dedicatória: “Ao eminente político Ministro Clemente Mariani, com a homenagem e admiração de Estevão Pinto.XII-Recife”. A admiração, ao que parece, não era recíproca: o Ministro, além de vender o livro no sebo, deixou para mim a tarefa de abrir suas páginas ainda virgens.


  • 07/07/2015

    Viúvas e aposentados


     Quando assumi a gestão previdenciária do Estado, costumava lembrar que, como deputado, dera uma boa contribuição para o aumento do déficit previdenciário. No passado, a Paraíba tinha o IPEP, apelidado de Instituto de Previdência, mas com atividades que iam desde o financiamento da casa própria à oferta de serviços de saúde aos segurados. A folha de pagamento dos aposentados era honrada totalmente pelo Tesouro do Estado. Com o advento da PBPREV, este absorveu o patrimônio do IPEP, que passou a ser somente órgão de assistência, hoje denominado IASS. A receita resultante do desconto para a aposentadoria do servidor (11%) e a contrapartida do Tesouro (22%) compõem o bolo financeiro que paga a folha dos aposentados e pensionistas. A receita é insuficiente. O tesouro socorre a previdência e, em 2014, o repasse para complementação da folha ultrapassou a quantia de 89 milhões de reais. 
    Minha ação parlamentar não visava aumentar o déficit previdenciário, mas melhorar a vida daqueles que, perdendo o seu provedor, tinham na pensão do IPEP o único caminho da sua sobrevivência. Comecei, portanto, pelas viúvas. Era impossível aceitar que a viúva e os filhos de um Agente Fiscal, como na época era chamado o Auditor, com o seu falecimento, passassem a perceber pouco mais que um salário mínimo, quantia muito distante da receita familiar com o seu chefe vivo. De um projeto meu, resultou a Lei 4.835 de 1986, que mandava pagar ao cônjuge sobrevivente e filhos, o mesmo valor ganho pelo falecido, como se vivo estivesse. Meu projeto tinha o vício da iniciativa proibida ao deputado, mas o governador Wilson Braga, compreendendo o alcance social da medida, vetou e imediatamente assinou mensagem com o mesmo teor do meu projeto. Ganhei com isso o epíteto de “deputado da viúvas”, batismo do radialista Luiz Otávio.
    Ganha essa primeira batalha, apresentei mais dois projetos de lei. Um beneficiava as filhas solteiras que já percebiam pensão, e os dependentes do servidor falecido já incluídos no cálculo da mesma pensão. Para esses, pretendi estender os benefícios da Lei das Viúvas. Outro projeto, concedia isenção de contribuição previdenciária aos aposentados, o que seria implantado por etapas, para evitar um decesso brusco nas receitas do IPEP, como constava da minha iniciativa. O vice-governador, Antonio da Costa Gomes, eleito juntamente com Milton Cabral, no exercício do cargo de governador, vetou ambos os projetos. Antonio Gomes estava de passagem rápida pelo cargo e lhe foi dada a missão de rejeitar esses benefícios aos servidores. A missão dele foi cumprida, a minha seria concluída na Assembléia, com a derrubada dos vetos.
    Mudou o governo e nos primeiros dias da nova legislatura, os vetos ao meu projeto foram submetidos à apreciação dos deputados. Ambos os vetos foram derrubados. Em expediente de 15 de maio de 1987, o deputado José Fernandes, então presidente da Casa, comunicava ao governador Tarcisio Burity a transformação dos meus projetos em lei. Essas leis também prescreviam a extensão dos benefícios da Lei da Viúvas, ao cônjuge sobrevivente, fosse casado civilmente ou não, e contemplava por igual às mães que percebiam pensão em razão do filho falecido. Lula conseguiu derrubar minhas leis. Agora, a pensão é reduzida em comparação aos vencimentos do falecido. E os aposentados, que pagaram a previdência justamente para ter o direito de se aposentar, continuarão pagando até morrer. A Lei de Dilma separa viúva nova de viúva velha, pelo tempo do casamento, para ter direito à pensão do marido falecido.E por pouco tempo...


  • 26/06/2015

    Recortes de jornais


     Recebi desde o início do ano passado, em meio eletrônico, o acervo de minhas atividades como deputado estadual, incluída a elaboração da nova Constituição do Estado.Projetos, requerimentos, indicações e discursos abordando os mais variados temas, foram resgatados e fazem parte do memorial da Assembléia. Somente agora foi possível mergulhar no passado e rever alguns assuntos que polemizaram os debates na imprensa, durante a elaboração dos trabalhos da Constituição de 1989.

    Graças a Cida Lobo, pude reviver aqueles dias em que, como líder do Governo Burity, enfrentava uma maioria ruidosa e aguerrida, preocupada, como dizia, em dar o melhor para a estrutura institucional da Paraíba. Havia também muita incompreensão.
    O jornal “O Combate”, de propriedade do jornalista e ex-deputado Jório Machado, sob a assinatura de Sandra Moura (não confundir com a renomada arquiteta) traçava um perfil infame dos deputados constituintes: “...usam gravata e paletó.A maioria tem entre dois e quatro filhos.Quase todos são médicos e advogados com idade superior a 35 anos.Foram a eles a quem os mais de 1,6 milhão de eleitores paraibanos confiaram a tarefa de elaborar a Nova Constituição do Estado.Passados quatro meses da abertura dos trabalhos da Assembléia Estadual Constituinte, inúmeros paraibanos já têm a certeza de que essa confiança atribuída nas urnas aos 36 parlamentares não está sendo correspondida....salvando-se alguns, os parlamentares estão sem fazer nada na Constituinte.Para quem acompanha os trabalhos é fácil notar que eles caíram na ociosidade. Na verdade, muitos deles estão indo à Assembléia para fazer três coisas: dar entrevista, assinar a valiosa lista de presença ( cada deputado recebe 300 cruzados novos por participar de cada sessão constituinte) e jogar conversa fora.(08.07.1989).

    “A pressa é inimiga da perfeição”, rebatia o presidente João Fernandes acolitado pelo o relator Egídio Madruga. A conclusão dos trabalhos ocorreria em 05 de outubro de 1989, debaixo de muitas críticas, poucos elogios e alguns protestos. O mais relevante deles protagonizado pelo Governador do Estado, Tarcisio Burity, que recusou o juramento à nova Carta, no que foi seguido pelo presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Josias Pereira do Nascimento, ausente da Paraíba, e pelo seu substituto legal, o vice-presidente Evandro de Souza Neves, este justificando para tanto, uma decisão da Corte à qual pertencia.Na realidade, o Tribunal de Justiça estava inconformado com o aumento do numero de membros daquela Corte e, também, com criação do Conselho de Justiça, obra do Voto de Minerva do presidente João Fernandes, depois considerado inconstitucional pelo Supremo.

    O governador Burity, por sua vez, apontava vários pontos da Carta que visavam não somente facilitar o seu afastamento do Governo como também à implantação de uma espécie de regime parlamentarista a que chamei de “parlamentarismo tupiniquim”. A maioria da Constituinte tentou fazer da nova Constituição um instrumento de oposição a Burity. Não poucas vezes eu repeti: “Burity não é eterno”. O procurador Romero Nóbrega derrubou um a um na suprema Corte, os dispositivos estranhos ao corpo legal e que se chocavam com a Carta Federal. Ao se recusar a comparecer à solenidade de promulgação da nova Constituição, Burity muniu-se de um habeas-corpus, impetrado pelo seu advogado, Joacil de Brito Pereira.Nem por isso, o presidente João Fernandes deixou de, a cada dez minutos da sessão, convidar o governador ausente a tomar assento no lugar que lhe fora reservado. O mesmo procedimento não foi adotado com referência ao representante do Poder Judiciário.
    “Burity foi grosseiro” disse João Fernandes ao Correio da Paraíba de 06.10.1989. Mas, comedido, anunciou que não tomaria qualquer decisão precipitada com relação aos ilustres ausentes que se negaram jurar à Carta, acrescentando, porém: Burity não foi apenas grosseiro com os deputados que trabalharam na elaboração do texto, mas praticou “um ato de desrespeito a todos os paraibanos”. Por outro lado, Burity justificou que não iria jurar uma Constituição com a qual ele discorda, e tem a intenção de recorrer ao Supremo. “Burity acha que a Constituição foi feita contra ele”, conclui o jornal. O fato gerou especulações de alguns juristas, inclusive o ministro Rafael Mayer, para quem, a ausência dos chefes dos dois poderes ao juramento da Carta poderia resultar na declaração de vacância dos seus cargos.

    Nada disso aconteceu, mas Burity escreveu na sua história esse capítulo inusitado: foi o único governador do Brasil que se negou a jurar a Nova Constituição do seu Estado.


  • 13/06/2015

    Pioneiros da energia


     Fiquei impressionado com o gigantismo da Itaipú Binacional. Uma obra de engenharia construída pelo Brasil e Paraguai, com o nosso dinheiro, e que atende a noventa por cento das necessidades dos guaranis e a vinte por cento das nossas. Desde o início da produção o Paraguai vem pagando ao Brasil, com energia, a parte do investimento que lhe caberia realizar e, não o fez por falta de recursos. Quando esse acordo vencer, nós passaremos a pagar toda a energia consumida. Isso refletirá no preço da nossa conta de luz. .

    A crise é grave, e passa, sem dúvida, pela queda no volume das nossas barragens, obrigando a utilização de outras fontes mais caras de produção de energia. Esse processo termina na nossa casa. Ainda bem que um programa chamado de “Baixa Renda” subsidia o consumo dos mais carentes. Na Paraíba, a principal distribuidora de energia possui cerca de um milhão e trezentos mil consumidores, dos quais, 48,6% são beneficiários do programa. Interessante notar que, enquanto o consumo residencial obteve um crescimento de 10,13% entre 2013/14, o consumo industrial caiu 1,14%, embora o comercial tenha crescido na mesma proporção. O consumo rural teve maior incremento no mesmo período. A queda do consumo industrial, segundo apurei, não é reflexo da ausência de crescimento ou diminuição da produção, mas, apenas, da compra da energia diretamente a outras fontes.

    Contemplando a imensidão de Itaipú, meu pensamento viajou para Borborema e para obra pioneira de José Amâncio Ramalho que, nos idos de 1920 inaugurou uma hidrelétrica e distribuiu energia para cinco cidades. Equivocado ou mal informado, cheguei a escrever que essa fora a primeira usina de energia hidráulica do nordeste e que teria nascido em 1910. Ledo engano. Zé Amâncio, como era conhecido, pai do General que é nome de rua e de hospital, foi colega de turma de outro Zé, o Américo, na Faculdade de Direito do Recife em 1908. Adquiriu terras na então Boa Vista, depois Camucá e hoje Borborema, a partir de 1912. Não dava para em 1910 já estar inaugurando uma hidrelétrica. A usina de Borborema é a terceira do continente. Marcelo Cerqueira me tirou a dúvida.

    Na verdade, a primeira hidrelétrica da América do Sul foi a Usina de Marmelos, em Juiz de Fora, Minas, que data de 1898, construída por Bernardo Mascarenhas. A segunda, é obra de Delmiro Gouveia, de 1913, e foi o alicerce para Paulo Afonso e a CHESF. Como o paraibano, o cearense Delmiro foi também pioneiro na área industrial e ousou concorrer com as famosas Linhas Correntes, de fabricação inglesa. Com a morte de Delmiro seus herdeiros foram sufocados pelo competidor estrangeiro e terminaram vendendo a fabrica de Linhas Estrela. Os ingleses que a compraram destruíram a fabrica e jogaram as maquinas nas águas do Velho Chico. Voltaram a monopolizar o mercado.

    Na mesma época, Zé Amâncio instalou uma indústria de fécula de mandioca e uma beneficiadora de arroz. Era também Senhor de Engenho. Produzia rapadura. Seu engenho, ainda me lembro, ficava vizinho à casa de máquinas da produção de energia. Quando menino, esperava a sirene da fecularia tocar para correr à estação e esperar o trem. Era sinal de que ele passara pela frente da indústria de fécula.

    Bananeiras, Solânea, (Moreno), Pilões, Serraria, Vila Maia e Dona Ines recebiam energia da Empresa Hidrelétrica de Borborema. Lembro seu mais ruidoso servidor: Julio Nicolau Abreu. No inverno, era encarregado de correr a linha de energia e verificar os estragos provocados pela chuva. No caminho, em cada bodega, tomava uma de cachaça, para ajudar a chegar ao seu destino. No final da linha telefonava para o patrão. Com a cabeça anuviada e a língua grossa, esquecia até o tratamento de Doutor e gritava de lá:

    - Zé Amanço, tá tudo in orde nas linha. Nun caiu nem um postinho!

    - Você já está embriagado, Julio? Indagava Zé Amâncio. Julio negava, mas Zé Amâncio insistia severo:

    - Tá bêbado sim. Tou sentindo a catinga pelo telefone...


  • 08/06/2015

    Histórias da minha mãe


     Passou o dia das mães e não ouvi o apelo comercial. Deixei passar em branco, até por que, sempre dizia à minha: dia da mães é todo dia.Mas como tive inveja de quem, naquele dia, estava batendo perna pelas lojas em busca de uma lembrancinha para sua mãe. Meu vizinho aqui do lado, Carlos Pereira, não esqueceu de escrever sobre a data. Hoje me bateu uma saudade danada e resolvi lembrar algumas historias da minha mãe. Aliás, só depois que ela se foi, fiquei definitivamente velho: não tenho mais quem me chame de menino...

    Na solenidade de comemoração dos cem anos de nascimento de Aloísio Campos, me lembrei dela quando contaram a história do incidente que o envolveu e resultou na perda da sua visão pelo olho direito. Aloísio tinha um olho de vidro que olhava constantemente para a direita e para o alto. Na sua segunda candidatura ao Senado, tinha Clovis Bezerra como primeiro suplente de sua chapa. Foi informado que eu poderia não votar nele, pois à época era adversário de Clovis. Partiu para Bananeiras em busca do meu apoio. Não me encontrando em casa, pediu papel e lápis à minha mãe e escreveu um bilhete pedindo minha solidariedade à sua candidatura, que aliás, eu nunca negara. Minha mãe nunca tinha visto Aloísio e nem sabia que ele tinha um olho de vidro. Me entregou o bilhete, mas comentou:

    - Meu filho, parece que aquele homem é doido... Enquanto escrevia, ao invés de olhar para o papel, ele olhava era prá  mim....

    Na minha casa eu tinha uma farmácia improvisada para atender aos carentes e, duas irmãs médicas, receitavam os eleitores. Minha mãe ficava em casa e assistia às consultas, muitas vezes se aventurando a passar alguns remédios mais simples. Chicão, morador de suas terras lá em Poço Escuro, chegou dizendo que sua mulher Jandira estava enferma: uma dor de barriga que não passava nunca. Mamãe vasculhou a farmácia e lhe deu uma caixa com três supositórios de glicerina e indagou:

    - Você sabe aplicar Chicão? Sei simsinhora! Respondeu e foi embora. Uma semana depois retorna Chicão, e minha mãe indaga se Jandira tomou os remédios e melhorou.

    - Os cumprimido que a sinhora deu, foi um milagre. Tá boinha. O primeiro, ela ainda ripunou um pouco, mas do segundo em diante, ela engoliu faci, faci... (Soube há poucos dias que Chicão faleceu, depois de muitos anos conservado no álcool...)

    Quem chegasse na casa da minha mãe em Bananeiras ia logo entrando. A porta da frente nem trinco tinha, desmantelado pelo uso constante. Se fosse no período da tarde, encontraria minha mãe deitada em um sofá, de frente à TV que ela pouco via. Adormecia ligeiro. Uma amiga da zona rural foi entrando e perguntando:

    - Tá doente dona Eurides? Ela respondeu que era apenas uma pequena dor de cabeça. A visitante não se fez de rogada e indicou um santo remédio:

    - Oi dona Eurides, eu tava assim e me deram uma pilinha, uma pilinha bem pequenininha, chamada cum pri mi do. Foi tomar e ficar boa na hora...

    Eu iria longe contando mais histórias. Encerro com a visita que lhe fez Antonio Mariz, levando Ulisses Guimarães à tiracolo. Ao sentar na sala de dona Eurídice, Ulisses apoiou-se no braço da poltrona e este caiu com grande estardalhaço. Vendo a aflição de minha mãe, o velho Ulisses foi em seu socorro:

    - Se preocupe não, madame...Casa de político é assim mesmo!


  • 22/05/2015

    Edme e a abertura


     Quando Tarcísio Burity foi ungido governador da Paraíba recebeu a incumbência de começar um processo de abertura política. Uma das recomendações era mesclar o secretariado com detentores de mandatos visando aproximar o governo dos políticos. Aproximar os políticos do governo, já era um vício natural e incorrigível... Naquela época, a Paraíba era, quase toda, entregue a ex-seminaristas, ocupantes dos mais diversas postos de comando. Agora, a categoria atingia o ápice, com a chegada do quase -padre Burity à cadeira de governador. Para atender aos ditames de Brasília, o deputado Edme Tavares, contemporâneo de Burity no seminário, foi nomeado Secretario de Ação Social e, em conseqüência, na qualidade de primeiro suplente, assumi a sua vaga na Assembléia.

    O parlamentar de Cajazeiras vinha da ala agripinista e se elegera em 1970. Já o encontrei lépido e atuante em 1974 quando chequei àquela Casa, eleito pela ARENA, o maior partido do ocidente, segundo seu presidente, Francelino Pereira, um mineiro nascido no Piauí. Foi justamente a escolha de Burity que prejudicou a minha reeleição em 1978. Filiei-me à corrente que defendia a ascensão de Antonio Mariz ao governo, mesmo pela via indireta, e fomos às ultimas conseqüências, ou seja, à disputa na convenção, contrariando a ordem emanada dos quartéis, ainda fortíssima até então. A rebeldia me custou o mandato. Me colocar de volta à Assembléia sem ter sido eleito era uma prova de dupla boa vontade: do regime, que acenava aos políticos e os introduzia no governo ( a nomeação de Edme) e de Burity, que desejava pacificar a Paraíba, trazendo para seu guarda -chuva os que lutaram contra sua escolha. Voltei.
    Era a segunda vez que Edme Tavares entrava na minha história. Acompanhando João Agripino em campanha, nos idos de 1965, quando me afastei para fazer prova na Faculdade de Direito, Edme me substituiu na missão. Eleito governador, Agripino nomeia Edme Sub-chefe da Casa Civil e me manda nomear Oficial de Gabinete. Recusei a oferta, pois já vinha nessa função desde o tempo de Pedro Gondim. Queria uma promoção. Fiquei sem nada. João achou que eu queria muito para o meu tamanho. Edme ficou no governo e dali saiu com um mandato de deputado estadual. Seu exemplo seria seguido por mim, quatro anos depois, quando entrei na Assembléia no bloco de Ernani Satyro, vindo da prefeitura de Dorgival Terceiro Neto. Comigo chegaram Manoel Gaudêncio, Evaldo Gonçalves, Chico Soares, Múcio Satyro, Nilo Feitosa e Sócrates Pedro. Edme já dava ordens na Casa.

    Dava ordens na Assembléia e no Governo. Seus municípios eram bem aquinhoados com obras e serviços. Ele não perdia tempo, e com essas obras construiu sua conquista maior: o mandato de Deputado Federal e, depois, de Constituinte. Quando o cenário político mudou e a forma de angariar votos passou a ser mais dinheiro que trabalho, foi excluído do processo e ficou sem mandato. Permaneceu em Brasília onde exerceu alguns cargos a nível federal e, depois, passou a se dedicar à advocacia, reencontrando suas origens.

    Semana passada Edme Tavares nos deixou. Com ele, um exemplo de homem público inteiro e sem máculas. Não estive presente às ultimas homenagens que lhe prestaram na terra dos tabajaras. Mas senti muito, e sofro cada vez que um pedaço da nossa geração se vai. Um pouco de mim também se foi.


  • 19/05/2015

    A fidelidade do eleitor


     Iniciei minha vida pública como vereador em Borborema, aos 18 anos. Desde que comecei a ter noção das coisas, porém, já se respirava política na minha casa. Aprendi e não esqueci até hoje o jingle de Argemiro de Figueiredo para governador, “com Renato (Ribeiro) seu maior batalhador” e que concluía: “ Zé de Almeida, o seu bonde vai errado sim senhor!”. A música ficou nos meus ouvidos e o barulho da derrota dos candidatos do meu pai, na velha UDN, também. José Américo foi o governador eleito em 1950.

    Acompanhando as campanhas políticas, guardei lembrança de alguns eleitores que se mantinham fieis ao seu candidato e, fizesse chuva ou sol, no dia da eleição, cumpriam seu dever cívico, e de fidelidade. Havia exceções.

    Severino “Doido” foi a exceção mais expressiva.Era famoso em função das carraspanas que tomava e dos discursos que pronunciava em praça pública. Meu pai o protegia e sustentava durante quatro anos, na esperança de que, no dia da eleição estivesse sóbrio para dar seu voto. Quando estava em Borborema ficava hospedado em uma dependência da casa dos meus pais, e raramente voltava a Moreno para visitar seus familiares. Diferente de outros bêbados de rua, quando chegava ao auge do porre, ao invés de ser levado para a cadeia, era rebocado para o quartinho dos fundos da casa de seu Arlindo. Quatro anos de cuidados não bastavam. No dia da eleição, ninguém sabe como, se embriagava e não votava. Tempo perdido - reclamava meu pai.

    A compensação era Luiz Santana, melhor dizendo compadre Luiz Santana, ferroviário e amigo fiel de meu pai. Ele era o termômetro do resultado eleitoral. Luiz Santana chegou para votar? Era a pergunta. Se chegou, era sinal de vitória. Servia como pesquisa. Transferido de Borborema para outras estações do trem, chegava na véspera da eleição. Ouvi dizer, certa feita, que ele estava vindo de Mossoró, e utilizara vários transportes para atender àquele chamado, não da lei, mas do seu compadre.
    Na campanha de 1960, Borborema realizou sua primeira eleição na condição de cidade. Meu pai candidato a prefeito, Pedro Gondim a governador e Jânio Quadros a presidente. Era essa a chapa de Luiz Santana, a esta altura, morando na Ilha do Bispo, em João Pessoa, mas com domicilio eleitoral em Borborema, pois “não posso largar compadre Arlindo”. A eleição de prefeito foi apurada em 24 horas, mas a de governador, ainda demorou alguns dias. Voltei à Capital para retomar minhas aulas no Liceu, e foi aqui que comemorei a vitória de Pedro Gondim, com quem trabalharia mais tarde.

    Como estudante, morava na casa do meus avós, e fui para a rua acompanhar uma passeata que vinha da Ilha do Bispo juntar-se às comemorações da vitória de Pedro, no Ponto Cem Reis. A multidão, com bandeiras e fotografias pregadas em pequenas varetas, gritava a uma só voz: O homem é Pedro, o homem é Pedro! No meio daquele gente, avistei um dissidente. Seu grito divergia dos demais: “Viva Compadre Arlindo, Viva Compadre Arlindo” e agitava a fotografia de meu pai pregada em um cabo de vassoura. Era Luiz Santana, o ferroviário, comemorando a vitoria do seu compadre para prefeito de Borborema.

    Esses exemplos de fidelidade do eleitor ao candidato desapareceram do cenário político. Antes, desapareceu a fidelidade do eleito ao seu representado. Eis a razão!


  • 11/05/2015

    A corrupção do eleitor


     Publiquei recentemente uma coletânea de autoria do meu filho Flávio, falecido há um ano, contendo temas eleitorais vistos sob o ângulo do eleitor, do candidato e da Justiça. Ao livro dei o título de “Polêmicas Eleitorais”. Em busca de assunto para a coluna de hoje, sentei-me para escrever sobre a fidelidade de certos eleitores ao seu candidato, e escolhi um deles. Ele andava pelo nordeste inteiro acompanhando as linhas do trem, por ser ferroviário, mas na véspera da eleição chegava em Borborema para votar no meu pai para vereador e depois para prefeito. Vou deixar a sua história para outra oportunidade. Ao abrir o livro de Flávio deparei-me com o título “Vender o Voto Também è Corrupção Eleitoral” e resolvi apreciar o seu escrito e o outro lado da moeda – o eleitor que vende o seu voto ou troca, como se mercadoria fosse.

    O autor começa por demonstrar que “a conduta de vender voto, no Brasil, está inserida na cultura popular. Se ainda hoje existem candidatos comprando votos é porque existem milhares de eleitores vendendo seus votos, sempre amparados na certeza da impunidade, da ineficiência da estrutura governamental encarregada de aplicar as devidas punições, na expectativa da “delação premiada”, ou no frágil argumento do “estado de necessidade” de quem recebe pequenas doações em troca do voto.” Na realidade a lei prevê a conduta ilícita ao se referir a “solicitar para sí ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem” como se pode ler no nosso Código Eleitoral vigente. E a pena é de reclusão de até quatro anos, além de multa.

    Não se conhece, porém, nenhum eleitor condenado por exigir ou receber algum bem em troca do voto. Quando um juiz resolve cumprir a lei e prender eleitores, é considerado exagerado e/ou excêntrico. Eleitores que se prestam a testemunhar em Ações de Impugnação de Mandado Eletivo ou de Investigação Eleitoral confessam que foram cooptados mediante oferta, receberam, votaram como lhe mandaram, às vezes prestam falso testemunho e saem da audiência palitando os dentes. Nada lhes acontece.

    Constata Flávio, vivido no cenário dos candidatos- a Assembleia Legislativa, e no seio da Justiça, como servidor judiciário, que “Atualmente é inegável que a Justiça Eleitoral pune muitos candidatos que cometem esse tipo de ilícito, mas deixa de punir os eleitores também corruptos”. Eu só vivi um lado dessa questão: o de candidato. Como tal, recebi os pedidos

    mais esdrúxulos de eleitores. Uma jovem senhora, por exemplo, queria que eu lhe conseguisse um emprego urgente. Tinha recebido um presente do amante e não podia usá-lo sem despertar suspeitas do marido. A renda do emprego camuflaria seu pecado.

    A ausência de punição do eleitor vem acompanhada da excludente de criminalidade que faz par com a legítima defesa: o estado de necessidade. A carência do eleitor fala mais alto aos ouvidos da Justiça que, no caso da venda do voto, permanece com a venda nos olhos, perdoem o trocadilho.

    Outro aspecto que merece destaque é a investigação eleitoral focada quase que, exclusivamente, em quem ganhou a eleição. As testemunhas arroladas são direcionadas a cassar o diploma do empossado. As ações contra os que perdem a eleição ficam esquecidas nos escaninhos dos tribunais, “como se vencer o pleito, por si só, já fosse uma infração eleitoral”. O sem número de ações que surgem durante e, principalmente, após o pleito contestando seu resultado, ameaçam transformar a Justiça Eleitoral na antiga “Comissão de Verificação de Poderes como existia na época da República Velha, e dessa forma avalizando uma equivocada e preocupante transferência de poder, por via judicial, aos candidatos que foram rejeitados nas urnas, como se santificados fossem pela derrota, apesar de todos saberem que os candidatos derrotados também usaram e abusaram dos mesmos ilícitos eleitorais que costumam denunciar, num verdadeiro e incontestável exercício da hipocrisia”, destaca Flávio Ramalho.

    Eis um pequeno retalho do Brasil de hoje, de ontem e de sempre que nos levam cada dia aos escândalos do financiamento ilegal de campanha. Os eleitores são insaciáveis...

     

     


  • 27/04/2015

    Os santos do Povo


     Há poucos dias ganharam manchetes nos jornais e sítios da internet, a notícia de que o ex-Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Câmara, poderia virar Santo. O Vaticano, segundo o informe, teria dado sinal verde ao prosseguimento do feito na Congregação da Causa dos Santos. Por essa decisão, o pequeno-grande Helder já pode ser considerado Servo de Deus. É o primeiro passo.

    Fiquei surpreso por que tão rapidamente o Vaticano concedeu o Nihil Obstat a Dom Helder, quando o processo de canonização do padre Ibiapina tramita há mais de vinte anos, sem a nomeação de, pelo menos, um “advogado do diabo”, para a formalização da instrução e da conclusiva investigação de suas virtudes. Igualmente reconhecido Servo de Deus, Ibiapina abraçou o sacerdócio a partir dos 47 anos de idade. Antes foi magistrado, chefe de polícia, deputado e advogado dos pobres e oprimidos.Desencantado com a vida pública foi ordenado padre sem passar pelo Seminário.Conhecia Direito Canônico mais do que ninguém, e logo tornou-se professor do Seminário de Olinda.

    Avançado no tempo, Ibiapina fez a opção pelos pobres ainda no Século XIX, quando a nossa Igreja, só depois do Vaticano II, adotou a Teologia da Libertação. Construtor de igrejas, capelas e cemitérios, era também inconformado com a seca e sua conseqüente miséria. Construiu açudes e barreiros para matar a sede dos sertanejos. As Casas de Caridade, erigidas em 22 cidades desse imenso nordeste, serviram para morada de órfãos e educação dos que não possuíam outros meios de encontrá-la. Precisa de pelo menos dois milagres para ser venerado como Santo.

    No Brasil, não temos ainda um santo nacional, apesar dos muitos batizados pelo povo: Ibiapina, Antonio Conselheiro, Padre Cícero e o brasileirado Frei Damião de Bozzano, italiano de nascimento.Os dois últimos, de história mais recente e ainda viva na lembrança dos nordestinos.

    O padre José Comblin, que repousa ao lado de Ibiapina, em Santa Fé, Solânea, estranhava a ausência de um santo brasileiro, declarando: “ aqui no Brasil venera-se São João Maria Vianney, o cura de Ars, como modelo dos sacerdotes. Ora, há uma distância infinita entre o cura de Ars e a história dos sacerdotes no Brasil. A figura de São João Maria Vianney é totalmente inimitável: alguém que foi vigá¬rio de uma paróquia de 228 habitantes, cujo maior problema pastoral foi a existência de duas bodegas no território da paróquia — flagelo que conseguiu eliminar depois de anos de insistência. Os desafios dos padres no Brasil são outros” .

    O desafio de Antonio Conselheiro por exemplo, era fazer de Canudos “uma comunidade igualitária sob o amparo de Deus”. Instalou na sua cidadela uma economia auto-sustentável onde ninguém passaria fome. A República nascente atacou seu projeto e fez milhares de vitimas em uma guerra quase santa.Triste memória.
    Alguns historiadores afirmam que Conselheiro e Padre Cícero foram influenciados por Ibiapina, cada qual com sua história mas no mesmo cenário resultante da estiagem do semi-árido: a pobreza, as doenças e a fome.

    Enquanto o Vaticano não canoniza um brasileiro, (João Paulo II, beatificou 1.340 pessoas até 2004) nosso povo já consagrou Padre Cícero, Antonio Conselheiro, Frei Damião e Padre Ibiapina como Santos do Povo, e repetirá até o final dos séculos, a saudação ibiapiniana: “Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo”


  • 20/04/2015

    De Bananeiras a Barbacena


     Chegou às minhas mãos um exemplar de “Conegundes, operário da liberdade e da cidadania” publicado sob os auspícios da Fundação Ulisses Guimarães, e que trata da trajetória política do bananeirense Manoel Conegundes da Silva, que pelos idos de 1950 largou o Colégio Pio XI em Campina Grande e partiu para as Minas Gerais onde terminou o colegial e graduou-se em matemática. Imiscuiu-se na política estudantil e recebeu do seu colega Sebastião Nery esse depoimento: “...de 1952 a 1954, na Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte, se tivéssemos feito uma eleição para escolher o bom, o melhor entre nós, ninguém ganharia dele.Tinha uma cabeça, uma vocação, um amadurecimento político surpreendente”.

    Conegundes, ao sair de Bananeiras, onde nascera em 1930, deixou a cidade dominada pelos Rocha, herdeiros de Estevam José da Rocha - O Barão de Araruna, que depois acolheram os Bezerra Cavalcanti em seu seio e passaram a dominar a cidade. Na Constituinte de 1934 o representante de Bananeiras era o coronel José Antonio da Rocha. Na de 1947, dois deputados constituintes foram eleitos: Clovis Bezerra Cavalcanti e Pedro de Almeida, este casado com uma Rocha. Sem esquecer o pedaço que pertencia aos Coutinho e aos Lucena, que no frigir dos ovos, mesmo desunidos politicamente, formavam um mesmo bloco familiar. Havia até um ditado popular: “aqui, quem não é Coutinho, é coitado; quem não é Cavalcanti é cavalgado; quem não é Bezerra é boi!” Eram rapadura do mesmo tacho...

    O movimento militar de 1964 já encontrou Conegundes professor de matemática da Escola Preparatória de Cadetes do Ar em Barbacena, cidade dominada desde seus primórdios por duas famílias, Bias Fortes e Andradas, os últimos, descendentes do Patriarca da Independência. Eles se revezavam no comando da política local e deram até governadores a Minas. A vez de um Andrada, contudo, na Presidência da República, dentro do esquema “café com leite”, foi tolhida pela Revolução de 30. Nesse clima de acirrada disputa foram arrancar Conegundes da sua cátedra para organizar o MDB na região e enfrentar as duas famílias, agora sob o manto do mesmo partido, a ARENA, utilizando-se do artifício da sub-legenda. Para enfrentar esse poderio econômico e político, Conegundes se valeu das regras impostas pelo regime e iniciou sua participação na política.

    Seria alvo de perseguição e prisões. Em uma delas, seu “carcereiro” mandou que ditasse o que quisesse para o escrivão e fosse para casa. A decisão do delegado não foi acatada pelo Comandante da PM local, e junto a outras autoridades de Barbacena, foi levado para o Quartel do Exército.O ex-governador Bias Fortes ligou para o general Mourão Filho e reclamou que “em Barbacena só vão presos os amigos de Bias Fortes”. Em função dos companheiros de cárcere, Conegundes recebeu alvará de soltura e seu nome começou a ganhar as ruas e a simpatia dos mineiros.

    A partir de 1970 Conegundes participou de todas as eleições, sendo o mais votado para deputado estadual em Barbacena, derrotando os maiorais da terra, mas não logrando a conquista do mandato.Essa vitória ocorreria em dose dupla,em 1982, com a sua eleição para deputado e a conquista da prefeitura local por um seu correligionário e companheiro dos revezes anteriores.O cenário político de Barbacena e a história de Conegundes ao enfrentar oligarquias fortes política e economicamente, em muito se assemelham com a que travei na sua cidade natal. Se Conegundes tivesse exercitado seus predicados em Bananeiras, talvez eu tivesse lhe cedido o espaço que conquistei a duras penas. Mas ele preferiu a Serra da Mantiqueira e se tornou “um paraibano que orgulha Minas Gerais”, para repetir Sebastião Nery, e a Paraíba também, acrescento eu.


  • 12/04/2015

    Amantes dos poderosos


     Em algumas sociedades mais exigentes, a descoberta de uma relação extraconjugal de  detentor de cargo público eleito ou nomeado, resulta no repúdio do eleitorado, quando não,  na renúncia ao mandato ou ao cargo. Outras mais tolerantes, tratam o assunto como  privado,  merecendo confidencialidade. A natureza machista do brasileiro, porém, costuma colocar-se ao lado homem, e tem até quem ache que a mulher deveria pedir desculpa por ter sido traída... 

    Não iniciei este assunto para emitir conceitos morais, mas para revelar passagens da nossa história, envolvendo homens públicos que foram líderes em sua época e deixaram famosas também as mulheres que passaram por suas alcovas. 

    Dei uma rápida olhada no passado e  encontrarei nosso  Imperador Pedro I concedendo títulos nobiliárquicos a Domitila de Castro Couto, que terminou Marquesa de Santos, pelos relevantes serviços prestados à recém nascida Pátria Brasileira, na intimidade do Império. Foi a mais famosa das amantes nacionais, com direito até a registro nos livros escolares. Pedro II não desmereceu o pai. Transformou Margarida Luisa de Barros, preceptora de sua filha Isabel, em amante.  Baiana de Santo Amaro da Purificação, essa conterrânea de Caetano Veloso foi feita Condessa de Barral e morreria em Paris sob as graças do Rei Luis Felipe I.  

    Na República os registros são mais discretos e foram tornados públicos após a morte do personagem famoso. Uma ação da VAR-Palmares, organização integrada pela atual presidente Dilma Rouseff (Estela) e seu companheiro de então, resultou no “sequestro” do cofre de Adhemar de Barros, governador de São Paulo duas vezes e candidato eterno à Presidência da República. O cofre, que rendeu  mais de dois milhões de dólares aos guerrilheiros de Lamarca, estava sob a guarda da família de Ana Guimol, famosa amante de Adhemar, por este chamada de Dr. Rui.”Pois não, dr. Rui...” - era assim que ele atendia a seus telefonemas quando cercado por outras pessoas. Era um segredo de Polichinelo, pois somente dona Leonor, sua esposa, não sabia. 

    Getúlio Vargas, quando se dizia “um homem no declínio da vida...banhado por um raio de sol”, estava rememorando os instantes passados nos braços de sua amada, para ele “um momento sentimental de transbordante alegria”. Passou a chama-se Aimée Lopes, depois que casou com o Oficial de Gabinete do Presidente, mas desde o tempo de noivado, desfrutava as horas furtivas que Getúlio conseguia, graças à ajuda de Iêdo Fiuza, então diretor do DNER e ex-prefeito de Petrópolis, conhecedor de todas as garçonieres do Rio, ainda não servido de motéis. 

    Reconhecido nos serviços prestados à causa, Luiz Simões Lopes, o marido traído, foi nomeado primeiro diretor do DASP, o embrião do Ministério da Administração. Desfeito seu casamento, Aimée abandonou também o amante e casou nos Estados Unidos, onde foi destacada por uma revista especializada como uma das três mulheres mais belas e elegantes do mundo. Foi o que Getúlio perdeu, e inconformado confessa no seu Diário: “Vou a uma visita galante. Saio um tanto decepcionado. Não tem o encanto das anteriores. Foi-se o meu amor, nada se lhe pode aproximar”. A Vedete do Brasil, Virginia Lane,  que ganhou fama mostrando as belas pernas no palco, foi  a sucessora de Aimée, sem, no entanto, acalmar o coração do gaúcho. 

    Um dos  presidentes mais queridos do Brasil, o construtor de Brasília, Juscelino Kubitschek, quando vitimado por um acidente voltava de um encontro com a amada Maria Lúcia Pedroso. Conhecido como um homem galanteador, famoso pé–de-valsa, dele contavam muitas histórias. Atrizes de renome costumavam acompanhá-lo em suas inspeções ao canteiro de obras de Brasília. O “Catetinho” deve ter muita história para contar. Eu teria também muitas outras, mas o espaço que me dão, é pequeno. Morram de curiosidade, mas não contarei nada sobre aquele general presidente!


  • 09/04/2015

    A democracia e a síndrome de Alice


     “Democracia não é apenas o Governo do Povo, ou o povo no poder, mas sim o governo da

    maioria, porque nunca se chegará a um consenso sobre o melhor caminho a ser seguido. O homem nasceu para pensar e por isso tudo contesta e opina, sendo necessário dividir a

    sociedade em correntes filosóficas, partidárias e políticas diversas, sempre buscando-

    se um consenso médio e razoável, que definirá o destino do governo e o desenvolvimento

    de uma sociedade.

     

    Por isso a democracia precisa de partidos, sindicatos, federações, associações e coisas

    desse tipo, para buscar o entendimento entre as diversas correntes e opiniões na

    sociedade, em busca do bem estar para a população que nela vive.

     

    Podemos até votar nulo, mas não podemos deixar de sempre avaliar os candidatos a cargos

    públicos, em busca das melhores propostas e histórico na carreira política ou

    profissional. Na minha ótica, a omissão não é o simples ato de votar nulo, mas sim o

    fato de não avaliar os candidatos, ou não participar dos debates, por achar que todos

    são iguais ou que estaríamos perdendo tempo. Nessa última postura é que está a omissão.

     

    E se votar nulo é um direito de protesto, apesar de contestável por muitos, viajar ou

    ir à praia e não votar é pura burrice. Em pleno século 21, com a informação on line ao

    alcance de todos, em que milhares de pessoas lutam e morrem pelo direito de votar e

    escolher seus próprios líderes, como ocorreu recentemente no Egito e na Síria, deixar de votar é fechar os olhos e ouvidos se deixar levar pela Síndrome de Alice, aquela que vivia no País das Maravilhas.

     

    Daí porquê, sustento que a exclusão de milhares de servidores públicos da vida e dos debates partidários, por força de uma dispositivo legal incluído no Código Eleitoral (art. 366)

    no tempo da ditadura militar e que não foi recepcionado pela atual Constituição

    Federal, transforma o colaborador da Justiça Eleitoral em meio cidadão, impossibilitado

    de participar diretamente das discussões da própria categoria no Congresso Nacional ou

    nos ambientes políticos, sempre a depender da opinião ou vontade de outros

    representantes, que não conhecem a nossa realidade.

     

    Pergunte a um servidor da Justiça Eleitoral se ele não se sente constrangido em assistir

    um comício de campanha eleitoral de qualquer candidato. Na visão de muitos é terreno

    proibido para todos os colegas.

     

    Se um servidor da Justiça Eleitoral for a um comício de determinado partido é porque já

    escolheu os seus candidatos,por isso suspeito em todos os seus atos a partir de então.

    Se for ao comício de outros partidos, certamente estará fiscalizando possíveis excessos

    na propaganda eleitoral, e daí será um persona non grata, podendo até ser expulso do

    ambiente, caso identificado.

     

    Digam se não estou com a razão os colegas dos cartórios eleitorais?

     

    O simples ato de assistir a um comício não passa de direito à informação, inerente a

    todo cidadão, oportunidade em que poderá ouvir sobre as propostas de governo dos

    candidatos e partidos.

     

    Como votar sem ouvir as propostas e promessas políticas, ouvindo apenas o maquiado guia

    eleitoral, que fala sempre de um país das maravilhas, onde tudo funciona bem e nada

    precisa melhorar.

     

    Ou seja, não é pecado nem crime prometer uma obra pública ou uma escola para

    determinado município. O que a legislação eleitoral proíbe é que a promessa seja feita

    diretamente ao eleitor, como forma de suborná-lo com a doação de brindes, dinheiro,

    emprego ou benesses em troca de votos, porque isso caracteriza abuso de poder

    econômico, desequilibrando o pleito eleitoral em benefício do candidato que assim atua.

     

    Por outro lado, excluir da vida e dos debates democráticos e partidários milhares de

    servidores da Justiça Eleitoral é excluir das principais decisões de Governo pessoas

    esclarecidas, que muito poderiam contribuir para o desenvolvimento do nosso país, não só

    como servidor público” (FLÁVIO RAMALHO).

     

    O texto acima, está incluído no livro POLÊMICAS ELEITORAIS, a ser lançado neste mes de abril , contendo temas de direito eleitoral, administrativo e constitucional escritos pelo meu saudoso filho Flávio.


  • 30/03/2015

    Os ‘suicídios‘ de Getúlio


     Tenho escrito sobre fatos históricos e figuras públicas que já se foram. É uma maneira prática de passar incólume pela reprovação dos pretensos ofendidos. Os mortos não pedem direito de resposta. Quando o personagem se chama Getúlio Vargas, cresce meu entusiasmo e tenho certeza, desperto a curiosidade dos meus poucos leitores, porque esse gaúcho de São Borja, depois de vinte anos governando o Brasil, deu tudo de si aos brasileiros e encerrou seu ciclo de poder com essa frase emblemática: “ Nada mais vos posso dar, a não ser o meu sangue”.

    Antes de chegar a 1954, os arquivos de Vargas gravaram vários episódios em que expressara claramente sua vontade de por fim à vida, como forma de perpetuar o nome e lavar com seu sangue a honra ultrajada.Os fatos, até então, lhe favoreceram para que não cumprisse as ameaças. O desfecho final resultou de obstáculo intransponível colocado à sua frente. “A possibilidade de sacrificio pessoal era relacionada a uma questão de brio, de preservação da honra,de um sentido heroico de posteridade”, como define Lira Neto, seu mais recente biógrafo.

    Já em 1930, quando eclodiu o movimento revolucionário que o levou ao Poder, escreveu no seu diário: “Começo os preparativos a fim de seguir para o teatro das operações, na Paraná.Desejo fazê-lo, porque esse é o meu dever, decidido a não regressar vivo ao Rio Grande, se não for vencedor”. Venceu e se tornou Presidente da República. Dois anos depois, a Revolução Constitucionalista de São Paulo colocava Getúlio em situação de resistência extrema e ele prepara uma nova despedida: “Reservava para mim o direito de morrer como soldado, combatendo a causa que abraçara. A ignominia duma revolução branca não m´o permitiu.Escolho a única solução digna para nao cair em desonra, nem sair pelo ridículo”. Mais uma vez era o seu cadáver ofertado ao sacrifício.

    Os paulistas foram derrotados e Getúlio reforçara seus poderes. Foi um poderoso Getúlio Vargas que aderiu às Forças Aliadas e mandou os pracinhas para o cenário da Segunda Guerra. Mas antes, preveniu o sub-secretário de Estado americano que, “nessa decisão eu jogava a minha vida, porque não sobreviveria a um desastre para a minha pátria”.

    Os que pesquisam a vida de Vargas estranham que, quando de sua queda humilhante em 1945, não tenha cumprido as ameaças anteriores. Há quem afirme que, na sua sagacidade, ele avistava um horizonte favorável ao seu retorno. Chegara a dizer que a política se assemelha a um jogo de xadrez. “Por exemplo, eu sou uma pedra que foi movida da posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer onde me colocaram. É o grande erro deles.Nao sabem que vamos começar um novo jogo- e com todas as pedras de volta ao tabuleiro”.

    Após ser apeado do poder, recolheu-se à estância Santos Reis, propriedade dos Vargas. A partir de então, foi alvo de uma campanha difamatória enquanto seus amigos eram perseguidos e vítimas de uma “série de mesquinharias”. Na paz do seu berço natal, “no meio de gente simples que não sabe trair”, redigiu verdadeiro testamento político depois achado entre seus papeis. Em quatro páginas de papel pautado, escrito a lápis, deixou “declarações para conhecimento do povo brasileiro”, asseverando:Talvez, só com o meu sacrifício eu consiga remir os inocentes que estão sendo perseguidos e libertar-me das mesquinharias do governo de um títere togado influenciado por colaboradores odientos e covardes, muito inferiores à missão que se arrogaram” (Uma referência ao ministro José Linhares, presidente do Supremo e investido no cargo de Presidente da República).

    Getúlio voltaria ao poder nos braços do povo. Antes fora eleito senador e deputado por vários Estados. Perto de concluir o mandato presidencial, obtido através do voto direto e secreto que implantara, acossado por forças poderosas e empurrado por fatos comprometedores tramados à sua revelia, revolveu “sair da vida para entrar na história”. Era 24 de agosto de 1954


  • 25/03/2015

    "Boêmios cívicos" geraram a Petrobras


     Como eles trabalhavam até altas horas, “desvirginando a madrugada” como diria no futuro o nosso Gonzaquinha, Getúlio Vargas os apelidou de “boêmios cívicos”. Era a Assessoria Economica, capitaneada por Rômulo de Almeida e da qual faziam parte ainda o sociólogo Jesus Soares Pereira e o paraibano Cleanto de Paiva Leite, além de outros igualmente talentosos e que se demorariam ainda muito tempo servindo à Patria na área do desenvolvimento. Foi dessas cabeças pensantes, reunidas por Getúlio em quase sigilo, que surgiu o projeto de criação da Petrobrás, com esse acento agudo retirado mais tarde. “A Assessoria foi uma solução informal e muito imaginativa do presidente Getulio Vargas para escapar do cerco político ao qual ele tinha sido obrigado na escolha dos ministros”, conceituaria Cleanto de Paiva Leite.

    A Assessoria Econômica previa que o investimento da Petrobras alcançaria o triplo do gasto em Volta Redonda, esta, produto de negociação de Getulio com os americanos em troca da participação do Brasil na segunda guerra. A proposta original previa a criação de uma sociedade de economia mista, com a União proprietária de 51% das ações, e permitindo que o restante fosse composto pelo capital privado, com a concessão de 10% às mãos de estrangeiros. A UDN, partido em oposição ferrenha ao governo, sempre defendera essa participação do capital privado nas empresas estatais, mas diante do projeto de Getulio, passou a chamá-lo de entreguista e abraçou o monopólio estatal.

    Depois de mais de dois anos de discussões acirradas no Congresso, finalmente, a empresa foi criada, e reservado o monopólio ao estado brasileiro. A UDN, històricamente, se arvorou em “mãe do monopólio da Petrobras”, pois da sua bancada surgiu a formulação finalmente aprovada. O resultado, porém, nasceu da astúcia política de Getúlio, segundo conta o cearense Lira Neto, um dos principais biógrafos de Vargas.

    Lastreado em informação de Tancredo Neves, Lira conta que certo dia, Getulio mandou chamar alguns parlamentares ao Catete. Entre eles, o próprio Tancredo, o baiano Antonio Balbino e o gaúcho Brochado da Rocha. Getúlio lhes confessou que sempre fora favorável ao monopólio estatal do petróleo. Todavia, temendo que sua proposta fosse derrubada por mera pirraça da oposição, preferiu esperar que “algum parlamentar mais neutro propusesse uma emenda”. “A malícia do presidente era realista”, diz Tancredo. “Os parlamentares da Uniao Democratica Nacional passaram a apoiar a tese do monopólio estatal do petróleo”.

    Getúlio não poderia prevê, porém, que do final do século passado e antes de chegar à segunda década do seguinte, a empresa que criou para prospectar, refinar e comercializar petróleo, em terra, e em mar revolto, fosse atacada por um verdadeiro tsunami. Mãos inidônias que não se sujaram de óleo, foram contaminadas pelo virus da corrupção, sugando o produto mais valioso do povo brasileiro.

    Quem foi contaminado, está identificado e vai pagar pelos prejuízos causados à nossa maior empresa estatal. Os crimes apurados não podem, todavia, servir de motivo para a derrubada de um governo legitimamente constituído. Na democracia, quem manda é o voto. É pelo voto que o eleitor exerce sua cidadania, elegendo, ou derrubando quem elegeu.


  • 05/03/2015

    Minha ficha no SNI


     Tinha inicial e legalmente o objetivo de supervisionar e coordenar as atividades de informações e contra-informações no Brasil e no exterior. A criação do SNI absorveu outros serviços da mesma natureza mas terminou,ele próprio, depois de uma crescente atividade subterrânea, extinto ou transformado na vigente ABIN, originada do governo Fernando Henrique Cardoso.

    Os braços do SNI, qual um polvo gigantesco, fincou seus tentáculos em todas as regiões do País. Seus escritorios eram alimentados por informações repassadas por “cachorros” e “secretas”, agentes voluntários ou remunerados, assim chamados na gíria dos integrantes da própria instituição. A denominação de “cachorros” serve para aferir o “respeito” que conferiam aos seus colaboradores infiltrados em entidades publicas ou privadas, a serviço da denuncia muitas vezes caluniosa ou gratuita. Os “secretas” eram servidores do órgão, contratados não se sabe a que titulo, pois nunca se teve noticia de concurso para “agente secreto”. Eram, porém, treinados na Escola Nacional de Informações, e os melhores alunos aperfeiçoados no exterior, principalmente na escola da CIA americana.

    Para colher a informação que lhe interessava, o SNI se utilizava de grampos telefônicos, censura postal e investigações através de seus agentes. Dois chefes do SNI alcançaram a Presidencia da República no regime militar: Garrastazu Medici e João Figueiredo. A potencialidade eleitoral de ambos foi irresistível... A anistia ampla, geral e irrestrita pedida desde Ernesto Geysel, foi concedia sob a regencia de Figueiredo, aquele que gostava mais do cheiro de cavalo, que do cheiro de povo. As cassações de mandatos parlamentares, a aposentadoria de juizes, desembargadores ou ministros, eram sempre precedidas de amplo processo de instrução, fabricado pelo SNI. Nesse tempo, direito de defesa estava abolido...

    Pensei que, sendo eu um político bem comportado, nascido na UDN e tendo passado pela ARENA, fosse objeto de esquecimento do SNI. Qual o quê. A Comissao da Verdade me favoreceu com o conhecimento da minha ficha, onde se faz um JUIZO SINTÉTICO de minha vida pública e particular catalogado sob no.077/75.

    Começa com o registro da minha votação na legenda do PMDB e da lembrança de minha passagem pelo Partido Popular de Tancredo Neves, aqui capitaneado por Carneiro Arnaud e onde ingressei sob a liderança de Antonio Mariz. Censura meu comparecimento a um ato publico da Associação do Magistério, realizado em abril de 1981 no Ponto Cem Reis. A oradora principal era Cida Ramos, à época estudante universitária. Quanto à minha TENDÊNCIA IDEOLÓGICA, escreveram: democrata. ATITUDE QUANTO ÀS INSTITUIÇÕES VIGENTES: contrário; ATIVIDADES SUBVERSIVAS: Não registra antecedentes;PROBIDADE ADMINISTRATIVA: Não registra antecedentes; CONDUTA CIVIL: Inexistem registros desabonadores.

    Até que foram camaradas comigo. Outros tiveram menos sorte e foram vitimas até de idiossincrasias de vizinhos, transmitidos por “cachorros”.


  • 19/01/2015

    Paraibanos no TCU (2)


     Tendo a honra de ser lido pelo confrade Gonzaga Rodrigues que, inclusive, abandonou a máquina Olivetti, aderiu ao computador e descobriu também o email, recebi dele uma corrigenda da minha ultima coluna. Lembra ele que José Américo de Almeida não exerceu o mandato de deputado federal. Na verdade ele foi eleito deputado federal mas foi depurado. Naqueles idos os eleitos passavam por uma comissão de reconhecimento e sendo da oposição, mais fácil não serem reconhecidos. Foi o que aconteceu com a bancada paraibana da qual fazia parte José Américo. Vigorava a famosa degola.

    Tratei na ocasião dos paraibanos que exerceram o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União e que haviam passado pelo Senado Federal. A ordem de nomeação foi a seguinte: Cunha Pedrosa, Verniaud Wanderley, José Américo, João Agripino e daqui a pouco, Vital do Rego. Entre José Américo e João Agripino, o presidente Dutra nomearia seu ex-chefe da Casa Civil, José Pereira Lira. Nascido em Cruz do Espírito Santo, Pereira Lira tentou chegar ao Senado, sendo, porém, derrotado por Ruy Carneiro, no memorável pleito de 1950 que elegeu Américo governador em detrimento de Argemiro de Figueiredo. Pereira Lira foi deputado constituinte em 1934.

    Essa campanha (1950) mexeu com os paraibanos e jamais seria esquecida em virtude do comício da Praça da Bandeira, em Campina Grande, que terminou em tragédia com mortos e feridos. Um show de Luiz Gonzaga, que cantaria pela primeira vez “Paraíba, masculina, mulher macho, sim senhor”, teria sido patrocinado por Pereira Lira. Os lenços brancos de Zé Américo e os amarelos de Argemiro ostentavam o pescoço dos seus correligionários. Até em Bananeiras essa rivalidade chegou dividindo famílias e separando irmãos. Exemplo disso foi contado por Maurilio Almeida: dona Donana, sua avó, portanto sogra de Pedro de Almeida seu pai e candidato a deputado estadual, era irmã de Dona Dondon, avó de Clovis Bezerra, candidato dos amarelos. Certo dia, ao voltar da missa dominical, dona Donana avisou que não mais visitaria sua irmã Dondom, enquanto perdurasse a campanha política. E a razão foi explicada:

    - Ela não está nem um pouco resfriada mas usou um lenço amarelo para assoar o nariz, só para me afrontar...

    Mas voltando ao TCU. Sua presidência acaba de ser ocupada pelo ex-deputado Aroldo Cedraz, que conheci na Câmara dos Deputados e depois fui ao seu encontro no interior da Bahia, quando exercia a diretoria de credito rural do Banco do Nordeste. No domingo, em Salvador, enquanto aguardava a partida para Ourolândia, assisti pela TV o acidente que vitimou Airton Sena. Primeiro de maio de 1994.

    Em um pequeno avião chegamos a Ourolândia onde assinei contratos com uma cooperativa local beneficiando pequenos empreendedores, através do programa de Geração de Emprego e Renda do BNB. Dia de feira, uma multidão fora aguardar o deputado e o diretor do banco, no campo de pouso. Era ano de eleição e ele seria candidato em outubro daquele ano. Fosse nos dias de hoje, seríamos réus em uma investigação judicial eleitoral. Por menos do que isso estão transferindo para os tribunais os resultados das urnas.

    Na cidade de Jacobina, uma urbe cercada de serras que muito lembra Bananeiras, fui recepcionado com um almoço, onde lideranças politicas e empresarias da região de atuação do deputado fizeram questão de comparecer. Um friozinho de maio aumentou minha saudade do brejo. Será o meu estimado Aroldo Cedraz que vai dar posse ao paraibano Vital do Rego Filho.


  • 16/12/2014

    Paraibanos no TCU


     Poucos são os paraibanos que nos honraram com sua presença no Tribunal de Contas da União. Todos, sem exceção, antes de tomar assento naquela Corte de Contas, exerceram o mandato de Senador da República. O primeiro deles, Pedro da Cunha Pedrosa, mais conhecido como Cunha Pedrosa, foi advogado, promotor e juiz. Hoje, Cunha Pedrosa empresta seu nome para designar da mais alta comenda instituída pelo nosso Tribunal de Contas Estadual. Iniciado na vida partidária nos primórdios da República, sob a regência do nosso primeiro mandatário, Venâncio Neiva, com sua queda, enfrentou o ostracismo até o ano de 1902, quando retorna à política. Obteve mandado de deputado estadual e federal, sendo ainda secretario geral do Estado na gestão de Monsenhor Walfredo Leal. Natural de Umbuzeiro, como Epitácio, foi na sombra do crescente prestígio do chefe que chegou ao Senado. Senador de 1912 até 1923, deixa aquela casa para assumir o cargo de Ministro do Tribunal de Contas. Nesse mandato vitalício demorar-se-ia pouco. Acometido de grave enfermidade passou  apenas oito anos como ministro. Por obra e graça de Assis Chateaubriand que lhe cobiçava a cadeira de senador, Verniaud Wanderley, ex-prefeito de Campina Grande, abdicou do mandato senatorial juntamente com seu suplente, Pereira Diniz. Enquanto o titular ganhava o manto ministerial, seu suplente era contemplado, se não me engano, com um cartório no Rio de Janeiro. Todos alegres e satisfeitos, uma eleição suplementar  elegeu Chatô, em março de 1952, para a vaga paraibana aberta no Senado. Verniaud foi o nosso segundo homem no TCU. Ministro da Viação e Obras Públicas dos dois períodos de Getúlio Vargas na presidência do País, José Américo de Almeida, antes passou pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Governou a Paraíba e licenciou-se para assumir o ministério de Vargas. Era aposentado como ministro do TCU. Dos paraibanos que ocuparam cadeiras no TCU, somente José Américo de Almeida e João Agripino exerceram a governança do Estado. João Agripino foi o ultimo governador eleito diretamente, antes de iniciado o período de indicações militares chanceladas pelas assembleias legislativas transformadas em Colégio Eleitoral. Foi advogado e promotor. Eleito deputado constituinte em 1945, participou da elaboração da Carta de 1946. Em 1962 foi reeleito deputado e eleito senador. Optou pelo mandato mais longo, encerrado, porém, em 1966, quando assumiu o cargo de Governador da Paraíba. Depois de trabalhar na inciativa privada, foi nomeado em 1973 para o TCU, sendo seu presidente por dois anos. Em 1982 voltaria à Câmara dos Deputados. Meu companheiro do PDT de Chico Franca, Antonio Vital do Rego Filho, exerceu os mandatos de vereador, deputado estadual e federal. Fez um belo mandato de senador. Recebeu do seu partido as missões mais espinhosas e se desincumbiu a contento. Sempre fiel ao governo, não perdeu  a capacidade de dialogar com os contrários. Foi votado para o cargo de ministro do TCU por quase a unanimidade do Congresso Nacional. A oposição critica o critério de escolha, mas não lhe negou o voto consagrador. Vital do Rego tem luz suficiente para brilhar tanto quanto outros seus conterrâneos que estiveram no TCU antes dele. É a Paraíba representada, e muito bem. P.S.José PEREIRA LIRA foi deputado constituinte em 1934. Tentou chegar ao Senado em 1950,sendo derrotado por Ruy Carneiro.Ministro Chefe da Casa Civil no governo do Marechal Dutra, foi nomeado posteriormente para Ministro do Tribunal de Contas. Paraibano de Cruz do Espirito Santo, foi o único dos seus conterrâneos a ser ministro do TCU, sem antes passar pelo Senado.


  • 10/12/2014

    Sem vela na mão


     Antigamente só se morria de vela na mão. Eu tinha uns nove anos e passava em frente à casa do dr.José Amancio, o construtor da Vila de Camucá, na direção da casa dos meus avós que moravam duas casas adiante. Alguém veio até a porta da frente e gritou:

    - Tragam uma vela, dr.Zé Amancio tá morrendo!

    Eu sabia que minha vó Natália guardara no seu oratório, entre os santos de sua devoção, a vela que eu conduzira na minha primeira comunhão. Corri, peguei a vela, tirei os enfeites que enrolavam a cera branca e entreguei na casa do homem mais ilustre da terra. Com a minha vela nas mãos, ele ganhava luz para a sua ultima caminhada.

    Não é sem razão que a canção proclama: “quando eu morrer/não quero choro nem vela/quero uma fita amarela/gravado com o nome dela”...

    Meu saudoso amigo Orlando Almeida, que chegou a agredir um aparelho de televisão no Bar do Miúra, enraivecido com a crítica aos fumantes feita ao vivo e a cores por Boris Casoy, costumava dizer aos que reclamavam do seu vício:

    - Já avisei lá em casa, quando eu morrer, ao invés de vela, quero um cigarro aceso na minha mão.

    Nem quando estava hospitalizado em São Paulo, Orlando largou o cigarro. Proibido de fumar, conseguiu ser levado em uma cama sobre rodas até o quarto do seu companheiro de suplício, Ronaldo Cunha Lima, de quem era adversário, mas sempre se mantivera amigo. Ao chegar foi logo dizendo:

    - Não pense que venho apenas lhe visitar. Consegui fugir para fumar um cigarrinho. Sei que você também não larga esse companheiro. E fumaram juntos, colocando em dia as noticias da querida Campina.

    Depois que ninguém mais morre em casa, a vela caiu em desuso. E até nos velórios, dão um tempo para acender as velas. O de cujus ficara em balão de oxigênio, avisam, pode haver incêndio. Daí surgiram as velas elétricas com que as mortuárias cercam o ataúde.

    Pena que o filho de Orlando não tenha sido reeleito. Neto de Argemiro de Figueiredo e de Elpidio de Almeida, dois grandes da história política de Campina Grande, Guilherme Almeida fizera um bom mandato. Da descendência de Argemiro, resta com mandato Veneziano Vital do Rego pois o senador Vital está se despedindo para repetir outra historia. Vai seguir o exemplo de José Américo e João Agripino, e trocar a política pelo Tribunal de Contas da União. Ganha emprego vitalício e com muitos méritos para tal.

    Da descendência de Elpidio, filho de Silvia Almeida e de Cassio, foi eleito Pedro de Oliveira Cunha Lima. Interessante notar que desde a Republica Velha aos dias atuais, a política de Campina provém do mesmo tronco familiar. Mas isso é história a ser contada por Josué Silvestre.

    E eis que, quando pensavam que ele estava morto para a política, mesmo sem vela na mão, ressurge das cinzas, qual uma fênix, o senador Raimundo Lira, catapultado de volta ao Senado pela vaga decorrente da ascensão de Vital do Rego ao cargo de Ministro do TCU. Lira anunciou que só falará depois que o fato for consumado. Por certo vai repetir o que disse à imprensa quando eleito senador: “Melhor do isso, só dois isso!”


  • 28/11/2014

    Treze já se foram


     O jornalista Adelson Barbosa vez por outra brinda seus leitores, entre os quais me incluo, com pesquisas de natureza história, notadamente na área da política e administração do nosso Estado, em período mais recente. No ultimo domingo repassou a legislação constitucional e derivada sobre o meio ambiente, e prestou uma homenagem aos constituintes estaduais de 1989, reproduzindo a galeria incorporada ao Memorial do Poder Legislativo onde todos os deputados que laboraram na nossa ultima Constituição estão fotografados. Tive a curiosidade de conta-los: dos trinta e seis, treze deles não estão mais entre nós: Ademar Teotônio, Aércio Pereira, Waldir Bezerra, Antonio Ivo, Ernany Moura, Egídio Madruga, Fernando Milanez, Francisco Pereira, José Fernandes, Soares Madruga, Leonel Medeiros, Oildo Soares e Judivan Cabral. Tivesse a pesquisa ido mais longe, o diligente escriba descobriria que foi esse “orador que voz fala” o relator da parte da Carta que cuida da Ordem Econômica e da Ordem Social, nela incluída a proteção ao Meio Ambiente.

    Um dos pontos mais discutidos, na Constituinte, por que mobilizou artistas, militantes políticos e empresários da construção civil, foi a fixação do gabarito para a construção dos chamados espigões na orla marítima. Na fase inicial de discussão destaco a ação do deputado José Luiz Maroja, autor na emenda que define os parâmetros a serem seguidos pelo Plano Diretor da Cidade, em relação ao assunto, até hoje respeitado, com apenas uma exceção para a área do Porto de Cabedelo, desde que a construção se destine a atividade industrial. Convém lembrar que os constituintes estaduais mantiveram mandamento inserido na Carta de 1967 (que era uma Emenda) pelo governador João Agripino.

    Enquanto o deputado Pedro Adelson cuidou da Organização do Estado e dos Munícipios, igualmente relator, antes que Egídio Madruga desse o toque final à redação, aperfeiçoada na Comissão de Sistematização onde despontava o deputado Waldir Bezerra e outros de igual mérito.

    O órgão de proteção ao meio ambiente, recomendado pela Lei Maior, só viria a ser implementado a partir de 1978 quando o então governador Dorgival Terceiro Neto deu forma à SUDEMA. Leis posteriores cercaram a proteção da nossa fauna e flora, acidentes geográficos, florestas e cursos de água. A proibição de instalação de usinas nucleares foi uma preocupação seguida também por Câmara de Vereadores, a exemplo da de Bananeiras, que proibiu em seu território o depósito de lixo atômico...

    Os trinta e seis constituintes paraibanos viveram grandes dias e a Assembleia presidida por João Fernandes cumpriu o seu papel com eficiência, dentro dos prazos fixados. Esquecidos os exageros cometidos, menos por tentativa de inovar e mais para intimidar o governante da ocasião, a Constituição Paraibana é um documento que tem resistido às várias tentativas de modificar seu texto para servir a interesses inconfessáveis. Em termos de meio ambiente, repito o atual presidente da Casa de Epitácio, em depoimento colhido pelo jornalista citado: “A Constituição paraibana é bastante avançada no tocante ao meio ambiente, assim como todo o conjunto de leis sobre o tema, o que deixa a Paraiba à frente de muitos estados”

    Pena que esses treze passageiros da nossa história constitucional não estejam a presenciar os efeitos do seu trabalho. É a vida!.


  • 18/11/2014

    Vamos voltar a degola?


     A Paraíba de Gama e Melo não se submeteu à vontade presidencial. O Presidente Campos Sales valeu-se da Comissão de Verificação de Poderes para anular as eleições federais ocorridas no Estado. O motivo? O nome por ele indicado para governar a Paraíba não foi aceito. A rebelião de Gama e Melo resultou na degola da bancada eleita, com a posse dos derrotados. Era o ano de 1900.

    O fato repetir-se-ía em 1930. João Pessoa elegeu o Senador e mais quatro deputados. A Junta Apuradora anulou os votos dos liberais e diplomou os perrepistas. O Senado e a Câmara completaram o trabalho sujo e fizeram a depuração dos eleitos reconhecendo a eleição dos derrotados. O detalhe: em 1900, a degola fora inspirada por Epitácio Pessoa, Ministro da Justiça de Campos Sales. Trinta anos depois, os epitacistas sob o comando do seu sobrinho, provaram do próprio veneno.

    O ministro Osvaldo Trigueiro, citado por Renato Cesar Carneiro, registra os abusos cometidos por políticos mineiros e gaúchos em matéria de reconhecimento de poderes. E conclui: “A opinião publica já não suportava a farsa do chamado terceiro escrutínio”. José Américo, que acompanhava esse procedimento em 1930, protestou: “não pude suportar a farsa... Seria adotado o critério dos diplomas, mas diplomados foram os derrotados, sacrificando-se enorme maioria. Vi João Pessoa pálido de cólera. Havia um brilho estranho nos seus olhos.”

    Mas essa história vem do século passado e a história nunca se repete...Ou se repete? Nos dias de hoje, ao que parece, querem transformar a Justiça Eleitoral em uma ressuscitada Comissão de Verificação de Poderes. Ao invés da decisão política pura e simples dos donos do poder, os derrotados se utilizam de ações judiciais para tentar nos tribunais o que o povo nega nas urnas. Surgem as Ações de Investigação Judicial Eleitoral e de Impugnação de Mandato Eletivo autorizadas por uma legislação severa e necessária, quase sempre produzida ao sabor das emoções e da pressão popular. O sucesso obtido por alguns nessas iniciativas, animam outros a trilhar o mesmo caminho.

    Terminada a eleição, começa o terceiro escrutínio, que já em 1900 a “opinião pública não suportava mais”, agora chamado de terceiro turno. São milhares de ações engendradas após o pleito, na tentativa de desconstituir, depurar ou degolar os eleitos e premiar os derrotados.

    Aqui mesmo na Paraíba, nas mesmas páginas dos jornais onde se anunciava a vitória do candidato a Governador Ricardo Coutinho, era noticiado o ingresso de ações impugnatórias à sua expressiva vantagem nas urnas. A inconformação dos abatidos pelo voto, volta a atuar nestas plagas. O vencido, apesar de reconhecer a sagração do adversário, autoriza a contestação do resultado. Vamos voltar à degola?

    Até quando abusarão da nossa paciência? Respeitemos a soberania popular minha gente! (Republicado por incorreção de certos personagens. Ao que parece, a história se repete)


  • 05/11/2014

    O deputado das viúvas


     O saudoso radialista Luiz Otávio me deu esse honroso epíteto, quando, deputado estadual, em atitude de vanguarda, apresentei Projeto de Lei que dava às viúvas e dependentes do servidor, a mesma remuneração do falecido, como se ele “vivo estivesse”. Isso foi muito antes da Constituição Cidadã que tornou esse direito válido para todo do Brasil e de Lula conseguir diminuir essas mesmas pensões. Eis que, por arte do destino, me vejo na condição de gestor da previdência estadual e a depender de minhas ações, um atendimento de melhor qualidade para quem, além de perder seu ente querido, teria que enfrentar a burocracia pátria para ver entrar na casa de onde saiu seu chefe, o necessário para o sustento da família.

    A primeira providência foi pagar um adiantamento à viúva e/ou aos filhos para que a única receita daquele lar enlutado não demorasse tanto a ser pago, aumentando a angustia de quem já sofria a morte do ente querido. Bastava o beneficiário ir a uma agencia bancária com a identidade, que o dinheiro tava lá. Depois, era emitido o primeiro contra-cheque.

    Para os aposentados, recebi a aprovação do Executivo para um decreto que fixava em apenas 60 dias o prazo para o deferimento de aposentadorias. Decorrido esse prazo sem a publicação do ato, o servidor aguardava em casa a sua aposentação. Dois exemplos, com uma só definição: respeito aos segurados Recebi do IPEP uma granja abandonada em Gramame e com a reforma e adaptação a transformei em um hotel cinco estrelas, para quem não pode freqüentar um deles. É hoje o Centro de Atividades do Aposentado e Pensionista Padre Juarez Benício-CEJUBE. O Estado adquiriu terreno e me preparava para instituir idêntico equipamento em Campina Grande, quando deixei o cargo de presidente da Pbprev.

    Acabei com o calote que o Estado costumava aplicar em aposentados e pensionistas. Revisão com direito a retroativo, diferença de pensões e devolução de pagamento indevido, tudo era pago de uma só vez ou em parcelas, a depender da disponibilidade de caixa. Devolvi recursos cobrados indevidamente de ex-governadores e ex-deputados e suas viúvas, mas viúvas de soldados engajados e cabos, oficial de justiça ou desembargador, auditor fiscal ou canceleiro, eram atendidos com a mesma boa vontade de servir. E às vezes, eu mesmo telefonava às viúvas dando a boa noticia: vá ao banco que lá tem um pagamento para a senhora...Muitas ficavam mudas de emoção e de surpresa. Me comovia ouvir os agradecimentos e as promessas de orações, como se meu ato não fosse obrigação de todo gestor publico: respeito aos estão sob sua guarda e dependência.

    A previdência da Paraíba é deficitária? Sem dúvida. Já nasceu assim, pois a folha de aposentados e pensionistas herdada do antigo IPEP sempre foi paga pelo Tesouro. Hoje, apenas parte dela, pois a arrecadação das contribuições vai para essa obrigação.O Tesouro cobre a diferença. O déficit financeiro anual supera os duzentos milhões. O deficit atuarial, que não será suprido por este nem pelos próximos governos, alcança os dezesseis bilhões de reais. Mas isso é resultado de um cenário para setenta e cinco anos,o suficiente para cobrir futuras aposentadorias e pensões, partindo de formulas matemáticas e estatísticas que sempre se confirmam. Esse quadro não é resultado de uma gestão, mas herança de um sistema que acumula erros e privilégios por longos anos, sem luz no fim do túnel.

    Apontei um início de solução, a longo prazo, sem dúvida, já adotada em outros estados: criação do Fundo Previdenciário. Nele seriam segregados, a partir de então, os novos servidores. Teoricamente, esse fundo acumularia contribuições do empregado e do ente, por 35 anos, quando aposentaria o primeiro servidor. Os acidentes de percursos, a invalidez, por exemplo, peço que descontem dessa afirmativa genérica e teórica. Não consegui aprovar esse projeto. Ficou em exame pela equipe econômica do governo deposto.

    Pois bem, tudo que fiz, dentro da lei e sem extrapolar um só milímetro da previsão legal, está sendo contestado pelo novo gestor da previdência estadual. Pior, os fatos ou atos contestados não são do meu conhecimento, mas apenas as leviandades, as calunias, as difamações proclamadas perante amigos que me transmitem o destempero verbal do meu acusador gratuito.

    Mas estou atento e não deixarei que ninguém, sem qualquer autoridade moral para fazê-lo, queira destruir o único patrimônio que construí em toda a minha vida publica: a honra (do meu livro EM PROSA E NO VERSO, republicado em face desta minha declaração de princípios em favor de aposentados e pensionistas ter sido mal interpretada por motivos eleitorais)


  • 29/10/2014

    Os tempos eram outros


     Trago hoje mais dois exemplos da fidelidade dos políticos do passado aos seus líderes. Desde a antiga UDN e depois na ARENA meu pai acompanhava Clovis Bezerra. Era ele o nosso deputado estadual. Trocar Clovis Bezerra por outro era para Arlindo Ramalho uma tarefa impossível. Só deixou Clovis Bezerra para votar no próprio filho, eu. Sua casa de comercio advinda da sociedade com  “Seu”  Guilherme, o alemão que teve sua loja queimada em Moreno (Solânea) após o afundamento de navios brasileiros pelos submarinos de Hitler,(essa é outra história) foi levada pela política. Sem comercio e sem emprego meu pai foi procurado pelo Deputado Fernando Milanez.

    Milanez representava Draut Ernani, candidato a deputado federal com quem fazia dobradinha. O vereador Arlindo Ramalho receberia um emprego de Fiscal do Instituto de Açúcar e do Alcool, um jeep para fazer a campanha e cobertura de todas as despesas eleitorais. Naquele tempo não existia fundo partidário nem prestação de contas de candidato.  Ouvida a proposta meu pai disse que precisava de tempo pois teria que consultar Clovis Bezerra.  Este  respondeu que não tinha como se opor a qualquer decisão que meu pai tomasse pois sabia da suas dificuldades e o emprego era indispensável à manutenção da sua família.O meu tio Elpídio, então gerente de Matarazzo, intermediou esse encontro.

    Voltando a se encontrar com Milanez meu pai comunicou que  estava pronto a oferecer seu trabalho em favor da candidatura de Draut. Ao encerrar a conversa Milanez lembrou que era candidato a deputado estadual e a acordo envolvia também alguns votos para a sua eleição.

    -Meu amigo, respondeu meu pai. Fico grato por terem se lembrado de mim. Estou mesmo precisando de emprego mas  para tirar voto de Clovis Bezerra prefiro continuar desempregado. E despediu-se de Milanez  e do IAA.

    Silvio  Porto, pai do desembargador Zeca Porto era deputado estadual e  arranjou um emprego para meu irmão na Secretaria do Interior e Justiça da qual era titular. Sabia do compromisso de meu pai com Clovis Bezerra mas me pediu pelo menos um voto em Borborema. No dia da eleição meu irmão Antonio Carlos que hoje é Promotor de Justiça aposentado passava de mão em mão as chapinhas do nosso candidato mas estava designado para votar em Silvio Porto. Na hora de votar  esqueceu o compromisso e votou mesmo em Clovis Bezerra.  Fiquei aflito pois quebraria minha palavra com Silvio. Fui em busca de alguém que, já perto das cinco horas, não havia votado ainda. Encontrei a minha mãe e muito a contragosto ela concordou em honrar a minha palavra e dar seu voto a Silvio Porto.

    Alguns dias depois da eleição Clovis Bezerra passou lá em casa, em Borborema, já reeleito e vai agradecer os votos que obteve na cidade. Nesse tempo se fazia isso...Minha mãe, antes de ser cumprimentada foi logo contando a historia.E concluiu:

    - Me obrigaram a votar contra o senhor, ainda estou contrariada...

    Clovis Bezerra compreendeu e saiu comovido com aquela prova de fidelidade eleitoral e de amizade. Os tempos eram outros. (Minha mãe nos deixou na ultima sexta-feira,esse flash de sua vida é uma homenagem à grande mãe,avó e bisavó que foi até os 89 anos) http://www.ramalholeite.com.br


  • 13/10/2014

    Maranhão repete Argemiro


     Argemiro de Figueiredo foi deputado estadual, federal e senador. Governou a Paraíba entre 1935 e 1940, atravessando, inclusive, o período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Em 1946 foi eleito deputado constituinte e integrou um grupo de parlamentares que se dedicaram mais de perto à elaboração do novo texto constitucional que vigorou até os juristas fardados nos doarem uma Emenda como Carta Maior da República.

    Sua carreira registra alguns tropeços eleitorais, como por exemplo, a derrota que sofreu em 1951 na disputa pela prefeitura de Campina Grande, seu berço político, perdendo para Plinio Lemos. No pleito municipal, Argemiro obteve pouco mais de onze mil votos, insuficientes para suplantar os treze mil do seu opositor. Antes, Zé Américo o derrotara na batalha pelo governo da Paraíba.Tres anos depois, com votação consagradora, era eleito senador derrotando Assis Chateaubriand e o poderio econômico influenciado pelos Diários Associados, de sua propriedade.

    Ao ser cassado pelo AI-5, José Maranhão era correligionário de Argemiro, ambos abrigados na sigla petebista fortalecida sob a liderança de Goulart, após a morte do patrono Getúlio Vargas. Deputado estadual com os direitos políticos suspensos por dez anos, ao retornar, voou mais alto e alcançou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Passou a vice-governador de Antonio Mariz. A morte de Mariz em pleno mandato mudou a sua história e a história da Paraíba. Reeleito governador, deixaria o cargo para uma disputa vitoriosa ao Senado, voltando depois ao cargo de governador por decisão judicial, pois perdera o pleito na contagem dos votos


    Em 2010 MaranhÃo tentou renovar seu mandato de Governador. Não logrou êxito. Ricardo Coutinho venceu. Zé já acumulara muitos mandatos e em 2012 procurou conquistar um que lhe faltava no curriculum, disputando a prefeitura da Capital. Conseguiu, apenas, 18,87% dos votos válidos. Amargou um insucesso que não lhe fazia falta. Sem mandato, quiseram lhe tirar o comando partidário Reagiu com as forças que possuía e reafirmou sua liderança no comando da legenda que já fora de Rui Carneiro e de Humberto Lucena.

    Na presidência do PMDB atravessou a crise de abstinência do poder a que não estavam acostumados seus correligionários, e após especulações de uma candidatura ensaiada para deputado, terminou ungido como candidato a senador. Foi eleito quase sem sair de casa. Sua obra falou por ele e resultou em vitória, apesar de ter enfrentado um jovem promissor na política da Paraíba e um político experimentado nas lides eleitorais.

    A trajetória de Maranhão e Argemiro se assemelham. Ambos, após sofrerem uma derrota para governador e para prefeito, conseguiram conquistar um mandato senatorial de oito anos. Argemiro perdeu para governador em 1950, para prefeito em 1951, foi eleito senador em 1954; Maranhão perdeu para governador em 2010, para prefeito em 2012 e se elegeu senador em 2014. A história às vezes se repete.


  • 29/09/2014

    A bica e a solução de Balduino


     Quando Dorgival Terceiro Neto era prefeito desta cidade das mangueiras e das acácias, resolveu restaurar o Parque Arruda Câmara (Bica), e, para a tarefa, contratou a experiência e a inteligência de Balduino Lelys, de quem nunca mais tive noticia.

    Balduíno, no governo de João Agripino fora encarregado da recuperação do Conjunto Barroco de São Francisco onde instalou um Museu e descobriu o piso original da Capela principal. Depois, cuidaria da instalação do Museu Walfredo Rodrigues, em prédio que restaurou na Duque de Caxias, hoje abandonado, mas com seu acervo fotográfico exposto na Casa da Pólvora. Sei que sua ultima iniciativa foi a Universidade Livre de Taperoá, não sabendo dizer se nesse campus alguém chegou a ser diplomado.

    Para fazer da Bica um local de agradável frequência e com ambientes mais acolhedores, até um restaurante foi construído, em frente à Ilha dos Macacos, outra de suas ideias, aproveitando o veio de uma fonte dita de água mineral, que era procurada pelos moradores de bairros mais distantes, dada a sua proclamada excelência. Diariamente, os veículos desciam em fila para que seus motoristas enchessem na fonte os depósitos que traziam de casa.

    Na reconstrução da Bica, Balduino recrutou nos presídios os melhores pedreiros, serventes e artífices, resultado de um convenio entre a Prefeitura e a Secretaria de Interior e Justiça, que cuidava, na época, da administração penitenciária. Para agilizar a construção dos novos equipamentos de lazer, era preciso isolar as áreas de serviço e impedir a entrada de frequentadores. A descida de veículos a toda hora para pegar água na bica, resultava no atraso da obra, o que incomodava sobremaneira ao irrequieto construtor.

    E que construtor! Balduíno estava tão entusiasmado com a missão confiada pelo conterrâneo de Taperoá que governava a cidade, que resolveu também colaborar com a fauna do nosso zoológico. Um dia, chega de viagem e convoca a todos para acompanhá-lo à porta da Prefeitura. Para surpresa geral, dentro da mala do seu opala, trazia do Maranhão, uma onça pintada de rara beleza. Depois de enquete popular, o felino recebeu o nome de Badú, e viveu por muitos anos atendendo à curiosidade da criançada pessoense.

    Mas como Balduino iria se livrar dos visitantes que atrapalhavam sua obra? Teve então a esperta ideia de instalar um chafariz na entrada da Bica. Os veículos não precisariam mais entrar no parque. Voltavam da porta, seus donos satisfeitos e com os barris abarrotados de “água mineral”....

    Faltou Balduino explicar que a água disponibilizada na frente da Bica, não era da sua famosa fonte, mas do próprio abastecimento da cidade...Muitos levaram para casa a mesma água que já dispunham, mas Balduino pôde concluir e entregar a Dorgival.


  • 15/09/2014

    A mulher na bagaceira


      A mulher brasileira percorreu um caminho de muitas lutas para ter o sagrado direito de votar e a honra de ser votada.O vizinho estado do Rio Grande do Norte aproveitando o fato de não haver exclusividade federal para legislar sobre o assunto introduziu o direito de voto às mulheres antes mesmo do Código Eleitoral de 1932 que facultava o voto feminino, desde que as eleitoras inscritas fossem servidoras publicas remuneradas.

    A primeira mulher a se inscrever eleitora foi a professora Celina Guimarães Viana, da cidade de Mossoró e ali perto, em Lages, foi eleita Alzira Soriano, a primeira prefeita na América do Sul.

    A informação enriquece a alentada pesquisa do professor Renato Cesar Carneiro que dá continuidade à historia do voto e das eleições na Paraíba, tratando agora do período em que José Américo foi figura de proa no cenário político paraibano e nacional, daí a denominação do livro: Bagaceira Eleitoral, numa alusão ao romance homônimo do imortal paraibano.

    Na Bagaceira encontrei Sabiniano Maia que conheci Secretário da Justiça de João Agripino, prefeito em varias cidades da Paraíba e primeiro Procurador Eleitoral, considerando a obrigatoriedade do voto feminino para todas as mulheres inscritas e não apenas para as servidoras públicas. Lá está também o juiz Celso Novais que deferiu a primeira inscrição eleitoral à professora Isabel Iracema Feijó da Silveira, de Santa Rita, em atitude de vanguarda só reconhecida na lei de 1932.

    A capacidade eleitoral passiva das mulheres, porém, só viria a ser exercitada na Paraíba em 1951 quando Cajazeiras elegeu Rita de Cássia Assis primeira vereadora do Estado. Patos seguiu seus passos em 1955 com a eleição da vereadora Maria Ester Satyro Fernandes, irmã do Conselheiro Flávio Satyro. O livro omitiu nossa primeira prefeita, Maria Dulce Barbosa, tia da estimada Emilia Correia Lima, que saiu da Câmara de Campina Grande para ser ungida em Queimadas como prefeita da cidade.Acrescento ainda Vani Braga primeira deputada estadual já que Lucia Navarro Braga pioneira na Câmara Federal não foi esquecida.

    Até chegarmos a Dilma Rousseff merecem registro a primeira brasileira a ser eleita deputada federal Carlota Pereira de Queiroz, em 1933, Eunice Michiles, a primeira a ter assento no Senado e Roseana Sarney,

    governadora do Maranhão em 1995 e exercendo agora seu terceiro mandato.

    O Senado ainda não viu chegar uma paraibana. Tivemos Fátima Pires, mãe do deputado Lindolfo Pires,segunda suplente de Ney Suassuna e Marta Ramalho, que chegou à primeira suplência de Efraim Morais,com a renuncia de Fernando Catão e cumpre hoje seu terceiro mandato de prefeita.Foi o máximo a que chegaram as paraibanas dos nossos dias, já que as militantes à época da Bagaceira só ultrapassaram os umbrais da Escola Normal para, entre outras iniciativas meritórias, exigir que esta cidade das Neves ganhasse o nome de João Pessoa.


  • 09/09/2014

    O banco do Severino


     O Banco da Renata, do Antonio e da Maria é também o Banco do Severino. Pelo menos é o que diz a propaganda do Banco do Brasil. Vai ver que foi por isso, já naquele tempo, que Lampião, o Rei do Cangaço, ao entrar em uma agencia do banco para assaltá-lo, indagou de um gerente tremendo mais que vara verde:

    -Aqui é o Banco do Brasil? O Banco de todos os brasileiros? Pois eu vim buscar a minha parte...

    Na semana que passou levei três dias tentando tirar do banco a minha parte, ali depositada legalmente pelo Tesouro do Estado.Antes, por duas vezes, já fora vítima de ataques dos ratos virtuais que levaram dinheiro da minha conta para a deles.O dinheiro me devolveram logo, mas o que sofri para regularizar novamente meu acesso à internet merece registro. Nas muitas viagens que dei à minha agencia não encontrei quem soubesse fazer o serviço ou, se o fazia, era incompleto, o que me obrigava a voltar para concluir a tarefa. Até que um gerente mais atento me ouviu e restaurou minha ligação virtual com o banco fixando meus limites operacionais. As transferências e pagamentos acima disso, tornam impossível a operação.

    Por isso levei três dias para pagar uma conta acima do meu limite. Poder-se-ía perguntar: e por que não passou um cheque? Isso, meus amigos se eu o tivesse. Mas o meu banco se nega a me dar um talão de cheques desde que o governo abriu uma conta para depositar meus proventos. E por que não tenho cheques? Vou explicar: em 1996 quando saí da Secretaria de Administração da Prefeitura de João Pessoa deixei inativa uma conta onde eram creditados meus subsídios de secretário e fiquei com um débito de cheque especial que nem tinha conhecimento.Chamado a pagar, o banco me concedeu um desconto nos juros, dentro das suas normas de negociação.Decorridos quinze anos, devido a esse acerto que me propuseram e aceitei pagando na forma acordada, virei ficha suja no Banco do Brasil, sem direito a talão de cheques. Resta-me, portanto, o internet banking ou a boca do caixa.

    Busquei enfrentar as quilométricas filas para entrar na agencia e adquirir uma ficha de atendimento.Mesmo usando o estatuto do idoso, a tarefa se projetava por um longo dia de serviço.Como todo esforço tem sempre uma compensação, encontrei um gerente de muita boa vontade e com paciência para me ouvir e, finalmente, em Cruz das Armas, consegui liquidar meu debito. Foi a primeira vez que tive dificuldade em pagar uma conta tendo excesso de fundos...(Republicado por incorreção...do Banco)


  • 01/09/2014

    Um mergulho no passado


     Visitar o Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba é uma experiência singular para quem gosta de vasculhar o passado. Com máscara e luvas que me foram cedidas, gentilmente, pelo pessoal que atua naquela casa, vivi essa viagem e reencontrei, além dos meus próprios rastros, muita gente que os escaninhos do meu cérebro haviam arquivado. O tempo foi curto, mas outras incursões farei ao valioso acervo que ali se encontra, bem catalogado e de fácil acesso.

    Não fui muito longe para rever Archimedes Cavalcanti, secretário de redação da Tribuna do Povo, jornal mantido pelas então chamadas classes conservadoras, sob o patrocínio da UDN e dirigido pelo deputado Clovis Bezerra que sucedera a Joacil de Brito Pereira na mesma missão. Archimedes foi o meu professor de jornalismo. A minha primeira escola foi a Tribuna. Como estudante do Lyceu comecei a levar uma coluna semanal com assuntos da educação. O meu noticiário envolvia, principalmente, os movimentos estudantis, em efervescência nascente naqueles anos da década que se iniciara em 1960 e alcançaria seu apogeu em 1968.( O livro de Rui Leitão é muito bom e chegarei a ele)

    A minha coluna, Tribuna Estudantil, era revisada, minuciosamente, por Archimedes. Ele não se limitava à correção do texto, mas acrescentava boas lições sobre a melhor forma de redigir. Abusar de adjetivo era um crime imperdoável. Ir direto ao fato, a primeira lição. Aprendi muito com aquele grande paraibano, que, inclusive, foi membro do IHGPB.

    Manuseei uma coleção de A Tribuna do Povo e deparei-me com a manchete que destacava uma entrevista em página inteira do governador Pedro Gondim: “Posição da Paraíba: contra o golpe, pela legalidade e a Constituição”. O governador firmava posição com relação à posse de João Goulart, após a renúncia de Janio Quadros. Vivia-se a Campanha da Legalidade, evento que durou exatos 14 dias e se propunha a garantir a posse do vice-presidente, em viagem à China, para estabelecer relações comerciais, por delegação presidencial. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, amparado por militares contrários à posse, proclamava que Jango fora à China conhecer o regime comunista para implantá-lo no Brasil. Pedro Gondim deu a posição da Paraíba. Em 64, pretendeu repetir essa postura. Contam que chegou a redigir nota contra o golpe que depôs Goulart, rasgada, logo depois, por conselheiros menos apressados. As circunstancias eram outras. Pedro terminou por apoiar o movimento militar, responsável pela cassação do seu mandato de deputado federal, alguns anos depois, quando ele tentou ressuscitar sua natureza rebelde.

    Relembrei Adalberto Barreto, esparramado em uma velha poltrona da Associação Paraibana de Imprensa, da qual era presidente, enquanto nas janelas do prédio, bocas de som amplificavam para a rua Visconde de Pelotas e vizinhança, as noticias transmitidas pela Radio Guaíba, diretamente do porão do Palácio Piratini. A voz de comando era de Leonel Brizolla, que formara a Cadeia da Legalidade e, juntamente com o general Machado Lopes, assegurava a posse de Jango, a partir do Rio Grande do Sul.

    Jango tomaria posse com seus poderes podados pela adoção de um parlamentarismo que já nasceu capenga, e entronizou Tancredo Neves no cargo de primeiro-ministro. Este seria o Chefe do Governo, enquanto Goulart, tornar-se-ía, apenas, Chefe de Estado. Uma Rainha da Inglaterra sem saias. Para evitar derramamento de sangue, Jango aceitou a imposição dos militares, como diria depois. Seu tumultuado governo caminhava para ser golpeado. No comício da Central do Brasil, uma sexta-feira 13, assinou decretos que desagradaram às elites e encantaram as esquerdas. Eis o motivo que faltava para justificar o golpe. Jango, apeado do poder e exilado, só voltaria ao Brasil depois de morto. Sua morte ainda gera muitas suspeitas. Mas esse é um assunto para a Comissão da Verdade.


  • 25/08/2014

    Encontro com Itamar


     Decorria o mês de agosto do ano de 1993 do século passado e Itamar Franco era o Presidente do Brasil após o impedimento de Collor. Ontem como hoje, deputados e senadores sempre procuram o Chefe da Nação para se queixar de desprestígio mais do que para reivindicar investimentos públicos nos seus Estados. Por ambas as razoes a bancada paraibana, excetuando-se os pmdebistas, lograram uma audiência com o Presidente.

    Sob o comando do Senador Raimundo Lira fomos todos: Adauto Pereira, Evaldo Gonçalves, Rivaldo Medeiros, Efraim Morais e eu, que assumira no lugar de Ivan Burity. Alguns cargos ocupados por indicação do pefelê, hoje DEM, estavam sendo substituídos por gente do PMDB via Senador Humberto Lucena à época Presidente do Senado e sempre com muito prestígio. Eu já contei essa história mas não custa repetir, diante da partida do ex-presidente.

    Ouvidas com paciência as reclamações dos presentes, o presidente indagou como poderia compensar as nossas perdas. Foi por conta dessa indagação presidencial que eu saí do Palácio do Planalto praticamente nomeado Diretor do Banco do Nordeste, já que minha permanência na Câmara Federal tinha prazo curto e se encerrava naquele mês de agosto.

    Mas o que me marcou no encontro com o Presidente e traduziu uma avaliação da sua simplicidade foi outro fato. Todos se sentaram nas cadeiras disponíveis. Sendo eu o mais humilde dos presentes, até por que era deputado na condição de suplente, deixei que todos se sentassem e fiquei em pé, pois a única poltrona que restava era a do Presidente.

    Vendo-me em pé, mais que depressa o Presidente Itamar voltou à sua mesa onde existiam duas cadeiras e pegando uma delas veio conduzindo-a para que eu me sentasse. Vendo esse gesto de fidalguia e naturalidade, corri e atalhei sua ação, tomando-lhe a cadeira e eu mesmo cuidando da minha acomodação.

    Esse gesto assinalou para mim a personalidade desse mineiro nascido a bordo de um navio, que navegando sempre em águas tranqüilas, muitas vezes provocou tempestades. Ao lembrar Itamar Franco o faço com carinho, menos pela nomeação que me fez e mais pelo gesto de desafetação tão incomum em outros ocupantes da mesma cadeira presidencial.Que Deus lhe destine um bom lugar.( Republicado em homenagens aos politicos sérios deste Brasil)


  • 20/08/2014

    Quem paga a lanterna?


     A palavra da moda é mobilidade urbana. Antes se falava em fluxo de veículos, dificuldades de acesso, problemas de deslocamento. Tudo isso virou uma palavra chave:mobilidade. A construção de um sistema viário que evite a paralisação do trânsito com desperdício de tempo e combustível, além de não acabar com os nervos do motorista, se enfeixam no contexto de mobilidade. Esse é o grande desafio das cidades, em qualquer parte do mundo, talvez não em Cuba, ainda usando os poucos veículos produzidos na antiga Rússia, sem peças de reposição.Onde a industria automotiva ganhou corpo, as ruas incharam, com os veículos se arrastando.

    A opção pelo automóvel, entre nós, começou na era JK. O automóvel fabricado no Brasil precisava de estradas de boa qualidade e elas foram surgindo. Enquanto as BRs surgiam, os ramais ferroviários eram apontados como deficitários, e em seguida, desativados. Essa conta fica para o Juarez Távora, antigo tenente de trinta e general do regime de 64. Segundo as estatísticas, só nos últimos dez anos, a frota de veículos no País cresceu mais de 400 por cento. E depois que desoneraram o automóvel da incidência do imposto (IPI), mantendo preços estáveis e tornando-o acessível a maior numero de brasileiros, ficou difícil dirigir. Nesta Cidade das Acácias, pior ainda.Um gerente de banco de origem sulista, me definiu essa dificuldade: “para onde eu vou, todo mundo vai... Tanto faz ir para a praia como para a zona sul”. E agora não tem hora melhor.Tá tudo dominado pelo excesso de veiculo e escassez de espaço.

    A mídia nos dá noticia de que estão em andamento projetos que pretendem modificar a face da cidade. Se promete a implantação de sistemas sobre trilhos (VLTs) ou ônibus de alta capacidade e velocidade (BRTs) além da integração desses braços de transportes, até com ciclovias.Tudo muito bonito e projetado.Na verdade se faz uma meia-sola no final da Epitácio Pessoa e se anuncia o mesmo no inicio da Beira-rio, duplicação no Altiplano do Cabo Branco e Cruz das Armas. Um realinhamento de tráfego nos Bancários e na Lagoa, e um Viaduto no Geisel e outro em Mangabeira. Há medidas projetadas para aliviar o tráfego, facilitando a condução de veículos de pequeno porte ou atraindo o usuário para o transporte coletivo. De concreto, até agora, só vejo a redução do canteiro central da Epitácio e inicio de obras em Cruz das Armas. Mas tenho esperança de ver muito mais do que as promessas de liberação de recursos do Ministério das Cidades.

    Preso no trânsito há algumas horas, me deram noticia de um acidente mais na frente. Não há pessoas vitimadas, apenas danos materiais aos veículos. Pela lei, os avariados deveriam ser retirados do eixo da avenida e, lá fora, seria resolvido quem pagaria o prejuízo de quem. Com a faixa de rolamento reduzida à metade, diminui a capacidade de deslocamento. Imaginem o cenário que vemos várias vezes por dia.Descem os motoristas dos veículos sinistrados e passam a discutir seus direitos. Cada um com sua razão.Chegam os peritos e a discussão se renova na presença da autoridade,cada um querendo impor sua versão. Passadas algumas horas de sofrimento para todos que esperam o desfecho da querela, o fluxo se alivia.Quando passo pelos veículos engatados, identifico os danos e a alegria de quem recebeu o impacto por trás. O culpado resolveu pagar a lanterna quebrada... (Do livro A BOTIJA DE CAMUCÁ- Em boa hora surgiu a determinação de se fazer perícia apenas quando houver vÍtima.Danos materiais devem ser resolvidos fora da avenida, para não impedir o transito.Era isso que eu queria.Resolveram cumprir a lei)


  • 06/08/2014

    A Rainha do Milho


     Começam com as homenagens a Santo Antonio, prosseguem com São João e se encerram com o São Pedro. Mas há quem prolongue os festejos juninos e realize o “João Pedro”, celebrando os dois em um, fora das suas datas, quando as bandas de forró custam um pouco menos.

    No tempo em que clube era chamado de sodalício eram nesses recintos freqüentados preferencialmente pelos sócios que os bailes se realizavam. Em junho, diante da fartura da canjica e da pamonha, a Rainha do Milho era prèviamente eleita. O romantismo imperava e a Rainha era celebrada como a verdadeira inspiradora da festa que incluíam ainda as “simpatias” e os afilhados consagrados ao redor da fogueira.

    Pesquisando as páginas de A União, uma noticia vinda de Bananeiras me chamou a atenção. No inicio daquele mês de junho de 1942 o Bananeiras Clube elegera a sua Rainha do Milho e como madrinha do clube, fora recepcionada por um grupo destacado de sócios. A retribuição a esse gesto de carinho foi um almoço (que se chamava ágape) na residência da Rainha.A escolhida contava na ocasião com 23 anos e com a alegria que a caracteriza, hoje, aos 92 anos costuma presentear os filhos e amigos com quadros que pinta, ocupação que aprendeu na Organização das Voluntárias depois dos 80 anos. A Rainha do Milho de 1942, senhorita Azeneth Bezerra Cavalcanti viria a ser anos depois esposa de José Antonio Aragão e entre seus filhos, a segunda, Marta Eleonora, seria minha esposa aos 15 anos, vinte anos depois de sua futura mãe ter sido coroada Rainha do Milho.

    Agora os festejos juninos ganham espaços públicos e reúnem multidões que se acotovelam ao som do forró, às vezes “de plástico” e às vezes “autêntico” se é que se pode adjetivar pois, para Alceu Valença, “forró é forró, o resto não é”! O evento virou investimento turístico e garantia de redutos eleitorais sedimentados por emendas parlamentares que já conquistaram notoriedade negativa.Quem ajuda na festa é louvado. Quem não destina recursos é execrado, e as celebrações se transformam em verdadeiras disputas políticas consumidas na fogueira das vaidades.

    Com dificuldade e com ajuda federal negada em poucas horas, por ser a emenda de autoria de parlamentar fora da base aliada, Bananeiras realizou o Melhor São João Pé de Serra do Mundo, consagrado por Amazan e apresentando a genuína música regional.O Bananeiras Clube reabriu suas portas por algumas horas, durante o dia. No seu dancing lotado por uma juventude efervescente, não mais a imponência do passado quando mandava a Rainha do Milho. Na programação paralela mandou o Forró da Xêta enquanto nas ruas, os “paredões” eram silenciados em defesa do meio ambiente. Quem foi gostou e promete voltar no ano que vem. ( Do livro, A BOTIJA DE CAMUCÁ, republicado em homenagem aos 94 anos da Rainha do Milho de 1942)


  • 29/07/2014

    O instituto e seu novo sócio


     Fundado em 7 de setembro de 1905, na Parahyba, capital da Parahyba do Norte, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano nasceu da iniciativa de Irineu Pinto, Coriolano de Medeiros, Flávio Maroja, Tavares Cavalcanti, Seráphico da Nóbrega, Castro Pinto e outros, tendo o incentivo do presidente do Estado, o engenheiro Álvaro Lopes Machado. Por vinte longos anos, o Instituto foi dirigido por Flávio Maroja e tornou-se desde então, a Casa da Memória da Paraíba. Antes da sua fundação, o que se conhecia das nossas origens era disperso, e trabalho de historiadores de outras plagas. A busca de nossas raízes, segundo o saudoso confrade Luiz Hugo Guimaraes, surgiu com os estudos e pesquisas dos fundadores desta Casa, acrescidos, por exemplo, dos trabalhos de Irineu Joffily (Notas sobre a Parahyba) e Maximiliano Machado (História da Província da Parahyba).

    O nascimento de uma historiografia eminentemente paraibana teve sequência com os bananeirenses Alcides Bezerra e Oscar de Castro, além de Francisco Coutinho de Lima, Antonio Freire, Celso Mariz, Clovis dos Santos Lima, João Lelis, Lira Tavares, José Américo de Almeida, Humberto Nobrega, Joacil de Britto Pereira, Horácio de Almeida, José Leal, Luiz Pinto, Rodrigues de Carvalho e tantos outros, já substituídos por historiadores renomados e ainda hoje produtivos como Wellington Aguiar, Guilherme D`Ávila Lins, José Octávio de Arruda Melo, Humberto Melo, Humberto Fonseca Lucena, Manoel Batista de Medeiros, Flávio Satyro, Osvaldo Trigueiro do Vale, Luiz Nunes Alves, José Nunes, Natércia Suassuna, Glauce Burity, Renato Cezar Carneiro e tantos outros não menos ilustres, que, capitaneados pelo Presidente Joaquim Osterne Carneiro, ocupam as cinquenta cadeiras deste sodalício.

    O Instituto guarda mais de trinta mil títulos em livros, jornais e até folhetos. Disponibiliza ainda uma Coleção de Obras Raras com cerca de novecentas peças, nacionais e estrangeiras, publicadas nos séculos XIX e XX. Adicione-se a tudo isso, trinta e dois mil documentos impressos e manuscritos, que se prestam à pesquisa da nossa história desde o período colonial aos nossos dias.

    É nesta Casa da Memória da Paraíba, depositária da inteligência e cultura de centenas de paraibanos que se dedicaram à sua história e a preservá-la com expressivas publicações, que peço permissão para tomar assento, na Cadeira 45, que tem como patrono Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e fundador Dorgival Terceiro Neto.

    Não devo ser rotulado de historiador. Sou, porém, um amante da história, e, como paraibano, leio com avidez tudo que se escreveu ou se escreve sobre nosso passado. Uma única incursão minha na pesquisa histórica resultou em breve notícia acerca da vida e obra de Solon de Lucena, tornada publica por ocasião das comemorações do seu centenário. Na publicação, fui honrado com a companhia de José Octavio de Arruda Melo, Humberto Lucena e Joacil de Britto Pereira, sendo nossos trabalhos enfeixados sob o título “Solon de Lucena- Democracia e Década de Vinte na Paraíba”.

    Mais jornalista que advogado, mais político que escritor, sirvo-me das páginas dos jornais para passar aos meus parcos leitores a experiência do passado e os acontecimentos políticos que vivi ou me foram contados. Essa minha atuação, mesmo modesta, serve à memória da Paraíba e se destina a evitar a repetição de resultados duvidosos. Estou preferindo sempre escrever sobre o passado, até porque, seus personagens já desapareceram e, em consequência, nada reclamam nem têm direito de resposta.

    Pela generosidade dos que compõem esta vetusta instituição, ao me elegerem como sócio efetivo, chego para servir e aprender. (do meu discurso de posse no IHGP)


  • 27/07/2014

    Os padres de Taperoá


     Revisitando Dorgival Terceiro Neto em “Taperoá, crônica para sua história” encontrei o padre Theodomiro de Queiroz Mello o quarto sacerdote nascido nas terras da antiga Fazenda Batalhão, depois batizada de Taperoá, ou Taper-uá para os indígenas, morador das taperas ou aldeia abandonada em tradução registrada por José Leal Ramos, jornalista caririzeiro que fez nome na imprensa tabajarina. Não precisei ir em busca do meu batistério para saber que foi o padre Theodomiro que sacramentou o meu batismo na Igreja da Paróquia de Serraria, onde chegou a partir de 1926 e alguns anos depois foi promovido a Cônego. Seu nome ficou na minha lembrança de menino, repetido pela minha mãe.

    Em alentado estudo sobre as origens da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Taperoá, Dorgival inclui em ordem cronológica os religiosos nascidos naquela terra que também foi o seu berço. O primeiro deles, Galdino da Costa Vilar, nascido na Fazenda Carnaúba chegou a governar a Paraíba, primeiro em um Junta Governativa, e depois como Presidente da Província após ter exercido o mandato de Deputado Geral. Pertencente à família Vilar, igualmente a Dorgival, foram os dois, os únicos filhos de Taperoá que governaram este Estado.

    O segundo padre foi Paulino Vilar dos Santos Barbosa ordenado no Seminário de Olinda em 1840. Era neto do português que fundou a Fazenda Carnaúba e sobrinho do Padre Galdino. Não era vigário da Paróquia mas praticava esporadicamente atos religiosos, notadamente nos seio da família, a exemplo dos batismos de Dorgival Vilar de Carvalho e de Melquiades Vilar, avô e pai de Dorgival.

    O terceiro padre, Abel Alves Pequeno era sobrinho do Padre Paulino e foi contemporâneo de José Américo de Almeida no Seminário Diocesano da Paraíba no inicio do século passado. Bem apessoado, não perdia uma vaquejada e se metia na política enquanto exercia as funções de coadjutor do tio padre. A convivência entre os dois durou até o momento em que o padre mais jovem passou a assediar as namoradas e amantes do padre velho. O padre Paulino batizou muitos dos seus filhos mas nunca registrou a paternidade deles. Desses órfãos de pai muitos descendentes povoaram Taperoá.

    Padre Abel ficou famoso pelos seus destemperos não apenas verbais, mas chegando às vias de fato. Certo dia mandou para o inferno um sujeito com quem discutia. O atrevido retrucou: Se o senhor me ensinar o caminho... Não teve dúvida. Entrou em casa e munido de um rifle “papo amarelo” voltou ao terreiro e mandou bala. Enquanto o homem corria ele gritava: o caminho do inferno é por aí mesmo, seu safado! E depois justificou para as testemunhas: Atirei só para assustar...

    Conta Dorgival: “Quem conheceu Padre Abel dá conta de suas presepadas. Eis mais uma: dando confissão na Igreja de Taperoá, uma mulher lhe narrava suas culpas temporais. Deixou escapara um flato, cujo mau cheiro foi direto às narinas do confessor, que logo se levantou e indagou da confidente se ia fazer o “serviço” ali mesmo, pois não iria ser perdoada. Envergonhada, a mulher retirou-se apressadamente”.

    O padre Theodomiro, que me batizou em Serraria, foi o quarto padre nascido nas terras banhadas pelo rio Travessia. Chegou a ser professor do Seminário Diocesano. Vigário de Taperoá entre 1923 a 1926 foi para a paróquia de Serraria que englobava Pilões, Arara e Borborema, onde nasci. Faleceu em 1958. Era filho do primeiro matrimonio do pai do desembargador Manoel Taigy, do nosso Tribunal de Justiça.

    Sempre releio Dorgival Terceiro Neto quando me interesso em mergulhar na Paraíba de antanho. No dizer do historiador Armando Souto Maior, Dorgival revelava uma virtude rara - a de como se fazer história com humor. Essas pinceladas de um dos seus trabalhos, servem-me de inspiração para o meu discurso de posse no Instituto Histórico Paraibano. A cadeira que

    ocuparei, a partir do dia 25 deste, tem como patrono Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e fundador Dorgival Terceiro Neto. Ambos, ex-governadores da Paraíba. Tremo com a responsabilidade.


  • 22/07/2014

    Os padres de Taperoá


     Revisitando Dorgival Terceiro Neto em “Taperoá, crônica para sua história” encontrei o padre Theodomiro de Queiroz Mello o quarto sacerdote nascido nas terras da antiga Fazenda Batalhão, depois batizada de Taperoá, ou Taper-uá para os indígenas, morador das taperas ou aldeia abandonada em tradução registrada por José Leal Ramos, jornalista caririzeiro que fez nome na imprensa tabajarina. Não precisei ir em busca do meu batistério para saber que foi o padre Theodomiro que sacramentou o meu batismo na Igreja da Paróquia de Serraria, onde chegou a partir de 1926 e alguns anos depois foi promovido a Cônego. Seu nome ficou na minha lembrança de menino, repetido pela minha mãe.

    Em alentado estudo sobre as origens da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Taperoá, Dorgival inclui em ordem cronológica os religiosos nascidos naquela terra que também foi o seu berço. O primeiro deles, Galdino da Costa Vilar, nascido na Fazenda Carnaúba chegou a governar a Paraíba, primeiro em um Junta Governativa, e depois como Presidente da Província após ter exercido o mandato de Deputado Geral. Pertencente à família Vilar, igualmente a Dorgival, foram os dois, os únicos filhos de Taperoá que governaram este Estado.

    O segundo padre foi Paulino Vilar dos Santos Barbosa ordenado no Seminário de Olinda em 1840. Era neto do português que fundou a Fazenda Carnaúba e sobrinho do Padre Galdino. Não era vigário da Paróquia mas praticava esporadicamente atos religiosos, notadamente nos seio da família, a exemplo dos batismos de Dorgival Vilar de Carvalho e de Melquiades Vilar, avô e pai de Dorgival.

    O terceiro padre, Abel Alves Pequeno era sobrinho do Padre Paulino e foi contemporâneo de José Américo de Almeida no Seminário Diocesano da Paraíba no inicio do século passado. Bem apessoado, não perdia uma vaquejada e se metia na política enquanto exercia as funções de coadjutor do tio padre. A convivência entre os dois durou até o momento em que o padre mais jovem passou a assediar as namoradas e amantes do padre velho. O padre Paulino batizou muitos dos seus filhos mas nunca registrou a paternidade deles. Desses órfãos de pai muitos descendentes povoaram Taperoá.

    Padre Abel ficou famoso pelos seus destemperos não apenas verbais, mas chegando às vias de fato. Certo dia mandou para o inferno um sujeito com quem discutia. O atrevido retrucou: Se o senhor me ensinar o caminho... Não teve dúvida. Entrou em casa e munido de um rifle “papo amarelo” voltou ao terreiro e mandou bala. Enquanto o homem corria ele gritava: o caminho do inferno é por aí mesmo, seu safado! E depois justificou para as testemunhas: Atirei só para assustar...

    Conta Dorgival: “Quem conheceu Padre Abel dá conta de suas presepadas. Eis mais uma: dando confissão na Igreja de Taperoá, uma mulher lhe narrava suas culpas temporais. Deixou escapara um flato, cujo mau cheiro foi direto às narinas do confessor, que logo se levantou e indagou da confidente se ia fazer o “serviço” ali mesmo, pois não iria ser perdoada. Envergonhada, a mulher retirou-se apressadamente”.

    O padre Theodomiro, que me batizou em Serraria, foi o quarto padre nascido nas terras banhadas pelo rio Travessia. Chegou a ser professor do Seminário Diocesano. Vigário de Taperoá entre 1923 a 1926 foi para a paróquia de Serraria que englobava Pilões, Arara e Borborema, onde nasci. Faleceu em 1958. Era filho do primeiro matrimonio do pai do desembargador Manoel Taigy, do nosso Tribunal de Justiça.

    Sempre releio Dorgival Terceiro Neto quando me interesso em mergulhar na Paraíba de antanho. No dizer do historiador Armando Souto Maior, Dorgival revelava uma virtude rara - a de como se fazer história com humor. Essas pinceladas de um dos seus trabalhos, servem-me de inspiração para o meu discurso de posse no Instituto Histórico Paraibano. A cadeira que

    ocuparei, a partir do dia 25 deste, tem como patrono Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e fundador Dorgival Terceiro Neto. Ambos, ex-governadores da Paraíba. Tremo com a responsabilidade.


  • 22/07/2014

    Os padres de Taperoá


     Revisitando Dorgival Terceiro Neto em “Taperoá, crônica para sua história” encontrei o padre Theodomiro de Queiroz Mello o quarto sacerdote nascido nas terras da antiga Fazenda Batalhão, depois batizada de Taperoá, ou Taper-uá para os indígenas, morador das taperas ou aldeia abandonada em tradução registrada por José Leal Ramos, jornalista caririzeiro que fez nome na imprensa tabajarina. Não precisei ir em busca do meu batistério para saber que foi o padre Theodomiro que sacramentou o meu batismo na Igreja da Paróquia de Serraria, onde chegou a partir de 1926 e alguns anos depois foi promovido a Cônego. Seu nome ficou na minha lembrança de menino, repetido pela minha mãe.

    Em alentado estudo sobre as origens da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Taperoá, Dorgival inclui em ordem cronológica os religiosos nascidos naquela terra que também foi o seu berço. O primeiro deles, Galdino da Costa Vilar, nascido na Fazenda Carnaúba chegou a governar a Paraíba, primeiro em um Junta Governativa, e depois como Presidente da Província após ter exercido o mandato de Deputado Geral. Pertencente à família Vilar, igualmente a Dorgival, foram os dois, os únicos filhos de Taperoá que governaram este Estado.

    O segundo padre foi Paulino Vilar dos Santos Barbosa ordenado no Seminário de Olinda em 1840. Era neto do português que fundou a Fazenda Carnaúba e sobrinho do Padre Galdino. Não era vigário da Paróquia mas praticava esporadicamente atos religiosos, notadamente nos seio da família, a exemplo dos batismos de Dorgival Vilar de Carvalho e de Melquiades Vilar, avô e pai de Dorgival.

    O terceiro padre, Abel Alves Pequeno era sobrinho do Padre Paulino e foi contemporâneo de José Américo de Almeida no Seminário Diocesano da Paraíba no inicio do século passado. Bem apessoado, não perdia uma vaquejada e se metia na política enquanto exercia as funções de coadjutor do tio padre. A convivência entre os dois durou até o momento em que o padre mais jovem passou a assediar as namoradas e amantes do padre velho. O padre Paulino batizou muitos dos seus filhos mas nunca registrou a paternidade deles. Desses órfãos de pai muitos descendentes povoaram Taperoá.

    Padre Abel ficou famoso pelos seus destemperos não apenas verbais, mas chegando às vias de fato. Certo dia mandou para o inferno um sujeito com quem discutia. O atrevido retrucou: Se o senhor me ensinar o caminho... Não teve dúvida. Entrou em casa e munido de um rifle “papo amarelo” voltou ao terreiro e mandou bala. Enquanto o homem corria ele gritava: o caminho do inferno é por aí mesmo, seu safado! E depois justificou para as testemunhas: Atirei só para assustar...

    Conta Dorgival: “Quem conheceu Padre Abel dá conta de suas presepadas. Eis mais uma: dando confissão na Igreja de Taperoá, uma mulher lhe narrava suas culpas temporais. Deixou escapara um flato, cujo mau cheiro foi direto às narinas do confessor, que logo se levantou e indagou da confidente se ia fazer o “serviço” ali mesmo, pois não iria ser perdoada. Envergonhada, a mulher retirou-se apressadamente”.

    O padre Theodomiro, que me batizou em Serraria, foi o quarto padre nascido nas terras banhadas pelo rio Travessia. Chegou a ser professor do Seminário Diocesano. Vigário de Taperoá entre 1923 a 1926 foi para a paróquia de Serraria que englobava Pilões, Arara e Borborema, onde nasci. Faleceu em 1958. Era filho do primeiro matrimonio do pai do desembargador Manoel Taigy, do nosso Tribunal de Justiça.

    Sempre releio Dorgival Terceiro Neto quando me interesso em mergulhar na Paraíba de antanho. No dizer do historiador Armando Souto Maior, Dorgival revelava uma virtude rara - a de como se fazer história com humor. Essas pinceladas de um dos seus trabalhos, servem-me de inspiração para o meu discurso de posse no Instituto Histórico Paraibano. A cadeira que

    ocuparei, a partir do dia 25 deste, tem como patrono Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e fundador Dorgival Terceiro Neto. Ambos, ex-governadores da Paraíba. Tremo com a responsabilidade.


  • 22/07/2014

    Os padres de Taperoá


     Revisitando Dorgival Terceiro Neto em “Taperoá, crônica para sua história” encontrei o padre Theodomiro de Queiroz Mello o quarto sacerdote nascido nas terras da antiga Fazenda Batalhão, depois batizada de Taperoá, ou Taper-uá para os indígenas, morador das taperas ou aldeia abandonada em tradução registrada por José Leal Ramos, jornalista caririzeiro que fez nome na imprensa tabajarina. Não precisei ir em busca do meu batistério para saber que foi o padre Theodomiro que sacramentou o meu batismo na Igreja da Paróquia de Serraria, onde chegou a partir de 1926 e alguns anos depois foi promovido a Cônego. Seu nome ficou na minha lembrança de menino, repetido pela minha mãe.

    Em alentado estudo sobre as origens da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Taperoá, Dorgival inclui em ordem cronológica os religiosos nascidos naquela terra que também foi o seu berço. O primeiro deles, Galdino da Costa Vilar, nascido na Fazenda Carnaúba chegou a governar a Paraíba, primeiro em um Junta Governativa, e depois como Presidente da Província após ter exercido o mandato de Deputado Geral. Pertencente à família Vilar, igualmente a Dorgival, foram os dois, os únicos filhos de Taperoá que governaram este Estado.

    O segundo padre foi Paulino Vilar dos Santos Barbosa ordenado no Seminário de Olinda em 1840. Era neto do português que fundou a Fazenda Carnaúba e sobrinho do Padre Galdino. Não era vigário da Paróquia mas praticava esporadicamente atos religiosos, notadamente nos seio da família, a exemplo dos batismos de Dorgival Vilar de Carvalho e de Melquiades Vilar, avô e pai de Dorgival.

    O terceiro padre, Abel Alves Pequeno era sobrinho do Padre Paulino e foi contemporâneo de José Américo de Almeida no Seminário Diocesano da Paraíba no inicio do século passado. Bem apessoado, não perdia uma vaquejada e se metia na política enquanto exercia as funções de coadjutor do tio padre. A convivência entre os dois durou até o momento em que o padre mais jovem passou a assediar as namoradas e amantes do padre velho. O padre Paulino batizou muitos dos seus filhos mas nunca registrou a paternidade deles. Desses órfãos de pai muitos descendentes povoaram Taperoá.

    Padre Abel ficou famoso pelos seus destemperos não apenas verbais, mas chegando às vias de fato. Certo dia mandou para o inferno um sujeito com quem discutia. O atrevido retrucou: Se o senhor me ensinar o caminho... Não teve dúvida. Entrou em casa e munido de um rifle “papo amarelo” voltou ao terreiro e mandou bala. Enquanto o homem corria ele gritava: o caminho do inferno é por aí mesmo, seu safado! E depois justificou para as testemunhas: Atirei só para assustar...

    Conta Dorgival: “Quem conheceu Padre Abel dá conta de suas presepadas. Eis mais uma: dando confissão na Igreja de Taperoá, uma mulher lhe narrava suas culpas temporais. Deixou escapara um flato, cujo mau cheiro foi direto às narinas do confessor, que logo se levantou e indagou da confidente se ia fazer o “serviço” ali mesmo, pois não iria ser perdoada. Envergonhada, a mulher retirou-se apressadamente”.

    O padre Theodomiro, que me batizou em Serraria, foi o quarto padre nascido nas terras banhadas pelo rio Travessia. Chegou a ser professor do Seminário Diocesano. Vigário de Taperoá entre 1923 a 1926 foi para a paróquia de Serraria que englobava Pilões, Arara e Borborema, onde nasci. Faleceu em 1958. Era filho do primeiro matrimonio do pai do desembargador Manoel Taigy, do nosso Tribunal de Justiça.

    Sempre releio Dorgival Terceiro Neto quando me interesso em mergulhar na Paraíba de antanho. No dizer do historiador Armando Souto Maior, Dorgival revelava uma virtude rara - a de como se fazer história com humor. Essas pinceladas de um dos seus trabalhos, servem-me de inspiração para o meu discurso de posse no Instituto Histórico Paraibano. A cadeira que

    ocuparei, a partir do dia 25 deste, tem como patrono Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo e fundador Dorgival Terceiro Neto. Ambos, ex-governadores da Paraíba. Tremo com a responsabilidade.


  • 12/07/2014

    Coerência é coisa de doido


     Fico admirado quando vejo os contrários de ontem, de mãos dadas nos dias de hoje, e os que continuam contrários, a reclamar coerência política de quem esqueceu as divergências e uniu as convergências. O cenário paraibano pós-convenções ainda está nebuloso e até as dezenove horas deste sábado tudo pode acontecer, inclusive nada, para repetir Flávio José.
    Nada em política é novidade. Tudo se repete. Basta olhar para o passado que vamos encontrar exemplos ilustrativos do panorama que vivenciamos. Ainda bem perto, na sucessão indireta de 1978 nos deparamos com Antonio Mariz, deputado federal pela Arena, rebelado contra o regime militar e contestando a indicação de Tarcisio Burity, finalmente eleito pela Assembléia.
    João Agripino que lutara pela indicação de Mariz e perdera, defendia a união de todos nós em torno do indicado pelo Planalto. Ernani Satyro, que além de Ministro do Tribunal Militar foi líder do Governo de Costa de Silva juntou-se a Mariz, a quem detestava até pouco tempo, e formou chapa com ele, disputando a vaga de Senador Biônico, epíteto que gravaram para o senador eleito indiretamente.
    Waldir dos Santos Lima, vitorioso como Presidente da Arena e satisfeito com a indicação de Tarcisio Burity, preterido para vice-governador, encabeçou a rebeldia partidária e foi o principal articulador da disputa marizista, tornando-a quase vitoriosa, graças à estrutura da ARENA posta em suas mãos e colocada à disposição de Mariz. 
    Perdida a convenção arenista nada mais havia a contestar. Os derrotados juntaram-se informalmente a Humberto Lucena e o elegeram Senador da República pelo PMDB. Para o êxito de Humberto foi necessário que o então líder da oposição na Câmara utilizasse o expediente criado pelos militares para beneficiar a Arena. As sub-legendas juntas elegeram Humberto, e Ivan Bichara, apesar de mais votado, perdeu a cadeira senatorial. 
    Quem seguir esse roteiro vai verificar que os que se juntaram para tentar eleger Mariz e depois elegeram Humberto, estiveram separados, e depois passaram a juntos e misturados. Hoje “está tudo como dantes, no quartel de Abrantes”. (Não me refiro aos Abrantes do Lastro, mas ao Duque D`Abrantes que invadiu Portugal enquanto D.Joao VI fugia para o Brasil). 
    À época o ex-governador Satyro foi questionado pela sua incoerência. Primeiro por se juntar a Mariz, e segundo, por contestar o regime a que servia. Ele de pronto respondeu: “Amigo Velho, só tem coerência quem tem idéia fixa. E quem tem idéia fixa é doido”.
    Portanto, concluo eu, não se exija coerência dos políticos.Coerência é coisa de doido. E, como dizia Carbureto, “prá ser doido na Paraíba é preciso ter muito juízo”. Avalie para ser político...


  • 11/06/2014

    A história nas ruas


     Uma boa sugestão aos professores: mandar seus alunos pesquisarem a história dos patronos das ruas onde residem. Claro que encontrarão gente sem muita história ou com história sem merecimento para a homenagem. Outros, porém, com a inserção de seus nomes nas placas indicativas, apenas registram que foi pequena a láurea alcançada. Mereciam muito mais.

    Sempre que encontrava Maurilio Almeida, bananeirense de muitos méritos, ouvia suas queixas com a denominação das ruas de sua terra. Não diziam nada com respeito à história da cidade, verberava, mas refletiam, apenas, a posição política dos lideres locais nas diversas fazes da vida nacional. O Barão de Rio Branco, por exemplo, ganhou nome de rua por favorecer o titulo nobiliárquico do Comendador Felinto Rocha e o do seu pai, o Barão de Araruna. Na fase republicana, Quintino Bocaiuva, Floriano Peixoto e Deodoro da Fonseca, batizaram logradouros. Solon de Lucena, parente e cria política dos Pessoa, carimbou a principal praça com o nome de Epitácio, e a rua principal recebeu o nome do Coronel Antonio Pessoa. A praça com o nome de Castro Pinto, filho de Mamanguape, também vem dessa época.Os filhos da terra, mesmo com merecimento, ficaram nas ruas da periferia.

    Na Capital, um bravo jornalista que fez história até os primórdios do século passado, Artur Aquiles, denomina pequena rua que deságua na Visconde de Pelotas. Este, nascido em águas portuguesas e naturalizado brasileiro, fez nome nas contendas gaúchas como tenente coronel. O titulo de Visconde foi um agrado de Dom Pedro I.

    Álvaro Machado, um dos fundadores da República na Paraíba, é nome da praça onde os carroceiros estacionam, hoje coberta de pardieiros, em frente a estação ferroviária. Alí o prefeito Chico Franca fez erguer um monumento à fundação da cidade. O monumento a Álvaro Machado, todavia, foi erguido na Praça Dom Adauto, mais conhecida como Praça do Bispo, onde termina a Visconde de Pelotas.

    Chefe oligarca que dominou a Paraíba por mais de vinte anos quer na chefia do executivo ou no Senado, Álvaro Machado, um militar, chegou pela primeira vez ao cargo pelas mãos de um civil, seu tio Abdon Milanez, que se fizera amigo do Marechal Floriano quando ele morou na terrinha. Ao contrário de Venâncio Neiva, o primeiro governante republicano, que era civil, e foi ungido graças à força de dois irmãos militares.

    Para se ter uma ideia de como as coisas se processavam na primeira república, registre-se que o presidente José Peregrino, sem consultar o chefe Álvaro Machado desejava fazer Simeão Leal, seu sucessor. A solução foi a volta de Alvaro Machado, o chefe partidário, ao executivo, tendo Simeão na vice-presidencia, mesmo sem merecer a confiança do chefe. Mas o que desejava mesmo Álvaro Machado era retornar ao Rio de Janeiro onde sempre morou. Para conseguir esse intento, foram realizadas quatro eleições extraordinárias, como conta Osvaldo Trigueiro de Albuquerque, em A Paraíba na Primeira República: “Vindo para o governo do Estado, Álvaro abriu vaga no Senado, para o qual foi eleito Walfredo(Leal), que, por sua vez, abriu uma vaga na Câmara. Para esta foi eleito Simeão Leal, que abriu vaga de Primeiro Vice-Presidente. Para esta foi eleito Walfredo, que abriu vaga no Senado. Como vice-presidente, Walfredo tornou-se sucessor de Alvaro, que renunciou ao governo e, em seguida, foi eleito senador, na vaga que ele próprio abrira há menos de um ano”

    Só por esse feito, se lhe faltassem outros méritos, Álvaro Machado mereceria melhor homenagem dos paraibanos. O seu irmão, o médico João Machado, que também governou nosso estado, empresta seu nome a uma bela avenida.


  • 31/05/2014

    Como era no passado


     Mergulhei há alguns dias na história da Primeira República e no perfil dos seus personagens principais. Se nada tivesse acrescido ao meu conhecimento, a leitura do primoroso livro de Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo ( A Política do Meu Tempo), pelo menos serviria para que eu mudasse o conceito a respeito de Washington Luis, o presidente deposto pela Revolução de 1930. Arquivado pela nova ordem nascida com a Aliança Liberal, a imagem que guardei do antecessor de Getúlio Vargas foi a dos livros do curso ginasial, com um perfil desabonador traçado pelos vitoriosos. 
    Osvaldo Trigueiro faz justiça ao último representante da política do “café com leite”, um sistema que elegia os presidentes do País entre as lideranças de São Paulo e Minas Gerais, em regime de revezamento. A força dos partidos e o acordo de seus donos, substituía o pronunciamento das urnas e ungia o indicado como candidato único, quase sempre, pois oposição era coisa rara e o voto era de cabresto. Vencia sempre o governo. 
    Na presidência, Washington Luis confirmou sua reputação de administrador eficiente e fez valer o seu conceito de que “governar é abrir estradas”. Era um homem incluído no rol dos que nem furtava nem deixava furtar, e de nada adiantaram as investigações feitas pelo governo que o sucedeu, resultando em verdadeiro atestado da sua honorabilidade. Um cidadão honestíssimo que chegou a devolver os presentes mandados para uma filha que se casava, aceitando, apenas, aqueles enviados pelo seu círculo de amizade.
    Meu entusiasmo por Washington Luis mudou o rumo desta prosa. Desejava mesmo mostrar como era diferente de hoje, os apoios políticos recebidos pelos candidatos. Primeiro governador da Paraíba depois da redemocratização, eleito em 1947, Osvaldo Trigueiro era perrepista desde estudante, quando formou contra a eleição de João Suassuna. Candidato, deveria receber, naturalmente, o apoio do coronel José Pereira, em Princesa Isabel. Sendo, porém, o coronel, padrinho de batismo de Alcides Carneiro, apoiou seu afilhado. Osvaldo receberia os votos dos liberais chefiados por Nominando Diniz.
    Enquanto Osvaldo fazia comício em Princesa, outro evento era realizado na Lagoa do Parque Solon de Lucena, tendo como principal atração o senador Getúlio Vargas, do PTB. Por obra de Argemiro de Figueiredo, Getúlio veio à Paraíba apoiar o candidato da UDN, para surpresa e irritação do PSD do Presidente Dutra. Voltando do sertão, Osvaldo Trigueiro recebeu essa noticia em Campina Grande, e de bom grado, acolheu os votos dos petebistas, mesmo sem pedir. Como as coisas eram diferentes no passado.


  • 24/05/2014

    O Bolsa Bebê


     Na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso foi iniciado o processo de distribuição de renda através da concessão de bolsas.Inicialmente, na Paraíba, alguns municípios foram escolhidos para um Plano Piloto e a renda mínima foi transformada em moeda de troca de voto.Pelo menos um prefeito a distribuiu, pessoalmente, em dinheiro , nas escolas municipais. Surgiu depois o Bolsa Alimentação, o Bolsa Escola, o Vale Gás, agora tudo somado sob a denominação de Bolsa Família.
    Hoje a companheirada petista se orgulha de colocar essa renda na casa de treze milhões de brasileiros, e os tucanos, tratam de lembrar que nasceu deles a idéia e a sua implantação.A cada eleição presidencial surge a ameaça: se o PT não ganhar, acaba o Bolsa Família. Essa política do medo tem sido o bordão dos que vêm no beneficio a salvação da lavoura eleitoral. E por falar em lavoura, nos períodos de seca surgiu o Bolsa Estiagem. Pelo menos com um mínimo de feira em casa, desapareceram as levas de flagelados que invadiam as feiras e saqueavam armazéns e até os depósitos de merenda escolar. De fome, só morrem os animais, carentes de um Programa Bolsa Ração. 
    O Bolsa Família virou política de Estado e, na Paraíba, o governo estadual ainda paga um adicional a titulo de Abono Natalino que alcançará em dezembro cerca de vinte milhões de reais a serem distribuídos com os beneficiários do programa federal. A oposição no Congresso tentou transformar em lei a permanência do Programa, que, em virtude do nome, traz a marca da transitoriedade. O projeto foi derrotado pela maioria governista que prefere oferecer o adjutório como uma benesse governamental, “sempre ameaçada pelos inimigos dos pobres” .
    Na contramão da política da BEMFAM, que visa o planejamento familiar e distribui anticonceptivos em grosso e à varejo através do municípios conveniados, foi criada o Auxilio Maternidade para o trabalhador rural. Basta que a mulher prove sua vinculação com a terra, atestado por um sindicato rural, e tenha mais de 16 anos de idade, que o beneficio lhe será pago a cada gravidez. E haja menino no meio do mundo.
    Em visita a uma família na zona rural deparei-me com numerosa prole. Admirado com a fertilidade do casal fui informado pela mãe das vantagens da gravidez: 
    -Antigamente todo mundo queria “ ligar as trompas”, hoje ninguém quer mais. Veja o meu curral, apontou a trabalhadora. A cada bebê que nasce, João compra várias bezerras que já viraram vacas e ‘ tão’ dando leite.
    Impressionado com o êxito familiar, apontei para a barriga da mulher, já esperando por novo rebento:
    - Eita, agora vem por aí novas bezerrinhas, não? 
    - Que nada doutor! Do dinheiro desse menino d´agora, João vai comprar uma moto!


  • 11/05/2014

    A história se repete


     Não é essa a primeira vez, na Paraíba, que se desfaz uma coligação partidária. Desde a redemocratização em 1945, incluindo o garroteamento político implantado pelos militares e continuando na volta das eleições diretas, que se registram esses episódios. Eu era menino e ouvi meu pai comentando que Clovis Bezerra, a quem ele seguia na UDN, deveria optar por Argemiro de Figueiredo e não por João Agripino, quando os dois se separaram indo um para o PTB e o outro ficando com o que restou da UDN. Clovis preferiu João Agripino, daí porque eu nasci udenista. Na ocasião, meu pai lembrou ao seu deputado que Argemiro completara sua eleição destinando-lhe os votos udenistas de Soledade. Foi em vão.

    Antes disso, Argemiro e José Américo já protagonizavam cisma semelhante, com o desligamento de Américo da UDN para ingressar no PL. Depois seria a vez de Argemiro sentir na pele a separação de correligionários que foram obrigados a optar entre ele e Agripino.Sem esquecer a divisão pessedista de 1960, quando um Pedro Gondim rebelado deixou as hostes de Ruy Carneiro, seu compadre, fundou o PDC e enfrentou seu antigo chefe,vencendo-o nas urnas.

    Se fossemos lembrar as divergências entre governantes que saíram com os que entraram, teria que citar Tarcisio Burity, para quem somente Tomé de Souza, primeiro governador geral do Brasil, por razões óbvias, não brigou com o antecessor....

    Ernani Satyro, primeiro governador eleito pela Assembléia, começou a emulação com seu antecessor, João Agripino, desde os primeiros dias do seu governo. Como João anunciou a construção de mil obras, Ernani respondeu com “dez obras que valem por mil”. Na sua sucessão, exigiu definição dos deputados- os votantes daquela eleição. Chamava um a um os integrantes da sua bancada e exigia definição. O deputado Assis Camelo tentou escorregar e indagado com quem ficaria, respondeu: “são dois grandes paraibanos”....Ernani contrapôs na bucha: “Isso eu sei, amigo velho! Quero saber com quem você fica!” Assis ficou com o ocupante do Palácio.

    A lua de mel de Ernani com o sucessor que ele mesmo indicara, Ivan Bichara, durou até a inauguração da Rodovia Redenção do Vale onde estiveram juntos cortando a fita. A guerra foi total, com direito até a famosa carta anônima distribuída em uma quarta- feira de cinzas e atribuída aos ernanistas. A propósito, as más línguas atribuíam aos Gaudêncio a autoria da carta por serem os mais destacados amigos de Ernani. Ivan, com muito bom humor preferiu acreditar: “depois que esses gaudêncios aprenderam datilografia, ninguém tem mais sossego na Paraíba”...A versão é do deputado Edvaldo Motta.

    Por sua vez, Burity, cuja candidatura nascera pelas mãos de Bichara e crescera ao redor das jabuticabeiras do Solitário de Tambaú, começou a separação com seu antecessor ao substituir o engenheiro Hermano Almeida, cunhado de Bichara, na Prefeitura da Capital. Dizem que o Ministro José Américo morreu sem saber dessa sucessão na chefia da cidade das acácias.Com a palavra Lourdinha Luna...

    O primeiro governador eleito pelo voto direto, mas vinculado, artimanha dos militares,foi Wilson Braga, que sucedera Burity e depois foi sucedido por ele, mesmo com um Milton Cabral pelo meio. Deputado mais votado da historia da Paraíba, Burity foi o candidato da oposição a Braga, seu candidato na eleição anterior.Derrotou Marcondes Gadelha. Sucedido por Ronaldo Cunha Lima, Burity mandou o deputado Carlos Dunga lhe transmitir o cargo. O que começou mal não poderia terminar bem.Ronaldo passou o governo a Antonio Mariz e o destino do Estado a José Maranhão. No episódio do Campestre, houve o racha. Derrotado na convenção do PMDB, Ronaldo partiu para fundar o PSDB, cujo espólio transferiu ao filho Cássio Cunha Lima.

    Para derrotar Maranhão, o PSDB coligou-se com o PSB de Ricardo Coutinho, então prefeito bem avaliado da Capital. Cássio e Ricardo alcançaram seus objetivos. Ambos se ajudaram e as cadeiras de Senador e Governador foram ocupadas por eles. Agora deram um fim à coligação vitoriosa que tinha fôlego para mais vinte anos de hegemonia na Paraíba. Os seguidores de ambos são chamados a se decidirem por um dos dois. Não adianta dar a desculpa de Assis Camelo. É proibido ficar em cima do muro. Nenhuma novidade. É a história que se repete.


  • 07/05/2014

    O meu amigo Pedro Gondim


     Menino perambulando pelas ruas de Borborema, minha atenção foi chamada por um movimento diferenciado na estação ferroviária. Não havendo previsão de trem de carga ou da chegada de uma “gasolina”, gente na estação, só à noitinha, próxima à chegada do comboio que vinha da Capital com as noticias trazidas pelos passageiros e pelos jornais do dia. A curiosidade me aproximou da plataforma.Indaguei e descobri do que se tratava. Era gente de Serraria que acompanhara Pedro Gondim até o telégrafo, ansiosa como ele, para saber se estava eleito deputado estadual. Telegrafava para Caiçara e esperava a resposta. Para Mari e Mulungú e outros redutos pessedistas. A cada resposta com a quantidade de votos apurados para Pedro Gondim, seus companheiros faziam a festa. De Borborema ninguém se aproximava.O deputado local era Clovis Bezerra e já saíra eleito do velho município de Bananeiras. Só restava comemorar. Pedro, mais sofrido, catava os votos pingados para completar a legenda. Foi eleito e essa foi sua ultima eleição para deputado estadual. Desse mandato, sairia vice-governador de Flavio Ribeiro na pacificação engendrada por José Américo e aceita por Argemiro de Figueiredo, Rui Carneiro e João Agripino.

    Passados alguns anos reencontro Pedro Gondim na Faculdade de Direito onde fora proferir uma aula inaugural do ano letivo de 1963. Consegui acompanhar com dificuldade suas largas passadas e o abordei. Queria trabalhar no Palácio e já sendo servidor publico estava mais fácil. Esclareci que estava começando na imprensa. Me apresentei: “sou filho de Arlindo Ramalho, prefeito de Borborema”. “A origem é boa”, respondeu, agradando minha vaidade. E me mandou procurar José Barbosa de Souza Lima que era o chefe da Sala de Imprensa do Palácio, um embrião da futura Secretaria de Comunicação. Da Sala de Imprensa passei ao Gabinete do Governador e era sua companhia escolhida para as reuniões da SUDENE, naquele tempo, respeitável fórum dos governadores do nordeste.

    Na campanha de João Agripino para governador, ficou arredio. Só participaria se o seu nome fosse bem acolhido pela UDN. Me disse isso, escorado em uma janela do terraço do Palácio cujo piso tinha mosaicos que reproduziam a suástica de Hitler, mandada retirar pelo governador Antonio Mariz. Ele sabia da minha ligação política com Clovis Bezerra, figura exponencial da UDN. Entendi que ele mandava um recado por mim. O recado foi dado e a UDN o recebeu em festa no primeiro comício da Torrelândia. Sua presença levou o funcionalismo a votar em João Agripino, àquela altura, apontado injustamente como inimigo da classe. Seu apoio foi decisivo à eleição de JA.

    Quando deixou o governo e candidatou-se a deputado federal, eu e meu pai abrimos uma dissidência com Clovis Bezerra, que apoiava Joao Úrsulo Ribeiro. Votamos em Pedro Gondim, merecedor de toda a nossa votação em Borborema, cidade que emancipou e dotou de luz elétrica de Paulo Afonso. Ainda estudante, fui um dos oradores da festa de inauguração da energia da CODEBRO, empresa que Pedro Gondim instalou para eletrificar o brejo, depois transformada por João Agripino em SAELPA. Borborema, diga-se de passagem, era pioneira no nordeste em energia hidrelétrica, graças à capacidade vanguardeira de Jose Amâncio Ramalho, pai do general Edson Ramalho que viria a ser um dos fundadores da CODEBRO.

    Quando Pedro Gondim era deputado federal estive em Brasilia pela primeira vez, de passagem para o Rio onde teria uma audiência com o presidente Costa e Silva, paraninfo da nossa turma da Faculdade de Direito e depois, de toda a Universidade, naquele ano de 1967. Hospedei-me no Hotel das Nações e quando fui pagar a conta, estava paga.Meu deputado chegara mais cedo e liquidara o débito. Era esse o homem, capaz de gestos às vezes acima do seu alcance de modo a demonstrar sua amizade. Cassado, não teve tempo de mostrar ao Brasil quem era o líder que a Paraíba mandara ao Congresso Nacional. Sua cassação, por se rebelar contra o Planalto e negar seu voto à cassação de Marcio Moreira Alves reafirmara posição de dez anos atrás quando avisou ao PSD de Rui Carneiro que lhe ameaçava de expulsão : “Prefiro ser expulso por rebeldia a ser condecorado por subserviência”.

    Cassado, viveu vida modesta de servidor público aposentado. A pensão de ex-governador, inserida na Carta Federal para beneficiar o enfermo presidente Costa e Silva era negada a todos detentores de mandatos retirados pelo regime militar ou que tiveram seus direitos políticos cassados. Como deputado estadual, apresentei emenda modificativa à Constituição da Paraíba, que permitiu a Pedro Gondim receber a pensão vitalícia de ex-governador. Saindo os militares do poder, foi indicado pelo José Sarney para uma diretoria do Banco do Nordeste.Ainda tentou uma eleição para o Senado. Os tempos eram outros e os serviços prestados a Paraíba já estavam esquecidos. Enquanto esteve sob o severo normativo do estatuto dos cassados, amargou a distancia dos que se diziam amigos e comparecia apenas a enterros, dizia, porque não precisava de convite...

    Já carregando algumas enfermidades, Pedro Gondim freqüentava diariamente a sede da Associação dos Procuradores onde o vi muitas vezes meter a mão no bolso para atender a pessoas do povo que o procuravam para a compra de um remédio ou o pagamento da conta de luz. Procurador aposentado do estado, somava seus parcos proventos com a pensão vitalícia e assim mesmo, confessava-se um eterno devedor. Morreu como viveu, pobre e digno. Seu patrimônio se resumiu a uma legião de amigos entre os quais me incluo. Sua obra reflete o homem sensível, o poeta bissexto e o intelectual consagrado que ocuparia uma cadeira na Academia Paraibana de Letras. Sua imortalidade, porém, já estava assegurada antes do laurel acadêmico. Pedro Moreno Gondim, nasceu em primeiro de maio de 1914,Dia do Trabalho e neste próximo primeiro de maio, se vivo estivesse, completaria cem anos.


  • 30/04/2014

    Uma dor sem objetivo


     Alguém me mandou dizer pela net: quando um pai morre, deixa órfãos. Quando falece um marido, nasce uma viúva. Quando morre um filho não há substantivo ou adjetivo que qualifique essa perda. Estou procurando palavras para descrever a dor que senti ao ver sepultar meu filho mais novo, vítima da violência das estradas. Para nascer, pulou apressado do ventre da mãe, só dando tempo ao médico colocar as luvas. Eu entrava ainda na sala de parto, por isso foi o único filho que não vi nascer. Se tinha pressa para viver, viveu feliz com a família que constituiu e amava acima de todas as coisas. Se entrou apressado no mundo, foi embora cedo demais, esse filho que eu amava tanto.

    Filho de políticos, nunca utilizou as benesses que o poder poderia oferecer. Lutou para conquistar seu lugar ao sol. Trabalhou em empresa privada, submeteu-se a concursos públicos e colocou sua inteligência e capacidade a serviço da causa da justiça. Era um revoltado com as injustiças. Costumava me procurar para que eu ajudasse um conhecido em dificuldade. Não precisava ser amigo dele, bastava que tomasse ciência da sua história. E quantos desses seus interlocutores eu não atendi e resolvi problemas. Preocupava-se mais com o próximo do que consigo mesmo. Era religioso e tinha absoluta fé em Deus e nos seus desígnios.

    Quando criança foi vítima de um medicamento aplicado em dose excessiva. Corri em busca de Fernando Cunha Lima, seu pediatra. O socorro lhe salvou a vida mas deixou sequelas visíveis em um tique nervoso que não o largou até a morte. Agora o poeta Fernando me manda um poema em homenagem ao seu pequeno cliente: Hoje essa dor maior a te afligir,/Bem maior do que uma punhalada,/E dor como paixão fica marcada,/Dentro do peito sem querer sair. E conclui: Apenas pede a Deus compreensão/pra suportar tamanha provação/De Pai pra Pai ao enterrar teu filho/. Agradecido ao poeta, chorei por ele não poder, pela segunda vez, salvar a vida do meu filho.

    Flávio era a alegria em pessoa. Onde chegava dominava o ambiente com seu afeto contagiante. Por onde passou só fez amigos e todos eles choram a dor da sua partida. Companheiros que o conheceram nos colégios Pio XII e Pio X, na Faculdade de Direito da UFPB, da antiga TELPA ou no TRE estiveram a rememorar passagens, gestos e atitudes do seu comportamento exemplar como amigo solidário e afetuoso. Recebi milhares de mensagens e foi impossível responder a todas, uma a uma.

    Perdi também o meu maior admirador. Tudo que eu fazia, escrevia ou publicava era motivo de seu orgulho. Muitas vezes, lhe entreguei a primeira leitura de meus trabalhos. Ele também fazia o mesmo, e só depois, mandava os seus escritos à publicação. Seus trabalhos técnicos revelavam um estudioso do direito eleitoral, preocupado em descobrir a verdade e ver realizada a justiça. Alguns sítios da internet a nível nacional, publicaram sua obra, esporádica mas na direção da melhor verdade.

    Agora devo procurar o aconchego das minhas netas. A vida pública costuma nos afastar da família. Flavio chegou a proclamar essa sua mágoa em trabalho escolar. Lamentava não ter o pai por perto em todas as horas, para o cinema, para o futebol ou para buscá-lo na escola. Essa dívida eu procurei pagar me aproximando mais do homem que se tornou. Mas perdi grande parte da sua alegria infanto-juvenil. Que Deus me dê uma vida mais longa. Eu preciso pagar a minha netas o carinho que não dei ao pai delas.


  • 21/04/2014

    A emenda Pedro Gondim


     A Ordem dos Advogados do Brasil ingressou no Supremo Tribunal Federal com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) visando a revogação das pensões vitalícias concedidas a ex-Governadores de vários estados da Federação. A OAB acha justo, muito justo, justíssimo, que os ex-Presidentes da República mantenham esse benefício, mas consideram um atentado ao principio da moralidade sua distinção aos ex-governadores. Já identifico a partir daí uma incoerência, até porque, os Estados apenas seguiram a Lei Maior.

    Foi a emenda 01/69 à Constituição Federal de 1967, de autoria dos ministros militares, que introduziu nas Disposições Transitórias o art.184 concedendo aos ex-presidentes que não tivessem sofrido a suspensão de direitos políticos, a título de representação, um subsídio mensal e vitalício sempre igual ao vencimento de Ministro do Supremo Tribunal Federal. E mais, se o Presidente fosse acometido de moléstia, a União pagaria todas as despesas. Mais explícito não precisava: o Presidente Costa e Silva acometido de AVC estava incapacitado e seus “sucessores” resolveram acudi-lo na hora da desgraça.

    A Constituição Estadual de 1970 - que era uma Emenda ( No. 01) - adotou a prática no seu artigo 175 copiando ao pé da letra o mandamento do poder superior colorido pelas três armas. Foram mantidas também as restrições: exercício do cargo em caráter permanente e titular não punido com a suspensão dos direitos políticos.

    Na Paraíba a restrição punitiva acertava em cheio o ex-governador Pedro Gondim titular do cargo em caráter permanente mas com os direitos políticos suspensos por dez anos por ter sido cassado como deputado federal. Por considerar a medida injusta e agravante da pena principal - perda do mandato e dos direitos políticos - apresentei emenda à Constituição suprimindo a expressão “ou não tenha sofrido suspensão de seus direitos políticos”. A aprovação foi unânime. A nível nacional, a ressalva foi retirada pela Emenda No.11/78.

    Posteriormente, o deputado Evaldo Gonçalves traz uma sugestão do ex-governador Ernani Satyro para alterar o dispositivo e fixar um prazo mínimo no exercício do mandato de governador. Teria direito ao subsídio quem ocupasse o posto de governador, em caráter permanente, por um período de “no mínimo seis meses”. A emenda destinava-se a socorrer o ex-interventor Gratuliano de Brito que muito jovem governara a Paraíba e passava por dificuldades financeiras e de saúde no Rio de Janeiro, onde vivia. A emenda foi elaborada por Egidio Madruga com a concordância geral e irrestrita.

    A Constituição de 1989, em vigor, não mencionou o assunto. Através de uma Emenda, (iniciativa do dep.Gilvan Freire) o beneficio ressuscitou e a Paraíba paga a todos os seus ex-governantes uma representação igual ao subsidio do Governador e não mais igual ao subsidio de Desembargador, como era no passado. As viúvas dos ex-governadores foram lembradas em uma lei editada no primeiro governo de Burity concedendo-lhes cinqüenta por cento dos ganhos de um desembargador, a título de pensão. Essa lei é extensiva às viúvas dos parlamentares. Estes tiveram a concessão de sua aposentadoria extinta a partir de 1989 com a revogação do art.270 da CE, após decisão definitiva de mérito no STF que julgou a ADIN 512-0. Mas essa é outra história.( do Livro EM PROSA E NO VERSO- Republicado em homenagem ao Centenário de Pedro Gondim)
    O PADEIRO

    Ainda estudante de direito ingressei nas redações de jornais. Na Tribuna do Povo, jornal udenista secretariado por Archimedes Cavalcanti fazia as reportagens policiais. Habituê das delegacias de polícia em busca de notícia, tomei conhecimento de um estupro em Santa Rita cujos autores foram presos e, no dia seguinte, expostos em fotografia no jornal. Entre os fotografados, um tio meu que tinha uma padaria identificou um dos seus ex-padeiros.Fui ao livro de registro de empregados, retirei sua fotografia e os dados profissionais e no outro dia, Archimedes publicou na primeira pagina da Tribuna: PADEIRO TARADO, com a fotografia do suposto indiciado e a informação “este é um dos sete tarados de Santa Rita, etc, etc”...

    Dia seguinte chega à redação o advogado Zé Gomes, mais conhecido como Zé Moscou defensor dos sindicatos para lavrar protesto contra o jornal, ameaçando ingressar na Justiça para pedir reparação moral.Este rapaz, dizia Zé Moscou, nunca foi tarado, é um trabalhador decente... Archimedes, conhecido conciliador, entrou em acordo com o sindicato e, uma semana depois, publicou o desmentido:

    - PADEIRO, SIM! TARADO, NÃO!

     

     


  • 14/04/2014

    Me incluam fora


     Quando leio os acontecimentos da política paraibana nos dias atuais, chego a conclusão de fiz muito bem em não tentar voltar a uma cadeira parlamentar. Aproveitei bem o meu tempo, dei a minha contribuição, por mais modesta que tenha sido e a encerrei com o advento da nova Constituição Estadual. Os tempos eram outros. O parlamentar era respeitado e o político estimado. Ao ocupar uma vaga na Câmara Federal já no pós-Collor, vivi o inicio da era da deteriorização da imagem da classe. Sempre que saia à rua, mesmo em Brasília, tinha a preocupação de retirar da lapela o broche que identifica o membro do Congresso Nacional. Em Fortaleza, era diretor do Banco do Nordeste e para facilitar o ingresso em um estacionamento oficial mostrei minha identidade parlamentar. O guarda olhou com desdém e comentou:

    - Vocês tão levando os tubos...passa! Deveria estar se referindo aos subsídios dos parlamentares. Foi a ultima vez que exibi a carteirinha que tanto me orgulhou conquistá-la.

    Vivi outros tempos. Era vice-lider do Governo Ivan Bichara. Antes de ir ao aeroporto recepcionar Antonio Mariz que anunciava uma dissidência contra a decisão do Planalto que escolhera Burity para governador indireto, renunciei ao posto. A dissidência foi consumada e não houve pressão, aceno, vantagens oferecidas que demovessem os nossos propósitos.Todos os deputados dissidentes permaneceram firmes até o final da disputa.E se vivia o auge do poder militar.

    Os convencionais, mesmo confinados no Hotel Tropicana e arrebanhados em grupos para a convenção na AL, votaram com independência e perdemos por muito pouco. Essa posição me custou o mandato, reconquistado, porém, quatro anos depois.

    Agora tudo mudou. Os apoios duram pouco e mudam com o vento. Basta que sopre uma melhor vantagem vindo de outra direção. As desculpas são as mais esfarrapadas. E às vezes, românticas. Se fala em namoro, noivado e casamento como fases preparatórias da união política. Mas basta uma das partes não concordar com o regime da comunhão de bens e o casamento se desmancha.

    O debate chega a ser impróprio para menores. Nas ofensas, até o reino animal é atingido. Como hoje em dia sou um leão sem dentes, me incluam fora dessa arena. ( Do Livro EM PROSA E NO VERSO- Republicado por incorreção dos personagens)


  • 09/04/2014

    O último favor


     O meu pai foi vereador por vários mandatos e prefeito duas vezes, além de forte cabo-eleitoral dos candidatos que apoiava. Sua votação era baseada na afinidade que criava com o eleitorado, tão reduzido que permitia sua visita, casa a casa, antes das eleições que sempre ganhou, em Borborema.Depois que ampliou sua área de atuação para Bananeiras, aposentou a seringa que adquirira logo depois que o comercio o deixara. A aplicação de injeção não teria muita utilidade em uma cidade com hospital e outros recursos para atender aos seus amigos e compadres. E estes eram muitos.Em uma Missão de Frei Damião, encheu a igreja, sozinho, com os afilhados a serem crismados.

    O tipo de política que se fazia então, ainda hoje persiste em alguns grotões do interior. Herança do passado, essa política do favor que resulta no voto futuro, tem nome bonito: clientelismo. Para os cientistas políticos, a herança colonial seria o fator predominante da presença do clientelismo na democracia moderna. Nesse cenário, o eleitor aceita um beneficio imediato em troca do voto ao invés de optar por vantagens mais amplas, tidas como incertas. Essa descrença no exercício do mandato ou na retribuição da representação que delega, faz do portador do voto um “interesseiro imediatista”, como diria Odorico Paraguassú. Na sua sabedoria, meu pai não censurava esse comportamento. Para ele, a eleição era a safra do eleitor...

    Não vou aqui desenvolver qualquer tese para mudar a relação entre o eleitor e o candidato. Não sou cientista político. Como um dos atores desse processo, aproveito o espaço para contar a minha experiência, submetido que fui a esse método desgastante por muitos anos. Claro que o volume de votos obtidos não se prende, exclusivamente, ao favor direto ou à troca de alguma vantagem. A ação do candidato, o discurso, as teses que defende, completam os votos necessários à sua eleição. Os “pirangueiros”, como o deputado Orlando Almeida os carimbou, são uma minoria

    identificada facilmente. Como político ouvi muitos pedidos.O mais estranho foi o de uma jovem mulher que desejava um emprego para poder justificar ao marido, as joias que recebia do amante. E me explicou isso com todas as letras, por telefone. O nariz de cera terminou se alongando. O que eu queria mesmo era mostrar que o ultimo favor é que ganha o voto.

    Morei algum tempo ao lado da Federação dos Trabalhadores, na rua da Palmeira. A entidade mantém uma hospedaria para seus associados do interior, em tratamento médico na Capital.O deputado Edvaldo Motta hospedou alí uma família de Patos, com um deles doente. A mulher perguntou a ele como seriam as refeições e ele, brincalhão:

    - Vocês vão comer aí na casa vizinha, do deputado Ramalho Leite.

    Estava acompanhando Antonio Mariz em um comício na feira de Patos quando fui chamado por uma mulher. Desci do palanque para atendê-la e surpreso, ouvi a sua historia:

    - O senhor vai ter dez votos aqui em Patos. É o que minha família tem para agradecer à sua mulher, que nos alimentou por quinze dias, lá na Federação.

    Edvaldo cuidou do doente e Marta o alimentou.Ganhei os votos. Valeu a tese de que o último favor prevalece.(Do livro, A BOTIJA DE CAMUCÁ, no prelo)


  • 03/04/2014

    Os Bezerras no poder


     Essa família Bezerra Cavalcanti é mesmo vocacionada para o poder. Sua ultima façanha foi entronizar um dos seus membros no maior cargo da hierarquia do Estado. Por poucos dias, mas dando continuidade a uma estirpe que vem de longe pontuando na história política da Paraíba. Desta feita, foi a desembargadora Maria de Fátima Morais Bezerra Cavalcanti, aquela menina de preto que conheci frequentando um curso de pós- graduação na Faculdade de Direito carregando na face a tristeza pela perda de sua estimada mãe. Depois se fez juíza,desembargadora, presidente do Poder Judiciário e esta semana Governadora.Senti na emoção do ambiente a presença de Waldir Bezerra, meu companheiro de Assembleia e orgulhoso pai da empossada.

    O primeiro Bezerra Cavalcanti a ocupar a chefia do executivo foi Odon, prefeito de Bananeiras, deputado federal e no final da sua curta existência, deputado estadual. Sucedeu a Severino Montenegro, desembargador Presidente do TJ e nomeado Interventor Federal pelo ministro José Linhares, encarregado da transição democrática em 1945. Esteve como morador do Palácio da Redenção entre 13 de fevereiro a 20 de setembro de 1946. Sua passagem pelo poder deu tempo de exonerar Clovis Bezerra Cavalcanti do cargo de prefeito de Bananeiras, chancelado trinta dias antes pelo desembargador Montenegro. Em substituição a Clovis, assumiu a prefeitura Henrique Lucena, bisavô do atual prefeito Douglas Lucena. Mais adiante, o mesmo Clovis Bezerra, representando o governador eleito Osvaldo Trigueiro, daria posse ao novo prefeito de Bananeiras- Antonio Maia Neto.

    Eterno deputado estadual- Clovis Bezerra exerceria a governança do Estado em várias oportunidades: como presidente da Assembleia, em substituição a João Agripino; como vice-governador de Ernani Satyro e finalmente, na condição de sucessor de Tarcisio Burity com a renuncia deste para se candidatar a deputado federal.

    O terceiro membro do tronco Bezerra Cavalcanti a assumir o governo da Paraíba foi o desembargador Rivando, na condição de Presidente do Tribunal. Foi Juiz e Promotor.Demorou-se no cargo até que fossem feitas as eleições indiretas, através da Assembleia Legislativa, dos nomes de Milton Cabral e Antonio Gomes para governador e vice, em face da renuncia de Wilson Braga e José Carlos da Silva Junior. O presidente da Assembleia era o deputado Evaldo Gonçalves que entrou para a historia como o único paraibano que se recusou a assumir os destinos da Paraíba, mesmo com ordem judicial para fazê-lo. Tinha um projeto mais arrojado- ser Constituinte Federal e participar da elaboração da Carta Cidadã, como a chamou Ulisses Guimaraes. Se assumisse o governo, Evaldo ficaria inelegível.

    Finalmente, no Mês da Mulher, uma representante do gênero assume a chefia do executivo estadual. Sua posse, além de dever constitucional, funcionou como um símbolo de ascensão da mulher paraibana às posições de mando. A desembargadora Fátima Bezerra, trocou a sentença e o acórdão, onde proclama seu senso de Justiça, pelo decreto, ou as leis que no Executivo sanciona.

    Sem dúvida, repito, os Bezerra Cavalcanti são vocacionados para o Poder. Vejam o exemplo de Bananeiras: estão no Poder desde 1945, e quando mudou o sobrenome do prefeito, ainda emplacaram o vice. Talvez tenha sido um erro da ex-prefeita Marta Ramalho substituir seu Bezerra Cavalcanti de nascimento pelo Ramalho do casamento. Não duvido que carregando o nome de sangue tivesse alcançado o Senado. O Ramalho que adotou só lhe garantiu uma suplência de Senador.


  • 18/03/2014

    JOTA A JÁ, JÁ!


     Aquela campanha de 1965 foi a última permitida pelo regime de 64 aos partidos nascidos na redemocratização do País e que tomaram assento na Constituinte de 1946. João Agripino estava lá para exercer o seu primeiro mandato de deputado federal, ao lado de Ernani Satyro, Argemiro de Figueiredo, Fernando Nóbrega, Janduí Carneiro, João Úrsulo Ribeiro, José Joffily, Osmar de Aquino, Plinio Lemos e Samuel Duarte que se somaram aos dois senadores naquele Congresso com 42 senadores e 286 deputados.

    Dezenove anos depois, João Agripino, sob o slogan J.A.-JÁ, desejava conquistar o Governo da Paraíba tendo como opositor outro grande paraibano, Rui Carneiro, acrescido de Argemiro de Figueiredo, como candidato a vice-governador. Era o embate dos chefes partidários:de um lado a UDN, de outro o PSD e o PTB coligados.

    Claudio de Paiva Leite era um dos coordenadores da campanha de J.A. e me recrutou para acompanhar o candidato nas suas viagens ao interior. O pequeno avião fazia mal às minhas tripas, e bastava eu entrar no “bicho” para requisitar os pequenos saquinhos de bordo.

    O deputado Romeu Abrantes, de carona em um vôo saído de Souza, com ares de psicólogo, me curou com uma simples ordem:comigo você não vomita! Inacreditável, mas foi o suficiente.

    O sertão era novidade para mim, ainda estudante e começando a dedilhar matérias para os jornais. J.A acordava cedo, pedia um cafezinho e fumava o primeiro cigarro.

    Na visita a Souza percorremos as estradas empoeiradas que levavam a Santa Cruz, São José da Lagoa Tapada e outras que cercavam a Cidade Sorriso, cujo prefeito, Antonio Mariz, dirigindo um fusca, acompanhava o veículo que ia mais adiante com o candidato a governador, conduzido por Augusto Abrantes, tio do nosso Johson Abrantes, renomado advogado e filho ilustre do Lastro.

    No fusca de Mariz, sua esposa Mabel e eu. A próxima parada foi em Santa Luzia, com passeata pelas ruas conduzidas pelo udenista Inácio Bento, a partir do “campo de aviação”, como se chamava antigamente.

    Em Campina Grande éramos hóspedes do Juiz João Sérgio Maia, primo de J.A. e irmão do coronel José Sérgio, chefe político de Catolé do Rocha. Ou Catolé dos Maia? Logo pela manhã J.A recebe a visita do coronel Luiz de Barros, devidamente paramentado com seus galões da briosa. Passa a dar noticias, ao candidato, da situação política na região do curimataú, de onde estava chegando.

    - Passei em Nova Palmeira, Nova Floresta, Picuí, Soledade; visitei as feiras; e a quem eu perguntava, a resposta era uma só: J.A! É todo mundo por uma boca só... narrava entusiasmado Luiz de Barros.

    Agripino ouvia e machucava o caroço da face, com o olhar fixo no coronel. Terminada a exposição daquela pesquisa corpo a corpo, JÁ não resistiu em utilizar sua fina ironia e com aquele seu risinho característico, comentou:

    - Luiz, você acha que com essa fama que você tem de “brabo”, fardado e acompanhado de um pelotão de soldados, alguém vai lhe dizer que vota contra mim? A risadagem foi geral.


    Poderia contar muitos casos e passagens dessa memorável campanha em que eu votei pela primeira e pareceu-me, a última, para governador. Depois vieram as indicações diretas e as eleições indiretas. 

    Na Assembleia, mesmo rebelado contra a indicação de Brasília e tendo formado no grupo que defendeu a candidatura de Antonio Mariz no Colégio Eleitoral, votei para governador, na qualidade de deputado-eleitor. Tinha duas razoes para não votar em Tarcisio Burity.

    Era do grupo de Mariz, e Burity tinha o meu adversário Clovis Bezerra como candidato a vice governador. Dorgival Terceiro Neto, a quem eu não podia faltar, me convenceu a votar. Foi meu segundo voto para governador, convalidando o processo exótico de escolha engendrado pelos militares.

    Comecei com João Agripino e terminei mergulhando na paisagem política paraibana no pós 64.O que desejava mesmo era relembrar esse grande paraibano que, se vivo estivesse, teria completado neste primeiro dia de março, o seu centenário de nascimento. A Paraíba deve ainda, a João Agripino, pelo que ele representou, uma grande homenagem.


  • 10/03/2014

    O carnaval que não houve


     Naquele ano bissexto de 1962 o carnaval decorria sem quaisquer incidentes. Tanto o Bananeiras Clube como o Grêmio Morenense realizavam os seus bailes tradicionais.O carnaval de rua, sem excessos, era dominado por blocos de crianças e adolescentes. Em Solânea, uma camioneta acompanhava um bloco infantil. Seus ocupantes se descuidaram e o veículo avançou sobre os pequenos foliões, matando três e ferindo dezenas. O carnaval foi encerrado antes do tempo nas duas cidades enlutadas por tão nefasto acontecimento.
    Essa tragédia decidiu a minha vida. A quarta feira de cinzas foi antecipada e na terça-feira de um carnaval que não houve, aluguei um jeep e saí de Borborema onde meu pai era prefeito e fui roubar a namorada. Poucos dias depois estávamos casados, graças a uma licença especial concedida pelo Arcebispo Metropolitano, acionado pelo contra-parente, o então padre Manoel Batista de Medeiros, cunhado de Tia Tonha, irmã de minha avó Natália de Menezes Leite.
    Encontrei com Marta na rua. O silêncio engolia a noite de Bananeiras. Ela pegou em casa um casaco para se proteger do frio e, até hoje, estamos juntos. Completamos no ultimo dia 09 cinquenta anos dessa aventura juvenil que tinha tudo para não dar certo, e felizmente, foi premiada com uma prole que está bem criada e já dos deu dez netos.
    Digo que tinha tudo para não dar certo por que esqueci de contar que era um estudante desempregado e nem o dinheiro para pagar o veículo alugado eu tinha. Confiava no meu pai, a quem enderecei uma carta contando minha decisão e tranquilizando-o de que não largaria os estudos. Levei a companheira de aventura para o Engenho da Pasta,em Pilões, onde sabia que meu tio Zé Noirton estava hospedado. No transporte que me levou, ele voltou, conduzindo a carta que enviei a seu Arlindo Ramalho e o um recado do Senhor do Engenho para os pais da noiva:
    - Daqui ela só sai casada! 
    Sob a severa desconfiança de Tio Né da Pasta, fui encarcerado em um corredor da Casa Grande do engenho. Para o interior da casa onde Marta estava, foi vedado o meu acesso. Qualquer necessidade noturna, só me restava a bagaceira do engenho. 
    Casamos na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Livramento sob as bênçãos do Padre Manoel Lima e a presença de inúmeros curiosos, pois, convidados mesmo, só as testemunhas e Tio Né que fez questão de levar o produto do furto até o altar. Cinquenta anos depois, pude ver a alegria na face de Marta, cercada de filhos e netos, cortando, com atraso, o bolo a que não teve direito na cerimônia de casamento. 
    A MOCINHA
    O governador Ernani Satyro viajava de avião para Brasília na companhia do seu Secretário de Comunicação, Otinaldo Lourenço. Ao ouvir o tilintar de garrafas e copos se aproximar de sua poltrona, o Governador que adorava uma dose de whysk e uma só para ele era considerada pouco, indagou do secretário:
    - Dr. Otinaldo o senhor gosta de beber uma dosezizinha quando viaja?
    Otinaldo, ou porque não gostasse mesmo ou por timidez diante do Chefe, respondeu:
    - Não, Governador, eu não gosto de beber durante o vôo!
    - Pois quando a mocinha (aeromoça) lhe perguntar se quer uma dose, aceite viu?
    (DO LIVRO EM PROSA E NO VERSO)


  • 03/03/2014

    Outros carnavais


     Para quem não sabe fui eu que inventei essa história de arquibancada nos carnavais de João Pessoa. A primeira delas foi armada na Lagoa do Parque Solon de Lucena e vítima de atropelamento. Um jeep transformado em carro alegórico prendeu o acelerador e jogou-se contra o povo. Terminei o dia no Pronto Socorro que ficava a poucos passos do local do acidente, socorrendo os feridos. O prefeito era Dorgival Terceiro Neto entusiasta da idéia que contou com a participação decisiva do querido Barbosinha-jornalista Sebastião Barbosa e do imortal Cabral Batista eterno presidente da Federação Carnavalesca, além do radialista Cardivando de Oliveira.

    O carnaval começava com o Festival de Músicas Carnavalescas também iniciativa da nossa equipe e que revelou muitos astros da musica tendo em Livardo Alves um dos melhores participantes. Na apresentação das músicas concorrentes o acompanhamento era dos músicos da PM incorporados à Banda 5 de Agosto.A orquestra do Maestro Vilô e a presença de Claudionor Germano muso do frevo pernambucano eram destaques do encerramento do festival.

    Na etapa seguinte a eleição do Rei e da Rainha do Carnaval. Eleitos, suas majestades recebiam a chave da cidade e reinavam durante o tríduo momesco. Participava todos os anos da comitiva real. Éramos bem recebidos em todas as agremiações: Cabo Branco, Astreia,Internacional de Cruz das Armas, Esquadrilha V ( alguém se lembra?), Clube dos Oficiais e até o Jangada Clube. A diretoria desse sodalício ( que nome ) certa feita quis impedir a entrada da comitiva real em virtude da participação de uma casal que não era casado legalmente. Comuniquei a Zé Américo Filho que nós voltaríamos da portaria. Ou entrávamos todos ou nenhum. Entramos todos.

    No Cabo Branco um moleque boa pinta misturou por baixo da mesa a cerveja do Rei Momo. De longe vi o despropósito e corri para impedi-lo de beber a loura contaminada. Foi tarde, o gordo era louco por uma cervejinha e despejou o líquido de goela abaixo sem notar que a cerveja estava muito mais amarga e salgada.

    Durante o dia um carro especial fazia o corso conduzindo o Rei e a Rainha com o nosso Barbosinha como pajem. A partir do meio dia a festa era na AABB, tradicional baile que reunia a juventude e os mais velhos que resistiam mesmo depois da noitada do Cabo Branco ou do Astreia.

    O major Ciraulo que inventou o Trio Elétrico ( não foi Dodô e Osmar na Bahia) ainda botava na rua o seu famoso Bloco motorizado e Willys Leal, à época um elétrico participante do corso, ainda hoje tenta reconstituir essa romântica história dos nossos carnavais. Por que eu estava incorporado ao espírito de Momo ? Esqueci de dizer: à época eu era secretário da Prefeitura de João Pessoa.

     CO-AUTORIA

    Já entrava pela noite a cansativa sessão vespertina da Assembléia Legislativa da Paraíba. A bancada do Governo, que eu liderava, tinha interesse no encerramento dos trabalhos para não prolongar os ataques da aguerrida oposição. Manoel Gaudêncio, deputado de horário britânico gostaria de voltar mais cedo para casa, para curtir a brisa da praia de Manaíra e acelerar providencias no Hotel do mesmo nome, de sua propriedade. Na Mesa dormitava um requerimento de prorrogação da sessão. De repente, Manoel me chama ao banheiro que ficava por trás da Mesa Diretora e me mostra um papel. Era o requerimento de prorrogação da sessão que sorrateiramente, surrupiara da pasta do secretário. Olha para mim e propõe:

    - Pegue nesta ponta do papel que eu pego na outra. Amanhã você não vai dizer que fui eu o autor do furto de requerimento…

    E juntos, rasgamos a prorrogação da sessão, deixando os pedaços cair no sanitário. Poucos minutos depois, como não havia requerimento em Mesa, foi encerrada a sessão, para nossa alegria. (Do livro EM PROSA E NO VERSO)


  • 23/02/2014

    A invenção da sinecura


     Quando terminei a faculdade de direito, instalei escritório de advocacia na rua Arthur Achiles, quase um beco, por trás de onde ficava o antigo Pronto Socorro. Saberia mais tarde que era pequena a homenagem que a cidade prestou a esse grande jornalista que viveu entre o final da Monarquia e as primeiras décadas da República. Arthur Achiles é o patrono da Cadeira 07 da Academia Paraibana de Letras, cujo fundador, foi o mesmo da Academia, o imortal Coriolano de Medeiros, sucedido por Maurílio Almeida e Dorgival Terceiro Neto. Ao tomar assento naquela cadeira, tracei os traços principais da atuação do seu patrono, finalizando com o texto que transcrevo abaixo:

    “Com essas pequenas investidas publicitárias, ocupando parcos espaços nas páginas de O Commércio, Artur Aquiles sustentava a sua batalha cívica e mantinha o seu estado de pobreza. Maurílio Almeida, de quem me ocuparei adiante, transcreve referência de Tavares Cavalcante, no prefácio do livro de Apolônio Nóbrega - A Historia Republicana na Paraíba: “É-me grato gravar aqui o nome de Arthur Achilles com os melhores sentimentos de veneração e respeito. Foi a mais pujante organização de jornalista que nosso Estado produziu e fora da Paraíba poucos a igualaram... Não houve problema paraibano que ele não tratasse, interesse de sua terra que ele não advogasse. Sua posição sempre foi moderada e construtiva, salvo quando queimado pelo fogo da politicalha. Sua maior critica resultou da presunção de que “as sucessivas administrações não correspondiam aos vitais interesses do Estado”.

    Artrur Achilles alimentava a esperança de que a República fosse o prenúncio de melhores dias para a sua Paraíba. Frustrado no seu íntimo por batalhas inglórias que teria travado, ensarilhou as armas “para evitar o contato dos homens iludidos com as aparências do prestígio e do poder,tudo envidando para não perdê-las”.

    Achilles tinha razão. Viviam-se as primeiras décadas da República.O Marechal Deodoro da Fonseca, que a historia oficial rotulou de Proclamador da República, de tão doente não teve forças para fazê-lo ou evitou a oficialização do ato para não contrariar seu íntimo monarquista. Conta Laurentino Gomes, em livro 1889, que, mesmo enfermo, o marechal tinha que se fazer respeitar pela imponência do momento. Ao se aproximar do Campo de Santana, pede uma montaria e lhe oferecem um manso cavalo baio, herói involuntário da República, por suportar as nádegas ilustres do Marechal Deodoro da Fonseca. A partir desse serviço cívico inusitado, imortalizado em quadro do pintor Henrique Bernardelli, o cavalo foi “aposentado do serviço militar por serviços relevantes prestados ao novo regime, passaria o resto dos seus dias sem fazer nada, vivendo confortavelmente no estábulo do seu quartel no Rio de Janeiro”. Estava inventada a sinecura!

    O próprio Deodoro reconheceria: “Vejam os senhores, quem lucrou no meio de tudo aquilo foi o cavalo”.

    O golpe que resultou na República, trouxe benefícios não somente para o cavalo de Deodoro, mas também para os militares que dele participaram, e alguns civis de escol, que ganharam a patente de generais “sem nunca ter envergado uma farda”. Rui Barbosa passou a ser chamado de general Barbosa e Quintino Bocaiuva, de general Bocaiúva. Tal ação

    entre amigos recebeu do monarquista Eduardo Prado uma sentença reveladora: “O Quinze de Novembro não foi, portanto, um ato heróico; foi um bom negócio”.

    A nossa Republica, que já nasceu capenga, levaria mais de um século, aos trancos e barrancos, para, finalmente, incorporar o povo em seu contexto. Campanhas como a malograda Diretas Já trouxeram o povo para efetivas manifestações populares, hoje mais comuns, mais freqüentes e mais intensas, expondo reivindicações e cobrando seu atendimento.Premonição de Ulisses Guimarães: “ Lula, nós botamos o povo nas ruas.Quem vai tirá-lo de lá?” Descontados os atos de vandalismo, louve-se nas manifestações populares a troca do cômodo “dormir eternamente em berço esplêndido” pela afirmação de que nesta pátria “um filho seu não foge à luta”.”(do meu discurso de posse na APL)


  • 17/02/2014

    Os alemães no Brejo


     Guardei desde menino a imagem daquele galego grandalhão que morava num quarto externo da casa dos meus pais em Borborema. Conhecido como “seu” Guilherme, ainda hoje não conheço o seu nome familiar. Chegou à Vila de Camucá em uma madrugada de chuva.Temendo pela própria vida pediu abrigo e proteção ao dr. Jose Amancio Ramalho, então chefe político da localidade. Fugia da Vila de Moreno, distrito do mesmo município de Bananeiras, onde todo o seu patrimônio fora devorado pelo fogo. Os brejeiros viram naquele comerciante alemão a oportunidade de vingar os brasileiros mortos nos navios afundados por submarinos germânicos. 

    É sabido que a neutralidade do Brasil na segunda guerra foi quebrada pela agressão do Eixo à nossa frota de navios mercantes. A morte de brasileiros nesses ataques fez o País aderir ao conflito. Era agosto (sempre agosto) de 1942 e em apenas dois dias, mais de seiscentos brasileiros tiveram o mar como tumulo, junto com seis navios abatidos na costa do nordeste brasileiro. A notícia ecoou por toda parte e os estrangeiros cujas nações estavam unidas a Hitler, pagaram com suas posses o prejuízo bélico. A Vila de Moreno não deixou por menos: expulsou o único inimigo ao seu alcance e extinguiu o seu comercio. A Vila de Camucá foi seu exílio, sob a proteção do pacifista Zé Amancio e do juiz Mario Moacyr Porto, da Comarca de Bananeiras.


    Por que o alemão, no fim da vida, morava na minha casa? Ao se estabelecer na hoje cidade de Borborema, seu Guilherme fez do meu pai seu sócio em um empório de tecidos, miudezas e ferragens e o transformou em um homem rico. A política levaria tudo, a partir do momento em que meu pai tornou-se único proprietário da firma. O alemão acometido de tuberculose faleceu no Recife para onde meu pai o levara, a seu pedido, para morrer junto dos familiares ali residentes. Ficou muitos meses em tratamento, naquele quarto anexo à minha casa onde guardo a lembrança da sua presença.


    Outro alemão que já estava em Borborema quando seu Guilherme chegou chamava-se Harris Kramer. Casou com dona Alzira Lucena e constituiu numerosa família. Um de seus filhos foi à pia batismal levada pelos meus pais.Eram compadres. Mecânico dos bons, dedicava-se à manutenção da indústria de fécula e da hidrelétrica,( iniciativas de Zé Amâncio) e ao trabalho de construção e restauração de peças de uma dezena de engenhos de rapadura da região. Um filho de seu Harris, Artur, é Auditor Fiscal do Estado. Dona Alzira era filha de Adelson Lucena e, enquanto na ativa, foi agente dos correios de Borborema. Era prima de Humberto Lucena que exerceu durante longos anos hegemonia administrativa sobre os Correios e Telégrafos, desde que seu pai, Severino Lucena, exercera a direção geral no estado.
    Em Bananeiras fixou-se por alguns anos seu Frederico, chegado ao brejo na mesma época dos dois já citados. Migrou para Natal e seus descendentes estão ali arraigados. Antes de todos esses, trazidos pelo Comendador Felinto Florentino da Rocha, filho do Barão de Araruna, chegou a Bananeiras outro alemão e ali constituiu família. Conta Maurílio Almeida que esse germânico estava preso no Recife, com toda a tribulação do seu navio. Foi entregue sob custódia ao Comendador, que necessitava de um mecânico para montar uma usina de beneficiamento de café, na época em que Bananeiras era a produtora do melhor café do nordeste. O Comendador não contava introduzir o alemão Wildt na sua família, mas foi o que aconteceu. Uma bisneta desse alemão é a primeira coronela ( com o perdão de Dilma) da Policia Militar da Paraiba. Wildt trabalhou com outro patrício em Alagoa Grande, estabelecido com oficina mecânica, a serviços dos engenhos. As águas de Camará destruíram essa oficina localizada às margens do rio, na chegada de quem vem de Areia. Esses alemães deixaram a Europa após o primeiro conflito mundial, prevendo e temendo uma segunda edição.Estavam certos.


  • 12/02/2014

    A quota dos parentes


     Nos concursos públicos fica obrigado a reserva de um percentual de vagas para os portadores de deficiência física. Algumas universidades já adotam quotas para negros nos vestibulares. Tudo isso é feito em nome da não discriminação. Na minha opinião se trata de discriminação explícita e consentida. Um privilégio! No outro viés, discriminar parente de agente político, constituído pelo voto ou por nomeação, pode. É politicamente correto. Ninguém defende quotas para parentes. 

    É também privilégio, nepotismo é o nome da moda.

    Não vejo diferença entre a nomeação de um cidadão qualquer e um cidadão parente da autoridade que nomeia. O defeito está na origem legal da nomeação. O titular de cargo comissionado é de livre escolha e sua demissão depende exclusivamente da vontade de quem o nomeou. Daí, o cargo serve para qualquer um, seja parente ou aderente, negro, amarelo ou índio.

    Não vejo também qualquer distancia entre a nomeação de um parente, por que é parente e a nomeação de um amigo, por que é amigo e de um cabo eleitoral, por que tem votos. Mais uma vez, o defeito vem da liberdade conferida a quem nomeia. Mas quando se noticia no radio, na TV ou nos jornais, se fala em “nomeação de parente sem concurso”. Não se esclarece que é a lei que permite esse tipo de nomeação sem qualquer discriminação a parente, negro, branco, católico ou protestante.

    Pedro Gondim costumava dizer que é difícil a situação do político. “Se não nomeia um parente, é ingrato. Se nomeia, é corrupto”. Burity no primeiro Governo prestigiou os cunhados. “Nesse Governo quem não é cunhado é coitado” dizia Eilzo Matos. No Burity II, os sobrinhos já crescidos tomaram conta e surgiu novo “slogan” da oposição: “Quem não é sobrinho, é coitadinho”. Clovis Bezerra, instalou os genros no Governo e eu não perdoei: “Instalou-se a genrocracia”. Robson Espínola se irritava: “só é contra parente quem não os tem”. Agripino nos comícios proclamava: “Eu não gosto de parente”. Faltou dizer: dos outros...

    O interessante é que quando o sujeito entra na política sua primeira referencia é a família. Os familiares são os cabos eleitorais natos.Morrem de trabalhar para eleger o parente ilustre. E depois de eleito, a ordem é chutar os parentes? Família é eterna, e Rui Carneiro, o velho, já dizia: “é instituição divina”. Os amigos dos políticos são passageiros. Político não tem amigos, tem instantes de amizade. A amizade dura por um mandato e raramente se prolonga depois dele. A família não, é permanente. No fim da vida, sem mandado e sem poder e conseqüentemente, sem amigos, se o político não contar com a família, vai sozinho pro cemitério. Vai faltar quem leve o caixão.


    MICASSÁRIO
    Engana-se quem pensa ser da autoria da crônica social a invenção dos aniversários fora de época e com convites pagos, os chamados micassários. O cabo Bezerra, destacado no antigo distrito de Sossêgo, hoje cidade, (onde tirou o sossêgo de muita gente, segundo o então deputado Evaldo Gonçalves) e, depois, delegado do Casserengue, é quem merece esse crédito. Mesmo quando comemorava o aniversário em ambientes abertos, tipo campo de futebol, ele arranjava um jeito de ressarcir os gastos da festa. Bastava uma ordem sua.
    - Só assiste ao jogo quem levar uma garrafa vazia.
    Depois vendia as garrafas e pagava a festa.Se a festa fosse na sua casa, na entrada, se deixava a garrafa ou o presente. Em uma dessas festas, eu e o então prefeito Arnóbio Viana levamos duas garrafas de whisky de presente, de olho no seu conteúdo. Lêdo engano, além de só aparecer cachaça na mesa, a conta foi recheada, inclusive, com a despesa da policia que garantia a tranqüilidade da festa. 
    Nós pagamos o primeiro micassário... (DO Livro, Em Prosa e no Verso)


  • 03/02/2014

    Meu único sócio


    Quando a legislação eleitoral facultou espaço radiofônico a partidos e candidatos, para ser ouvido no brejo, tinha que me servir da Radio Constelação, iniciativa de Zenóbio Toscano, ainda no nascedouro. Não sendo pouco o deslocamento para Guarabira, se acresça ao sacrifício a ladeira mais íngreme da cidade onde eram localizados os estúdios e transmissores. O programa era enviado em fita cassete com a fala dos majoritários e dos candidatos às eleições proporcionais. Era o trabalho do partido. O meu era enxertar na fita do programa diário a minha mensagem, o que era repetido por Zenóbio e Maranhão, o nosso federal. As fitas se multiplicavam e chegavam às emissoras de Guarabira, à Radio Serrana, de Araruna e Integração, de Bananeiras. Esta ultima propriedade dos meus adversários e onde era proibida a minha entrada.

    Diante desse cenário passei a lutar para adquirir a minha própria emissora de rádio. Acionei o Ministério das Comunicações e o prestígio de Humberto Lucena conseguindo que se abrisse o edital para uma emissora em Solânea. A nova rádio denominar-se-ía Correio de Moreno, em homenagem ao antigo Distrito.

    Quando já estava encaminhando a formação social da empresa que concorreria à concessão, Humberto Lucena me participa que o deputado José Maranhão, que mais tarde Duda Mendonça transformaria em Zé, desejava participar da sociedade. Ponderei que ele já tinha uma emissora em Araruna, me contrapondo ao argumento de Humberto: “ele foi majoritário em Solânea e não deseja ficar fora do empreendimento”. Acatei meu novo sócio diante do argumento irrespondível de que ele tinha dinheiro e eu não dispunha dos recursos para o investimento. Dividimos a empresa em quatro partes com quarenta por cento para cada um de nós e os vinte restantes divididos entre uma sobrinha de Maranhão e o então prefeito de Borborema, Amâncio Ramalho. Constituída a firma o projeto foi engavetado. A Radio Serrana perdeu sua concorrente e a Radio Integração a sua oponente.

    A sobrinha de Maranhão passou em um concurso federal e me procurou para concordar com a sua retirada da empresa. Assinei os papeis necessários. Amâncio Ramalho faleceu deixando o problema para Formosina, sua viúva. Solânea continua sem a sua emissora de radio e eu, continuo sócio de Zé, ( Ah!. se fosse nos bois do Tocantins...) uma vez que até hoje a Radio Correio de Moreno não morreu perante a receita federal.

    E enquanto permaneço sócio indesejado de uma rádio inexistente, fico impedido de tirar certidão negativa na Receita Federal. E assim termina a minha única experiência empresarial.(Republicado por conta da minha labirintite)Em tempo:Graças ao Sistema Correio da Paraíba, Solânea hoje possui a Radio Correio da Serra.

    A QUESTÀO- O comerciante José Brasiliano da Costa estabelecido em Borborema, resolveu abrir uma janela para um terreno de propriedade do dr.José Amâncio Ramalho. Este

    entrou na Justiça e o juiz de Bananeiras, dr.Mario Moacyr Porto lhe deu ganho de causa, mandando fechar a janela. Brasiliano recorreu ao Tribunal de Justiça e ganhando o recurso, reabriu a janela. Zé Amâncio foi ao Supremo Tribunal e lá, teve reconhecido seu direito e a justiça mandou fechar a disputada janela. Brasiliano estava cumprindo a sentença e fechando a janela, quando chega o Zé Amâncio e o aborda:

    - Eu não disse que você não tinha o direito de abrir essa janela?

    - Pois é, eu perdi e estou cumprindo a decisão da Justiça, respondeu conformado o comerciante.

    E quando pensava que Zé Amâncio fora debochar da sua derrota, ouviu dele, surpreso, sua própria sentença:

    - Agora você pode abrir a janela. Eu só queria provar que você não tinha direito.

    E continuaram bons amigos! ( Do livro EM PROSA E NO VERSO)


  • 26/01/2014

    A mágica do paletó


     Passei muitos anos da minha vida embalado no paletó e enforcado na gravata. Hoje, dificilmente, vou a um evento que me exija essa indumentária. Mas o trajo exerce sobre as pessoas uma influência incomum. Quando costumava comprar pão, nunca entrei na fila da padaria estando empaletozado. O balconista, de longe, cuidava de me atender com prioridade. Eu penava quando deixava o paletó em casa.

    Um governador da Paraíba fazia questão de só conceder audiência aos que usassem o terno tradicional. Talvez tenha sido no seu governo que Ariano Suassuna foi barrado por não usar a vestimenta. Pudera, rebateu com bom humor o filho de João Suassuna, nascido no Palácio da Redenção:

    - A ultima vez que entrei aqui foi totalmente nú...

    Na Assembléia, quem pretendeu quebrar o protocolo e abandonar o “devidamente trajado” provocou uma verdadeira revolução regimental. A façanha foi protagonizada pelo então deputado Antonio de Pádua de Carvalho. Entusiasmado com o estilo janista de se vestir, pretendeu introduzi-lo no respeitável plenário dos anos sessenta. O uso do pijânio não durou uma semana.

    Em Bananeiras, um vereador meu correligionário era herdeiro de todos os paletós que eu arquivava do uso diário. De repente, aderiu a Afrânio Bezerra, meu adversário. Meu pai externou ao também vereador Agapito Teixeira sua decepção com o pupilo desgarrado e revelou: recebia de Severino até os paletós! Quero ver os paletós de Afrânio caberem nele. E Agápito, bonachão:

    - Tem nada não Arlindo! Todo político não calça quarenta? Se o sapato dá em todos, o mesmo deve acontecer com o paletó...

    Certa feita precisei de um paletó com urgência. O fabricado em série ainda não era fácil de achar. Tendo roubado a moça para casar, adaptaram às pressas uma jajaba de meu pai para que eu subisse ao altar.

    Dizem que casar com roupa alheia dá sorte. Só pode ser verdade, esta semana completo quarenta e oito anos de casado.
    No interior, as festas de clube não permitiam a entrada sem o terno.

    Meu pai era vereador e não abandonava o surrado paletó nas sessões da Câmara. Nas noitadas do Bananeiras Clube socorria os estudantes da Escola Agrícola Vidal de Negreiros emprestando a roupa da festa.

    Um estudante entrava e passava o paletó pela janela para o seguinte. Cearenses, pernambucanos, riograndenses e muitos conterrâneos que estudaram em Bananeiras nos anos sessenta, ou vestiam o paleto do velho Arlindo ou ficavam sem dançar nas festas organizadas pelo professor Vicente Nóbrega.

    Ao que parece o paletó também ajuda a melhorar as finanças de quem o veste. Waldir dos Santos Lima costumava avisar:

    - Quando me virem bem alinhado, de paletó novo, é porque estou liso... (Do livro EM PROSA E NO VERSO)


  • 19/01/2014

    O atleta


     Fui magro a vida quase inteira. A minha média de peso até perto dos cinquenta anos, não passava dos sessenta quilos. Nunca pratiquei esportes e minhas caminhadas são feitas, bem aboletado na cadeira de um veículo. Vida sedentária e ausência de exercício tinham que me levar a um excesso de peso, principalmente por falta, também, de uma dieta responsável. Mas tudo isso é possível corrigir, desde que haja disposição para tanto.

    Ao amanhecer do dia, acordo com uma imensa vontade de fazer uma caminhada. A praia está próxima e suas areias convidativas. Espero um pouco e essa vontade passa. Longe da praia, minha dificuldade é para calçar o tênis. Às vezes eu consigo e me misturo entre os caminhantes. Descobri que andar engorda. Quase todo mundo que caminha é barrigudo...Termino perdendo o entusiasmo.


    Nos anos sessenta ganhou muito prestígio o jogging, sistema inventado pelo dr. Kenneth Cooper. Por esse método, você marcha mais rápido que a caminhada e mais lento que a corrida. Quem consegue esse equilíbrio e o pratica todos os dias, tende a emagrecer pelo menos vinte e cinco vezes mais do que os não praticantes - é o que dizem os estudos, quase sempre de revistas científicas inglesas que a gente nunca ouviu falar.


    Mas segundo os estudiosos do assunto, não precisa ir à praia ou utilizar as avenidas isoladas para a prática esportiva por determinado período da manhã. Se todos os dias, você circula o perímetro do seu bairro, esse exercício serve até para prevenir o diabetes. Precisa, apenas, escolher uma hora certa. Por exemplo, se a caminhada de trinta minutos é feita após o jantar,há o indicativo de perda de peso duas vezes maior, com redução do açúcar e da gordura corporais. Caminhar na área coberta do seu prédio, nem pensar! Ao ar livre, se emagrece muito mais do que em ambientes fechados. Esqueça, portanto, a esteira, e calce o tênis. Procure a calçadinha da beira mar ou do rio, escolha um alvo como meta, e parta em busca de um corpo mais esbelto.


    Depois de aprender todas essas lições resolvi me arriscar. Fui pela primeira vez este ano à beira do mar e comecei uma caminhada vagarosa. Ao dar os primeiros passos encontrei o conselheiro Fernando Catão, caminhante já experimentado e de agradável papo. Ele fez meia volta e fomos na mesma direção. Começamos a revisar os assuntos da atualidade, desde os presídios maranhenses à sucessão estadual. Fora da política, mas por dentro do assunto melhor que ninguém, por ser um expectador privilegiado, me arrastou e obrigou, sem que eu notasse, a manter seu ritmo de atleta das calçadas do Parque da Criança. Não há coisa melhor para esquecer o cansaço do que uma conversa animada...


    Já ia perto de Areia Dourada e avistando a zona rural de Cabedelo - Areia Vermelha,quando encontrei dois filhos meus e suspirei aliviado. Era a oportunidade de voltar na direção do ponto de partida. Foi nessa ocasião que constatei como eu estava longe de casa... Dei uns mergulhos, sentei-me ainda umas três vezes durante o percurso e alquebrado pelo esforço sob o sol do meio dia, enfim cheguei.
    Desde ontem estou andando como um pingüim. Duas bolhas enormes na sola do pé me negam um deslocamento equilibrado. Encerrei, antes de começar, a minha atividade de atleta.


  • 14/01/2014

    A UNIMED é nossa!


     É muito popular a anedota do vendedor de seguros que abriu sua linguagem de camelô perante um fazendeiro endinheirado, coisa rara nos dias de hoje. Após ouvir a cantinela do visitante, o visitado concluiu: meu amigo, pelo que eu vejo, nesse seu negócio todos ganham e só quem perde sou eu... Quero não!.
    Seguro de vida e plano de saúde é um negócio bom de ter, desde que não se precise usar! O primeiro não é você que desfruta e o segundo você sofre nele. Almejo demorar muito a utilizar um e não precisar nunca de usar o outro.Domingo passado, porém, tive que usar minhas prerrogativas de associado da UNIMED e a carteirinha verde me proporcionou ingresso ao sofrimento VIP. Sim, porque beneficiário da inscrição de minha mulher, aposentada da Assembléia Legislativa, devo registrar a melhoria de status que o atual presidente proporcionou aos filiados do Plano de Saúde contratado com o SINPOL, o sindicato da categoria.
    Adentrei, como dizem os repórteres policiais, por volta das onze e trinta na sala de triagem do Pronto Atendimento da UNIMED, onde relatei pela primeira vez meus achaques. Aferida a pressão arterial me carimbaram com uma fitinha amarela. Na parede, ví um cartaz que me tranqüilizava... A área vermelha era a mais desesperadora. Estava salvo! Mandaram-me a outra sala de recepção e depois fui atendido pela médica plantonista.Muito atenciosa me prescreveu um “cachete” sublingual para diminuir a pressão, um medicamento intravenoso via soro fisiológico e uma tomografia da cabeça. A tontura que eu sentia fazia o prédio do hospital rodar desde a Beira Rio à beira mar...
    Introduzido no Box Feminino, disputei a cadeira com uma amiga servidora do TCE que me cedeu a vez, por cordialidade e em respeito à minha idade. Ela foi levada a outra cadeira no Box Masculino. Haja espera pelo “cachete”... Me irritei, impaciente, e tombando fui até o balcão da enfermagem reclamar providências. Hora e meia depois fui atendido. Com o soro dependurado fui levado em cadeira de rodas até o subsolo para a tomografia. E haja soro! Na primeira garrafinha já absorvera a medicação prescrita e estava já no quarto tubo. Indaguei por que:
    - Senhor, a médica só lhe dá alta depois do resultado da tomografia e estamos aguardando que o radiologista volte do almoço para assinar o laudo. Fique tomando esse sorinho, disse a enfermeira, enquanto o médico chega...
    Perdi a paciência! Esbravejei: minha filha, disse à enfermeira, me traga um pirulito, um café, um doce ou uma sopa. Assim devo esperar o médico. Esperar médico tomando soro foi a primeira vez.Aliás, diga-se de passagem, em setenta anos de vida,era a segunda vez que tomava soro. 
    Em seguida entra a médica, ouve minha reclamação, e manda tirar o soro. Lá para as quatro e meia da tarde, recebo alta e no dia seguinte vou procurar dr. Candeia. A coluna vertebral estava reclamando as mais de quatro horas naquela cadeira- do- papai da UNIMED.
    Conto essa minha história, iguais a tantas outras que li pela rede social, para tentar melhorar as coisas. Era um domingo, por certo com excessos de pacientes e escassez de enfermeiros e atendentes. O personagem é conhecido e enquanto esteve quase deitado na cadeira-leito-ambulatorial, foi visitado por dois médicos renomados que se prontificaram para qualquer necessidade. E os anônimos? Como são tratados?
    A UNIMED é uma instituição séria, com gente responsável à sua frente. Mas ela pertence aos seus associados. A UNIMED é nossa! Defendo uma reavaliação dos seus procedimentos, uma melhoria na remuneração dos seus prestadores de serviço e, sobretudo, humanização nas relações com seus pacientes. Recentemente, pude comparar o Hospital da UNIMED com o Hospital Napoleão Laureano e, com satisfação, posso dizer que essa meritória instituição que atende gratuitamente a todos os paraibanos que por infelicidade a procuram, está muito à frente em organização e eficiência. Que Deus me impeça de procurar qualquer dos dois. Amém!


  • 09/01/2014

    A história em três por quatro


     Ainda alcancei aqueles fotógrafos que se concentravam na Praça Pedro Américo, em frente ao prédio dos Correios. Quem queria fotos, apenas, para documentos, devia esclarecer ao retratista que, invariavelmente, perguntava:

    - Quer com Correio ou sem Correio?


    A meia dúzia de retratos três por quatro era fornecida sem o prédio dos Correios ao fundo,às vezes acrescidos de paletó e gravata,quando se exigia essa indumentária.O paletó cabia em qualquer corpo retratado. A minha cédula de identidade, com fotografia originária da Praça, era um espaço em branco, desbotado pelo tempo. Fora assinada por Gato, o então chefe da Instituto de Polícia Técnica, quando eu tinha dezoito anos.Renovei-a aos setenta.


    Na cidade pontificavam em seus domicílios fixos, outros artistas da fotografia. O velho Gilberto Stturker tinha endereço na esquina direita do Paraíba Hotel. Na esquina esquerda, pontificava Neiva. Ariel Farias e depois seu filho Orion reinavam na Miguel Couto e foram ficando mesmo depois do Viaduto Terceirão.Castanha retratava na Praça João Pessoa e Vavá, tinha o seu Petit Foto, na rua da República. Sem esquecer Aguinaldo Estrela, que era encontrado nas proximidades do Cine Rex.


    No mundo oficial, Rafael Mororó e Waldomiro Ferreira foram os mais longevos fotógrafos oficiais, um estadual e o outro municipal. Quando eu conheci Mororó ele era mais chefe dos fotógrafos de Palácio do que propriamente um deles. Ainda editou uma obra sobre a cultura do agave, cujo título, falava em Ouro Verde, mandada publicar por Pedro Gondim. Waldomiro, o Cabeçao, surpreendeu João Agripino estirado em um banco e dormindo a sono solto no salão do deserto Aeroporto Castro Pinto enquanto aguardava uma aeronave. Foi foto de primeira página mas quase perde o emprego. Cabeçao chegou a vereador na capital e deixou Tavinho Santos como herdeiro,bom político mas sem qualquer aptidão para a fotografia.


    Acervo maior deixou Walfredo Rodrigues. Antes que se perdesse, Dorgival Terceiro Neto me autorizou sua aquisição e instalamos o Museu Fotográfico Walfredo Rodrigues, em um casarão da Duque de Caxias, restaurado por Balduino Lelis. O prefeito Hermano Almeida levou o museu para a Casa da Pólvora e hoje ninguém sabe dizer por onde anda a historia da cidade contada pela lente de WR.


    Essas reminiscências vêm a propósito do trabalho de Josélio Carneiro- “Governo da Paraiba, Cenas dos Últimos 80 Anos”- onde ele leva o leitor a percorrer a história da Paraíba através da fotografia e dos arquivos dos repórteres vinculados à área de comunicação do Estado. A pesquisa envolveu os autores dos flagrantes, e as legendas indicam os personagens que naquele momento, davam as ordens na Paraíba e no Brasil.


    Ao identificar em uma dessas fotos o locutor Geraldo Cavalcanti, lembrei-me de sugerir também o resgate da história, via oral, pela voz dos locutores da emissora oficial do estado.Lembrei que Geraldo, afônico, foi substituído por um novato a quem recomendou a melhor forma de cumprir a tarefa de cobrir solenidade palaciana.Ao saltar do veiculo a primeira dama, o locutor sapecou: “Acaba de chegar S.Excia, o governador, acompanhado de sua primeira mulher”...


    Quem não se recorda do genial Paschoal Carrilho? Transmitindo um banquete, diretamente do Palácio, incomodado por achar desnecessária aquela missão, seu vozeirão se fez ouvir na então PRI-4: ‘’Já estão comendo a mulher do Governador e o Bispo.As demais autoridades estão na fila”...


    Da mesma forma que os fotógrafos e sua produção, mostram, na pesquisa de Josélio Carneiro, um longo período da nossa historia, a Tabajara tem outro tanto para contar, desde os programas de auditório às narrativas de solenidades oficiais, hoje menos freqüentes que no passado.


  • 02/01/2014

    Instantes de amizade


     Dificilmente quem ocupa cargos públicos, sejam eles eletivos ou não, consegue sustentar as amizades feitas no exercício da função, quando dela se despede. Há ao redor dos detentores de mandatos, principalmente, uma leva de” amigos” que desaparecem tão logo acaba a influencia do integrante do poder. Para esses áulicos e viciados das rodas palacianas, há muitos epítetos, alguns deles impublicáveis. João Agripino, de um humor meio cáustico e irreverente, confessou em hora de descontração:
    - Não tem quem aguente o bajulador. Mas que é gostoso é....
    No poder ou fora dele, me acostumei com os altos e baixos e procurei sempre me manter na planície, evitando ser contaminado pela vaidade que afeta muitos.E isso me serviu demais.Estando fora do poder, nunca fui acometido do sofrimento dos que amam o poder acima de todas as coisas e se deprimem quando são excluídos da Corte. Entender que todo poder é efêmero, sempre foi a minha primeira regra.
    Eu já contei de outra feita, mas não custa repetir, pois o exemplo é pedagógico. Estava diretor do Banco do Nordeste e quando chegava a João Pessoa tinha quase que sortear quem eu escolhia para jantar ou almoçar, tantos eram os convites. Quando sai do Banco, telefonei para um desses convivas de mesa de bar e ousei querer retribuir as atenções recebidas.E avisei: desta vez, quem paga sou eu. Nem assim o convidado apareceu... 
    Por isso olho com piedade para alguns delegados do poder que atendem seus interlocutores como se estivesse fazendo um favor. Às vezes, nem levantam os olhos. Para esses, a queda é mais dolorosa. Ressalte-se que muita vez se consegue falar com o superior, enquanto o subalterno se mantém inacessível e desligado. Ou ligado demais, sempre em reunião...
    Em casa sempre ouvi queixas. A mulher reclamava. Quando estava se aproximando de alguém, fazendo amizade, ou eu perdia o mandato ou trocava de partido.Os companheiros eram outros e os convivas também mudavam.Daí nasceu a conclusão real e verdadeira. O político não faz amigos. Quando muito, vive instantes de amizade...


  • 23/12/2013

    Bananeiras na Assembleia


     O chamado brejo das bananeiras, que tinha no território do antigo município de Bananeiras o seu centro gravitacional, sempre elegeu representantes ao Poder Legislativo Estadual.Na Assembleia Constituinte de 1934, lá estava o cel.José Antonio da Rocha descendente do Barão de Araruna e que cederia sua cadeira em 1947 a Clovis Bezerra. Ao lado de Clovis Bezerra, ainda oriundos de Bananeiras foram eleitos constituintes Pedro Augusto de Almeida e Odon Bezerra Cavalcanti, portanto,três representantes de Bananeiras.Odon Bezerra não concluiria o mandato, pois faleceu em 1949.

    Nas eleições de 1950, Pedro Almeida e Clovis Bezerra foram reeleitos, vindo o primeiro a falecer logo depois. Na sua vaga, entraria Humberto Lucena que fora eleito primeiro suplente da coligação formada pelo PSD e outros partidos. As duas vagas de Bananeiras continuaram asseguradas, mesmo depois da saída de Humberto Lucena para deputado federal. Para a cadeira de Humberto, na Assembleia, foi eleito Orlando Cavalcanti de Melo, outro bananeirense. Orlando e Clovis despediram-se da Assembleia em 1970, o primeiro foi escolhido suplente de Argemiro de Figueiredo, na sua malograda campanha ao Senado e o segundo, eleito vice-governador de Ernani Satyro. Naquela eleição, com o meu apoio e o de meu pai, então prefeito de Borborema,foi reeleito o deputado Waldyr dos Santos Lima, natural de Serraria, mas um bananeirado desde a infância, neto do cel.Zé Fabio, o homem da “vacina de cuspe” que o tornaria famoso. Bananeiras permaneceu representada.

    Em 1974, a cadeira de Bananeiras volta a ter dono: o “orador que vos fala” foi eleito deputado estadual pela primeira vez, fazendo par com Waldyr, eleito com o apoio de Clovis Bezerra. Na eleição seguinte, mais um bananeirense me faria companhia, o deputado Afrânio Bezerra. Voltamos em 1982 e em 1986, mantendo as duas cadeiras de Bananeiras que vinham da Constituinte de 1947 e chegaria à Constituinte de 1989. Em 1990 fui candidato a deputado federal, mas o deputado Afrânio manteve a cadeira de Bananeiras, desta feita, acompanhado de outro bananeirado, o ilustre filho de Solânea, Arnóbio Alves Viana.Portanto, mantidas as duas vagas da antiga Bananeiras.

    A partir de 1994, perdemos as cadeiras que vinham sendo ocupadas por bananeirenses ou bananeirados desde 1934. Naquela eleição, a ex-prefeita Marta Ramalho tentou chegar à Assembleia e, como suplente, assumiu o mandato. Foi a primeira e ultima bananeirense a ser chamada de deputada estadual.

    Com vistas a 2014 surge na região da antiga Bananeiras um movimento com o propósito de tentar restaurar a representação daquele pedaço do brejo, na Assembleia. Pelas razões históricas detalhadas acima, tentam me convencer a novamente disputar a eleição de deputado. Concordo em princípio com a tese: devemos eleger alguém da região e muitos nomes merecem ser lembrados. Estou pronto a ajudar a convencer e a colaborar com a eleição de qualquer um desses nomes. Não me convenci, ainda, de que seja eu o indicado para a tarefa. Tenho a sensação de ter sido atingido pela maior das inelegibilidades - a falta de votos.


  • 17/12/2013

    Homenagens equivocadas


     Outro dia ocupei este espaço para lembrar homenagens prestadas a nomes os mais ilustres, em equipamentos públicos ou privados fora das atividades em que se notabilizaram seus patronos. Referi-meà Medalha do Mérito Esportivo TarcisioBurity, nome que para mim poderia honrar qualquer comenda, desde que vinculada às suas qualificações. Não sei se alguém do Tribunal de Contas leu o que escrevi, mas naquela instituição foi criado um premio Tarcisio de Miranda Burity para laurear os vencedores do concurso de artigos sobre administraçãopublica e controle externo dos seus atos. Tudo a ver!


    Explorar o nome de Frei Damião, por exemplo, virou moda em Guarabira. O homem já era endeusado na região e depois que Lea Toscano e MonsenhorZé Nicodemus lhe tributaram um monumento, ampliou-se a fama de homem puro e santo. Até posto de gasolina já tem o nome dele. Na Capital,Wilson Braga o elegeu patrono de uma maternidade. O equivoco da homenagem ficou patenteado com uma manchete de um dos nossos jornais: “Frei Damião fará aborto”. Como homem e como beato, a notícia injuriava o capuchinho. Tratava-se, simplesmente, de uma determinação do SUS, credenciando a referida maternidade para a prática dos abortos legais. 
    E a noticia de que “Valentina Figueiredo está cheia de buracos”? Fosse vivo, o general seu filho prendia e arrebentava...


    Augusto dos Anjos, poeta do Eu, em Sapé é de todos e ostenta seu nome em empreendimentos diversificados. Se um dia Augusto, “exausto de pisar máguas pisadas”ansiar o retorno ao seu pé de tamarindo, só para rever o “sepulcro da loura virgem bela”, duvido muito que agradeça a homenagem saída de “tegumentárias mãos plebeas” mas sinceras, do meu amigo Antonio Simplício, dono da Casa Lotérica Augusto dos Anjos.


    O Centro Administrativo do Estado tem a denominação de Tancredo Neves. Fui autor do projeto que virou lei. Nunca colocaram uma placa no local. Mas em Mandacaru, mesmo com letras tortas e mal desenhadas, a Borracharia Tancredo Neves imortaliza esse nome. Os equívocos se repetem em toda parte. O Estádio Bezerrão em Bananeiras, tem o nome de Governador Clovis Bezerra. O Ramalhão, reverencia o prefeito Arlindo Ramalho. Os dois, mesmo merecedores da homenagem,nunca foram desportistas. Humberto Lucena, nome de hospital, é um trauma. A imprensa lembra a função do hospital e esquece o patrono. Em escola, em um fórum judicial, quando acabar nome de desembargador, ficaria melhor o seu nome.


    Outras homenagens, mesmo condizentes são duvidosas. Como aplaudir a vinculaçãodo nome do desembargador e professor de direito de varias gerações, Flóscolo da Nóbrega, a uma penitenciária exemplo do que existe de pior em desrespeito aos direitos humanos? E Geraldo Beltrão, advogado brilhante, também ser nome de presídio!... Não é de se admirar, pois nesta Terra de Santa Cruz, nome de leiem vez do nome do autor, ganha o nome do réu. Lembram da Lei Fleury? E mais recentemente, a Emenda Maluf?


    Para encerrar, enterrando nas profundas a vaidade do baiano Rui Barbosa, encontrei na Torrelândiaa “Troca de Óleo Rui Barbosa”. Vejam onde foi parar o Águia de Haia! (Do livro EM PROSA E NO VERSO)


  • 10/12/2013

    Bananeiras na Academia


     Abordei semana passada a presença dos nascidos em Bananeiras no comando da Paraíba. Foram quatro os governadores ali nascidos: Solon de Lucena, Odon Bezerra, Clovis Bezerra e Rivando Bezerra. Não pesquisei outras cidades para estabelecer a hegemonia, mas estamos em boa posição, sem dúvida.O tema de hoje, são os bananeirenses que tomaram assento na Academia Paraibana de Letras e alguns, patronos de cadeiras naquela casa. O ultimo deles, cuja posse ocorreu ontem, é este escrevinhador nascido no Distrito de Borborema, depois desmembrado de Bananeiras, a partir de 1958.

    O modelo da nossa Academia é o francês, com uma inovação, a partir da Academia Brasileira de Letras: a adoção de patronos para cada uma das suas cadeiras. São quarenta as cadeiras da APL e três delas, levam o nome de bananeirenses: Adolfo Cirne, processualista que dá nome à praça onde se situa a Faculdade de Direito do Recife, cuja cadeira é ocupada hoje pelo professor José Loureiro Lopes. Alcides Bezerra, historiador e filósofo,patrono da cadeira do escritor Osvaldo Trigueiro do Vale e Santos Estanislau, que faleceu no Pará onde foi desembargador,em cuja cadeira tem assento o confrade,meu vizinho nesta página, jornalista Sitônio Pinto.

    Nascido em Bananeiras, mais precisamente na Vila Maia, o mais antigo dos seus distritos, o professor e imortal Oscar de Castro foi o mais longevo presidente da Academia. Fui seu aluno de medicina legal e me lembro bem da sua aula sobre desvirginamento. Esse detalhe ficou gravado:o exame de defloramento se faz com os olhos e não com os dedos...As coleguinhas costumavam corar ao ouvir essa explicação do velho e querido professor que também foi um dos fundadores da nossa Faculdade de Medicina.Hoje Oscar de Castro é o patrono do Espaço Cultural de Bananeiras, construído na gestão da prefeita Marta Ramalho com reforço financeiro do governo Cássio Cunha Lima

    Ainda ocuparam cadeira na Academia de Letras o folclorista Francisco Coutinho e seu filho, Edilberto Coutinho, ambos da família Cirne e por certo parentes do Adolfo e Celso Cirne,este cunhado de Sólon de Lucena.O monsenhor Pedro Anísio que foi um dos fundadores do famoso Instituto Bananeirense, única escola interiorana que dispensava a corrida logo cedo para o Liceu Paraibano, é outro imortal da nossa APL. Essa escola chegou a ser dirigida por Pedro de Almeida, pai de outro acadêmico bananeirense, Maurilio de Almeida, segundo ocupante da cadeira numero sete, cujo ultimo titular foi Dorgival Terceiro Neto. Maurilio também pertenceu ao Instituto Histórico e a Academia Paraibana de Medicina. Descende do Barão de Araruna.

    Nascido no antigo Distrito de Moreno depois separado de Bananeiras com o nome de Solânea, é Manoel Batista de Medeiros, também advogado, professor e ex-presidente da APL. Uma única mulher nascida naquele brejo, apesar de criada em Araruna, Angela Bezerra de Castro completa a constelação de ilustres bananeirenses na Academia de Letras. Contando com o

    meu modesto nome e o do escritor Manoel Batista de Medeiros, que nascemos na grande Bananeiras, somos oito os bananeirenses que já passaram ou permanecem ainda no rol dos imortais. Falei em imortais para lembrar que foi Olavo Bilac que carimbou essa imortalidade acadêmica ao proclamar que “somos imortais porque não temos onde cair mortos”.

    Vivi ontem um momento inesquecível. Aquela foi a posse da minha vida. É uma honra juntar meu nome, sem estrela brilhante nem constante, ao de paraibanos tão ilustres e merecedores da imortalidade, mesmo que não pertencessem à APL. Suceder a Dorgival Terceiro Neto na cadeira que tem como patrono Artur Aquiles, o jornalista, e por onde passaram Coriolano Medeiros e Maurílio Almeida, já dá para morrer feliz. Como disse no meu discurso de posse, parafraseando Ulisses Guimarães: tive mais do que pedi,cheguei mais longe do que mereci.


  • 04/12/2013

    Bananeiras no poder


     Outro dia contei nesse espaço o episódio da quase eleição do deputado José Lacerda para governador da Paraíba. A vaga ocorreria com a renúncia do governador Tarcisio Burity que, sem vice, teria um sucessor eleito pela Assembleia Legislativa. A hipótese já ocorrera antes, com a eleição de Milton Cabral diante das renúncias do governador e do seu vice. No projeto que não se concretizou, Burity condicionava a minha eleição para a presidência da Assembleia, para, em consequência, assumir o governo, enquanto aquela Casa elegeria o novo governador.Eu seria sacrificado, mas ganharia o prêmio de governar a Paraíba, mesmo por pouco tempo. Sacrificado? Exagerei... No pleito indireto que elegeu Milton Cabral, o deputado Evaldo Gonçalves, que presidia a Assembleia, recusou-se a ser governador. Era candidato à Assembleia Constituinte e se assumisse o governo, ficaria impedido. Eu, entretanto, quase fui presidente e quase fui governador... Outros políticos nascidos na antiga Bananeiras, lograram mais êxito, e chegaram a primeiro mandatário deste estado.

    O primeiro deles foi Solon Barbosa de Lucena que pelos idos de 1916 chegaria à Chefia do Executivo, na condição de Presidente da Assembleia. Parente e correligionário de Epitácio Pessoa, voltou ao poder em 1920, desta feita, eleito presidente do Estado. Seu neto, Humberto Lucena, morreu sem alcançar o sonho de governar a Paraíba, mesmo sendo um nome nacional.

    Na redemocratização do país,em 1946, foi a vez do bananeirense Odon Bezerra ocupar o cargo de governador. Odon foi ainda prefeito de Bananeiras e deputado federal. Ao falecer, ainda moço e com muito a oferecer aos paraibanos, era deputado estadual. Odon sucedeu a Severino Montenegro, desembargador e único Severino, até hoje, a ocupar o cargo. O jurista nomeado por José Linhares que, na presidência do Supremo, assumiu a República, nomearia Clovis Bezerra para prefeito de Bananeiras. Ao assumir, Odon exonerou Clovis do cargo de prefeito municipal. Não sabia ele que, um dia, seu primo ocuparia a cadeira que foi sua, no Palácio da Redenção.

    Como João Agripino ficou sem vice, Clovis Bezerra Cavalcanti, na presidência da Assembleia, assumiria o governo varias vezes, na ausência do titular do cargo. Por eleição indireta, foi companheiro de chapa de Ernani Satyro, voltando ao Executivo, como substituto eventual. Na qualidade de sucessor, sua posse ocorreria após a renúncia do governador Tarcisio Burity para se candidatar a deputado federal. É que o dr. Clovis, como era conhecido, fora eleito vice-governador pela segunda vez.

    Por ultimo,em 1986, na renuncia do governador e do vice, Wilson Braga e José Carlos da Silva Junior, foi chamado à chefia do executivo outro bananeirense, então presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Rivando Bezerra Cavalcanti que ficou no cargo entre maio e junho, enquanto a Assembleia sacramentava Milton Cabral e Antonio Gomes para completarem o mandato anterior. Evaldo Gonçalves, como já disse, presidente da Assembleia, sendo candidato a deputado federal, recusou-se a assumir o governo. Foi eleito à Assembleia Constituinte, que era o seu projeto. Diga-se de passagem, se desejasse ser governador, seria eleito tranquilamente. Como se viu, o engenhosa fórmula braguista não deu certo e seu candidato, Marcondes Gadelha, perdeu para governador. Por outro lado, o próprio Braga “cedia” a vaga no Senado, para o desconhecido Raimundo Lira.

    Terminei fazendo um parêntesis indevido. Minha intenção era, apenas, registrar e destacar os bananeirenses que ocuparam a chefia do executivo estadual. A formula de Burity colocaria mais um bananeirense no Palácio,este Severino que vos fala,enquanto se fazia a eleição de Zé Lacerda para um mandato complementar. O projeto foi abortado.Não sei se por azar nosso ou sorte da Paraíba...


  • 24/11/2013

    O poder é efêmero


     Tem gente que fez na vida pública uma carreira brilhante e constante. Ouvi de Ernani Satyro, num rasgo de modéstia, que a dele não era brilhante mas era constante. A minha não é brilhante nem constante. Registrei altos e baixos. Conquistei mandatos e amarguei suplências. Estive no poder e fora dele, muito mais tempo fora. Esse tobogã que me acompanha deixou lições que muitos precisam aprender.

    No poder ninguém escapa do assédio e dos rapapés. Basta você ficar distante do centro das decisões que mergulha no esquecimento. Pedro Gondim, cassado, só ia a enterro, por que não precisava de convite, reclamava.

    O finado Judivan Cabral dizia que tinha gente que não sabia viver longe do poder. Esses, quando caem, dizia com muito humor, sofrem tanto que chegam às raias da depressão. Aprendi, porém, desde cedo, que só existe um poder eterno - o Divino. Na terra, todos os eflúvios de força política ou administrativa são efêmeros. Quem pensar diferente tende a sofrer decepções.

    Para mim, portanto, tanto faz estar no alto como na planície. Mantive sempre um comportamento igual em circunstâncias diferentes. Sobrevivi na oposição e nunca aderi a governo algum. Estive no poder e dele saí quando o povo quis. Uma única exceção foi a mais recente. A Justiça Eleitoral me colocou na oposição. Nunca me entusiasmei com cargos ou posições. E lembro que até banqueiro eu já fui.

    O atual governador dos paraibanos recomendou a seus auxiliares em recente reunião: aqui não quero ninguém deslumbrado. Deslumbrado minha gente significa entre outras coisas desligar os telefones e não retornar as ligações; receber mensagens e não responder; deixar seus visitantes na sala de espera e sair pelos fundos ou entrar no veículo e não cumprimentar seu próprio motorista. Ficar deslumbrado inclui, também, eliminar o sorriso e fechar a cara como se todos os problemas do Estado estivessem, exclusivamente, nas suas costas.

    Quem está eventualmente no governo tem que entender que está em posição destacada, mas sua designação resultou de um processo longo e sofrido, onde prevaleceu a vontade da maioria. Essa maioria deu o poder de nomear a um governante e ele escolhe os nomes que bem entender, elegendo critérios os mais diversos. De nenhum governante partirá jamais a recomendação de que seus prepostos sejam desatentos com simples cidadãos ou lideranças que os procuram . Muitos se satisfazem apenas com uma palavra de conforto. Poucos pedem para si. A maioria reivindica para o aglomerado que representa.

    Eis uma advertência oportuna: não existe vigário colado. Os cargos são eternos, mas seus ocupantes são passageiros. Não há força que não acabe e poder que não se desfaça. Não nos deixemos iludir com a liturgia do cargo.

    Já contei essa historia, mas não custa repetir. Era diretor do Banco do Nordeste e quando chegava à Paraíba tinha que escolher entre os muitos chamados para jantar. Quando deixei o Banco, escolhi um dos meus mais assíduos comensais e convidei para um almoço, advertindo antes: desta vez, quem paga sou eu! Nem assim o meu convidado apareceu. Precisamos cumprir a recomendação do Governador. Todos ao trabalho e nada de deslumbramento. (Do livro, Em Prosa e no Verso.)


  • 19/11/2013

    Hitler de Almeida Lima


     Horácio de Almeida Lima publicou foto na rede social dando conta de que estava lotado o teatro Severino Cabral quando do seu espetáculo de contador de histórias.

    Em Campina Grande foi mais feliz do que quando pretendeu lançar um livro em Brasília e apenas sete convidados compareceram, contando com duas crianças que gritavam no teatro vazio para ouvir o eco da própria voz, conforme narra.Especialista em alterar os fatos históricos e romanceá-los com novo cenário, desmente o Grito do Ipiranga e o transporta para a margem do rio Curimataú, quando Dom Pedro teria gritado para os portugueses do noutro lado da margem do rico seco: “Seus filhos da puta! Agora quem manda nessa p. desse país sou eu.”E temendo o facão do príncipe, correram todos os portugas “com o rabo entre as pernas”…


    Sua capacidade inventiva se supera quando acorda pela madrugada na Fazenda Nazaré, em Cacimba de Dentro, e vislumbra pela fresta da porta entreaberta, uma comitiva motorizada que ultrapassa a porteira da fazenda. Seu pai, o velho Odilon, acossado pela diabetes, se descuidara da porta quando saiu para se aliviar no terreiro. A comitiva era precedida por duas lambretas com batedores, seguidas por um jipão, um aero-willys e quatro rurais. Respeitosamente, os demais veículos abriram passagem para o sedan que parou à porta da casa grande do sitio, e dele emergiu um baixinho de bigode ridículo, acompanhado de uma bela mulher: eram Hitler e Eva Braun. Ao saltarem, já encontram seus asseclas de braços estendidos e gritando Hair Hitler.


    Depois de encenar seu suicido, Hitler teria rodado a esfera de um globo terrestre e nele enfiado uma caneta.O local marcado foi a cidade de Cacimba de Dentro e para lá se dirigiu o ditador nazista para curtir a derrota e esquecer, na cachaça, a sua desgraça, pois nenhum remorso carregava por ter eliminado milhões de judeus e provocado a morte de outras milhares de almas em todo o mundo.Com esse histórico que somente o dono da casa conhecia, era certo que o segredo desse exílio jamais seria revelado, para tranquilidade da família Almeida e dos moradores daquela pequena cidade do curimataú.


    Não preciso dizer que o fuhrer se fez acompanhar dos seus principais colaboradores e, para acomodar a todos, até a dependência da máquina forrageira foi ocupada. O anfitrião se preocupava em manter a boa educação e o quarto do casal foi cedido. Os visitantes, depois de algum tempo, imiscuíram-se entre os moradores da cidade e se estabeleceram no comercio. Hitler foi o melhor verdureiro que já passou por Cacimba de Dentro. Nas horas vagas, entregava-se à cachaça Rainha e fazia belos discursos que ninguém entendia, mas gostava de ouvir pelo timbre de voz impositivo e destacado, naqueles ermos secos e desertos.


    A convivência dos nazistas na Fazenda Nazaré chegou ao seu final após uma discussão entre Rudolf Hess e Goebbels, entendida pelo dono da casa, que, para evitar um mal maior, expulsou Hitler e seus fieis seguidores. Acomodados pela vizinhança, os asilados ganharam a confiança de muitos, e Hitler aprendeu até a cantar embolada e a apreciar a vaquejada no parque de Juarez Almeida, irmão do irreverente historiador às avessas. Eva Braun não teria aguentado as carraspanas de Hitler e começou a frequentar outras camas. Grávida, teve um filho cacimbense e até hoje, há controvérsias quando à identidade do pai dessa criança. Hitler, segundo Horácio de Almeida, àquela altura, além de cachaceiro, também virara corno.


  • 13/11/2013

    A Vírgula


     A vírgula, sem tirar nem por, não passa de um sinal de pontuação indicando uma pausa ou separando os membros integrantes de uma frase. Colocar a vírgula no lugar certo não é para todo mundo. Muita gente, eu inclusive, vou gastando vírgulas até enquanto posso para depois ir economizando.


    Está bem longe o tempo em que minha professora Lourdinha Costa ensinava algumas regras de pontuação e em casa, meu pai ajudava transcrevendo para um caderno, em sua letra aprimorada, aquelas noções de como normatizar as disposições das palavras nas frases.


    -Não se usa a vírgula entre o sujeito e o predicado; entre o verbo e seus objetos. Usa-se a vírgula para marcar a omissão do verbo e também o nome do lugar, anteposto à data...


    Esse nariz de cera vem a propósito do convite de A União para o lançamento do seu novo projeto a partir deste dia 02 de fevereiro, quando completa 118 anos. Fui levar em mãos o convite a Juarez Farias e quem quiser ficar em paz com os seus erros, não os mostre a Juarez. Ele contestou de imediato a posição das vírgulas. Procurei justificar que as vírgulas estavam a separar, como dizem os portugas, uma oração intercalada, mas não adiantou. Tive que me render aos argumentos. O homem preside a Academia Paraibana de Letras.


    Outro impaciente com as vírgulas, este em sua forma oral era Zé Dantas. Nascido em Pilõezinhos, andado pelo mundo e no final da vida vereador em Borborema.Era um contador de histórias.Gostava de falar e ser ouvido sem interrupções e, quando isso ocorria, o interlocutor era severamente admoestado:


    -Não me aparteie em vírgula!Espere que eu faça ponto!


    Preocupado com a sintaxe e vaidoso com seus escritos, Pedro Gondim não perdoava o erro cometido quando escrevia. Mesmo “escondido” sob o pseudônimo de Homero Morgon, mantinha a mesma responsabilidade gramatical em seus textos tidos pela oposição como rebuscados e de difícil interpretação.


    Na véspera do Natal de 1964, o então Governador da Paraíba enviou sua Mensagem de Fim de Ano para publicação no Jornal do Comercio e no Diário de Pernambuco. Naquela época, a opinião pública se aquartelava no Recife e esses periódicos alcançavam grande circulação.


    Nesse tempo eu incursionava pelo jornalismo vinculado à Sala de Imprensa do Palácio, embrião da SECOM de hoje. O jornalista José Barbosa de Souza Lima me mandou chamar para uma missão do Governador. Ele cometera um equívoco (pois Governador não comete erro) e colocara uma vírgula em local indesejado na sua mensagem natalina. Não existia internet, muito menos fax e o telefone era questão de sorte.A correção tinha que ser à mão, de corpo presente.


    Parti para o Recife no avião do Estado. O piloto Jorge com sua competência me deixou nos Guararapes em meia hora. Peguei um carro de praça que na capital pernambucana já se chamava Taxi e fui à redação dos dois respeitáveis órgãos de imprensa do estado vizinho. No setor de revisão, pedi para ver o texto, retirei as vírgulas e regressei ao avião. Perto das cinco horas, pousei no Aeroclube. 
    Foi a vírgula mais cara de que tive notícia. Mas o que não se faz para deixar um governador satisfeito?... (Do livro Em Prosa e no Verso)


  • 05/11/2013

    Paraíba, terra de grandes


     Mergulhando nos alfarrábios do nosso passado, se constata que a “pequenina e heroica” foi grande em outras terras. Paraibanos da melhor estirpe foram exportados e terminaram senadores ou governadores de outras províncias desse imenso território nacional. São Paulo, hoje a mais pujante das unidades federativas,teve um conterrâneo nascido nesta capital, a governá-la: Antonio José Henriques, bacharel de Olinda em 1833. Antes de chegar à paulicéia foi delegado,promotor,juiz,deputado provincial e federal,vice e presidente da Paraíba. Como fez parte do Conselho do Imperador, ganhou fama e nome de rua como Conselheiro Henriques.

    A província de Pernambuco que antes já dominara a Paraíba por 43 anos, teve vários dos nossos a presidi-la. Um deles, Francisco de Assis Pereira da Rocha que assumiu na qualidade de vice, foi ainda desembargador na corte judiciária da mauriceia e terminou como Presidente do Rio Grande do Sul onde morreu e ficou pelos idos de 1872. Diogo Velho, nascido no antigo município de Pilar também governou Pernambuco, chegando a senador pelo Rio Grande do Norte.Por último, Francisco de Paula Silveira Lobo,deputado,senador e ministro da Marinha e da Fazenda do Império. Governou também Minas Gerais.

    Deusdedith Leitão, Dorgival Terceiro Neto e Abelardo Jurema realizaram pesquisas no entorno dos paraibanos que foram bacharéis por Olinda e chegaram às chefias das provinciais imperiais brasileiras. Ainda lembram Clementino Carneiro da Cunha que foi presidente do Amazonas; Olinto José Meira, nomeado para o Pará e o Rio Grande do Norte; Rodrigues Chaves designado para Santa Catarina e o Barão do Abiaí, governante do Rio Grande do Norte e do Maranhão a quem o Imperador Pedro II ainda ofereceu as presidências da Bahia e Pará, recusadas pelo nosso mais eminente nobre, de cuja filha, professora Olivina Olívia Carneiro da Cunha,

    fui aluno de português no Liceu. Mas não posso esquecer nessa notícia histórica o bananeirense Antonio Manoel de Aragão e Melo, ( ascendente de José Antonio Aragão, também advogado e meu sogro e do almirante Cândido Aragão) que, em 1859 foi nomeado para presidir a Província de Goiás.

    Sobre o Visconde de Cavalcanti, imortalizado como Diogo Velho e que presidiu a Paraíba,Piauí, Pernambuco e Ceará, há que se destacar a figura do educador, chefe da Instrução Pública no período de governo do gaucho Luiz Antonio da Silva Nunes e mantido na governança do Barão de Mamanguape. Pelos idos de 1861, com apenas 24 anos de idade,expediu relatório ao presidente da província sobre as práticas educativas de então, que ainda hoje se vê repetido na imprensa nos dias atuais. Para ele, a pedagogia é a espinha dorsal do ensino e premonitoriamente escreveu: “enquanto não for preenchida essa falta e não se der ao professorado positivas garantias materiais, importância social e sossego quanto ao futuro, as reformas do ensino permanecerão na esterilidade”. Para ele, “a instrução leva em conta as condições sociais de cada ser humano, devendo prepará-lo profissionalmente”. Era a defesa do ensino profissionalizante, já nas décadas finais do século XIX. Um pensador avançado.

    Diogo Velho foi promotor de Areia e enfrentou no júri popular o advogado Aragão e Melo. Maurílio Almeida, que era bananeirense,destacou a atuação do advogado Aragão, seu conterrâneo, em trabalho sobre Diogo Velho quando de sua posse no IHGP. Descreve o cenário em que os dois se enfrentam, um acusando e o outro defendendo Carlota, a amante do major Quinca. Este disputava o comando político da cidade de Areia com o major Trajano Chacon. O disputa política terminou em tragédia com Carlota mandando matar Chacon e sendo condenada à morte. Depois sua pena foi comutada para prisão perpétua,penas extintas nas leis republicanas.

    Sem dúvida que a Paraíba doou ao Brasil eminentes filhos seus,destacados nas letras, na política e nas artes.Abordei os políticos, todos mortos. Falar dos vivos ou dos vivos demais, dá muito trabalho e gera reclamação.


  • 29/10/2013

    Um garoto na Guerra de Princesa


     A rebelião organizada contra o poder chefiado por João Pessoa terminou por tornar Princesa uma urbe independente. José Pereira Lima, deputado e coronel da guarda nacional, assinou decreto instituindo o Território Livre de Princesa. A partir daí, estava desligado do poder estadual e recebendo apoio do poder central, via Pernambuco, através dos Pessoas de Queiroz que, mesmo parentes de João Pessoa, eram seus adversários políticos. Essa história todo mundo já sabe, mas haverá sempre quem a conte com outros olhos e de forma agradável, de modo a esquecer a fome, o sangue e as mortes que resultaram nessa empreitada nascida de um mero rompimento político, entre um sóba de aldeia e o mandatário do Estado.

    O jornalista Tião Lucena que já nos brindara com Peste e Cobiça, tendo como cenário a cidade de Princesa Isabel, volta ao seu berço para, com as tintas da sua irreverência e poder de síntese, contar a saga de Zé Pereira e seus seguidores, no enfrentamento das forças policiais, desguarnecidas de munição, armas modernas e alimentação decente. Os que dominavam Princesa, ao contrário, estavam gordos e fagueiros, pois eram alimentados do bom e do melhor pelo seu comandante-em-chefe, ajudado pelos aliados do estado vizinho.


    As forças poderosas de Zé Pereira impediam o acesso à sua cidadela por terra. Quem se aproximou foi rechaçado por guerrilheiros camuflados em um terreno que conheciam com a palma da mão. O governo da Paraíba mudou de estratégia e adquiriu um pequeno avião para aterrorizar Princesa pelo ar. O primeiro veículo fracassou na sua tentativa de levantar vôo do Piancó, onde chegou aos pedaços em cima de um caminhão.O piloto, um italiano, morreu por lá, de doença inexplicada, e ficou para sempre no solo sertanejo. A segunda compra foi um téco-téco denominado de “Garoto”, tendo no manche um piloto da força publica de São Paulo que, burlando a vigilância no Recife, aportou no Piancó, conforme prometido.
    João Lelis em A Campanha de Princesa, diz que “o avião das forças repressoras, o “Garoto”, é misto de alegria delirante e rancor entusiástico, porque, conforme o dizer do seu comandante,”quase toda a tropa vivia descrente do anunciado aparecimento do avião”. Depois de sobrevoar as linhas desse setor (Cajueiro) ruma a Tavares, via Alagoa Nova (Manaíra).E durante rápidas evoluções sobre as posições da Coluna Norte, o “Garoto” foi alvo de nutridos tiroteios do inimigo,que dispara os seus rifles e fuzis,desadoradamente”.


    Dorgival Terceiro Neto em Paraíba de Ontem, conta que “o avião foi usado a principio para sobrevoar Princesa, distribuindo boletins que anunciavam bombardeio se os rebeldes não se rendessem. Foi um dia de festa na cidade.Os homens do coronel Zé Pereira fizeram pontaria contra o “Garoto”, atirando com rifles e fuzis. Por pouco a aeronave não foi atingida”. E conclui que o avião foi atirar de cima para baixo e terminou alvejado de baixo para cima.


    Tião Lucena, dá a sua versão: “O avião alcançou as primeiras ruas de Princesa com o sol nascendo.A reação da cidade foi diversa.Teve quem dividisse espaço com os penicos debaixo das camas, mas também surgiram os valentes que saíram pelas ruas atirando no invasor, só não acertando porque o piloto, vendo o perigo, subiu acima de três mil pés para ficar fora do alcance das balas.O negro Zacarias, que morava em Jericó e estava em Princesa atraído pela curiosidade de ver o avião, chorava na calçada da farmácia de Zé Frazão: “Bem que minha mãe disse que eu não viesse!” Já o Major Feliciano Florêncio, na certa um ascendente de Tião, quando atirou no “bicho” e de lá jogaram um punhado de boletins, exclamou: “Acertei nas penas”.


    A guerra de Princesa esmoreceu depois da morte de João Pessoa. O coronel Zé Pereira ensarilhou as armas e foi correr o mundo, pois na Paraíba seu futuro era incerto. Decorridos mais de oitenta anos desses acontecimentos, muita informação ainda ficou perdida pelas caatingas do sertão. Tião Lucena tenta resgatar parte dessa história.


  • 22/10/2013

    Paraibanos pais da República


     Terminei  de ler há pouco mais um livro do paranaense Laurentino Gomes- 1889. É o ultimo da trilogia que começou com o 1808 e continuou com 1822. Se todos os que cuidassem da história, narrassem os fatos da forma como ele o faz, todo mundo gostaria de ler livros de história. O singular da sua escrita é que ele conta os bastidores dos acontecimentos  que a versão oficial não passou adiante. Até os detalhes sórdidos, e o burlesco dos fatos e seus atores, são transmitidos aos que se debruçam sobre seus livros. Foi assim com a transmudação da  Família Real para o Brasil, a Independência e agora, a Republica que, para ele, foi fruto da existência de um imperador cansado (Pedro II), um marechal vaidoso (Deodoro da Fonseca) e um professor injustiçado (Benjamim Constant).

    O Imperador deposto por um golpe de estado foi embarcado em uma madrugada para o exílio, mesmo tendo  radicais, como o advogado paulista Silva Jardim, que pregavam o trucidamento da família real, a exemplo do que sofrera a Corte francesa de Luiz XVI onde a estrela fora Maria Antonieta. Deodoro teria aderido à Republica diante de um fato consumado: o manifesto publicado no jornal do abolicionista José do Patrocínio que,  como o Marechal, era monarquista empedernido. Patrocínio, por ser negro, devotava amor infinito à Princesa Isabel, por motivos óbvios, sendo o responsável pelo titulo de A Redentora com que a filha de Dom Pedro entrou para a  história.

    Na movimentação militar que antecedeu o 15 de novembro, dois paraibanos se destacaram: um militar, o general Almeida Barreto e o jornalista Aristides Lobo, o primeiro nascido em João Pessoa e o segundo em Cruz do Espírito Santo. O jornalista viveu parte de sua vida em Alagoas onde, mais tarde, disputaria  dois mandatos consecutivos de deputado geral, como eram chamados os parlamentares federais no Império. Expunha a defesa da mudança do regime no jornal A República,fundado por ele e outros companheiros de empreitada. Instalada a nova ordem, Aristides Lobo foi nomeado Ministro do Interior, cargo que ocupou por pouco mais de dois meses, rompendo com Deodoro.

     A participação do paraibano Almeida Barreto foi mais polêmica.  Conta Laurentino Gomes que o Visconde de Ouro Pedro, chefe do ultimo ministério monárquico, refugiara-se em um quartel, e tinha a garantir sua integridade e da monarquia agonizante, justamente as tropas sob o comando do general Almeida Barreto. Sem que o governo soubesse, o general também estava comprometido com os golpistas, mas não tinha a absoluta confiança de Deodoro. Este, ao se deparar com as tropas diante do quartel, mandou intimar o general Barreto a mudar de posição. Como Pedro negou a Cristo três vezes, o general teria deixado de atender ao chamamento do Proclamador da República. Na terceira convocação, irritado, Deodoro verbera:

    Menino, vá dizer ao Barreto que faça o que já por duas vezes lhe ordenei, ou então que meta sua espada no ...,pois não preciso dele!

    O conteúdo chulo da frase de Deodoro tem sido amenizado por outros historiadores que preferem se referir a “frase impulsiva e vigorosa” ou “uma exclamação violenta”. Para o coronel Ernesto Sena, citado por Laurentino, Deodoro mandou o general meter  “ a espada... na bainha”. Seja como for, o recado surtiu efeito. O general Almeida Barreto saiu do muro, juntou-se  a Deodoro e, mais tarde, ganhou um mandato de  senador pela Paraíba. Esteve aqui em visita, recebido com muitas festas. E hoje é nome de rua.

     


  • 16/10/2013

    Hora de dar um basta


     Houve uma euforia sem precedentes quando brasileiros de todas as idades ganharam as ruas com cartazes e deram seu recado. Em meio à multidão, havia até quem não soubesse por que estava ali, mas estava. As manifestações, sem dono e sem líderes, aproveitavam o momento em que as lentes do mundo estavam voltadas para a pátria de chuteiras. Era a Copa das Confederações. Pediam-se escolas, postos de saúde e serviços públicos nos mesmos padrões exigidos pela FIFA, que dita as normas no esporte bretão e os governos das sedes dos eventos mansamente obedecem. Pelo meio, um cartaz exigia a volta das tomadas de dois pinos... mas isso era a exceção.

    Protegidos pelo pacifismo dos manifestantes, surgiram os primeiros gestos de violência. A polícia, temendo a criminalização da sua ação, correu, afastou-se,  e os policiais que se arriscaram a usar balas de borracha ou gás de pimenta, terminaram por ser investigados e processados. De lá para cá, não pararam mais. No Rio e em São Paulo, outros motivos surgiram. O mais recente, envolve os professores cariocas insatisfeitos com o seu plano de cargos e salários. Pedem  o governador fora do cargo, e que o prefeito os deixe em Paes, em infame trocadilho com o nome do soba guanabarino.

    Não há quem me tire da cabeça que os manifestantes  não se ofendem com a presença dos mascarados. Não participam dos atos de violência, mas se acomodam com o que assistem e, muitos deles, participam das hostilidades aos policiais. Na verdade, a polícia deveria estar na área, para proteger o evento e os que dela compartilham, para usar a linguagem do facebook, um dos veículos de convocação da massa, nos dias atuais. Quando são assediados pela imprensa,  as lideranças improvisadas protestam contra os atos de violência e os repudiam. Os detidos são encaminhados à policia. Antes que cheguem à presença do delegado de plantão, se são oito os detidos, são dez os advogados para soltá-los.

    Agora qualquer protesto vira baderna e a televisão se refere a protesto pacífico. Não concordo com a junção dessas duas palavras. Se é protesto, não pode ser pacífico. O protesto já indica uma reação de força, uma emissão do inconformismo retido e que se libera em atos e gestos enérgicos. Quem cobre o rosto para participar de uma passeata, não está bem intencionado. O anonimato infunde coragem ao agente lesionador do patrimônio publico ou privado. Os martelos, as marretas, os aríetes, não se encontram nas ruas. Quem chega à rua, mascarado, já chega com seus instrumentos badernistas, como diria Odorico Paraguassú,criação imortal de Dias Gomes.

    As cenas que vislumbramos diariamente pela televisão, e ainda bem que estamos longe delas, incomodam o cidadão e perturbam a vida política e social do País. Até quando assistiremos de mãos atadas ao quebra-quebra das casas bancárias, dos caixas eletrônicos e das casas comerciais?  A única diferença de quem destrói o caixa eletrônico perante a TV e aquele que bota dinamite nas caladas da noite, é que  este leva o dinheiro espalhado com a explosão. Ambos são criminosos e existem leis para puni-los igualmente.

    Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil da Copa e das Olimpíadas. Chegou a hora de reagir contra esse clima  de violência que assola, principalmente, o sul maravilha. Separemos o joio do trigo. É hora de dar um basta!

     


  • 08/10/2013

    Balanço geral


     No próximo domingo chego aos setenta anos de vida. Quando meu pai se foi aos sessenta e dois, pensei que seguiria seu exemplo. Minha apreensão não se confirmou. Ultrapassei aquela barreira não hereditária e estou aqui, cheio de charme, como mandei dizer a Goretti Zenaide, na resposta às suas ”Confidências”. Com saúde, na esperança de ainda seguir em frente por um bom tempo, resolvi dar uma olhada para trás e ver se esqueci de alguma coisa. Mas confesso que, de repente, fiquei velho, quando minha mãe me deixou. Ninguém mais me chama de menino...

    De origem humilde, filho de um servidor publico estadual que tinha a política no sangue,herdei parte desse sangue, mas dificilmente conseguiria chegar ao político nato que foi o seu Arlindo, de Borborema. Eleito deputado em várias legislaturas, deixei na Assembleia a marca da minha passagem em projetos  que se transformaram em leis beneficiando milhares, como no caso da equiparação das pensões das viúvas, pensionistas  do IPEP. Voltei-me para a educação e deixei colégios estaduais instalados em Solânea, Borborema, Serraria, Pirpirituba e Dona Ines, todos nascidos da minha iniciativa como parlamentar.

    Cheguei à Câmara dos Deputados e de lá, nomeado por Itamar Franco, fui ser Diretor do Banco do Nordeste. No meu período, deixei a Paraíba em terceiro lugar no nordeste, em investimentos do Fundo de Desenvolvimento-FNE. Não houve cooperativa paraibana ou projeto da terrinha que deixasse de ser aprovado. E com muita luta minha, diga-se de passagem,  para vencer os cearenses que queriam tudo e só deixavam escapar um pouquinho para nós. Pena que algumas cooperativas tenham desviado recursos e os projetos deixassem de alcançar, em sua integralidade, os objetivos previstos.

    Troquei a vida do parlamento pela de executivo. Voltei à  Assembleia como Secretário Executivo durante a gestão de Nominando Diniz. Instalei escritório de advocacia e quando começava a estabelecer uma clientela  considerável, fui chamado para o governo e assumi a Secretaria de Controle da Despesa Publica. Antes, passara pelo Instituto de Previdência do Município de João Pessoa e pela Secretaria de Administração, sob a gestão de Chico Franca. Foi um retorno depois de vinte anos, pois ali estivera quando Dorgival Terceiro Neto era o prefeito. A saída  de Cassio Cunha Lima do governo, me encontrou na Presidência da PBprev.

    No atual governo, estive à frente do jornal A União e depois na Fundação de Ação Comunitária. Por onde passei, deixei a marca do meu trabalho, mas, sobretudo, deixei uma legião de amigos em cada posto, e ainda hoje, fazem festa quando apareço para um cafezinho.

    Em todos esses cargos fui ordenador de despesa, inclusive na Assembleia, onde exerci a primeira secretaria. Em todos, sem exceção, recebi a aprovação das contas prestadas, sem restrição ou aplicação de qualquer multa ou censura pública. Levei dez anos para receber quitação total de minhas contas no BNB, até que a recebi,  do Tribunal de Contas da União e do Banco Central.

    Esta semana os partidos políticos estão fechando seus quadros e exercitando a portabilidade, no mesmo estilo das telefonias. Recebi muitos convites para trocar de bandeira e ser candidato novamente a um cargo eletivo. Para quem começou na Arena e terminou no Partido Comunista (PPS) minha carreira já está de bom tamanho. No próximo ano completo cinquenta anos de minha eleição para vereador em Borborema. Minha dificuldade em tentar voltar é a absoluta falta de recursos financeiros para enfrentar uma campanha nos moldes atuais. Completo, porém, “cinquenta anos de ficha limpa”. Será que esse slogan serve para alguma coisa?  


  • 04/10/2013

    Mergulho no passado


     Visitar o Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba é uma experiência singular para quem gosta de vasculhar o passado. Com máscara e luvas que me foram cedidas, gentilmente, pelo pessoal que atua naquela casa, vivi essa viagem e reencontrei, além dos meus próprios rastros, muita gente que os escaninhos do meu cérebro haviam arquivado. O tempo foi curto, mas outras incursões farei ao valioso acervo que ali se encontra, bem catalogado e de fácil acesso.

    Não fui muito longe para rever Archimedes Cavalcanti, secretário de redação da Tribuna do Povo, jornal mantido pelas então chamadas classes conservadoras, sob o patrocínio da UDN e dirigido pelo deputado Clovis Bezerra que sucedera a Joacil de Brito Pereira na mesma missão. Archimedes foi o meu professor de jornalismo. A minha primeira escola foi a Tribuna. Como estudante do Lyceu comecei a levar uma coluna semanal com assuntos da educação. O meu noticiário envolvia, principalmente, os movimentos estudantis, em efervescência nascente naqueles anos da década que se iniciara em 1960 e alcançaria seu apogeu em 1968.( O livro de Rui Leitão é muito bom e chegarei a ele)

    A minha coluna, Tribuna Estudantil, era revisada, minuciosamente, por Archimedes. Ele não se limitava à correção do texto, mas acrescentava boas lições sobre a melhor forma de redigir. Abusar de adjetivo era um crime imperdoável. Ir direto ao fato, a primeira lição. Aprendi muito com aquele grande paraibano, que, inclusive, foi membro do IHGPB.

    Manuseei uma coleção de A Tribuna do Povo e deparei-me com a manchete que destacava uma entrevista em página inteira do governador Pedro Gondim: “Posição da Paraíba: contra o golpe, pela legalidade e a Constituição”. O governador firmava posição com relação à posse de João Goulart, após a renúncia de Janio Quadros. Vivia-se a Campanha da Legalidade, evento que durou  exatos 14 dias e se propunha a garantir a posse do vice-presidente, em viagem à China, para estabelecer relações comerciais, por delegação presidencial. O governador da Guanabara, Carlos Lacerda, amparado por militares contrários à posse, proclamava  que Jango fora à China conhecer o regime comunista para implantá-lo no Brasil. Pedro Gondim deu a posição da Paraíba. Em 64, pretendeu repetir essa postura. Contam que chegou a redigir nota contra o golpe que depôs Goulart, rasgada, logo depois, por conselheiros menos apressados. As circunstancias eram outras. Pedro terminou por apoiar o movimento militar, responsável pela cassação do seu mandato de deputado federal, alguns anos depois, quando ele tentou ressuscitar sua natureza rebelde.

    Relembrei Adalberto Barreto, esparramado em uma velha poltrona da Associação Paraibana de Imprensa, da qual era presidente, enquanto nas janelas do prédio, bocas de som amplificavam para a rua Visconde de Pelotas e vizinhança, as noticias transmitidas pela Radio Guaíba, diretamente do porão do Palácio Piratini. A voz de comando era de Leonel Brizolla, que formara a  Cadeia da Legalidade e, juntamente com o general Machado Lopes, assegurava a posse de Jango, a partir do Rio Grande do Sul.

    Jango tomaria posse com seus poderes podados pela adoção de um parlamentarismo que já nasceu capenga, e entronizou Tancredo Neves no cargo de primeiro-ministro. Este seria o Chefe do Governo, enquanto Goulart, tornar-se-ía, apenas, Chefe de Estado. Uma Rainha da Inglaterra sem saias. Para evitar derramamento de sangue, Jango aceitou a imposição dos militares, como diria depois. Seu tumultuado governo caminhava para ser golpeado. No comício da Central do Brasil, uma sexta-feira 13, assinou decretos que desagradaram às elites e encantaram  as esquerdas. Eis o motivo que faltava para justificar o golpe. Jango,  apeado do poder e exilado, só voltaria ao Brasil depois de morto. Sua morte ainda gera muitas suspeitas. Mas esse é um assunto para a Comissão da Verdade.


  • 24/09/2013

    Zé Lacerda aos oitenta


     Se algum dia eu publicasse um dicionário, para o verbete “político”, colocaria apenas uma foto de José Lacerda Neto. Ninguém que eu conheça, viveu, mais do que ele, a atividade política.Seu “slogan” nunca mudou: deputado o tempo todo. Nada mais verdadeiro. Com onze mandatos, segundo o Wikipédia estaria completando 81 anos, pois nascera em 17 de setembro de 1932, em São José de Piranhas, onde foi prefeito. Ele, porém, comemora, apenas, 80 anos, e aparenta 70. E como bom político, acredito nos seus cabelos pretos, sem pintura.

    Na hierarquia da Assembleia,em mais de uma oportunidade, chegou a primeiro-secretário. Na época, o executivo e ordenador de despesa da Casa de Epitácio. Quando cheguei lá, já o encontrei veterano de outros mandatos.Saí e ele ficou até ser escolhido por Cássio Cunha Lima para seu vice, na disputa pela reeleição em 2006. Ficou no cargo até 2009, por razões amplamente conhecidas.
    Quase foi governador por um período de dez meses, cargo que chegou a ocupar nas ausências do titular. Mas o mandato definitivo, mesmo curto, estava pronto para ser sacramentado. Colega de Tarcisio Burity na Faculdade de Direito,conservavam uma boa amizade e nutriam confiança recíproca. Burity estava ungido para ser Ministro do Supremo Tribunal Federal e desejava deixar no governo alguém da sua estima. Zé Lacerda seria o escolhido.
    Em uma tarde qualquer dos anos oitenta, nos reunimos na casa do deputado Pedro Medeiros. O dono da casa, eu, Zé Lacerda e Burity. O governador expôs as razões para aceitar a indicação do Presidente Sarney e sua dificuldade por não ter vice-governador. Zé Lacerda fazia parte do PFL, e esta bancada, junto com os integrantes do PMDB fieis ao governo, daria a certeza de vitoria na hipótese da eleição de um mandato-tampão de governador e o vice, com a vacância do primeiro cargo. Zé Lacerda aceitou a missão que incluía a minha eleição para a presidência da Assembleia, de onde comandaria o processo sucessório.
    A mão do destino fez de José Lacerda vítima de insidiosa campanha envolvendo seu filho, injustamente, em um fato delituoso. As suas prioridades se voltaram para a prova da inocência do filho e o resgate da tranquilidade de sua família. O projeto de Burity tornou-se inexequível. A história da Paraíba mudou, mas o homem, o pai, o companheiro Zé Lacerda, não mudaria. Chega aos oitenta anos com a dignidade que construiu ao longo de sua vida pública.E sem um cabelo branco...


  • 16/09/2013

    Que venham os mexicanos!


     

    Detalhamento de RAMALHO LEITE ESCREVE; QUE VENHAM OS MEXICANOS

    RAMALHO LEITE

    QUE VENHAM OS MEXICANOS...

     

    Foi  o que disse Galvão Bueno após vitória da nossa seleção.Os mexicanos vieram, enfrentaram os brasileiros e ganharam. Eu deveria escrever: que venham os cubanos...pois quero falar mesmo sobre médicos e saúde pública e não sobre o futebol canarinho, que as vezes é azulão.Pois que venham os mexicanos, espanhóis, portugueses ou cubanos, pois médicos, venham de onde vierem, é melhor do que não tê-los.

    É de Alcides Carneiro, o tribuno paraibano que se dizia admirado por seus conterrâneos, mas, nunca,  o suficiente para ser eleito, e terminou Ministro do Superior Tribunal Militar, com muito brilho, a frase que resume a necessidade humana de assistência à saúde: “ Hospital é uma casa que por infelicidade  se procura e por felicidade  se encontra”. O médico está inserido nesse contexto. Mas é preciso que ele disponha de uma estrutura adequada para fazer valer os seus conhecimentos. Daí nasceu o discurso sobre a validade do Programa Mais Médicos, nascido do grito das ruas, e captado pelos ouvidos privilegiados da nossa presidenta.

    Fui do tempo em que o médico era um abnegado e quase missionário na sua tarefa de salvar vidas.Conheci um, dr. Mariano Barbosa, que era chamado para atender a toda a região do brejo e do curimataú, como único e raro servidor da medicina. Em Bananeiras, ele atendia nos fundos da Farmácia de Seu Eloi, e foi lá, por duas vezes, que “encanou” o meu braço direito.Sem radiografia, sem gesso, sem anestesia. Na base do olho e da perícia, imobilizou meu braço com palhetas de compensado, gaze, esparadrapo e um comprimido para a dor que viria mais tarde. De minha parte, na hora da dor lancinante,  contemplei-o com todos os palavrões que tinha conhecimento, aí pelos meus dez anos. As vezes me esqueço qual foi o braço, pois continua perfeito como nasceu.

    Nos dias de hoje o médico conversa pouco com o paciente, requisita exames e os lê alguns dias depois. O diagnóstico é amparado por informações de vários laboratórios e, às vezes, ainda sai errado. No interior, há uma guerra parecida com a dos incentivos fiscais, quando os governos concedem isenções de impostos para conquistar indústrias. Os prefeitos oferecem cada vez melhores salários e não encontra profissionais disponíveis. Se faz concurso, aparecem candidatos, mas poucos  assumem o cargo. E as regras são rígidas: nas Unidades de Saúde da Família é obrigatório o cumprimento de quarenta horas semanais. Para quem tem mais de um emprego, e médico pode ter dois, não pode ultrapassar sessenta horas de serviço. Fica difícil, mesmo trazendo cubanos que vão trabalhar pela feira mandada por Fidel.

    Saúde é um direito de todos e dever do Estado. O estado federal transfere essa responsabilidade para o município, manda um terço do dinheiro necessário para que um PSF funcione e o prefeito que se vire para resolver os problemas de estrutura, equipamentos, insumos, medicamentos e pessoal indispensável ao funcionamento da unidade. Sem dúvida que me refiro ao Programa Saúde da Família, objeto principal do Programa Mais Médico.

    Como se pode observar, o interior precisa de mais médicos, mas o poder central, precisa dotar as unidades de saúde de equipamentos necessários. O simples ajutório em dinheiro não resolve. E o médico, independente da sua nacionalidade, sem amparo técnico na sua retaguarda, pode fazer muito pouco. Como da discussão nasce a razão, acredito que alguma coisa vai melhorar. Aguardemos.


  • 13/09/2013

    Um usineiro de oposição


     Quando entrei na Assembleia Legislativa da Paraíba, encontrei o deputado José Fernandes de Lima como líder da oposição. Eu tinha sido vereador pela antiga UDN, partido do meu pai. Com a extinção das agremiações renegadas pelo regime militar, a ARENA tornou-se o meu partido. Renovei meu mandato em 1982, na mesma legenda do ilustre filho de Mamanguape, e quedei-me sob sua liderança. No mandato seguinte, o elegemos Presidente, e eu assumi a liderança do PMDB e do Governo. Em 1991, deixamos juntos a Casa de Epitácio Pessoa. Eu segui o governador Burity no PRN e na canoa furada de Collor. Zé Fernandes permaneceu onde sempre esteve. Os partidos podiam mudar de nome, mas a sua posição era a mesma. Até, quando as forças mais conservadoras do país se acolitaram sob o manto dos militares, o usineiro Zé Fernandes preferiu a oposição e nela se fez respeitar.

    O passeio a esse passado recente, vem a propósito da sessão especial da Comissão de Cultura e Memória do Poder Judiciário, promovida pela desembargadora Maria de Fátima Bezerra Cavalcanti para homenagear o Centenário de Nascimento do Historiador José Fernandes de Lima. O ponto alto do encontro foi o lançamento do livro do imortal Marcos Cavalcanti de Albuquerque sobre o homenageado e suas raízes mamanguapenses. A obra retrata a trajetória dos irmãos Fernandes, com destaque para a transformação do Engenho Guarita, na imponente Usina Monte Alegre, que, até hoje, em mãos de outros gestores, é uma das maiores geradoras de emprego e renda do Vale do Mamanguape. 
    A solidez econômica do grupo familiar e o respeito conquistado junto à sociedade paraibana, projetou muitos dos seus membros na política partidária, e dois deles, os irmãos João e José, chegaram a governar a Paraíba. O primeiro em substituição a José Américo de Almeida, nomeado Ministro de Vargas, e o segundo, no lugar de Pedro Gondim, (vice do enfermo governador Flavio Ribeiro) que renunciara para ser candidato. Zé Fernandes assumiria ainda o governo, como substituto eventual de Burity.
    A lição de Zé Fernandes: “O líder da bancada deve ser o primeiro a chegar e o último a sair do Plenário”. Ele cumpria fielmente esse preceito e costumava ficar na ultima fila da bancada, para barrar os que tentavam burlar a sua vigilância durante a realização das sessões. Dois dos seus pupilos, os atuantes deputados Ruy Gouveia e Bosco Barreto, costumavam dar uma fugidinha ao bar de Dona Chiquinha, a poucos passos da Assembleia. Quando voltavam, devidamente abastecidos, se revezavam em virulentos discursos contra o governo militar. O líder, preocupado, apenas ironizava:
    - Ninguém controla esses meninos...Eles tomaram várias doses de “coragem cívica”...


  • 03/09/2013

    Uma coisa descomunal


    A expressão, publicada na imprensa entre aspas, é um desabafo do presidente da Assembleia Legislativa do Estado, a título de protesto, contra o número exagerado de vetos firmados pelo Executivo,a projetos de iniciativa parlamentar. O protesto soa mais como manifestação política do que, propriamente, como recusa à aceitação dos argumentos constitucionais de quem veta. Os dois lados têm as suas razoes. O Presidente pela obrigação de defender os interesses e prerrogativas da Casa que dirige e o Governador, submisso à lei que o impede de sancionar editos legislativos viciados na sua origem.
    Para que não fosse ouvida a reclamação presidencial, bastaria que as comissões técnicas da Casa, movidas por sentimentos desprovidos de ranço partidário, descartassem os projetos que contrariam a nossa Lei Maior, impedindo-as de prosseguir na sua rota de colisão com o regramento constitucional, até chegar à decisão político-emocional do Plenário, onde logra aprovação.
    Aprovados e encaminhados à sanção governamental, não resta ao Chefe do Executivo outra opção, se não a do veto. O numero “descomunal” de vetos a que alude o Presidente, debito à conta de um colegiado atuante e que deseja mostrar a quem o elegeu, que está defendendo seus interesses. A iniciativa é válida e alcança seus objetivos até que amarelem as páginas dos jornais e se apaguem os blogs noticiosos. A partir do veto, sai de cena o autor do projeto e entra na pauta a má vontade contra quem o assina. São os ossos do oficio.
    Veja-se, por exemplo, a emenda constitucional proposta pelo deputado Raniery Paulino, de atuação destacada a lembrar a trajetória do pai. Pretende o parlamentar limitar os poderes do Chefe do Executivo na escolha do titular da Procuradoria Geral do Estado. Ora, na Constituinte Estadual, onde mourejavam mais de sete parlamentares-procuradores, um deles, seu relator Egidio Madrug, introduziu no art. 138, que o Procurador Geral seria nomeado “dentre integrantes em atividades ou aposentados da carreira de Procurador de Estado...” e, eu, também procurador e liderando a minoria governista, votei contra diante da evidente inconstitucionalidade. Essa e outras iniciativas, visavam implantar na Paraíba, um esdrúxulo parlamentarismo tupiniquim, rechaçado, oportunamente, pelo Supremo Tribunal Federal.
    A emenda Raniery, é cópia fiel da abortada emenda Egídio, e já foi objeto de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade-ADIN, de No. 217-1, COM Acórdão publicado no DOU de 13 de setembro de 2002. Além da iniciativa garroteadora da livre nomeação do Procurador Geral, prerrogativa do Chefe do Executivo, ainda se pretendeu conceder aos procuradores, aposentadoria “aos trinta anos de serviço”; equiparação de vencimentos, adicionais e vantagens conferidas à outras carreiras de estado e ainda, a fixação de um específico piso salarial, “atribuindo-se à classe de grau mais elevado, remuneração não inferior à do Procurador Geral do Estado” e, finalmente, também considerado inconstitucional pelo STF, a concessão de “autonomia funcional, administrativa e financeira “ à Procuradoria.
    O assunto retorna à pauta no momento em que a Associação dos Procuradores trava uma batalha virulenta com o Executivo. Em que pese o respeito à iniciativa parlamentar, a PEC 17 caminha para o veto.Eis o anúncio de uma morte antecipada, e não descomunal.
     


  • 27/08/2013

    Jantando com o Marechal


    Já se escreveu que qualquer democracia, mesmo ruim, é melhor que uma ditadura boa, se é que esta existe. Nos primeiros anos pós 64, muita gente ainda acreditava nos propósitos democráticos da “redentora” que afastara Jango para impedir “ o avanço dos comunas”. Depois veio o AI-5 e com ele o atropelo à Constituição de 1967, votada por um Congresso limitado em seus poderes e convocado especialmente para aquela finalidade. E quando se pensava que as coisas poderiam melhorar, surge a Carta de 1969, esta, um simples emenda outorgada por uma Junta Militar, à qual Ulisses Guimarães, em momento de justificada ira, denominou de “Os Três Patetas”.
    O marechal Costa e Silva tomou posse no mesmo dia em que começava a vigorar uma Nova Constituição. Era de se esperar que esse fato fizesse nascer um raio de esperança em quem acreditou nas boas intenções iniciais do movimento militar. Castelo Branco, o primeiro de uma série de generais na presidência, nomeou uma comissão de juristas para elaborar o Projeto de Constituição. Ao recebê-lo, proclamou que aquele era um presente ao povo brasileiro, um “ato magno do meu governo” para o qual prometia a “respeitabilidade merecida”.
    Dentro desse clima de crença em um futuro menos obscuro, os estudantes concluintes da Faculdade de Direito da UFPB, naquele longínquo ano de 1967 do século passado, escolheram o presidente-marechal como paraninfo da turma. O capitão-reitor queria mais. Para trazer o presidente à Paraíba era preciso que fosse ele o paraninfo geral de todas as turmas. E assim foi feito que ninguém era doido para discordar.Quem discrepou, se fez ausente à colação de grau, em protesto silencioso.
    Os concluintes de direito foram agraciados com uma excursão a Porto Alegre, Rio e Brasília, em um avião da Presidência da República. Hoje as coisas mudaram, e essas aeronaves ficam sob censura, até quando fazem inocentes périplos por festas de casamento ou arenas futebolísticas. Naquele tempo, tudo podia, pois “a revolução é, e continuará”.
    O presidente veio paraninfar seus pupilos, eu entre eles. O cerimonial reservou na mesa do jantar, servido na casa do general comandante da Guarnição, cadeiras para dois afilhados presidenciais. Além do orador que vos fala, o saudoso colega Antonio Eiman Pessoa. Sentei-me de frente para o Presidente e para o Governador. Imaginem! Fiquei tão intimidado e nervoso que é impossível revelar o cardápio. Nem lembro se comi... O vinho eu sei que tomei!
    Mas lembro de uma conversa interessante que vou contar para encerrar o assunto. Durante o jantar, chega o deputado Ernani Satyro, líder do Governo. O presidente Costa e Silva vira-se para o governador João Agripino e revela:
    - O Ernani é seu grande defensor. Dependesse dele, você teria sido o meu vice-presidente. Mas ainda pode ser no futuro, até presidente...
    Agripino rebateu:
    -Presidente, quando eu sair do governo não mais disputarei cargo eletivo. Se houver oportunidade, no futuro, e me for oferecido, eu aceitaria uma vaga de ministro do Tribunal de Contas.
    Alguns anos depois, Agripino era nomeado ministro do TCU e ocuparia com raro brilho a sua presidência.
    PS. Agripino, cujo centenário de nascimento ocorre ano que vem, ainda voltou ao Congresso como deputado.
     


  • 20/08/2013

    Catolé do padre e do frade


    Acompanhei por alguns anos a vida de Catolé, bem instalado na minha cadeira de deputado, ouvindo os debates entre o padre Américo Maia e Frei Marcelino de Santana, do mesmo credo religioso mas de pensamentos políticos antagônicos. O padre era da tradicional família Maia, cujo poderio econômico e político se mantinha há mais de quarenta anos.Eis que chega a Catolé, “um fradezinho despretensioso” a quem não deram importância. Virou notícia quando juntou-se aos “moleques-de-rua” e, de batina e tudo, foi jogar futebol e pegou um pênalti. Demoraria muito a fazer o seu primeiro gol.
    Tinha simpatia pela luta do Frei, apesar de correligionário e colega de partido do Padre. É que a peleja daquele se assemelhava à minha, ele no sertão e eu no brejo.Não é fácil enfrentar uma estrutura de poder alicerçada por fortes vigas, principalmente, em uma época em que as liberdades eram controladas por patentes e galões. A luta do Frei lhe deu poder e voto, e as oposições de Catolé se fizeram ouvir na Casa de Epitácio Pessoa.
    Rememorei essa disputa sadia entre o Padre e o Frade pelo melhor para Catolé, no ultimo sábado, quando uma elite intelectual vinculada àquela cidade, nascidos ali ou agregados, publicaram Catolé do Rocha em Muitas Lentes, uma coletânea de textos sobre a evolução econômica, política e cultural da cidade banhada pelo rio Agon, “cansado de caminhar” e “narrando seu destino, seu penar”. Há tempos não assistia a uma festa tão cheia de emoção e de saudade. O prefeito Leomar Maia e o Chico Cezar não sabem o que perderam.
    O livro descreve a geografia do município, sua história desde os índios Pegas, da nação Cariri; seu nome, com o prefixo tupi Katu ( de Katu’re) que tem o significado de bom e saudável,vem mesmo da palmeira que produz um pequeno fruto, vendido nas feiras como “rosário-de-côco-catolé”, segundo ensina Luiz da Câmara Cascudo, citado por Edna Ribeiro. A que Natercia Suassuna acrescenta:“Catolé, pela abundância da palmeira e do Rocha, em homenagem ao seu fundador” ... Francisco da Rocha Oliveira. “Foi o Catolé desse Rocha que mais tarde tomou vida e caráter nuclear, situado que estava na vertente do rio Hiagô, Hiagon, Ogon ou Agon” esta ultima a que permanece, no dizer de Celso Mariz.
    Lembrei acima os meus colegas de parlamento. Mas o que me levou à festa dos catoleenses foi o meu colega da Faculdade de Direito, José Tarcisio Fernandes, um dos autores do livro e que nos brinda com a epopeia de românticos e ousados estudantes sertanejos que pretenderam ensaiar uma guerrilha nas serras de Catolé. Apurados os fatos, se descobriu que na verdade os jovens vanguardistas desejavam mesmo era se isolar do mundo e construir outro, na Serra do Capim Açu, longe das amarras e violentas repressões em evidência na época. Tudo não passou de uma Colônia de Férias de três estudantes, embora o promotor militar tentasse, em vão, transformar uma caçada em atividade subversiva, já que a arma dos meninos era um livro de Che Guevara...
    Notei no livro a ausência do padre Américo Sergio Maia, do Instituto Histórico e fundador do Instituto de Genealogia e Heráldica através do qual encomendamos a confecção do Brasão da Cidade de João Pessoa, homologados em lei por Dorgival Terceiro Neto e criadas por beneditinos radicados na Bahia.
    Voltando a Catolé, está registrado também que sua fama de aguerrida serviu, pelo menos, para afastar de Lampião a tentação de invadir a cidade. Que a semente da educação plantada pelo Frei, em Catolé, e a sua revolução pela paz, não se perca no deserto,como parecia o grito do Monte Tabor: “ Despertai vós todos os que dormis o sono solto da indiferença e do conformismo . Começa neste instante a Revolução Cultural pela Paz”. O Frei começou pegando um pênalti e terminou fazendo gol.
     


  • 20/08/2013

    Catolé do padre e do frade


    Acompanhei por alguns anos a vida de Catolé, bem instalado na minha cadeira de deputado, ouvindo os debates entre o padre Américo Maia e Frei Marcelino de Santana, do mesmo credo religioso mas de pensamentos políticos antagônicos. O padre era da tradicional família Maia, cujo poderio econômico e político se mantinha há mais de quarenta anos.Eis que chega a Catolé, “um fradezinho despretensioso” a quem não deram importância. Virou notícia quando juntou-se aos “moleques-de-rua” e, de batina e tudo, foi jogar futebol e pegou um pênalti. Demoraria muito a fazer o seu primeiro gol.
    Tinha simpatia pela luta do Frei, apesar de correligionário e colega de partido do Padre. É que a peleja daquele se
    assemelhava à minha, ele no sertão e eu no brejo.Não é fácil enfrentar uma estrutura de poder alicerçada por fortes vigas, principalmente, em uma época em que as liberdades eram controladas por patentes e galões. A luta do Frei lhe deu poder e voto, e as oposições de Catolé se fizeram ouvir na Casa de Epitácio Pessoa.
    Rememorei essa disputa sadia entre o Padre e o Frade pelo melhor para Catolé, no ultimo sábado, quando uma elite intelectual vinculada àquela cidade, nascidos ali ou agregados, publicaram Catolé do Rocha em Muitas Lentes, uma coletânea de textos sobre a evolução econômica, política e cultural da cidade banhada pelo rio Agon, “cansado de caminhar” e “narrando seu destino, seu penar”. Há tempos não assistia a uma festa tão cheia de emoção e de saudade. O
    prefeito Leomar Maia e o Chico Cezar não sabem o que perderam.
    O livro descreve a geografia do município, sua história desde os índios Pegas, da nação Cariri; seu nome, com o prefixo tupi Katu ( de Katu’re) que tem o significado de bom e saudável,vem mesmo da palmeira que produz um pequeno fruto, vendido nas feiras como “rosário-de-côco-catolé”, segundo ensina Luiz da Câmara Cascudo, citado por Edna Ribeiro. A que Natercia Suassuna acrescenta:“Catolé, pela abundância da palmeira e do Rocha, em homenagem ao seu fundador” ... Francisco da Rocha Oliveira. “Foi o Catolé desse Rocha que mais tarde tomou vida e caráter nuclear, situado que estava na vertente do rio Hiagô, Hiagon, Ogon ou Agon” esta ultima a que permanece, no dizer de Celso Mariz.
    Lembrei acima os meus colegas de parlamento. Mas o que me levou à festa dos catoleenses foi o meu colega da Faculdade de Direito, José Tarcisio Fernandes, um dos autores do livro e que nos brinda com a epopeia de românticos e ousados estudantes sertanejos que pretenderam ensaiar uma guerrilha nas serras de Catolé. Apurados os fatos, se descobriu que na verdade os jovens vanguardistas desejavam mesmo era se isolar do mundo e construir outro, na Serra do Capim Açu, longe das amarras e violentas repressões em evidência na época. Tudo não passou de uma Colônia de Férias de três estudantes, embora o promotor militar tentasse, em vão, transformar uma caçada em atividade subversiva, já que a arma dos meninos era um livro de Che Guevara...
    Notei no livro a ausência do padre Américo Sergio Maia, do Instituto Histórico e fundador do Instituto de Genealogia e Heráldica através do qual encomendamos a confecção do Brasão da Cidade de João Pessoa, homologados em lei por Dorgival Terceiro Neto e criadas por beneditinos radicados na Bahia.
    Voltando a Catolé, está registrado também que sua fama de aguerrida serviu, pelo menos, para afastar de Lampião a tentação de invadir a cidade. Que a semente da educação plantada pelo Frei, em Catolé, e a sua revolução pela paz, não se perca no deserto,como parecia o grito do Monte Tabor: “ Despertai vós todos os que dormis o sono solto da indiferença e do conformismo . Começa neste instante a Revolução Cultural pela Paz”. O Frei
    começou pegando um pênalti e terminou fazendo gol.
     


  • 14/08/2013

    O perfil municipal


    O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento-PNUD,acaba de divulgar o Indice de Desenvolvimento Humano dos Municípios Brasileiros-IDH-M. Os resultados alcançados revelam um avanço em algumas das metas que constituem os Objetivos do Milênio, cuja disseminação está incluída na missão desse importante braço das Organizações das Nações Unidas-ONU. A prioridade do PNUD é justamente promover o desenvolvimento e eliminar a pobreza no mundo, atuando em 166 países onde possui representação. O IDH é lastreado nos níveis da educação, expectativa de vida (longevidade) e renda das populações pesquisadas. A divulgação desses indicadores traduzem os avanços ou retrocessos registrados no censo decenal do IBGE e retratam o processo de desenvolvimento de cada município.

    São oito os Objetivos do Milênio. Esse norte está constituído de 22 metas e 48 indicadores para o desenvolvimento do mundo, a serem cumpridas até 2015. O esforço da ONU procura sensibilizar todas as nações, envolvendo desde o governo central às pequeninas células municipais. A metas não pretendem ser utópicas, mas chegam perto do sonho. Redução pela metade da pobreza e da fome. A universalização do acesso à educação primária, ou seja, eliminar o analfabetismo.A promoção da igualdade entre os gêneros, seria a terceira meta, esta em pleno aclive.A redução da mortalidade infantil já se faz sentir entre nós, a partir da melhoria da saúde materna, outro alvo visado. Os Objetivos compõem um conjunto que ainda envolve o combate ao HIV, malária e outras doenças, a promoção da sustentabilidade ambiental e o estabelecimento de parcerias para o desenvolvimento.

    O Indice de Desenvolvimento Humano Municipal, prende-se, exclusivamente, aos indicadores apurados na educação, renda e longevidade, nesses incluídos, alguns dos Objetivos do Milênio, como por exemplo, a redução da mortalidade infantil que compõe o item Demografia e Saúde.Os resultados proclamados pelo PNUD interessam à sociedade e, notadamente, aos gestores públicos imbuídos no propósito de melhorá-los. Despertou também a minha curiosidade e por isso, fui em busca do IDH-M de Bananeiras, em cuja administração minha esposa esteve à frente nos últimos oito anos.

    Descobri que Bananeiras “teve um incremento no seu IDHM de 102,14% nas ultimas duas décadas, acima da média do crescimento nacional (47,46%); acima da média do crescimento estadual (72,25%)”. Os componentes do IDHM: em educação, o índice do ano 2000 foi de 0,204 e em 2010, alcançou 0,430. A longevidade passou de 0,675 para 0,766, isto é, a expectativa de vida passou de 65,50 para 70,98 anos e, finalmente, a renda per capita, cresceu de 0,467 para 0,555, ou seja, de 146,15 reais, para R$ 253,30. Esses números, considerados positivos, porém, não condizem com a classificação do município diante do ranking nacional ou estadual.

    Fui em busca do Atlas do Desenvolvimento Humano de 2003 e, na pesquisa, verifiquei que os números anteriores, repetidos em 2013, não batem. O resultado final partiu de premissa falsa.Por exemplo: no período 1991-2000, o IDHM de Bananeiras,segundo o ATLAS de 2003 cresceu 18,85 %, passando de 0,504 em 1991 para 0,599 em 2000 e, (vide PNUD) o município estaria entre as regiões consideradas de médio desenvolvimento humano. Os números apresentados em 2013 revelam que Bananeiras passou de 0.281(?) em 1991 para 0,401 (?)em 2000, alcançando em 2010 o IDHM de 0,568. Ora, o erro está evidente. O IDHM em 2000 era de 0,599 e não 0,401. Daí por que, quando se projeta o crescimento do IDHM, ao invés de crescer no ranking, o município perdeu posição. Com a palavra o PNUD.
     


  • 04/08/2013

    O último favor


    O meu pai foi vereador por vários mandatose prefeito duas vezes, além de forte cabo-eleitoral dos candidatos que apoiava. Sua votação era baseada na afinidade que criava com oeleitorado, tão reduzido que permitia sua visita, casa a casa, antes das eleições que sempre ganhou, em Borborema.Depois que ampliou sua área de atuação para Bananeiras, aposentou a seringa que adquirira logo depois que o comercio o deixara. A aplicação de injeção não teria muita utilidade em uma cidade com hospital e outros recursos para atender aos seus amigos e compadres. E estes eram muitos.Em uma Missão de Frei Damião, encheu a igreja, sozinho, com os afilhados a serem crismados.
    O tipo de política que se fazia então, ainda hoje persiste em alguns grotões do interior. Herança do passado, essa política do favor que resulta no voto futuro, tem nome bonito: clientelismo. Para os cientistas políticos, a herança colonial seria o fator predominante da presença do clientelismo na democracia moderna. Nesse cenário, o eleitor aceita um beneficio imediato em troca do voto ao invés de optar por vantagens mais amplas,tidas como incertas. Essa descrença no exercício do mandato ou na retribuição da representação que delega, faz do portador do voto um “interesseiro imediatista”, como diria Odorico Paraguassú. Na sua sabedoria, meu pai não censurava esse comportamento. Para ele, a eleição era a safra do eleitor...
    Não vou aqui desenvolver qualquer tese para mudar a relação entre o eleitor e o candidato. Não sou cientista político. Como um dos atores desse processo, aproveito o espaço para contar a minha experiência, submetido que fui a esse método desgastante por muitos anos. Claro que o volume de votos obtidos não se prende, exclusivamente, ao favor direto ou à troca de alguma vantagem. A ação do candidato, o discurso, as teses que defende, completam os votos necessários à sua eleição. Os “pirangueiros”, como o deputado Orlando Almeida os carimbou, são uma minoria identificada facilmente. Como político ouvi muitos pedidos.O mais estranho foi o de uma jovem mulher que desejava um emprego para poder justificar ao marido, as joias que recebia do amante. E me explicou isso com todas as letras, por telefone. O nariz de cera terminou se alongando. O que eu queria mesmo era mostrar que o ultimo favor é que ganha o voto.
    Morei algum tempo ao lado da Federação dos Trabalhadores, na rua da Palmeira. A entidade mantém uma hospedaria para seus associados do interior, em tratamento médico na Capital.O deputado Edvaldo Motta hospedou alí uma família de Patos, com um deles doente. A mulher perguntou a ele como seriam as refeições e ele, brincalhão:
    - Vocês vão comer aí na casa vizinha, do deputado Ramalho Leite.
    Estava acompanhando Antonio Mariz em um comício na feira de Patos quando fui chamado por uma mulher. Desci do palanque para atendê-la e surpreso, ouvi a sua historia:
    - O senhor vai ter dez votos aqui em Patos. É o que minha família tem para agradecer à sua mulher, que nos alimentou por quinze dias, lá na Federação.
    Edvaldo cuidoudo doente e Marta o alimentou.Ganhei os votos. Valeu a tese de que o último favor prevalece.


  • 30/07/2013

    A flor do cemitério


     Naquela manhã fria de maio, Marina Coeli acordou chorando. Tivera um sonho agoniado e pavoroso. Um desconhecido lhe aparecera durante o sono e a convidara para acompanhá-lo por uma estreita alameda do cemitério de Bananeiras. Para ganhar sua confiança, confidenciara que fora amigo de sua mãe. Dito isto, se dirigiu a um mausoléu que ficava na ultima fila do campo santo, voltado para o muro dos fundos, ao contrário dos demais. Envoltos na penumbra da noite, o percurso foi feito pelos dois personagens até a sepultura. Convidada a entrar na catacumba, Marina se assustou ao presenciar o “dono da casa” desaparecer inesperadamente. No endereço eterno do desconhecido, conseguiu ver na lápide de granito uma mensagem. Era assinado por uma mulher, com o nome de uma flor. Acordou alarmada. A alma do outro mundo queria levá-la para o seu convívio.

    No dia seguinte o assunto dominou as conversas da família e dos vizinhos mais próximos. Surgiram teorias e conselhos. Aquela alma queria reza. Uma missa em favor do desconhecido, seria um santo remédio. O problema era justamente esse: um desconhecido. Como endereçar orações em favor de um ente qualquer do além túmulo... Ficou, porém, acertado, que Marina deveria rezar um terço. O seu visitante onírico, por certo, ficaria agradecido. As orações poderiam também servir para evitar a repetição desse devaneio aterrador. Marina prometeu seguir ao pé da letra as recomendações dos amigos.

    Na noite seguinte, bastou Marina cair no sono e o visitante bateu novamente à sua porta, digo melhor, ao seu sono. O cenário era o mesmo e o roteiro foi repetido. O homem insistia para que ela o acompanhasse ao  sepulcro que ocupava. Desapareceu campa à dentro, e Marina,  ainda  leu na laje,  que o defunto tinha o nome parecido com Belchior. O nome da mulher era uma flor, mas ela não lembrava qual.  O sonho voltou por três vezes. Era preciso tomar uma atitude a respeito. Marina estava com os nervos à flor da pele.

    O vizinho mais próximo ouviu a história e resolveu por o assunto em pratos limpos. No jeep de seu Arlindo, partiram para o cemitério. Logo da entrada, na  via principal da necrópole municipal, Marina apontou  o jazigo visto nos seus sonhos.

    - É aquele ali, gritou nervosa..

    Os visitantes contornaram a tumba e puderam ler, cortado no granito: “Aqui jaz, Zelino Beckman, saudades de sua esposa, Hortência”.

    Hortência era o nome da flor que Marina não lembrava. O morto, soube-se depois, era um professor mineiro que veio trabalhar sem a família no Patronato Agrícola Vidal de Negreiros, e faleceu longe dos seus. Alguns anos depois, a esposa veio a Bananeiras e mandou construir o túmulo onde deixou gravada a sua mensagem de saudade.

    Os mais velhos lembraram a passagem de Zelino pela cidade. Os mais novos,  com Marina,  mandaram celebrar várias missas em favor de sua alma. A partir de então, Marina passou a dormir sem sobressaltos. Zelino, o visitante dos  sonhos de Marina, famoso depois que essa historia veio a público, recebe, todos os anos, no Dia de Finados, gente caridosa que  acende muitas velas ao redor de sua cova.


  • 24/07/2013

    O almirante do povo


    A última vez que o Almirante Cândido da Costa Aragão esteve nesta capital, já depois de anistiado, recepcionei-o com um almoço na minha residência do Jardim Luna. José Aragão, seu primo e meu sogro, pedira a cada membro da família para o acolher com carinho. Era uma forma de compensá-lo dos sofrimentos e da distância que mantivera dos seus. Chamei alguns amigos, entre os quais Jório Machado, Edivaldo Motta e Orlando Almeida.O militar, cansado e cego de um olho, resultado de torturas na Fortaleza de Lajes, se queria falar, não conseguiu, mesmo diante da insistência de Jório, já deputado, mas que não largava seu faro de repórter. A segunda esposa do almirante, Aldalina Bobadilha, uma chilena com quem andou por vários países durante o exílio de quinze anos, não deixava que abrisse a boca sobre o passado. Ainda vivia apavorada com os inimigos do chamado Almirante do Povo.
    Cândido Aragão, nascido em quatro de setembro de 1907, nesta cidade de João Pessoa, começou sua carreira como soldado, chegando a capitão-tenente em 1938. Durante a Segunda Guerra comandou a Ilha de Trindade, e em 1948, cursou a Escola de Guerra Naval. Por suas posições políticas, foi reformado no posto de capitão- de -corveta e ficou afastado da Marinha até 1955 quando retornou à ativa por decisão judicial. JK o fez contra-almirante fuzileiro naval, e João Goulart, vice-almirante. No mesmo ano, 1963, nomeado Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, alí foi alcançado pelo golpe militar de 1964. Um estopim para a deflagração do movimento que tirou Jango do poder e entronizou os militares por três décadas, foi a atuação do paraibano como líder dos marinheiros rebelados.
    Eclodido o movimento armado, Candido Aragão foi preso. Graças a um habeas-corpus concedido pelo Superior Tribunal Militar foi solto após quatro meses de cárcere. Pediu asilo político no Uruguai. Regressou ao seu País em 1979, já na vigência da Lei da Anistia - o que não impediu que fosse novamente preso por 49 dias. Tempos depois, era absolvido em todos os processos instaurados contra ele. Foi promovido a Almirante pelo presidente João Figueiredo.
    Um dos poucos militares a permanecerem fiéis ao presidente João Goulart, Candido Aragão virou alvo predileto dos defensores do novo regime e tornou-se inimigo fidagal de Carlos Lacerda.
    Ao registrar o falecimento do Almirante do Povo,em 11 de novembro de 1998, no Rio, a revista Veja conta que em primeiro de abril de 64, Aragão foi surpreendido por uma mensagem através de emissora de radio: “Aragão, covarde,incestuoso,venha decidir comigo essa parada! Quero matá-lo com o meu revolver” . A voz era de Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, injuriado com os boatos, nunca confirmados, de que o almirante se preparava para invadir O Palácio Guanabara, onde Lacerda estava cercado de barricadas.
    Puxei da minha memória a presença de Cândido Aragão entre nós, para lembrar que há quem defenda a substituição dos nomes dos militares vitoriosos em 64 e que são patronos de conjuntos residenciais, praças e ruas, pelos nomes dos que foram derrotados. Sou contra. Todos fizeram parte da historia deste País. Defendo sim, que também de encontre espaço para homenagear os que foram presos, torturados e mortos.Em Sapé, a rodovia onde trucidaram João Pedro Teixeira, ganhou o seu nome. Brizola denomina escola na Beira-rio.Jango continua “deshomenageado”.Candido Aragão, o Almirante do Povo, é paraibano como nós. Merece ser lembrado e pranteado. O prefeito do Rio batizou uma rua na Barra da Tijuca com o seu nome. Falta a Paraíba, às vezes ingrata, destacar os seus filhos mais ilustres.
     


  • 14/07/2013

    Quem apaga a lanterna?


    A palavra da moda é mobilidade urbana. Antes se falava em fluxo de veículos, dificuldades de acesso, problemas de deslocamento. Tudo isso virou uma palavra chave:mobilidade. A construção de um sistema viário que evite a paralisação do trânsito com desperdício de tempo e combustível, além de não acabar com os nervos do motorista, se enfeixam no contexto de mobilidade. Esse é o grande desafio das cidades, em qualquer parte do mundo, talvez não em Cuba, ainda usando os poucos veículos produzidos na antiga Rússia, sem peças de reposição.Onde a industria automotiva ganhou corpo, as ruas incharam, com os veículos se arrastando.
    A opção pelo automóvel, entre nós, começou na era JK. O automóvel fabricado no Brasil precisava de estradas de boa qualidade e elas foram surgindo. Enquanto as BRs surgiam, os ramais ferroviários eram apontados como deficitários, e em seguida, desativados. Essa conta fica para o Juarez Távora, antigo tenente de trinta e general do regime de 64. Segundo as estatísticas, só nos últimos dez anos, a frota de veículos no País cresceu mais de 400 por cento. E depois que desoneraram o automóvel da incidência do imposto (IPI), mantendo preços estáveis e tornando-o acessível a maior numero de brasileiros, ficou difícil dirigir. Nesta Cidade das Acácias, pior ainda.Um gerente de banco de origem sulista, me definiu essa dificuldade: “para onde eu vou, todo mundo vai... Tanto faz ir para a praia como para a zona sul”. E agora não tem hora melhor.Tá tudo dominado pelo excesso de veiculo e escassez de espaço.
    A mídia nos dá noticia de que estão em andamento projetos que pretendem modificar a face da cidade. Se promete a implantação de sistemas sobre trilhos (VLTs) ou ônibus de alta capacidade e velocidade (BRTs) além da integração desses braços de transportes, até com ciclovias.Tudo muito bonito e projetado.Na verdade se faz uma meia-sola no final da Epitácio Pessoa e se anuncia o mesmo no inicio da Beira-rio, duplicação no Altiplano do Cabo Branco e Cruz das Armas. Um realinhamento de tráfego nos Bancários e na Lagoa, e um Viaduto no Geisel e outro em Mangabeira. Há medidas projetadas para aliviar o tráfego, facilitando a condução de veículos de pequeno porte ou atraindo o usuário para o transporte coletivo. De concreto, até agora, só vejo a redução do canteiro central da Epitácio e inicio de obras em Cruz das Armas. Mas tenho esperança de ver muito mais do que as promessas de liberação de recursos do Ministério das Cidades.
    Preso no trânsito há algumas horas, me deram noticia de um acidente mais na frente. Não há pessoas vitimadas, apenas danos materiais aos veículos. Pela lei, os avariados deveriam ser retirados do eixo da avenida e, lá fora, seria resolvido quem pagaria o prejuízo de quem. Com a faixa de rolamento reduzida à metade, diminui a capacidade de deslocamento. Imaginem o cenário que vemos várias vezes por dia.Descem os motoristas dos veículos sinistrados e passam a discutir seus direitos. Cada um com sua razão.Chegam os peritos e a discussão se renova na presença da autoridade,cada um querendo impor sua versão. Passadas algumas horas de sofrimento para todos que esperam o desfecho da querela, o fluxo se alivia.Quando passo pelos veículos engatados, identifico os danos e a alegria de quem recebeu o impacto por trás. O culpado resolveu pagar a lanterna quebrada...
     


  • 06/07/2013

    Arena Brasil


    A Arena entre nós já foi o maior partido do ocidente, no dizer do indefectível Francelino Pereira; abrigo obrigatório dos apoiadores do regime militar pós 64, oriundos do udenismo extinto. Na Roma Antiga, a arena mais famosa, o Coliseum, foi palco da eliminação de cristãos, alimento servido a leões famintos. No Brasil de hoje, sob inspiração da FIFA, a arena é o nome dado aos campos de futebol, antigamente chamados de estádios. A arena romana ganhou o nome de Coliseu, vindo de Colosseum, uma estátua do Imperador Nero, (aquele que enquanto Roma ardia em chamas, ele tocava harpa) erguida nas proximidades. Na Espanha, é na arena que os touros são sacrificados sob aplausos de multidões encantadas com o sangue dos bovinos. Arena, tanto no passado como no presente, só faz lembrar espetáculos de violência.
    Me parece contraditório que, sendo a segurança nas praças esportivas a prioridade dos organizadores de qualquer competição, o cenário receba a denominação de arena. Arena da Fonte Nova, Arena Mané Garrincha, Arena Castelão, Arena Pernambuco e assim por diante. Aliás, o nome completo é antecedido por uma marca de cerveja. Mas a toda poderosa FIFA proibiu sua citação. Quando terminar essa Copa dos Campeões, ouviremos finalmente o nome completo dos estádios: Itaipava Arena Pernambuco, Itaipava Arena Fonte Nova... Não foi em vão que a Lei aa Copa liberou a venda e o consumo de cervejas durante os jogos. Uma arena lotada de espectadores movidos a esse combustível em latinhas, queira Deus que reine a paz entre as galeras rivais.
    Durante a preliminar da Copa do Mundo, ou seja, a Copa das Confederações, quem não conseguiu ingresso foi engrossar as passeatas de protesto que nos últimos dias, invadiram as avenidas das principais cidades deste país. O chamado “protesto pacífico”, carimbo usado por uma rede de TV para tentar minimizar os atos de violência que acompanharam as manifestações populares, vai conseguir dividendos em pouco tempo.O recado das ruas conseguiu imprimir velocidade até às decisões do Congresso que, em poucas horas, aprovou os royalties do petróleo para educação e saúde e sepultou a PEC 37, que dava exclusividade de investigação às polícias, encolhendo o poder do Ministério Publico. As passagens de ônibus e

    metrô, motivo aparente para o povo ganhar as ruas, tiveram seus aumentos revogados ou diminuídos.Como dizia JK: acordaram o monstro. Esse monstro se chama opinião pública, que, de cara pintada ou de cabelos brancos, resolveu, na linguagem do facebook, trocar o status do país: de “deitado eternamente em berço esplendido”, para “ um filho teu não foge à luta.”
    O espetáculo cívico que varreu esta nação de norte a sul, de leste a oeste, não tem liderança e nem carro de som para comandar as ” palavras de ordem”. Os meninos de hoje foram chamados pela internet. O chamamento digital teve também um ajutório não programado desse meio de comunicação quase ultrapassado: a televisão. A mensagem do PPS advertia: “só a mobilização faz a mudança”. Por outro lado, uma marca automotiva chamava todos para a rua, “a maior arquibancada do Brasil”. O povo atendeu e daí nasceu a Arena Brasil.
     


  • 28/06/2013

    A botija de Camucà


    A vida corria tranquila na Vila de Camucá. O nome, de origem indígena, significa “terra deserta’. O rio, do mesmo nome, deu origem ao povoado que foi surgindo depois que o dr.José Amancio instalou usina de beneficiamento de arroz e uma fecularia, garantindo centenas de empregos. Nas terras que adquiriu, plantava a matéria prima de suas indústrias. Para expandir seus negócios, precisava de energia. Barrou o rio Camucá, uma continuidade do Rio Canafístula, e trazendo máquinas do exterior, instalou a primeira usina hidroelétrica do nordeste, antes mesmo de Delmiro Gouveia descobrir Paulo Afonso. Somente o trem, que faria parada alí a partir dos idos de 1913, perturbava a calmaria que, durante o dia, acalentava o sono da “bela adormecida dos eucaliptais” como a denominou o imortal Manoel Batista de Medeiros.
    Camucá tomou ares de povoado promissor após o advento da luz elétrica e a partir de 1949 tornou-se um distrito integrante do município de Bananeiras. Quando a água acumulada para a produção de energia invadiu a cidade, que acompanhava a silhueta do rio, dr.José Amancio mandou projetar uma nova, na parte mais alta, e suas ruas obedecem a um traçado invejável. No ponto mais elevado do terreno, cumprindo promessa de sua primeira esposa, dona Luizinha Moreira Ramalho, mandou erguer uma capela em louvor a Nossa Senhora do Carmo e, posteriormente, construiu amplas escadarias. Em cada desnível da subida, os fieis podem contemplar a estátua de um profeta. Quem sobe ou desce esses batentes pode parar para descansar, sob as vistas de Isaías, Jeremias, Ezequiel ou Daniel.
    Em um burgo que só acordava com a sirene da fecularia liberando seus trabalhadores ou com o apito do trem na ultima curva de chegada, qualquer novo morador era notado imediatamente e objeto da curiosidade geral. Foi assim com José Diogo ou Zé Diogo, para os mais íntimos. Chegou de repente, sem recomendação ou clareza de sua origem. Em torno dela surgiram várias versões e, a mais provável, era que uma moléstia incurável naquela época, recomendava que respirasse ares mais amenos como o da pequena Vila de Camucá, vizinha de Bananeiras, onde o Major Zé Fábio inventara uma vacina à base de saliva humana, que curava todos os males. Excelente conversador, Zé Diogo, onde chegava era cercado e ninguém duvidava ou contestava a veracidade de suas narrativas. Sofrera o diabo nos seringais da Amazônia, e em trinta, saía de Cruz das Armas, onde morava, e entrava pelos fundos do Palácio da Redenção para levar, em caixas de sapatos, cargas de munição que arrecadara, para ajudar Joao Pessoa na luta de Princesa...
    Um dia surge na vila um burburinho. Lá perto do Engenho de Poço Escuro, já na vizinhança de Solon Benevides, encontraram um enorme buraco. Misturada à terra dele retirada, pedras de carvão, casca de cebola e cabeça de alho. Tudo indica que alguém arrancou uma botija, era a informação que corria de boca em boca, tirando a tranquilidade do lugar. Arrancar uma botija, indicava que um defunto deixara enterrada a sua fortuna, e aparecera em sonho a um felizardo encarregando-o de desenterrá-la, para que pudesse, enfim, sua alma angustiada descansar em paz. Quem teria sido esse ganhador da loteria do além? Qualquer atitude suspeita, resultava na indução de autoria. É público e notório que quem arranca uma botija está proibido de revelar, sob pena de acompanhar o doador à sua última morada.
    Com a história da botija no auge, José Diogo passou a sorrir encabulado toda vez que se falava no precioso achado. Foi Zé Diogo, concluiu alguém. A cara dele não nega, afiançava outro. E o nome de Zé Diogo foi crescendo como novo milionário da terra. Se fora mesmo ele, todos concordavam, estaria impedido de gastar o ouro que exumara do Poço Escuro.
    Tinha Zé Diogo uma carta de crédito vinda do além. Passou a comprar fiado em todas as bodegas. Não regateava preço. Comprava e mandava anotar. E se alguém indagava quando pagaria, respondia com um sorriso maroto: “Você sabe que não depende de mim”...
    O engodo não poderia se perpetuar. As contas estavam aumentando e se aproximava o período da quarentena para o botijeiro. Uma manhã... a Vila notou a ausência da sua celebridade instantânea. Zé Diogo pegara o trem na madrugada e desaparecera nas curvas da ferrovia. Outros viajantes deram noticia dele até que o comboio escureceu, na passagem do túnel de Poço Escuro. Ao clarear do dia, não havia mais sinal do misterioso passageiro...
     


  • 21/06/2013

    Cidade descalçada


    A campanha tem a marca do multimídia Abelardo Jurema mas todo dia ganha novos adeptos. Impossível deixar de aderir a um movimento que visa comover o Poder Público e a iniciativa privada para dotar seus imóveis de calçadas bem conservadas.Exigir, de logo, condições de acessibilidade aos portadores de necessidades especiais, seria pedir demais.Por enquanto, bastaria que as calçadas não oferecessem riscos aos pedestres e cadeirantes que por elas trafegam.Mas os registros de incidentes se sucedem, sem providencias efetivas a respeito.
    Esta semana levei um baita susto. Fui avisado que minha esposa teria sido vítima de uma calçada mal cuidada.Um desnível de terreno quase invisível,provocou seu desequilíbrio e uma violenta queda, com a face no chão.Quebrou o nariz e perdeu um bocado de sangue. Nada que merecesse preocupações maiores além de um raio x e uma ultra-sonografia.Ela encarou com bom humor o incidente e chegou alegre em casa, dando graças a Deus por não ter quebrado os óculos...
    Seria cômico se não fosse trágico, ter que enfrentar quilômetros de calçadas irregulares ou inexistentes e, neste caso, propícias ao acúmulo de detritos.O pessoense às vezes encara com muita verve o seu desconforto. Exemplo: na rua Fernando Luiz Henrique, uma das mais movimentadas do Bessa, um morador fez escrever no muro de sua vizinhança:NÃO JOGUE LIXO SOBRE ESSA DESCALÇADA. O espaço destinado à calçada está verde nesta época do ano e os moradores resolveram obedecer ao aviso, em respeito, até, ao bom humor do grafiteiro improvisado.
    Convivi com problema semelhante nos idos de 1973 quando esta cidade das acácias possuía dezenas de terrenos baldios em avenidas destacadas. O engenheiro Paulo José de Souto era Secretario de Planejamento do Município e, juntos, bolamos uma campanha para que os proprietários construíssem os muros de seus lotes. Aprovada pelo prefeito Dorgival Terceiro Neto e homologado pelos vereadores, foi concedida a isenção do IPTU a quem cercasse o seu terreno, antes, ponto de acúmulo de resíduos sólidos. Não demorou muito e desapareceu da visão do pessoense e dos nossos visitantes a imagem dos focos de muriçocas e outras consequências mal cheirosas do lixo jogado a céu aberto.
    Não custa nada uma lei municipal que ofereça um desconto no IPTU, a quem prove o investimento na conservação ou construção da sua calçada. O incentivo fiscal vai despertar o interesse de todos em restaurar o passeio publico e evitar que outras pessoas sejam vitimadas quando transitarem por uma área que, por ironia,é destinada à sua própria proteção.
    Fica a sugestão aos senhores vereadores. Já se fala por aí de iniciativas que obrigam o recolhimento do cocô do cão de estimação.Outrora se propôs o uso de fraldas para o jumento nosso irmão esconder sua virilidade.É chegada a hora de se pensar em gente que não pode se expor aos perigos desta cidade descalçada.Gente que, agradecida, também vota.
     


  • 11/06/2013

    Waldyr, o conciliador


    Quando eu cheguei à Assembleia já o conhecia dos embates municipais. Estava secretário da prefeitura, durante a gestão Dorgival Terceiro Neto, enquanto Antonio Waldyr Bezerra Cavalcanti era vereador à Câmara de João Pessoa. Dorgival contava na sua bancada com bons vereadores, a exemplo da raposa política da época, outro Antonio, o Cabral Batista, vigário colado na presidência da Casa. Quando havia alguma matéria controvertida a ser aprovada, Cabral dava o mote: só tem um jeito, chamemos Waldyr. E era Waldyr Bezerra o arauto da conciliação. Era oposição, mas na hora do interesse público, deixava o partido de lado e ficava com a cidade.
    Uma das polêmicas maiores foi o aumento substancial do imposto predial. Na Assembleia, o deputado Inácio Pedrosa, do mesmo MDB de Waldyr, desenvolvia campanha contra o prefeito, inconformado com as novas alíquotas. Na hora que foi chamado a conhecer a realidade, a desorganização tributária reinante, onde uma casa em Cruz das Armas pagava mais imposto que um palacete da Epitácio, Waldyr Bezerra compreendeu a necessidade de implantação de uma justiça tributária. Conciliou sua bancada, fechou os ouvidos para a oposição na Assembleia e ajudou a gerar mais recursos para o Município.
    Eleito deputado entre os onze do MDB em 1974, com ele me reencontrei, fazendo parte do bloco dos vinte e dois da Arena. Estivemos em campos opostos, mas juntos em inúmeras iniciativas. A partir de 1982, formamos a mesma bancada do PMDB e fomos até à Assembleia Estadual Constituinte, quando ambos nos despedimos da Casa de Epitácio Pessoa.
    Advogado militante e amante das letras jurídicas, foi na formatação da nova Constituição da Paraíba que Waldyr Bezerra revelou-se o parlamentar indispensável ao debate. Como presidente da Comissão de Organização dos Poderes e depois, como vice-presidente da Comissão de Sistematização, atuou brilhantemente e defendeu seus pontos de vista com firmeza.
    Três pontos que ganharam grande destaque na mídia, contaram com a destemida reação do constituinte Waldyr Bezerra.Ficou contra a derrubada da lei de João Agripino que fixou o gabarito máximo para a construção de prédios na nossa orla marítima; reagiu contra a Comissão de Fiscalização do Poder Judiciário, criada pelo voto de minerva do Presidente João Fernandes e revogada pelo Supremo, por inconstitucional; (depois, surgiria o Conselho Nacional de Justiça) e, finalmente, ficou contra a criação de novos municípios.
    Quanto à criação de novos municípios ficamos isolados. Só nós dois fomos contra o exagero de se instituir mais cinquenta e dois municípios no estado, sem condições de autossobrevivência. Era como se dividir a miséria, pois o mesmo bolo seria repartido em mais fatias, era nosso argumento.Hoje, talvez viéssemos a reconhecer que muitas das novas cidades cresceram e melhoram desde que deixaram de ser distritos.
    Essas pinceladas sobre a atuação parlamentar do companheiro que acaba de nos deixar, refletem a história de um político que valorizava,acima de tudo, o interesse maior da população. Ademais,quando se queria resolver uma situação de difícil entendimento entre as facções beligerantes, bastava chamar Waldyr. Ele não havia nascido para digladiar.Sua missão era a de conciliar, e será assim, que sempre o verei.
     


  • 03/06/2013

    Vigarista toma sino de Amorim


    A nova Bananeiras que vem sendo construída a partir dos últimos dez anos, começou a surgir da iniciativa de um empreendedor corajoso que acreditou no futuro de seus investimentos, conseguiu parceiros que se associaram ao projeto e arrancou o poder publico da sua inatividade secular. Bastou uma legislação protecionista e acolhedora, a par de uma divulgação direcionada à história, beleza e vantagens climáticas do lugar, para a antiga capital do café se tornar um dos destinos turísticos mais procurados da Paraíba,
    Com a construção de uma segunda residência em condomínios fechados, vieram conviver com os brejeiros dezenas de nordestinos, e até europeus. Estes escolheram as nossas serras, pela semelhança do clima, como moradia de lazer ou para gozo merecido de suas aposentadorias.
    Entre as figuras pioneiras desse êxodo pelo avesso, que abandonaram o litoral ensolarado e as praias de águas quentes vindo aportar no alto da Serra da Cupaóba, destaco Aloisio Nicácio, servidor aposentado do Banco do Brasil com passagem pelo Tribunal de Justiça na gestão do estimado amigo Rafael Carneiro Arnaud e que construiu seu chalé na Rua Santo Antonio, conglomerado inicial da nova fase do burgo de Solón de Lucena.
    A sua casa, com vista privilegiada para a cidade que se espalha ordeira e majestosa no vale cortado pelo Riacho Bananeiras foi das primeiras a surgir, ao lado do empreendedor-mor Alírio Trindade Leite, um patoense que escolheu Bananeiras como seu berço e por ela foi adotado. Essa adoção rendeu muitos frutos e os alicerces que fincou agregaram às estatísticas do nosso desenvolvimento mais de quinhentos leitos de hospedagem, cinco condomínios fechados, restaurantes de boa qualidade e cerca de dez loteamentos que ampliaram a zona urbana, conforme o Plano Diretor da Cidade.
    Andei pela cidade e já ia me esquecendo do sino. O padre comprou um terreno e Alirio construiu a Capela em homenagem a Santo Antonio, mas faltava o sino. É aí que entra o seu vizinho Aloisio Nicácio. Seu concunhado de nome Belarmino de Amorim possuía um sino e antes que botassem preço na peça necessária à capela, Aloisio resolveu fazer um pegadinha com o cunhado, lhe enviado a carta abaixo:
    A Prelazia de Bananeiras está construindo, na comunidade Sítio Serra Verde, uma capela, com donativos dos moradores daquela comunidade e significativa ajuda dos amigos de João Pessoa, possuidores de chalés naquele logradouro.
    Um caridoso morador da comunidade prontificou-se a doar o sino para a capela e mandou fabricá-lo em Minas Gerais; entretanto, até esta data, o fabricante não entregou a encomenda, tendo nos informado, por último, que o sino estaria pronto no final de outubro de 2005, sendo que a inauguração da capela está programada para o dia 26 de setembro próximo.
    Sabedor de que V. Sª. dispõe de um sino com as dimensões exatas para a obra em construção, venho, encarecidamente, apelar para a sua notória benevolência, no sentido de ceder à nossa paróquia, por empréstimo, o aludido sino, que lhe será devolvido tão logo nos seja entregue o exemplar que se encontra em fabricação.
    Certo de que contarei com a sua valiosa colaboração, apresento-lhe, antecipadamente, os meus agradecimentos, na qualidade de Vigário da Paróquia de Santo Antonio.Saudações,Vig. Aristato Masino de Amorim.
    A cidade nunca teve esse vigário. Mas foi lendo o nome do dito cujo sem intervalo, que decifrei a pegadinha. A assinatura revela que um VIGARISTA TOMA SINO DE AMORIM. Santo Antonio agradeceu, sem duvida.
     


  • 27/05/2013

    Vice não é coisa fácil


    A discussão pela escolha do cabeça-de-chapa domina sempre o ambiente político e as especulações jornalísticas. Os vices, que compõem as chapas majoritárias, são anunciados na undécima hora e resultam de composições várias. As vezes prevalece a liderança pessoal ou o parentesco com essas lideranças.Outras, a junção partidária e, finalmente,a localização geográfica da atuação do candidato.Ou seja, o eleitorado que ele representa. Com relação a esse último predicado, Campina Grande tem sido o celeiro de candidatos a vice-governadores, amparados por considerável fatia do eleitorado que se une quase sempre em favor dos seus.Caberia um post-scriptum: há ainda uma categoria menos votada mas bem lembrada: os empresários. Quando se junta a geografia com a conta bancária e a força eleitoral, não há quem resista. Seu Cabral- Severino Bezerra Cabral, dono de banco e dos votos de Campina,foi o escolhido por João Agripino para seu companheiro de chapa, após o afastamento de Silvio Porto, intelectual respeitado mas com poucos votos, sem dinheiro e político de Guarabira.Somava menos.
    Na recente história da Paraíba, porém, o único vice da serra que deu certo foi Rômulo Gouveia.Está bem na missão e promete vôos mais altos. Argemiro de Figueiredo, um nome nacional, quando compôs a chapa de Ruy Carneiro, perdeu a eleição justamente para seu Cabral, que, pouco depois, perderia o mandato. Raymundo Asfóra, um ícone campinense, não chegou a assumir e José Carlos da Silva Junior, assumiu muitas vezes mas foi convencido pelas raposas do PDS a renunciar para ser candidato a Governador. Seria trocado por Marcondes Gadelha e voltaria às suas atividades empresariais perdendo a vice e a perspectiva de governar o seu estado através de eleição direta.Mesmo com esses revezes, ninguém pode negar a força de Campina quando tem gente sua na chapa majoritária.Quem desdenhou perdeu feio. Maranhão, na sua reeleição, candidato único, escolheu Roberto Paulino e ganhou. Reincidiu em subestimar o eleitorado campinense e preferiu o PT de Luciano Cartaxo. Desta vez tinha competidor, perdeu. Ganhou no tapetão. Essa sorte que não teve Roberto Paulino. Este juntou-se a um dos melhores nomes do sertão, Gervásio Maia, mas não logrou êxito.Campina deu o troco.
    O meu tema de hoje serviu de mote para animada conversa no Cassino da Lagoa quando ex-deputados se reuniram para saudar o regresso de Carlos Dunga à Assembleia. Candidato preterido a vice na chapa de Antonio Mariz, Dunga ainda hoje se queixa de Humberto Lucena,que desejava um ortodoxo emedebista para fazer dupla com Mariz. Maranhão foi o escolhido. Juntava a tradição do partido com a sua historia de cassado pelo regime militar.Seu cofre contou pouco pois é pública e notória sua fama de pão-duro. No máximo, cederia seu avião para as viagens de campanha. Desde que alguém botasse o querosene. Como o piloto era ele, não precisava pagar diária.
    Waldyr dos Santos Lima, Wilson Braga, Assis Camelo,Afranio Bezerra, Arnóbio Viana e Gilvan Freire, reunidos em torno de Dunga, cada qual trouxe um fato das antigas, motivo da audiência curiosa de Manoel Raposo,Fábio Arruda e Ramom Moreira, vereador de Bananeiras que compôs a nossa mesa como meu convidado. Não estando autorizado a contar a história dos outros, fico com a minha.
    Num vôo para Brasilia, encontro Maranhão. Desencantado com a política, reclamava a injusta cassação de Humberto pela distribuição dos famosos calendários e proclamava sua decisão de não ser mais candidato a nada.Na sua ótica, o poder econômico, como nunca, dominaria aquela campanha que se avizinhava. Não colocaria seu patrimônio em jogo apenas para conquistar mais um mandato de deputado federal. Voltou de Brasília como vice de Mariz. Dunga queimou o documento assinado por dezenas de prefeitos indicando-o para a vaga.Dunga era Campina. Foi preterido. Mariz ganhou. Exceções também acontecem.
     


  • 21/05/2013

    Só falta o Papa


    No mundo da política, o relacionamento entre o gestor que sucede e o sucedido, dificilmente não termina em briga. Sobre essa tendência natural, o governador Burity costumava dizer: só quem não brigou foi Tomé de Souza, primeiro governador-geral do Brasil, por motivos óbvios. Competindo na categoria de não ter com quem se desentender, sempre esteve o Papa.Reinando absoluto no Vaticano, nunca o Papa, até a renuncia de Bento XVI, sucedeu a outro Papa que continua vivo e morando a poucos passos da Capela Sistina.Se a possibilidade de Tomé de Souza romper com o “sucedido” era inexistente, a realidade do Vaticano hoje, impede que naquele pequeno Estado, a regra seja exceção. Agora, até o Papa tem um sucedido com quem ser comparado e pode,da comparação, nascer a discórdia.

    Se lesse os jornais, o Papa Emérito Bento XVI já teria alguns motivos para botar as barbas de molho. A imprensa divulga fatos que podem fomentar a discórdia entre ícones da sociedade,sejam da política, da religião ou da própria classe. Basta ler certas noticias com outros olhos para encontrar nas entrelinhas a semente da cizânia. “Francisco ultrapassa Bento no negócio das lojas da Cova da Iria” é um manchete que colhi. Outra:”Decepção com Bento XVI deixa comercio de Aparecida indiferente à visita do Papa Francisco”. Para falar somente nos efeitos econômicos da sucessão. Não precisa lembrar a simplicidade do argentino que voltou ao hotel, como um homem comum,para pagar a conta de sua hospedagem ou comparar sua falta de medo ao cruzar a Praça de São Pedro dispensando o Papamóvel à prova de bala ou ainda a renuncia às vestes luxuosas e aos adereços de ouro que costumavam adornar o peito do antecessor e de todos os Papas. Desde Pedro?
    Desde o retorno de Bento XVI do seu período de quarentena em Castel Gandolfo, foi iniciada uma experiência inédita de convivência de um Papa com o substituído. Bento reside agora no Mosteiro Mater Ecclesiae, dentro do Vaticano. Descendo para o patamar dos mortais e pecadores, seria como entronizar Dilma no Palácio do Planalto e ceder o Palácio da Alvorada a Lula. Esperemos não chegar a ver entre as lideranças da Igreja, a desarmonia tornada pública entre lideranças da política em todos os níveis.
    Mas deixem eu voltar ao meu território, pois a Roma que conheço é um distrito lá de Bananeiras.A alusão de Burity a Tomé de Souza, prendia-se às desavenças locais com troca de “amabilidades” entre ex-governadores da terrinha.Ele mesmo, ungido ao cargo depois de Ivan Bichara desentendeu-se com o próprio e destituiu seu cunhado Hermano Almeida, da Prefeitura da Capital. Ivan, por sua vez, teve em Ernany Satyro, a quem sucedera, um crítico implacável. No segundo mandato, adquirido em eleição direta, seria a vez de Burity ter a sua desavença com Ronaldo, que o sucedeu. Ronaldo, por sua vez, encontrou, no sucedido José Maranhão, a razão da divisão em dois pedaços, do partido que Humberto Lucena construíra juntando os cacos dos destroços salvos da ditadura iniciada em 64. Para falar somente no período pós 64, a dissensão mais dissimulada foi entre Ernany Satyro e Joao Agripino, pois apesar de estimulada separação e declarada rivalidade, nunca chegaram às “vias de fato” e se juntaram novamente na malograda campanha de Antonio Mariz a governador, na eleição indireta.
    Mais para trás, lembro que, estudante e trabalhando como Oficial de Gabinete do governador Pedro Gondim, um dia, ele encostado a uma janela do terraço que ainda mantinha o piso das suásticas nazistas, sabedor da minha ligação com Clovis Bezerra, um dos lideres da UDN, me chama e dá um recado. Era para chegar aos ouvidos do respeitado político de Bananeiras, e eu entendi também assim.
    -Eu soube que há uma certa resistência de setores da UDN em me ter no palanque de João Agripino. Se a minha presença atrapalhar a vitória de João, fico fora. Mas estou pronto para ajudar! Revelou,cheio de mágoa...
    O recado foi passado adiante. A UDN sabia que Pedro ajudaria e no primeiro comício a que compareceu, na Duarte da Silveira, foi uma apoteose. Não faltaria a outros. Tentaram uma briga entre Pedro e João e não conseguiram.
    Em toda regra há exceção. Espero que, com referencia aos lideres da nossa Igreja Católica, a exceção prevaleça. Em nome de Jesus!

     


  • 15/05/2013

    Orgulho da Paraíba


    Não vejo preconceito quando se chama de “paraíba”, o nordestino que aporta em São Paulo para ajudar o seu desenvolvimento. Quem prefere o Rio e quase sempre sobe o morro, é chamado de “baiano”. E nem por isso a Bahia se revolta. Mais constrangedor foi a deturpação da musica de Gonzagão que, para homenagear a terrinha, terminou carimbando a mulher paraibana de “mulher macho, sim senhor”. E o velho Lua nunca deixou de receber as mais escolhidas homenagens dos paraibanos.Prefiro lembrar os “paraíbas” de sucesso , orgulho de todos nós.

    No próximo ano, três grandes paraibanos estariam completando cem anos, se vivos estivessem. Pela ordem de nascimento Abelardo de Araujo Jurema, João Agripino Filho e Pedro Moreno Gondim nascidos nos idos de 1914, o primeiro em 15 de fevereiro,o segundo em 1º. de março e o ultimo em 1º. de maio.

    Abelardo Jurema nasceu em Itabaiana e começou por lá a sua vida pública, nomeado prefeito com o advento do Estado Novo. Jornalista, enquanto cursava a Faculdade de Direito do Recife, escrevia para o Diário de Pernambuco, Jornal do Comercio e Diário da Tarde. Tinha que vir parar em A União, a escola de todos. Sob a direção de Orris Soares (Bisavô de Jô Soares) conciliava seus escritos para as linotipos com a gerência de uma fábrica de cigarros de seu avô.Não foi em vão que, no exílio pós 64, sobreviveu no Perú vendendo charutos. Ao ser cassado pelos militares, já fora secretário de estado, senador-suplente e deputado federal chegando a Líder de JK e Ministro de Jango. Foi um “paraíba” de sucesso e que honrou a delegação dos paraibanos.

    João Agripino Mariz Maia que ganhou nome e fama como João Agripino Filho nasceu em Catolé do Rocha. Foi professor primário, promotor de justiça e na restauração da democracia, em 1946, ajudou a fundar a UDN e por este partido candidatou-se a deputado federal cumprindo vários mandatos. Em 1962 foi eleito deputado e senador, preferindo o Senado.Dalí saiu para ser Governador da Paraíba mas antes serviu como Ministro ao Governo Janio Quadros. Deixando o governo, incursionou pela iniciativa privada para depois chegar ao Tribunal de Contas da União, do qual foi presidente. Fez um governo diferente e povoou o Distrito Industrial criado por Pedro Gondim, que o antecedeu.

    Pedro Gondim nasceu em Alagoa Nova mas teve em Serraria, seu berço político. Dedicava-se a atividades agrícolas e à advocacia quando foi convocado a disputar a eleição de deputado estadual. Esteve na Assembléia até ser escolhido, em 1955, para o cargo de vice-governador em chapa conciliada por José Américo (que deixava o Governo) e que elegeu Flavio Ribeiro Governador. Com a enfermidade do titular, assumiu o governo da Paraíba e renunciou em 1960 para ser candidato ao cargo. A vitoriosa campanha O Homem é Pedro, dividiu o fortíssimo pessedismo e abalou a cidadela de Rui Carneiro. Foi cassado quando exercia o mandato de deputado federal.

    Essas rápidas pinceladas pelas biografias desses três paraibanos têm o propósito de lembrar ao Instituto Histórico, Academia de Letras, Tribunal de Contas (criado por J.A), Assembléia Legislativa, Prefeituras de Alagoa Nova, Serraria, Catolé, Itabaiana e, finalmente, A União, testemunha da historia da Paraíba nos últimos 120 anos, a necessidade imperiosa de registrar para esta e às futuras gerações, em festividades bem produzidas, a centenária história desses três paraíbas da gema, que, por onde passaram, honraram o nome deste Estado. E tenho dito.
     


  • 07/05/2013

    Idoso de carteirinha


    Acabou-se o tempo em que o idoso era reconhecido e respeitado pelos cabelos brancos. Dirigindo um veículo, ao estacionar em um dos espaços reservados para uma pessoa idosa, você terá que exibir o seu “diploma de velho”. O órgão municipal de trânsito que loca as vagas, também se encarrega de emitir o seu certificado de velhice, inclusive, com prazo de validade de dois anos. A validade é uma prova de que o órgão de trânsito não confia na sua longevidade. Você terá que voltar no final do prazo para provar que continua vivo. Descobri tudo isso quando saí do veículo e procurei pagar a minha taxa de permanência. Minha identidade não valeu. Muito menos os cabelos bancos ou os gemidos que dei quando alonguei a coluna. Eu não requeri o meu diploma de velho. Ainda não sou um idoso de carteirinha.


    Para entrar em espetáculos, eu já sabia que tinha direito a um abatimento. Na fila, ganhei prioridade no atendimento, junto com deficientes, gestantes, lactentes e mulheres acompanhadas de crianças. No transporte coletivo, a gratuidade me é conferida mediante a apresentação de qualquer documento que comprove a idade, assim determina a lei. Demandando na Justiça, meu processo passa na frente dos outros e até para receber precatórios, levarei vantagem. Para estacionar, porém, nas vagas especiais, preciso de um certificado que nasceu de uma resolução do CONTRAN,segundo está expresso no documento.


    Mesmo portando o diploma de idoso, o idosorista, ou idoso motorista, somente fará jus ao beneficio se preencher as seguintes condições: colocar o “diploma” sobre o painel do veículo com a frente voltada para cima, e apresentá-lo às autoridades ou agentes que o solicitarem. Mas não se pense que ser velho e diplomado garante tranqüilidade. O “diploma” também sofre a ameaça de ser suspenso ou cassado, a qualquer momento, a critério do órgão de trânsito. Basta que o portador pratique as seguintes irregularidades: empreste seu diploma a terceiros; utilize cópia do documento, obtido por qualquer processo; apresente o certificado com rasura ou falsificado; e, use-o em desacordo com as disposições nele contidas ou com o prazo de validade vencido. Infringir quaisquer desses pecados relacionados no verso do edito, implica em medidas administrativas, penalidades e pontuação prevista em lei. Obedecendo ao que foi acima exposto, você pode se considerar um velhinho diplomado e entrar e sair a qualquer hora do estacionamento que lhe foi reservado. Caso seja um idoso rebelde, ainda com força para reagir à burocracia oficial, pode se considerar um velhote cassado.


    Outro aspecto a analisar, aborda o mérito das reservas de estacionamento. Há uma distinção entre idosos e deficientes. Foi justamente no Estatuto do Idoso que o legislador estabeleceu uma paridade de tratamento, alterando lei anterior e definiu: “ as pessoas portadoras de deficiência,os idosos com idade igual ou superior a 60 anos, as gestantes, as lactentes e as pessoas acompanhadas de crianças de colo terão atendimento prioritário nos termos desta lei”( Lei 10.048/2000). Para o legislador, todos são iguais em suas desigualdades. Quem disse que falta deficiência ao idoso?


    Meu espaço está acabando, por isso vou ilustrar com a definição de escachado jornalista que conta com muito humor: quando chegou a João Pessoa vindo do sertão, trazia quatro membros moles e um duro. Hoje, carrega quatro membros duros e um mole. A artrite reumatóide e outros males transformam o idoso em perfeito deficiente. E para isso não precisa que nenhum ente público expeça diploma. A mãe natureza se encarrega disso.
     


  • 28/04/2013

    A filha de Manguenza


    Quando criança ouvia o nome desse lugar. Meu pai contava que minha avó Leonor Leite Ramalho, veio de lá. Seus pais, Isidro Pinto Ramalho e Luzia Pinto Ramalho eram filhos de Antonio Pinto Ramalho e de Constancia Ramalho, agricultores em Manguenza, território de Misericórdia e hoje encravado no município de Nova Olinda. Como em toda história de sertanejo tem uma seca pelo meio, foi fugindo de uma seca “ braba” que meu bisavô Isidro partiu do Piancó para o Maranhão e por lá morreu de beri-beri, uma deficiência de vitamina B1 que enfraquece o corpo e ataca o coração. A filha Leonor ficou por estas bandas ao Deus dará.
    O padre José Enfrausino Maria Ramalho, vigário de Bananeiras, mandou buscar a filha solteira e menor de seu primo Isidro, entregando-a à custódia das beatas remanescentes do Casa de Caridade fundada pelo Padre Ibiapina, em Santa Fé, nas portas de Arara, bem no final do território de Moreno (Solânea) mas tudo dentro da grande Bananeiras. O tenente (da Guarda Nacional) José Rodrigues da Costa Neto, senhor do Engenho Poço Escuro, tinha filhos pequenos e a esposa, prima da menina Leonor, estava enferma. O padre, que prestava assistência espiritual àqueles parentes, levou Leonor para residir na Casa Grande do engenho e ajudar no cuidado das crianças.
    Quando o tenente Zé Rodrigues ficou viúvo, Leonor já era a verdadeira mãe dos filhos da prima falecida e, apegara-se àquelas crianças, como se fossem suas. Mas tinha que voltar à Casa de Santa Fé e ao convívio das beatas - era a ordem do primo-padre. Leonor resistiu. Não abandonaria aquelas crianças. O sofrimento seria recíproco mas o da prole na orfandade materna seria maior. Uma moça solteira não pode morar na casa de um viúvo, ponderou o vigário. Era como riscar um fósforo numa lata de querosene, acrescento eu. A solução foi a mais natural possível. O viúvo casou com a prima da esposa falecida e desse casório engendrado pelos sentimentos imaculados do padre Enfrausino, nasceu o ramo da família Leite Ramalho, do brejo. Leonor passou a chamar-se Leonor Rodrigues Ramalho e após dar sete filhos ao tenente Zé Rodrigues, ficou viúva em 1939.
    Uma brava mulher, essa sertaneja. Lembro-me dela, com um búzio gigante aos lábios, bochechas cheias de ar, anunciando aos trabalhadores do engenho a hora de largar o serviço. A força do som provocado por aquele berrante marinho só era comparável à força daquela mãe-viúva na condução de duas famílias: a que constituíra e a que herdara da prima. Restam poucos para contar essa história. Ela serve, pelo menos, para alimentar a curiosidade dos alunos da Escola que leva o seu nome, em Borborema.
    Por falar em curiosidade, lembro que era no engenho Poço Escuro que o futuro desembargador Luiz Silvio Ramalho costumava passar suas férias. Era primo da dona da casa, pois seu pai, Zeca Ramalho, era irmão de Isidro. Diziam o meu pai e meus tios que ele adorava os banhos de rio e brincava feliz com a molecada do engenho. Fecho o parêntese.
    Ao falecer, em dezembro de 1968, “Mãe Lôzinha” como a chamavam os netos vinculados à zona rural e morando mais perto dela ou “Mamãe-tres”, como eu e outros netos urbanos carinhosamente a chamávamos, já podia contemplar também muitos bisnetos. Seus braços acolhedores e seu teto aconchegante foram sempre o porto seguro para todos que nasceram dessa filha de Manguenza, mandada por Deus para as terras do Poço Escuro. Ela trouxe a luz e deu vida a todos nós.


  • 20/04/2013

    Empregadas às antigas



  • 06/04/2013

    Antônio, só no papel


    Não sei por que botaram Antonio no seu nome.Se foi promessa ao Santo, cuja mãe era devota ou homenagem ao Tenente de Trinta, que o pai admirava. Conciliados, batizaram-no de Antonio Juarez Farias, na pia da Igreja de Cabaceiras. O Antonio só durou enquanto foi “Toinho”, operador da única máquina de escrever do Cartório local.Quando ascendeu a escrevente de cartório em Campina Grande, nasceu o Juarez que ganharia o mundo e se tornaria um exemplar servidor publico do Brasil e da Paraíba.
    Semana passada, contrariando suas ordens, alguns amigos foram reunidos para um almoço de confraternização. Estava proibido discurso. A emoção está à flor da pele nesse paraibano de oitenta anos. Juarez Farias preside hoje o que denominei de Confraria dos Cabelos Brancos e que, vez por outra, em seus almoços da sexta-feira, aceita convidados mais jovens que se deliciam com a narrativa dos fatos vivenciados pelos comensais. Têm cadeira cativa nessa academia sem eleição e sem normas, o próprio Juarez, Luiz Nunes, Evaldo Gonçalves, Arnóbio Viana, Gleryston Lucena, Rafhael Carneiro Arnaud, Geraldo Almeida, Osvaldo Trigueiro do Vale e, este que vos fala. Eventualmente, Aracilba Rocha, Fernando Catão e João Fernandes. A pauta é livre mas inclui a vedação expressa de comentários sobre os exames de saúde dos que estão ao redor da mesa. A saúde dos ausentes, pode ser...
    Proibiram discurso de saudação aos oitenta anos de Juarez, mas não estou impedido de dizer neste espaço o orgulho que sinto em ser seu amigo. Saído de Cabaceiras, mesmo Campina sendo grande, foi pequena para os seus vôos. Esteve por lá até que apagaram a estrela nascente de Feliz Araujo. Depois, um concurso colocou-o no Banco do Nordeste e sua competência levou-o à SUDENE, à diretoria do BNDES, do BNB, do Banco Nacional de Habitaçao-BNH e ao Governo da Paraíba. João Agripino fez dele seu Secretário de Planejamento e a Assembléia Legislativa o elegeu Vice-governador. Esteve no exercício do cargo de Governador por várias vezes. Ronaldo Cunha Lima o trouxe de volta à Paraíba. Foi convocado para o Tribunal de Contas, onde se aposentou depois de presidi-lo.
    Nenhum paraibano vivo, merece mais que Juarez Farias ser homenageado pelos serviços prestados ao seu Estado e ao seu País. Suas ações reclamariam mais espaço. Lembro algumas: para ir ao Banco Mundial e negociar com os gringos o dinheiro do Anel do Brejo, Agripino mandou Juarez. Para arrancar do regime militar a pavimentação da BR-230 até Cajazeiras, lá estava Juarez com as justificativas econômicas da obra. Hermano Almeida,prefeito de João Pessoa,obteve recursos para asfaltar o Bairro de Manaíra que Dorgival Terceiro Neto deixara no Retão.Quem estava no BNH e inventou o Projeto Cura? Preciso dizer que foi também pelas mãos desse imortal da nossa Academia de Letras que o Brasil se encheu de conjuntos residenciais a acolher milhares de sem-teto? Quando Celso Furtado aceitou a SUDENE tinha uma meta: mudar tudo no nordeste. E para isso, trouxe Juarez de volta à região. O novo nordeste pós SUDENE tem também a sua marca.
    Aposentado, cercado dos amigos e da família que é seu orgulho, o Juarez oitentão lembra tanto o general homônimo descansando de grandes batalhas quanto o Santo de Lisboa, o maior intelectual da Igreja, no seu tempo. Se o Antonio de Juarez ficou apenas no registro,e ninguém assim o chama, o Santo não pareceu magoado. Demonstrou sentir orgulho do seu afilhado, não lhe negando proteção durante toda sua vida lutas e vitórias.
     


  • 04/04/2013

    Burity neutro?


    No ultimo domingo, ampla reportagem do Correio da Paraíba, sob o título “Grandes brigas políticas na PB”, em certo trecho discorre: “ Na sua sucessão, na campanha de 1989, Burity ficou neutro em relação às candidaturas de Ronaldo Cunha Lima (PMDB) e Wilson Braga(PFL).Chegou a recomendar voto em branco.”Não voto nem em Braga,nem em Ronaldo.Voto branco”,disse na época...”
    A afirmativa é equivocada, a partir da data. A campanha de 1982 para governador da Paraíba foi disputada por Wilson Braga e Antonio Mariz, este massacrado pelo “voto vinculado”, que obrigava o eleitor a votar de “cabo a rabo” na cédula única. Isto é, o vereador, o prefeito, o deputado e o governador, tinham que pertencer ao mesmo partido. Wilson Braga foi o eleito na primeira sucessão de Burity. Era a primeira eleição direta mas com cheiro de indireta, graças a essa artimanha eleitoral nascida nas casernas eleitorais do movimento de março de 64. Em 1986, Burity voltaria ao Governo, através do voto direto.
    A eleição de Ronaldo Cunha Lima ocorreu em 1990, também sem as amarras do voto vinculado. Desta feita, foram instituídos os dois turnos para a eleição de Governador. No primeiro, Wilson Braga foi o mais votado, perdendo para Ronaldo no segundo turno das eleições. Nessa eleição, Burity teve candidato próprio na pessoa do deputado João Agripino Neto, que somou mais de cem mil votos, inclusive o meu. Não houve neutralidade.
    Lembro-me bem que estando em Brasília hospedado no apartamento de João Neto, acordamos cedinho para alcançar o Presidente Collor que viajaria ao exterior.No pé da escada do avião presidencial, João Neto comunicou sua candidatura e marcou um encontro de Burity com o Chefe da Nação para dias depois, quando fomos todos, novamente, ao Planalto, participar a decisão do Governador da Paraíba de apoiar o deputado João Neto à sua sucessão. A escolha de João Neto foi a forma encontrada por Burity para demonstrar sua discordância das candidaturas postas, marcar presença no pleito e eleger seus deputados.E fez a maior bancada, com nove membros, eleitos pelo PRN.
    Foi o espólio eleitoral de João Neto e o carisma de Ronaldo que decidiram a eleição no segundo turno. O pleito ocorrera no dia 03 de outubro. No dia 06, era meu aniversário e Ronaldo chega de repente em Bananeiras acompanhado do deputado Ernani Moura, seu cunhado e meu colega de Assembleia.De imediato conquistou o nosso pessoal que havia sufragado o nome de João para governador e o meu para deputado federal. Faltava juntar em torno de si os nove deputados estaduais do PRN, ainda vinculados a Burity mas por fios tão frágeis que se partiriam rapidamente.
    Na opinião de Burity deveríamos votar em Wilson Braga no segundo turno e resumia suas razões proclamando em tom de blague: “Wilson a gente já conhece os defeitos. Ronaldo é uma incógnita !” Mas asseverou que, democraticamente, acataria a decisão de todos os companheiros.
    Os deputados já eleitos e os sem mandato a partir fevereiro de 1991, reuniram correligionários no Cine Banguê do Espaço Cultural para uma tomada de posição. Na mesa, o governador Tarcisio Burity, os deputados João Neto e Antonio Ivo,Presidente do PRN e esse orador que vos fala, Líder do Governo e se despedindo do encargo e do mandato. Na platéia, comandava a maior caravana o coronel José Sergio Maia que impunha sua vontade em Catolé do Rocha e se fez ouvir também naquele ambiente cívico. O governador Burity fez uma rápida explanação do quadro político e comunicou aos presentes que qualquer posicionamento resultante daquele encontro, seria absorvido por ele. Não daria a sua opinião e nem expressaria seu voto, mas, conclamou-os: Sentados,ficam com Braga. Em pé, apoiam Ronaldo Cunha Lima.
    Todos se levantaram de uma só vez produzindo uma calorosa manifestação pró Ronaldo. Burity, como anunciara, se absteve. Ao seu lado, ficaram em pé o seu líder, o presidente do seu partido e o seu candidato.
     


  • 28/03/2013

    Dunga votla


     O gordinho de maior jogo de cintura que já conheci, está de volta. Para quem começa a vida como caminhoneiro, sentar na cadeira de governador do seu Estado, mesmo por poucas horas, enobrece o curriculum. Quem pensou que ele tinha virado peça da nossa história, pode tirar o cavalinho da chuva. Carlos Marques Dunga, ou simplesmente Dunga, prefeito, deputado estadual e federal, suplente de senador, está de volta à Assembléia e vai dar o que falar.

    No penúltimo dia do seu governo e também da minha condição de Lider, Tarcisio Burity mandou me chamar e passou a missão:“Procure Dunga e diga que venha assumir o cargo de Governador. É ele que vai transmitir o Governo a Ronaldo”. E assim foi feito.

    Eleito entre os nove deputados da bancada governista, a maior delas, do PRN de Burity, Dunga granjeou a simpatia dos seus companheiros e foi eleito Presidente. Nessa condição daria posse ao novo governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima. Em suma, de chegada, levou os votos do governador que saía e os votos do governador que entrava.

    Atuando, principalmente, na área de influência do Município de Boqueirão, não se saiu muito bem nas ultimas eleições municipais. Julgo que sua posição na eleição de 2010 o tenha prejudicado. Votou em Ricardo, Cássio e Vital, além de Nilda Gondim para deputada federal. Essa mistura de nomes associada a uma sopa de letras de vários partidos, pode não ter sido bem entendida na eleição seguinte. Eu mesmo, que era candidato a suplente de Efraim Morais, quando instado a ajudá-lo na sua eleição de deputado, neguei-me a fazê-lo, justamente por que ele não estava votando em Efraim, e, em conseqüência, rejeitara meu nome, que compunha a chapa majoritária. Soube que ficou magoado... Mas já fui perdoado, pois ele não é de guardar ódio nem rancor.

    Traído pelo tamanho da legenda, perdeu parte do mandato e já entra na Casa de Epitácio na sua segunda metade, depois de vencer uma batalha judicial que dependia da validade de votação alheia. Com a validação desses sufrágios, foi recomposta a totalização da sua coligação e alterado o quociente partidário. Ganhou o mandato e agora ninguém lhe segura. Sua região tem novamente representante à altura.

    Devoto de Padre Cícero desde os tempos em que enchia um pau –de- arara de romeiros e os conduzia ao Juazeiro, Dunga costumava anualmente revisitar o “santo” cearense e agradecer as graças alcançadas. Por certo, voltará agora aos pés do seu “Padim” para contar o milagre de ressuscitar na política, e, na sua fé, haver superado os obstáculos que colocaram no seu caminho.

    Um episódio dos idos de 1988 marcou a minha avaliação sobre seu companheirismo e solidariedade. Os servidores públicos em greve invadiram o Plenário da Assembléia e eu, como Líder do Governo, era o principal alvo da irritação dos barnabés. Infiltrado entre eles, uma turba dava sinais de aguerrida e violenta. Dunga me puxou pelo braço e indagou: “Estás armado?” Respondi que não andava armado... E ele apreensivo: Esse movimento é contra você também. Tome cuidado!

    E a partir de então, passou a proteger o meu magríssimo esqueleto com o seu corpão de muitas arrobas. É esse o Dunga que o Parlamento tem de volta.


  • 19/03/2013

    Terra à vista


    Há controvérsias a respeito dessa versão da história que nos foi contada desde as primeiras letras. Alguém, com forte sotaque lusitano, teria gritado: “Terra à Vista”, quando, com a ajuda de um binóculo ou coisa que o valha, divisou o nosso Monte Pascoal.
    Isolado na gávea, aquele compartimento em formato de cesta colocada no alto da vela principal da caravela de Cabral, o dono do primeiro olhar sobre as terras brasileiras estava cumprindo pena, castigado por alguma falta cometida a bordo...Sua posição já o permitia ver mais longe, mas, mesmo assim, com a ajuda de lentes, sua visão alcançou mais cedo a costa da Ilha de Vera Cruz.
    Quando estudante do Liceu estava vendo as letras embasadas. A miopia causadora foi corrigida com os meus primeiros óculos. Ao sair de uma ótica na Duque de Caxias, já portando uma carrocinha à frente dos olhos, avistei até a placa da Radio Arapuan, colocada alí há muitos anos, mas longe do alcance da minha retina .
    Até que viessem a me conceder uma visão perfeita, muitos séculos haviam se passado, desde que no primeiro depois de Cristo surgiram as primeiras lentes. Nome originado de “ocularium”, aqueles dois orifícios que permitiam aos soldados enxergarem de dentro das armaduras, os óculos foram utilizados inicialmente pelos monges, dada a sua permanência nas bibliotecas, cansando a vista. Mas foram os alemães que formataram os primeiros óculos com aros de metal e unidos por rebites. No Brasil, não seria demais lembrar, foram eles, os portugueses, que colocaram óculos nos jesuítas, nos membros da Coroa e nos colonos endinheirados.
    Até chegar ao Ray Ban, (do inglês Ray-Banner, ou raios banidos) encomenda dos americanos para evitar que os raios do sol causassem danos aos olhos dos seus pilotos, e serem transformados também em artefato da moda, os óculos evoluíram e surgiram em milhares de modelos a complementar a indumentária de homens e mulheres. Credita-se a Benjamim Franklin a invenção dos óculos bifocais. Era composto de duas lentes na frente de cada olho, unidas pela armação, possibilitando ao usuário enxergar de longe e de perto com um único aparelho.A Wikipédia registra noticia de óculos de vidros sem grau, no antigo Egito,
    Foi de um desses modelos mais aperfeiçoados que me livrei recentemente, após uma bem sucedida operação de cataratas. A propósito, publiquei na minha página do Facebook um auto-retrato com o olho vedado e me referí a um chiste de Dorgival Terceiro Neto aludindo à velhice característica dos senadores de antigamente:
    - Para ser Senador é preciso fazer três operações: cataratas,próstata e hemorróidas.
    Postei então, sendo um pouco irreverente, que estava iniciando minha campanha de Senador, ao fazer a primeira das três operações necessárias.Teve gente que acreditou no gracejo e me ofereceu votos. Outro, com uma pitada de bom humor, chamou a minha cirurgia de “catavotos”. O certo é que os tempos são outros, e hoje, tem senador tão jovem que ainda não deve ter se livrado da fimose.
    O nosso estimado senador Humberto Lucena, por exemplo, fez operação de cataratas somente no seu ultimo mandato, contrariando a versão terceiriana. O fato levou à comoção um seu amigo deputado, que se apressou em lhe telefonar:
    -Humberto, é verdade que você fez operação de catarata nos olhos?
    E o senador, professoral e carinhosamente retrucou:
    -Não diga isso a ninguém, é um pleonasmo!
    Quando, na Assembléia, indagaram do deputado sobre o estado de saúde do líder partidário, ele informou constrangido:
    -Ele me pediu pra não dizer a ninguém...Mas é um pleonasmo!

     


  • 04/03/2013

    Quem matou o general?


    Aproveitei o feriadão para ler a alentada pesquisa de Glauce Burity sobre a vida e obra de Antenor Navarro e os acontecimentos ao seu redor que culminaram com a revolução de outubro de 1930. Encantei-me com o trabalho e com o biografado, esse extraordinário paraibano desaparecido aos 33 anos,quando Interventor da Paraíba,vítima da queda de um avião em que também viajava José Américo (“ o mar me engoliu, o mar me vomitou”).
    Alguns fatos fartamente documentados não são acompanhados pela opinião da autora.Ao que parece, seu objetivo foi deixar o leitor firmar a própria convicção diante dos documentos transcritos.
    Um dos eventos mais controversos do Levante de 1930 foi a tomada de assalto do 22º.BC, hoje 15º.Batalhão de Infantaria Motorizada situado na Avenida Cruz das Armas. Para começar, alguns preferem dizer que nem assalto houve. O Tenente Agildo Barata que era o Oficial de Dia, aproveitando o silencio da madrugada facilitou a entrada dos revolucionários, indo encontrá-los na Praça Bela Vista. Os que viveram esses episódios preferem, porém, serem chamados de assaltantes, mesmo com a recomendação cautelar de evitar derramamento de sangue, o que não foi conseguido.A principal vitima do ataque foi o General Lavanère Wanderley que hoje é patrono da Praça em frente ao quartel. Sua morte, todavia, permanece ainda envolta em mistério e sem autor definitivo à vista dos depoimentos colhidos pela escritora Glauce Burity.
    O Tenente Juracy Magalhães tem uma versão sobre a abordagem ao General diferente da narrativa de Agildo Barata. Primeiro Juracy, cearense aquartelado em João Pessoa:
    “O general deixou seu reduto, que ficava na parte alta do prédio, e veio descendo as escadas com as mãos para cima. De repente, abaixou-se, como se fosse puxar uma arma, e nesse instante, num gesto de reflexo, Agildo fez fogo contra ele. Lavanère encolheu-se com um rictus de dor. A bala o atingira no flanco esquerdo. Ainda conseguiu descer os últimos degraus da escada, vendo que me aproximava dele, pediu:
    -Tenente, me arranje uma cadeira que estou ferido.
    O tenente Agildo Barata, por outro lado, atribui o desfecho trágico a um soldado desconhecido:
    “O general se apresentou fardado, na porta do quartel(sic).(deve ser “porta do quarto onde dormia)Eu me dirigi a um dos meus auxiliares e determinei: leve o general para um dos carros estacionados aí em frente ao quartel e conduza-o ao “Buraquinho”(...) Enquanto eu estava preocupado em transmitir essa ordem,o general Wanderley visou-me e disparou, por duas vezes seu revolver.Os projetis, porém, não me atingiram.Mais tarde,um dos assaltantes me disse que fora ferido no braço por um desses disparos.Este (assaltante) depois de ferido,respondera ao fogo, alvejando também o general Wanderley.Este deixou cair no chão a sua arma(alias um revolver Colt,calibre 32) e eu me abaixei e peguei a arma.”
    Há uma versão difundida pelos governistas de que o general teria sido ferido enquanto dormia, não havendo prova dessa afirmativa popularmente propagada pelos perrepistas.
    Conta Agildo que vendo o general ferido, cancelou a ordem de recolhê-lo ao “Buraquinho” isto é, à mata do Buraquinho onde Antenor Navarro, diretor do Serviço de Água e Saneamento havia improvisado um prisão para os militares fieis a Washington Luis. O tenente rebelado, como se lê nas suas memórias, além de negar a autoria do disparo contra o general Lavanère Wanderley, faz deboche com os paraibanos civis que arriscaram suas vidas nessa empreitada cívica. E conta :
    “As reservas de energia e coragem que souberam conservar até então abandonaram os meus companheiros civis e um começo de pânico fê-los bater em retirada. Alguns só foram tomar fôlego depois de chegar no centro da cidade, distante alguns quilômetros do quartel.
    Das duas dezenas de assaltantes só permaneceram ao meu lado uns 6 ou 7 companheiros.Lembro-me que “agüentaram a mão” os seguintes; Artur Sobreira, Antenor Navarro,Basileu Gomes, Borja Peregrino,Francisco Cicero, Odom Bezerra e Caetano.
    O desfecho feliz da tomada da cidadela militar foi comemorada em toda a capital da Paraíba, àquela altura já denominada João Pessoa. Conta Glauce Burity que as comemorações foram acompanhadas por gritos de nós vencemos, é revolução.Se alguma dúvida havia, tocaram a sirene do jornal A União, anunciando a vitória da revolução.( Do livro EM PROSA E NO VERSO)


  • 21/02/2013

    A função da Ouvidoria


    Quando exerci o cargo de secretário do Controle da Despesa Pública, hoje Controladoria Geral, tive a satisfação de implantar a Ouvidoria Geral do Estado, órgão criado de há muito, mas somente sob a gestão de Cássio Cunha Lima, nomeada a primeira titular, a professora Carmem Isabel Silva. A iniciativa obteve ampla repercussão e muitas informações chegaram a ser respondidas, pessoalmente, via telefone, pelo chefe do Executivo, causando surpresa aos consulentes.

     A figura do Ouvidor surgiu entre nós desde o Brasil-Côlonia, herança trazida da Corte, onde se identificava na magistratura do Império Colonial Português. Na Terra de Santa Cruz os ouvidores eram juízes nomeados pelos donatários das Capitanias. A função se confunde com o ombudsman, surgido na Suécia de 1809 e caracterizado como um agente parlamentar de Justiça, com a missão de limitar os poderes do Rei. No Brasil de hoje as duas denominações convivem pacificamente.

    O Ombudsman mais utilizado nas empresas privadas e o Ouvidor, quadro do setor público com o mesmo objetivo-intermediar os interesses dos clientes ou dos cidadãos, junto ‘as empresas e aos entes estatais. Compete ao Ouvidor de entidade pública, ouvir as manifestações da sociedade, as queixas, reclamações, consultas, denúncias e encaminhá-las aos setores competentes visando corrigir os erros porventura denunciados, dando-se,depois, ao denunciante ou ao consulente a resposta do que foi apurado ou dos procedimentos que estejam sendo adotados.

    A satisfação a quem reclama ou consulta ou denuncia, é primordial para a missão da Ouvidoria. Lembro-me bem, e lembro muito bem, como diria o Armando Abílio, de fatos desabonadores na conduta de militares e servidores civis que foram apurados a partir de denúncias chegadas a Ouvidoria do Estado através do Fala Cidadão, que é a ferramenta disponibilizada na internet para se alcançar a Ouvidoria.

    A professora Carmem Isabel Silva executiva do Fala Cidadão, só foi vista na hora solene de sua posse. A sua missão era subterrânea e eficiente, gerando resultados satisfatórios. A tudo ela mandava apurar e a todos informava das providências. Se não foi possível corrigir todos os erros, pelo menos se evitou a sua repetição. Nunca, em tempo algum, a Ouvidora Geral do Estado, deu entrevista a jornais ou emissoras de rádio sobre os fatos que apurou ou apontou seus responsáveis ou irresponsáveis. A sua função era de Ouvidora e não de amplificadora. Ouvidora, o nome, no bom português, já está dizendo, e’ para ouvir, não para falar...


     


  • 28/01/2013

    A invasão do crioulo doido


    A seriedade do Diário Oficial dificilmente se presta a oferecer oportunidades para o riso impresso. José Américo, em palanque no Piancó, conseguiu inserí-lo no folclore político ao definir a fidelidade do deputado Antonio Montenegro: “E mais fiel ao Governo, que o chumbo do Diário Oficial.”..Chico Maria Filho, ao retratar nossa capital e escrevendo lá da Serra da Borborema tacou: “João Pessoa é uma cidade debruçada sobre o tabuleiro de gamão do Cabo Branco à espera do próximo Diário Oficial”. Mas se alguém, como eu, se der ao trabalho de ler o que ali se publica, pode encontrar motivos para boas risadas provocadas pela falta de atenção dos nossos fazedores de leis.
    No ultimo 22 do corrente, o Diário Oficial publica algumas leis promulgadas pela nossa Assembleia, criando Regiões Metropolitanas e unindo em um mesmo conglomerado diversos municípios. Editos de autores diferentes e que não combinaram entre si, nem com os munícipes, a opção por esta ou aquela Região, terminaram por germinar duvida e transmitir insegurança aos habitantes respectivos. Agora, alguns se perguntam a que Região pertencem.Quem manusear as leis vai chegar a conclusão que o Crioulo Doido, criação do imortal Estanislau Ponte Preta, andou invadindo a vetusta Casa de Epitácio e fazendo algumas leis..
    Anteriormente já vigorava a Lei Complementar 101, que instituiu a Região Metropolitana de Guarabira, onde se inclui Belém,Dona Inês,Borborema,Pilões,Serraria e Serra da Raiz entre outros. A LC 115, cria a Região Geo-administrativa de Solânea, uma região metropolitana com outro nome e incluindo Cacimba de Dentro, Araruna, Belém, Serraria, Pilões, Borborema e outros. E Caiçara e Logradouro que já estavam incluídos na região de Guarabira. Não duvido da boa intenção dos nossos legisladores, ávidos em acenar com a possibilidade de, juntos, os municípios adquirirem mais força nas suas reivindicações.Dai por que, dividiram o Estado todo.
    E continua o Diário Oficial. A LC 119 criou a Região Metropolitana de Araruna, que reúne o seu antigo território e acrescenta Dona Inês que agora faz parte de duas regiões metropolitanas em leis que foram publicadas no mesmo dia e no mesmo diploma legal, o DOE. Ainda foram criadas e não geram conflito de espaço, as regiões de Itabaiana, Sousa e Vale do Mamanguape.
    Tanto na região metropolitana quanto na geo-administrativa, os prefeitos ficam obrigados a expressar sua concordância em participar dos aglomerados ora instituídos, que serão administrados por um Conselho Administrativo. Pense num Conselho poderoso. À certa altura, consta de uma das leis “Os secretários de Estado do Planejamento,Secretaria de Educação e Cultura e Secretaria de Saúde,terão o apoio técnico-administativo da SUPLAN,no que couber, executando as decisões do Conselho”
    Ademais “As secretarias Estaduais de Educação, Saude, Infra-estrutura e Segurança indicarão um responsável técnico que ficará, dentro das suas secretarias, à disposição da Presidência do Conselho Administrativo para acompanhamento das ações e andamento do Planejamento Estratégico Integrado da Região...”
    Como se pode observar a legislação pretende definir atribuições a unidades administrativas do Estado, tarefa reservada constitucional e privativamente ao Poder Executivo. Essas leis, quase cópias xerográficas umas das outras, devem ter sido encaminhadas ao Executivo para sanção.Decorrido o prazo legal sem a sua chancela, foram promulgadas pelo próprio Poder que as gerou ou abortou, tal a imperfeição dos textos.
    Os interessados em mais detalhes, procurem o DOE de 22 de janeiro deste ano de 2013.


  • 20/01/2013

    A última conspiração


    Para quem não sabe - MAG é uma sigla formada pelas iniciais do nome do ex-deputado Manoel Alceu Gaudêncio de tradicional família caririzeira que já deu até senador. Onde hoje foi edificado o shopping,, existia uma ampla residência que somada ao espaço do Hotel Manaíra, deu lugar ao novo empreendimento. A Casa de Manezin, como era conhecida, foi sem duvida o cenário principal da ultima conspiração política que a Paraíba testemunhou.
    Decorria o ano de 1978 e os militares escolheram Tarcisio Burity para o cargo de Governador da Paraíba contrariando amplo movimento popular que desejava a ascensão de Antonio Mariz ao Palácio da Redenção, através da eleição indireta. A dissidência da Arena, da qual eu fazia parte juntamente com Manoel Gaudêncio, Edvaldo Motta, José Lacerda, Tarcisio Telino e Américo Maia, para só falar nos deputados estaduais, resolveu apoiar Mariz no enfrentamento ao regime, disputando no voto a indicação da Convenção da Arena. Para que houvesse a concorrência foi preciso que contássemos com o apoio decisivo de Waldir dos Santos Lima, Presidente da Arena e partícipe dos entendimentos que culminaram com a escolha de Burity. Todavia, considerando-se traído pelo grupo palaciano, Waldir resolveu engrossar as nossas fileiras e aceitou ser candidato a vice na chapa de Mariz.
    Outro inesperado rebelde foi Ernani Satyro. Homem de confiança da chamada revolução de março, ex-lider de Costa e Silva e ex-Ministro do Tribunal Militar, completou a chapa disputando a vaga de Senador Biônico, epíteto pejorativo com que premiaram os senadores sem voto popular.
    Nessa conspiração contra a decisão do regime militar, João Agripino, inicialmente, desempenhou papel muito aquém do nosso desejo. Ao chegar à Paraíba, ao invés de aderir ao processo tentou a conciliação e lutou com todas as suas forças para demover Mariz do que ele chamava de suicídio político. Na ocasião, três candidatos avulsos, digamos assim, resolveram enfrentar a decisão do Planalto. Um em Minas, outro em São Paulo (Maluf, vitorioso) e Mariz, na Paraíba. Agripino dizia que todos seriam cassados após a realização das convenções arenistas. Queria salvar Mariz. Amigo do General Golbery do Couto e Silva, suas palavras impressionaram a todos nós que não desejávamos abrir mão da permanência de Mariz na política da Paraíba. Faltava conseguir intimidar Mariz, uma tarefa impossível.
    Aloísio Afonso Campos ditou, eu escrevi e João Agripino alterou o texto da renuncia de Mariz à disputa indireta. Para se chegar a essa solução negociamos que o próprio Agripino fosse nosso candidato ao Senado, na disputa direta. Guardei o original desse documento, depois publicado por Jório Machado em “Resistência ao Medo”. Decisão tomada, fomos todos para nossas casas. Acordei no começo da noite com um telefonema de Mariz que indagava:
    - Você divulgou a renúncia ? Respondi que não, apenas datilografara o documento.
    - Não mostre a ninguém e vamos nos reunir às oito horas na Casa de Manezim, recomendou-me.
    Cheguei no horário. Muitos dos inconfidentes já se encontravam acomodados e curiosos para saber a razão da convocação. Aguardava-se a chegada de Mariz, que nos disse:
    - Fiz alguns contatos e tomei uma decisão. Não poderia jamais pedir votos aos paraibanos, se recuasse da disputa, com medo da cassação. Prefiro ser cassado a recuar por medo. Sou candidato e vou à convenção. Conto com vocês? (Contou ! Inclusive com Agripino.)
    Nem precisamos responder. Gritaria geral. Aplausos e abraços. Eu e Telino, a quatro mãos, nos encarregamos de rasgar a Carta Renuncia. A versão datilografada, bem entendido.
    Desta vez não precisamos esperar ansiosamente pela chegada de Ernani para que Manezim abrisse o seu melhor whisky.
    Fomos à convenção, perdemos por pouco, mas escrevemos um bom capítulo da história recente da Paraíba.
    PS. O dep.Waldir dos Santos Lima,então presidente da ARENA,viabilizou essa conspiração.Em homenagem ao seu aniversario que ocorre amanha,republico o texto que esta no livro Em Prosa e no Verso.


  • 06/01/2013

    Quero a minha mulher de volta


    Não pensem que sou machista. Mas confesso, tenho saudade do tempo em que minha mulher acordava dando ordem na cozinha, acertando o cardápio do dia e juntando roupas para mandar lavar. Levar os filhos à escola, isso já está mais distante... Mas ir buscar um neto, comparecer às festinhas de sua escola ou participar de suas férias, é um doce encargo que ela tem dificuldade de realizar... O destino mudou a nossa vida familiar.
    Meu pai era candidato a prefeito de Bananeiras e faleceu no meio do caminho. Substituí-lo por alguém de casa era empreitada que exigia, entre outras coisas, filiação partidária, àquela altura, com os prazos vencidos. Mas meu pai, político experiente, parece que tivera uma premonição e filiou as filhas e a nora ao seu partido. Sobre esta recaiu a escolha e Marta foi candidata pela primeira vez a prefeita, em 1982. Cumpriu a missão, perdeu por poucos votos, mas ajudou a me eleger deputado. Tomou gosto pela política, mostrou que tinha vocação para a lide e seis anos depois era a primeira mulher a governar sua terra.
    Saindo da prefeitura de Bananeiras foi candidata a deputada. Traída pelo tamanho da legenda e por alguns compromissos não honrados, não se elegeu, mas chegou a assumir o mandato. Por uns tempos trocou a bancada das taquigrafas da Assembléia pela dos deputados. Em 2002 compôs, como suplente, a chapa do senador Efraim Morais e em 2004 voltou à Prefeitura, sendo reeleita em 2008.
    Suas preocupações deixaram há muito tempo a cozinha, passaram pela sala e ganharam a rua. No seu universo está o bem estar de uma população superior a vinte mil habitantes. Professores, garis, médicos, enfermeiros, motoristas, pedreiros e eletricistas a ajudam no cumprimento da tarefa. Agora é acordada pelo celular e as ordens que dá, ficam longe da panela e do tempero: mandem passar a maquina na estrada! Terminem primeiro o barreiro, que as chuvas vão chegar! Apressem a reforma da escola durante as férias! É o que eu escuto logo cedo. E quanto pergunto do que se trata, descubro que estou atrapalhando.
    Semana passada, o Tribunal de Contas aprovou a sua oitava conta anual como gestora municipal. Ter contas aprovadas não deveria ser mérito, mas obrigação. Todavia, está cada vez mais difícil escapar dos rigores da lei. Se numa licitação tem só três participantes, pode se alegar favorecimento de um deles. É um arrumadinho! Dizem censores apressados. Se o dinheiro não deu para honrar os compromissos da previdência e se atrasa o recolhimento, a acusação é de apropriação indébita... Os erros, muitas vezes, são mais produtos de insuficiência de recursos ou da incapacidade técnica do que, propriamente, da prática de improbidade. E como tem gente, ( isso é bom por que educa) de olho bem aberto fiscalizando os gestores públicos e suas ações. Diante da prevaricação de muitos, todos pagam, gerando uma desconfiança generalizada dos órgãos fiscalizadores. Atuam nessa área, além do TCE, o TCU e a CGU; o MPE, MPU e MPT . E tem ainda o FDP, o adversário irresponsável que abastece todos esses órgãos com denuncias sem provas, apenas para aparecer. Ainda bem que prevalece a garantia da ampla defesa e do contraditório. Sem duvida, escapar de tudo isso e ter as contas aprovadas, é motivo de regozijo, sim.
    Recentemente, na qualidade de assessor afetivo da prefeita, fui consultado sobre uma notificação do MPT. Era preciso responder rapidamente se os garís do município eram efetivos ou contratados, percebiam adicional de insalubridade, recebiam farda, luvas, botas e máscaras contra poeira. Dever-se-ía ainda informar quantas vezes era distribuído protetor solar com os agentes da limpeza urbana.
    Vi que ela vinha cumprindo essas exigências e resolvi dosar sua apreensão com o meu costumeiro bom humor:
    - Você está preocupada com isso? Pois você deveria agradecer a esse procurador pela suavidade da sua determinação. E diante do seu espanto, completei:
    - Já pensou se a ordem fosse para você mesma aplicar, todos os dias, o protetor solar nos garis?...
    Por essa e outras é que estou torcendo ard