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Colunas de Eilzo Matos

Escritor


  • 16/05/2017

    Capão do mato - o mundo morto - o mundo vivo


     Temos duas vidas: a nossa e a dos outros, para sentir, para viver. Saramago o confirma no seu romance “O Homem Duplicado”. Vivência, experiência, ciência. Ali estava na frente da casa, a ilha vegetal, o capão de mato.

    Surgiu como uma epígrafe, num tempo de minha vida, um símile extravagante, quando já avançado na idade me mudei da cidade para a fazenda: eu um citadino, menino de rua, de circo, de grupo escolar, de igreja, de biblioteca pública, um estranho no lugar.

     

    Naquele tempo a minha presença era ocasional, mera vilegiatura. Não era voltada para o trabalho e o dinheiro - motor das um danças sociais -, de que se ocupavam os proprietários de terra e os seus confinados moradores.

    Os percalços da vida me envolveram ferozmente. Lembro cons-tatações e crenças lidas no “Fausto” de Goethe, que falavam da maravilha maior entre as do céu e da terra: a liberdade dada ao homem para escolher entre o bem e mal. Comigo aconteceu. Nas noites de tempestades violentas o céu iluminado pelos relâmpagos, a casa sacudida pelo vento, o estrondear dos trovões, eu pedia proteção aos santos em orações, encolhido na rede, enrolado nos lençóis. Um medo imemorial, impossível de evitar me dominava.

     

    Renegava a existência no terreiro da frente da casa, daquele arre-medo de mata, na verdade um aglomerado de árvores e de rochas negras e lavradas de manchas e pintas como em alguns animais, aves e peixes da região, que encontrava nas travessias e em caçadas e pescarias. Mostravam-se como antevisões de mau augúrio.

    A crônica do capão de mato ali perto, variava no fuxico de encontros secretos, traições-amorosas, animais furtados escondidos, tocaias, macum- bas, despachos. Aparições de vultos envolvidos em tragédias conhecidas no lugar. As crenças no meio circundante, na vizinhança levavam-me igual-mente ao medo atávico.
    A esta altura da vida, a leitura alimentava e abria os portais das trevas infernais, e as sombras dos mortos vagavam assumindo formas terríveis e ameaçadoras, ressentidas.

     

    A crônica local, a história e memória de fatos conhecidos, fruto dos costumes transformados em lenda e em mito. Vultos assombrosos, mutações e configurações sem marca de tempo e lugar, criavam enredos, entre o sonho e a verdade.

     

    O trotar duro do chouto do burro na estrada chamou minha atenção. Certamente o negro Zé Bululu, na sua passagem semanal em paradas, cafezinho e animadas conversas entabulando compra, venda e troca de animais e gado. Eu conhecia os fatos e costumes do lugar.

     


  • 29/03/2017

    Augusto dos Anjos, o estro


    Literariamente tornou-se difícil, e arrisco dizer, impossível mesmo, explicar e/ou formular conceitos definindo o modo de realização estética, o estro do poeta Augusto dos Anjos. Sustento o meu argumento, fundado nas leis do materialismo histórico na sua dialética esclarecedora, lidas em Georg Luckács e outros autores que passam de Aristóteles, Garaudy, aos ianques Edmund Wilson, Chomsky entre outros.

    Ensinam aqueles pensadores que a conduta não se revela à partir de conceitos, mas de situações concretas, cuja determinação e abstração descobre os distúrbios do comportamento.

    Situações sociais e orgânicas têm de ser avaliadas na sua interdependência, observada a teoria do reflexo, a lógica da determinação, a anterioridade até a razão. Aí está a impropriedade da teoria da literatura e sua crítica, de autores da escola do letrado e respeitável Chico Viana. Aí encontramos os expositores, criando modelos: a arte e sua teoria como eles a mostram.

    O domínio da cena artística pela “esperteza” capitalista (esta é a palavra apropriada para a expressão mercantil do julgamento de qualquer matéria em exame) na conceituação e qualificação de temas e modos de realização literária, dá lugar ao surgimento de uma profusão de teses incompatíveis, na minha concepção, com a explicação do fenômeno artístico.

    A realização acadêmica de ajuizamentos, não escapa à regra do “Senhor Mercado” que tudo transforma em objeto de comercialização: o Prêmio, o Emprego, a Titularidade. Começa, para impressionar, com a técnica acadêmica de teses em parágrafos e especificidades temáticas, sub-títulos, sempre numerados, até fracionados, reverberantes, aparentando uma indispensável facilitação para a compreensão. Daí que só o burro não entende, e ninguém que se mostrar um asno. E muitos concordam, esbaldam-se em citações e referências.

    Tal acontece porque tudo vem de dentro, como observou Hegel, pela profunda “ne- gatividade do espírito”, porque “a razão governa o mundo... e é somente na superfície que reina o jogo dos acasos irracionais; (a razão) explode sistemas fechados... restabelece a ordem quando a história parece absurda e sem sentido.”

    Dada a especificidade da arte literária, devo repetir, submetida às suas leis, avulta na expressão estética, a magia de que fala Fischer, que caracteriza a literatura imaginativa. O mais se enquadra nos interessantes conceitos e definições de Ezra Pound sobre os escritores em geral, como “inventores, mestres, diluidores, bons escritores sem qualidades salientes e beletristas”. Tal Augusto dos Anjos, Oswald de Andrade, Álvaro Lins, Guimarães Rosa e José Lins do Rego, somente, para abreviar.

    Anotar e guardar na mente, numa anamnese, sensações fundadas em anomalias fisio-químicas que determinam patologias mentais observadas, para o diagnóstico, não contribuem para a criação de regras na composição literária. Exprimem o ser não o objeto.

    Existem as categorias próprias da arte literária (ciência da literatura) que falam desde a “Estética” de Aristóteles, na representação de homens em movimento, em ação. Esta é a condição própria da vida, da natureza, da sociedade, que no caso nos interessa, do ponto de vista da arte como parte da teoria do conhecimento, que explica o mundo e suas transformações. Não consigo fugir a tal compreensão, conceituação; ressalvo Paulo Coelho, o maior sucesso literário internacional em reedições sucessivas de tolices, em todas as línguas, buscando nos astros o sentido de suas narrativas e reflexões, algo distante, que não alcançamos, a que não cabe oposição e especulação. Desde que encham a sua bolsa, massageiem o seu ego.

    Queiram todos ou não, a literatura, assim como a arte, é um fato, um produto social, não fisioquímico. A obra literária iguala-se a uma greve de portuários, a uma desordem e quebra-quebra de desempregados, a um mural de Picasso, de Portinari, às gravuras rupestres de Pedra Lavrada e da Pedra do Ingá, na Paraíba e também das cavernas de Altamira, na Espanha, das grutas de Lascaux na comunidade de Montignac na França, entre mais localidades em todos os continentes.

    Não foi sem razão, que o autor da monumental HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, parafraseando Lênin afirmou que “o estruturalismo é o ópio dos intelectuais”.

     


  • 16/03/2017

    As letras e o absenteismo


     Os escritores. Melhor dizendo o roteirista no cinema, o artista, afinal, o que representa esse tipo na sociedade urbana de pessoas? O singular que se pretende plural? Assim atravesso em indagações curiosas, as vias febriculosas da militância literária, à revelia de preceitos conceituais, fruto do “enciclopedismo militante” que destruiu a URSS, do repetitivo na nova politica partidária dos direitos humanos, que gera compensação no mundo da religião e diria das letras financeiras. Tal a internacional vulgarização poligráfica, mas fajuta do bispo Edir Macedo, e mais resenhistas no estilo Paulo Coelho, Jomard Muniz de Brito misturando insólitos ícones, que não me deixam mentir. Eis a que leva o absenteísmo capitalista, imperando no agro e no ogro, inescusavelmente, irresistivelmente. 
    Moro no interior, repito, sem outra pretensão além de me explicar. Ocasionalmente, passando tempo estirado, retomo contatos, e reencontro a paisagem e os costumes deixados de lado, perdidos, sobrevivendo na memória vital do passado. Trato de Virginius Figueiredo da Gama e Melo, um buraco que engole fantasistas amaneirados. Pois estive recentemente perlustrando esse ambiente telúrico-social, em solenidade na Academia Paraibana de Letras. Quanto riso, quanta alegria! Falo em nomes, impossível de evita-los, porque seria matar a cena e o tempo. A minha memória guarda paisagens derelictas, escapando inconsumidas por toda vida. Assim escrevi esta verdade num poema. 
    Ao chegar cumprimentei apressado e com orgulho, o ex-governador Juarez Farias e esposa, que foi ministro e muito mais, amigo do tempo do agripinismo, morto.na Paraíba. Aí entra Virginius Figueiredo da Gama e Melo sobrinho e neto de governadores, todavia inapagáveis, na nossa gloriosa história tabajara. Este reapareceu na ecdótica que renasce virtudes textuais, na beleza de encadernações policrómicas, capas duras, rebrilhantes. “Verbo & Imagem”. Assim é a literatura da ordem do dia. Em todos os tempos, entre nós, no tempo das famosas igrejinhas que criaram entre outros fatos o romance nordestino como acentuou Caio Prado Junior.
    Mas quero falar de pessoas, mesmo com o risco de graves omissões: Começo com o meu genro Elias e o seu amigo kurosawiano Akishigi, sensatos e discretos, a magistrada conterrânea Maria de Fátima. Helder Moura, o mais recente gênio do romance paraibano, alcançando o universal, criou e dominou o cerimonial, secretariado pelo imortal Ramalho Leite que me dirigiu emocionante saudação morenense, recriando o ímpeto do saudoso Waldir dos Santos Lima, do esperto Edvaldo Mota que puxava para enriquecer o cerimonial o esclarecido e arrebatado Amigo Velho. 
    Bem escreveu Virginius, a propósito de Ze Lins do Rego e o meio, que “a paisagem, nele, é tão irremediável quanto a personagem, que seria impossível sem a circunstancia ambiente.” Impossível reviver os Setenta em João Pessoa sem as mulheres do saltitante e cinematográfico Will Leal. Ah meus leitores quanta gente a começar com Lourdinha do Ministro Zé Américo, o comunista imortal Chico Pereira de Campina, o romancista piancoense José Ronaldo Farias, o preclaro Gilvan Freyre, ótimo nome para o governo nas futuras eleições. O sucessor do livreiro Luis expunha brochuras, encadernações. Gente boa demais. Eu completava o cenário, na política e nas letras, sempre presente, embora no sereno. O mais é o sereno, como acentuava Zé Lins.


  • 22/02/2017

    Vida rural e urbana inominada 2017


     A rapidez no relacionamento entre pessoas e instituições, partindo de uma e de outra, na vida nacional, nordestina principalmente, atrasada e resistente a mudanças neste campo do comportamento, tem causado contrariedades e insegurança quanto a direitos e deveres. Saímos do regime de escravidão para o de “servos da gleba”. 
    Eis uma locução que caiu em desuso dada a mudança nas ligações entre as pessoas, e, principalmente a legislação atinente ao trabalho, ao emprego, a propriedade rural. Daí o desajustamento social revelado em protestos, jogando na lata do lixo conceitos consagrados na suserania, tipicamente feudal.
    Agora prevalecem os chamados “direitos sociais” diria “inominados” em face à extraordinária pletora de arguições a caráter. Jamais fui um estudioso do direito substantivo e adjetivo (ainda são usadas tais expressões?). Advoguei (OAB, Pb 812) causas no cível e no criminal. O trabalhista pouco conhecido, era substituído pelos contratos e obrigações do Código Civil.
    Assinei petições chinfrins, afinal, que desmerecem o modernoso padrão parecerista, isto é, de opiniões baseadas em argumentos doutrinários e técnicos, dos escritórios diria inominados, citados, que animam o papo da galera elegante e bem cuidada de meus colegas bachareis de terno geralmente preto, de gravata, sapatos brilhantes. 
    Em compensação, os consultórios de psiquiatria e de psicólogos renomados, cuidam de condutas depressivas que acometem as partes envolvidas no entrevero social, mergulham no poço escuro da Justiça. Aí perdem de vista o que julgam seu direito. 
    MST, MSTC BLACK-BLOCKS, etc. etc, movimentam-se e não são perturbados, acredito, inviabilizando a garantia de direitos outros de outros, que são desrespeitados. O aparato policial recebido a pedradas perde a credibilidade – vira mero cordão de isolamento. Conselhos e mensageiros nascem interpostos como entidades inominadas. Democráticas? Resta o cansaço, o descrédito das instituições públicas responsáveis pela solução do impasse, danos patrimoniais a serem reparados.
    A situação crescente de explosões inominadas, alcança jovens, crianças, mulheres, negros, cadeirantes, gays, brincantes, cria o comercio de garrafinhas de água mineral. Hoje num igarapé da amazônia, amanhã no Cariri da Paraíba, nos pampas do Rio Grande, bebês com roupinhas modelo-protesto são levados pelos pais. Massa. Dá para desfrutar a vida, porque um protesto é seguido por outro. Desconheço relatórios e apuração das ocorrências.
    Que fazer? Esperar o próximo que nominará a guerra civil.


  • 06/02/2017

    Minha homenagem a Dona Marisa Letícia


     Sou matuto mais ou menos viajado pela “oropa, frança e baía”, mas como quem vai pra feira escolher e comprar o essencial, e também novidades, para consumo pessoal, familiar. Então a figura da dona de casa, entre ricos e pobres, que cuidam da sala e da cozinha, é insubstituível e perfeita para mim.


    Dona Marisa Letícia tinha esta imagem simbólica e mítica do amor, da responsabilidade na vida doméstica. Ela afirmou que assim criou a família: era pai e mãe. Felizmente não aderiu ao primitivismo fundibulário do feminismo petista. Ficava no seu lugar. Diferente de Chauí, Marta, Benedita e outras, que recolheram somente a glória pessoal que ambicionavam. Fui seu fã de carteirinha. De dona Marisa, fique claro. 


    Enquanto isso, Lula seu marido, não passava de um esperto pelego e biriteiro na vida sindical. Declarou à imprensa que nada tinha com comunismo, mas a sua militância era voltada para os metalúrgicos de São Bernardo. Deu no que deu. Primeiro tornou-se mentiroso contumaz quanto aos costumes e o sentimento de patriotismo. Por fim entregou-se à demagogia e populismo, que arrasaram a ideologia política e social voltada para o interesse da coletividade, a soberania do país, que nortearam a criação do partido dos trabalhadores.


    Terminou no episódio maldito da vida nacional, no terrível procedimento policial e judiciário Lavajato, que apura a institucionalização do maior processo de corrupção do Estado, acontecido na vida administrativa do planeta.


  • 13/01/2017

    Trump e Dória. Decadência ou progresso?


     Uma confusão dos diabos. Aconteceu, ou melhor, acontece comigo. Para falar em tempos recentes, depois dos hominídeos e do Paraiso bíblico. Falo de Proudhon, Marx, Fourrier, Gramci, Dhumenil. E agora chegam Trump e Doria, no primeiro e no segundo mundo. Tudo depois que a Europa – espelho da sabedoria e competência no mundo está em ruinas. Fundamentalistas explodem o planeta.
    Afinal, tenho de considerar o que aconteceu comigo, e com todos, parte do processo de transformação e mudanças dialéticas ou comporta-mentais, que sofremos na sociedade e observamos na natureza. Volto a afirmar que o que todos sabem: não sou folgado em dinheiro. Tenho um salário de aposentadoria, razoável, porém os gastos familiares de cada dia, mandam economizar, reduzir despesas. 
    Falo como as pessoas daqui do mato: vou com as dificuldades de tanger gado brabo. O que é pior a pé. Mas sempre aparece uma ajuda: um cachorro, um pé de cerca. Gosto dos americanos, porque eles raciocinam e agem certo nos momentos precisos. Recorrem aos cachorros e pés de cerca. E impõem regras para o pensamento e ações, suas e dos outros porque a sua meta é global. Criaram a internet, imaginada e anunciada como a liberdade geral, o mundo na ponta do dedo. Anunciaram pro-cedimentos, e comandam no domínio da “nuvem” que provê o google, o youtube. 
    Devemos saber que, como adverte Zygmunt Baumann, recentemente falecido: “As pessoas compartilham reações emotivas nas redes sociais e às vezes organizam-se, a partir dali, para ir às ruas e protestar. Gritam todas os mesmos slogans, mas na verdade têm interesses diversos e expectativas difusas. Depois, voltam para casa contentes pela fraternidade com os demais que se criou, mas é uma solidariedade falsa. Chamo-a de “solidariedade carnaval”, porque me lembra aqueles eventos nos quais, por quatro ou cinco dias, coloca-se a máscara, canta-se e dança-se junto, fugindo por um tempo limitado da ordem das coisas. Estes protestos permitem a explosão coletiva de problemas diversos, e de demandas individuais, por um lapso breve de tempo, como no carnaval – mas a raiva não se transforma em mudança compartilhada.”
    Que fazer? O mundo é assim mesmo. Temos americanos decifrando o processo de ajustamento, explicando. Vejamos as afirmações do citado Bauman , teórico da “sociedade líquida”. Em conferência em Udine, sobre as contradições e o confronto planetário da sociedade e instituições, esclareceu com “a atualidade política, os chamados “partidos anti-sistema” (de esquerda e de direita) e as eleições primárias norte-americanas.” Acrescento a de São Paulo.
    É porque, nas suas palavras, para citar Gramsci “se o velho morre e o novo não nasce, neste interregno ocorrem os fenômenos mórbidos mais diversos”. Hoje, os velhos instrumentos não funcionam mais; mas os novos ainda não existem. Direita e esquerda eram conceitos plenos de significado há poucas décadas, mas são muito menos na complexidade policêntrica do presente.”
    E finalizava:
    “Tenho muito respeito por eles, mas não gostaria que criassem muitas expectativas sobre o que se pode verdadeiramente fazer com os instrumentos já não funcionais próprios da era do interregno. De outro modo, o risco é desiludir-se rápido, como ocorreu com Tsipras na Grécia.”


  • 24/11/2016

    Praça Rural II


     Sinto nas cidades do Nordeste, onde moro, que ainda se respira o
    campo, perpassam eflúvios rurais em anúncios mercantis e também em teses acadêmicas – sobre os costumes, o ambiente doméstico e campestre, embora recorrentemente pastichados. Assim as festas juninas, as vaquejadas. Não se trata simplesmente de nostalgia, mas da ação de alguns interessados na apropriação de bens materiais e também culturais transformados em valores financeiros, que movimentam e sustentam um modelo de Estado.
    A construção de um tipo de sociedade que elimina o indivíduo e
    também a coletividade, e entroniza entidades que representam mitos e efígies, falam do bem e do mal, arrancados do memorial das nações, tratam enfim, do que cria incertezas na vida das pessoas. Buscar o melhor para todos, eles asseveram, ser este o seu desiderato. Escondem a angústia e o desespero que dominam a sociedade. Resiste, todavia, a tradição,
    apesar de atraiçoada, na falsificação intencional das referências que
    lhe fazem. E nós dividimos envolvidos na crise.
    Ocupando-me sempre em raciocínios e projetos um tanto extravagantes, diria singulares, e estimulado pela memória pessoal cheia de lembranças de fatos, de sugestões tiradas da leitura de textos nos variados campos das ciências sociais e da literatura, e sua teoria, na busca de descobertas comparativas e explicativas da sociedade dos homens ditos civilizados, cheguei à Praça Rural. Quero dizer, à idéia de inclusão nas políticas culturais públicas, do que eu chamo Praça Rural – local de encontro
    para negócios e lazer, da população que ainda mora no campo,
    cristalizando em tradição os costumes do lugar, porque na verdade estão ameaçados da mais grosseira descaracterização.
    O fato é que a população campesina não é atraída, mas puxada para
    a cidade, garantindo-lhe o Estado a reboque do Mercado, serviços públicos que lhe oferecem assistência à saúde, educação, alimentação, moradia, as famosas “cestas básicas”, e mais recursos que movimentam a conta usurária dos empresários que vendem tudo, até a própria honra com a invenção de nomes e processos), no estelionato praticado em ações subliminares nas chamadas parcerias publicas/privadas. Submetido a tais exigências, o campo tem sido a vítima maior no desenrolar das crises do sistema capitalista. Começou com o comprometimento irreversível e quase destruição total dos recursos naturais,de ecossistemas principalmente, nos quatro cantos do mundo. Sabemos do risco que representa para a saúde das pessoas, beberem água não “tratada”. Disponibilizam-na purificada para os que moram na cidade.
    Desconheço algo neste sentido dirigido para o campo. Um ex-presidente brasileiro famoso pela sua le- viandade e maluquice esquizofrênica, referindo-se ao Nordeste (no caso ao campo) disse que mora em luga ruim quem quer. Em boa hora foi posto para fora do governo.
    Vivem as cidades a cultura do desespero, construindo modelos insólitos de expressão social na economia e na arte, que só valem quando
    chancelados pelo Mercado, pois não se trata da razão e do conhecimento, mas de representações que se devem ajustar ao sistema. Continuo na minha tese, no meu projeto de criação de praças rurais.Delas necessitamos nós que moramos no campo. Se argumentaramsobre o Direito à Cidade, acrescento a promulgação da Declaração da Diversidade Cultural considerada “o ápice normativo da Unesco, principalmente no tocante a uma das competências que lhe dá sentido, qual seja: a instituição voltada para a construção de categorias de compreensão social e aqui, mais especificamente, a elaboração de conceitos relativos
    ao tema da diversidade cultural (PITOMBO, Mariela “Espaços e
    Atores Da Diversidade Cultural”, Edições Casa de Rui Barbosa, 2009, Itaú Cultural). Daí o reconhecimento da imposição como semente de inclusão social, da existência das praças rurais.
    Constatamos explosões desarrazoadas de sentimentos nascidos na cidade. Eis aí o risco, o pecado da unicidade. A manifestação estúpida, e por que não dizer cretina no campo da música popular, do “movimento manguebeat”, impossível de ser explicado vernaculamente, para a fuga que empreende a juventude, prisioneira do Mercado, assumindo novotipo de exclusão e dependencia. Intentam criações insólitas. Vivendo naCidade do Recife, a “quarta pior cidade do mundo para viver”, os que se
    autodenominam mangueboys, desorientados apropriam-se do trágico
    na periferia – a lama escura do manguezal que guarda os caranguejos que alimentam os homens pobres e os escraviza inelutavelmente. Nos estreitos limites intelectuais de sua formação descobrem, confessam: “Fiz uma Jam session com o Lamento Negro, aquele grupo de samba--reggae, peguei um rítmo de hip-hop e joguei no tambor de maracatu...Vou chamar essa mistura de mangue” (Ob.cit. pág.281).
    Mera excentricidade, que passa a caracterizar a modernidade: a
    transgressão, o contra, como usar a aba do boné para traz.


  • 22/11/2016

    Sementes de inclusão social


     Quero construir praças no campo. Uma idéia que não tiro da cabeça na solidão que vivo na fazenda, sem outra opção que a televisão, a internet, os livros. Outros também sentem essa falta. A exclusão social nos alcança. Necessitamos do contato humano, de conversas de negócios de festas nossas, não de sua representação, macaqueação de vaquejada em “bolão”. Alerto os governantes. Não se trata de problema orçamentário,arquitetônico, mas existencial. Li sobre a Demografia, os seus conceitos, as suas leis. Sem maior profundidade,devo esclarecer, mas o suficiente para assenhorear-me dos seus princípios básicos. E nas reflexões sobre a verificação de sua validade, descortino, ou melhor, assisto e participo da grande mobilidade que determina a situação atual das populações quanto à nacionalidade, naturalidade e sua fixação. O desenvolvimento das relações sociais que criaram a conjuntura atual foge à regra da evolução racional, diria razoável, submetida sempre e determinada, pela influência ou imposição de regras determinadas pelo Senhor Mercado Neoliberal. Esta é a grande verdade. A história o comprova desde o êxodo bíblico às remoções populacionais estalinistas, nazistas. A invasão das áreas desenvolvidas economicamente, ou litorâneas, pelas populações pobres acontece em todos os lugares, na Europa e nos Estado Unidos principalmente. Falando do nosso país, o exemplo de São Paulo e outros estados do Sul, vêm a calhar.O campo é sempre a vítima. Até aqui na pequenina Paraíba, na cidade de Pombal, a população inteira de um distrito, ali residente, distante apenas trinta quilômetros da sede do município, foi condenada a perder todos os serviços públicos que ali funcionavam, e teve de aceitar a transferência do seu domicílio eleitoral ex-oficio, na marra, por uma questão de economia das finanças públicas: menor despesa com a construção de estradas, a instalação manutenção de equipamentos burocráticos e seus serviços. Tento explanar, nestas considerações, algo a propósito do isolamento quase absoluto a que estão submetidas pessoas que ainda vivem no campo,por escolha ou vítimas de coerção, de um constrangimento dissimulado.Tal fato levou os agentes do Mercado à criação de um novo ramo do direito atinente à cidadania, chancelado por organismo público (UNICEF) o “direito à cidade”, explicitado em painéis com metas específicas, em São Paulo e no Rio de Janeiro a propósito de direitos da criança, etc.Puro favorecimento da atividade mercantil, concentrando a exposição e comercialização dos produtos sem maiores procedimentos ou despesas. Barateamento da prática, aumento do lucro. Nada sequer parecido faz o Mercado em relação ao meio rural. Senão arremedos exaltando um comportamento algo primitivo e atrasado, destruindo um passado experiências de vida. Chamo a atenção dos pensadores do novo mundo, para o fato de que, ainda vivem moradores no campo, que lá se reúnem para negócios e para o lazer, para as atividades lúdicas, e são pessoas. A concepção de “praça” não se restringe à planta arquitetônico-urbanística, exclusivamente, de um espaço qualquer, no seu traçado, para uso na cidade, um monumento de concreto. Mas de um local de encontros e reunião de lazer de negócios: banhos, comércio de bichos, de legumes. É preciso criar praças rurais. Quero criar praças rurais. Serão expressões de uma realidade cuja vivência nada pode reproduzir, somente estimular parcerias vivenciais na indústria, na arte. O processo produtivo agrícola e pecuário, as festas votivas, as gestas que fizeram nascer aagilidade da poesia, do cordel, são frutos da vida campestre, impossível encontrá-las na cidade. Desaparecerão sem referências apropriadas à sua natureza e origem. Somente as praças rurais as salvarão. A ciência e a técnica permitem a produção de bens e serviços, até a ameaça de exaustão do produto explorado, industrializado e do ambiente natural. A cultura, esta, perde a noção de sua cristalização em tradição e costume. Tudo vale como mero folguedo. E esta riqueza resta inutilizada, perdida ou abandonada ao relento, e em projetos anotados em livros volumosos nas estantes, na memória dos computadores. Criação de mitos inconcebíveis numa sociedade justa. Perdem a publicidade e sentimento coletivo para sua fruição. Ainda bem que os governos petistas, na linha de sua política de inclusão social, na busca de identificar e anotar procedimentos e costumes, criou nos “pontos de cultura” o instrumento e o meio de preservar a identidade cidadã. Diferentemente das assembleias dos grandes, pela vivência popular, que não dá com uma mão e toma com a outra como a “Lei Rouanet” e outros dispositivos legais protecionistas."


  • 09/09/2016

    Malha Ferroviária


    Considero urgente e de interesse público, o restabelecimento da malha ferroviária que ligava Sousa e a Paraíba ao resto do país. Falo como sousense, que durante muitos anos utilizou os trens de passageiros e também os trens de carga, que transportavam mercadorias integrando os produtores, industriais, comerciantes e consumidores locais, regionais. Marcava o nosso desenvolvimento. Levo este assunto pedindo e esperando o apoio de todos, dado o grande interesse econômico e social que lhe reconhecemos.
    Sousa, a nossa querida cidade, era ligada a João Pessoa, Fortaleza, Recife, Mossoró especialmente, e ao restante do país por comboios regulares, servidas por agentes e funcionários, operadores do sistema com Estações, Armazéns, Oficinas, escritórios para burocratas. Um verdadeiro mundo administrativo, profissional, comercial e formador de técnicos que sustentava a atividade.
    Afirmo sem receio de contestação: a conhecida gang do transporte rodoviário de alta lucratividade para os seus agentes, articulada na alta administração pública, minou a resistência, subornou, eliminou o serviço ferroviário, serviço este considerado essencial, que existe em todos países desenvolvidos e em desenvolvimento no mundo, indispensável para o progresso das nações. Aí está a malha rodoviária brasileira de altíssimo custo financeiro, levando às alturas o chamado “custo Brasil”, com problema de operacionalidade pelos acidentes e desgaste natural que a torna problemática.
    Faço, por fim, referência ao romantismo social das lembranças, referindo quatro nomes representativos entre milhares, que viveram em nossa Sousa, aqui constituíram famílias deixando filhos e parentes que conhecemos, e, estejam onde estiverem hoje, nasceram no seio do empreendimento público que implantou a malha ferroviária que chegou a Sousa. Cito José Bringel, Pedro Brasil, Joaquim Pinto, Sabas Coelho, representando todos.
    Serei contestado com relatórios e avaliações especiosas, falsas sobre a realidade econômica e dos transportes no país. Eles têm os seus agentes. Mas foram denunciados pelo nobre e honrado senador Roberto Requião, do Estado do Paraná – o único entre os governadores no Brasil que se recusou a privatizar (vender a preço de banana) o Porto de Paranaguá entre os melhores do mundo em eficiência, de baixo custo, a companhia distribuidora de energia elétrica, que fornece a mais barata do país, com os menores reajustes, o banco estadual, proibiu os famosos pedágios. Ele se juntará aos sousenses, aos políticos paraibanos que nos apoiarem, tenho certeza.


  • 12/07/2016

    Intelectual consagrado, Chico Pereira chega a APL


    Meus cumprimentos ao homem de letras Chico Pereira, recem-eleito como candidato único − ressalto esta circunstância consagradora −, para a Academia Paraibana de Letras.Todos aplaudiram. Em conversa pelo telefone lhe reafirmei a minha admiração pelo seu trabalho intelectual, que vem de muito tempo, de uma convivência amistosa e registrada muitas vezes neste blog.
    Devo desculpas ao intelectual e amigo Chico Pereira, pela afirmação que fiz dele haver negado ou omitido referência no seu livro “Paraíba – Memória Cultural” ao governador Ricardo Coutinho. Engano de minha parte. Ele o citou, indigitando-o, inclusive, com ilustração fotográfica (pág. 264), como autor de crime ambiental pela destruição de parte do que resta da reserva de Mata Atlântica no nosso Estado. 
    Com efeito, numa extensão territorial de 58.346 km² que lhe permitiria inumeráveis opções para localização da Estação Ciência no Estado, a sua crueldade congênita preferiu a senda criminosa, que é do seu feitio. Colhi no Google que restam na Paraíba menos de 16% da mata atlântica original. Pois contra ela consumou a sua ânsia de destruição. Ele conhece a lei, mas prefere o agrado da mídia subsidiada que esconde e divulga o que quer. 
    Quem não leu ou não escutou ainda as loas estipendiadas do jornalismo paraibano, quando trata do abominável administrador estadual? Esta é a verdade. E como acentuava a nossa tradicionalista sociedade escravista (não eu), “Dinheiro e peia em negro só não resolve quando é pouco.” Ah! Pobre e pervertida imprensa, que os celebrados gregos ignoravam, e apesar de tudo, criaram a filosofia e a civilização ocidental. Talvez por isso mesmo. A Paraiba que o diga. Parabens amigo Chico, a unanimidade do reconhecimento dos seus méritos e a preguiça dos meus oitenta, morando longe, dispensaram a minha presença na reunião festiva e gloriosa da Casa de Coriolano Medeiros.


  • 07/07/2016

    Lira, o melhor para governador


    Surgiu como um meteoro na política paraibana o sertanejo Raimundo Lira. Com o efeito do um relâmpago dentro de um cumulo-nimbo (torreão) no céu da seca. Brilhou, estrondeou um trovão e desapareceu sem deixar marca duradoura. Falo no uso e no gosto da linguagem sertaneja. Votei nele, e amarguei a decepção da expectativa do seu licenciamento para assumir um dos seus suplentes (dois naquela época), que nos representavam condignamente na cena política: o prefeito Sinval Gonçalves e a doutora Fátima Pires Gadelha de ilustre tradição familiar e brilhante inteligência. 
    Afinal, no campo da ética, o exercício dos mandatos políticos tem o objetivo da representação, não da negociação. Ele desapareceu, ignoro as circunstâncias que o levaram ao estranho desiderato. Lira continuou com a sua reconhecida competência, na área empresarial, já vitoriosa em Campina Grande como concessionário da revenda de veículos. Afastado da atividade política recolhi-me a uma modesta fazenda no sertão e o perdi de vista. Falam que hoje é um dos mais destacados e ricos no Centro Oeste e no Sul do país. Competência que a globalização neoliberal premia e lhe abre caminhos.
    Eis que, sem atuação pessoal e partidária, mas pelo hábito, eu colhia informações de tudo na política paraibana, que a midia possibilita. Julgando-me um sabedor nesta área, fui surpreendido com a posse do citado empresário no senado da república. Como? Desconhecia a sua candidatura. Estirei as pernas e bolei na rede costumeira, que curto no alpendre. O caos universal ofereceu-me a explicação. Aonde nos econtrarmos, interagimos no cenário global em fases e eras sociais, astronômicas que a sociologia e a quântica analisam e explicam.
    Naturalmente (dado a grandeza do episódio, minimizada na esperteza do resultado), Lira negociara com o titular, o exercício meio-a-meio do mandato, de uso na política. Daí ter eu recorrido à expressão quântica, que surgiu como a tentativa de explicar a natureza naquilo que ela tem de menor: uma unidade discreta. Porem essencial, como sentenciam a física quântica, o general SunTsu no seu “A Arte da Guerra”, e consagra o proverbio lusitano: “O segredo é a alma do negócio”.
    Pois aí está: esperto e discreto, Lira é senador destacado no exercício do mandato. Ficha Limpa, acredito, tornou-se nome nacional presidindo com equilíbrio e coerência, a famosissima e histórica Comissão Especial do Impeachment da presidente Dilma Roussef. E parece um novo José Américo que socorreu os nordestinos nas grandes secas do século passado, abriu estradas. 
    As teses e metas de Lira são as que reclamam a regiâo: a urgente conclusão da transposição das águas do São Francisco com um novo ramal para o vale do Piancó, neste momento com a reserva hidirica de Coremas/Mãe Dágua reduzida a menos de 10%, insuficiente para atender esta região e mais de oitenta municípios na Paraiba e no Rio Grande do Norte. Quanto a estradas ele anuncia a duplicação da BR 230 de Campina Grande para Cajazeiras. A Paraiba se orgulhará do seu senador sertanejo.
    Não alimento nenhuma pretensão política e administrativa, partidária, pessoal, familiar. Somente o patriotismo, do amor ao meu Estado e aos meus conterrâneos, motivam este comentário. E o reconhecimento da auspiciosa presença de Lina no Senado. Sou daqui mesmo e sofro e desfruto a região com os seus problemas e a sua tradição.


  • 23/05/2016

    Temer, o novo governo


    As mulheres cultivam o muxoxo e os rancores. São detentoras, todavia, no mais alto grau, instintivo, do sentimento do amor: o maternal. Inteligentes, souberam expandir o raio de sua influência. Daí serem apelidadas de guerreiras. Mas só neste caso. E se insinuam e dominam alguns homens condescendentes, apaixonados amorosamente, assumem tarefas de chefia e execução, de liderança. Aí chega o desastre. Vejam o caso de Dilma. E de Georg Sand que adotou o nome masculino e os trajes também, numa gloriosa quadra da literatura francesa. É a história. Andaram elas perto de derrubar o governo de Temer, passadas apenas 24 horas de sua investidura.
    Francamente, receio perder amizades e ser alvo de críticas e zombarias. Explico: sempre achei as mulheres as criaturas mais belas, determinadas e admiráveis na sociedade, desde os primórdios de sua organização, em que pese esquisitices intoleráveis de comportamento, muxoxos que devem ser evitados e até reprimidos. Que ocupem o seu lugar, como fala o vulgo “enxerguem o seu lugar”, desculpem, e lá se comportem. Tudo correrá bem. Nem tanto, porque depois do muxoxo vem a gostosa reconciliação. 
    Reinados e repúblicas atravessam anos com rainhas e governantes reverenciadas, com poder simplesmente aparente, decorativo, em regimes parlamentaristas, inegavelmente para “compor o quadro”, estabelecer e criar parâmetros de julgamento e apreciação. Sem poder de decisão, nada de muxoxo. Sempre admiradas e reverenciadas pela beleza e até a intrepidez guerreira, colecionando vitórias e conquistas, é impossivel negar-lhes o destaque. Todavia o tique do muxoxo complica a cena.
    Lembro nos lares do meu sertão, as elegantes damas na sala recebendo visitas, enfeitando saraus, ricas e pobres, mas na negociação e fixação de temas relativos à economia e a estabilidade financeira e comercial da casa, que envolve todas, elas se eclipsavam ou eram mandadas para o reservado quarto de bordar e costurar, a apreciada cozinha, cuidando da preparação de quitutes que todos elogiavam. Ou para cuidar do moinho, do pilão e das galinhas nos núcleos familiares de pouca fortuna. Não quero entrar no mundo mitológico e cultural de Solha com tragédias gregas e shakespeareanas de Otelo, Hamlet, Romeu e Julieta, que se ocupam do rancor, da inveja e do muxoxo. Fico no rés do chão petista, cuja fragmentação de conceitos sociais, pretensamente filosóficos, arruinou o país.
    Ao assumir a presidência da república, Dilma começou no muxoxo contra a linguagem corrente no país, violentando-a quanto à prosódia, não a musical, nem a gramatical de ajustar a harmonia na sua relação com a língua padrão. Somente o muxoxo do poder. E decretou que deveria ser chamada “presidenta”. Hilário. Hilário. Morro de rir vendo os idiotas, espertos e estelionatários petistas na tv redundando: “A senhora presidenta...” Quantos vexames ocorreram!... Lembro o contrafeito “cara-pintada” paraibano, senador Lindberg Farias, cujo pai médico de fortuna em bens, gastava as noites na “calçadinha” de Tambaú, num incansável proselitismo comunista. Impossivel esquecer o senador Pimentel do Ceará, com a cara lavada do chefe de seção, buscando adivinhar as ideias do diretor do seu departamento. Por sinal, foi a mulher intelectual acadêmica (da UFPB, da APL) Mercedes Cavalcante, conhecida como Pepita, que me chamou a atenção para o imbróglio, advertindo que, pacificamente tratamos as belas garotas de farda ou de biquinis nas festas das escolas, de linda estudante e jamais linda “estudanta”. Uma verdade que talvez salve a moralidade pública no país, destruida pelo muxoxo da presidenta.
    Desvios e erros acontecerão no novo governo, como em outros, com as mulheres ocupantes de ministérios, secretarias, estatais, etc. Resta a situação dos negros, e me integro à sua reivindicação, por dois afroparaibanos de muita garra e brilho da inteligência, que os conheci desfilando entre galegos obtusos na jerarquia mais representativa, invadida de contrabandos esquisoides, o demimonde de Ramalho Ortigão (ver Aurélio). Falo dos bachareis Francisco Zacarias, seguidor de Jackson do Pandeiro, e Severino Ramos, talvez de José do Patrocínio, Lima Barreto.


  • 20/05/2016

    Oligarquia e poder


     Escutei na TV SENADO a bela e palavrosa senadora Gleisi Hoffmann, arrogante e truanesca com o narizinho arrebitado, que não esconde a nostalgia do poder. Os crimes contra a administração pública, cometidos por ela e seus “companheiros” lulistas, jogaram na lama a honra nacional. Alguns deles estão na cadeia, processados legalmente com direito a ampla defesa. Outros serão mandados para trás das grades, ela e o seu marido, quem sabe. Desmancharam na prática da corrupção, a rede de transporte rodoviário, ferroviário, aeroviário e fluvial, a estrutura e funcionamento dos organismos de segurança pública, a rede de saude preventiva e hospitalar, a qualidade do ensino desde o nível primário ao de graduação e especialização tecnológica, e demais instituições responsáveis pelo desenvolvimento do país. As restrições ao cumprimento dos chamados direitos sociais, de sua inteira responsabilidade, eles deixaram como herança ao novo governo, que acusam cinicamente antes do seu começo. A mentira tem pernas curtas. A verdade será declarada à Nação. Aliás é bom ressaltar que a citada senadora e o seu marido, ocuparam e se locupletaram em vergonhosa oligarquia ministérios e outras funções governamentais.


  • 14/04/2016

    Varsóvia revisitada e outros ensaios


    Manhã de domingo, dia do Plebiscito que tratava da tentativa de desarmamento da população. Cheguei da fazenda, onde vivo intranquilo, sem o encosto necessário de uma arma de fogo, nestes tempos de insegurança e de violência comprovadas.
    O governo exercita a prática da democracia em propostas insólitas, numa pretensa demonstração de empatia em relação à sociedade. Decidi votar “não” à proibição de comercialização de armas e munições. Uma decisão pessoal fruto de circunstâncias inarredáveis que me cercam. 
    Lá onde moro, como me valeria o aparato policial-repressivo do Estado diante de necessidade eventual? O problema é outro, nasce de outra forma de repressão, esta poderosa e secular, excluindo vastas parcelas da população da proteção e das garantias asseguradas pelo chamado Estado de Direito.
    No meu apartamento na cidade, meditava nestas questões quando fui despertado por pancadas ─ um tropel incomum no andar térreo do pequeno prédio. Era o amigo Paulo Gadelha pajeado pelo seu desenrolado e inteligente assessor, e também meu amigo Chico Bacana se anunciando.
    Paulo é assim mesmo em certas ocasiões. Explode em efusão falando apressado, engolindo sílabas, palavras inteiras, depois se recompõe, exprime-se numa dicção esmerada, perfeita. Outras vezes tropeça, perde o equilíbrio, dá encontrões. Em seguida apruma-se elegantemente. Protagoniza largos e estudados gestos, como num corpo de baile. Traja com esmero, embora não tenha aprendido com a mãe nem com a ama da infância a pentear os cabelos (hoje escassos), e, tampouco, herdado do pai a prática do elegante nó da gravata. Recorre a mordomias, a assessorias generosas dos que o cercam e o servem.
    Paulo tem tradição. Costuma freqüentar os casquilhos salões, o circuito das reuniões vip, os fóruns engalanados em cerimônias oficiais no seu rigor ritual, litúrgico, diríamos. Está habituado a receber e distribuir cumprimentos. Foge do comum das pessoas. Dizem que é a marca do superdotado, do bem situado. Tenho certeza que não estou indo longe demais. 
    Vindo do ambiente das altas cortes judiciárias, ele um Desem-bargador Federal, cumpria no momento, o seu dever de cidadão perante a Justiça Eleitoral, e atestava igualmente os deveres da cortesia, visitava familiares e pessoas de sua intimidade. Um exemplo.
    Recebi das mãos do amigo, duas publicações de sua lavra. Uma contém discursos que pronunciou em reuniões formais, como figurante, destacado pelo mérito da investidura, usando a palavra, ele dono de inigualável e pessoal estilo – mestre da retórica, criador de metáforas copiadas, repetidas. Outra contém breves ensaios sobre assuntos variados, desde exegeses doutrinárias de temas jurídicos, hoje o seu campo de atividade como magistrado, aos domínios da estética, da literatura de ficção e sua teoria. Comentando obras mestras que marcaram épocas, a sua repercussão no mundo civilizado, adentra as artes plásticas, o cinema, do Ocidente ao Oriente. Vara séculos viaja de Cervantes a Nabokov, de Platão a Norberto Bobbio, Machado e Eça, e teóricos da sociologia, da economia, da História, da filosofia, em suma. Falo do seu livro recente “Varsóvia Revisitada e Outros Ensaios” (EBGE – Gráfica Santa Marta. Recife-João Pessoa 2005)
    Vale ressaltar no pensamento, na palavra, nos escritos de Paulo Gadelha a marca da erudição, da exposição que se origina na reflexão das grandes questões colocadas pela filosofia e pela ciência, envolvendo o homem e a natureza, o momento presente de modo especial. As linhas do seu pensamento, as suas idéias, a enunciação precisa dos seus parâmetros evidenciam-se claramente, numa síntese reveladora à moda haicai, diría. 
    Do passado Paulo guarda somente o gosto pela retórica apurada, pelas metáforas grandiloqüentes, em textos e comunicações breves. Para que tanta prolixidade, tratados enfeixando grossos volumes, quando quase tudo se resume em curtas frases? “No princípio era o Verbo”, “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Resta-lhe o humanismo que é vezes beligerante, vezes romântico. Aceso o fogo do debate, como o Quixote ele combate até moinhos de vento, recorrendo a ensanchas da prática dissimulada do rotundo escudeiro manchego. Contradições, quem não guarda as suas?
    Eis, portanto, o homem político, polido, o liberal, o democrata que propugna em termos precisos as suas teses. Levanta-se, com a bravura indômita de um fundamentalista, em defesa da Organização das Nações Unidas, agredida por Washington e Londres no episódio trágico e sangrento da guerra do Iraque.
    Paulo é um pacifista. Assim o vejo. A luta, o combate que ele procura e enfrenta com entusiasmo e gosto, é no campo das idéias. Alimenta e fortalece o seu espírito como o fizeram os grandes do mundo do conhecimento, bebendo as idéias dos outros, esmiuçando a seqüência histórica dos acontecimentos, ruminando-os em reflexões profundas, criando os seus conceitos, as suas teses. Ele faz da ONU a sua referência. E perora: “É violência inominável desrespeitar as decisões de um organismo que surgiu com o objetivo de civilizar as relações entre os povos.” Paulo é um homem civilizado, inegavelmente,
    É preciso nas suas assertivas: “O mandado de segurança nasceu com a Constituição de 16 de julho de 1934, bem como o quinto constitucional, isto é, a presença do Ministério Público e da Advocacia na composição dos Tribunais do Brasil.” “No Brasil a preocupação com a saúde é imperativo constitucional. Com efeito, di-lo de forma solene o artigo 196 da Constituição Federal.” Todos o sabemos, mas é necessário precisar tais informações, oportunamente, revelar o seu sentido histórico, como ele o faz.
    Vejam em que deu a nossa amizade. Entre outras lembranças mais representativas do exercício dos nossos mandatos, ficou também a memória de amenidades de nossa convivência como parlamentares na Assembléia Legislativa da Paraíba. As viagens de trabalho por três continentes, desde Bogotá a Nova York, da cidade do México a Belgrado. Alguma coisa de fato restou, como o embarque dos EUA para a Inglaterra sem o visto de saída carimbado no seu Passaporte, a forçada permanência em Lisboa, em face da falta de vaga no vôo pretendido para o seu regresso ao Brasil, por não haver reconfirmado a data no bilhete aéreo. E tem aquela desconcertante entrevista com a licenciada Clara Jusidman, do Ministério dos Assentamentos Humanos do México. Em face do calor reinante, numa tarde quente na proximidade da Basílica de Guadalupe, ela nos recomendava “Quitar el saco” (traduzo: tirar o paletó), que não chegamos a entender, a despeito da fama de poliglota de Paulo, e de haver o nosso companheiro médico Manoel Gaudêncio que residiu em Madri cumprindo estágio um ano inteiro, ter-se inimizado com a lingua espanhola . Equívocos que nos perseguem e deixam marcas agradáveis na lembrança. 
    Tem muito ainda para contar, e mais para lembrar.


  • 28/03/2016

    Cajazeiras X São Paulo: Sousa se volta para o futuro


     Eles são assim: voam alto. Falo de cajazeirenses e cajazeirados. Acomodados e displicentes, os sousenses andavam esquecidos¬¬¬ do tempo, e a cidade amargou fracassos, a orfandade política. E os nossos líderes? Estes parecem despercebidos. Enfrentar a situação típica, o novo momento social, exige estratégia para sustentar e vencer o combate, alcançar as mudanças que a maioria reinvidica. Vemos na população que sai a rua para as compras da família, mesmo para negócios, a ansiedade estampada na face das pessoas. Tudo é fruto da crise do desemprego, da recessão, da corrupção que roi as forças do país, arruina a moralidade nacional. O povo quer mudanças, quer progresso.
    Cajazeiras no seu jeito típico de reivindicar, tomou as regiões administrativas estaduais sediadas em Sousa, o aeroporto, as escolas de nível superior, e mais ações governamentais do interessa da cidade e da população. Dos cajazeirenses (sou quadrineto de Vital Rolim e Mãe Aninha), herdei a tendência para a altercação. Não para a tergivesação. Nasci em Sousa onde ainda hoje vivo, amo a minha terra. Morro por ela.
    Uma intolerância recíproca entre as duas cidades nos contrapõe. Lembro que certo dia, em companhia do saudoso amigo Célio Pires, sousense casado com uma cajazeirense, visitando a cidade, a minha rica prima Adalgisa do cel. Matos, impenitente patrioteira local acusou-me como sousense, de ter desviado o traçado da ferrovia federal e roubado o trem deles para Sousa. Vejam só! Eles, como se diz, não abrem nem para o trem.
    Assim se fizeram grandes e disputam agora com São Paulo − não com Sousa e Ipaumirim que seria um rebaixamento, tão alto se acham empoleirados. A discussão, porém, é sobre o pior ensino de medicina no país se o de São Paulo ou o da terra do Padre Rolim. Até nisso, pois Cajazeiras, não se peja, tem uma escola médica embora os estudantes, recebam a maioria das aulas em Sousa, segundo comentam. O fato é que disputamos o curso e perdemos. Eles ganharam, sabe Deus como. Falam que foi o filho de Isaac Mariz que deu de presente, iniciando carreira política, aos preclaros cajazeirenses e cajazeirados, ele um deles. 
    Um atropelo a minha vida, nesta ordem de ideiais. Aliás, Cajazeiras é uma cidade que muito pouco frequentei, quer na juventude quer agora na vida adulta, na terceira idade. Nossos mundos, a rigor, não se comunicavam. E, para mim a situação hoje é a mesma. Praticamos, dissimulados, um evidente enfrentamento belicoso. E como é costume trazido do Tejo, das levas migratórias, nos ofendemos reciprocamente. No comércio e no futebol. Respeito-os como cidadãos afirmativos no amor a sua terra, vigilantes na defesa dos seus interesses, como lamento a sonolencia dos sousenses, esquecidos do seu futuro.
    Como nasceu a raiva? No circuito internacional da economia Cajazeiras estava lá embaixo. Sem perspectivas relevantes, eles passaram como os chineses de hoje, a produzir e comercializar novidades de sala, copa e cozinha, quinquilharias, absorvendo o consumismo popular da região. Coisa pequena de mascate. Mas se arrogavam e tornaram-se um “centro regional” de compras neste ramo. Instalaram depois lojas concessionárias de revenda de veículos, estações de rádio. Dispararam.
    Acontece que, a quem Deus promete não falta, como sentencia a sabedoria popular. Numa época que noventa por cento da vida econômica sertaneja (isto na primeira metade do século pasado), se sustentava na produção agropecuária, a bacia sedimentar de centenas milhares de hectares de nossas excelentes terras para agricultura, nos proporcionava o status de município mais rico da região. Isto magoava os nossos vizinhos.
    Os taboleiros acidentados e pedregosos de Cajazeiras determinaram a busca pela população de opções noutras áreas econômicas. Criaram colégio e diocese, um Tênis Clube, coisa de Rio de Janeiro. Exploravam a sede do saber, a religiosidade e o orgulho competitivo. Os ricos de lá passavam as férias no Rio, nós sousenses, nas fazendas. E eles nos chamavam de beradeiros. Mas o meu tio-avô coronel Joaquim Matos morreu atropelado atravessando uma rua, quando passava férias em Copacabana. Beradeiro? Assim anunciavam-se elite social, que ensinara a Paraíba a ler. Entretanto, roiam-se de inveja, desfrutando a duras penas recursos precários. 
    Sabemos todos da exaltação do patriotismo da população destas cidades, em permanente e violento confronto desde priscas eras. Na fundação dos burgos, circunstâncias geológicas e geográficas, a crônica da pollítica republicana, fizeram Sousa mais destacada: homisiara Frei Caneca, esbanjava riqueza: tinha o trem, o campo de aviação, a oiticica, a carnauba, o gado, o algodão, a irrigação. Restava aos cajazeirenses a maquinação vingativa. E a ela se entregaram de corpo e alma, verdadeiramente à competição, sejamos justos.
    Sabem os cajazeirenses superar dificuldades, dissimulando ações e se especializando na luta. Infiltraram-se, roeram as raizes e bases do crescimento sousense nas extensas e férteis varzeas. Compraram a fazenda Acauã. Lá se foi a nossa tradição. Deitados em berço esplêndido, como canta o hino nacional, não percebemos que os rumos da vida econômica e social encaminhavam a Nação para definições políticas.
    Cajazeirenses e “cajazeirados” (patronímico inventado e adotado por eles), formaram batalhões patrióticos de que falam os bastidores da história, infiltraram quintas-coluna − alinhamento de um exército orgulhoso, determinado como os cruzados, direi melhor os templários que, como eles, não eram comandados pela fé. 
    Vocacionados para o trabalho, todavia, nós sousenses exploramos as nossas potencialidades econômicas e a nossa cidade, sem serviços públicos compatíveis com as necessidades locais, a urbanização assentada na planura dos terrenos, estende-se gloriosamente com edificios modernos. Linda cidade, perfumada à tarde na floração dos pereiros, com as belas praças e avenidas, aprazíveis bairros, favelas razoavelmente assistidas e urbanizadas.
    Mas como fala o povão: chegaremos lá. Quero dizer: o trabalho é a nossa arma contra o desalento e a corrupção. Seremos como no passado, a terceira maior cidade da Paraíba, atrás somente da capital e de Campina Grande. Sairemos da humilhante posição que passa de vinte. Voltaremos para a terceira, assim querem os seus filhos e os que escolheram Sousa para trabalhar e viver com a sua família, e a quem muito devemos. 
    Hoje, lamentavelmente brincamos o Carnaval e as quadrilhas do São João em Cajazeiras. Para viagens aéreas partimos na frente e tinhamo os aviões dos empresários Zé Gadelha e Dezinho Queiroga estacionados aqui. Cajazeiras viajava na Andorinha de João Rodrigues. Eles construiram um aeroporto monumental desmotando serrotes, consolidando aterros de altíssimo custo e implantaram uma pista para tráfego pesado e extensão para aviões de grande porte. Enquanto isto, desativamos o nosso aeroporto com hangar, recepção de apoio, e o inviabilizamos com o asfaltamento de uma pista para “teco-teco” quando temos uma planície e espaço em condições de implantação de uma Base Aérea, já utilizada em treinamentos no passado, por mais de cem aeronaves militares. O dinheiro do governo não chega mais em Sousa.
    Em tempo rendo uma homenagem ao pioneirismo de Cajazeiras, no campo da aviação privada. Sem condições locais para implantar atividades de aviões de passageiros, ressentidos com o tráfego de aviões oficiais que desciam em Sousa, eles ofereceram à região o primeiro avião de aluguel para viagens. Marca do heroismo que hoje chamamos empreendorismo. E deixou crônica, que valorizava eminentes personalidades sociais que utilizavam o serviço. 
    Vou fazer justica, e como se diz, dar nomes aos bois. Falo de “Antonio Pão Doce” proprietário de caminhão, paciente, vagaroso nas travesssias sertanejas. Uma viagem de meio dia para Campina no caminhão canela-fina de Chico de Varelo, filho de Sousa, levava dois dias no de Antonio Pão Doce. 
    Ele fez curso de pilotagem, comprou um avião teco-teco que aterrisava num campo de futebol perto da cidade e o guardava na sombra de uma oiticica. Tinha fregueses leais: o político Antonio Araujo que orgulhoso descia do avião, frequentava festas de padroeira e bailes de debutantes, arrematando a dança da primeira parte nos bailes com a moça mais bonita, e o empresário destacado Chico Leitão que voava longe, operando do Piauí para Sousa, Patos e Campina Grande em negócios frequentes.


  • 16/02/2016

    O PT e o exército de bancaleone


    Escusam-se, mas o PT de Lula e Marta, Dirceu, Dilma e Suplicy, entre os maiores, remonta sua origem ideológica a Roma e Meca, à submissão partícipe, ao suborno e fuxico sacerdotal e palaciano das cortes imperiais. Atualmente agem como covardes agentes da mercancia, em detrimento do Estado Nacional. Um perigoso e ridículo exército de mercenários, de Bancaleone, ou de Templários. O Palácio do Planalto, o Palácio da Alvorada, sede e residência oficial do governo, tornou-se recanto privado de reuniões extra-oficiais de autoridades e de representantes da elite empresarial e agregados com finalidade espúria. E dá pra notar a esnobação dessa gente. Tentando afirmar-se, como o instrumento ideológico realizador da “Justiça social”, o PT repete fracassados momentos de busca do equilíbrio, nos confrontos entre grupos definidos na história. Para falar em tempos recentes, lembro o fourierismo, e o sindicalismo de Lech Walesa. Enquanto isso desfila vaidosa a agremiação brasileira em conclaves internacionais, negocia, esgota irresponsavelmente as potencialidades, as forças da nação. Falseando a realização e divulgação dos fatos e recorrendo à busca de heróis do passado, este partido político motiva a massa ignara e sustenta-se intelectualmente, na divulgação de conceitos atípicos nos métodos de conhecimento, aplicados à prática social, por saber que o povo gosta disto, de esquisitices como usar o boné, inexplicavelmente, com a pala para trás. Mas o tropeço não se faz esperar. Em erudito, interessante e extenuante trabalho de análise e de pesquisas comparativas, de ideologias e sua vigência motivadora no campo social, Thomas Sowell, da UCLA-USA, descreve e destaca equívocos e características da sociedade ocidental na prática administrativa, em contraposição ao pensamento dos intelectuais, direi melhor dos teóricos das ciências humanas, na formulação de sua política econômica. Paradoxos e incoerências assim, mostram a dificuldade do equilibrio em conflitos radicais. Assim, como intelectuais atrapalhados ditos “ungidos”, com o seu nome procuram fixar uma época, o governo chamado da “inclusão”, quer através de qualificação definida em lei, ou da concessão de meios escusos que facilitem o trânsito do indivíduo de uma para outra área, operar transformações, a despeito de frustrações anteriores. Afinal em que mundo vivemos, cabe perguntar. Militam na sociedade em desevolvimento quadros distintos: uns defensores de mudanças, outros de manutenção do status quo, o que distingue as pessoas, cuja surpreendente contradição entre o pensamento ungido e as instituições, produz nesta área da sociedade as contramãos da história. Pensamos e falamos uma coisa e praticamos outra. Chego à questão religiosa, que inquieta a sociedade, de crenças, da minha formação cristã. A Bíblia Sagrada, em virtude de leituras mal digeridas − tornou-se um híbrido literário e antropológico – explica os valores astrológicos. Um livro monumental que fala da origem do mundo e do homem, das taboas da lei, da vida de pessoas, de sacerdotes, juízes e reis, de nações, do céu e do inferno, de Satanás e de Jesus que se constituem em modelos, impossível submetê-lo a tais excrescências. E tem mais. Daí decorre o Zodíaco com os signos e as confirmações factuais dessa categoria de pessoas, de instituições, de ciclos do pensamento, que a coletividade vive, revive, aceita e reverencia. Loucura minha? Procurem em Edir Macedo, em Malafaia, no negão Waldomiro, e, mediante pagamento até com cartão de crédito, encontrarão a escada para o céu. A razão, pois, nasce da dúvida. Daí a minha busca. O Cogito ergo sum, de Descartes, que pretendia fundamentar o conhecimento humano em bases sólidas e seguras, questionou e colocou em dúvida todo o conhecimento aceito como correto e verdadeiro, que justificam, entretanto, a prática viciada e vitoriosa do exercício do poder. A dúvida o levou a tanto, ensinam os exegetas. Mas o PT não é razoável. Ele criou as chamadas “cotas” para corri gir a ordem natural dos acontecimentos e situações que explicam o desen-volvimento das relações sociais. Para mim, a maior das dúvidas, ou seja, a existência de Deus, se ele existe ou não existe, perdura na roleta de emoções que desconhecem leis e regras. Impossibilitados de explicá-Lo intelectualmente, inventamos o dogma como elemento fundamental do conhecimento, para aceitá-Lo. Uma desafronta, um desagravo? No imediatismo da turbulenta modernidade, prefiro abster-me de tais lucubrações, e fico com o meu amado Jesus Cristo, entrevisto desde a mais tenra idade, no conhecimento da vida e do mundo. Amar ao próximo como a ti mesmo − sobrevive como história e mito. Assim aprendi também na velha Faculdade de Direito do Recife, quando os cientistas da Lei ensinavam que a sociedade dos homens, regida pelo Direito, fundamenta a frase de Aristóteles que ensina não ser o homem o único animal gregário, mas o único político. Só o respeito ao dogma, ao divino o salvará. O resto é a luta pelo poder e pelo dinheiro, que está na ordem do dia do PT. Dá para conferir nos autos da apuração judicial de crimes contra a administração pública, nominados em textos que a partir do Código Penal completa copiosa legislação especial de muitos titulos."


  • 15/02/2016

    Exílio nunca mais


    Vi e constatei na Europa, na Anatólia (gostaram?), no Oriente Próximo, nas Américas, em grandes e pequenas cidades, expressões e relicários culturais consagrados universalmente, preservados, utilizados pelo povo. Por esta razão elogio Luciano Cartaxo, em boa hora eleito prefeito da nossa capital, deixando de lado o individualismo meritocrático e fingido de alguns antecessores, e voltando a sua gestão para a ética comunitária, coletivista que deve orientar as relações entre governantes e governados.
    Teremos a restauração de imóveis desocupados para moradia e atividades comerciais, serviços públicos na área central da capital. 
    Exilio nunca mais. Cansa a obrigação do deslocamento para longas distâncias todos os dias. Porque os “famosos” conjuntos habitacionais, constituem hoje verdadeiro degredo para os que são “premiados” com a sorte da “casa própria” passando a viver nas fronteiras da Paraiba. Avistando Goiana em Pernambuco e Mamanguape perto d o Rio Grande do Norte. Dá até para fazer a feira por lá. Com efeito, caros leitores, falo como o povão: “É de clamar aos ceus! É um castigo morar no fim do mundo!”
    No centro da capital e nos bairros antigos, existe disponibilidade de todos os serviços públicos de infraestrutura: calçamento, asfalto, praças, rede elétrica, abastecimento d‘água, esgotos, meio fio, telefone, bancos, repartições públicas, lanchonetes, linhas regulares de transporte público e mais e mais equipamentos. Jaguaribe, Roger, Tambiá, Torre, Expedicionários e tantos mais se oferecem. 
    Deixar tudo de lado, em ruinas para a construção de “conjuntos residenciais” no fim do mundo, é brincar com a realidade. Os proprietários atuais e os novos adquirentes, reunidos restaurarão os imóveis, fixando-se a população em moradias condignas. Este é o projeto de Luciano, somando recursos públicos federais, estaduais e municipais que existem, para a sua execução. 
    Contra o exílio, o degredo e o banimento dos cidadãos trabalhadores. Luciano eleva a sua voz, apresenta o seu projeto. Chamo atenção dos leitores, que os edifícios de arquitetura de época no centro das capitais da Europa, são habitados e ocupados, preservadas as linhas arquitetônicas originais, adaptados internamente para o fim a que se destinarem: moradias, escritórios, etc.
    Edificios públicos e de iniciativa e construção de organizações e seitas, moradias, com a nota da individualidade ou associativismo, do coletivismo este o seu campo para restauração e preservação. Lá estão as linhas do desenvolvimento e do comportamento, da civilização que as insere na cultura local. O civismo, enfim. Notam a marca do tempo, das eras, também ambientais e geológicas.
    Nesta ordem de ideias, tenho argumentado nos meus escritos, já lá vão sessenta anos. E divulgado em livros, na imprensa escrita e falada na nossa Paraíba (Revista Letras do Sertão, de Sousa e mais jornais e revistas da capital e de Campina Grande). Ultimamente, com o advento da internet diariamente divulgo no Facebook e através de blogs Prosa Caótica o que penso e escrevo.
    Ao longo de minha vida que já passa dos quase fatais oitenta, continuo fiel aos princípios intelectuais no campo da cultura, que me tornaram o que chamam um aficionado, talvez um legionário daqueles que outro credo não professa, ou convicção não assiste o seu convencimento, que a dedicação intimorata a serviço de uma causa. Especialmente a da preservação da memória cultural, no campo das artes e das letras, da arquitetura que nos seus traços e linhas indicam raças, datas, religiões, o individualismo ou o coletivismo na concepção que os criou. E já os tenho registrado na participação de reuniões, conclaves, na militância na imprensa e mais meios de comunicação, num coletivo acorde nacional. Expressões culturais de caráter nacional e preservacionista, erigindo em padrões e símbolos a construção da memória ideológica do país.


  • 25/01/2016

    Explicação matuta e neoliberal o Brasil


     Aqui onde moro, os fatos da sociedade e o seu desenvolvimento, a sua história principalmente, têm origem nas lendas e se inscrevem nas regras da conveniência pessoal. Em casa, na feira e na igreja, todos cumprem ou contrariam deveres reconhecidos. Alguns leram autores populares ou eruditos, outros conhecem divindades do candomblé, tribais, apocalípticas. A mente povoada de narrativas estranhas que escutamos, assim vivemos. Quase sem memória e o olhar no futuro. Porque a esperança, falam, é a última que morre.
    O Estado para os marxistas originou-se na luta de classes, é produto da história. Para os religiosos é de inspiração divina. Já para os agnósticos, acontece simplesmente, e argumentam que, assim como não é possível provar racionalmente a existência de deuses e do sobrenatural, é igualmente impossível provar a sua inexistência. Nessa ordem de raciocínio entra o Estado. Ambiguidades. Coisas da filosofia, em que não pude me aprofundar. 
    Atentos a tais explicações, seguimos regras de inspiração almiscarada, nascidas em oportunidades várias e contraditórias, que nem sempre nos agradam. Não importa, se esta é a sociedade que temos e dela é impossível sair incólume. Como naquela música de protesto: “gado a gente ferra.,.” com o carimbo do neoliberalismo, digo eu. Assim manda a Banca Internacional.
    A minha formação universitária, fundada na religião, e na mulifacetada sociologia que esbagaçou a ciência da história, implica na busca das razões, disso e daquilo. Imperativo e coerção impõem adaptação, o que não é difícil para os agnósticos. Eu, porventura, um deles? 
    Impasses governam a nossa vida. Acontece que a midia, integrante do complexo global do Mercado, explora as instituições em detrimento da existência do Estado. E se arroga naturalmente autoridade maior, mercê da ideologia do grupo.
    Dhumenil e outro francês ou belga (Le Monde Diplomatique 2009), reescrevem o marxismo, anunciando uma luta a três não mais a dois, determinante das mudanças sociais. Ao lado do trabalhador e do empresário no processo histórico, existe outra personagem, a dos competentes e dirigentes, que pendem ora para a esquerda ora para a direita que não de-sapareceram, como reconhece Norberto Bobbio em análise específica. Para comprovar a enumeração e as tendências, aí es-tão a ONU e outras organizações dos Estados democráticos ou monarquistas, tribais, igualmente os conhecidos tratados sobre a economia, o armamento, a guerra e a paz.
    Sabemos no Brasil a crise que atravessamos e intimamente criamos ao nosso gosto, soluções para o embaraço, às vezes nos desesperamos. A realidade, apesar de indesejável e dramática demais, contida no subtítulo deste comentário, não deixa dúvidas, tem muita força.
    Refiro um pensador qualificado, infelizmente desmastreado como participante de uma elite que dirigiu o país e falhou. Falo de Tasso Genro. Eu argumentava, na evidência da crise política nascida com FHC e Lula, que o governo estava assustado. Sobravam empregos: do escalão técnico superior ao nível modesto do ajudante. Como podia? Atraso tecnológico, econômico? Carência de informações? Protesto silencioso? sobediência civil? Hoje a nação está arrasada. O número de desempregados é crescente.
    O citado gaucho, comunista, um dos fundadores do PT, na sua inspiração e conclusões face o desfecho da crise, es-clareceu: “Nós avançamos um pouco”. Falava do nascimento dos novos “sujeitos sociais”, contudo, advertia: “São pessoas que jamais aceitarão ficar à margem de um processo de demanda”. Aí está o problema, que o partido no governo não soube evitar.
    Esta onda de protestos por tudo e por nada, assume um caráter de sovietização, na fragmentação incontrolável, da discussão dos chamados direitos sociais. A possibilidade de criação e surgimento de querelas por “dá cá aquela palha”, na linguagem do velho Machado de Assis, resulta inalcançável a sua compreensão. É a realidade do país nos parâmetros petistas, que este grupo não soube discernir, compreender e consagrar como efetivos e objetivos. Não falo em negá-los. Mas lembro que eles quebraram a Petrobras, que valia mais de 400 e hoje não chega a 80 bilhões de dólares. Crime lesa-pátria. 
    Assim batemos de frente num “paredão” como afirma Giannetti. Não o dos fuzilamentos de Cuba, mas o de regalias e privilégios, que excluem os cidadãos, que se mostravam inexpugnáveis. E o Governo e o Mercado, para controlar a situação recorrerão à força, ao suborno, ao engodo. Não recuarão. O povão também, expondo perigosamente direitos adquiridos, a sua vida. Já está acontecendo.
    Poucos lembram o Brasil de trinta anos atrás. Industrialização, tecnologia, infraestrutura praticamente inexistiam. Direitos sociais nem falar. Hoje noções modernas desses direitos chegaram até nós. Leitura antiga na famosa revista Veja mostrava que na Inglaterra, era melhor estar desempregado do que ocupar emprego. Tantas eram as “cotas”, “bolsas”, “inclusões”, “profissões”, “atividades”, “auxilio prisional”, “direitos”, “relações”, etc, oferecidas ao cidadão, reconhecidas e protegidas pelo Estado, que viu de perto o colapso de sua vida constitucional. Copiamos o modelo?
    Em circunstâncias semelhantes chegamos à situação anunciada por Tasso Genro: ninguem aceitará, jamais, ficar à margem de qualquer processo de demanda. Devo repetir.
    Sabemos como é o Brasil de hoje: pobre viaja de avião, frequenta shopings, tem direito a SAMU, Hospital. E queima pneus, incendeia ônibus, arrebenta vidraças, interrompe o trânsito de veículos nas ruas e nas estradas. Um direito sem dúvida. Evitar dano ao parimônio público e privado constitui infração criminal. Aos que reclamam, cabe defender o que entendem ser também direitos seus. O governo não está nem aí. Chegaremos à farra da democracia, se é que já não estamos em plena festança.
    O academismo petista está levando a pobreza e a nobreza ao desespero. Os factoides erigidos em direitos e projetos populares, as instituições de fachada criadas para administrá-los com pagamento de ricas gratificações salariais, a corrupção institucionalizada inviabilizam o funcionamento da administração, empobrecem financeiramente o país. As suas potencialidades também. Mas aos ricos pouco importa, guardam lá fora o seu dinheiro. E já podem trazê-lo sem obrigações fiscais. Pobres também, mas cadê a grana?
    Leiam a pequena anedota abaixo, sobre caridade, solidariedade e direitos, que ilustra os comentários acima. 
    Certa madame financeiramente abonada, para auxiliá-la na faxina de sua casa, procurou uma parenta jovem, tida como pobre. Praticava um ato de caridade, como pensava. Disse que pagaria bem. A moça respondeu simplesmente que não podia aceitar a oferta. Tinha compromisso em vista. Nascera uma berruga no joelho de uma prima do seu namorado, e certmente ela iria baixar hospital. Teria de acompanhá-la. 
    Outro mundo, Outra vida.


  • 12/01/2016

    Os intelectuais e a sociedade


    Confesso que me preocupa bastante, o sentido que algumas pessoas ou a sociedade, enfim, criam ou atribuem a determinadas palavras, que se transformam em valores conceituais, de reconhecimento e respeito obrigatórios pelo Estado, pelo cidadão. Chamo a atenção para o tema da menoridade do indivíduo no nosso sistema penal. De leve, como se diz modernamente.
    Mas começo tratando de “Inclusão”, “cotas” e mais vocábulos do tipo, denotando proteção, expressões que o descarado academismo petista no poder, tem espalhado em factoides e ajuizado na doutrina jurídica e constitucional. Dando-as ver e conhecer, como padrão de verdades legais - naturalmente coercitivas e sociologicamente fundamentais e/ou complementares, explicativas do bem estar social -. exploram, o naturalmente acendrado espírito da maternidade e da paternidade, comum a todos.
    Na convivência, estamos habituados - desde a gíria à filosofia – a mitos que enriquecem os diálogos, na leitura de textos em Nelson Rodrigues e Schopenhauer, entre outros. Anoto ainda simploriamente, galera, cruzada, oráculo, super-homem, só o inimigo não trai e modismos estupefacientes do dia a dia, fundados na falsa compreensão de tais palavras, como formadoras de uma nova linguagem, pretensamente trazida pela modernização da sociedade. Ganhos, sempre ganhos está na mente dos indivíduos. E como sempre a manipulação corrompe.
    Sabemos que a popularização nacional dos conceitos, é patrocinada pela elite política dominante, que deles tira proveito, controla as universidades e também o procedimento de governantes e oposicionistas, para conquista e manutenção do poder. O objetivo é a consagração da prática sem mudança ideológica, no revezamento.
    O negro Thomas Sowell - vale esclarecer que é professor de economia da UCLA, mestre da Stanford, Amhrest e outras instituições universitárias, norte-americanas -, com livros publicados e presença marcante na mídia internacional, trata desta preocupação, assoberbante no mundo moderno, no seu recente “Os Intelectuais e a Sociedade” ( 510 págs, Realizações Editora, tradução, São Paulo, dezembro 2011). 
    Scholar de prestigio e erudição reconhecidos, ele aprofunda a discussão, sobre os mais variados aspectos que o tema assume, e induzem raciocínios e conceituações de natureza histórica e intelectual, meramente coadjuvantes do processo de dominação pela separação. Em suma a manipulação.
    Ele assevera que o culto do respeito à intelectualidade é um fenômeno universal, pesando muito na atualidade. Versando sobre política, religião, filosofia, ciências, cria conceitos e definições, empolga a retórica do país. Exemplificando com a nossa amada Paraiba, nas letras dos seus filhos, quando dizemos este trecho tirei-o de Gonzaga Rodrigues, de Zé Américo, de José Octávio, está referendada a validade das palavras na sua significação mais incidental jornalística, literária, historiográfica.
    Eles falam de ciência própria, respaldados, porém, nos titulares do conhecimento sobre o que opinam. Não são pesquisadores, nada descobriram. Compõem a “espessa penumbra” de jornalistas, professores, burocratas, que a função pública chancela pelo salário, lhes destaca as teses, nem sempre as mais compatíveis com o interesse público, ”tomando proporções consideráveis ou mesmo cruciais”. Eis o risco.
    É interessante, e mesmo indispensável conhecer o aprofundamento da exposição e discussão que o autor “na penumbra”, oferece, tirando a interpretação e conceitos dos notáveis e respeitáveis que ele chama “intelectuais ungidos” e também dos “intelectos insensatos” aludidos por Thomas Carlyle, a propósito de “Harriet Taylor amiga e posteriormente esposa de John Stuart Mill”.
    Palmilho o meu chão, navego o meu mar, certo que o sentido da história é a conquista da razão, que “explode sistemas fechados” (Hegel), quando incoerente e sem lógica dialética, eu diria porque suporta o movimento. E a história é movimento, não o fato, somente, não se esgota na data, no personagem, estes meramente referenciais.
    Uma casta de intelectuais oportunistas, reconhece a existência do chamado “direito social”, e a partir daí, passa a fragmentá-lo em seções, fenômenos que não explicam a sua origem filosófica, factual. A compreensão do conceito encontra-se no seu resultado. Uma questão, portanto, de avaliação e de comprovação.
    Nesta ordem de ideias vejamos o caso do menor de 18 anos, isento de responsabilidade na prática de atos delituosos consagrado no nosso sistema jurídico-criminal. A especiosa doutrina e legislação petista o exclue de qualificações e cominações, lhe oferece tratamento especial, meramente protecionista. Flagrado em delito a sua identidade deve ser rigorosamente preservada: seu nome não pode ser revelado, sua imagem conhecida, tampouco, declarado preso, porém arrestado, nunca recolhido à prisão, mas a internamento em clínica de tratamento para recuperação psicológica.
    Aí está, acima, descrito o procedimento atinente. A despeito de tais regalias, eles estão nas ruas, criminalmente imunes à penalidades, mandados pela Justiça no cumprimento da Lei. Até chegada a maioridade, a despeito da excelência do ambiente, promovem e participam de rebeliões, fazem reféns, provocam danos ao patrimônio público na destruição, no incêndio das instalações, durante o internamento. E retornam rotineiramente, novamente arrestados.
    Estamos diante de um resultado social, francamente incompativel com o da sociedade dos indivíduos fundada no seu bem estar, e da aplicação da lei, queiramos ou não. E tal discrepância e paradoxo não podem suportar uma teoria dos direitos humanos. De leve.


  • 26/12/2015

    Os rumos da minha vida


    Os rumos de minha vida, a minha determinação, em nada imitam a do Jacinto, de Eça, mas, um pouco se assemelha, nas suas constatações e resultado. Do Príncipe da Grã Ventura personagem de "A Cidade e as Serras", herdeiro da quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, de um apartamento no 202 dos Campos Elísios, cultivei, em princípio, a sua equação metafísica “suma ciência x suma potência = suma felicidade”. A melancolia, e algumas vezes o tédio citadino me levaram a tais conclusões. 

    Vale a pena resumir acontecimentos, reflexões e dores que nos assaltaram. Argumentava o delicioso personagem: “que criação augusta a da cidade... só o fonógrafo me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante que me separa do bicho... agora era por intervenção de uma máquina que abotoava as ceroulas. [...] A mesmice – eis o horror das cidades!.. na natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido... é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento.” Voltar para quinta agora mostrava-se solução para fugir ao desgosto e à depressão urbana, citadina.
    A imperiosa realidade do instinto, todavia, dita necessidades:
    “Mas, caramba, faltam mulheres!... Com efeito era grande e forte a Joaninha...” e sumamente indicativos, Eça transcreve dois versos de uma balada cavalheiresca:
    Manda-lhe um servo querido,
    Bem hajas dona formosa!
    E que lhe entregue um anel
    E com um anel uma rosa...
    O meu Príncipe já não é o último Jacinto porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Terezinha... e um Jacintinho.”
    4
    Natal e Ano Novo longe da família. Ocorrem-me lembranças que sufoquei no fundo da memória. Prefiro esquecê-las, ou silenciar. 
    Num tempo mais recuado, do Natal guardo recordações precisas, uma mistura de comemorações burguesas no seio da família, e o perambular triste e solitário em ruas apinhadas de gente. Tempo da infância na casa dos meus pais, e nas ruas do Recife, na juventude, estudante de parcos recursos financeiros, morando em quarto de pensão.
    O nascimento do Salvador, a significação de Sua vinda ao mundo não me despertaram jamais reflexões profundas. Muito cedo inculcaram-me a existência de um Papai Noel, a quem eu deveria prestar contas do meu comportamento de menino e a quem me dirigir para receber recompensas. O mais era traduzido em farta comida, pratos raros, canções estrangeiras, frenesi comercial e anedotas. Assim o Ano Novo, sem nada que me induzisse a um inventário de ações.
    Sozinho, a cidade distante, hoje recorro à leitura para encher o tempo.
    5
    Na véspera de Ano Novo tive companhia para o jantar. A empregada estava com a fisionomia carregada. Ela é uma velha amiga da minha família, e lamenta sempre que pode o meu isolamento, o afastamento do lar. Conheceu-nos em dias de grande prestígio social, estimados e festejados. Escolhendo as palavras, temerosa de minha reação, exproba comovida, a decisão que me jogou nestes ermos.
    Moradores da fazenda saborearam comigo a suculenta sopa. Alegres com a carne farta que não consta de suas refeições, criavam ditos. Como são estreitos os horizontes dessas pobres criaturas! Sem dinheiro no bolso, não puderam comparecer à festa anual na cidade.
    Descobri que em dias e ocasiões especiais, eles chegam para colher sentenças, informações, que ouvem curiosos. Têm-me na conta de pessoa de grande conhecimento dos fatos do mundo, que troco em miúdos para eles. É de minha experiência fora do mundo onde moram, que esperam explicações para as suas dúvidas.

     


  • 09/12/2015

    O governo corrupto do PT


    Ressalto a expansão e modernização das universidades no período do governo militar. Quer nas áreas chamadas "humanas" ou "exatas", grandes profissionais e cientistas ali formados, eram convocados por outros países (EUA, Japão, França, Inglaterra e outros das Américas, Europa e Asia) para o trabalho nos centros universitários e empresariais.O estímulo ao patriotismo - todo patriota é um cidadão decente, ético - era valorizado nos conceitos da dignidade do cidadão e do amor à sua pátria, da ética no estudo da OSPB. O ensino de OSPB foi proposto por Anísio Teixeira, durante o governo de João Goulart, na Indicação Nº 1 do Conselho Federal de Educação, de 24 de abril de 1962. Conforme o conselheiro Newton Sucupira, o seu estudo deveria servir para apresentar aos jovens estudantes as instituições da sociedade brasileira e a organização do Estado, a Constituição, os processos democráticos, os direitos políticos e deveres do cidadão. Seus modelos eram a "Instrução Cívica" francesa e a "American Government" americana. Após o golpe militar de 1964, as sucessivas reformas da educação, com a obrigatoriedade curricular e reformulação da disciplina Educação Moral e Cívica (EMC) chegou a extinguir as disciplinas de Sociologia e Filosofia, reunindo parte do seu conteúdo sob a OSPB. As duas matérias foram tornadas obrigatórias pelo Decreto-Lei 869, de 1969, e extintas pela Lei 8.363, de 1993. (Google, Wikipedia). Lamentavelmente, o quadro brasileiro no tocante ao exercício profissional e acadêmico tem-se deteriorado. O petismo arrota pseudo-ciências. Eles não passam de "analfabetos funcionais" na área acadêmica. Aí estão os 39 ministérios sem tarefas confiáveis, mas com 80 mil funções gratificadas para sustentar os aloprados do governo. Hoje titulares acadêmicos de empregos no serviço público e privado são estrangeiros, porque os nacionais mostram-se incapacitados para exercer as funções.. Impossível negar e esconder. A esperteza de indivíduos oportunistas tem multiplicado o funcionamento de escolas de nivel superior na área privada em todo o país, formando historiadores que não distinguem historia de historiografia. enfermeiros que são sabem utilizar equipamentos mais simples como aferir pressão arterial, administrar nosocômios, advogados reprovados no exame da OAB, engenheiros em todos os ramos que necessitam dos práticos, sem título (mestre de obras, etc) para tocar um empreendimento na construção na gerência de qualquer serviço. Aí estão os "formados" que não distinguem entre religião e crendice, costume, direito e dever, medicamento e mezinha. O PT institucionalou a corrupção nos costumes e na admnistração, tornou-se modelo de enganação, de "propaganda enganosa" na veiculação dos seus princípios politicos contrários à verdadeira ciência politica ensinada por Rui Barbosa que tanto honrou a nossa pátria.


  • 29/11/2015

    Virginius da Gama e Melo – notícias bio-bibliografica


     Descendendo pelos lados paterno e materno de ilustres famílias paraibanas, destacadas pela militância política, tendo em ambos os ramos familiares representantes na Câmara dos Deputados e no Senado, e governado o Estado com Gama e Melo e Argemiro Figueiredo, nasceu Virgínius Figueiredo da Gama e Melo da Gama e Melo no dia 19 de outubro de 1922, na rua General Osório, antiga Rua Nova, na casa número 71, em João Pessoa. Essa marca familiar estaria sempre presente na vida do bacharel Virgínius da Gama e Melo que a literatura roubou à política. Ele, o tribuno, o articulador, o conselheiro. O jornalismo político era uma de suas paixões. Mesmo sem assinar coluna especializada no assunto, na sua crônica diária do jornal “O Norte” encontrava sempre uma deixa para falar de política e de políticos,
    Perdendo a mãe, Severina Figueiredo da Gama e Melo, aos três anos de idade, passou o menino, em companhia do pai Pedro Celso da Gama e Melo, a morar na casa da avó paterna, na mesma rua General Osório. Dez anos mais tarde, contando Virgínius apenas treze anos, faleceu o seu pai.
    Com a tia Ana (Nininha para os íntimos) professora do Grupo Escolar Pedro II, fez o curso primário, distinguindo-se no exame final, presenciado pelo fiscal estadual do ensino. Decorre daí, um fato curioso e marcante na vida do futuro romancista, que, para conseguir matrícula no curso secundário, teve que alterar a data do seu nascimento, aumentando um ano a sua idade, segundo depoimentos de parentes.
    Nesta primeira quadra de sua vida, Virginius revelava-se uma criança de hábitos caseiros com extraordinária dedicação à leitura, sem demonstrar, todavia, através de textos de sua lavra, o futuro escritor que viria a ser, e o homem de vida pública intensa, isto é, vivendo na rua, nas redações dos jornais, nos bares, na Universidade. A criação na casa da avó paterna, sob os cuidados das tias ciumentas, fê-lo prisioneiro do desvelo e ascendência de familiares, inclusive dos tios e avô pelo lado materno que vindos de Campina Grande a negócios na capital sempre o visitavam. Da vidfa no vetusto sobrado dos Gama e Melo e dos cuidados do coronel Salvino Figueiredo, saiu Virginius concluído o curso ginasial no Colégio Pio X, em João Pessoa, para cursar o famoso Colégio Pernambucano e ingressar na velha Faculdade de Direito do Recife.
    Os estudos de Virgínus eram custeados pelas tias que o criaram e pelo tio do lado materno Bento Figueiredo, conhecido por Belinho, ex-prefeito de Campina Grande. Data dessa época o encontro de Virgínius com a vida boêmia do Recife. “Oh que tristeza quando soubemos que Virgínius estava frequentando cafés!”. A exclamação é de Lia, cuidadosa tia, revelando a preocupação da família com carta de Belinho Figueiredo, inteirando-a do fato.
    As férias eram divididas entre as casas das tias em João Pessoa e a casa do avô em Campina Grande, na fazenda. Na capital discutia política e literatura nas rodas mais frequentadas do Ponto Cem Reis, e inciava-se na boemia com Mário Santa Cruz, Geraldo Porto e outros amigos de geração. Em Campina Grande demorava-se da fazenda Campo do Boi, onde já estivera em tratamento de recuperação de uma pleurisia, apanhada aos quinze anos. O mal do pulmão que o mataria.
    Virginius foi um estudante como os demais, no tocante à vida e o aproveitamento escolar. Destacava-se, entretanto, pela acuidade do seu pensamento humanístico, de suas posições políticas. Sílvio Porto entre os paraibanos, Demócrito de Sousa Filho e os poetas Deolindo Tavares e Carlos Pena Filho, entre os pernambucanos, foram amizades que marcaram a sua passagem no Recife. Então já colaborava com regularidade na imprensa da capital pernambucana, com artigos de crítica literária e páginas de ficção.
    Concluído o curso de direito em 1946, regressou Virgínius ao Estado natal, fixando-se em Campina Grande com banca de advogado, a convite do tio Argemiro de Figueiredo, ex-interventor do Estado. Entre a advocacia, a literatura e a política dividia as suas atividades. Tornou-se famoso como inflamado orador de comícios na campanha eleitoral de 1950, na qual o seu tio Argemiro, candidato a governador, foi derrotado por José Américo de Almeida, apoiado por forte coligação de partidos. 
    Antevendo o longo período de ostracismo a que estaria condenada a família, Virgínius retornou ao Recife, morando com o tio-afim deputado Veneziano Vital do Rego.
    Conheci-o em 1953 no Recife, ele o poeta Edson Régis de Carvalho (fundador do Correio das Artes, de A União), funcionários do IPASE, servindo na Procuradoria Jurídica no cargo de Redatores. Vivia Virgínius intensa fase de sua vida boemia e literária. Colaborava regularmente no Suplemento Literário do Jornal do Comercio, e, no Diário da Noite, assinava movimentada coluna diária com o título “Política É Isso Mesmo”, cobrindo especialmente os trabalhos da Assembleia Legislativa do Estado.
    Fugindo das rodas da “cultura oficial”, Virginius tornou-se mesmo assim, o mais conhecido e o mais respeitado crítico literário na primeira metade dos anos Cinquenta no Recife. No bar “A Portuguesa” que ele frequentava, na rua Diário de Pernambuco, partilhava a sua mesa com carregadores de fretes farejando a cachacinha, políticos a procura de notícias e literatos em busca de notoriedade. 
    Os excessos da vida boemia levaram-no a novo internamento, para tratamento de tuberculose pulmonar por recomendação do médico paraibano Laurênio Lima, que o tratou no consultório por algum tempo. No hospital do “Sancho” advieram-lhe complicações da administração de medicamentos, com sintomas de perturbação mental e tentativas de fuga. Trazido pela família de volta à Paraíba, conseguiu recuperar a saúde no Hospital Clementino Fraga.
    Do longo período de disponibilidade no hospital, trouxe Virginius o acúmulo de meditações, de leituras e releitura de obras fundamentais para consolidação de sua cultura humanística, e uma visão profunda dos problemas da literatura e da estética.
    O seu retorno à vida na casa das tias em João Pessoa, a volta às colunas dos jornais, o ingresso na Universidade como professor de Teoria da Literatura, cadeira da qual foi o fundador, e ainda de Literatura Hispano-Americana e de Literatura Portuguesa, causaram um impacto muito grande no nosso movimento cultural, do qual ele assumiu a liderança.
    Virginius dedicou a vinda inteira à literatura e à arte. E o fez na opção do afastamento dos grandes centros, na sua cidade natal, como acentuou Ipojuca Pontes. Apesar do despeito e do descontentamento de algumas mediocridades destronadas, a todos estendia a mão para ajudar, a todos oferecia orientação para o trabalho na seara das artes. A Virginius se ajustaria bem este retrato de Ezra Pound traçado por Hemingway, na fase parisiense da famosa “generation perdue”: “Foi o mais generoso e desinteressado dos escritores que já conheci. Vivia ajudando a poetas, pintores , escultores e novelistas em cujo valor acreditasse, mas ajudaria igualmente aquele cuja obra nada lhe inspirasse, desde que estivesse em dificuldade.”
    No seu gabinete de trabalho, nas mesas dos bares, onde quer que se o encontrasse Virginius estava cercado de amigos, de admiradores, na discussão de problemas gerais, e da arte em particular. Eram estudantes, jornalistas, escritores, artistas, políticos. Lembro-me como ele gostava de analisar os fatos políticos, o comportamento dos homens e dos partidos, a evolução do pensamento político como tese e ação de governo. Essa temática haveria de marcar a sua literatura.
    Virginius não se contaminara de um mal que ataca certa categoria de intelectuais, levando-os a fazer pouco caso da política. É célebre a irritação do personagem de Huxley o cientista Lord Edward que produzia em laboratório “girinos assimétricos” ao gritar para um interlocutor perplexo: “Mas eu não entendo de política!” Tal prevenção conduz ao desencontro entre as elites intelectuais e as elites políticas, ignorando aquelas no seu isolamento, que em todo e qualquer sistema político o fator eleitoral é indispensável para a conscientização das massas, e para o exercício e aprimoramento da democracia. “Não adianta você não se preocupar com política, mesmo assim a política se ocupa com você.” Eis uma regra indiscutível, cuja autoria é disputada por Napoleão e o conde Montalembert.
    A noção da realidade ética da política como expressão do homem social, ditava em Virginius o seu apreço pelos políticos e a escolha dos temas para os seus romances, o seu pensamento literário. Era a compreensão do exercício da política no contexto histórico-cultural, que o levava a verberar na sua revolta, o desvirtuamento das estruturas pelos aventureiros, pelos demagogos, pelos impostores, o que fez sem piedade nos seus romances.
    Quando concluímos abalados, a leitura de “Tempo de Vingança” e “A Vítima Geral”, e nos perguntamos sobre o tema, os acontecimentos e suas circunstâncias, situamos essas narrativas no domínio do histórico e do real, recriados, transfigurados com uma força imensa.
    A literatura histórica, amplamente exercida na Paraíba a par de uma historiografia inaugurada por José Octávio de Arruda Melo, inspirada em José Honorio Rodrigues e outros ensaistas modernos, indicarão claramente os choques entre perrepistas e liberais, e o episódio do assassinato do poeta e vereador Félix Araujo, a identificação de pessoas, o envolvimento de familias, a descrição de lugares onde se desenrolaram os fatos das narrativas virginianas.
    Virginius realiza nos seus romances uma exploração do passado político da Paraiba, ele contemporâneo dos fatos, testemunha e/ou participante, pelo envolvimento de pessoas que lhes eram caras, pelos laços de família. É um esforço doloroso e cruel, quase uma autoflagelação que pratica na construção dos seus romances, sem uma palavra de simpatia pela ação e pelos atos dos líderes na condução da massa ignorante, sem que constitua objetivo da ação política desenvolvida a eliminação da pobreza, da miséria. A única reflexão que ele permite nos dois romances a um personagem intelectualizado, é a de Carlos Agra, em “A Vítima Geral” um spengleriano na classificação do próprio autor, que denuncia uma decadência física e moral dos homens da região “padecendo de fome crônica e subnutridos. E ainda mais esses políticos irresponsáveis numa agitação que só tem finalidade pessoal.”
    O mais é a narrativa crua dos acontecimentos, a descrição fiel de personalidades deformadas, para as quais, a conquista do poder representa a sociedade com o erário, o enriquecimento pessoal. Virginius parece que deseja a condenação póstuma dos oportunistas e dos impostores, e execração dos remanescentes daquele mundo viciado ao recriar as fases de crise e transformação da vida política paraibana. São romances em que a trama se desenvolve sem a influência do autor, pelo caráter estereotipado dos personagens, pelo sentido histórico dos fatos.
    Pode-se em literatura, falar-se em honestidade do criador , isenção e independência do artista? Em caso afirmativo, acredito que Virginius conseguiu pela firmeza do seu caráter e sua formação intelectual apurada, exprimir um pensamento, onde a representação artística consegue superar o dilema de Irving Howe. Duvida da possibilidade de alguém escrever um romance político, que seja realmente um romance, isto é, mais imaginativo que um documento e menos subjetivo que um panfleto.
    Foi esse o Virginius que eu conheci e me habituei a admirar, capaz de condenar o exercício de todas as tiranias, quando defendia os artistas e os pensadores russos “dissidentes” ao mesmo tempo que tinha a coragem de afirmar, diante dos fatos, que os norte-americanos não eram mais os campeões da democracia e da liberdade.
    A extraordinária capacidade de trabalho de Virginius da Gama e Melo, abrange realizações nos mais variados campos e movimentos da arte. Entre eles o cinema, onde foi consultor literário (Menino de Engenho), roteirista (Paraiba pra seu Governo e Poética Popular), pesquisador (Incelença para um Trem de Ferro) e diretor (Contraponto sem Música). Mas a sua grande paixão era a literatura.
    Na sua atividade como jornalísta e escritor deixou Virginius as breves crônicas e artigos das secções “Eu e Você”, “Literatura e Vida” e “ Ponto de Vista”, assinados nas páginas do “Correio da Paraiba”, “A União” e o”Norte”, e numerosos ensaios sobre a literatura publicados na imprensa de Pernambuco e do Sul do país.
    Gozando de inegável prestigio na vida literária brasileira, recebeu Virginius muitos prêmios pelo seu trabalho, valendo assinalar os da UFPB e o de Carlos de Laet, da Academia Brasileira de Letras, com o ensaio “O AlexandrIno Olavo Bilac”; o do Serviço Nacional de Teatro para a sua peça “A Modelação”; o Paulo Setubal do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo com o ensaio “Campo Épico e Lírico do Cavaleiro de Tatui"; e o José Lins do Rego do Instituto Nacional do Livro, com o romance “Tempo de Vingança”, publicado pela editora Civilização Brasileira. O segundo romance A Vítima Geral, publicado pela editora José Olimpio, após a sua morte, foi recebido com entusiasmo e elogios pela critica nacional, e conquistou o Prêmio de Ficção da Academia Paulista de Letras e da Fundação de Cultura do Distrito Federal.
    Faleceu Virginius aos 52 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar, conforme atestou seu amigo e medico José Clementino, que o acompanhou nos últimos momentos de vida. Era o primeiro de agosto de 1975. Com anotícia a Paraíba viveu momentos de profunda comoção. As homenagens prestadas pelos amigos, pelo povo e pelo governo do Estado, no seu sepultamento e repetindo-se a cada dia, demonstram o carinho e o reconhecimento dos paraibanos à sua memória. (Prosa Caótica - Editora A União - 1985).


  • 23/11/2015

    Mar de histórias, rosários de crenças


    O que reanima o meu espírito, neste fim de vida − sentado numa cadeira vendo filmes históricos, “clássicos” dramas e comédias, documentários de bom nível cultural, noticiário pela televisão, folheando livros novos e alguns já lidos −, está na alegria de reencontrar o passado vivido. Desfruto, na verdade, aposentadoria e alguns bens. Sobra-me tempo, mesmo na imprecisão da disponibilidade final dos dias que me restam.
    Como sabem, moro na zona rural do sertão da nossa Paraíba − bastante citadina com energia elétrica, todos os eletrodomésticos que vendem nas lojas. Para mim terra boa, o ambiente de minha natividade. Aqui tudo vejo e tudo sei ou pressinto; o mais induz ao conhecimento cabal do fato ou da experiência.
    A minha vida familiar transcorreu desde a infância no meio urbano pequeno e isolado, distante das grandes cidades, dos centros metropolitanos. O campo entrava nos nossos costumes porque dele dependia a vida da população, quanto a alimentos e material para construção e fabrico de prédios e bens móveis. Para alimentação legumes, carnes, gorduras, frutas silvestres, as jazidas de barro e de areia, pedreiras, enfim, estavam na vizinhança, a dois passos do comércio, da igreja, das moradias ricas e pobres. Pouco mais do que isto necessitávamos, e vinha de fora. 
    Nessa ordem de ideias, de acontecimentos e de mudanças, frequentei escolas, saí de famosa faculdade bacharel em direito. Conquistei na internet acesso a todo conhecimento que a humanidade acumulou até hoje. Com o dedo no teclado leio e traduzo em todas as línguas. Um exemplo, na nossa ortografia: “Alahu Akbar” em árabe (na moda com o Estado Islâmico): “Deus é grande”, na nossa língua portuguesa. Passei a morar na cidade mas voltei para o sertão. Chego a pensar que sei das coisas.
    Em todas as civilizações é costume a busca de informações sobre o passado, a origem da vida, da sociedade. Todos os povos no planeta curtem essa nostalgia. Está no nosso Casimiro de Abreu, que todos os povos civilizados ou não, têm o seu.
    O costume e o passado que curtimos na literatura, nas artes enfim, na mimese de representações, salvaguardam a vocação para consolidar tradições doces ou amargas. Sinfonias, adágios, poemas, sonetos, telas, estatuária, instalações, epopeias, mesmo relicários vivos, memórias nos enchem e pacificam o espírito.
    O que antes era privilégio dos ricos, dizia-se dos bem nascidos, que tinham acesso à escola e aos livros, hoje exaltam as alegrias e adormecem as dores gerais − de todos, arrisco-me em declarar, com o advento da internet −, bebidas as informações diretamente no circuito eletrônico ou transmitidas por interlocutores.
    Deus seja louvado.


  • 17/11/2015

    Viagem, Academia, leituras, Dante


    Regressei da capital há oito dias, viagem de compromisso na Academia Paraibana de Letras − comparecimento à eleição para uma cadeira disputada por Evandro Nóbrega e Abelardinho Jurema. Faço por mera disponibilidade, este resumo dos acontecidos durante a minha permanência na capital: presença na APL, no MAG SHOPPING, no MANAIRA confraternizando com os amigos de sempre. E comprei livros. Também recebi doações. De livros.
    Votei em Evandro um “profissional” das letras na escrita e na ecdótica; erudição, enfim é a especialidade na sua formação intelectual. Quanto a Abelardinho, de presença literária, cultural no jornalismo, filho de acadêmico falecido, é amizade que vem de longe, do seu pai o notável paraibano que lhe deu o nome: Abelardo Jurema, ex-secretário de educação, deputado federal, senador, ministro da justiça, exilado fugindo da pressão do golpe militar de 64.
    Diretor dos serviços gerais do IPASE (extinto), Abelardo o Velho, eu modesto servidor “verba três”, mantive com ele no Recife, onde eu estudava, eventual e respeitosa convivência recebendo um aumento salarial de mais de 300% que ele propiciou, acredito com vista à próxima eleição na Paraíba. Mas não deu para ganhar o meu voto, na APL, esclareço, sem prejuízo na admiração que lhe dedicava. Nuances, nuances. Uma pena. Abelardinho é Mediterrâneo, Ilhas Gregas, Antilhas, Dubai, a nostalgia do Social Clube, felicidade e negócios: o melhor da vida, porque essa história de museus, monumentos e resquícios é complementarmente desnecessária para o crescimento e o desenvolvimento do planeta terra. Entulhos, dizem.
    Europa já era, está arrasada invadida por miseráveis refugiados da conflagração a que a mídia submete o nosso mundo, rendimento financeiro administrado com processos e teses aplaudidas pelas universidades que distribuem circuitos de pesquisa sem nenhum resultado relevante, cultu-ralmente avaliadas
    Recebi de Evandro, casado com uma sousense – que o jornalismo e a política nos tornara parceiros −, recentemente, uma intimação para tecer considerações sobre um texto que elaborou sobre um verso de Augusto dos Anjos, retirado do “EU”. Remonta a sua especulação sobre civilizações passadas e do presente, nos dois hemisférios da terra, compartilhadas na sua explicação sobre a lira do vate e o personagem Parfeno. 
    Imbricado em “razões e sem-razões” que penetraram também as profundas e éticas reflexões do Cavaleiro da Triste Figura – o ensaio desenha um mundo completo, uma vida inteira. Resume tudo num apotegma que referenda a fé e o ódio, o amor ao salvador do mundo, o Cristo menino, rejeitados pelo fundamentalismo-fanatismo, a retaliação islamita de hoje − uma Cruzada moderna de violência e pilhagem de bens, destruição de monumentos culturais e do assassinato de pessoas. 
    “Alahu Akbar!” Melhor traduzir do Google: Deus é Grande!
    Assim pervagando, desde as estepes geladas russas, o irredento, espinhoso e espinharento Evandro, resgata ardendo em brasas do sertão do Amigo Velho, a glória do poder de Deus na redenção cristã da fé, do amor, da justiça, na poesia do bardo paraibano.
    Terrivelmente desalentadora do humanismo adocicado dos românticos, é a leitura de alguns textos esotéricos de Evandro Dantesco Nobregante. Não brinquem:
    “Lasciati ogni speranza voi che entrate..” (continua)


  • 11/11/2015

    Spengler Marx e o meu compadre Ciço Fulô


    Sem rádio, televisão, sem boas estradas, as notícias dos acontecimentos do mundo levavam dias, semanas, meses para chegar aqui no semiárido do Nordeste, onde moro. Pouco importava, todavia, porque o interesse imediato da coletividade estava voltado para o consumo dos bens essenciais para suprir a existência de cada um, aqui produzidos. Pesava a superestrutura jurídica e ideológica de que fala Marx, que se insinuava, acontecia como decorrência da vivência coletiva do fazer e do ter, enfeitava a cabeça e os pés dos que pagavam e desfrutavam usos, fruto da guerra surda, dissimulada ou declarada, conhecida na violência de entreveros. 

    Assim era a vida, e tudo ficava por conta de premonições e anátemas. A consciência política da realidade que nos é imposta, de modo cruel e impassível, motivou o protesto do patriota Oduvaldo Vianna Filho que em 1974, antes de falecer denunciava e argumentava: “Reduzir uma sociedade de 100 milhões de pessoas a um mercado de 25 milhões, exige um processo cultural muito intenso e muito sofisticado. É preciso embrutecer esta sociedade com uma força que só se consegue com refinamento dos meios de publicidade, com um certo paisagismo urbano que disfarça a favela, que esconde as coisas.” 
    Tal realidade, produzida por descuidados ou cooptados intelecutais então atuantes no cenário cultural, arrancou, mutatis mutandis, o oportuno grito de protesto do filósofo Olavo de Carvalho: “foi preciso que este país decaísse muito para que se pudesse assistir a este triste espetáculo...” 
    Aí se esconde, portanto, a manipulação de idéias e de processos, que absorve acriticamente uma coletividade dominada pela incerteza, mas enfatuada, incapacitada intelectualmente para a reflexão e o protesto. Um cenário tragicômico de faces e fácies. Gritos de terror, risadas escancaradas. 
    Volto para a ideia inicial deste comentário: falar do nordeste brasileiro, dos vales e montanhas verdejantes − outro mundo, quero dizer o outro hemisfério do planeta, inalcançável, lenda para os do lado de cá. Sem fronteiras marítimas ou terrestres, os estrangeiros, para nós, entrevistos num passado remoto, a rigor, não passavam de ficção. Obra de ciganos, que conhecíamos, falavam língua arrevesada, as suas mulheres usavam roupas cerimoniosas, de tecido colorido em motivos florais, figurativos, cobrindo os braços e os pés. Eles previam romanticamente o destino, o futuro dos que pagavam para saber da propriedade e do amor principalmente.
    Na liturgia católica os padres obtemperavam: quanto aos ricos o perdão alcançado em indulgências; em contrapartida elevavam os pobres à gloria do céu. Astrobão, Equiseque, Safora e outros nomes estranhos eram reis e rainhas, larápios e cobradores de impostos, cada um na sua circunstância histórica da submissão, da magnificência e do esplendor. O laço de corda da forca pendia sobre a cabeça de todos. Nada mais azado para frutificar a tese do progresso e da decadência. A vida, porventura, não se sustenta no enfrentamento dos opostos?
    A literatura, como sempre a minha fonte, revelou-me no romance de Virginius da Gama e Melo “A Vítima Geral” num momento da vida paraibana, um personagem spengleriano, cujo comportamento social reproduzia uma “ideia desacreditada... a negação total da ideia de progresso, segundo a qual o progresso integral da humanidade nas suas relações com a evolução global do cosmos resulta de uma necessidade intrínseca do próprio processo histórico que caminha em direção a um fim imanente da história”, que renasce na tese controvertida do ianque-kamikaze Fukuyama, que a reedita. Era e tornou a ser evidente a decadência do ocidente.
    Mas a razão para mim, está com o meu compadre o negro gordo caçador compadre Ciço Fulô, que na dúvida, interrompe e indaga para se certificar do assunto: “Mas adonde nós estava?” Nada mais plausível e coerente. Assim nasceu a tese da decadência do lugar ocidente de Oswald Spengler. Compadre Ciço argumenta a superação da roça, da propriedade − momentos do desenvolvimento social −, no retorno da sociedade ao comunismo primiivo porque a caça não tem dono, é da natureza, é de Deus, é de todos. E é do que ele cuida.

     
     
     
     
     
     
     
     
     


  • 02/11/2015

    Forró de Plástico


     A gigantesca China de hoje, com raízes numa civilização de mais de 2500 anos, fundou o seu modelo no socialismo-marxista que chegou ao poder em 1949, sob a liderança de Mao Tse Tung à frente dos operários e camponeses na Grande Marcha, derrotando as conservadoras dinastias; e vivenciou, historicamente, momentos de convivência com todas as tendências ideológicas presentes na vida da população. “Que desabrochem todas as flores, que prosperem todas as tendências: a síntese dialética que determina o modelo social vencerá no final”. Esta era a palavra de ordem. E chegaram aonde chegaram. Aperfeiçoam-se. É evidente que visões e manifestações distorcidas sobre a realidade objetiva, o momento histórico, fruto das variáveis que caracterizam a conduta dos homens, foram conhecidas e superadas, e até violentamente rejeitadas. Tal o nosso destino, acredito, e acontecerá no nosso país, como revelam passos à frente que a arte e o direito (superestruturas ideológicas) têm dado numa política de massa. Quanto à arte e a política, na sua generalidade, revelam práticas que, lamentavelmente, tentam impor a institucionalização de um modelo nefasto, dirigido, criado pela mídia. A sociedade, todavia, faz sentir a força de sua escolha e decisões. Defender o “forró pé de serra” nada tem de conservador, mas de preservação da memória coletiva, comunitária, reveladas através da música popular. Vivo a atualidade musical, escuto Gonzagão, declamo Inácio da Catingueira e alguns autores paraibanos, sertanejos e caririzeiros. Esta a minha posição. Quanto ao forró de plástico não sei do que se trata. Seria o das bailarinas que dançam com e sem calcinha? Seria o das "letras incrementadas” no estilo: " [...] eu tenho uma filhinha bonitinha, parece uma goiabinha, mas meu vizinho tá querendo comer a bichinha [...] bote dentro que fora não dá [...] vou pruma festa com cachaça, forró e rapariga [...] pode chupar, é mais gostoso do que picolé e você vai gostar e vai gozar..." E mais e mais versos neste padrão. Que escuto e não canto. Coisa da idade? Não sei, porque não desgosto de certas práticas instintivas, animais. Colhi na internet, ressentido comentário do nosso Ariano Suassuna sobre este tema. Permitam-me a citação abaixo – longa mas explicativa, elucidativa da polêmica que envolve intelectuais paraibanos chegando ao cume do poder, envolvendo o Secretário da Cultura e a Primeira Dama do Estado. Eles declararam que seus ouvidos não são pinicos para escutar o que chamam “forró de plástico”. Vejamos a argumentação do mestre da Pedra do Reino. “Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!’. A maioria, as moças, levanta a mão. Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas bandas do gênero). As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade. Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura); Zé Priquito, (Duquinha); Fiel à putaria (Felipão Forró Moral); Chefe do puteiro (Aviões do forró); Mulher roleira (Saia Rodada); Mulher roleira a resposta (Forró Real);Chico Rola (Bonde do Forró),Banho de língua (Solteirões do Forró); Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal); Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada); Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca); Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró); Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró); Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.” – Ariano Suassuna. No caso, fico com Chico César e a Primeira Dama, sem política partidária e de governo: o meu ouvido também não é pinico, bispote de barro, como diria o saudoso coronel José Rufino, senhor de engenho e intelectual no estilo do Comendador José Henrique, de Brejo de Areia, contistas conservadores evoluídos. - Eilzo Matos Semana Santa. Chuva muita no Sertão"


  • 26/10/2015

    Ramalho e Bananeiras; eu e Sousa


     Tinha uma família em Sousa, que atraía e afastava interlocutores: aqueles que gastam horas “jogando conversa fora”. Exageravam nos detalhes e na imbricação, quando falavam nos relatos da vida. Uns adoravam, outros arreliavam. Assim uma chegada, uma partida; um aniversário, um enterro; compra e venda de gado, de animais; o pagamento em dia ou atraso na data aprazada; um casamento, uma formatura. Começavam: “Por falar no assunto [...] só para mostrar a semelhança, certa vez em Cajazeiras [...] o homem tinha fama porque matara um em Piancó [...] a moça mancava de uma perna porque tinha um pé de bola, um desgosto para a família [...] recentemente, anos atrás em São João do Cariri [...] o avô foi prefeito e representante na Assembleia, bacharel casado em família do Brejo.” Atravessavam anos, décadas, recuavam anos décadas com pessoas e acontecimentos relacionados. Educados, finos, convidavam para sentar na sua calçada, serviam água fria, café e chá. No princípio do século passado era a família mais rica da região. O velho, Zequinha Elias, do Mamoeiro. As suas terras subiam a Serra do Comissário. Deixou rebentos destacados socialmente: o meu colega advogado Deoclecio Elias, hoje desembargador federal em Brasilia, o médico deputado Laércio Pires, meu colega de legislatura na Assembleia Legislativa da Paraíba, falecido, e o médico Severino, “Seu Biu” oficial da Marinha em Natal. Numa viagem a cavalo que levou uma semana, partindo de Brejo de Areia, o recém-nomeado promotor público da comarca de Sousa José Américo de Almeida, bateu palmas numa casa senhorial na extensa várzea, já nas cercanias da cidade. Os animais de sela e carga, dele e do pajem que cuidava dos mantimentos, cansados beiravam a exaustão. O ano era difícil, enfrentavam os sertanejos a crua seca de 1915 que criou legenda e frutificou relatos do Ceará com o romance de Rachel de Queiroz “O Quinze”. Os da casa notaram a extenuação dos viajantes, os atenderam cortesmente, mas o patriarca não apareceu. Assim narrava o romancista de “A Bagaceira”. Os pedidos de ajuda dos viandantes eram frequentes. E pouco ou quase nada podiam oferecer. Sem entrar nos detalhes importantes em narrativas como esta, o romancista tentando arrancar informações do lugar e inferir qualificações entabulou conversa. Por fim o coronel Zequinha apareceu no alpendre e ofereceu-lhe confortável preguiçosa, informou sobre pensões na cidade, colocou à sua disposição o seu cavalo de sela para concluir a viagem, extraíu o que precisava saber do viajante. Esta narração, sabendo-me de Sousa, escutei-a de viva voz do Ministro na sua mansão no Cabo Branco, e mais notícias da minha terra natal naquele tempo. Os ricos, os intelectuais, as reuniões sociais familiares, os saraus, a politica governo/oposição, de tudo ele falou. E as tragédias climáticas. Tudo ele fixou no seu romance, que insisto em dizer nasceu em Sousa, onde ele morou durante um ano e ensaiou cançonetas ao violão com a jovem Mariquinha Doca – a nossa Chiquinha Gonzaga sertaneja. Morre aqui, a minha memória do promotor público José Américo de Almeida em Sousa. Um adendo apenas, para registrar os resmungos de Maria Emilia Mariz, casada com o ilustríssimo bacharel Milton Barata de Oliveira irmão do senador Arquimedes de Oliveira, nome de rua nos Aflitos bairro nobre no Recife, de Zezé proprietário da Usina Catende. Colega e contemporâneo de curso na Faculdade de Direito do Recife, José Américo, certamente lhe relatara travessuras acadêmicas de Milton. Daí os resmungos e tratá-lo de Zé “Ramona”, ele promotor público, romântico valseador nas salas da nobreza interiorana. Esta minha certidão de inteiro teor, é na verdade resumida, sem os detalhes notarias de datas, títulos, cargos, promoções etc, que ofereceria o acadêmico Ramalho Leite, do IHGP, aí sim. Pouco falei de Sousa e nada da Bananeiras de Ramalho. Fica para depois. Mas tem muito muito para escrever. Confiram nos seus textos futuros. Fica por conta dele e de Tião Lucena, bananeirense por adoção. Bananeiras para mim é a família Bezerra Cavalcanti. Dr. Clóvis meu amigo vice-governador. Médico, deputado, chefe político, fazendeiro, meu colega secretário de Estado, caçador por diletantismo. Coisa de nobre. Ramalho hoje domina o cenário, mas custou chegar, andou pelo aceiro, persistente, inteligente, e os Bezerra foram vencidos, parece, pela preguiça. Melhor dizer: pela competência de Ramalho."


  • 25/10/2015

    O pouco e o muito. A mulher é bicho fraco


     Afinal, quanto a obrigações, ao cumprimento de deveres e realização de objetivos, e de saber em que mundo vivemos, que vida desfrutamos, qual a certeza do que sentimos e sabemos, esta é a questão que define a conduta das pessoas – a ética e pouco a ciência. As regras estão acima da minha compreensão. Sou sertanejo e bastam-me sinais − inverno, seca. E a coerência de tais prolegômenos, nos encaminha para o terreno da filosofia, da religião, porque somente o dogma antepara a incompreensão, como expressão da consciência que define o comportamento individual e coletivo também. Encruzilhadas. Embaraço.
    Aqui estamos e assim vivemos – uma continuação da Babel bíblica representada em panóplias cavaleirosas desde o combate aos sarracenos - os sanguinários soldados de Saladino. O Livro Sagrado é a revelação da palavra de Deus, a linha incontestável da história reconhecida na antropologia e sociologia dos leigos. Como duvidar? 
    Exemplifico, com a minha dificuldade para avaliar o tamanho do nosso planeta no universo, e o espaço-distancia da circunvizinhança, do lugar onde moro, relacionados com o meu dia a dia: o passar das horas, o sair de casa para os compromissos corriqueiros. Cansa vencer a distância em meia hora de caminhada, atravessar ruas, dobrar esquinas, superar obstáculos, palmilhar veredas, e distâncias medidas em horas e milênios, anos luz, em metros e quilômetros.
    O que surpreende mesmo é a inteligência. O descobrir, ver e saber.
    Mas Jesus sentenciou e advertiu: “A casa do meu pai tem muitas moradas”, inspirando a seita humílima do espiritismo kardecista. Enfim, todos nos encontramos no destino comum de filhos de Deus, realizando os Seus desígnios até hoje insondáveis e obscuros. Pelo menos para mim.
    A mídia, entretanto, nos oferece uma espantosa soma de informações que, diríamos, ultrapassa até aqueles números astronômicos inacessíveis à compreensão de pessoas quiçá bem informadas, que frequentaram escola. Aí nascem as dúvidas e a estupefação. Pensemos numa unidade, um número qualquer seguido de 29 zeros: 00000000000000000000000000000. Não sei a palavra para nomear tal expressão aritmética: quinqui, septi, noni, tricenti... “lhões”, mas é um dado para constatação de volumes, distancias no universo, que só poderão ser visualisadas e entendidas multidisciplinarmente, com este método.
    Melhor a clareza das parábolas dos evangelhos. Deixada de lado a física, avaliando o nosso desempenho pessoal, gastamos caminhando cansativamente uma hora para percorrermos 20 km na cidade ou na zona rural; carros, trens e aviões limitam-se de 500 até 5000 km por hora. E tem o clima quente e gelado, com os seres orgânicos e inorgânicos que mostram a sua paisagem, o choque dos elementos. O que fazer? O PT emborcou o Brasil em plenárias, levantando um braço com a mão estendida horizontalmente com os dedos unidos, e verticalmente futucando com os dedos rijos a palma da outra. Pedia silêncio e tempo para falar. Seguia o modal do procedimento. Aplausos. Deu no que deu.
    Mulher é bicho fraco. Não na balada, somente, mas na política principalmente. Se entrega e é movida pela paixão. Caminhamos na beira de um precipício que ameaça engolir o Estado brasileiro. Tivemos a Madame Curie, é verdade, mas trabalhando no laboratório do marido. Estamos às vésperas de uma catástrofe. Numa rememoração histórica da política − a que manda e decide democraticamente com a representação social −, vê-se que as categorias profissionais presentes no executivo, legislativo e judiciário, juntas construíram o precipício. As mulheres chegaram e tudo desandou. Mulher é para o braço do moinho e a mão de pilão, e muito carinho e consideração. Roupas decentes, joias, perfumes.
    Nada de patrão e de empregado, no confronto natural, mas de grupos sociais organizados que se articulam e o resultado geral da política pública nacional é um verdadeiro saco de gatos. 
    Misógino eu? Não aconteceu, mesmo passados tantos anos. Comportamento Gay não é doença. Não se trata de um mal hereditário, tampouco transmitido pelo contato. É fruto da educação doméstica, familiar. Menino que varre casa, lava pratos, espana móveis vigia o fogão etc, se comportará como mulher; menina que joga pião, pelada, encareta e segura boi brabo na corda, etc, vira sapatão. Depois vem o exagero sem-vergonha dos dois lados.
    Por hoje é só


  • 23/10/2015

    Código da Vida


    Somos levados, no período do aprendizado escolar – eu, pelo menos, posso dizer que tal aconteceu comigo –, a entender como literatura aquele texto ou livro, principalmente de natureza ficcional, em prosa e verso, escrito em linguagem rebuscada, criando tipos e conceitos sobre fatos da vida. Literatura seria a arte de escrever, as belas letras, algo diferenciado do arranjo comum das palavras. É bom ficar claro: Literatura é “expressão de estados de alma e de propósitos pessoais, que só se podem exprimir literariamente”, no entendimento inquestionável de Alceu Amoroso Lima, um mestre no ofício. O jornalismo recolhe e transmite dados e informações. É outra coisa. Esta é a minha opinião. A circunstância de figurarem no espaço da mídia, os autores de simples representação de fatos ou de situações particulares observados ou inventados – jornalistas, comunicadores em geral –, e os configuradores da mimética do real – ficcionistas, cientistas –, indo além da mera reprodução fotográfica da realidade, destacando-lhe elementos universais característicos, deixa margem para identificá-los, apressadamente, como praticantes do mesmo mister literário. O esquisito relatório acima vem a propósito do livro do advogado Saulo Ramos “Código da Vida”, hoje obrigatório em rodas distintas (vip), ditas de intelectuais, de políticos e de empresários, no nosso país. Eu pergunto: seria a obra referida “jornal” ou “memória”, que têm lugar assegurado entre os gêneros literários? Ou fragmentos da história de uma época, excertos doutrinários no campo do direito? Valeria a indagação? Veremos. Pois tal livro me foi presenteado gentilmente, pelo ilustre homem público e inteligente conterrâneo Salomão Gadelha. Advogado, com esmerada formação universitária, Saulo Ramos já nos verdes anos, trabalhou em jornal. Especializou-se no lidar com a linguagem. Não se incompatibilizou, por isto, com a criação literária, o que, evidentemente verifica-se na sua poesia publicada em livro e revistas. No “Código da Vida”, de leitura agradável, que não exige maior reflexão sobre o seu conteúdo, mas riscos e rabiscos, sinalizações, para referências futuras, vejo obra de caráter puramente jornalístico, destaca-se entre outras de igual cabimento. O livro de SR não oferece informações, como se diz, de “orelhada”. Pelo contrário, dá noticia de acontecimentos verdadeiros, por ele vivenciados. Relata teses no campo das técnicas e doutrinas, que sustentam e normatizam a vida pública e privada no nosso país, no processo dialético de sua manifestação. E alegram e ilustram a nossa crônica pessoal de anônimo leitor, pois somos envolvidos na narrativa episódica, chegamos algumas vezes à condição de personagens e partícipes de notáveis acontecimentos incluídos na publicação, o que muitos tinham esquecido. A riqueza do livro está na inteligência viva do ex-Ministro da Justiça, que conta com clareza os fatos vividos, na importância dos assuntos e das personalidades envolvidas. Raramente critica ou julga: induz juízos. Espertamente criou a figura singular de um interlocutor (Gervásio, que “falava em cachoeira”, na verdade ele próprio) a quem atribui a coragem da critica e do julgamento de situações concretas que marcam a vida das pessoas e das instituições; faz reparos aos critérios que levam a sociedade brasileira e também internacional a viver as suas crises e contradições em determinadas ocasiões. Introduz uma história com tipos (Olavo Braz, familiares e agregados) e fatos tão inverossímeis, como de uma aventura acontecida numa região onde a chuva não caí do céu; sai do chão e sobe para o espaço. E não chove água, apenas esguichos de rum, de cerveja. Mas tudo muito vivo, muito atual. Saulo Ramos, independentemente da leitura de Gramsci, acredito, intuíu que o segredo do poder no mundo capitalista, não estava na tomada dos quartéis, mas da redação dos jornais; na produção de conhecimento, de cultura, que se realiza através da mídia, da comunicação. O que anima, sobretudo, a leitura de “Código da Vida” é a riqueza e atualidade da linguagem usada pelo autor, que se mostra uma daquelas fi- guras amadas, de presença indispensável em papos gargalhados ou sussur- rados nos ambientes luxuosos, nos bares caros, em rodas de uísque, nas ante-salas dos gabinetes dos dirigentes dos três poderes da república, dos mega-empresários. Crônica da elite, enfim. Saulo Ramos brilha na apresentação dos estereótipos, dos protagonistas da cena histórica, no uso de palavras que ofendem o senso moral, permitidas aos de sua classe, numa prosódia que valoriza a frase: “o putão do Putin”. Individualidades são a sua marca, como os inquilinos do 202 dos Campos Elísios, de Eça em “A Cidade e as Serras”: o Príncipe da Grã Ventura, Madame de Tréves, Madame Verghane, Madame de Oriol – mulheres, sempre mulheres; condes e sultões, jornalistas desmantelando governos, arruinando fortunas, reputações. Casta que goza na cidade os gozos que ela cria. O tédio na fartura, A grande tragédia, que consiste nas horas melancólicas, de refletir sobre a própria melancolia. Alguma coisa assim é encontradiça em Vanusa Leão e Jô Soares, pelos curiosos e ilustrados meandros de obras de cunho histórico e romanesco mesmo, que produziram. Títulos vitoriosos nas listas dos livros “mais vendidos” nas livrarias do país, meses a fio, perdendo para Paulo Coelho, somente por lhes faltarem as chancelas que a Academia de Letras da França e congêneres outorgaram ao Mago como galardão. Contudo, incomparavelmente inferiores, menores do que o criador do “Primo sílio”. Dá para lamentar. “Tal é a condição para ser um escritor brasileiro hoje em dia: a total incapacidade para qualquer experiência humana genuína, o perfeito ajuste da vida interior à forma dos estereótipos, a adequação harmônica, artística, entre a percepção falsa e a linguagem fraudulenta” (“Saudades da Literatura”, Olavo de Carvalho, Diário do Comércio (editorial), 23 de janeiro de 2006). Não comento o livro de SR na intenção de diminuir-lhe o reconhecido mérito literário, que o tem, de verdade. Apenas desejo determinar o sentido jornalístico, desassombrado do texto, o que não o desmerece, e também o coloca destacado à luz dos princípios da “Nouvelle Histoire”, na visão da mestra Micheline Dantas de Oliveira Jatobá (deixando de lado o método honoriano da história integral, documental, sociológica, heurística, interpretativa, recomendado pelo mestre José Octávio) – como fonte da História na questão dos “bastidores”. Ali encontramos os ex-presidentes Juscelino, Jânio, Sarney, FHC, o ex-governador Ronaldo Cunha Lima, Roberto Carlos, banqueiros, Che Guevara e vai longe. Todos amparam a minha tese, certamente bebidos no advogado romano Quintiliano. Quer o leitor saber da vida, do mundo? Particularmente do nosso país? Conheça-os no “Código da Vida” de Saulo Ramos. E da vida de Sousa escute no noticiário das rádios locais, leia nas páginas e blogs assinados na internet, do jovens experts da comunicação em Sousa. A Salomão o meu agradecimento pelo presente."


  • 13/10/2015

    12 de Outubro: o que comemorar?


     Gasto a maior parte do meu tempo vendo a programação dos canais de televisão que me sintonizam com o mundo. Um hábito moderno. Por um motivo qualquer pervago o passado e me acode o meu tempo de menino de escola, onde e quando eu descobria o encantamento de conhecer os grandes fatos da humanidade no seu trajeto histórico civilizatório. 
    Este 12 de outubro, desde alguns dias atrás é chamado “feriadão” que sugere a ampla divulgação de passeios, roteiros turísticos, promoção comercial de produtos especiais para presentear crianças, e fetiches alusivos a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil − o chamado artesanato, que adquirimos para levar para casa, o jogamos num canto e depois no lixo. A pátria, a religião, pouco lembrados.
    Muitas são as viagens, incontáveis as peças, os objetos comprados e não sobra lugar. Talvez não reste um recanto na lembrança, sequer, pois não nos interessamos, e evitamos o que pesa na vida e impõe deveres de definição e escolha, pesa na consciência. O leviano, o frívolo fala no que virá. Não tem memória só gostos e preferências. A onda. 
    Aprendi no meu tempo de escola que o chamado “Descobrimento da América, que se deu pela armada do navegador Cristóvão Colombo em 12 de outubro de 1492[1] , na tentativa de achar uma rota alternativa para as Índias, representa o início da colonização européia do continente americano. Embora o termo comumente usado seja "descoberta", ela em si não representa o início da ocupação humana do chamado Novo Mundo, já que havia aborígenes no local, os chamados povos ameríndios. Ainda assim a descoberta representa um dos pontos altos das chamadas Grandes navegações ou Era dos Descobrimentos” (WIKIPEDIA)
    O irresistível jogo do Mercado mito do neoliberalismo! Quanto poder! Destruiu a fé iconoclasta de Zé Genoino, Zé Dirceu, Dilma Roussef e outros heróis do passado na luta pela humanização da vida democrática, na defesa da consciência nacional, do patriotismo como expressão política das gentes. Hoje, mamulengos rendidos à pratica dos achacadores, da corrupção – cruéis agentes do comercio presepeiro. Aí está o exemplo Lava Jato que manchou a honra nacional.
    O que nos resta? Ceder nunca. Resistir e lutar.


  • 10/10/2015

    Em Sousa, novos dados de uma antropologia


     No meu tempo de Sousa, há sessenta anos atrás, mandavam na Paraiba Rui Carneiro e Argemiro Figueiredo com os seus representantes. João Agripino estava começando e Pedro Gondim, também. Os funcionários públicos eram daqui mesmo, ou de outras cidades, porém carimbados com o Partido que estava de cima. Juízes e Promotores principalmente, porque de famílias ricas que estudaram, eram bacharéis aprovados em concurso. 
    “É dos Sátiro de Patos, dos Gaudêncio de São João do Cariri, dos Maranhão de Araruna, dos Leite de Piancó, dos Feitosa de Monteiro, dos Rolim de Cajazeiras”, diziam quando eles passavam. E curtíamos amizades rememorativas familiares. E tinha os italianos Finizola, Vita, o alemão Langbehn.
    Mas os tempos mudaram − remonta hoje a cearenses, mineiros, sulistas, estrangeiros − pois é outra a dicção, o timbre e o tom da voz, a prosódia é realmente diferente da que usa a nossa gente. Em outros, os tipos esquisitos sem os traços fisionômicos, e a ossatura famiiliar identificativa dos clãs locais dos gordos e dos magros, dos altos e dos baixos, dos empenados, dos queixudos, dos gogó de ema, dos cabeludos e dos carecas, até de abaianados chistosos, eloquentes, que todos os conhecemos de longe. 
    São funcionários públicos, de empresas privadas, bancários, religiosos, policiais, todos enfim, mostrando a sua origem diversa da nossa gente nascida aqui. Muitos chegaram se estabeleceram, constituíram família como o parrudo mineiro João Costa, enrolando a língua e sílabas na pronuncia, casado com Mercedes Mariz, cearenses que falam “o José, a Maria, gosto de “tji”, e estranhas preferências alimentares como arroz com piqui, muito jerimum. Uns paradoxalmente esquivos e afirmativos como Américo Arruda Câmara da UDN da várzea do Paraíba, o inspirado poeta amigão da cachaça, o brejeiro Luiz O. Maia autor do mais belo poema declamado nos bares naquele tempo “Jesus e Minha Noiva”.
    Contava o drama de um noivo que perdera a amada, internada num convento por amor a Jesus. Assim cantava o galegão brejeiro vestindo diagonal branco usando ócolus Ray Ban, casado com uma Pires do partido de Rui Carneiro: “Não mais quero a Jesus, santo invejoso, / Que por ser muito rico e poderoso / Conquistou minha noiva idolatrada. / Serei de agora em diante um ser errante...” Era graduado funcionário federal.
    De Alexandria, antiga Barriguda, no Rio Grande do Norte, vieram as famílias do velho Cazuza, sempre de paletó e gravata, nariz adunco sustentando um óculo de grau, carregava uma pasta e vendia seguros de vida, de Mestre Zequinha e de Mestre Tonho, deles ficaram numerosa descendência. O primeiro tinha uma loja chique que vendia tropical inglês e linho diagonal, costurava para os ricos, era eleitor dos Gadelhas, e o segundo com uma oficia artesanal típica, nada comprava, vendia a força de trabalho dele proprietário e dos seus operários, entre eles o celebre “Lobo de João do Pão”, Euticiano, que criaram um incidente de somenos importância com a família de Miguelzinho Cordeiro, que morava vizinho a alfaitaria. Mestre Tonho votava em Antonio Mariz.. Costurava para os remediados que o povão não pagava serviços particulares.
    Vivi este tempo e me liguei por amizade aos descendentes dessas e de outras famílias, frequentei bares e festas religiosas e profanas do calendário da cidade. Peço desculpas por divulgar estes arremedos de sociologia e antropologia, no estilo e sem desdouro de Darcy Ribeiro.


  • 02/10/2015

    Advogados em festa - eleição na OAB-PB


    Começo com a minha surpresa pelo sumiço do superintendente do Banco do Brasil. Mais uma de Ricardo ou estou enganado? Acredito que o dente dele está nesta. Cuidado! Temos agora um “Sérgio Moro” na Paraíba. 
    Governos corruptos o de Dilma e o de Ricardo – estão em todas. Eu aguento brasa, e fora este meu blog de poucos leitores, todos mais que falam mal dele, ele tira do ar. Até o do meu amigo Gilvan Freire. Mas estou preparado, ele sabe.
    Ontem encontrei num restaurante de Sousa uma manada de bacharéis advogados numa lauta farra, o que é próprio deles (já fui um desses festeiros batendo chapa). A última eleição da OAB de que participei foi nos anos Setenta e votei em Paulo Maia, de Catolé do Rocha. Fomos vitoriosos.
    Por coerência nominal e pelo melhor currículo do atual Paulo Maia voto nele. Ele está acima de qualquer suspeita, principalmente porque é combatido pelo famoso Ricardo, que se arroga o atrevimento tirânico de mandar em tudo e desmoralizar tudo na Paraíba: Executivo, Legislativo, Judiciário, e até as instituições civis excluindo-as da liberdade de funcionamento democrático.
    Assim foi na API, agora na OAB e mais nas sapatonas e gays que são a sua praia. Nada contra as sapatonas e os gays, mas pela liberdade de livre associação. Esta, posso afirmar que é a minha praia e não é a dele.
    Paulo Maia é sem dúvida o melhor candidato, Principalmente porque Ricardo Capataz o combate e ele Ricardo sempre fica do lado do estelionato, do mal. Todos sabem e ele não tem como negar.
    Neste ambiente da campanha eleitoral, capitaneados pelo colega Odon, amigo dos velhos tempos de outro governo, conversamos, falaram no nome de Tião Lucena que sabem meu amigo e eu repliquei: “Não queimem o seu candidato. Não por Tião, que vou tirá-lo da cloaca ricardiana. Quanto à sua performance literária é de ótima qualidade.”
    Mas ficou por isto mesmo. Fecho com Paulo e sua chapa. Alerta colegas sousenses. 
    Eilzo Matos, advogado, OAB nº 812.


  • 21/09/2015

    Os vivos e o morto


     Terminada a semana de homenagens e recepções, realizadas pelos familiares e amigos de Antonio Mariz, em João Pessoa e Brasília, alusivas aos vinte anos do seu falecimento, o meu comentário final. 
    Infelizmente não pude comparecer aos atos solenes, por esquecimento da data, próprio da idade, pela preguiça que me prende em casa, em razão do passar dos anos e a situação de recolhimento em que me encontro, morando na zona rural. Através da internet, todavia, fiz breve relato biográfico dele, cidadão, e da sua prática como militante partidário, do nosso encontro e convivência na cena propriaente eleitoral.
    Ressaltei nos meus escritos, a firmeza das suas convicções de patriota, da nossa aliança na defesa da soberania do Estado brasileiro quanto à sua economia, cultura e tradição democrática, a defesa e reconhecimento dos direitos dos trabalhadores de todas as categorias. Isto era o que nos ligava. Nada de subordinação a tarefas, ganhos, recompensas. Nem de dependência. Era o exercício da ética. 
    O mais era a nossa vida de indivíduos, de conterrâneos frequentando as mesmas festividades na igreja, no clube social, na convivência que aproxima ou afasta as pessoas, partilhando alegrias e tristezas, momentos de paz e de exaltação. 
    Arregimentávamos quadros, forças, alistávamos familiares e amigos. Eis o que poucos perceberam e não aceitam, sequer acreditam. Só no moderno pixuleco.
    Deixei o partido e não disputei a reeleição. Ressentido, o meu gesto revelou-se extremado quanto ao resultado, no mesmo tem-po em que mantinha a fraterna convivência morando no campo na minha cidade de nascimento, de vida profissional, de atividade política. 
    Esta conduta paroquial levou Antonio Mariz, acompanhado de amigos, a procurar-me certa data, na residência de minha irmã na cidade. Eu fora notificado por um amigo comum. A partir de então conversávamos pelo telefone e em encontros ocasionais. Eleitor, mesmo afastado dos palanques, votei nele para senador e para governador porque o sabia o melhor entre os demais candidatos. Conhecia-o bem. 
    Não frequentei o Palácio porque nada tinha a lhe pedir ou aconselhar, mas aplaudia o seu governo. Os que hoje recebem as medalhas e condecorações com o seu nome, talvez as sintam incomodar no pescoço ou na lapela: as fitas, os distintivos. Em muitos até não caem bem, não ficam bem. Nem para os vivos nem para o morto impassível na outra vida. 
    A imagem moral e ideológica de Antonio Mariz, todavia, resiste pela profundeza do seu pensamento e de suas ações, vergonhosamente ajustadas à conveniência pessoal, à pobreza moral de muitos. Ameaça resvalar para a vala comum.
    Pragmatismo? Oportunismo? 
    Antonio Mariz revelou como político e homem público que a lei determinava as suas ações e a ética o seu comportamento.


  • 18/09/2015

    Antônio Mariz, sua vida, nossa cidade, a Paraíba


     Transcorreu com homenagens solenes, a data alusiva aos vinte anos do falecimento de Antonio Mariz. O mérito do seu caráter e a lisura de sua conduta de cidadão conquistaram o reconhecimento público, o espaço na memória da cidade e do Estado. O Ministério Público estadual e o Senado da República o homenagearam com sessões especiais.
    A origem familiar de Antonio Mariz no nosso município, trouxe-o de volta, ele estudante no Rio de Janeiro, para reencetar a carreira política do clã, destacada no passado, interrompida com o falecimento do seu pai advogado José Mariz, então deputado estadual. O seu lugar fora ocupado por um correligionário.
    Sentiu na sua chegada, que a circunstância do seu primo João Agripino, representante da cidade de Catolé do Rocha como deputado federal e trocava votos com os candidatos sousenses, dificultava a situação. Mas ele não se deixou abater. 
    O curso do progresso fizera surgir fortunas com as novas técnicas agrícolas e pecuárias, com a industrialização voltada para o aproveitamento dos produtos, das potencialidades locais. Complicava-se a política com a prevalência do dinheiro na cooptação de chefes políticos e cabos eleitorais. 
    O renome dos Mariz, todavia, granjeara o respeito e admiração geral, eles detinham a chefia de uma facão da política local. E dedicavam-se ao exercício de profissões liberais, às atividades rurais, à militância política e partidária. Com firmeza sustentavam a sua tradição, que lhes permitia ainda o destaque e acesso na feira, no clube, na igreja. 
    Estes rebentos do Rio do Peixe, que vinham do Umari, aparentemente dormiam, mas somente madornavam. Era só aquela preguiça (colonial, pordeusista) milenar aliada à exaltação moura que herdamos de Portugal. Assim eles são, e deu no que deu.
    Antonio Mariz, portanto, chegou e ligou-se ao povo, naquele comportamento paradoxal da convivência da sala com a cozinha, que os seus adotavam, sem descuidar dos amigos da família. Coisa estranha, porém, assinalo que urbanidade não equivale a cachorrada, promiscuidade.
    A partir daí ele ganhou todas as eleições democraticamente disputadas, em campanhas que empolgavam a população. As do “colégio eleitoral - indireta” e do “voto vinculado” naturalmente não contam.
    Nesses entreveros, nos encontramos e marchamos juntos, na prática de uma política ideologicamente voltada para o social. O essencial na prática política nos unia, e poucas vezes, quanto a detalhes acessórios, somente, discordamos. Juntos, acompanhados de correligionários, visitamos a viuva do industrial José Gadelha, e ele declarou solidariedade acandidatura de Marcondes, depois o fez seu secretário no governo do Estado. Continuei seu correligionário até a sua morte, sem incomodá-lo quanto ao exercício de cargos e vantagens outras que muitos exigem.
    Eleito senador, Antonio Mariz chamou-me uma noite na sua casa em Sousa, e disse-me que teria uma secretaria no governo de Ronaldo Cunha Lima recém-eleito, que colocava a minha disposição. Eu recolhido à vida rural, não pretendia retornar à política e sugeri o nome de Inaldo Leitão para o cargo, nosso valoroso companheiro de campanhas eleitorais e de aliança familiar, lamentavelmente derrotado na disputa para deputado estadual, que eu apoiei.
    Ele chateado com o insucesso, numa viagem comigo para João Pessoa, declarou que desejava se especializar no direito, para a universidade ou para a advocacia. Nada mais de política. Insisti. Elegeu-se depois deputado estadual, federal, foi secretário de Estado.
    Aqui chegamos, ele numa boa, e eu morando no mato declaro-me feliz, mesmo sofrendo as agruras e prejuízos da grande seca que enfrentamos.
    Nos acode, todavia, em boa hora, a memória do amigo comum Antonio Mariz -


  • 08/09/2015

    Antônio Mariz, Sousa e Princesa


     Na nossa cidade de Sousa, escolhida por Antonio Mariz para iniciar a sua carreira política, com um programa de governo impresso e distribuido pela primeira vez em campanha eleitoral, ele cumpriu as metas anunciadas. A ética e a solidariedade marcaram a sua passagem na prefeitura. Hoje os que se dizem marizistas, se ajoelham aos pés do seu maior adversário e algoz o risonho advogado João Estrela, condenado por crimes contra a administração pública em cinco processos julgados, assegurada ampla defesa, e tramitam na justiça mais de cinquenta também contra ele pela prática de crimes iguais. Estranho ver o corajoso Inaldo Leitão, na sua inteligência, esquecido do seu passado ao lado de Antonio Mariz de quem se diz hoje o “porta voz”, publicando retratos, divulgando suas visitas ao político João Estrela, que impôs a maior derrota ao marizismo até hoje na cidade de Sousa, com a própria Mabel compondo a chapa derrotada. Nenhum desagravo. Dá para perder a confiança, mas não a esperança. 
    Transcrevo abaixo um pequeno trecho de um trabalho mini-biográfico que publiquei sobre Antonio Mariz. (A UNIÃO, Paraíba Nomes do Século, 29 - 2000).
    (Em memória das muitas comemorações nas barracas, das procissões do encerramento das festas da nossa padroeira, que juntos acompanhamos com correligionários e a população local.)
    “II - ANTONIO MARIZ - O Marizismo. Uma escola política. 
    Otacílio Silveira organizou em termos técnico-orçamentários, ele um especialista em direito financeiro, o plano de governo de Antonio Mariz, apresentado na campanha eleitoral, para o cumprimento de suas metas na administração do município de Sousa. Ressalto o valor da convivência que os uniu, pautada sempre no respeito a princípios éticos inalienáveis. A colaboração de Alcindo Rufino de Araújo, na implantação do mencionado plano de governo, foi de fundamental importância, graças aos seus conhecimentos técnicos e teóricos sobre o assunto, pelas suas qualidades éticas e pela sua politização. 
    E explica a existência de uma escola política que, afortunadamente para nós, fincou raízes em Sousa, e partiu para uma ação marcante na vida pública paraibana. Lembrarei apenas três nomes, sem demérito para outros que participaram desta ação: João Agripino, e os citados Antonio Mariz e Otacílio Silveira. O primeiro pelas qualidades pessoais de líderança e também pelo respeito à moralidade na gestão da coisa pública; o segundo, à par de idênticas qualidades, destacou-se pelas convicções socialistas do seu pensamento e de sua ação, revelados nas posições adotadas no exercício dos mandatos de prefeito, deputado, senador e governador, que o povo lhe conferiu. Quanto ao terceiro, Otacilio, somava àquelas qualidades evidenciadas, a dedicação ao estudo, a soma de conhecimentos que possuía, pronto para incentivar, orientar e participar das tarefas comuns, e a eficiência na sua execução. Eles honraram a vida pública paraibana, um legado de inestimável valor, razão pela qual é preciso não esquecê-los, e lembrá-los, para motivar as novas gerações, hoje perdidas no imediatismo da vida moderna. Mas a realização desse projeto de integração social, liberado de amarras dogmáticas, na autocrítica de sua formalização dialética, preconizava a liberdade de pleitear em igualdade de condições, como o mais eficiente e justo processo de da fraternidade universal. E ele defendeu-a sem esmorecimento durante toda sua vida, na busca de sua realização.
    Lembro com apanhados da década de 60 do século passado, dados do seu programa e as realizações no governo municipal, e enfatizo: “a) aumento do número de escolas municipais de132 para 330, com a fixação do número máximo de 30 alunos por professor; b) distribuição das escolas na zona rural de tal forma que a distância máxima a percorrer pelo aluno fosse de um quilômetro e meio; c) aumento real de, no mínimo cem por cento nos vencimentos dos professores e demais servidores municipais; d) instalação de bibliotecas públicas em todas as sedes distritais e aperfeiçoamento da existente na sede do município; e) cursos intensivos de férias para treinamento e aperfeiçoamento de professores; f) estabelecimento de período escolar na zona rural fora da época de ocupação dos alunos nas atividades agrícolas; g) instalação de postos médico sanitários em todas as sedes distritais, e instituição de comandos de médicos dentistas para atendimento das populações pobres dos distritos, pelo menos uma vez por semana, com fornecimento de medicamentos a preço de custo; h) instalação de parques infantis nos bairros da sede do Município e em todas as sedes distritais; i) venda pelo preço de custo e a prazo, de silos, ferramentas, cultivadores, pulverizadores e inseticidas aos camponeses sem terra e aos pequenos proprietários rurais.” 
    O alcance social e de modernização administrativa, que estas providências alcançaram, despertaram o interesse na população, e levaram ao seu conhecimento, os deveres do administrador na programação e na despesa dos recursos públicos por ele manuseados, executados, até então ignoradas na região. Ainda o autor citado, ressalta a mudança de prioridade nos gastos e a preocupação de Antonio Mariz com o aspecto social do seu governo. Informa resultados obtidos: “a) Educação – 1962, 1,50%; final do quatriênio 1967, 16,42%; b) Saúde 1962, 1,00%; 1967, 15,85%; Fomento a Agricultura 1962, 0,25%; 1967, 15,85%; d) Obras Públicas 1962, 59,72%; 1967, 37,73%.” Quanto ao exame de suas declarações de bens, nos cinco anos e dois meses de mandato à frente da Prefeitura de Sousa, em novembro de 1963 e em janeiro de 1969, verificou-se apenas a substituição de um Fusca 1962, por outro Fusca 1967!” 
    Isto há mais de cinquenta anos atrás, vale a pena saber.


  • 26/08/2015

    Deusdete Queiroga – Comprade Dezinho


     A vida nos mostra caminhos e escolhas. A sorte ou a boa fé explicam e justificam equívocos e acertos. A memória guarda o melhor e o pior também. Assim acontece.
    Lembro, entre muitas amizades que tive a sorte de cultivar, a que me aproximou de Deusdete Queiroga de Oliveira, depois meu Compadre Dezinho, no batismo católico do seu filho Adalberto de quem fui padrinho. 
    Advogado formado cheguei à cidade, casei, cuidei do meu escritório para ganhar a vida. O meu temperamento sertanejo e a convivência social, me levaram ao seu círculo também de amizades e ocupações. Ele chegado de São Paulo, estava preparado para as lutas da vida no ramo do comércio, tornando-se um empresário de sucesso. A cordialilidade entre as nossas famílias, os encontros em festas e bares nos fizeram amigos, por fim compadres.
    Um destino prometedor, auspicioso nos fez ele dono de avião de dois motores, filho engenheiro e eu deputado estadual, filho procurador federal. 
    Tempos felizes. Impossível esquecer a nossa presença sempre juntos no clube e na igreja, na feira e no bar, no conchavo e no comício. Com alegrias e tristezas intercaladas de compromissos, de coragem, de lealdade. 
    As obrigações pessoais e a idade, nos fizeram morar afastados, ultimamente, distantes as famílias, as atividades de cada um exigindo presença em lugares diferentes. Mas sempre compadres. 
    Sertanejos aqui nascidos, amávamos o lugar, as pessoas, o ambiente rural e urbano, a sociedade, o comércio, os modos deste mundo semiárido e feliz. 
    Distante o tempo em que ele discutia com Heleno Amaro, devedor na sua fábrica de cadeiras, na linha de ferro da estação em Sousa, e eu contratava um conjunto de sanfona e pandeiros e desfilava num jipe nos bairros e no centro da cidade.
    A vida deu certo para nós dois. Ele construiu casa boa na rua, chácara de luxo e barriga cheia numa área nobre. As melhores famílias, ricos e pobres votavam em mim, nenhuma festa em casa de Zégadeia ou do Coronelemidio foi maior do que as dele com senador, governador e tudo. 
    Compadre Dezinho contava uma história que eu comprei um cabaré. Retaliação porque eu contava outra que ele pagou com um “roscof” que não valia 200 uma conta de 2000 ao velho Azarias Sarmento. 
    Ele viajou para o outro mundo e eu estou com o pé no estribo do carro para embarcar para lá. E com Luiz Gonzaga, Nivaldo, Sabino e outros amigos, faremos a nossa festa eterna.
    Saudade. O tempo voa.


  • 19/08/2015

    Ano zero, vida nova


     As minhas viagens são curtas, a despesa é pequena, o cansaço menor, e como me alegram! A minha mulher pessoa daqui, exclama, sopra baixinho também surpresas e alegrias. Às vezes toca no meu ombro e aponta numa direção. Nos sentimos bem, no conforto da camionete e quando nos sentamos para conversar, matar a sede com uma mineral gelada, numa breve parada na estrada para olhar uma roça, uma laje curiosa, árvores, grotas profundas, a paisagem vista de cima da serra.
    Devo uma explicação sobre a minha vida antes da mudança de residência da cidade para a fazenda, do descarte do cerimonialismo da política. Coisa de saudade, de nostalgia, fruto de comentário encontrado alhures sobre o recolhimento dos generais romanos à vida campesina, extra-muros, no regresso das guerras do imbatível Império onde o sol não desaparecia no horizonte no mundo antigo. Uma espécie de lazer campestre, um prêmio ontem e hoje. 
    Combati o meu combate. Não como um general, mas nas fileiras. Disciplinado nem tanto, ganhei, todavia, o meu repouso remunerado. E também a satisfação pessoal de me voltar mais para o meu pequeno mundo, e para mim mesmo, nas minhas pequenas escapadas e visitas a este pedaço de sertão, nos elucidativos diálogos com os habitantes do lugar. 
    Triunfo é uma cidade que está crescendo mais do que as outras. Esta afirmação explica a cozinha moderna dos bares e lanchonetes, a decoração ambiente comprada em pacotes pela iternet e aplicada por jovens que se profissionalizaram, nascidos ali mesmo. Um fenômeno a ser pesquisado, debatido, conhecido e explicado. Vocação local para as tarefas da cultura e do desenvolvimento. Atuação do governo na aplicação de programas específicos voltados para o desenvolvimento e integrativos da cidadania.
    Na verdade, em cada rua topo monumentos votivos, comemorativos, estátuas gigantes diria em trajes bíblicos, de operários, artesãos, de santos. O anúncio de seminários e conclaves culturais programados, é difícil acreditar verdadeiros no fim do mundo, na última cidade do Estado. Induz a presença de forasteiros, peregrinos vidrados na arte nos eventos culturais. O Ceará está pertinho, dá pra escutar os ecos de lá. 
    Difícil mesmo, é encontrar o passado no centro de Triunfo. Mas nas imediações, numa casa antiga, no cochilo de um velho deparamos a tradição, que deu nascimento ao hoje que prenuncia o futuro. Porque as encenações e reuniões que falam resgatar o que se perdeu no tempo, apesar da riqueza de possibilidades deslustram o típico, resta o moderno, que exibe, entretanto, a sua significação militante.
    A leitura, que desde a meninice, tornara-se para mim um hábito copiado dos livros e dos jornais do meu pai, das revistas de minha mãe, que, eventualmente eu folheava, me socorre nas indecisões. Acredito que as novas gerações daqui gostam de livros.
    Fazer ou não fazer? Dizer ou não dizer? Eis a questão. Na minha casa e na de parentes tinha rádio e vitrola, um luxo na época. Minha mãe e minhas irmãs, as empregadas e as visitas cantarolavam. O clima de projetos e gastos era permanente. Era a medida da vida, do tempo, do recolhimento ou da comemoração. 
    Cheguei em Triunfo ainda encantado com a igreja, as beatas e a industria leiteira de Santa Helena, mas a cidade parecia ter parado no tempo. Mesmo assim as pessoas se aproximavam, conversavam não desconfiadas mas reticentes com gente de fora. Tracei o meu roteiro: Barra do Juá, Santarém, Bernardino Batista e Uirauna. Dali o meu regresso para casa.
    Esclareço o que me satisfaz neste mundo atrasado, como reclamam familiares e amigos. Tudo bem. Nasci entre os privilegiados socialmente, e de quanto vivi guardo boas lembranças, misturadas, evidentemente com dificuldades e dores. Quem não as sofreu? Aqui respiro fundo e encho os pulmões de oxigênio puro que se espalha pelo meu corpo, deixando uma sensação de bem estar, na ilusão de ganhar mais dias de vida. Assim recomenda a midia, ensina a TV. Nada melhor no trânsito a vida. Mas bate o receio mais cruel do que da riqueza perdida. O efêmero que domina os fatos da vida é avassalador. 
    A hora chegará. E agora?


  • 12/08/2015

    Dia do Advogado


     Na tarde animada com o chilreado dos galos de campina e rolinhas catando grãos no terreiro, o desafio belicoso das casacas de couro nas aroeiras e nos pereiros do pátio, poucas lembranças da minha vida de advogado, na comemoração do seu dia. Apenas, a assunção de defesas no tribunal do júri, algumas petições iniciais e contestações, agravos, apelações em ações cíveis, petitório eleitoral, nada mais. Uma exceptio litis per transactionem finitae, em razão de cochilo meu no decorrer da ação. O comum na vida forense. 

    Trazidas as vacas da roça, chiqueirados os bezerros, recolhida a criação miúda nos abrigos cobertos, findava o dia. Agora um café quente, mexer no envelope de fotografias, onde me localizo numa mesa de banquete no “11 de Agosto”, no Recife, ao lado de colegas acadêmicos, todos engravatados, destacando-se o bacharel Marcos Freire, então chefe de gabinete do prefeito Pelópidas Silveira, depois prefeito de Olinda, senador, ministro, o algoz da ARENA em Pernambuco, tragicamente desaparecido em acidente aéreo. À noite, era esperar o pio da coruja, o ulular da mãe da lua.
    *
    Vivo e gosto de morar em Sousa – na cidade ou na fazenda. É o meu lugar. Para falar, em dois somente (são muitos) – entre os milhares de amigos meus – que sofrem a perda da pátria de nascimento, da atividade profissional destacada, da liderança social, refiro Clarence Píres e Waldir Lima. O birô de escrituração das despesas do engenho, o consultório médico de atendimento em clínica geral, a cortejada nobreza familiar, o destaque a que tinham direito nas solenidades cívicas oficiais, constituem a sua própria história. Vivem hoje acabrunhados, acredito, num exílio inglório, de pura escolha. Dá saudade rememorar o passado. Ninguém gosta de perder nada. Mas, foram os dois arrastados pelos filhos, pelos netos. Tenho certeza. Eles que me contestem.
    Para ilustrar a argumentação cito Luiz Jardim que disse em estilo suave: “a pátria é a infância;” e Beaudelaire ”vase de tristesse ô grand taciturne”, fixou em poema antológico: “La patrie c’est l’enfance retrouvée”. 
    *
    Não retrocederei aos hominídeos, nem à busca de nossa origem simiesca, que remonta – deselegantemente, diria –, aos irmãos macacos chipanzé e aos abomináveis gorilas de que falou Darwin. Começarei com a nossa tradição ocidental, com os civilistas e igualmente militaristas gregos – peninsulares e insulares – de Creta, do Peloponeso, de Tróia e enclaves históricos por todo Mediterrâneo, pelo Mar Egeu. Conheci os tessalonicenses, nos comentários evangélicos de São Paulo Apóstolo, escu-tados sem detida atenção, nas missas de domingos e dias santos na Matriz dos Re-médios. Achava belíssimo o gentílico, a prosódia corrida e ritmada do vocábulo, como um verso, envolvido no mistério dos meus reduzidos conhecimentos de história, de geografia e gramatical da nossa língua.
    São dos gregos, efetivamente, as idéias que percorrem o planeta terra nos seus dois hemisférios, e têm sustentado teses e filosofias, ciência e arte, enfrentamentos e guerras. Hoje, a comodidade do recurso à clareza dos textos via web, que reproduzem as reflexões e as discussões sociais, dispensam afanosa busca em prateleiras e bibliotecas empoeiradas, de recursos limitados. Encontramos tudo que procuramos, com um sim-ples toque de dedo no teclado de um computador ligado à internet. Tal como explicam os instruídos advogado Bosco Fernandes, conterrâneo do Rio do Peixe e o meu primo do Rio Piancó médico Ernani Sá Leite, em citações hiper-eruditas que me destinam fre-quentemente, colhidas na famosa rede www. Isto sem falar em Neumanne, Aranha e Elpídio, aí sim, a coisa toma feição nacional, paraibana – comentam, interpretam, falam de fatos e impasses que de perto nos dizem respeito. 
    Contrariando o que venho discorrendo, escarafunchei e descobri na minha estante A RIVE GAUCHE, do norte-americano Herbert Lottman (Editora Guanabara – RJ, 1987), livro que trata de escritores, artistas e políticos em Paris (1930/1950), e reli algumas páginas. Afirma o autor, apreendendo o drama social e humano desse período que nos “...anos entre guerras, era pacífico considerar a França o centro do mundo literário e artístico, e Paris, natu-ralmente, o centro desse centro.” Ali se organizava a luta contra o nazi-fascismo. Por isso vale a advertência sentida de Oswald de Andrade: 
    “As novas gerações ignoram o que foi o aparecimento sinistro de Hitler no poder. Ao assumir o governo da Alemanha ante a inércia do velho marechal Hindenburg, o criador do nazismo deu como sinal de partida de suas atividades políticas o incêndio do Reischstag (Parlamento)”. Hitler teve e tem seguidores revelados, descobertos, na apuração do Watergate que levou à renúncia o presidente Nixon dos EUA, e no arrombamento da sede do PSB na nossa capital João Pessoa, com violação dos arquivos partidários, que espera a punição dos culpados, que todos conhecem de sobra.
    Entre os que testemunharam o significativo momento, Lottman cita o brasileiro Jorge Amado, que o viveu, freqüentou editoras, participou de congressos, passo a passo com Gide, Malraux, Ehrenburg, Benda, Sartre, dos Passos, a elite intelectual e mais aficionados, atestando o “caráter coletivo das atividades”, todos alinhados, “engajados” como foram qualificados, no combate ao fascismo implantad – o nazismo – crescendo na Alemanha. 
    Sendo a Justiça um conceito universal, a hora sempre é chegada. Herdamos esta trincheira para a luta. Este o nosso destino, a saga humanístico-bacharelesca, nascida em 1827 em Olinda, com a criação dos cursos jurídicos no Brasil. 
    Esse tempo homérico, para o comunista Jorge Amado e mais esquerdistas da primeira metade do século XX, subsidia os relatos da trilogia “Os Ásperos Tempos”, “Agonia da Noite”, “A Luz no Túnel”, publicados inicialmente como um único romance, contidos no épico “Os Subterrâneos da Liberdade”, que narra a crueza dos dias gloriosos da luta dos patriotas brasileiros contra o Estado Novo. Escrito no Castelo de Dobris na Tcheco Eslováquia (hospedagem paga com os direitos autorais), foi traduzido para o alemão, búlgaro, chinês, espanhol, grego, polonês, romeno, russo, esloveno, sueco e tcheco. Em Paris nos anos Oitenta do século passado, visitando o “Vieux Marais”, indicaram-me entre os sobrados no entorno de um espaçoso pátio retangular, a janela do apartamento pertencente ao autor de Cavaleiro da Esperança..
    *
    A RIVE GAUCHE narra momentos decisivos da vida política no curso da guerra ideológica. Verdadeiramente indicativo, foi o esforço recíproco URSS x EUA, para cooptação de intelectuais para apoio e aprovação do seu modelo de estado. Um retrato do drama universal da luta de classes – não tenho porque esconder esta verdade. Uns preferem defini-lo como entrevero oligárquico, enfeitá-lo com pirotecnia e extra-vagâncias sofisticas e verbais – que não passam de superficiais e típicas modificações do panorama mercantil, do consumo de alimentos, equipamentos e também da arte. Desde os anarquistas do início dos tempos, chegamos a Weber, Marcuse, McLuhan, Fukuyama e mais figuras conjuradas, que falam de impasses de natureza religiosa, de comunicação, de aldeia global, com o objetivo único de preservarem o modo de explo-ração capitalista do trabalhador e da natureza.
    *
    Eis a herança grega, que se estendeu por todos os países, em momentos oportunos, e vem dos diálogos de Sócrates com seus interlocutores nas feiras e praças de Atenas, fazendo a filosofia descer do trono dos deuses mitológicos para o meio do povo, como relata Platão. “Representa o reflexo da vida, ela mesma, que esteve se modificando durante muito tempo num mesmo ritmo revolucionário”, o que assinala o patriota Álvaro Lins.
    Registram melancolicamente alguns analistas dos acontecimentos, o declínio do prestígio dos literatos pensadores, e a ascensão dos cientistas com o desenvolvimento da energia atômica com o seu poder de destruição – um dado determinante pela iminência da deflagração de guerras. Seria, no caso, mais importante sobre política ouvir cientistas e não poetas. Nem tanto, eu contesto, com uma rebatida irrespondível do poeta Pinto do Monteiro, desdenhando do poder militar da grande nação do Norte, os Estados Unidos da América, referida em conversa no meu alpendre:
    “A América do Norte é quem
    Para todo canto sai.
    É a senhora do mundo 
    Manda em filho, manda em pai,
    Vai para as bandas da África
    Porém pra Cuba não vai.”

    Paro por aqui esta prolixa reflexão e comentário bacharelesco sobre o dia do Advogado, este herói enfatuado, defensor do direito e da justiça.


  • 09/08/2015

    Ferrovias, espionagem, o xote ecológico e FHC


     Deliciei-me com a leitura dos recentes comentários de Ramalho Leite tratando de trens de ferro que circulavam entre cidades do Brejo, e de um alemão de pose germânica algo irritante, vestindo paletó, andando por lá. Era o período da Segunda Guerra Mundial, e despertava suspeição tal procedimento, que poderia esconder uma ação para infiltração e recrutamento secreto de agentes de espionagem. Tal raciocínio ocorria naturalmente às pessoas melhor informadas, que escutavam o noticiário das estações de rádio.
    A lembrança dos trens é dolorosa para nós sousenses, dos alemães nem tanto. Mas vale a pena ler Ramalho pelo comprazer do seu estilo. Em feliz decisão a APL o incluiu no seu quadro de imortais. Um escritor de peso.
    Chama atenção e confere veracidade às anotações de sua estimulante lembrança, a datação do tempo da guerra, e o alto montante de recursos em dinheiro aplicado em negócios, escondido, enterrado por um estrangeiro, no caso um germânico. Tinha muitos deles ali perto, em Rio Tinto. Uma ponte, um acesso? Preocupava todos.
    O mundo inteiro, em áreas consideradas estratégicas, era objeto de ações do serviço secreto dos Aliados e do Eixo, objetivando ações militares. A costa da África estava ali à vista. No Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará os norte-americanos fixaram bases avançadas, Romantizavam até a vida social, com salões dançantes ao som de rumbas caribenhas, mostradas nos filmes americanos, figurando atores famosos.
    A legenda do Cassino Americano no Recife, ponto de encontro da oficialidade da aeronáutica do Tio Sam, em momentos de folga, curtindo os bares noturnos, a área da prostituição, era lembrada pelo poeta Celso Novais nos nossos papos no Cassino da Lagoa, ele naquele tempo estudante de direito do Recife. 
    Interessante descobrir a semelhança de lembranças de nossa vida ainda na juventude. Revelam o peso histórico dos fatos políticos ou danos da natureza, catastróficos, deixando marca nos costumes, na crônica do dia a dia local e universal. O mundo é um só. E hábitos e regras assemelhados, pela vizinhança geográfica, datam eras.
    Pois na minha Sousa também os trens corriam nos trilhos, chegados antes na rota do desenvolvimento do país. E alemães sem dinheiro, talvez comunistas fugitivos do Reich que os perseguia e exterminava ferozmente. Seria o caso de Sousa, homiziados os tedescos pelo meu tio afim Manoel Mariz, reconhecidamente um comuna de carteirinha. Daí a suspeita.
    Dois alemães que moravam na propriedade de Manoel, eram avistados na cidade nos dias de feira, comprando mantimentos. Ah a rica imaginação popular! Circulavam, comentários sobre a construção de um subterrâneo, com instalações de equipamentos para transmissão pelo rádio de algo contrário aos interesses das forças aliadas. O assunto do dia. Era preciso investigar para descobrir a verdade. O povo gosta dessas emergências. “E daí, e agora, como vai ficar?”
    Varejada a propriedade, a polícia encontrou apenas uma pequena casa de taipa com novo reboco, antes abandonada, onde eles moravam ou se escondiam da curiosidade, e também a escavação de terra para a construção da parede de um pequeno açude. Nada mais. 
    Augusto e Hans, presos juntamente com Manoel, todos foram soltos dois ou três dias depois. Augusto deixou família em Sousa onde faleceu, e casara com moça da terra. Uma família amiga. O outro sumiu.
    Agitada em rodas de comentários, a cabeça se voltando para um lado e para outro, os olhos espiando, a cidade retornou à normalidade. Lembro estes acontecimentos, que pouco me interessavam, mas enchiam a minha cabeça de suposições comentados na minha casa. Minha mãe lamentava: “Manoel não tem juízo.” 
    Mas a cidade parece que se tornara rota dos fugitivos, mesmo terminada a guerra. Lembro de outros que chegavam e partiam. Uma galegona linda de biquíni, espantava e atraía curiosos para a piscina de São Gonçalo. Sumiu. O mundo é um só. 
    Quanto aos trens, mesmo sem bombardeios aéreos, pararam de viajar transportando passageiros e cargas. Hoje rostos tristes, envelhecidos choram a mágoa do crime lesa-pátria cometido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o venal FHC, que os vendeu, isolou populações, barrou o progresso. Mas nos vingamos com uma paródia do Xote Ecológico cantado pelo negro Luiz Gonzaga, que fala na flor que tava aqui poluição comeu... e tudo desapareceu. 
    O nosso problema foi a corrupção. Assim cantamos nós: 
    “Cadê o trem de Mossoró? FHC vendeu.
    Cadê o trem do Recife? FHC vendeu.
    Cadê o trem de Fortaleza? FHC vendeu
    E o dinheiro ele comeu.”


  • 28/07/2015

    Machado, Xavier de Maistre, Druzz e Solha


     A literatura de viagem − no sentido da descoberta e intercambio de regiões, civilizações, quanto ao comercio, a ciência, as artes, os castelos, abadias e instalações públicas, nas nuances do traçado de suas linhas arquitetônicas, nos conduzem através de tempos pretéritos. 

    O pontilhismo e o cubismo, a técnica expressionista que contrapõe Palestrina e Carl Orff, os costumes do ponto de vista do observador embalam, assustam a alma – mas tornaram-se familiares, entre nós, pela leitura do velho Machado nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, e também do clássico Garret nas viagens pela sua terra. 
    Assim conhecemos e sabemos do mundo dando asas à nossa imaginação, carregando nas cores da nossa preferência, o relato descritivo de ambientes e pessoas que nos oferecem Guimarães Rosa e José Lins do Rego, artística e pedagogicamente criando uma consciência nacional, em causa − nossa própria representação psicológica que emoldura o traço exibicionista do caráter de cada um. 
    Antonio Cândido com a sua competência e erudição, em símile exponencial reconhece no “ato falho” [...] “um momento de tomada de consciência pela literatura da personalidade dividida... que dentro do homem convivem de modo nem sempre pacífico: a alma e o animal (a besta).” 
    A mudança do comportamento das pessoas nas pequenas comunidades, poderia ser considerada sociologicamente ou psicologicamente “atos falhos” no entendimento de Antonio Cândido? 
    Eis aonde chegamos, dando crença a essas ilustrações de ciências que enfeitam a realidade. Assim nasceram as guerras. Não sobrava tempo para lutar pela paz.
    No meu caso, esclareço, não falo de viagens nem de vilegiaturas de ricos, mas de passeios de desocupados, levados na busca de um mundo desaparecido, aniquilado inevitavelmente pelas mudanças sociais, pelo progresso econômico. 
    Encontro povoações antigas, afastadas das estradas reais, cidadezinhas teimosas que tentam sobreviver na oferta de novidades da modernidade, que o mercado faz chegar às grutas, às serranias. Pizza, batata-palha, biscoitos crocantes, nada de cuscus, de bolacha-comum.
    Assevera Antonio Cândido que “Machado um talento de envergadura... ele percebeu... as contradições do comportamento e da mente”. [...] “Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida.” Explica Machado na nota introdutória do Dom Casmurro.
    É o que transparece do erudito diálogo entre Druzz, Solha e quejandos. Serve a muitos, nos leva à aventura do saber e nos transporta em suspiros e desmaios de prazer e decepção. Porque a verdade comprovada em obras escritas parece estar nas suas observações. O Google e o designer substituem a pedagogia como instrumento de cultura. Por isto vou caminhando, a despeito do tempo e da distância. Mesmo destoando da marcha para a frente, no coice da boiada no seu ímpeto ameaçador, temeroso, é preciso seguir.
    A vida como ela é: da catapulta para a bomba atômica, do Cavalo de Troia para os drones.

     
     
     
     
     


  • 21/07/2015

    Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba


    Uma circunstância, antes ignorada e indiferente na minha crônica pessoal, hoje, me envaidece − a minha origem familiar cearense, pelos lados paterno e materno. Quanto à natividade, era eminentemente votiva à minha pequenina e heroica Paraíba, onde nasci, estendida a sua ramificação do vizinho Rio Grande do Norte.
    O Ceará guarda a beleza dos “verdes mares bravios da minha terra natal”, os epigramas de Paula Ney e Quintino Cunha, o saber jurídico de Clóvis Bevilácqua, o Rio Grande do Norte cultiva a glória do jornalista, político, inventor e aeronauta Augusto Severo, nome de rua em Paris, a imtelectualidade de Câmara Cascudo, nós paraibanos anunciamos nos “Diálogos das Grandezas do Brasil” a antevisão do nosso futuro, o padre Francisco João de Azevedo com a invenção da máquina de escrever, cujo teclado mecânico ainda compõe o moderno computador, o Poeta do Eu, sem exagero o mais lido em todas as línguas pela juventude em todo o mundo e as ideias libertárias e republicanas do mártir José Peregrino. Ilustre, portanto, a minha ascendência, a minha atividade – a prosápia ancestral misto de mascates e letrados. Aí está o meu orgulho.
    A verdade é que a transmigração – palavra desusada que me espantou e encantou no estudo primário no capítulo da “transmigração da família real para o Brasil” −, é uma expressão do comportamento, da conduta inerente ao ser vivo, daí eu não ser exclusivamente paraibano, mas igualmente cearense e norte-riograndense. 
    Palavras com muitas sílabas me encantavam – tessalonicense que está na Bíblia e pouco guardo do seu significado linguístico, geográfico, além do seu relacionamento com a vida, o credo cristão.
    Indivíduo falante, portanto, sofro e enfrento a descoberta que, hoje tenho pouco para dizer sobre pessoas e fatos do passado, que alimentavam a minha loquacidade. A idade que pesa. Recorro por afinidade e amor a uma cidade no significado dos seus costumes e tradição política, intelectual e social – o Recife −, para rever a minha querida Sousa.
    Mário Sette, um letrado de vasta obra, que ocupa modesto espaço na literatura brasileira, oferece-me, todavia, o quadro panorâmico para situar a minha vida, a minha cidade, a minha gente, a partir de textos de duvidoso sabor literário que deixo como crônicas, contos, poesia, romances, breves ensaios de caráter político, que escrevi para encher o tempo, pensando nos manes e penates que enfeitam e definem a sociedade dos homens.
    Explico-me quanto ao Ceará na minha origem familiar: o meu avô paterno José Gonçalves Matos Rolim, egresso de Lavras da Mangabeira, fixou-se e deixou descendentes na cidade de Cajazeiras; no Rio Grande do Norte a abastada familia Sousa Nogueira de Mossoró, incorporou pelo casamento o cearense de Sobral, Miguel Faustino do Monte, que mandou a sua sobrinha Natércia com o marido Tiburtino para criar e administrar em Sousa, a filial de sua empresa comercial que dominava os sertões do Rio Grande, Paraíba e Ceará.
    Pois aqui estamos, muito que bem felizes, graças a Deus. E cumprimos o nosso destino, com entrelaçamentos, ascensões e quedas. Mas seguimos, resistimos.


  • 13/07/2015

    Ivan Rosendo e o LGBT


     Com a mente cansada aos 81 anos, insisto, talvez por comodidade, em comentar determinados assuntos, objeto de críticas que faço e me comprazem em longos debates. É da minha natureza. Sou o que sou onde nasci. Tapado, dizem. 
    Uma questão de comportamento social via extravagâncias de hábitos quiçá psicossomáticos, tenta impor mudanças individuais. Visam à transformação do modo de ser pessoal e da existência coletiva. E já vira “comunidade”: LGBT. Lanço veementemente o meu protesto.
    Ofendido no meu modo de ser, assemelhado ao padrão geral de me apresentar privadamente ou no cerimonial mais destacado das reuniões, de presença reconhecida como protótipo, gabarito, reajo incontinenti. Afinal somos diferentes, ocupem o seu lugar os que me contestam.
    Retomo, afinal, em razão de excessos que condeno, uma simples reflexão, que leva à individualidade, quanto ao respeito à escolha, objeto deste inusitado debate sobre comportamentos e hábitos amorais. 
    Gozando a liberdade na maneira de viver e se apresentar, os gays, as sapatonas jamais foram reprimidos. Agora avançam o sinal, querem ocupar espaventosamente os espaços públicos reservados a todos. E cantam hinos, criam legenda excluindo os demais.
    Onde a família é legalmente e naturalmente organizada pela união dos gêneros masculino e feminino, considero perpetração de "crime hediondo" contra adultos e crianças, submetê-los ao choque de saberem que o seu pai é João e a sua mãe é Pedro; ou que a sua mãe é Rosa e o seu pai é Maria, diferentes dos demais. 
    Admito a liberdade individual, mas a linguagem e a tipificação e proteção legal da "viadagem e sapatonagem" acho um abuso inominável. Que vivam. Tenho amigos gays e amigas lésbicas, mas cada qual com a sua intimidade que não me interessa. 
    A sociedade política e as coletividades se organizam com estruturas legalmente constituídas. Por que destruí-las fraudando os costumes, a tra-dição? Uma escolha? Para mim mero apanágio da safadeza, estimulada e permitida pela corrupção e aviltamento das atribuições e do funcionamento do Executivo, do Judiciário e do Legislativo, poderes constitutivos do Estado. Impossível negar e esconder.
    Admiro o conterrâneo Ivan Rosendo que não conheço pessoalmente, porém, sei da sua atividade de aficionado, de militante principalmente nas lides do espírito, agitador da nossa vida cultural. Ele manifestou-se surpreendido com estas minhas convicções acima declaradas, antes lidas em algum lugar. Não deve ele, entretanto, constituir-se simplesmente, superficialmente numa “pedra no meio do caminho” no processo social, um acidente apenas, pelo contrário, melhor um passo a mais no seguimento evolutivo, no desenvolvimento das manifestações culturais de um povo. É o que lhe desejo, este é o caminho, me permito indicar..
    Tenho a declarar sobre Ivan, pelo que sei: ele é coerente nas suas ações no campo da modernidade, e marcou depois de “Letras do Sertão”, com a “Matriz das Artes” o episódio cultural de massa de maior significação na nossa cidade. 
    Falo das diferenças apregoadas. Tivemos no passado, a liderança do operário e carnavalesco Enéas Preto, aceita e respeitada dentro da cidade, associações e ordens cristãs a que acorria a sociedade. Perduraram algumas, desapareceram outras, naturalmente, sem maiores implicações na convivência da sociedade, guardando o seu espaço, no brilho ou não dos seus valores, de suas manifestações. Palhaçada, safadeza é outra coisa.


  • 02/07/2015

    Cemitério das almas


     Sitonio Pinto, para mim, pelo que tenho lido dele, e no noticiário, é o retratista do dia, da moda literária, criativa na Paraíba. Não direi up-to-date, por não ter clareza sobre o significado preciso e uso da expressão estrangeira. Melhor seria Dior ou Prada que parecem mais nossas, porque francesas e italianas, chegadas a nós, para quem batemos esteira, na pista do bolão da estética toda semana. E sabemos a que se referem − ao toque aplicado nos modelos vestidos pelas pessoas em cada evento social: cerimonioso, grave ou passeio, esportivo. 
    As letras também se vestem formalmente, para serem vistas e sentidas. Mas o que tem isso com a escrita, a literatura de Sitonio, que muitos desconhecem o texto e o autor? Respondo que tudo e muito mais.
    A propósito, ocorre-me a anedota sobre um deputado, que era citado sempre que se noticiava fato político ou administrativo. Mais criticado ou simples referência inexpressiva, ele respondeu francamente ao amigo que o alertara: “O essencial é que falem em mim: de mal ou de bem. Político sem notícia está no cemitério!” 
    A morte, o outro mundo, os espíritos, as almas. Perdemos horas da vida elucubrando sobre tais entidades. Na crença e na descrença. Nestas condições nasceu Sitonio Pinto em Princesa − cidade de contos e lendas medievas na convivência dos seus habitantes com autoridades conspícuas, mal-assombros, reitores, madres, cangaceiros, botijas, que não havia em muitas, entretanto delas se sabia, o que lhe assegurava o destaque entre as demais. 
    Dias atrás passei por lá, onde assistem Aloisio Pereira e Tião Lucena, dignificando qualquer amizade. Visitei Flores, subi a serra, deixei o Pajeú lá embaixo, cruzei Triunfo, alcancei Manaira e Santana de Mangueira, caí no Vale do Piancó com o cheiro de pólvora tomando a respiração. Mas nada estranho avistei, só as ruas, as pessoas, as serranias, as novidades dos novos tempos, sombras, ruínas dos velhos costumes. Nada de tristeza – alegria e ansiedade somente.
    Enquanto isto, Sitônio levado pela convivência com os mitos de sua gente, na balbúrdia e agitação da capital, é gentilmente ajudado por uma bela mulher que o deixa no endereço procurado Instituto Médico Legal (IML), vizinho ao cemitério, e na manhã fria, permanece em pé na calçada desfrutando os raios mornos do sol.
    Sei de muitas histórias de almas penadas de mulheres, que na alegria com os homens, divertem-se. Deixadas na sua morada, como pediram, espanta-se o companheiro, ao descobrir que se encontra no portão do cemitério que ela já adentrara, e sumia-se entre os túmulos.


  • 29/06/2015

    Em defesa da democracia


    Sobre as marteladas na Constituição e a censura prévia descabida de um magistrado

    Sobre as marteladas na Constituição e a censura prévia descabida de um magistrado

    "Eu não vou na sua casa pra você não ir na minha, você tem a boca grande e vai comer minha galinha". Essa frase de domínio público eu tirei da música de João da Praia, cujo o outro refrão dizia que "aonde a vaca vai, o boi vai atrás", e que era um cara simplório que fez sucesso nos anos oitenta com uma música que serve bem para ilustrar o meu comentário sobre as decisões, digamos assim, esdrúxulas do juiz Josivaldo Félix.

    Do mesmo jeito que vou comentar constrangido a decisão de um magistrado, gostaria que ele se sentisse assim quando tiver que usar seu ofício para me censurar ou censurar qualquer outro jornalista.

    No meu caso só tenho o poder de discordar, pois cercear a decisão de um juiz não cabe a um blogueiro. Repito, no máximo discordar, trazer para o debate público, como o faço agora.

    E não cabe a mim cercear pelo motivo de que decisão judicial não se proíbe nem se desrespeita, ataca-se com recursos ao alcance no Estado de Direito, recorre-se para instâncias acima e colegiadas.

    No caso das decisões esdrúxulas do juiz e professor de direito Josivaldo Félix contra o senador Cássio e contra a ex-primeira dama Pâmela Bório, a intenção foi a de censurar e cercear a liberdade de expressão, estancando assuntos que incomodam o governo, especialmente o Jampa Digital e a morte de Bruno Ernesto.

    E isso, que eu saiba com o meu pouco conhecimento do direito, ele não pode, pois existe uma Constituição que está muito acima de sua interpretação pessoal. E jusrisprudências que desmatelam suas decisões.

    O juiz Josivaldo acatou pedido dos advogados do governador Ricardo Coutinho e determinou que sites retirassem do ar declarações do senador Cássio sobre o governo RC.

    Nem bem a poeira da discussão de que o juiz havia se excedido na decisão, ele bateu seu martelinho de novo na tecla e desta vez para calar a ex-primeira dama, que a partir de uma decisão venezuelana de um juiz de primeira instância, não poderá, vejam só que aberração jurídica, tecer comentários em seu perfil nas redes sociais sobre os vínculos da deputada Estela com o Jampa Digital, e nem fazer, segundo sua excelência, "ilações" sobre a execução de Bruno Ernesto.

    Com todo respeito ao magistrado e correndo o risco de ser prejudicado por ele numa causa que respondo, que foi movida pelo mesmo Ricardo Coutinho e ele é o juiz, digo que ele desrespeitou a Constituição e deu marteladas no capítulo que fala sobre a liberdade de expressão e liberdade de imprensa.

    O juiz Josivaldo Félix não pode censurar a livre manifestação de pensamento nem do senador Cássio nem da ex-primeira dama Pâmela Bório, pois já existe na legislação dispositivo para que os ofendidos processem os autores por injúria e calúnia.

    Estela e Ricardo Coutinho fizeram a parte deles quando interpelaram os autores, mas o processo tem que tramitar nas instâncias, ouvir as partes e não unilateralmente um juiz decidir pela tutela antecipada, favorecendo só ao lado que se diz ofendido, ainda mais que são dois agente públicos, ambos realmente com vínculos com os comentários.

    Se ainda estivéssemos sob o período vedado, quando a legislação eleitoral permite que o juiz retire do ar a matéria antes mesmo do julgamento, eu ainda entenderia a decisão do juiz, mas martelar na mesma tecla duas vezes, favorecendo o mesmo lado, acho esdrúxulo e suspeitíssimo do ponto de vista do equilíbrio que ele deveria ter.

    Com todo respeito a decisão do juiz Josivaldo Félix, mas há uma diferença entre censor e juiz e essas decisões de vossa excelência serão desmoralizadas pelas instâncias superiores, especialmente no STF.

    EM TEMPO: diante dessas últimas decisões do juiz Josivaldo Félix, peço publicamente ao meu advogado Samaroni Filho para arguir a suspeição desse magistrado na causa que julga contra esse blogueiro.


  • 24/06/2015

    A sanha capitalista pelo lucro


     Expulsos da terra onde construíam suas vidas, submetidos à violência e brutalidade do modo capitalista de exploração da força do trabalhador - desprezadas até habilidades especiais de alguns -, jogados todos na vala comum do subemprego, uma família inteira de três gerações reunidas, migra em busca de um serviço qualquer remunerado, para sobreviver. Ao fim de inauditos sofrimentos, pervagando vilas e cidades, entregues à própria sorte, a família é reduzida pela morte de alguns que não suportaram os trancos da triste e forçada expedição. Vítima de falso envolvimento em ilícito criminal, um dentre os membros restantes vê-se obrigado a fugir, decidindo tornar-se um militante dos direitos sociais. 

    Este o tema, o enredo da saga das pessoas pobres no oeste norte-americano nas primeiras décadas do século passado, mostrada por John Steinbeck com poderosa força narrativa no seu romance épico “As Vinhas da Ira”. Seguem todos num caminhão sucateado, pessoas tristes e trastes velhos mal acomodados no espaço pequeno e desconfortável. Muitas barreiras, muita polícia na estrada, não os protegem, pelo contrário, os atormenta com investigações incriminatórias, incabíveis. Até guardas privados ditam ordens, rumos a seguir. De um lado o empregador, do outro o empregado. Chega a hora final, da perda da identidade, da memória. “Éramos muitos, trabalhávamos, vivíamos, éramos uma família... agora o que parecemos, o que nos resta, o que somos?” indagam-se.
    * * *
    No Brasil, fato semelhante, diferente somente nas nuances roma-nescas e próprias do modelo de sociedade onde ocorreu, no seu substrato, no âmago da questão, se repete com uma família reduzida a uma única geração que ignorava sua origem, que restara reunida, numa fuga dolorosa da morte pela fome, e sem um destino qualquer projetado. Seguiam guiados pelas estrelas que ditavam mensagens sobre o tempo. Somente a busca pela sobrevivência arrastava Fabiano, a mulher, os filhos e a cachorra Baleia pela estrada pedregosa e poeirenta. Sobrevivente, quando passara o pior, o sertanejo Fabiano se encostara como morador numa fazenda. Trabalhou. Matou um porco de chiqueiro e levou a carne para vender na rua. Precisões na casa. Precisão de panos e chinelos. Graciliano Ramos com frases curtas e palavras secas, retrata um drama universal transposto para a catinga sertaneja. 
    De cócoras, na feira, a carne no chão em cima do saco de estopa Fabiano espera fregueses. Aborda-o um homem carrancudo, com um talão na mão. Fabiano desvia o olhar e é cotucado com o bico da bota do homem. Olha zangado para o intruso e permanece calado. O fiscal fala alto, cobra o imposto devido para negociar. Fabiano não entende.
    O homem se mostra importante, se balança nas pernas e com o lápis em riste explica que todos devem ao governo uma parte de suas posses, e devem pagar a dívida quando desfrutam tais bens. Fabiano achou um exagero e uma injustiça tal imposição. Raciocina. Então ele comprou um bacorinho que a mulher e os filhos criaram e engordaram, tudo a sua própria custa, e o governo “sem-vê-de-quê”, tem uma parte? Difícil mesmo de entender.
    Fabiano pouco sabia de governo, e o que lograra conhecer não lhe agradara: o “soldado amarelo” que o levara para um jogo e o tapeou. Quando quis se retirar o soldado barrou-lhe os passos, aplicou-lhe no lom-bo pancadas com a folha do facão. Quis reagir, foi dominado e jogado no xadrez. Culpado. Criminoso. Ali estava com as carnes doloridas.
    O que fez Fabiano de sua vida e de sua família? Talvez o seu nome tenha sido trocado por um apelido sonoro, indicativo naquele tempo de poder e ação do cangaço: Ventania, Bala Seca, Moita Braba, Tempestade, Corisco, Serra Negra, Trovão, Patativa e Pilão... ou atraído para cidade grande e os filhos se tornaram “flanelinhas”, abandonaram a casa, a mulher morreu tísica, a cachorra Baleia... 
    * * *
    Pierre-Joseph Proudhon publicou um livro em Paris, em 1840, cujo título continha a indagação: “O que é a Propriedade?” A resposta foi dada por ele mesmo: “A Propriedade é um roubo”. Embora a obra o qualificasse e credenciasse como pensador, sociólogo, filósofo, economista, foi levado à justiça para se explicar. “A propriedade é um roubo”. Confirmou. Foi absolvido
    Mas tudo que é sólido desmancha no ar... 
    Finalizo com versos meus que guardam traços de um mito da sociedade, o trabalhador.

    ODE AO TRABALHADOR

    Joga sempre a mão. O trabalho
    Áspero só na imaginação 
    Dos estetas, completa a tese,
    Veste o xadrez da condenação.

    Quase não fala, expele a voz
    Rouca, rompendo intermitente o espaço.
    Fede e exala o odor da doença,
    E julgam-no apenas um palhaço.

    Guarda inteira a consciência.
    Reservaram-lhe da vida o
    Cansaço da lida, quanto cabe
    Ao homem por suportál-o.

    Tem os dias e as noites tem
    Em duros códigos limitados.
    Ergue os braços e brada impoluto
    O sinal dos punhos cerrados.


  • 21/06/2015

    Tradição ética e trabalho em Piancó - Humberto Cavalcanti da APL, do IHGP


     O nome não o indicava, mas Elzir Nogueira Matos pertencia a duas das famílias mais destacadas do sertão paraibano: os Leite Ferreira, de Piancó e os Matos Rolim, de Cajazeiras. Sua avó paterna, Francisca Leite Ferreira – dona Chiquinha – fugindo aos matrimônios endogâmicos, comuns nas famílias tradicionais, casara-se com o Juiz da comarca, o Dr. José Matos de Sousa Rolim, das núpcias, resultaram entre outros filhos Salviano e Tiburtino, ambos Leite Matos Rolim, este último o pai de Elzir e Eilzo Nogueira Matos.
    Viúva, dona Chiquinha voltou à terra natal, para criar filhos. Casou-se novamente, desta vez dentro dos hábitos familiares, com um parente distante, tendo outros filhos destas núpcias. Daqueles do primeiro leito, Salviano permaneceu em Piancó a partir de onde, apoiado na longa tradição política da família, encetou extensa e vitoriosa carreira, projetando-se política e admi-nistrativamente no estado e no país. Tiburtino foi para o Rio Grande do Norte, onde estudou, casou-se e lhe nasceram os filhos. 
    Elzir, porém, sempre se manteve ligado a Piancó e, principalmente ao tio Salviano a quem dedicou irrestrita solidariedade durante toda a vida. Salviano, já residente no Rio de Janeiro, atraiu o sobrinho que, na então capital federal fez curso de direito. Formado, preferiu regressar a Piancó onde a capacidade que já se lhe reconhecia, fez a família escolhê-lo pra disputar em 1955, a prefeitura, sucedendo a seu primo e futuro cunhado Djalma Leite Ferreira.
    A administração de Elzir em Piancó tornou-se um padrão de qualidade. Já em 1957 era escolhido, em concurso promovido por entidade nacional e divulgado na grande imprensa, um dos dez melhores prefeitos do Brasil. Não chegou a concluir o mandato, pois no ano seguinte, o governo estadual o convocava para ocupar a Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio.
    Foi então que o conheci. Eu era, na ocasião, oficial do gabinete do vice-governador em exercício, Pedro Godim. A chegada do novo secretário, aureolado com o renome de grande administrador, nacionalmente premiado, despertou natural curiosidade da grande parte dos auxiliares governamentais e da população que não o conhecia pessoalmente. Os primeiros contactos nos revelavam um homem ainda jovem – pouco mais de trinta anos – cortês, finamente educado, sem empáfias, mas sem acanhamentos. Era consciente de seu valor, mas essa consciência não o fazia assumir arroubos de superioridade.
    Pouco tempo depois de sua chegada, fui nomeado promotor público interino da cidade de Piancó. Lá aumentei as ligações com Elzir Matos. Nunca chegamos à intimidade, mas sempre fomos cordiais. Lá, também, pude observa-lhe o comportamento entre os conterrâneos. A todos tratava bem, a todos ouvia com paciência e deferência, até mesmo os adversários político que ele nunca transformou em inimigos e que, à unanimidade, reconheciam e louvavam seus dotes de administrador.
    Essa Secretaria foi o primeiro dos cargos exercidos por Elzir Matos fora de sua Cidade. Cinco vezes voltou a ocupar pastas estaduais, num reconhecimento de governos, das mais diversas tendências políticas, a seus méritos. Esteve em Funções de relevo na alta administração federal e em entidades de âmbito nacional e representou o Brasil em congresso da Organização Internacional do Trabalho. Em todas sempre se houve com aprumo, retidão e competência.
    Mas era, sobretudo um telúrico. Apaixonado pela terra de seus ancestrais e que adotou como sua, planejava viver seus últimos anos de vida em Piancó. Lá adquiriu terras e montou uma fazenda, excelentemente estruturada e organizada para atividades agropecuárias. Não seria exagero afirmar-se que, tanto ou mais que os rendimentos que iria auferir das atividades rurais, queria o contacto com a terra e o convívio com os conterrâneos que recebia com prazer na sua Humaitá.
    Os projetos lhe foram frustrados. A morte repentinamente o levou, na plenitude do vigor intelectual. Preparava-se para disputar uma cadeira de deputado federal, com reais chances de eleição. Na câmara dos deputados, de certo somaria seu nome aos tantos paraibanos ilustres que brilharam no congresso Nacional.
    * * *
    A família Leite teve singular projeção na política paraibana. Nos tempos imperiais, o Dr. João Leite Ferreira, deputado provincial, casara-se com uma filha de Felizardo Toscano Brito, o comendador Felizardo, chefe inconteste do Partido Liberal, e, com a morte do sogro, assumiu o comando do partido. Pouco tempo permaneceu na direção partidária, pois morreu dois anos depois. A chefia dos Liberais paraibanos passou às mãos do seu cunhado Francisco de Paula Silva Primo, até o fim do regime monárquico.
    O advento da República não afetou o prestígio da família que se espraiara das origens piancoenses, e não apenas pelas comunas do vale do Piancó: Misericórdia, atual Itaporanga e Conceição. Dois filhos de Paula Primo, João Leite Ferreira Primo e Francisco de Paula e Silva Primo (Chico Paula), ambos deputados estaduais, comandaram, durante algum tempo, facções políticas em Pombal e Patos, respectivamente. Também em Teixeira os Leites atuaram, chegando à prefeitura. E, através do desembargador José Peregrino de Araújo, casado com uma sobrinha do Dr. João Leite Ferreira, galgaram o governo do estado, no início do século XX.
    O grande nome, porém, da família da primeira República foi o Dr. Felizardo Toscano Leite Ferreira. Médico formado na Bahia, fora, ainda bem moço, deputado provincial. Na República, chegou até Assembléia legislativa e, depois, à Câmara Federal. Sua chefia política não se limitava ao município de Piancó: estendia-se a grande parte do sertão paraibano. Os chefes locais reconheciam-lhe o comando maior. As nomeações para os cargos públicos nos diversos municípios sertanejos tinham que passar pela aprovação do chefe local e, depois, pela do Dr. Felizardo. Não foi caso único na Paraíba. Antes dele, o coronel Valdevino Lobo, chefe local em Catolé do Rocha exercera igual suserania na região norte do sertão paraibano. Depois dele, por algum tempo, o coronel José Pereira comandou, de Princesa, vários municípios do sul sertanejo.
    Fiel, como maior parte dos antigos liberais, ao comando estadual de Álvaro Machado e do monsenhor Walfredo Leal, o Dr. Felizardo e toda a família viu-se lançado na oposição a partir de 1915. Ser oposição naqueles tempos não significava apenas ficar as margens das decisões políticas e administrativas: era, sobretudo, não ter qualquer esperança de chegar a elas. As eleições eram manipuladas, a bico de pena, como se dizia. E, se acaso a facção oposicionista lograsse triunfar num pleito municipal, sua vitória não era reconhecida pelo poder estadual. Assim ocorreu até que João Pessoa assumiu o governo do Estado, em outubro de 1928. Decidido a renovar os costumes políticos e administrativos da Paraíba, declarou que, fossem quais fossem os resultados das eleições municipais que se iriam realizar em dezembro seguinte, a vontade das urnas seria respeitada. E foi o que aconteceu. A família Leite ganhou a eleição em Piancó e sua vitória foi reconhecida. Em reconhecimento pela atitude democrática, os familiares de Dr. Felizardo apoiaram a candidatura do Presidente da Paraíba à vice-Presidência da República em 1930. O mesmo aconteceu com a família Mariz em Sousa, de modo que nos dois importantes municípios sertanejos se formou frente única em torno da Aliança Liberal.
    Depois da morte de Dr. Felizardo Leite, o grande nome que surgiu foi o do já referido Salviano Leite Rolim. Ainda bem moço, foi alcançado, da prefeitura piancoense à Secretaria do Interior e Justiça do Estado. Era uma pasta que envolvia muitas atribuições – da segurança pública à assistência social, da educação à saúde, do relacionamento com os municípios à articulação política. Salviano houve-se bem em todos os assuntos afeitos à Secretaria. Transferiu-se depois para o Rio de Janeiro, então Capital federal, onde ocupou funções de alta relevância em órgão públicos e privados.
    Nunca, porém, se ausentou espiritualmente de Piancó, Ia regularmente a terra natal, acompanhava os problemas, tomava conhecimento de suas necessidades, e a tudo procurava encaminhar e solucionar, valendo-se de duas ligações e amizades na sede do governo do país. Privou da amizade de alguns Presidentes da República, nomeadamente Getúlio Vargas, em cujo Diário foi um dos poucos paraibanos nomeadamente mencionados, Juscelino Kubitschek e Ernesto Geisel. E, principalmente, participava ativamente da política local, nela influindo deci-sivamente, através de seu irmão uterino Antônio Leite Montenegro.
    E, como vimos, Salviano preparou o sobrinho Elzir para sucedê-lo. Com Elzir aconteceu uma coisa que faz lembrar João Pessoa. Tanto quanto o grande Presidente recebeu a indicação familiar para governar a terra de origem. Ambos realizaram administrações inovadoras e que serviram de paradigmas. E depois deles, o poder familiar esvaeceu-se. Depois de 1930, desapareceu o comando da família Pessoa no plano estadual. Em 1959, na eleição que escolheu o sucessor de Elzir em Piancó, o candidato familiar Mário Leite Ferreira, o “major Mário”, foi derrotado. Houve, ainda, uma sobrevida, com a posterior eleição para prefeito de Antonio Leite Montenegro, que não se reelegera deputado nem, posteriormente, em novas tentativas conseguiu voltar à Assembléia Legislativa. Um integrante do ramo de Conceição, Wilson Leite Braga, amigo pessoal de Elzir e que também o convocou para Secretário do Estado, chegou ao governo estadual. Eilzo Matos foi deputado estadual por mais uma vez. Contudo, sua base eleitoral era no município de Sousa, recebendo muitos poucos votos em Piancó. Mas, no “Velho Guerreiro”, como Piancó foi chamado, não há atualmente, sequer um vereador da família Leite. Repetiu-se o acontecimento com outras famílias políticas pa-raibanas, hoje apenas constantes das páginas de história.
    ***
    Recentemente, um jovem piancoense, Yurick de Azevedo Lacerda, publicou um livro sobre Elzir Matos, resgatando a figura e as realizações do Construtor de Piancó, como o denominou o autor, de vez que, como ele afirma “os restos mortais de quase todas as obras de Elzir foram abandonados pelo poder público”.
    Agora, Eilzo, com sua vasta e reconhecida capacidade intelectual – jornalista, poeta, ficcionista, historiador, biógrafo – somada ao amor fraternal, escreve sobre seu ilustre irmão. Bem o faz. O nome e os feitos dos que mostraram dignos e íntegros na vida pública e contribuíram marcantemente para o progresso de seu Estado e do seu Município, como Elzir Nogueira Matos merecem ser lembrados e suas memórias reverenciadas pelas novas gerações.


  • 14/06/2015

    Freud é uma fraude


     Solha é um polígrafo, consagrado pela sua multifacetada obra e atividades intelectuais. Admiro-o no romantismo de sua aventura do espírito iluminado.
    Valores. 
    Como os cavaleiros andantes, noite à dentro velando as suas armas, para o duro combate pelo mundo a fora em nome do rei, da justiça, da amada, ele entregou-se a essa jornada. Nada mais bonito.
    Encontramos nos textos analíticos, críticos, comparativos sobre o fazer intelectual, a explicação de estilos ou escolas que se entremostram na sua tentativa de refletir tais conceitos, fruídos em repetitivos saraus com bebidinhas, docinhos e salgadinhos, cochichos e gritinhos. Aí está a verdade ou a moldura da arte? O principal ou o assessorial?
    Nada de humor. Nos salões cortesãos e nos terreiros esquecidos o encontramos também. Mas no falar ordinário, digo que a fidelidade às artes é a sua praia. Tinha entretanto - o que lamento -, nessa ordem de ideias, de terminar em Paulo Coelho - um revel da composição literária, premiado pelas academias de todos os países, em todos os quadrantes do globo. 
    Mérito de sua obra ou obra de Deus? 
    Nada de admirar. Ex-devoto de São Thiago de Compostela ele não acredita mais no milagre da fé, mas do dinheiro. Sou mais Raul Seixas, de quem ele herdou a obra e não revela os ganhos. 
    Ninguém explica cientificamente o “inconsciente” e poucos percebem o porquê dos saraus. O fundamento da verdade reside no comportamento das pessoas, cujas leis determinantes são comprovadas e conhecidas. A elaboração de teorias fundadas em hipóteses, é pessoal, sugere atividade intelectual misteriosa, insinua que alguém dispõe de conhecimentos que não estão ao alcance de todos. É uma falácia. Não foi assim que o homem chegou à Lua e às fibras óticas. 
    Termino com a pertinente indagação que ele me fez, no limite extremo da tolerância em face dos meus comentários: 
    Quid est veritas? Quid?


  • 11/06/2015

    Excessos e incongruências. Zombaria do PT


     

    Agora passou da medida mesmo! Vem de longe esta safadeza petista, desde as “cotas” as “bolsas”, “inclusão social”, entraram na compra de votos via “Mensalão”, “Lava Jato”, etc. Todos sabem. Mas esta não dá para suportar sem continuar protestando.
    Conheço um veado apelidado “Bruna Priquitinho”, outros chamados “Daiana Chupadinha”, “Felipinho Cu Arrochado”; sapatonas na mesma linha da indecência: “Mariano Pinguelão”, e variam as alcunhas na preferência e respeito do PT à moralidade pública.E como eles são atrevidos!
    Pois, surpreendam-se moralistas de plantão, essas fantasias constarão obrigatoriamente no Cartão do SUS, desde que declarem a sua preferência os titulares do direito. Está na imprensa, na mídia. Respeito direitos, alegam.
    O resguardo da imagem dos menores até 17 anos, 11 meses e vinte e nove dias de idade, flagrados em assaltos, assassinatos, de um cidadão, a uma residência ou uma casa comercial, participando de arrastões, etc, divulgando a sua “apreensão” e não prisão, protegendo a sua adolescência, é obedecido. Mas a coisa tem piorado muito. A violência e reincidência na prática de crimes, por esses indivíduos legalmente protegidos, aumenta assustadoramente.
    Afinal, pergunto-me: em que padrões e conceitos científicos se fundamentam as autoridades para tal cometimento? Segundo aprendi na Faculdade de Direito do Recife onde me diplomei bacharel, o direito tem origem e fundamenta-se em princípios incontestáveis de ciência conhecida, nos costumes. No caso, estou atrasado, desconheço a modernidade, ou os costumes estão depravados.
    LGBT. Tem muita gente que se diz boa nessa onda. Eu fico fora. Exemplifico: Ricardo Coutinho e Marta Suplicy.

     

     


  • 06/06/2015

    Mudanças - o tempo


     Tempos difíceis, o mundo já não é o mesmo. Falam aleatoriamente, sintetizando as crises que acompanham o desenvolvimento − na verdade os momentos críticos de transformação da superestrutura jurídica, que governa as relações sociais. E nós dentro delas. Fazer o quê?
    O que acontece mesmo é o novo, irreversível e originário da práxis determinante do processo social, na multiplicidade dos fatos, decorrentes do seu inter-relacionamento.
    Desde muito sabemos disto, porem recorremos, desesperados ou espertamente a entidades fantásticas, a conceitos e legendas míticas, racionalmente inexplicáveis, como provocadoras da situação que tornam satisfatórias ou desconfortáveis estas relações.
    Um morador da fazenda, pessoa submissa no passado, sem garantias legais do emprego, quando se ajustava na base do compadrio para arranjar moradia, alugar o seu trabalho, sentia-se hoje desamparado com a “modernidade”, e surpreendeu-me. 
    Numa conversa sobre a precariedade da segurança, da saúde, da educação, das marchas populares de protesto no país, do escandaloso casamento de homem com homem e mulher como mulher, que só aceita quem tem veado ou sapatão em casa, saiu-se com esta: “As dificuldades, começaram quando as mulheres tomaram o lugar dos homens. Tudo parece normal e garantido pelo governo. Mas a bagunça é geral. Eu digo que o lugar da mulher é em casa, parta cuidar da família“ E nós do escalão superior, ofendidos nos nossos privilégios, achávamos que o mal estava na presença de “ex-pobres” nos aeroportos, viajando para visitar parentes no norte ou no sul, para turismo na Disneylândia, em Roma, trocando presentes nos dias dos pais, dos namorados, etc.
    Não adiantaria objetar explicações fundadas na ciência paradoxal dos técnicos do governo do PT. Homem idoso, o seu conhecimento remontava a um mundo sem escolas, notícias, sem rádio e televisão. Tudo na sua mente estava confuso, fundado nas lendas primevas das primeiras sociedades humanas, de reis e rainhas, de feiticeiros...
    Obtemperei: “Mas as mulheres estudam e aprendem, sabem das coisas.” Ele atalhou: “A razão é minha, veja... Com o meu trabalho dava de comer e vestia a família... hoje mal posso sair de casa...” 
    A consciência da coletividade foi “esmagada e moída” como num almofariz. A verdade subliminarmente estraçalhada em conceitos falaciosos embotava o seu raciocínio, e ele debatia-se desajustado à nova realidade, restava-lhe a falsa compreensão do que estava certo ou errado, da sua significação e nada mais conhecia, sequer intuía da realidade. 
    A quebra do milho, a cata do feijão, o amojo dos bichos, a derrubada das matas, a carpina perderam-se no passado fundado no trabalho mesmo artesanal. A nossa origem é rural. De ricos e de pobres. Mas a marcha do tempo e das trans-formações é inexorável.


  • 26/05/2015

    Marx, Lênin e o PT


     Não custa nada, nem é sectarismo repetir com Marx, quando dizia: "Um espectro ronda a Europa. O espectro do comunismo", e Lenin sublinhava num rompante e visão soviete do problema, quando e o capital no seu desenvolvimento assume uma condição imperialista. A Europa sucumbiu, o seu mapa político está fragmentado, a economia arrasada. É o que se vê, e nesse cenário histórico impossível de esconder, debatem-se os cidadãos do mundo inteiro. 
    O problema da imigração assume proporções verdadeiramente assombrosas na vida dos Estados modernos. Uma muralha de concreto vigiada eletronicamente e por guardas fortemente armados, isola os latinos dos norte-americanos. Londres, Paris e outras grandes cidades europeias estão verdadeiramente invadidas por imigrantes miseráveis, perseguidos políticos, que impõem os seus costumes, reclamam espaços até privilegiados para se acomodarem. E dificultam a convivência entre os que chegaram e os naturais do lugar. Assim falam os turistas de hoje, que lá estiveram trinta anos atrás. 
    A luta agora, repito, é global, cruelmente, irresistivelmente neoliberal. Ruiu a federação que criara a URSS. Certamente, mas o que prevalece no mundo inteiro é o criminoso e burlesco lobismo, exibindo-se em helicópteros particulares, sobrevoando o congestionamento do transito em São Paulo e outras capitais do mundo, onde se debate a massa ignara, que se submete à regra da dominação da Banca Internacional, e atesta que a regra é a diferença. 
    O governo brasileiro criou 40 ministérios, outras tantas novas empresas públicas e parcerias público-privadas, agências reguladoras - que defendem os donos dos negócios e o povo consumidor fica de fora. A criminalidade, entretanto, aumenta assustadoramente a cada dia, os serviços públicos, a educação, a saúde, a dete-rioração da infraestrutura, a corrupção mostram-se avassaladoras. A moral pública está lá embaixo. 
    Dá medo e dá pena pensar no destino, e, assustado com a tragédia que destruiu personalidades heroicas como as de José Genoino, José Dirceu, Dilma Roussef e tantos outros, transformados em mamulengos, jograis da Banca Financeira Internacional. Cuida o Brasil de porto em Cuba, no Uruguai, outras mega construções na Venezuela, Bolívia, na África, e outras ações e serviços que são custeados e a assistidos pela diplomacia brasileira. Esquecidos de Gramci eles tocam um projeto. Tudo bem. Impossível calar depois da Petrobrás. Gritam nas ruas: “se roubam um pão e se roubam um avião o PT está no meio.” 
    Vislumbravam eles, quem sabe (por que não?), a criação de uma URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) no continente americano, entrevista secretamente, com otimismo. Cuba, Venezuela, Bolivia, Brasil, e outros países sustentariam esse desiderato, e resistem à eficaz e ameaçadora fúria golpista comandada pelos Oito Grandes. É o rumo da história. Muito de fourierismo, de cavalaria de cruzados bancaleônicos no petismo. Que fazer?
    Não incluo Lula neste time porque a sua visão do problema, a sua luta não era em favor do Brasil, era primária, simplesmente corporativista, oportunista, peleguista-sindical, de roda de botequim e de porrinha. Ele mesmo afirmou em entrevista que nada tinha com comunismo e esquerdismo, lutava, isto sim, pelo direito dos metalúrgicos. Somente. Mas a sua consciência de assalariado, nos entregou, pelo me- nos, este pacote de mudanças, e a liberdade democrática para realizarmos esta discussão. 
    Resta-me, como paraibano, recorrer à memória do "Poeta do Eu", que, no Recife, atravessando uma ponte, caminhando para a rua das funerárias, assombrado com a sua sombra magra, "Pensava no destino e tinha medo".


  • 19/05/2015

    A verdade sem absolver o PT


     “FHC - Itinerário de um desastre. A obra de destruição realizada por FHC não pode ser fruto do acaso. Ela só pode ser fruto de um planejamento meticuloso.

    Nenhum governo teve mídia tão favorável quanto o de FHC, o que não deixa de ser surpreendente, visto que em seus dois mandatos ele realizou uma extraordinária obra de demolição, de fazer inveja a Átila e a Gêngis Khan. Vale a pena relembrar algumas das passagens de um governo que deixará uma pesada herança para seu sucessor.
    A taxa média de crescimento da economia brasileira, ao longo da década tucana, foi a pior da história, em torno de 2,4%. Pior até mesmo que a taxa média da chamada década perdida, os anos 80, que girou em torno de 3,2%. No período, o patrimônio público representado pelas grandes estatais foi liquidado na bacia das almas. No discurso, essa operação serviria para reduzir a dívida pública e para atrair capitais. Na prática assistimos a um crescimento exponencial da dívida pública. A dívida interna saltou de R$ 60 bilhões para impensáveis R$ 630 bilhões, enquanto a dívida externa teve seu valor dobrado.(hoje ultrapassa tres trlhões) 
    Enquanto isso, o esperado afluxo de capitais não se verificou. Pelo contrário, o que vimos no setor elétrico foi exemplar. Uma parceria entre as elétricas privatizadas e o governo gerou uma aguda crise no setor, provocando um longo racionamento. Esse ano, para compensar o prejuízo que sua imprevidência deu ao povo, o governo premiou as elétricas com sobretaxas e um esdrúxulo programa de energia emergencial. Ou seja, os capitais internacionais não vieram e a incompetência das privatizadas está sendo financiada pelo povo.FHC não pode ser fruto do acaso. Ela só pode ser fruto de um planejamento “. 
    Alguns dos 45 escândalos que marcaram o governo FHC
    1 - Conivência com a corrupção
    O governo do PSDB tem sido conivente com a corrupção. Um dos primeiros gestos de FHC ao assumir a Presidência, em 1995, foi extinguir, por decreto, a Comissão Especial de Investigação, instituída no governo Itamar Franco e composta por representantes da sociedade civil, que tinha como objetivo combater a corrupção. Em 2001, para impedir a instalação da CPI da Corrupção, FHC criou a Controladoria-Geral da União, órgão que se especializou em abafar denúncias.
    2 - O escândalo do Sivam 
    O contrato para execução do projeto Sivam foi marcado por escândalos. A empresa Esca, associada à norte-americana Raytheon, e responsável pelo gerenciamento do projeto, foi extinta por fraudes contra a Previdência. Denúncias de tráfico de influência derrubaram o embaixador Júlio César dos Santos e o ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Mauro Gandra. 
    3 - A farra do Proer
    O Proer demonstrou, já em 1996, como seriam as relações do governo FHC com o sistema financeiro. Para FHC, o custo do programa ao Tesouro Nacional foi de 1% do PIB. Para os ex-presidentes do BC, Gustavo Loyola e Gustavo Franco, atingiu 3% do PIB. Mas para economistas da Cepal, os gastos chegaram a 12,3% do PIB, ou R$ 111,3 bilhões, incluindo a recapitalização do Banco do Brasil, da CEF e o socorro aos bancos estaduais. 
    4 - Caixa-dois de campanhas
    As campanhas de FHC em 1994 e em 1998 teriam se beneficiado de um esquema de caixa-dois. Em 1994, pelo menos R$ 5 milhões não apareceram na prestação de contas entregue ao TSE. Em 1998, teriam passado pela contabilidade paralela R$ 10,1 milhões.
    5 - Propina na privatização
    A privatização do sistema Telebrás e da Vale do Rio Doce foi marcada pela suspeição. Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-caixa de campanha de FHC e do senador José Serra e ex-diretor da Área Internacional do Banco do Brasil, é acusado de pedir propina de R$ 15 milhões para obter apoio dos fundos de pensão ao consórcio do empresário Benjamin Steinbruch, que levou a Vale, e de ter cobrado R$ 90 milhões para ajudar na montagem do consórcio Telemar.
    6 - A emenda da reeleição
    O instituto da reeleição foi obtido por FHC a preços altos. Gravações revelaram que os deputados Ronivon Santiago e João Maia, do PFL do Acre, ganharam R$ 200 mil para votar a favor do projeto. Os deputados foram expulsos do partido e renunciaram aos mandatos. Outros três deputados acusados de vender o voto, Chicão Brígido, Osmir Lima e Zila Bezerra, foram absolvidos pelo plenário da Câmara.
    7 - Grampos telefônicos
    Conversas gravadas de forma ilegal foram um capítulo à parte no governo FHC. Durante a privatização do sistema Telebrás, grampos no BNDES flagraram conversas de Luiz Carlos Mendonça de Barros, então ministro das Comunicações, e André Lara Resende, então presidente do BNDES, articulando o apoio da Previ para beneficiar o consórcio do banco Opportunity, que tinha como um dos donos o economista Pérsio Arida, amigo de Mendonça de Barros e de Lara Resende. Até FHC entrou na história, autorizando o uso de seu nome para pressionar o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.
    8 - TRT paulista
    A construção da sede do TRT paulista representou um desvio de R$ 169 milhões aos cofres públicos. A CPI do Judiciário contribuiu para levar o juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do Tribunal, para a cadeia e para cassar o mandato do Senador Luiz Estevão (PMDB-DF), dois dos principais envolvidos no caso.
    9 - Os ralos do DNER
    O DNER foi o principal foco de corrupção no governo de FHC. Seu último avanço em matéria de tecnologia da propina atende pelo nome de precatórios. A manobra consiste em furar a fila para o pagamento desses títulos. Estima-se que os beneficiados pela fraude pagavam 25% do valor dos precatórios para a quadrilha que comandava o esquema. O órgão acabou sendo extinto pelo governo.
    10 - O "caladão"
    O Brasil calou no início de julho de 1999 quando o governo FHC implementou o novo sistema de Discagem Direta a Distância (DDD). Uma pane geral deixou os telefones mudos. As empresas que provocaram o caos no sistema haviam sido recém-privatizadas. O "caladão" provocou prejuízo aos consumidores, às empresas e ao próprio governo. Ficou tudo por isso mesmo.
    11 - Desvalorização do real
    FHC se reelegeu em 1998 com um discurso que pregava "ou eu ou o caos". Segurou a quase paridade entre o real e o dólar até passar o pleito. Vencida a eleição, teve de desvalorizar a moeda. Há indícios de vazamento de informações do Banco Central. O deputado Aloizio Mercadante, do PT, divulgou lista com o nome dos 24 bancos que lucraram muito com a mudança cambial e outros quatro que registraram movimentação especulativa suspeita às vésperas do anúncio das medidas. 
    12 - O caso Marka/FonteCindam
    Durante a desvalorização do real, os bancos Marka e FonteCindam foram socorridos pelo Banco Central com R$ 1,6 bilhão. O pretexto é que a quebra desses bancos criaria risco sistêmico para a economia. Chico Lopes, ex-presidente do BC, e Salvatore Cacciola, ex-dono do Banco Marka, estiveram presos, ainda que por um pequeno lapso de tempo. Cacciola retornou à sua Itália natal, onde vive tranqüilo.
    13 - Base de Alcântara
    O governo FHC enfrenta resistências para aprovar o acordo de cooperação internacional que permite aos Estados Unidos usarem a Base de Lançamentos Espaciais de Alcântara (MA). Os termos do acordo são lesivos aos interesses nacionais. Exemplos: áreas de depósitos de material americano serão interditadas a autoridades brasileiras. O acesso brasileiro a novas tecnologias fica bloqueado e o acordo determina ainda com que países o Brasil pode se relacionar nessa área. Diante disso, o PT apresentou emendas ao tratado – todas acatadas na Comissão de Relações Exteriores da Câmara.
    14 - Biopirataria oficial
    Antigamente, os exploradores levavam nosso ouro e pedras preciosas. Hoje, levam nosso patrimônio genético. O governo FHC teve de rever o contrato escandaloso assinado entre a Bioamazônia e a Novartis, que possibilitaria a coleta e transferência de 10 mil microorganismos diferentes e o envio de cepas para o exterior, por 4 milhões de dólares. Sem direito ao recebimento de royalties. Como um único fungo pode render bilhões de dólares aos laboratórios farmacêuticos, o contrato não fazia sentido. Apenas oficializava a biopirataria.
    15 - O fiasco dos 500 anos
    As festividades dos 500 anos de descobrimento do Brasil, sob coordenação do ex-ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca (PFL-PR), se transformaram num fiasco monumental. Índios e sem-terra apanharam da polícia quando tentaram entrar em Porto Seguro (BA), palco das comemorações. O filho do presidente, Paulo Henrique Cardoso, é um dos denunciados pelo Ministério Público de participação no epísódio de superfaturamento da construção do estande brasileiro na Feira de Hannover, em 2000.
    16 - Eduardo Jorge, um personagem suspeito
    Eduardo Jorge Caldas, ex-secretário-geral da Presidência, é um dos personagens mais sombrios que freqüentou o Palácio do Planalto na era FHC. Suspeita-se que ele tenha se envolvido no esquema de liberação de verbas para o TRT paulista e em superfaturamento no Serpro, de montar o caixa-dois para a reeleição de FHC, de ter feito lobby para empresas de informática, e de manipular recursos dos fundos de pensão nas privatizações. Também teria tentado impedir a falência da Encol. - Continua amanhã.


  • 15/05/2015

    Reflexões impertinentes


     A poesia é expressão-manifestação psicossomática do ser vivo. Todos, todos a produzem. Não escutei ainda o canto das estrelas, não li os textos dos cometas, não que estejam mortos. Mas a nossa galáxia e o universo se expandem, movidos por uma força cósmica, produzindo e criando fenômenos. Arrisco esta opinião pessoal à margem da ciência conhecida. E me dou por satisfeito. Se alguém a formulou, igualitariamente similar, é coincidência pura. Ou por se tratar do “óbvio ululante” rotulado pelo nefasto Nelson Rodrigues o retratista intimista de teses apressadas, preguiçosas, inconclusivas, cretinas, sem buscar na análise cuidadosa a verdade do pensamento escondido no compor- tamento. Explosões em vez de harpejos, diria liriais, épicos ou líricos, como queiram. A poesia, entretanto, sempre será sonora, a prosa descritiva, explicativa; a fantasia sempre a superfície inconclusiva da inteligência limitada, sem padrões objetivos.

    Encontro-me no momento, perlustrando dois textos breves − em fugas internáuticas, que tudo permitem porque sabem o sabido e conhecido, pois só estes nos servem. Leituras panegíricamente pessoais de Carlos Nejar e Eduardo Portella – gaucho e nordestino atualizando, troando e mazurcando fandangos e forrós em ter- reiros, em salas, em campo aberto, nos pampas e nas catingas, no rifle e no punhal, atravessando eras, exercitando o pensamento. Apelos para Guimarães Rosa, Zé Lins do Rego, Augusto dos Anjos, Gilberto Freyre e Dionélio Machado que também trilham esses caminhos. A clareza e a complexidade ilustrativas que constroem a literatura e explicam a história. Cientistas como artistas e artistas como cientistas se mostrando. O coloquial de Zé Lins e o cientismo “up-to-date”, incontestável e eficiente de Augusto dos Anjos, no Nordeste; e Carlos Nejar e Dionélio Machado no Sul, nos rasgos gauchescos da flama e do recolhimento marcando a sociedade, agredindo-se em destemperos incontidos, sentimentais, expressão da luta dos contrários. Algo como a leitura dos “Lusíadas”, que dispensa memória de tese sobre o desenvolvimento político e econômico da Europa, nascidos em Portugal e na Espanha no século XVJ.
    A história é o fato, não se improvisa em tentativas. Aí fica para os chamados bastidores, quintiliânicos − na linguagem persuasiva das palavras, da retórica. A falsa política. Mas, resultado da condição humana, portanto, eis o texto literário, a poesia e a prosa. Não diria opção arbitrária de desestabilização da linguagem, porem eventual, fruto do amor, da dor, do egoísmo, da ambição, da glória e mais alvitres que povoam sua aura ignota, como das florestas e dos desertos. 
    Ouvi falar que os kardecistas sustentam que os animais, como o homem, também possuem alma. Perdura, entretanto, segundo observo, entre as duas expressões anímicas a condição de superioridade e inferioridade, vistas comparativamente ou não. Aí está, para mim, o segredo, o inevitável destino dos lados da vida, que está no “Livro dos Espíritos”, a impertérrita vivência: o rico e o pobre, o valente e o covarde, o novo e o velho. Assim os homens as entremostram e vivenciam.
    Ah a vida! Gosto desta exclamação desamparada, muitas vezes assim a sofro. Confesso-me preconceituoso, ciumento, despeitado com as afirmações que parecem convincentes, me contradizem, porém não as considero verdadeiras. 
    “Se quiserem saber quem sou/ - Não sei quem sou/ Só sei que em mim/ A sombra e a luz/ São vultos,/ Que se buscam e se amam/ Loucamente.” (Carlos Nejar}.
    O pernambucano acentua:
    “O patrulhamento é hiperpreconceituoso, é um exercício contundente do preconceito, é um desrespeito ao outro. Nós só somos democratas se formos capazes de aceitar o diferente da gente.” (Eduardo Portella).
    A arte realiza a utopia de cada um, na expressão plástica, estilística, conotativa, construtiva, do pensamento e da ação, inevitável, avassaladora, enfim. Partimos da postura sensitiva para a realização objetiva. “E agora José?”; “Deus, ó Deus, Onde estás que não respondes?”; “Ora, direis: Ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!” 
    “O Grito da Independência” e “Os retirantes”, “O trabalhador” realizam a revelação estética de uma realidade política e social legendária por Pedro Américo e Portinari. 
    As pessoas se interessam por disputas, combates, vitórias, conquistas. Ampliar espaços e ocupá-los para a realização que explicaria a tese, a proposição fruto de um esforço que alimenta sentimentos utópicos, constroem uma identidade pretendida. Eis a questão.

     
     
     


  • 13/05/2015

    João Bernardo de Albuquerque e o brilho das letras


     Morou em Sousa e agitou o ambiente social - como o fez em todos lugares por onde passou e viveu -, o bacharel e poeta João Bernardo de Albuquerque, um nosso conterrâneo das barreiras do Rio do Peixe, nascido ali na cidade irmã São João, nomeada depois Antenor Navarro, voltando atualmente ao topônimo do passado, da sua cristã origem: São João do Rio do Peixe. 
    Em Sousa ele se fez importante, necessário, requisitado, em ações no tocante a elevação do nível social e de funcionamento de instituições civis e públicas que compõem o cerne da sociedade. Jurista de formação na Faculdade de Direito do Recife, famosa nacionalmente, marcou época – como o fizeram Castro Alves e outros notáveis numes das letras brasileiras, impondo regras de comportamento seguidas pela juventude boêmia e culta que frequentou aquela renomada escola do direito, alegrou e destacou a vida cultural da metrópole pernambucana.
    João dava destaque às festas locais com a sua presença. Não ficava no “sereno”. Até tiros trocou com outro advogado numa rua central da cidade. E construiu a mais bela, moderna e funcional casa da cidade, ofuscando o bangalô do rico Ulisses Barros e os sobrados senhoriais de Emidio Sarmento e de Otacilio Sá.
    João era um homem de estatura alta, de ideias altissonantes, casado com uma mulher também alta, bonita, que se mostrava sempre ao seu lado e eram avistados de longe, mais ainda pela elegância do traje, o perfume francês que rescendia por onde passavam. Valia a crônica da sua vida, o ímpeto de suas atitudes.
    Uma parentela de sua esposa, pessoas destacadas, veio morar em Sousa, construíram casas também em estilo moderno, fizeram nascer uma rua chamada nobremente Rua das Princesas, escondendo o despeito local. Estabeleceram-se com lojas comerciais no ramo de tecidos e sapatarias, muito frequentadas. Nas tardes sertanejas as mulheres sentavam em rodas nas calçadas, deslocavam-se em troca de visitas de uma para outra residência, eram espionadas, invejadas. 
    Esses recém-chegados eram cearenses do Iguatu, e permitiram, sertã-nejos como nós, franco congraçamento entre a população dos dois burgos, a elite propriamente. As orquestras de baile se visitavam em festividades concorridas, muitas famílias uniram-se pelo casamento e os seus descendentes andam pela ruas, moram nas fazendas. Deu até preso no Golpe de 64, João Amílcar, estimado por todos, casado no povo de Napoleão do Forno Velho.
    Mudando-se o jurista e poeta para morar na capital, pelo exercício do cargo público, foi vendido o palacete – luxuosa mansão −, ao benemérito sousense João Virgínio de Sousa, o conhecido João Cazé, estimado fazendeiro de família numerosa, sendo com o seu falecimento, demolido em razão do inventário e pela valorização do terreno, dada a sua localização em rua central extensão e valor.
    Deixo que falem sobre João Bernardo − o poeta, o homem de gênio −, intelectuais de renome nacional, e indico as fontes facilmente acessíveis nas páginas da nossa saudosa revista “Letras do Sertão”, disponíveis no meu site Prosa Caótica na internet, no CCBN e com alguns amigos a quem doei, gravados em DVD a coleção completa dos exemplares. Disponho de outros, que posso presentear aos que me solicitarem. 
    Começo com a transcrição de texto de Mauro Mota, mestre do jornalismo, da Academia Pernambucana de Letras, que vale pela verdade testemunhal da convivência. (contnua)


  • 11/05/2015

    A literatura e a visão do mundo


    Prezado Hilderbeto

    Depois de ler a sua poesia, análises de sua critica literária, e de percorrer as veredas de suas crônicas na midia eletrônica, favorece-me o marxismo, fundamentando no método do materialismo histórico, inapelavelmente, a explicação do comportamento, diria, da vida do homem na sociedade. Estranho? Não me parece.

    Gosto de sua literatura: poesia, crítica, prosa em geral. Do melhor nível no país, no meu modesto julgamento. Na mundividência, talvez, está a nossa possível discordância. Mas detalhes somente, que as invalidam, talvez, reciprocamente.
    Gosto da sua geo-literatura, inegavelmente fruto da sua vinda ao mundo, num lugar montanhoso de plantas e de rochas graníticas de abstrusas formas, acontecidas nos momentos precisos que se formam as substâncias orgânicas e minerais, e da super estrutura jurídica e ideológica da sociedade organizada como conhecemos, onde você viveu. Tal não acontece com todos, assumindo o fato, entretanto, no seu caso, os fetiches da mitologia cósmica, laboratorial, o contraponto de suas letras.
    Você não é um poeta somente, por lidar com as palavras, como asseverou alhures. O é pela emoção, quando a revela. Escritor, arma-se com a inteligência cultivada, para a guerra da vida, com o artefato e o artifício da linguagem para enfrentar a morte, não para viver a vida que pouco importa, a morte não.
    No prejuízo e no lucro, estão os arquétipos da vida em geral, desde as regras sintáticas da linguagem às questões biogenéticas dos seres vivos, a cristalografia mineral. Uma dura contabilidade, a contragosto. É a minha ciência da vida e do ser. Mas estas noções bastam para alegrar-me com os sucessos de uns, lamentar os equívocos de outros. Inclusive os meus.
    Assevero sem medo de errar, que a minha visão da vida e do mundo recolhi-a na observação, na aferição de status, dada a minha vivência social, permitindo-me a leitura e o entendimento do estro de Augusto dos Anjos. Nada de esoterismo, de gnose. Mas das atividades tendentes a criar as condições indispensáveis à existência organizada da matéria e da sociedade, e, particularmente, na atividade concreta da produção e da prática humana. Enfim a complementaridade da "filosofia das luzes" e das ciências naturais.
    A realização acadêmica e fantasiosa de ajuizamentos, não escapa à regra do “Senhor Mercado” que tudo transforma em objeto de comercialização: o Prêmio, o Emprego, a Titularidade.”
    Escrevi para Evandro da Nóbrega:
    “Augusto do Pau d’Arco, não era de tergiversação, porque o seu raciocínio alcançava a essência das coisas, moldadas em palavras definitivamente, no seu audacíssimo pensamento. E transformava-o em algo profundo, grandioso na explicação dos fatos e fenômenos que constituem a existência, o cosmo:
    “Eu, filho do carbono e do amoníaco…”
    Não precisava dizer mais. Neste verso descobrimos a matriz cósmica da sua mundividência. Ele não criou modelos nem caminhos. Retratar a vida na plenitude lírica da emoção, de sentimentos entrevistos na realidade físico-química, explicitados na concreção da linguagem científica e filosoficamente mostrada em versos, foi o que ele fez. Algo intuitivamente empolgante e filosófico como os poemas de João Cabral de Melo Neto, duros e fortes tal pancadas de marreta partindo um lajeiro, produzindo paralelepípedos, relatando o trabalho, a fuga do migrante sertanejo sem terra, sem emprego na sua jornada como as águas para o mar, e finalmente o encontro com o hidrópico vivente do manguezal.
    Na minha limitação intelectual, confesso, e concluo que o fracasso final de modelos e sistemas políticos construídos, culminando entre nós, deve-se a atropelada confusão pelo academismo petista, na leitura da sociologia ambulatorial-trabalhista de Josué de Castro, para explicarem textos afins, para criação de sovietes, meros factóides, encarregados de emitir conceitos e normas disciplinadoras de todas as atividades artísticas. Uma paisagem humana vista e antevista.
    O domínio da cena pela “esperteza” capitalista, na conceituação e qualificação de temas e modos de realização literária, dá lugar ao surgimento de uma profusão de teses, incompatíveis na minha concepção, para explicação do fenômeno artístico. Impenitente como personagens do meu romance “A Invasão das Cobras”, advertidos por você, sigo em frente com o meu entendimento, sem desdouro a ninguém.
    Com a admiração de sempre. Eilzo Matos


  • 08/05/2015

    O poeta Firmino Leite


     Firmino Leite, filho de família rica se formara doutor em medicina. No estudo aprendera muitas palavras novas, desconhecidas em casa e no lugar. E tomara gosto em saber das coisas nos seus detalhes e ligações pertinentes, ou que surgiam, aconteciam a-leatórias ou necessariamente: assim como a juven-tude acontece na primavera da vida, e o cidadão esperto é chamado raposa – para falar como ele gostava e fazia. 

    Tudo acontece, tudo nasce nos comentários eu-trapélicos sempre carregados de realidade. Insi-nuara-se acuradamente no ambiente mais visível e fraterno do meio: o chão, os matos, os habitantes bichos e pessoas – que ele os conhecia todos no seu porte, nos seus gestos mansos e arrepios, na sua superioridade e inferioridade pela força, pela agi-lidade, pelo estilo natural em cada um.
    Trabalhou árduo, duro na medicina, mas o atra-palhava mesmo, a curiosidade de saber algo mais, e nada alem foi, nada a ver com a sua profissão aprendida nas escolas. Assim, conhecia os paus pela casca, pelas folhas, os bichos pelo couro, passa-rinhos pelas penas e todos pelo canto, a voz: o esgrouviado ou buchudo, nanico ou galalau, a fala nas horas e desoras − suas vozes proféticas como da acauã e da mãe da lua.
    Naturalmente, por razões que tais, tornou-se o melhor intelectual da família. Dá para conferir na sua poesia, na sua prosa, deixadas em publicações várias, ecoando ainda hoje nos tabuleiros nativos. Intimamente sabia-se feito nas letras, mas, genero-samente desculpava-se. “Se eu possuo alguma virtude é a de não ter atropelado ou obstruído a ascensão dos meus semelhantes. Fiquei sempre à margem do caminho para deixar passar seu mérito.”
    Transcrevo a seguir, dois textos sobre a lingua-gem e a obra do escritor Guimarães Rosa, a pro-priedade das reflexões perfeitamente ajustadas ao escritor Firmino Leite.
    Os gerais e o sertão semiárido da Paraiba, sua gente: os costumes, a vida. Não é tarefa difícil demonstrá-lo na literatura dos escritores citados.
    O Professor Willi Bolle, um cientista da língua-gem nos diz: "Grande Sertão: dois universos pa-ralelos (...) é uma montagem em contraste. Com isso o autor se refere a dois universos de linguagem, dois mundos de fala. De um lado, o grande discurso, a grande eloqüência, a norma culta, do outro lado, as veredas, a fala humilde das pessoas que moram no sertão. As veredas são os cursos de água e, por extensão, as clareiras onde se estabelecem mais facilmente as moradias”. Ao mesmo tempo, a evo-cação de um conjunto de significados tão carac-terístico do ambiente do sertão impõe à obra um forte traço particular, do qual Guimarães Rosa não pretende escapar. Por isso, a fortuna crítica de Grande Sertão insiste em marcar o movimento ambivalente da narrativa, sempre oscilante entre o regional e o universal.”
    Antônio Cândido, que é um crítico, diz que o Grande Sertão “tem tudo para quem estiver a ler: a vegetação do sertão, a botânica (...) o historiador vai encontrar a marca do seu ofício, o botânico vai encontrar, o ecologista vai encontrar, o sociólogo vai encontrar, o filósofo vai encontrar. O Tom Jobim foi lá e ouviu música no Grande Sertão. Ele botou o livro no ouvido, igual concha do mar e ouviu música”.
    Tal acontece comigo: leio Firmino Leite e escuto emboladas, aboios, cheiro de moagem, musica va-riada, bater de chocalhos, espocar de foguetões, rugidos de trovões, claridades entonteantes de ralâmpagos, mugidos grunhidos – todas as vozes de lá do sertão do Piancó, de Patos de Espinharas. Doe e alegra-se o meu coração.
    Por último um retrato do mundo do sertanejo Firmino Leite na descrição do seu irmão de letras Câmara Cascudo:
    “Vivi no sertão típico agora desaparecido. A luz elétrica não aparecera. [...] O cminhão matou o `comboio´ lento, tranquilio, trazendo fardos, dirigido pela `madrinha´, tangido pelas cantigas dos com-boieiros, o encantamento dos `arranchos´ [...] as histórias de assombração, de dinheiro enterrado, de cantadores famosos perderam a sua melhor mol-dura. Toda essa revolução veio depois de 1911. [...] as `eras dos setecentos´ [...] Mordido de cobra não podia ouvir fala de mulher. Nome de menino era do santo do dia. [...] Os fazendeiros perdiam o nome da família [...] coronel Chico Pedro da Serra Branca, Manoel Bazio do Arvoredo... [...] Vivi nesse meio... [...] A herança feudal pesava como uma luva de ferro. Mas defendia a mão.”
    A poesia de Firmino Leite é o metabolismo dessa paisagem e desses costumes regionais. Souberam-no poeta porque esconder a poesia que lhe brotava do coração, seria cortar a sua própria vida. 
    Já andei por outros lugares, mas voltei para o sertão. Contrariando expectativas realizei o que ele tanto desejou e não pode fazê-lo: desfrutar os dias que me restam nesta sociedade que é o “cerne da nacionalidade” como a definiu o autor de “Os Ser-tões”. Viver e sentir o amanhecer, o entardecer numa fazenda velha sem o luxo da piscina, da cerâmica esmaltada; com os traços guardados do escuro das camarinhas, com as mulheres na cozinha, com a fartura do leite, do queijo, do feijão, do angu.


  • 04/05/2015

    Sousa e Areia - Uma Viagem no Tempo


     Pedro Américo – todos os que frequentaram escola, entre nós, certamente o conhecem, destacado que é entre os brasileiros mais notáveis. A magnífica tela retratando o “Grito do Ipiranga”, que ilustra textos e documentos sobre os pintores brasileiros e a história do Brasil, nasceu do seu pincel, no civismo da ocasião retratada, nas cores tão vivas da paisagem natural que povoavam a sua memória; bebidas na luminosidade cromática das encostas orientais da Borborema onde se incrustou como joia rara, a cidade de Areia, que cognominei orgulhosamente, em cerimônia consagradora: Cidade Relíquia da Paraíba. Assim ditavam as suas conquistas, o seu galardão, honrados por José Rufino e José Henrique, no cenário político e intelectual do nosso Estado, do nosso país, ainda hoje não igualados, pelas suas co-irmãs paraibanas, nos feitos e alcance de sua presença.
    Na tela referida, estão retratados na mais nobre expressão plástica, a paisagem rural e cavalarianos do séquito imperial, ao lado de Sua Majestade de espada desembainhada, erguida acima da cabeça, seguidos de cortesãos, em marcha; e o intimorato gesto patriótico, declarando e conferindo independência política ao Brasil, então colônia de Portugal.
    Pois essa genialidade do areiense, ainda muito jovem, medrou em Areia e exercitou-se em Sousa, integrando missão científica que ali aportara e se demorara no século XIX.
    * *
    Conhecido também dos brasileiros que estudaram a nossa história, portanto, é Jean Jacques Brunet, cientista francês, que em famosíssima missão autorizada pelo Imperador, realizou no Século XIX, um levantamento detalhado dos recursos naturais do Brasil, pela análise e descrição do meio físico – minerais, fauna e flora, chegando ao comentário antropológico sobre o meio rural e urbano, suas construções, sua gente. 
    “A sua chegada á Paraíba em junho de 1853 foi comunicada ao Ministro do Império pelo Presidente da Província, Antônio Coêlho de Sá e Albuquerque que o apresentou como naturalista de bastante conhecimentos e habilidades, viajando á própria expensa”.[*]
    Com a notícia da presença do cientista entre nós, o Governo Imperial apresou-se em contratá-lo para estudar os nossos sistemas hidrográfico e orográfico; a geologia, com as suas possibilidades mineralógicas e relíquias fosseis; a flora e a fauna, catalogando as espécies ainda desconhecidas; e tudo mais que lhe parecesse de possibilidades econômicas para a região.
    Descobrindo em Areia o garoto prodígio Pedro Américo, Brunet incorporou-o á missão cientifica, trazendo-o, menino ainda, para as penosas caminhadas que empreendera. (ob. Cit). Chegando ao sertão, aqui realizou o jovem o registro artístico-científico dos dados objeto da pesquisa.
    * *
    Em Sousa a missão Brunet demorou-se na fazenda Flexa, na Várzea dos Martins, na proximidade de São José da Lagoa Tapada. Ali Jean Jacques e o menino Pedro Américo de-senvolveram as atividades constantes de relatórios levantados pelo historiador Vingt-un Rosado, que representam a rara e única coleção de referências científicas ao meio ambiente do semiárido no século XIX, com paisagens e figurações, fichas técnicas, cadernos de campo, relações nominais, criação de vasta nomenclatura científica de seres orgânicos e inorgânicos, fauna e flora, minerais raros, resultado dos seus trabalhos.
    Na senhorial fazenda, onde foram recebidos e se hospedaram, também casaram Jean Jacques e o filho Theobald, que ali faleceu anos depois e foi sepultado, deixando descendentes que constituem a numerosa família dos Brunets da Paraíba. Com cara de taberneiros sonolentos, narigudos, barrigudos, acentuada calvície, vistos em Zola, Balzac, Dumas, Sue, aqui remanescem os tipos. Fixaram-se eles nas ribeiras do Piancó/Peixe/Piranhas. O outro, Jean Jacques, seguiu com a esposa sousense, através do Brasil, referindo a família, correspondência recebida de sua passagem pela Baía, Amazonas, finalmente Venezuela, através do correio diplomático.
    Na primeira década do século XX, o governo da Paraíba mandou como Promotor Publico para Sousa o areiense Jose Américo de Almeida, que vivenciou na catinga sertaneja a tragédia das famílias tangidas pelas secas, que conhecera na bagaceira dos engenhos de Brejo de Areia, famintos, compondo o cenário retratado no romance A Bagaceira, introdutor do realismo no romance brasileiro, como um libelo crime acusatório produzido no seu mister judiciário. 
    Aqui estamos, pois, sousenses e areienses, dignamente representados nos mais significativos momentos da história do nosso país, através da elaboração de dados científicos levantados, identificados, ganhando notabilidade pelo destaque conquistado no mundo cultural do país pelo pintor e pelo cientista. E no ato maior que elevou os pais a Estado Soberano e Independente. No caso Sousa e Areia, reunidas.
    Sertão 15 / 11/ 2008. No mundo dos Brunets.
    [*] LEITÃO, Deusdedith, “As Andanças de Brunet”, in “Letras do Sertão”Ano IV No. 11, pág. 7, 1954.


  • 23/04/2015

    Liberalismo e Socialismo


      "LIBERALISMO/SOCIALISMO ANOTAÇÕES SOBRE O PENSAMENTO POLÍTICO DE NORBERTO BOBBIO et alii Começo com estas anotações, fruto de breves leituras sobre liberalismo e socia-lismo, e do pensamento político de Bobbio, Norberto et alii, citando a advertência de Spinosa aos otimistas, lembrando que devemos estar alertas quanto a “construções quiméricas, realizáveis somente no mundo da utopia ou naquela idade do ouro na qual não eram de fato necessárias.” Na verdade, muitas vezes somos levados pela convicção do acerto das nossas idéias e conduzidos pelo entusiasmo da nossa emoção, a assumir posições no campo do conhe-cimento, embrulhando palavras, sem ideias claras. Muitos discutem os meios para conquistar o poder e não sobre a forma de exercê-lo depois da conquista. Valem as transcrições relativas ao assunto. “A democracia é uma coisa somente: quer dizer sistema parlamentar, pluralidade de partidos, eleições periódicas, liberdades civis e políticas.” “O socialismo é uma concepção de vida coletiva e de socialização dos meios de produção. É a luta contra o privilégio em nome do princípio da igualdade. Onde os mo-vimentos políticos e sociais se inspiram nesses princípios fundamentais de maior igualdade entre os homens aí está o socialismo.” A forma de como o poder se exerce é questão crucial, para salvaguarda do pluralismo. Na Rússia nasceu um estado totalitário com a conquista do poder pelos soviets e a dissolução da Assembléia Constituinte, a adoção de uma ideologia oficial que deveria ser aceita por todos, em obediência aos preceitos do leninismo. O leninismo (já não é atual, tem apenas relevo histórico) considera que a tomada do poder por parte de um partido seja a condição necessária e até suficiente para transformar a sociedade. O que aconteceu na União Soviética demonstra o erro dessa concepção. Num mundo de “espantosas injustiças”, diz Bobbio, não se pode pensar que a “esperança de revolução tenha morrido só porque a utopia comunista faliu.”. A democracia venceu o desafio do comunismo histórico, admitamo-lo. Mas com que meios e com que ideais dispõe-se a enfrentar os mesmos problemas que deram origem ao desafio comu-nista?” Esquerda e Direita sobrevivem. Impossível negá-lo, a partir desta afirmação. Estes comentários, no meu entender, aplicam-se à situação criada no Brasil com a eleição de Lula e, literalmente, a tomada do poder pelo grupo de intelectuais que se dizem gramscianos. Sem tese ou opção para o exercício democrático do governo, o PT patrocinou danosas ações de malversação de dinheiros públicos, comprovadas na irrespondível e injustificável marca da corrupção no Congresso Nacional, nos municípios, nos estados e nas áreas do governo federal, E ao apelo para soluções baseadas na corupção, conhecidas como mensalão, caixa dois, e a insólita candidatura, em eleição prevista no calendário eleitoral, do presidente do Supremo Tribunal Federal que deveria, ética e legalmente, estar fora das cogitações. A postura ética e política do PT, representou, ainda na argumentação de Bobbio, “a conquista do poder por parte da ala revolucionária do partido que se considerava a vanguarda do movimento dos trabalhadores”. Esclareço que não faço acusações e críticas ao PT, isentando os demais partidos que compõem a cúpula política nacional, de ofensas à ética, ao decoro, ao dever de sal-vaguardar a dignidade da pátria. Desde a campanha de Collor e Fernando Henrique (tratando de tempos recentes) o desrespeito à legislação eleitoral, o famoso “caixa dois”, prática conhecida com outro nome no passado, tornou-se a lavagem oficial dos dinheiros públicos desviados para engordar contas bancárias, aumentar o patrimônio e o luxo de políticos conhecidos em todos os recantos do Brasil. Cada um de nós, olhando em torno, conhece e vê os aproveitadores. Somente a permissividade patrocinada pela mídia, permite que muitos nomes ainda sejam vistos nas listas de candidatos em eleições, e anunciados para ocuparem cargos destacados na admi-nistração pública. Ao Partido dos Trabalhadores e às demais agremiações partidárias que funcionam no país, cabe a tarefa de afastar das suas fileiras cidadãos envolvidos em crimes contra a administração pública, os direitos do cidadão, e adotar a regra do conhecimento e do debate do seu programa por parte dos filiados. O histórico debate filosófico-político-ideológico travado a partir das notas trocadas por Bettino Craxi e Enrico Berlinguer na Europa, deixou frases e conceitos curiosos, espantosos numa análise crítica da obra de Marx, Lênin e Gramsci, filósofos da história, de uma teoria do Estado e da revolução. Sem tentar o aprofundamento dos comentários e referências, citarei frases de socialistas e comunistas, indistintamente, e achegas de Bobbio nas suas pertinentes observações. “O socialismo não se identifica com o marxismo, muito menos com o leninismo” afirmou Cláudio Martelli, do Departamento Cultural do PSI. Buscavam os italianos iden-tidade própria, e Craxi acentuava: “Foi o leninismo que originou o totalitarismo que redundou no Gulag.” Ao mesmo tempo acusava o “eurocomunismo” gramsciano de ambíguo. Gramsci deixara um tesouro de ideias aproveitáveis, entre outras, da necessidade que tinha o partido de assenhorear-se da cultura, admitir muitos intelectuais nas suas fileiras. Os conceitos criados por ele de guerra de movimento (conquista violenta do poder) e guerra de posição (prevê o lento desgaste do adversário, indicada para os países industrializados) eram amplamente discutidos. A sua tese da hegemonia a partir de uma sociedade civil articulada, a ética vinda de baixo, foi debatida, aceita por alguns. Os petardos se sucediam: “Pode-se muito bem ser socialista sem ser marxista.” “A classe operária, base da revolução soviética nunca assumiu o poder.” “Os soviéticos ainda confundem socialismo com estatização. E se esquecem de coisas muito mais importantes como a liberdade e a democracia.” Conquistado o poder, o Estado seria uma realidade provisória (Marx, Lênin). Os comunistas admitiram muitas coisas. Em relação à massificação, concordamos que é um problema tanto de um lado como do outro. A massificação nas democracias ocidentais é fruto da mídia, da indústria cultural. Mas outra coisa é falar de massificação num Estado que além do poder ideológico detém o poder político. Trata-se do Estado confessional: aquele que escolhe uma religião e obriga seus cidadãos a acreditar nela. Esquerda e direita, pluralidade existem nos chamados regimes democráticos. Esta é a diferença. Ao finalizar esta breve exposição, assevero que debater e receber com respeito todas as opiniões, concordando ou não com cada uma é a nossa tese. Finalizo utilizando Bobbio, no encerramento de suas atividades docentes a que dedicou 40 anos. Falando para o seu auditório, citava Max Weber numa clara advertência e definição do destino das uni-versidades: “A cátedra universitária não é nem para os demagogos, nem para os profetas”. O ineditorialista GM da revista “Isto É” advertia em tom profético: “Por enquanto, a polêmica é retórica. Não tenham dúvidas, porém, que logo se tornará muito prática.” Nada mais ajustado para a realidade brasileira nos últimos trinta anos. E mais citações, todas da Revista “ ISTO É” 06 /12 / 1978."


  • 16/04/2015

    Princesa nas armas e nas letras


     Está aí na mídia Sitonio Pinto, um escritor de verdade. De mão cheia! Já consagrado. Tem outro, Tião Lucena.

    Falo com o jeito do povo dos vales dos rios do Peixe, Piranhas e Piancó, onde moro, desde que nasci no que cobre as várzeas onde circula, ora doce, ora turbulento em descidas íngremes, varando gargantas apertadas − o Peixe. Reunidos para discutir situações, esperávamos e chegava sempre o poeta cangaceiro − nobre na tradição familiar da mesa farta − o incomparável Dr. João Romão Dantas Rothea, de lá também, e marchava pisando duro ora se agachando, velozmente trejeitando sacar armas de fogo, intimidando os circunstantes. Fazia porque podia.
    Respeitado na palavra, pelos versos patrióticos como os melhores já escritos em todos os quadrantes, não esquecia o labor ancestral na agricutura, na criação de gado e no cangaço. Soltava o verbo. Os seus versos épicos e valentes cantavam a glória, a guerra:
    “O teu povo, estupefato te contempla.
    Eu, nativo de tua margem
    Leio na soberbia do remanso, 
    Uma turbulenta história.”
    Aí está a origem armada, municiada da opulenta tradição guerreira de Princesa cantada por Sitônio Pinto, na excelência da prosa deste escritor-historiador-poeta que vive na cidade com um revolver na cintura, cheio de balas. Quem sabe e conhece como eu, pode falar assim, mesmo de ouvir dizer.
    Dr. João Romão Dantas Rothéa, guardava intocável o orgulho e o ar distinto de uma tradição dominante. No estreito relacionamento social que nos aproximava, eu percebia esse ar conspícuo, guardando o tempero rural do senhor cheirando a mel de engenho cozinhando em taxos de cobre. Pois bem. Tudo era fruto da terra fértil e produtiva na atividade agrícola e pecuária, nascida no “coice das boiadas” que ali chegaram com os mandados pela Casa da Torre para manutenção do morgadio, conforme anotações de Rosilda Cartaxo. 
    Outros, destacados e respeitados lhe sucederam, como João Bernardo de Albuquerque nas letras e na gestão administrativa e jurídica do Estado. A “Rusga dos Dantas”, de que falam os comentadores do episódio belicoso sertanejo, que embebeu de sangue aquele solo, aquelas várzeas, marcou o espírito intimorato que levou a população paraibana a travar a muito famosa “Guerra de Princesa”. 
    A história nos fala dessa memória, que ganhou capítulos e títulos na saga paraibana e nacional dos grandes enfrentamentos políticos, na pena de João Lelis. Sem me estender, aludo ao episódio da cidade de Princesa, pro-clamada território livre, separada do Estado da Paraíba. Tudo é narrado de-talhadamente, apoiado em documentos da época, pelo escritor e homem público Aloysio Pereira, filho do coronel e chefe político sertanejo José Pereira. 
    Tinha que dar guerra, fruto da bravura dos narigudos Dantas Rothea, coetâneos de Marcolino Pereira Lima que nasceu no dia 23 de junho de 1840 em São João do Rio do Peixe, emigrou para São Francisco do Aguiar, depois Piancó, fixando-se finalmente em Princesa. 
    Chefe político, o seu filho, o coronel José Pereira que herdou suas qualidades e poder, injustamente ferido nos brios de sua liderança, em proclamação e decreto, tornou a sua cidade rebelada um Estado indepen-dente. Uma curiosa e histórica república em pleno sertão paraibano, o que é sabido. 
    Neles, tudo me lembra o estimadíssimo amigo João Romão Dantas, poeta, doutor e cangaceiro, filho da mesma terra que mandou Marcolino para desenvolver Princesa no comercio, na industria, nas letras, na história, do-minar e praticar o cangaço costumeiro e arreliado em festas e romances pajeuzeiros. 
    Os lances dessa epopeia cantada em prosa e verso tem no momento, o depoimento pessoal, o registro documental de Aloysio Pereira, médico, político, escritor, memorialista, cidadão indômito, lúcido e provecto re-presentante daqueles tempos, publicado em livro. E nos arroubos de lin-guagem em prosa e versos evocativos de Sitonio Pinto e Tião Lucena. Eis ai o tempo e a vida: a história.

     
     
     


  • 11/04/2015

    O duro recomeço


     A poesia é expressão-manifestação psicossomática do ser vivo. Todos, todos a produzem. Não escutei ainda o canto das estrelas, não li os textos dos cometas, não que estejam mortos. Mas a nossa galáxia e o universo se expandem, movidos por uma força cósmica, produzindo e criando fenômenos. Arrisco esta opinião pessoal à margem da ciência conhecida. E me dou por satisfeito. Se alguém a formulou, igualitariamente similar, é coincidência pura. Ou por se tratar do “óbvio ululante” rotulado pelo nefasto Nelson Rodrigues o retratista intimista de teses apressadas, preguiçosas, inconclusivas, cretinas, sem buscar na análise cuidadosa a verdade do pensamento escondido no comportamento. Explosões em vez de harpejos, diria liriais, épicos ou líricos, como queiram. A poesia, entretanto, sempre será sonora, a prosa descritiva, explicativa; a fantasia sempre a superfície inconclusiva da inteligência limitada, sem padrões objetivos.

    Encontro-me no momento, perlustrando dois textos breves − em fugas internáuticas, que tudo permitem porque sabem o sabido e conhecido, pois só estes nos servem. Leituras panegí-ricamente pessoais de Carlos Nejar e Eduardo Portella – gaucho e nordestino atualizando, troando e mazurcando fandangos e forrós em terreiros, em salas, em campo aberto, nos pampas e nas catingas, no rifle e no punhal, atravessando eras, exercitando o pensamento. Apelos para Guimarães Rosa, Zé Lins do Rego, Augusto dos Anjos, Gilberto Freyre e Dionélio Machado que também trilham esses caminhos. A clareza e a complexidade ilus-trativas que constroem a literatura e explicam a história. Cien-tistas como artistas e artistas como cientistas se mostrando. O coloquial de Zé Lins e o cientismo “up-to-date”, incontestável e eficiente de Augusto dos Anjos, no Nordeste; e Carlos Nejar e Dionélio Machado no Sul, nos rasgos gauchescos da flama e do recolhimento marcando a sociedade, agredindo-se em destem-peros incontidos, sentimentais, expressão da luta dos contrários. Algo como a leitura dos “Lusíadas”, que dispensa memória de tese sobre o desenvolvimento político e econômico da Europa, nascidos em Portugal e na Espanha no século XVJ.
    A história é o fato, não se improvisa em tentativas. Aí fica para os chamados bastidores, quintiliânicos − na linguagem persuasiva das palavras, da retórica. A falsa política. Mas, re-sultado da condição humana, portanto, eis o texto literário, a poesia e a prosa. Não diria opção arbitrária de desestabilização da linguagem, porem eventual, fruto do amor, da dor, do egois-mo, da ambição, da glória e mais alvitres que povoam sua aura ignota, como das florestas e dos desertos. 
    Ouvi falar que os kardecistas sustentam que os animais, como o homem, também possuem alma. Perdura, entretanto, segundo observo, entre as duas expressões anímicas a condição de superioridade e inferioridade, vistas comparativamente ou não. Aí está, para mim, o segredo, o inevitável destino dos lados da vida, que está no “Livro dos Espíritos”, a impertérita vivência: o rico e o pobre, o valente e o covarde, o novo e o velho. Assim os homens as entremostram e vivenciam.
    Ah a vida! Gosto desta exclamação desamparada, muitas vezes assim a sofro. Confesso-me preconceituoso, ciumento, despeitado com as afirmações que parecem convincentes, me contradizem, porém não as considero verdadeiras. 
    “Se quiserem saber quem sou/ - Não sei quem sou/ Só sei que em mim/ A sombra e a luz/ São vultos,/ Que se buscam e se amam/ Loucamente.” (Carlos Nejar}.
    O pernambucano acentua:
    “O patrulhamento é hiperpreconceituoso, é um exercício contundente do preconceito, é um desrespeito ao outro. Nós só somos democratas se formos capazes de aceitar o diferente da gente.” (Eduardo Portella). --------------------


  • 30/03/2015

    Seca braba


     Escrevi em nota divulgada neste blog: sobre a grande a seca de 2012, que se estendeu, e a enfrentamos ainda em 2013. E perigosa, como dizemos por aqui para realçar os riscos. Mas não me “retirei”, não migrei como na literatura fizeram os sertanejos: Valentin e Fabiano ; dividi tarefas. Novos tempos, surpreendendo todos com novas dificuldades. Deixei o vaqueiro Neguinho, homem de confiança, na fazenda velha onde concentrava a totalidade de minhas atividades na pecuária e fixei morada eventual numa chácara na margem do açude de Coremas. Água muita, espaço pequeno. Daria para superar a situação de emergência? Era somente o que tinha e podia me valer no momento crítico. Tentei implantar vazantes de ca-pim, alugar roças vizinhas para salvar o rebanho de gado, ovelhas e cabras, além de animais de sela e de carga. Parte aqui, parte acolá, desdobrava-me. Mas coisa pouca de sertanejo do semi-árido, esclareço, porém, era tudo que eu possuía. 

    O povo arisco, assistido pelo novo modelo administrativo, salvou-se da dependência penosa, esbanja liberdade em múltiplas facetas, cristalinas na afirmação de novos direitos, fundadas nas teses do novo poder no país, baseado na caridade não na efetivação de garantias legais. Faltava aos proprietários, dinheiro para projetos voltados para a superação da dificuldade, contratar trabalhadores, retomar o processo produtivo. 
    As pessoas adultas fazem pouco caso da situação, concentraram-se nas cidades, incapazes de entender direitos e deveres, e os que ainda permaneciam na zona rural, dirigiam motos, buscavam inserir-se em novas ações ditas de inclusão social, que lhes rendia míseros recursos para o seu sustento. Os jovens desfrutam o justo lazer que os seus antepassados não tiveram: curtem bandas, e com camisa no ombro, desfilam pelas calçadas, jogam sinuca. Outros são recrutados para a luta armada do tráfico de entorpecentes. Mas se reúne em grupos, definem e encaminham reivindicações em atos públicos, corajosamente. Enquanto isso, o país afunda no fracasso, na indiferença a olhos vistos.
    A imprensa subsidiada, em ações programadas, subliminarmente confunde todos. Afinal, o que nos restava: ao povo e ao governo? A sociedade fragmentada revelava-se par-ticipante em escalões. Mudanças que aconteciam, eram trazidas pela tensão social nascida na crise climática, levada para as assembléias de produtores. Algo parecido, mutatis mutandis, com a aguda percepção e denúncia de Walter Benjamim sobre a “... utopia de Fourrier... com a aparição das máquinas”, criando os malfadados falanstérios, levando o homem “... a relações em que a moralidade é supérflua.” Não é preciso dizer mais para esclarecer: aí está o Mensalão, a criminalidade invadindo todos os modos da vida social: pública e privada.
    Walter Benjamim acima citado, fala de um tempo de mudanças, que fizeram “Paris, Capital do Século XIX” citando um “Guide illustré de Paris” que explica o surgimento das famosas Galerias “... esta (a galeria) torna-se uma cidade, ou mesmo um mundo em miniatura”. Seriam os shoppings de hoje. As transformações sociais, nascidas e permitidas com novas tecnologias criando serviços e idéias: o uso do ferro que não era “aceito para as moradias” usado nas galerias, estações ferroviárias na construção civil. E completa com Michelet: “Chaque époque revê La suivante” .
    Pois é o que acontece por aqui. As máquinas e as “cotas” − reconhecimento inusitado de direitos −, afastam o homem do trabalho. A escassez de mão de obra dificulta a realização de projetos. Muita mudança e mais dissimulação de propósitos, fingimento mesmo. Os escolhidos e protegidos são outros, os vitoriosos, os que levaram os novos dirigentes ao poder, permitindo a prática da caridade não a definição de direitos, como realizadora da democracia, do republicanismo que apregoavam. Digo novo poder não novo governo, porque cada grupo faz o seu modelo, e proclamam os inconformados, que cada povo tem o governo que merece. Deixaram de lado a ciência, são movidos pela ganância do dinheiro, do enriquecimento pessoal.
    Infelizmente para nós, se a evolução do processo na França levou à democracia burguesa, entre nós copiou a fórmula da nominalidade sovietizante das exceções. Nesse cli-ma pessoal − permitam-me breve incursão na literatura para explicar os “meus porens”. A guerra política entre empregador e empregado, o surgimento e sobreposição de técnicas e práticas sociais, inevitavelmente nos avassalam. Vai com a consciência de cada um. A guerra entre as letras e as armas e as artes, de que tanto falo nos meus breves escritos. Tal lá, tal aqui, tal ontem, tal hoje, nas limitações históricas das mudanças, evocadas pelo Quixote. Mas sempre um passo à frente.
    “De ces palais les collonnes maquiques / A l´amateur montrent de toutes parts / Dans les objetes qu´étalent leurs portiques / Que l´industrie est rivale des arts” (ob.cit apud Nouveaux tableaux de Paris, ou observations sur les moeurs et usages des Parisiens au commencement du XIX. siècle: faisant suite ... Pillet, 1828 - 356 pages ... Google). Pois a seca além das dificuldades normais do período, pegou-me, envolvendo-me numa rixa literária, superpondo conceitos e informações tiradas de autores lidos, enfrentando o azar do arrom-bamento do maior açude da fazenda. Uma ocorrência incomum de chuva torrencial, tempestade na minha região, precipitou-se e arrombou mais de cinqüenta açudes numa noite só. Perdi os recursos essenciais para manutenção das atividades da propriedade rural: água e toda uma estrutura implantada de capim de vazantes, de pisoteio e de corte, além de moto-bomba, aspersores, rede elétrica, o baixio coberto de areia provocada pela água no estouro do rompimento da parede, impossibilitando o uso do terreno para plantio. 
    O Banco do Nordeste financiara recursos para manutenção do gado de leite. E o gado escoteiro? O restante do rebanho naturalmente teve o preço aviltado. Corri, rodei, procurei com insucesso órgãos do governo estadual e federal (EMATER, CONAB) e não consegui inscrição para aquisição mediante pagamento subsidiado em dinheiro, de rações, milho prin-cipalmente, disponibilizado pelo governo federal para os atingidos pelo desastre climático. Surpreendi-me, em face de ser considerado pecuarista e agricultor, em dia com suas obri-gações perante os órgãos fiscalizadores e assistenciais: vacinação de rebanho, seleção para leite e abate, obrigações financeiras com o Banco do Nordeste sem atraso, etc.
    Estamos no começo do mês de setembro, o primeiro dos “bê-rrê-o-brós=bro” (última sílaba) dos mais cruéis meses da seca: setembro, outubro, novembro, dezembro. Inviabilizada para mim a atividade rural, curto alguns livros na minha biblioteca modesta. Reencontrei do amigo velho Evaldo Gonçalves, “Ernany Sátiro”, um entre os grandes paraibanos entre políticos e escritores, e “Coiteiros”, de José Américo de Almeida, edição rara e oportuna de uma editora e coleção criadas por Adalberto Barreto, no formato livro-de-bolso, sobre o tema do Cangaço. Traz este volume à título de prefácio um estudo do mestre da universidade de Grenoble, tese sobre o cangaço, apresentada e aprovada na Sorbonne, que lhe valeu a conquista da cátedra. Valiossímo.
    Sou um leitor habitual do que me chega às mãos sobre o cangaço. Guardo como fonte de consulta e referência “Guerreiros do sol” do pernambucano Frederico Pernambucano de Melo, pela riqueza de informações, e considero-a inevitável e confiável referência “bíblica” sobre o assunto. E enriquecido com um prefácio de Gilberto Freyre. Arrisco-me pre-tensiosamente a recomendar os dois volumes citados aos aficionados no gênero e no assunto.
    Depois de tantos percalços, com fé exclamo: agora só Jesus! 
    2014 foi seco, 2015 apresenta-se de inverno fino e variado. Enfrentamos, acredito, uma mudança climática. E agora? Mas o sertanejo não perde a esperança: trovejou no carnaval e a cinza foi molhada.
    (Visitando a fazenda velha Lagoa de Baixo – setembro 2013)

     
     
     


  • 21/03/2015

    Tradição, ética e trabalho em Piancó


     Descendia o dr. Elzir Matos em linha reta do casal PEDRO LEITE FERREIRA E ISABEL GOMES DE ALMEIDA, mandados pela Casa da Torre, da Baía, para ocupar terras e fundar fazenda de gado na ribeira de Piancó, em 1755.

    A linhagem estendeu-se com o primeiro João Leite Ferreira, (comandante), nascido no final do Século XVIII, casado com Antonia José de Sousa, que adquiriram por compra à Casa da Torre as propriedades “Campo Grande” e “Almas”. Do casal nasceu Tiburtino Leite Ferreira casado com Violante Mariana da Silva, pais de Francisca Leite Ferreira que casou, em primeiras núpcias, com o dr. José Matos de Sousa Rolim, da vizinha cidade de Cajazeiras, juiz de direito da comarca de Piancó, depois de Pombal.
    Tiburtino Leite Matos Rolim, nosso pai, fruto daquela união conjugal, a última referida, casou com Natércia Nogueira da Costa, de importante família do vizinho Estado do Rio Grande do Norte, cujo primogênito Elzir, nasceu em Mossoró, no aristocrático sobrado do avô materno, que existe no Jardim da União Caixeiral, (oficialmente denominada Praça da Rendenção) onde funcionava o curso de contabilidade mercantil freqüentado por Tiburtino. Seria ele, Elzir, o futuro bacharel em direito e homem público influente na vida política e administrativa da Paraíba.
    Vale a pena rever a descrição da valorosa prosápia, no Cônego Florentino Barbosa, do Instituto Genealógico Brasileiro e fundador do Instituto Genealógico Paraibano, seguido pelo padre Manoel Otaviano, do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba e da Academia Paraibana de Letras, acima citados, cujos comentários e registros nos apóiam, e teremos em linha ascendente:
    Elzir filho de Tiburtino:
    Tiburtino filho de Francisca;
    Francisca filha de Tiburtino;
    Tiburtino filho de João Leite;
    João Leite filho de Pedro Leite Ferreira e Isabel Gomes de Almeida, que nos idos de 1755, fixando residência na ribeira de Piancó, no lugar denominado Tapera, na margem direita do rio Genipapo, ali se dedicaram à criação de gado e à agricultura, como foi referido antes, e deu seguimento a extensa e valorosa descendência. Esta é a linhagem, documental, indiscutível.
    A participação da família Leite, nascida de Pedro Leite Ferreira e Isabel Gomes de Almeida, acima citados, cujos filhos fixaram-se em Piancó, Conceição e Teixeira, alcançou notável representatividade na vida política da Paraíba, por parentes em linha reta e colaterais e afins, permitindo-lhes galgar posições de destaque, chegando ao governo do Estado, ao Senado da República, à Câmara dos Deputados, à Assembléia Legislativa, Prefeituras Municipais, Secretarias de Estado e cargos executivos de reconhecida importância e influência na condução dos negócios da administração pública.
    A busca de dados e informações sobre famílias e pessoas, e sobre fatos a elas relacionados, gosto de repetir, reveste-se de evidente caráter sociológico, alcançando a História, que, na afirmação do filósofo Giambatista Vico, deixando de lado explicações teocráticas, é verdadeiramente obra do homem. Vasta bibliografia sustenta esta afirmação, na literatura e na pesquisa histórica nacional e estrangeira. Esta a origem da história de reis e de estadistas, de caudilhos e democratas no exercício de suas atividades políticas, advindas de sua origem, concepção filosófica, vocação e responsabilidade.
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    O prestigio dos Leites resta explicitado em notas, diagramas, tabelas e demonstrativos, redigidos por Linda Lewin, em “Politics and Parentela in Paraíba” © Princeton University - tradução André Villalobos – Record 1993, antes referido, e evidenciou-se ao se tornarem “dirigentes do Partido Liberal desde a sua fundação, no final da década de 1830, pelo coronel João Leite Ferreira (o primeiro, falecido provavelmente em 1848) e pelo comendador Felizardo Toscano de Brito (falecido em 1876)”, este, sogro do dr. João Leite Ferreira que o substituiu na chefia partidária assegurando a preponderância do clã no cenário político do Estado.
    A tradição familiar e a vinculação à luta local, as respon-sabilidades, compromissos e deveres que lhe impunha a progênie, levaram Elzir, concluído o seu curso de Direito no Rio de Janeiro, à Prefeitura, o encaminharam para a vida pública, marcaram o seu caráter franco e leal, a dedicação à sua família e à sua gente.
    Chegou dr. Elzir, ao longo de sua carreira, a ocupar por seis vezes secretarias do governo da Paraíba, e posições importantes na administração federal como presidente do Banco Nacional de Crédito Cooperativo, na Procuradoria Jurídica da Caixa Econômica Federal, na Confederação Nacional da Agricultura.
    Representou o Brasil em encontros internacionais junto a OIT (Organização Internacional do Trabalho), em Genebra, Suissa, instituição filiada a ONU (Organização das Nações Unidas), apre-sentando teses relacionadas com os temas discutidos que cons-tavam da pauta dos trabalhos.
    Como Secretário de Estado, nas pastas da Agricultura, da Fazenda e de Viação e Obras Públicas, nos governos Pedro Gondim, José Fernandes de Lima e Wilson Braga, Secretário Chefe do Escritório do Governo da Paraíba no Rio do Janeiro, no Governo João Agripino, registrou uma presença ética, marcando pela sua com-petência a modernização do modelo administrativo que implementava, e o volume de realizações, de serviços que ainda hoje existem, que perduram e são referências obrigatórias, relacionadas com a eficiência do aparelho público estadual.
    A admiração pela sua íntegra conduta de cidadão na vida pública e privada, tornou-se fato reconhecido e emblemático na so-ciedade paraibana. Os ex-governadores que o tiverem participando de sua administração, prestaram ao longo do tempo, referências elogiosas, e esclarecedores depoimentos sobre o seu caráter e comportamento de homem público.
    Onde estivesse, o seu pensamento estava voltado para Piancó, com um amor e fidelidade jamais superados.
    Preparava-se em entusiástica campanha eleitoral comentada em todo o Estado, para disputar um mandato de deputado federal, tida como certa a sua eleição, quando faleceu inesperadamente. Caravanas de políticos, comitês já se formavam no Vale do Piancó, na capital do Estado e em outras regiões, celebrando reuniões e encontros na for-mação de uma ampla frente de apoio à sua candidatura.
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    Tratemos, rapidamente, da passagem do Dr. Elzir na prefeitura de Piancó, que o projetou no cenário político estadual e nacional, entre outros destaques por haver ele conquistado para Piancó o reconhe-cimento de ocupar na sua gestão, o primeiro lugar entre os municípios brasileiros, que melhor resultado apresentaram no seu crescimento econômico e modernização administrativa. Tal fato, se representava uma distinção para ele, significava também uma demonstração da capacidade de trabalho da população, da unidade popular sob sua esclarecida liderança e na colaboração dos piancoenses com os pro-jetos voltados para o interesse coletivo.
    A entrada do dr. Elzir na cena política, a despeito do favo-recimento de circunstâncias familiares que o ajudaram, acontece como expressão legítima e característica de suas idéias voltadas para a modernização dos costumes políticos, para o desenvolvimento local, em sintonia com o novo desempenho dos homens públicos, revelando que, naquele período (anos Cinqüenta do Governo JK, criação do Banco do Nordeste e da SUDENE) “as coisas mudaram tanto no Nordeste – como o vaticinara Jean Blondel – que a Paraíba passou de espectadora a atriz e de recipiente a protagonista”. Tudo na precisa análise do Professor José Octávio de Arruda Melo no seu ‘PODER POLÍTICO NO NORDESTE – O Caso da Paraíba 1945/1964”, Editora Universitária 2001, pág. 138, o que se aplica à conjuntara do Vale do Piancó, pode-se afirmar.
    Daí o seu destaque, o reconhecimento de suas qualidades de administrador, de sua conduta ética. Galgou posições de relevo nos altos escalões do serviço público estadual e nacional, sempre em nome dos seus amigos, honrando o seu querido Piancó.
    O povo não esqueceu o grande líder e homem público desa-parecido prematuramente, tanto que ainda hoje o homenageia em todas as solenidades locais, nas escolas e nas conversas de rua e em família, encontrando sempre uma oportunidade de referir o seu nome.
    A propósito, os jornais O NORTE e A UNIÃO, de 18/10 e 21/10 de 1959, respectivamente, registram entusiásticas e festivas homenagens prestadas pelos piancoenses – presentes as suas auto-ridades civis, militares e eclesiásticas representativas – ao dr. Elzir Matos, na denominada “Festa da Gratidão”, com solenidades oficiais, desfile escolar, confraternizações populares e entrega do “Diploma de Cidadão Piancoense” outorgado pela Câmara Municipal.
    A presença de representações de outros municípios do Estado, de mandatários de ordens civis, militares e religiosas, personalidades de outros centros afãstados, emolduraram as festividades com os seus pronunciamentos congratulatórios à data, revelaram a irradiação do prestígio e do destaque alcançados por Piancó e pelo dr. Elzir no cenário político estadual.
    Constituíram os fatos do dia verdadeiras celebrações e com-graçamento, em que todos se irmanavam, comemoravam a superação de barreiras que os separaram no passado, regozijavam-se com as alegrias do conterrâneo, do amigo, com o bem estar geral. Era um sentimento abrangente, do elevado patriotismo local. Os piancoenses guardam com orgulho a data memorável.
    É mister reconhecer um elenco de numerosas realizações, de elevados cargos públicos conquistados pela sua competência, e de ações patrióticas assumidas pelo Dr. Elzir Matos em defesa de Piancó, a exemplo da reativação que promoveu de sua industria algodoeira, com o aporte de recursos financeiros e reabilitação de sua Cooperativa Agrícola (Usina), entregues à reconhecida competência empresarial do piancoense Gil Galdino, trazendo nova perspectiva econômica para a região; o serviço de abastecimento de água; o fornecimento de energia hidrelétrica; a urbanização; a criação de políticas públicas de saúde e educação e outras ações de cunho social.
    A especificação dessas demandas de relevância para o desenvolvimento e liderança de Piancó na região, não caberia nesta breve matéria. Por esta razão, encaminhamos os estudiosos e a juventude, que buscam informações e conhecimento sobre a vida e as realizações deste homem-bom, para a consulta de documentos e dados precisos que estarão disponíveis nos arquivos públicos na Paraíba, e no Arquivo Geral de Piancó, instituição pública de natureza cultural, criada por lei de iniciativa do Prefeito Edvaldo Leite Caldas.
    As luzes intelectuais, os arquivos abarrotados de documentos do jovem intelectual Yurick Azevedo Lacerda e do escritor Clodoaldo Brasilino Filho, que sabem muito de Piancó, esclarecerão indagações e dúvidas porventura existentes.
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    Mas é preciso dizer que tudo começou, em termos administrativos e de renovação política, com a presença marcante do dr Elzir Matos na prefeitura. A utilização de energia hidrelétrica em Piancó (que vivia às escuras, com iluminação deficiente, sem disponibilidade para a indústria e para a agricultura), antes da chegada da CHESF aos nossos sertões, aproveitando a que era produzida pelas turbinas do açude Coremas, inteiramente ociosas, revelam a visão pioneira do Dr. Elzir, que foi adotada e seguida por todos os mu-nicípios da região.
    A partir desta espetacular realização, que contou com a ajuda do primo Cleantho Leite, um dos luminares do desenvolvi-mentismo, então diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, depois do Banco Mundial, a eficiência foi seguida do entusiasmo e apoio recebidos da população. Resultou noutras ações fundamentais para implementar a liderança de Piancó, que se fez sentir durante tantos anos na região, orgulhando a sua gente. Liderança que voltará um dia, com certeza. E todos esperam.
    Vale a pena esclarecer e ressaltar, que no período da gestão do dr. Elzir na prefeitura de Piancó, cidades como Patos, Sousa e Cajazeiras tidas como as mais desenvolvidas do sertão, tinham energia elétrica apenas durante algumas horas no período noturno, fornecido para as residências, indisponível para a agricultura e para a indústria; o abastecimento de água era precário e primitivo, o sa-neamento básico inexistia; as comunicações por telefone a curta dis-tância, eram feitas através de postos mantidos pelo poder público, pois não existia o serviço, a linha telefônica particular, individual.
    A cidade de Piancó espantava a Paraíba porque contava com todos esses e mais serviços públicos, mantidos em moderno e eficiente funcionamento. É realmente difícil imaginar este nível de desenvolvimento e destaque alcançado pelo município, dadas as dificuldades e a decadência, que têm obstaculado a administração mu-nicipal, relegando o velho Piancó à situação de menor relevância entre as demais cidades do histórico Vale do Piancó.
    Dr. Elzir faleceu acometido de insuficiência cardíaca. Seu coração parou de bater no dia 21 de junho de 1989, no seu aparta-mento, na capital do Estado, onde se encontrava em viagem rotineira. Contava sessenta e três anos. Foi sepultado no cemitério de Piancó, no jazigo da família, e, no seu descanso final é visitado por parentes e amigos, leais a uma amizade e admiração que perduram através dos anos. O município de Piancó e todo o Estado da Paraíba viveram momentos de profunda comoção com o inesperado da infausta notícia. Deixou um filho único, Fernando Antonio, formado em Geologia, residente em Brasília.
    As amizades que cultivou ao longo de sua vida reta e leal o reverenciam ainda hoje, a exemplo do escritor e parente Ascendino Leite, do alto de sua vivência de homem de notável saber, bem como humildes e exemplares figuras do povo como o desportista Tião Barbosa, na pureza dolorida de palavras amáveis, sentidas, saudosas quando falam do amigo que passou para a vida eterna.
    A presença viva da tradição administrativa do Dr. Elzir Matos revela-se ainda hoje no Parque de Exposição de Animais que tem o seu nome, uma realização sua quando Secretário da Agricultura, e na estrutura e organização da Fazenda Humaitá, de sua propriedade, onde passava a maior parte do seu tempo, hoje administrada pela viúva senhora Avany Queiroga Matos, exemplo de firmeza e competência no exercício de suas tarefas nas lides rurais..
    Piancó apresenta-se como um exemplo típico da movimentação da sociedade civil buscando caminhos, modelos e resultados, no cenário político paraibano.
    Na verdade, os fatos de cada aldeia, pela sua significação, passam a constituir, inegavelmente verdades universais, por se tratarem de fatos dos homens. Por estas e outras razões, desenvolvi esforços e redigi estas notas, recolhidas em textos autorizados e depoimentos respeitáveis, que registram as ações dos meus parentes, rebentos da família Leite, na vida privada e na vida pública de Piancó, da Paraíba e do Brasil, como seus filhos, seus representantes. -------------------------------

     
     
     
     
     


  • 13/03/2015

    Ronaldo Cunha Lima, poeta de sala e quarto


     Afastado da leitura, morando no mato, eu não acreditava nos seus livros de que ouvia falar. Para mim, ao escutar os ecos e vozes dos seus versos, ele era um poeta de gênio, mas eminentemente verbal, açodado, que improvisava, porém não escrevia poesia. Não lhe so- brava tempo. Seria como os nossos irmãos violeiros e repentistas, um Inácio da Catingueira, um Pinto do Monteiro ─ e no contexto e textos que demandam a nossa tradição cultural, a nossa história ocidental ─ o nosso Homero da Borborema.

    Eis que um livro seu me chegou às mãos, com um atraso de treze anos. Não a esperada epopeia. Poesia anacreôntica, isto sim, dominada pelo erotismo báquico de suas canções, o lirismo sensual de epitalâmios. Falo de ”Poemas de Sala e Quarto.” E o traço barroco- sensual das ilustrações de Flávio Tavares, um incontestável gênio do desenho e da pintura, cumpre o objetivo da obra poética, completa os propósitos do autor. Comprei-o em liquidação na Livraria Universitá- ria na praça ao lado do antigo Capitólio. Que obra! Perdoem-me os despeitados, os tipos rebarbativos que flutuam nos salões, com o risco de pipocarem como bolinhas coloridas que enfeitam festas, palhaçadas infantis.
    Para falar sobre o seu livro, evito a tentação do método de Jakobson na análise sobre Lês Chats, de Beaudelaire, reduzindo à coordenação das proposições da língua, faces do poema que in- teressam à sociedade e à história; diferentemente de Carpeaux que revelou as transformações e transfigurações que sofreram a imagem do poeta “vase de tristese, ó grand taciturne”, nos olhos da posteridade, e do prefaciador Nêumanne nos comentários buscando nos domínios da literatura comparada a explicação do poeta Ronaldo de Campina.
    Aventuro-me na tentativa de anunciar uma nova técnica de expressão poética, aliás, corriqueira no gênero. O escritor Ricardo Soares comentando Ronaldo, socorre-me, afirma que “a verdadeira poesia é diferente para cada poeta em cada momento... inspiração, experiência, confissão, lembrança, conhecimento, um sistema coerente de pensamento, sutil música verbal.” Encontro algo parecido nas sentenças breves contidas no estilo-modelo haicai que nos oferecem os filhos do País do Sol Nascente; no modo rocambolesco, misterioso e investigativo de Chordelos de Laclos; na lascívia oriental de Omar Kayan; no socialismo stakhanovista de Vladimir Maiakovski e mais inventores e criadores que passeiam entre os gregos, romanos e levantinos, com as mais variadas técnicas do verso, praticadas e aceitas, algo poundiano; e a adequação da língua, nas variações da sua prosódia ajustando as idéias à melodia de um texto aforístico, pra- zeiroso pelo seu lirismo, erudito pelo seu conteúdo. Eis os segmentos apotegmáticos de Poemas de Sala e Quarto.
    “– Na sala / eu sou ¼./ No quarto/ eu sou inteiro,” 
    Jacta-se o poeta. Verdade ou mentira? Fingimento? Dissi- mulação? Algo sofrido? Como descobrir les liaisons dangereuses que escondem as suas palavras? Simplesmente jogo de palavras? Ah! Como os poetas se conhecem. Pessoa bem que o afirmou: 
    ”O poeta é um fingidor,,, / E os que lêem o que escreve/ Na dor lida sentem bem/ Não as duas que ele teve / Mas só a que eles não têm.” 
    Em Ronaldo o apetite sexual parece uma eterna busca. “Poemas de Sala e Quarto” o confirma. Ele deseja estender até ao mundo dos inanimados, das coisas materiais a incontida ânsia dos seus desejos: 
    “Se nossos chinelos vissem/ sobre a cama os travesseiros/ talvez até decidissem/ sob a cama ser parceiros.”
    Mas carrega as suas estações de dolorosa parada para reflexão. Ronaldo é um poeta ligado a um momento da história política pa- raibana, nacional. Não tenho coragem de dizer, de julgar o que mais o distingue ao longo de sua vida. Como acertar, se ele dissimula e finge? Uma condição explícita o caracteriza, e todos concordarão: foi o poeta político que disputava eleições, fez oposição ao regime militar, na Paraíba e por onde andou. Lutou, não cedeu, venceu. Maiakovski, entre todos os títulos, consagra-o o de “poeta da revolução russa.”
    “Muito pior, com certeza/ que uma sala sem mesa/ é uma mesa sem pão”. 
    Sua mente não repousava. Muito ainda resta para falar sobre Ronaldo e Oinotna para completar o ciclo da vida: a severidade e a alegria, os lauréis e as palmas. Campina rediviva.
    Quero deixar claro. Vi a luz da vida em Sousa, onde nasci, falo com orgulho. Em Campina recebi os raios dos conhecimentos acu- mulados pela sociedade, descobri a prática da invenção, da construção, da criação, da imitação com os seus perigos inerentes. De Sousa guardo a memória do aprendizado, do espanto com os fatos da vida, destruindo já a inenarrável memória da infância; de Campina a descoberta do colóquio libidinoso dos poetas com os leitores, com o mundo ─ que permanece dominante nas reflexões inevitáveis. O amor e a guerra entrelaçados.
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    Campina nada deve a Dublin nem a Londres, a Paris nem a Boston, a Pequim nem a Moscou. As pessoas e a sociedade cumprem as mesmas tarefas. Nada as distingue, exceto o nome dos narradores de suas trilhas aventurosas ─ inevitável mesmice das tragédias e comé- dias. Nada existe de novo debaixo do sol, adverte a sabedoria bíblica. Com efeito, não dá para rememorar tudo, conferir tudo. Por isso identifico no campinense Ronaldo, um criador entre tantos, um metingueiro, que insiste em viver na rua, e se esconde, hoje, convocado pelo Olimpo para ocupar o seu lugar no Parnaso.
    Ninguém melhor do que Ronaldo entoa o profético cantar dos poetas de que falou Pound, criando, inventando estilos e formas.
    Impõe-se, no caso, numa leitura crítica e comparativa de todo Ronaldo, uma releitura de O EU PROFUNDO E OUTROS EUS, de Fernando Pessoa, e de POESIA, de T. S. Eliot, em tradução, intro- dução e notas de Ivan Junqueira. Surpresa?
    A poesia no seu conteúdo, na sua forma deve a sua expressão à emoção, sublinho. Assim entendem T.S. Eliot e Fernando Pessoa. Vou transcrevê-los, adiante, em apoio às minhas afirmações.
    A emoção. Dorme no cérebro, no fundo da consciência, nos neurônios para falar moderno, esse poderoso sentimento, até que des- pertado, caracteriza o fazer humano. A arte é profundamente emo- cional. A leitura dos versos destes dois poetas transmite-nos esta certeza; mas, igualmente racional e intencional, se atentarmos para o “vanguardismo” técnico presente nas suas obras.
    A arte poética, todavia, não se esgota na renovação formal.
    Fernando Pessoa escreveu: “Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão somente o meio de que a idéia se serve para se reduzir a palavras.”
    Escritura de Eliot: “The only way of expressing emotion in the form of art is by finding an objective correlative; in other words, a set of projects, a situation, a chain of events which shall be the formula of particular emotion.”
    Pessoa fala em “emocionalizar o pensamento”, e Eliot assinala “the intensity of the artistic process.”
    O tema oferece-se, portanto, para uma análise de aproximação da técnica de construção poética, que encontramos nas variações estilísticas e temáticas de Ronaldo, arrebatado pela emoção, poeta capaz de cantar baixinho, de chorar e de explodir em gritos to- nitruantes, no caudal da emoção, que, admito, é o seu estado e espírito. 
    Poetas, historiadores, romancistas, estadistas. Toynbee, Proust, Confúcio, Hitler, Onassis, Rockfeller, Robin Hood, também tivemos os nossos. Apenas os nomes diferem, repito, tanto dos escritores como dos personagens, humanos sempre. Consultem Dinoá com seus re- tratos ao vivo, Josué Sylvestre com as suas revelações biográficas interpretativas, Epitácio Soares e Elpídio de Almeida com as suas fontes e o seu estilo paroquiais, e tantos e tantos, e lá encontrarão os generais, os capitães de negócios, foliculários e tratadistas eruditos, que viveram ou vivem ainda em Campina. Vejo e sinto no que digo verdades verdadeiras, constatadas irretorquivelmente. E Ronaldo as encarna multifacetariamente.
    *
    Não dá para falar isoladamente de pessoas na construção dos mitos que Campina propiciou, numa caracterização do sonho grego de uma civilização universal que se tornou única e insuperável. Tratemos de famílias e de tipos, de indústrias, no sentido de destreza, engenho e arte, que a notabilizaram, campinense na essência, enfim.
    Conhecemos os Lauritzen, Figueiredo, Almeida, Cabral, Gaudêncio, Habib, Chabo, Procópio, Luna, Tejo, Caroca, Cunha Lima, Asfora, Barreto, Rique, Amorim, Celino, Mota, Agra, do Ó, Hamad, Wanderley, Dantas, Rego, Pinto, Soares, Afonso Campos, e outros e outros, e os tipos e as personalidades inconfundíveis de Ataliba Arruda, Otávio Amorim, Pinta Cega, Mário Araújo, Zeca Chabo, Zefa Tributino, Nathanael Belo, Moacir Tié, Paizinho, Dona Irene, Fausto Alfaiate, Maciel Malheiro, Oliveiros Oliveira, Soares, Seu Muniz, Moço Amorim, Antonio Bioca, Nereu do Cartório, Giseuda Moreira, dr. Zé Arruda e Manoel Pé de Rotor, o impertérrito deputado e tor- cedor de futebol Orlando Almeida, as rádio Cariri, Borborema e Caturité e tantos e tantos, ah! Imperdoáveis omissões. No tocante à ideologias e proselitismo, tivemos o comunista Peba, que nunca esteve em Moscou em oposição a um empresário capitalista Barreto, que falava inglês e morou nos Estados Unidos. Paremos no começo.

     
     
     


  • 11/03/2015

    O sousense Paulo Gadelha


     A convivência aproximada, firmada numa amizade que perdurou até o presente, num relacionamento de conterrâneos da mesma geração, registram a minha presença e a de Paulo Gadelha na vida sousense: ainda crianças com pequena diferença de idade, correndo as mesmas praças e ruas, na adolescência frequentado festas e reuniões, adultos, mergulhados nas águas turbulentas e agitadas da política de nossa terra. E considero, sem falsa modéstia, que marcamos a nossa presença ética e realizadora de ações que dignificaram os mandatos parlamentares o exercício de secretarias de Estado, que nos couberam.

    Muitas são as lembranças, agradáveis e honrosas para mim, os registros que nos ligaram vida pública. Eu, cedo me isolei extramuros, Paulo prosseguiu e destacou-se mais no exercício de cargos relevantes: foi diretor do Banco do Nordeste, Desembargado Federal, escolhido para uma cadeira entre os imortais da Academia Paraibana de Letras. Modéstia à parte, nesta marcha, copiou o meu modelo.Teve o meu voto para a sua eleição.
    Na Paraíba, no Brasil e em outros países, juntos participamos de conclaves, um deles na companhia do esclarecido deputado Manoel Alceu Gaudêncio, representando a Assembléia Legislativa, na discussão de teses que tratavam de questões referentes à cidadania, aos direitos humanos, ao progresso e ao desenvolvimento econômico e cultural. Mas o que marcava mesmo a sua presença entre nós, era a vocação intelectual, a sua assiduidade na imprensa escrita, o culto à ciência do Direito, ele um constitucionalista de renome.
    Dele recebi o seu livro “A Rosa e a França”, com uma intimação, segundo suas próprias palavras de oferecimento, para apresentá-lo aos nossos conterrâneos, o que fiz na solenidade do seu lançamento no auditório da Faculdade de Direito de Sousa, de que transcrevo alguns parágrafos.
    Desejo destacar em Paulo Gadelha o caráter do político competente, do intelectual “engajado” no melhor estilo francês. Essas qualidades, muitas vezes, passam despercebidas da maioria das pessoas. E em cidades como a nossa, a questão genealógica sobreleva sempre a ideológica. Mas está feito o registro.
    O advogado Paulo Gadelha pertence àquela categoria de bacharéis beletristas, que a Faculdade de Direito do Recife legou também aos paraibanos e espalhou na vida brasileira. Políticos, juristas, poetas, romancistas, historiadores, críticos de artes, escritores enfim, que o espírito da velha escola, vivo, em todas as épocas, fez povoar nas páginas da história literária e das letras jurídicas do país. Os compromissos assumidos ao longo de sua vida, revelados nos textos do seu livro e na sua ação política, dão continuidade a uma tradição pernambucana, desde 1817 e 1824: o inconformismo em face do tratamento discriminatório dos governos da União para com o Nordeste, ainda hoje uma controvérsia crucial para a unidade da Nação.
    Esta marca de patriotismo e bravura foi honrada na Paraíba em Brejo de Areia, no Areópago de Itambé, na Fazenda Acauã, em Sousa, com Félix Antônio e os padres Arruda Câmara, Francisco Antônio e José Antônio Correia de Sá, Narciso da Costa Gadelha, Patrício José de Almeida, Luiz José Benevides e outros heróis da nossa história.
    Refém da tradição filosófico-sentimental dos fatos pernambucanos, Paulo ressurge no cenário público, desta vez no ambiente intelectual. Falo de um ambiente onde também vivi, de fontes onde também bebi os mesmos ensinamentos, preparando-me para a vida e as responsabilidades profissionais. De lá vieram figuras inconfundíveis como Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Epitácio Pessoa, Ernani Sátiro, João Agripino, Salviano Leite, Ivan Bichara, entre os paraibanos ilustres, egressos da vetusta Faculdade, oferecendo uma parcela significativa do ideário que moldou o perfil do estado, da sociedade brasileira, desde Abreu e Lima a Tobias Barreto, Clóvis Bevilácqua, Pinto Ferreira.
    Em bancadas opostas, convivemos eu e Paulo Gadelha uma legislatura inteira na Assembléia Legislativa da Paraíba. Daí, poder oferecer um testemunho vivo e insuspeito sobre sua conduta de homem público. Na agitação da vida política, nos momentos difíceis que marcaram a pressão da sociedade civil sobre os governos militares, reclamando democracia, contestando o arbítrio, a sua ação parlamentar crescia na tribuna pela crítica dos fatos, na defesa do Estado de Direito. A social democracia, de que é moda falar-se hoje no Brasil, representava naqueles dias de repressão, uma idéia perigosa e contrária à concepção ditatorial dos governos de então, apoiados na famigerada Lei de Segurança Nacional.
    Os Anais da Assembléia Legislativa guardam as corajosas intervenções do deputado Paulo Gadelha diante de um plenário perplexo. Assim, igualmente, a sua presença na imprensa, cujos trabalhos compõem o seu livro “A Rosa e a França”. Revelam o pensador que acredita na idéia do progresso humano, na capacidade de auto-aperfeiçoamento da humanidade. A filosofia, o direito, a economia, a literatura, as artes plásticas, são temas abordados com observações agudas e crítica percuciente, transformada em instrumentos de análises dos fatos sociais. Uma consciência ligada ao racionalismo renascentista, ao Iluminismo. A forma breve e sucinta manifesta idéias arraigadas, fruto da especulação que alia a ação ao pensamento, como nos breves ensaios do longevo Bertrand Russel.
    Sinto-me por esta razão, feliz e recompensado com esta amizade. Vejo que Paulo não renegou as suas idéias, pelo contrário, nelas ainda acreditava, divulgando-as em livro. A vida nos entregou aos nossos destinos pessoais. Distanciados pela ocupação que cada um abraçou, vivemos nossas preocupações, cumprimos nossas tarefas. Há quem diga, como o ensaísta norte-americano Francis Fukuyama, com quem não concordo, que chegamos ao fim da história, que a humanidade não se move mais no terreno da utopia, pulverizadas todas as ideologias. A falta de idéias, como acentua o ianque, atrai o homem para causas pequenas.
    Meu caro Paulo, sabemos que os espíritos nos escutam, peço desculpas pelas digressões, a forma tumultuada das minhas palavras, neste momento de dor. Mas no caos da vida moderna, o que restaria a um pobre exilado rural? Como você em “A Rosa e a França”, repudio o trágico pessimismo, o desespero, os desvios totalitários nietzcheanos. O mundo contemporâneo, onde tudo que é sólido desmancha no ar, como acredita Marshall Bermam, mais do que nunca precisa do estoicismo-epicurismo que assegurava ser a vida o maior bem, em face da morte e do efêmero. É a minha crença. Você continua vivo entre nós com a obra de ação e pensamento que realizou, deixou como legenda.

     
     


  • 10/03/2015

    Evilásio Marques Pinto, a crônica que não foi lida


    Tenho em mãos os originais em dois volumes de um trabalho elaborado por Evilásio Marques Pinto, que trata do resgate literário de aspecto interessante da memória sócio-cultural da nossa cidade de Sousa: o jornalismo de uma época. 

    Meticuloso e cuidadoso como fazia o seu falecido pai, o emérito Professor Virgílio Pinto de Aragão, em relação à vida de sua cidade, narrada e descrita em textos e documentos, Evilásio assume a herança intelectual, elabora o seu livro. O título da obra “A Crônica Que Não Foi Lida”, alude a fatos destacados pela sua reconhecida importância, quando aconteceram, reais, dominando, certamente, o painel das idéias da nossa urbe, da nossa gente, e supostamente guardados. 
    Não se tendo tornado os fatos convencionalmente públicos, isto é, através do seu Serviço de Alto-Falante Voz da Mocidade – modo e meio competente na época –, sabiam os interessados, que tais lembranças desa-pareceriam com a memória pessoal de cada um. Para sorte de todos, Evilásio quer salvá-los, levá-los mais longe no tempo, reduzindo-os à forma escrita e impressa. Pois aqui está o livro, revelando as “crônicas não lidas”, este veraz e delicioso saltério sousense.
    Farta é a documentação reunida em textos autênticos colhidos pelo serviço de alto-falantes, que tratam do cotidiano de uma comunidade como outras: da administração pública, das atividades empresariais urbanas e rurais, da educação, da cultura, da saúde, do urbanismo, do esporte, do lazer, da política, enfim. Oportuno o esforço, melhor o resultado. Inclusive a reprodução de jornais do passado, e a Portaria 65 do Serviço de Censura e Diversões Públicas, autorizando o funcionamento da “Voz da Mocidade”, com estatuto publicado no Diário Oficial, devidamente apresentado no Cartório do Registro de Títulos, tudo com data e chancela. Como não? Posso afirmá-lo como sousense, contemporâneo das vivas ocorrências, e está no livro, para conhecimento geral. 
    O autor goza entre os seus conterrâneos o prestígio de iniciativas e realizações no ambiente da cultura, criando um cadastro de dados acessível à população, podemos dizer. A sua vocação para o jornalismo nos pre-senteou com o “Serviço de Alto-Falante Voz da Mocidade”, de que tratamos, e a revista literária “Fatos”, que durante largo espaço de tempo existiram e serviram de meio e apoio na divulgação de notícias e debates, desempenharam relevante trabalho no campo da Comunicação Social no nosso meio.
    Ali reencontro o rapaz Nozinho de Aldo falando dos seus amores, da saudade de Sousa, exilado, longe no estudo, mais tarde juiz de direito, fundador e diretor da Faculdade de Direito de Sousa, jornalista, intelectual consagrado com o seu nome próprio Firmo Justino de Oliveira. Colaborador erudito, Edísio Justino cultivava grandes temas, ao lado do sisudo Otávio Mariz e do espirituoso e irônico Zú Silva contando as suas histórias. E mais Sylvio Timótheo e Gastão Medeiros evocando datas, pessoas, Eládio Melo, e Professor Senhorzinho discutindo os costumes, os vultos venerandos da pátria. Romeu Gonçalves e Nias Gadelha, em discussões veementes sobre a política partidária local, secundados por Luiz O. Maia o mais terno, trágico e mavioso entre os poetas de Sousa ou que aqui viveram, outros e outros, inumeráveis, tratando de intimidades, opinião pública, cidadania.
    E pasmem! Coisas nacionais e internacionais, universalizando o nosso métier. O Sputnik, o inverno, a seca, o comércio, os bancos, a indústria, os costumes, estão ali no livro. E os severos e cáusticos comentadores e críticos alônimos como “Marcelo”, “Zé da Boa Vista”, e o famosíssimo na época “Léo–Dênis”, que provocou censura e intervenção policial na programação da “Voz da Mocidade”. Duvidam? Comprem o livro. A portaria famigerada será editada em fac-símile.
    Chamo a atenção dos leitores para a importância dessas realizações, na atividade hoje denominada mídia, criadas por Evilásio, numa época que não existiam estações de televisão, e a rádio-difusão somente funcionava nas capitais dos Estados, nas grandes cidades. Localidades do interior, Sousa entre elas, viviam o seu próprio universo humano e social em movimento, mas isolada, ausente do noticiário que falava do hoje, do moderno do que estava por vir.
    Entre outras denominações e títulos dados aos programas, tão sugestivos, também este do gosto local, que assegurava audiência e popularidade à sua “Voz da Mocidade”. Ele sabia que era importante despertar curiosidade, provocar suspense para se tornar irresistível, daí a denominação do programa e o título do livro: “A Crônica Que Não Foi Lida”. Intuiu que todos fariam indagações, se entregariam à conjecturas. O que não foi lido? Algo importante, com certeza, envolvendo interesses reservados da sociedade local, que não deveriam ser divulgado na época. E todos desejariam saber. Evilásio fez muito bem em decidir publicar em livro o que foi lido e caminhava para o esquecimento. Está no caminho certo, coberto de razão. O seu livro será lido como as suas notícias eram escutadas e comentadas. Faziam a vida da cidade. E lhe somos gratos. Quantas lembranças renasceram na minha memória cansada, que não se encorajava em buscá-las, não sabia onde procurá-las.
    Considero suaves, estimulantes e ternas tais lembranças. Afinal de contas muitas ali estão renascidas, para nova fruição. Por que não?

     
     
     
     
     

     


  • 04/03/2015

    Hosanas ao Amigo Velho Ernani Sátiro


     Leitura atrasada de "O Canto do Retardatário" do contra-parente (explicarei a seguir) escritor e político Ernani Satyro. Eis uma pessoa genuína, vencedora. De sólida formação intelectual, corajoso na defesa de suas ideias e convicções. Legendário inegavelmente, na mais ampla acepção do termo. E peremptório isto sim, casmurral. Reacionário diplomado. Não fazia concessões. Vasta é a sua produção em títulos que constam de “Plano Inicial das Obras Completas de Ernani Sátiro”, elaborado pela FUNES (fundação que traz o seu nome). Romances e ensaios, versos, crônicas de sabor jornalístico, discursos, conferências. Presença escolhida nos "poetas bissextos" de Manoel Bandeira, transcrito, biografado e elogiado. Ali está o João Guimarães Rosa, do “Magma”. Uma honra para as letras tabajaras. Seus versos muito pessoais, também parafraseiam, falam nas letras e autores clássicos (Camões, Augusto, Pessoa), no amor, na tentativa utópica de reconstrução do mundo, na administração pública, na tradição da chefia familiar coronelista na política, na saudade. "Procurei acabar a fundura do mar [...] cadeiras na calçada". Mas reconhece: "Todos nós, afinal, somos ciganos [...] Na entrada do porto tem uma pedra [...] Do meu amor em Olinda [...] Recife, poema e chaga do Brasil". Ah! O Recife que reconstruiu a minha vida, que renasceu no exílio campestre – somente pensando, refletindo, vivenciando a vida mesmo, que é o que vale. Algo do amigo velho na minha estrada do devir. Na esquerda ou na direita, no amor e na guerra. Ele numa modéstia que não lhe cabia, afirmou que, a sua estrela se não era brilhante era constante. Tudo em capítulos precisos: “Canto da Inquietação das Cismas”, “Canto do Amor e da Mulher”, Canto da Solidão e da Morte”, “Canto dos Poemas de Circunstância”. Orador solene, sentencioso. Ernani era filho de Miguel Sátiro e de Capitulina, que enviuvara de Inocêncio Leite, (aí está a linha do contraparentesco) era mãe de Firmino, sobrinho de minha avó Chiquinha, primo do meu pai, meu primo-segundo e padrinho de batismo. Ernani era, portanto, nosso "contraprimo". Nos desentendemos na política. Caprichos do meu lado e do dele também. Mas não traía, só perseguia. Resisiti. Governador do Estado ele me combateu e derrotou numa eleição para deputado estadual. Fui reeleito no pleito seguinte. A arte não é o que satisfaz o ego. Pelo contrário, é o que desperta (ofende) a consciência crítica, circula, viaja no espaço e no tempo. Descobre, identifica e cria mundos. O momento atual é ativamente dinâmico ─ induz profissionalismo artesanal, busca e descoberta de materiais, instalações. Ernani escreveu num poema: “Vamos todos viver a nova vida / [...] Mas vamos logo ó telespectadores. /Apreciar as guerras e os crimes, /As mulheres nuas /E mais ainda, a destruição / Da Língua e da Família, / Nas novelas de televisão”. Não transigia no tocante a princípios éticos. O despeito e a frustração revelam o traço do caráter, da personalidade. Maculam a arte. Li alhures que pregaram um pincel embebido em tintas no rabo oscilante de um elefante, que alcançava uma tela. Era um fim de tarde em frente ao mar. Meros circuitos neuroniais estimulados pelo instinto e necessidade de alimento para o estômago. Intitularam o quadro "Pôr de Sol no Adriático". Não é o caso de Ernani Sátiro, evidentemente, com o seu preparo intelectual, a sua inteligência crítica: ele ia direto ao assunto. Outros que ponham a carapuça. Aqui neste “Maio na Fazenda”, relembro sem despeito, mas com saudade o “amigo velho”. Estava no seu romance “O Quadro Negro” um inverno criador, como dizem os sertanejos, quando chove o suficiente para desenvolver as pastagens e as lavouras. E os relâmpagos do fim do período chuvoso são discretos, como fósforos acesos no horizonte. Andando pelas roças senti aquela alegria interior do campesino nessas circunstâncias. Estamos bem no corrente ano. A mata cresceu, avolumou-se, a rama fechou nas capoeiras, a gitirana, alimento de primeira pra vacaria, com flores brancas e roxas cobre as moitas, as cercas, sobe nas árvores, o milho bonecou, o feijão canivetou, e já comemos verde. Este homem governou o Estado com eficiência e honestidade comprovadas. Neste campo nenhum o superou. Quanto à política, não perdia tempo em argumentar “filigranas jurídicas” meramente formais, quando se impunha o interesse público, as reivindicações da coletividade. “Grande é a vida”. Bem sentenciou o Amigo Velho, e para ele um abraço de reconhecimento no seu valor, na sua franqueza, na sua coragem. Preparo-me para a viagem, o abraço do outro mundo. Lagoa de Baixo, 2008. 9 − DORGIVAL TERCEIRO NETO. RAMALHO LEITE O NOVO IMORTAL Ontem foi eleito o homem público e também homem de letras Severino Ramalho Leite, para suceder Dorgival Terceiro Neto na cadeira que ocupava na Academia Paraibana de Letras. Sem demérito para outros, Ramalho foi candidato único. Com ele convivi uma legislatura inteira como deputado estadual, e posso testemunhar sobre sua inteligência, seu espírito público, a sua atenção para os assuntos ditos culturais. Recolhi-me ao sertão e ele seguiu em frente, no jornalismo, na política. Um vencedor. Sucedeu com o seu, o feudo dos Bezerra em Bananeiras. Lá, como no tempo do meu amigo Clovis Bezerra, agora só dá ele Ramalho. Um gênio da inteligência e da política. Acho que na APL ele pretendia passar qualquer outro na contagem dos sufrágios, pois, mesmo candidato único, depois de encontros e conversa pessoal, telefonava-me quase todos os dias sobre o meu comparecimento. A preguiça da idade impediu a minha viagem. Como sabem moro longe. Questão de dificuldade, eu daria presença. Mas não era o caso. À sua posse, não faltarei. Um dever do reconhecimento, da amizade. Dorgival foi um entre os acadêmicos, que estimulou e apoiou a minha pretensão de uma cadeira na academia. Um dever. A minha lembrança de Dorgival Terceiro Neto sustenta-se na sua crônica de estudante no colégio de Patos, depois hóspede da Casa do Estudante em João Pessoa - quando a Paraíba começou a conhecer e admirar a fortaleza do seu caráter incorruptível. Daí pra frente a índole, o temperamento definiram o cidadão que permaneceu impoluto como convém a todos, ao homem público principalmente. Não privei de sua convivência no período de sua vida estudantil. De uma geração, um pouqinho mais nova, e estudando no Recife, pessoalmente não o via, mas a sua legenda chegava aos meus ouvidos nas terras pernambucanas. Era o sertanejo que não traía a fala e os hábitos. Autêntico mesmo. Conheço gente de Sousa que fala "axs coisaxs".Tipos também chiam aqui de João Pessoa. Dá pena. Conheci Abelardo Jurema, o velho, que morou a vida toda no Rio de Janeiro e não tinha esses tiques na pronúncia. O Abelardinho pode chiar porque nasceu e criou-se no Rio. Dorgival não chiava. Mas o meu conterrâneo João Estrela falar "axs exscolaxs" faz pensar que a sua popularidade política tem aí suas raizes, porque desconheço outro mérito intelectual ou profissional que o destaque. E como administrador público nem se fala. Antonio Mariz achava que a risada de Zé Dantas acabara com a liderança de Jacob Frantz em São João do Rio do Peixe. Não encontrava outra explicação. Isso me disse muitas vezes, matutando métodos para as nossas campanhas eleitorais. Mas voltando ao caro Dorgival, assinalo a sorte, o destino que o fez vizinho de moradia, nas proximidades do Clube Cabo Branco, do matuto-político-escritor Zé Cavalcanti. Acocorados os dois na calçada eles conversavam como bons sertanejos. E os moradores do bairro passavam e os cumprimentavam, e não viam nada demais. Como governador Dorgival era o mesmo homem: reto, digno, beradeiro. Sousa e a família Mariz lhe devem a pesquisa que descobriu no João Belchior Marques Goulart um "Marques" de Sousa, que mandou para os pampas bachareis ilustres que lá se fixaram como Benedito Marques da Silva Acauã, parente também do nosso jurista Antonio Elias de Queiroga. A cidade de Sousa alardeou por muito tempo a sua performance política na Câmara, no Senado, no Governo do Estado. Faltava a Presidência da República. Pois Dorgival ilustrou a nossa tradição com a sua pesquisa, que lhe conferiu o exercício do mais alto cargo da Nação. Os marizistas comemoraram. Muito mais tenho para dizer, mas o farei noutra oportunidade. Finalizo chamando a atençaõ para os vultos ilustres que Taperoá tem dado à Paraíba: cito Ariano Suassuna, Dorgival Terceiro Neto, Manelito Vilar e Balduino Lelis. Por enquanto. Dorgival, governador do Estado, presidiu reunião para discutir e definir um plano de atividades da FUNCEP (Fundação Cultural do Estado da Paraíba) recém-criada, que eu dirigia, para receber recursos federais do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) para conservação e restauração de cidades e monumentos históricos do país. Ilustro com a foto abaixo. Sentei-me ao seu lado na cabeceira da grande mesa de reuniões do palácio, como presidente do órgão que cuidaria da programação e execução do chamado “plano de cultura” da Paraíba. Na minha passagem na FUNCEP, cidades e edifícios e sítios foram relacionados, treinados “mestres” da construção civil para a tarefa de restauração. Refiro como exemplos, a estação do trem de Campina Grande, a Casa da Pólvora, e, na cidade de Areia, indicado pelo coronel José Rufino de Almeida, o treinamento e especialização pelo IPHAN no Recife, de um mestre, que realizou o trabalho de restauração do sobradão colonial, à suas expensas, onde se escondeu num cômodo secreto, o revolucionáro Borges da Fonseca. Também na minha gestão patrocinei a ida de Raul Córdula como representante da Paraiba no “Salão Global” que reunia artistas nordestinos. Ele conquistou o primeiro lugar na mostra. Tudo partiu de Ivan Bichara e Dorgival. Ramalho amigo, não precisa lembrar a sua posse. Lá estarei. Festa grande, que o orgulho brejeiro não dispensa."


  • 19/02/2015

    O jogador apoucado


     VÁ DENTRO ! − comandou a voz do parceiro. A irritação de Raimundo aumentava. Estava perdendo. Desgostava-o aquela aparência de superioridade do outro. Atrapalhava-se algumas vezes com o jogo cheio de alternativas. Agora estava armado, com um par de noves e um dez encostado. Bateria por várias cartas: oito, nove, valete. Possuiu-o súbita angústia. Estendeu o braço, chorou a carta segurando-a com força, dobrando a ponta. Outro nove de copas, duplicava. Tremeu, olhou demoradamente para o baralho em leque na sua mão esquerda. Os parceiros perceberam a sua indecisão, o seu desapontamento. Mostrou-se resoluto e jogou a carta na mesa. − Bati! gritou o companheiro do seu lado direito, deitando o jogo na toalha, puxando os caroços de feijão que serviam de fichas. − Mão gorda! completou rapidamente, abrindo um sorriso que o exasperava ainda mais. Realmente aquela parada lhe cobriria o prejuízo, avaliou Raimundo. Mexeu-se na cadeira, sentiu-se desconfortável no assento duro e lembrou-se da mulher. Não teve coragem de encarar os jogadores, baixou os olhos. Ao chegar comprara fichas, entregando o dinheiro com delicadeza, sem jogá-lo em cima da mesa como outros faziam, guardara-as no bolso da camisa. Evitava colocar o feijão em cima da mesa, como faziam parceiros conhecidos, porque não conseguia esconder a inquietação diante dos olhares quando as suas reservas minguavam. − Café para todo mundo! − ordenou o dono da casa. Quando a empregada acercava-se com a bandeja, Raimundo antecipou-se, segurou a xícara com firmeza. Não cederia a vez, humilhado, diminuído como nos contratos de trabalho na fazenda. No jogo todos eram iguais. A mulher não valorizava este detalhe, pensava só no dinheiro, nos dias de suor derramado, nas necessidades da família. Ele amava a mulher, meiga, branca. Ela tinha os seus motivos. Para casar tivera de raptar a moça, recusado que fora porque era negro. Resistia a apelos. Vivia da roça, tinha a força nos braços para sustentar uma filha de branco, e, para passar como pobre, ganhava o suficiente, assim tivesse trabalho, costumava dizer com orgulho. Fale quem vai jogar intimou o parceiro ao acabar de dar as cartas, arrancando-o dos seus pensamentos. Indeciso Raimundo acendeu um cigarro. Gostava do jogo na casa do patrão. Após o banho no açude ensaiava troças, sozinho na estrada. Diante da mesa composta, na sala mobiliada, olhava para os grandes quadros na parede, esfriava. Passo respondeu cauteloso e passeou o olhar pela mesa, estimando em gêneros alimentícios os montinhos de fichas na frente dos jogadores. Olhar agudo, o jogo medido, compassado, o patrão estava ajudado pela sorte. Esvaziava-se o bolso de Raimundo. O baralho haveria de mudar, ele esperava e fazia planos, inventava surpresas para a mulher. Aquela parada que perdera armado num par de damas daria para comprar até tecidos, roupinhas para os meninos. A da seqüência garantiria o açúcar para a semana. − O negro está arisco, só vai pronto! − alguém falou para encabular Raimundo. Gostava de jogar, especialmente naquela mesa, que o ambiente os tornava íntimos. Fiscalizava como nas outras, os pedidos de cartas, os descartes, impunha a observação de regras estabelecidas. Diferente do seu mundo de trabalhador da roça, a enxada pesando, preso como um animal jungido para o sacrifício. Revidou a pilhéria erguendo a cabeça, o olhar duro: − Peru calado ganha um cruzado! O meu dinheiro custa o meu suor − respondeu usando a linguagem própria de jogatinas, ríspido, numa advertência. A sorte não o protegia, aproximava-se agora de Manoel Preto. Odiava aquele parceiro sempre protegido pela sorte, mesmo negro como ele. Foi-se a última ficha. Sem dinheiro, saiu para o alpendre e evitou conversar. Demorou-se entregue a pensamentos tristes, olhando para o céu muito azul, para os cercados na frente da casa, que lhe consumiram dias de trabalho. Voltou para a sala onde carteavam, pisando macio para não ser notado, para não escorregar no cimento liso. Dirigiu-se para a sala de jantar e foi ao pote para beber água. Uma intimidade. Sobre a mesa estava a garrafa térmica com o café. Pensou em encher uma xícara, beber o líquido gostoso olhando à distância os jogadores na sala da frente. Não se atreveu. Deveria pedir, se quisesse. Que fazer? Peruar ou sair para casa. Não podia voltar para o jogo. Não tinha mais dinheiro e não ousava pedir emprestado, receava uma negativa. Na cozinha conversavam as mulheres da casa e da vizinhança. Não escutava a voz da esposa, retraída, que pouco freqüentava a casa grande. “Apoucamento”, pensou Raimundo."


  • 11/02/2015

    Amor e morte


     A CASA enchera-se de gente. A presença de estranhos, o ar de curiosidade estampada nos rostos que o observavam, irritavam-no. Solicitado insistentemente pelo advogado, decidiu falar. “ — A noite estava muito escura. Não havia nuvens e des-tacavam-se no fundo negro do céu os milhões de estrelas visíveis a olho nu, a poeira da Via Látea. Não atentei de imediato para as sombras ao meu redor. Como fazia todas as noites, deixava-me possuir por aquela solidão imensa, protegido pela distância das pessoas, obliterando nos primeiros momentos, a lembrança de fatos da minha vida, ao acordar de um sono profundo no alpendre. Sentia aquela sensação de integridade que a satisfação pessoal nos dá. Longe de tudo e de todos, dormia as primeiras horas da noite na ampla rede, as luzes apagadas, guardado pela empregada obediente e atenta às minhas ordens, para servir-me água e café quando eu pedia, para administrar-me medicamentos recomendados. Éramos os únicos habitantes da casa. A uma distância de duzentos metros estava a casinha do administrador da fazenda, com a mulher branca e gordinha, cabelos castanhos, lisos e curtos, alguns filhos também brancos e gordinhos, silenciosa àquela hora. O meu relacionamento com a vizinhança obedecia a critérios estabelecidos pelo meu humor instável, que todos inteligentemente descobriram. Assim eu conseguia viver a maior parte do tempo no isolamento a que me submetera e me fazia bem. Dono de terras, raciocinava com o maldito Ezra Pound que “os ricos têm mordomo e não têm amigos”, o que pouco me importava. Mas inesperadas e vivas recordações de acontecimentos e o casual chamamento de compromissos irrecusáveis, que a minha vida anterior impunha dolorosamente, chegavam sempre. Ouvi então, passos leves e rápidos na minha direção e aguardei que se aproximassem, na escuridão, sem me sobressaltar. Os ruídos da noite, conhecia-os bem, vinham do curral, do vento nas matas, e, espaçadamente piavam aves noturnas. Quem se aventuraria a procurar-me àquela hora, sem se identificar à distância, sem provocar a ira do cachorro deitado debaixo de mi- nha rede, que espiava alerta? O cão ergueu-se e alegremente re-cebeu o vulto que se acercou da rede e sentou-se macio, acendendo os meus sentidos. Quantas vezes na minha vida fatos semelhantes tinham acontecido, guardada, entretanto, uma tácita e criminosa cum-plicidade! Tarde, muito tarde, o sexo saciado, a carinhosa sombra feminina beijou os meus cabelos e afastou-se, silenciosa como chegara. Pablo Neruda narra um episódio de sua vida no Ceilão, em que se atrasando para um encontro com amigos ingleses, des-culpara-se por haver parado no caminho para ouvir música. Vivendo há vinte e cinco anos ali, eles surpreenderam-se ele-gantemente. Música? Os nativos tinham música? Eles não sabiam. Era a primeira vez que ouviam fakar. Por favor não interrompam! Conhecem por acaso, o axio-ma chinês sobre as três versões possíveis para um fato qualquer? Existe, pois, a verdadeira. Vocês nada podem acrescentar que vê-nha esclarecê-la. Na manhã seguinte, a minha amante noturna visitou a co-zinha. Ouvi-a conversando com a empregada. As vozes mistura-vam-se ao barulho da água jorrando da torneira, ao tinido dos talheres e de louças na pia, sugerindo a intimidade feminina. Encontrava-me no quarto e depressa dirigi-me para o alpendre pa- ra falar-lhe quando ela passasse. Cheio de curiosidade, pensava repetidamente no insólito acontecimento da noite, pois entre nós não se estabelecera aquela conivência comum aos amantes. “Marta!” - exclamei ao vê-la andando rápida, sem se deter. Senti-me bem disposto e fiquei a observá-la no caminho, o corpo inclinado para a frente, como nas marchas resolutas. Estava convencido de que ela voltaria no negrume da noite sem lua, quando o marido cansado, dormiria profundamente. Vira-a todos os dias, indiferente, ao longe, na labuta em redor da casa, carregando lenha para o fogão, juntando as ovelhas à tarde para o abrigo. Notara-lhe as faces coradas, a pele sedosa apesar do sol, o ventre volumoso por sucessivas gestações. Não chegara ainda à velhice, talvez não tivesse mais de trinta anos. Vivia em harmonia com o marido, branco e forte como ela, sisudo, eficiente no trabalho. O que a teria arrastado a tão estranha aventura? Evitávamos o Sol que tudo vê, e apenas a Via Látea testemunhava os nossos en-contros. Não sou dado a reflexões filosóficas, reconheço-o. O bem e o mal, causadores de guerras e dissídios, aceito-os e contra eles rebelo-me, dadas as circunstâncias. Guardo um texto de Sextus Empiricus, pirroneano, autêntico e conseqüente: “O ceticismo é a faculdade de opor as aparências e os conceitos, de todas as manei-ras possíveis, o que permite chegar, em virtude da igual força das coisas e das razões opostas, primeiro à suspensão do juízo, segundo à ataraxia.” Mestre era Epicuro. Falei ainda para o delegado, empos-tando a voz: − A vida é o quinhão de todos. Cultivo o meu jardim, procuro desfrutar dos prazeres que puder gozar. O senhor com cer-teza é cristão - todos o são! - e ilustrado, deve ter lido o livro de Jó. Ali está narrada a tragédia da luta do homem com o seu destino. Como se explica que sofra o justo enquanto o ímpio desfruta dos prazeres da existência? O catolicismo farisaico e repressor das nossas paróquias não comenta, como deveria, o drama do inculpe duramente castigado. O marido suspeitava de algo, é claro, depois de algum tempo. Era ameaçador no sua rudeza. Mas não atraí a desgraça para a sua casa. “Você notou - ela disse-me à noite, alisando os meus cabelos, escorregando a mão pelo meu corpo nu - eu olhava para você quando ia para o curral ao lado do meu marido. Achava-o mais forte e mais bonito na sua riqueza, apesar de mais velho. Eu estava certa.” Sinceramente, confesso que não tenho deuses, e que, nos momentos difíceis dialogo comigo mesmo, deixo por conta do destino o acerto ou o erro das minhas ações, disposto a delas pres-tar contas em qualquer tribunal. Porque, se existe um Deus deci-dindo sobre os nossos destinos, a Ele entrego os meus pecados.” Parou neste ponto a narrativa feita de um fôlego, sem se deixar interromper pelo advogado que o observava, escutava tenso e falou irritado: — O senhor não forneceu qualquer elemento para sua de-fesa. Limitou-se a divagações que não lhe ajudam. Na verdade, o senhor precisa mesmo é de um psiquiatra. Fechou-se em lembranças, e não pronunciou nenhuma palavra mais sobre o assassinato do administrador da fazenda à sua porta, à fraca luz das estrelas, sob a poeira da Via Látea."


  • 01/02/2015

    As horas trágicas


     "OS CÚMPLICES AS CORTINAS pesadas desciam ao longo da parede, escondendo a janela que dava para a rua, obstruindo a entrada de luz, de ar, de ruído. Sim, o barulho que vinha de fora: a explosão dos motores dos veículos, todos os sons misturados sem harmonia. Gritos, vozes, choques. Havia árvores velhas na calçada, porém, os pássaros tinham fugido e o verde era vazio de gorjeios. O ambiente denotava o esmero e a intencionalidade com que fora construído. Dois amplos compartimentos, separados por cortinas que fechavam o largo vão de comunicação entre eles, compunham o conjunto. Ficava-se ali, completamente isolado do mundo exterior. Um jovem de físico avantajado encontrava-se em pé no meio do compartimento que servia de biblioteca. Sem reparar para a outra peça, aproximou-se da estante que ocupava toda uma parede. Bem dispostos nas prateleiras, compondo conjuntos, os livros não lhe despertaram interesse pela leitura. Pelo contrário, pareceram-lhe ornamentos, e dominou-o a im-pressão que estavam fixos na reentrância, nada haveria escrito nas suas páginas, que talvez nem existissem. Uma vaga perturbação possuía-o, pela convicção de que não deveria estar naquele lugar, que um equívoco adrede preparado criara-lhe tal situação. Sentia que se estabelecia entre ele e outra pessoa que se encontrava no compartimento ao lado, uma comunicação telepática à qual procurava furtar-se, sem coragem para encará-la e conversarem clara e francamente. Ondas eletromagnéticas penetravam-lhe o cérebro, vindas com regularidade, produzindo-lhe náuseas. Cansado ele voltou levemente a cabeça para um lado, evitando olhar para a sala contígua. As cortinas vermelhas, artisticamente onduladas, pen-diam imóveis. A luz difusa derramava-se pregando manchas coloridas na decoração, envolvendo os delgados móveis de formas retilíneas, os vidros que repousavam nas armações de aço inoxidável, os quadros na parede em abstratas explosões de linhas, de sombra, de luz, guardados em molduras de alumínio. O ar renovado pelo condicionador era agradável e o ruído da máquina o entorpecia. Compreendeu que não desejava ler nenhum livro, e que a contemplação de um quadro não lhe despertava nenhum prazer estético. Apenas sentia a necessidade de afastar-se, deixar aquelas salas e libertar-se das forças estranhas que o tinham arrastado e o prendiam naquela atmosfera afligente. Pressentia inauditos fatos prestes a acontecerem, e uma vontade irreprimível impelia-o a tomar a decisão que considerava impossível de realizar: fugir, integrar-se à massa humana que percorria as ruas com obstinada determinação, readquirir a sua condição de membro da sociedade organizada, alcançar um objetivo útil. Não. Não podia se voltar, encarar o homem que o fitava sentado no divã no compartimento vizinho. Ao chegar encontrara a porta entreaberta e apenas a empurrara, entrara na sala. Num relance examinara bem o extraordinário lugar, e entrevira a pele alvoazulada pregada nos músculos flácidos das mãos e do rosto da esquisita personagem. Sentira-se atravessado, inteiramente des-coberto no seu íntimo pelo olhar brilhante, cheio de estranha ansiedade e vago temor. Procurou dominar a cólera que começava a possuí-lo, ao perceber que a figura movia-se na sua direção. Detestou a condição humana. Num espasmo, em violenta crispação, sentiu correr-lhe pelo queixo fios quentes de sangue, e das mãos, o sangue escuro gotejar sobre o tapete. Tentou manter firme o raciocínio, evitar um desmaio, temeroso que a pele untuosa aderisse ao seu corpo, e toda a miséria daquela criatura caísse sobre a sua vida. Sabia, entretanto, que era difícil fugir. Tornara-se cúmplice do abo-minável procedimento, e nada o eximiria de culpa. Refletiu sobre as aberrações espantosas em que se compraz o espírito humano. Através da comunicação telepática ouviu os aterrorizantes e surdos rugidos que rolavam no peito do nauseabundo ser. Percebeu-o bem próximo, viu-o transparente e tremente como uma gelatina, e sentiu que sugavam os seus lábios demoradamente, depois bebiam o sangue que escorria pelo seu corpo. Desmaiou quando constatou que a sua própria pele se tornava alvoazulada, e eram então, dois seres de almas iguais." (continua) ................................."


  • 27/01/2015

    O duro recomeço


     Ao nascer do sol, já estou de pé. Deito-me cedo e entrego-me aos pensamentos, sozinho no alpendre. Ventos fortes, pingos de chuva ou o avançado da hora empurram-me para dentro de casa. Gosto de ficar em silêncio, espreitando o espetáculo da natureza, como se receasse interromper o desenrolar das cenas noturnas. Gira o universo. Estrelas aparecem e desaparecem no céu. A Via Láctea no infinito encantamento de suas lendas desenha-se num fundo negro, profundo. Relâmpagos iluminam o nascente, ronca o trovão. O gado fica imobilizado esperando a chuva para começar a andar numa forma de resistência e adaptação ao belo e incomparável fenômeno natural da tempestade. A chuva vem montada no vento, que escouceia, sopra com violência. “O vento é o cavalo da chuva”, ensina a retórica sertaneja. Ao amanhecer, os pássaros cantam todos de uma vez. Destacam-se as modulações do sabiá, do galo de campina. Vozes harmoniosas no meio do alarido. Luz e sombras. As matas reverdecidas depois da longa letargia da seca. Avisto trabalhadores vindos de suas casas distantes, dirigindo-se para a jornada nas roças. Homens e mulheres, velhos e crianças, em alegres discussões e desafios. A perspectiva de colheita, a superação das dietas forçadas desanuvia-lhes as feições duras como pedras. Mesmo sabendo que lhes é negado o produto do seu trabalho, retesam os músculos como condenados, o suor pingando do rosto, fazendo manchas escuras nos sovacos, nas costas. 2 Releitura do que venho escrevendo há alguns dias, sem regularidade. Nada além de simples exercício que me impus, de um gesto filho do ócio. O trivial sem estilo. Lembro de uma página de Huxley. Anotações de um caderno do intelectual Antony Beavis. A lógica do raciocínio de uma mente poderosa. E eu com os meus pobres escritos, sem leitores, rabiscando para mim mesmo. É uma longa transcrição, mas vale como exercício de memória e autocrítica. “Acton quis escrever a História do Homem em termos de uma História da Ideia de Liberdade. Mas não se pode escrever uma História da Ideia de Liberdade, sem ao mesmo tempo, escrever uma História do Fato da Escravização.” “Nas suas sucessivas tentativas de conceber a Ideia de liberdade, o homem está constantemente trocando uma forma de escravização por outra.” “A Escravização primitiva é a escravização ao estômago e à estação adversa. Escravização à natureza, numa palavra. A fuga à natureza se consegue pela organização social e pela invenção técnica. Numa cidade moderna é possível esquecer que existe esta coisa chamada natureza – particularmente a natureza em seus aspectos mais inumanos e hostis. Metade da população da Europa vive no universo forjado por ela mesma.” “Suprimamos a escravização à natureza e surge imediatamente outra forma de escravização. A escravização às instituições. Instituições jurídicas, religiosas, militares, econômicas, educacionais, artísticas e científicas.” “Toda história moderna é uma História da Ideia de nos libertarmos das Instituições. E é igualmente a História do Fato da Escravização às Instituições. É porque se procura por em prática a Ideia de Liberdade que as Instituições se transformam.” 3 Herdei do meu pai o espírito boêmio, dessa boemia livresca com certa dose de álcool. E a tendência ocasional para o isolamento, a introspecção. O dinheiro para mim não tem importância além do que se fizer necessário para despesas indispensáveis e modestas. A avareza, a usura – um veneno da alma. 4 Do meu “diário poético”, que não é diário, mas anotações dispersas: 1 - ...estrelas vegetais... Pasto espacial de melancólicos bois...(?). Thiago de Melo mora em Paris com Simeão Estilita. Preferiu a Torre Eiffel às palafitas de Manaus. 2 - Distribuindo sorrisos. Como o trapezista. Voando perigosamente sobre o picadeiro O falso artista. Assim ganha dinheiro. Há pessoas que se realizam no sofrimento, na distância das coisas, dos seres queridos. Descobrem a pobreza do seu mundo desfrutando da riqueza de outros. Um caso para o divã do psicanalista. Ou para o julgamento da história. 5 Estas anotações perdem o sentido de um relatório de fatos, como imaginei. Reproduzem no nível de minhas preocupações, o problema capital da vida espiritual da sociedade. Indagação a que Marx respondeu com um axioma: “Não é a consciência do homem que determina a sua existência. É, pelo contrário, a sua experiência social que determina a sua consciência.” Uma história da ideia... Antony Beavis percebeu claramente o processo de desenvolvimento, de mudanças qualitativas que se operam na sociedade. É uma história do real. O motor está na base, na prática determinadora das instituições. Querer provar o contrário, ou opor particularizações metafísicas, é como aplicar um “raciocínio lógico a uma situação não existente criada por uma ideia fixa ou uma alucinação.” A literatura nos estudos linguísticos e estruturalistas – um desvario, uma ideia fixa, uma condenação da lógica dialética. Reflexo das situações sociais, ao mesmo tempo em que a expressão estilística do espírito objetivo, autônomo, assim o mestre Carpeaux vê a literatura. Forma e conteúdo na sua complementaridade. As dimensões sintagmáticas e paradigmáticas da literatura, fundadas no conceito de sobredeterminação de certa formação do inconsciente, como o sonho, não passa de piada, de miragem no direcionamento dos estudos freudianios. 6 Em Sousa, encontro entre os nossos, indecisão para escolha do candidato a prefeito, causada pela prolongada ausência de Antônio Mariz. Preso a compromissos de trabalho na Assembléia Nacional Constituinte, ele pouco tem aparecido. Esse é o papel do líder. Esperam-no para as decisões que deverão nos levar à vitória, para oferecer-lhe mais uma condecoração. A submissão a um projeto familiar de realização política, prejudicou a luta socialista de Antônio Mariz. Pai, avô, bisavô, tios, primos, foram governadores, deputados, senadores. Esse traço caseiro, a prosápia, refreou-lhe o ímpeto, desviou a linha de sua ação. Mas entre os paraibanos – é preciso que se diga – pelo seu caráter, pelo exemplo dos seus, permanece admirado pelas elogiáveis qualidades morais no trato da coisa pública. Não vejo, atualmente, entre os políticos paraibanos, outro que pudesse arrancar o Estado do caos administrativo, da frouxidão moral em que o enterraram os últimos governos. Lembro-me de Ernani Sátyro, reacionário “íntegro”, no seu sonho monárquico de uma casa de reis. O lema do seu governo era contraditório no enunciado: “tradição e renovação.” Tradição pelo que fizeram os seus antepassados, pelo que ele fazia e pelo que certamente o fariam outros com o seu sobrenome. Enfim, a renovação no seu estilo inarredável. 7 Quando Marshall McLuhan afirmou que “o artista é detentor do poder de ver com clareza e julgar o meio vigente criado pela mais recente tecnologia”, ensinou-nos que, a arte é instrumento e meio eficiente, como reflexo da realidade, para o conhecimento, e que o artista é um descobridor das características e situações típicas da evolução social. Os artistas são as antenas da raça. Li essa afirmação, acredito, em Ezra Pound, no seu ABC OF READING. A prática do intercâmbio cultural pode levar-nos à descoberta e identificação da fonte comum entre as manifestações artísticas em todo o mundo, explicando e desvendando “mistérios” que ainda envolvem o homem. Apesar das características e peculiaridades de cada povo, a soma dos esforços e conquistas do pensamento humano constitui o elo comum, o patrimônio de toda humanidade. A obra filosófica de Karl Marx e as composições de Haendel, alemães pelo nascimento, sugiram na Inglaterra."


  • 22/01/2015

    Prosa Caótica II


     Dada dificuldade de contratar a editoração e publicação do livro a seguir nomeado, intercalo a partir de hoje, às notas diárias na minha página do Facebook, trechos da referida obra. O DURO RECOMEÇO - PROSA CAÓTICA I I (TEXTOS POLÍTICOS E LITERÁRIOS 1980-2014) - (continuação) Caderno I (1985,2000) 12 Recordo que fiz a lápis anotações num caderno que não consigo encontrar, concluída a leitura de MATERIALISMO DIALÉTICO e MATERIALISMO HISTÓRICO, de Stálin. Eis um pequeno ensaio, um manual de grande utilidade para os militantes comunistas, para avaliar os problemas concretos do momento histórico. O método dialético é um poderoso instrumento de investigação para o conhecimento dos fenômenos da natureza e da sociedade, na sua base materialista. O desenvolvimento das ciências e as modernas técnicas estão criando uma nova sociedade. Vivemos um momento de “fratura da história.” A “cartilha” de Stálin, nada tem com a repressão que ele instalou na URSS. Facilita a assimilação de textos de Marx e Engels, capacitando o ativista para o descobrimento das contradições específicas do seu povo e do seu tempo. Marxista fanático desde a juventude – acentuam seus biógrafos –, afeito à discussão e à ação política ao lado de Lênin, é também um dos responsáveis pela criação da ética bolchevique, um comportamento que sustentava a imagem do homem e dos costumes dos proletários fundadores do estado soviético. Melodramático, enérgico e orgulhoso como o retrataram, liderava o partido, chefiava o governo, gostava da companhia de intelectuais e se considerava um deles. Lia e comentava a história, discutia o teatro e o cinema, aprovava a estética do realismo socialista que definia e conceituava: “O artista deve mostrar a vida com veracidade. E se ele mostra nossa vida verdadeira, não pode deixar de mostrá-la avançando para o socialismo. Isso é e será realismo socialista”. Khruchiov o batizou de “o homem de sete faces.” O resultado político, para ele estava em primeiro lugar, como se evidenciou no período ditadura com os processos, as execuções e o terror, censurando e distribuindo edições falsas de jornais. Parece que os comunistas brasileiros deixaram de lado a leitura dos clássicos, e divulgam novidades europeias e norte-americanas de conteúdo revisionista, estimulados por inter-pretações artificiosas de filósofos de segunda mão. 13 Edmund Wilson no seu RUMO À ESTAÇÃO FINLÂNDIA: “Há vários motivos que explicam o reconhecimento insuficiente dado a Marx e Engels como escritores. Sem dúvida, um deles é o fato de que as conclusões a que eles chegaram eram contrárias aos interesses das classes que mais leem e que fazem as reputações dos escritores. A tendência a boicotar Marx e Engels, que se verifica tanto entre os historiadores literários quanto entre os economistas, constitui uma notável corroboração da teoria marxista da influência da classe sobre a cultura. Porém há outro motivo também. Marx e Engels não acreditavam mais em almejar a glória filosófica ou literária. Acreditavam ter descoberto as alavancas que regulam os processos da sociedade humana, que liberam e canalizam suas forças; e, embora nem Marx nem Engels tivessem talento de orador ou de político, eles tentavam fazer com que suas capacidades intelectuais atuassem o mais diretamente possível na realização de objetivos revolucionários. Estavam tentando fazer que sua prosa se tornasse “funcional”, no sentido em que o termo é empregado em arquitetura, coisa que não ocorrera nem com o jornalismo de Marat nem com a oratória de Danton. Como seus objetivos eram de âmbito internacional, não estavam nem mesmo preocupados com seu lugar na história do pensamento alemão. Assim, Marx escreveu sua resposta a Proudhon em francês; e os escritos de Marx e Engels desse período misturam francês, alemão e inglês, entre artigos de jornal, polêmicas e manifestos que só recentemente foram reunidos pelos russos e publicados na íntegra.”(p. 158) 14 Para livrar-me do desconforto com os trabalhos na casa, viajei para Sousa. A minha cidade de nascimento continua sua intrépida luta contra o atraso. As ruas cheias de gente, muita atividade comercial. As pessoas isolaram-se mais, em grupos de interesses iguais. Assim se cumprimentam, assim ignoram a presença de estranhos. Automóveis caros, de modelos novos, exibem o triunfo de fortunas recentes, a estabilidade de alguns, a investida aventureira, a alienação de todos. Afastados do centro da cidade os pobres amontoam-se nos subúrbios, e mendigam, exercem um precário comércio ambulante de bugigangas, perseguidos, corridos pela indiferença dos demais em relação à sua sorte. Visitei minha mãe doente, imobilizada há anos por uma trombose. Encontro-a todas as vezes que a vejo, o olhar distante, respondendo com monossílabos às minhas indagações carinhosas e apressadas. Às vezes ela faz perguntas. Quer saber dos outros filhos. Fumante inveterada, a doença colheu-a quando ainda administrava com a eficiência que todos lhe reconheciam, a casa, a família. Meu pai falecera três anos antes. 15 Concluídos os serviços na casa. O regime de empreitada, com esforço redobrado dos trabalhadores, possibilitou-lhes uma boa remuneração. Mais um motivo para comentários despeitados. Cuidarei, agora, de organizar a minha pequena estante, os meus papéis, cuja ordem imposta pela empregada, não consigo por enquanto, decifrar. 16 Ontem à noite caiu uma grande chuva. Alegria geral com perspectiva de um bom inverno, para os mais otimistas. Os passarinhos, há meses quase desaparecidos, voltaram como por encanto. Chego a pensar que o canto dos pássaros não é apenas a forma de comunicação entre os de sua espécie, para o agrupamento, a guerra, a reprodução. Algo existe na modulação das horas próprias, como uma integração com o mundo circundante, um hino à natureza, à vida. As vozes dos homens primitivos assim devem ter ressoado no desenvolvimento de sua experiência social, do trabalho, até chegar ao signo, à palavra, que o ajudou a dominar a natureza, na designação de objetos e fenômenos. Daí para a abstração, o degrau que o transformou no ser superior na escala animal. Os poetas dizem que os rios cantam, que as flores sorriem, e advertem contra as trapaças do tordo e a crueldade do mês de abril... aves e estações inexistentes no clima do semiárido nordestino. A arte é aquela forma de integração, de apropriação do mundo mediante a consciência, o instinto animal, e refletem, como experiência social, no complexo relacionamento dos indivíduos, na sua especificidade, a dialética dos fenômenos do desenvolvimento social. Estamos, é verdade, bastante afastados das sonoras modulações dos nossos irmãos passarinhos. Tudo, entretanto, submetido a leis. 17 As lembranças da mais tenra infância, aí pelos quatro a cinco anos, diluiram-se ao longo de uma juventude marcada pela necessidade. Não aquela pobreza enraizada na família, mas a que se sobrepõe ao fracasso de um dos ramos. A primeira humilha, deixa na personalidade a marca da obstinação, da resistência; a segunda revolta, cria bodes expiatórios, transfere responsabilidade e faz os indivíduos maquinadores de vingança sem-razão, dissimulados, calculistas. Na minha casa, para as refeições havia mesas para adultos e para as crianças, tantas eram as pessoas entre hóspedes, visitantes, costureiras e amigos circunstanciais dos meus pais chegados de última hora. O pessoal da arrumação, da cozinha, desdobrava-se. Ordens rigorosas não permitiam que as crianças se acercassem de onde os adultos conversavam, a não ser quando eram trazidas para serem exibidas como modelos disso ou daquilo. Quantas vezes fui arrancado dos meus brinquedos com outros de minha idade, levado a contragosto para diálogos absurdos, que só me aborreciam! De minha mãe, lembro-me nessa época, com vestidos limpos e vistosos, o inseparável cigarro, perfumada, a conversar com modistas, mostrando às visitas os inumeráveis álbuns de fotografias da família. Tratava-me com carinho, o seu caçula, e eu procurava o seu colo para os prantos provocados pelos ferimentos e contusões sofridos em brincadeiras, ou beliscões que me aplicavam os irmãos mais velhos quando incomodados por mim. Meu pai colocava-me nas suas pernas e acariciava-me, beijava-me, e arrancava-me lágrimas esfregando os pelos duros de sua barba na minha pele delicada. Quando fui mandado para a escola, comecei a perceber que mudanças ocorreram na nossa vida sem que eu notasse. Tudo estava sendo medido, controlado. Os meus irmãos mais velhos e também as minhas irmãs, devem ter sentido mais dolorosamente o declínio. Rareavam as visitas. Minha mãe conservava a respeitabilidade de sua origem abastada em Mossoró, família de grandes comerciantes, morando em aristocráticos sobrados, que conheci muitos anos depois. A nossa ascendência em linha reta dos “Leite Ferreira” de Piancó, mandados pela Casa da Torre para colonizar aquele pedaço de sertão, mantendo-se pelas posses e prestígio político, desde o Império, com representantes na vida política do estado, não nos afetava. A mim, pelo menos. Morávamos em Sousa, onde meu pai dedicava-se a atividades comerciais, e esta cidade como todo o peso de suas potencialidades, na luta entre os potentados locais, ignorando os nossos tios e avós, deputados e doutores, assistiu à queda da nossa fortuna. Todo nosso patrimônio resumiu-se a uma propriedade rural entregue a arrendatários, a casa onde morávamos, e duas outras, vendidas depois para gastos eventuais. Meu pai, liquidados os seus negócios, entrou para o serviço público estadual, nomeado pelo irmão deputado estadual, comportando-se com o seu temperamento expansivo e o seu espírito jovial, a mesma pessoa alegre e digna. Sobrevivemos como os sousenses e com os sousenses, no clube, na política, na igreja, na feira, na escola. 18 Est modus in rebus, sabedoria do velho Horácio. Com o meu pai aprendi a cercar-me de livros, não para exibir cultura, mas para abrir as portas de outros mundos. Acredito que ele assim procedia, pois não conheço textos de sua lavra. Ficou, todavia, o hábito salutar. Li muito, sem nenhuma orientação em fases da minha juventude. A literatura começou a me cativar com as páginas descritivas, as historietas infantis dos livros escolares, ainda no curso primário. Surpreendiam-me, que, letras e palavras reunidas pudessem criar paisagens, acontecimentos. Depois vieram os nossos clássicos pré-modernistas: Macedo, Alencar, Castro Alves, Bilac, Euclides, os Azevedo, o romance nordestino entre muitos, que me remetiam para os seus modelos de além-mar. Numa cidade sem livros, isto é, onde o livro é artigo fora do comércio, circulando apenas as “letras cambiárias”, foi difícil o meu aprendizado, a minha iniciação literária. Poesia e prosa de ficção, nacional e estrangeira em tradução, foram as minhas poucas leituras, sem caráter seletivo, debruçado apenas sobre os sentimentos, os dramas, as paixões humanas. O amor e o ódio. A vitória e a derrota. O homem e o seu destino: o seu passado, o seu futuro. 19 Tem chovido regularmente, fato digno de registro nesta região, nos meses de janeiro e fevereiro. Os pequenos proprietários rurais, os trabalhadores desassistidos, mas cheios de confiança em Deus, lançaram no solo as sementes que puderam guardar, ou conseguiram através de compra e empréstimo, precários, nesta circunstância. A despeito da farta propaganda pelo rádio, as anunciadas “sementes selecionadas para distribuição entre os agricultores” não chegaram aos postos do governo. E como tem acontecido tantas vezes, uma praga de lagartas não controlada, destruiu quase toda plan-tação. Esperança é o que resta. Em que não consigo entender. A sobrevivência, a vida em condições sub-humanas. 20 Na mesa DA CRÍTICA E DA NOVA CRÍTICA, de Afrânio Coutinho. A miragem dos Estados Unidos da América. Pena que uma inteligência brasileira tenha sofrido tão lamentável cooptação. Quanto a Nação investiu no seu cabedal de conhecimentos! Valeria a censura? Poderei ser acusado de radical. Ou de mesquinho, o que seria pior. Afinal de contas, argumento em meu favor, o sangue brasileiro e o norte-americano que foi derramado na luta contra o nazismo e o fascismo. Notórias são as ligações do New Criticism com os “temas principais do fascismo”, desenvolvidos abertamente na The American Review, remontando as origens do “movimento” à agitação “ideologicamente conservadora” dos Southern Agrarians, no Sul dos E.U.A. A afirmação é do crítico Keith Cohen no ensaio inserido por Luís Costa Lima no seu TEORIA DA LITERATURA E SUAS FONTES. Não desprezo, em absoluto, a especialização dentro dos estudos literários. Poucos o fariam. O que não aceito são os caprichosos exercícios de empatia, o rico e curioso jogo de palavras novas na dissimulação de propósitos velhos, deixando de lado a noção basilar de literatura como fato socialmente condicionado. O aprendizado, ou melhor, a especialização de Afrânio Coutinho nos EUA no campo da crítica literária, submeteu-o de tal maneira a certos modelos daquele país, que o fez esquecer as palavras portuguesas que correspondem a expressões usadas por ele como meaning, close analyses, e vai por aí. Os culturalistas reacionários defendem a tese do desinteresse, da imparcialidade da arte. Através das formas e conteúdos da arte na sua especificidade, eles precisam saber, evidencia-se o processo dialético do desenvolvimento da sociedade. “O interesse social é o conteúdo da arte”. Isso eles querem negar. Na divulgação de sua tese, AC defende como estéticos os elementos internos da arte literária, valendo por si, independente do meio, da datação histórica, da sociedade que a produziu ou inspirou, como ele queira. A abordagem da obra literária pelo método intrínseco, preconizado por AC, exclui da apreciação a vida, que é o conteúdo da literatura, e retoma a questão Kantiana da “coisa em si”, inteiramente superada do ponto de vista do desenvolvimento da ciência e da filosofia."


  • 19/01/2015

    Carta a Lena Guimarães


    Querida amiga Lena. Permita-me tratá-la assim, em razão da antiga, duradoura e fraterna amizade que nos aproximou durante muitos anos, interrompida quando abandonando a militância política e partidária, demandei a catinga sertaneja para viver uma nova vida num exílio espontâneo e feliz numa fazenda velha, que ainda perdura. Mas a memória guarda as lembranças da entusiástica convivência com os amigos de então, principalmente os jornalistas, no circuito político. Tudo animado na base da cerveja, do rum, do wisky, do filé, camarão, lagosta, dos vinhos finos. Tive a satisfação de ter na minha mesa no Cassino da Lagoa, na João Pessoa de duzentos mil habitantes, a companhia dos eméritos colunistas políticos e amigos Severino Ramos, Nonato Guedes e o incomparável Paulinho Soares. 

    Você, na época, era assessora especial de “Biu”, acredito, então presidente da API completando cinquenta anos. Sempre respeitosa, e atenta para as infinitas complicações da agenda pessoal e profissional do preclaro chefe. Porque Biu, sabemos como ele era. As damas o cortejavam, os políticos o assediavam, os bares (o de Moura na API encenava um cerimonial especial) ofereciam-lhe mesas e adega sortida, ambiente reservado para as suas reflexões. Ele não resistia. Daí as dificuldades e encrencas inesperadas. Tenho-lhe respeito, admiração e amizade. Para mim é um dos gênios da nossa Paraíba. O mais é fofoca de “despeitado”, como reagia o nosso coevo poeta “Caixa Dágua, às críticas à sua abrumada poesia. 
    O caso Lena, é que a minha admiração pelos antigos companheiros e correligionários tornou-se simplesmente pessoal e respeitosa. Passara a viver a condição de pequeno proprietário rural com os seus problemas vexatórios. Mas no fundo da memória restavam ideias antigas de construir de transformar. Rematada tolice. Deixei o meu partido e ingressei noutro (o PT) que prometia a realização daqueles sonhos, se dizia socialista, combatia no nascimento o neoliberalismo, que destruía a nação com o venal Fernando Henrique à frente. O desastre foi maior. Deste também me desliguei, entrei no PSB com a sombra de Arrais nas minhas lembranças de estudante no Recife. Ricardo apresentou-se, destruiu eticamente a legenda. De uma geração mais nova, afastado da cena, não o conhecia. Fui na onda.
    O notável linguista e filósofo Chomsky (do MIT-USA) fala que a “fabricação de ilusões necessárias para a gestão social é tão velha como a história... a instrumentalização dos cidadãos se faz através dos mais poderosos meios de manipulação de massa criados até hoje pelo o homem: a imprensa, o radio e a televisão” Aí encontramos com todas as letras o fenômeno-origem de Ricardo Coutinho. Assim é fabricado o adesismo ao seu nome. Maranhão, Cássio, Nadja, Aracilba e a Paraiba sabem da verdade. Eis um político que disputa e exerce o poder com métodos de bandoleiro e agressividade de assaltante, para quem as palavras não têm valor, a verdade não se distingue da mentira.
    Individuo medíocre, pessoa sem qualificação que o eleve moralmente, mostra-se indiferente como cidadão à obrigatoriedade da obediência à Lei. Passa por cima de tudo, até do respeito aos bons costumes. Dizem que ele é um vitorioso. Contesto. Ele é um comerciante esperto, comprou e ganhou todas as eleições. Que o digam Maranhão, Cássio, os Morais de Santa Luzia, os Galdino de Piancó, os Braga de Conceição, os Maias de Catolé do Rocha, os cajazeirenses e cajazeirados, os parceiros de Sousa, e de todas as cidades paraibanas. A sua vida é construída na soma de fenômenos, no caso, que o envolvem e ele patrocina, alguns estapafúrdios e imorais criando legenda. 
    Sem pretender ofender, somente noticiar o que é de todos conhecido, ele foi incluído na mídia, mediante apresentação (suponho) de argumentos e documentos como o governador mais rico do Nordeste; e desapareceu de circulação, todos lamentam e sentem a ausência de sua bela esposa a inteligente e suave jornalista Primeira Dama Pamela Bório. Falou-se em choque incontornável de temperamentos, até em Lei Maria da Penha. Fico com a última hipótese. Enquanto isso, a Paraíba chora as suas dores, no azar do destino, do personagem do Poeta do EU: 
    ”Ah um urubu pousou na minha sorte!”
    Agora mudando o personagem, o meu amigo e conterrâneo Inaldo Leitão revela-se confuso ante a realidade política paraibana. Não duvido da sua inteligência. O problema é que ele tem viajado muito, perdido o contato com a nossa realidade. Melhor para ele. Porque Ricardo é esperto, safado e competente nas suas ações. Nada mais de socialismo. Sabe que a Globalização é fruto do neoliberalismo, que tem na supremacia do Mercado a sua realização. Conhece a cotação, as potencialidades eleitorais do momento, o valor de cada liderança no balcão de negócios, regateia como no mercado, paga o preço, ganha a eleição. Esta a nossa democracia. Assim será enquanto prevalecerem os preceitos de Ali Babá.
    Outro engano de Inaldo. Ele escreve com todas as letras que FHC é o pai do desenvolvimento do equilíbrio econômico do país. Dá pena semelhante desinformação partindo de um prócer do seu quilate, que chegou ao governo do Estado. 
    Acompanhei através da imprensa, o trágico e doloroso processo de privatização de empresas públicas nacionais, com a submissão do governo brasileiro às normas do "neo-liberalismo" que entregava o destino da população de todo o mundo ao Mercado Global. Aqui foi perpetrado o maior e mais vergonhoso assalto ao patrimônio e honra de uma nação, precisamente no governo de Fernando Henrique Cardoso o mais venal e achacador propineiro de todos os tempos no nosso país. Denunciei a ação lesa pátria iniciada com Delfim Neto e sua gangue na ditadura militar.
    Veja você amiga Lena, como pouco temos a conversar, dado a divergência dos nossos raciocinios sobre a Paraiba e os seus líderes atuais. Gostaria entretanto de vê-la, quem sabe naquele ambiente antigo em que Biu me enclausurou e eu perdi uma eleição: o Cassino da Lagoa, se ainda funcionar. Com personagens do tempo se ainda viverem.

     
     
     
     
     
     

     

     

     

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  • 19/01/2015

    A história e o mito


     Escusam-se, mas o PT, Lula e Marta, Dirceu, Dilma e Suplicy, entre os maiores, remontam sua origem ideológica a Roma e Meca, à submissão partícipe, ao suborno e fuxico sacerdotal e palaciano das cortes imperiais. Atualmente agem como covardes agentes da mercancia, em detrimento do Estado Nacional. Um perigoso e ridículo exército de mercenários, de Bancaleone, ou de Templários. 

    E dá pra notar a esnobação dessa gente. Tentando afirmar-se, como o instrumento ideológico realizador da “Justiça social”, o PT repete fracassados momentos de busca do equilíbrio, nos confrontos entre grupos definidos na história. Para falar em tempos recentes, lembro o fourierismo, e o sindicalismo de Lech Walesa. Enquanto isso desfila vaidosa a agremiação em conclaves internacionais, negocia, esgota irresponsavelmente as potencialidades, as forças da nação.
    Falseando a realização e divulgação dos fatos e recorrendo à busca de heróis do passado, este partido político motiva a massa ignara e sustenta-se intelectualmente, na divulgação de conceitos atípicos nos métodos de conhecimento, aplicados à prática social, por saber que o povo gosta disto, de esquisitices como usar o boné, inexplicavelmente, com a pala para trás. Mas o tropeço não se faz esperar.
    Em erudito, interessante e extenuante trabalho de análise e de pesquisas comparativas, de ideologias e sua vigência motivadora no campo social, Thomas Sowell, da UCLA-USA, descreve e destaca equívocos e características da sociedade ocidental na prática administrativa, em contraposição ao pensamento dos intelectuais, direi melhor dos teóricos das ciências humanas na formulação de sua política econômica. Paradoxos e incoerências assim, mostram a dificuldade do equilibrio em conflitos radicais.
    Assim, como intelectuais atrapalhados ditos “ungidos”, com o seu nome procuram fixar uma época, o governo chamado da “inclusão”, quer através de qualificação definida em lei, ou da concessão de meios escusos que facilitem o trânsito do indivíduo de uma para outra área, operar transformações, a despeito de frustrações anteriores. 
    Afinal em que mundo vivemos, cabe perguntar. Militam na sociedade em desevolvimento quadros distintos: uns defensores de mudanças, outros de manutenção do status quo, o que distingue as pessoas, cuja surpreendente contradição entre o pensamento ungido e as instituições, produz nesta área da sociedade as contramãos da história. Pensamos e falamos uma coisa e praticamos outra.
    Chego à questão religiosa, que inquieta a sociedade, de crenças, da minha formação cristã. A Bíblia Sagrada, em virtude de leituras mal digeridas − tornou-se um híbrido literário e antropológico – explica os valores astrológicos. Um livro monumental que fala da origem do mundo e do homem, das tábuas da lei, da vida de pessoas, de sacerdotes, juízes e reis, de nações, do céu e do inferno, de Satanás e de Jesus que se constituem em modelos, impossível submetê-lo a tais excrescências.
    E tem mais. Daí decorre o Zodíaco com os signos e as confirmações factuais dessa categoria de pessoas, de instituições, de ciclos do pensamento, que a coletividade vive, revive, aceita e reverencia. Loucura minha? Procurem em Edir Macedo, em Malafaia, no negão Waldomiro, e, mediante pagamento até com cartão de crédito, encontrarão a escada para o céu. 
    A razão, pois, nasce da dúvida. Daí a minha busca. O Cogito ergo sum, de Descartes, que pretendia fundamentar o conhecimento humano em bases sólidas e seguras, questionou e colocou em dúvida todo o conhecimento aceito como correto e verdadeiro, que justificam, entretanto, a prática viciada e vitoriosa do exercício do poder. A dúvida o levou a tanto, ensinam os exegetas. Mas o PT não é razoável. Ele criou as chamadas “cotas” para corri gir a ordem natural dos acontecimentos e situações que explicam o desenvolvimento das relações sociais. 
    Para mim, a maior das dúvidas, ou seja, a existência de Deus, se ele existe ou não existe, perdura na roleta de emoções que desconhecem leis e regras. Impossibilitados de explicá-Lo intelectualmente, inventamos o dogma como elemento fundamental do conhecimento, para aceitá-Lo? Uma desa-fronta, um desagravo? 
    No imediatismo da turbulenta modernidade, prefiro abster-me de tais lucubrações, e fico com o meu amado Jesus Cristo, entrevisto desde a mais tenra idade, no conhecimento da vida e do mundo. Amar ao próximo como a si mesmo − sobrevive como história e mito. Assim aprendi também na velha Faculdade de Direito do Recife, quando os cientistas da Lei ensinavam que a sociedade dos homens, regida pelo Direito, fundamenta a frase de Aristóteles que ensina não ser o homem o único animal gregário, mas o único político. Só o respeito ao dogma, ao divino o salvará. 
    O resto é a luta pelo poder e pelo dinheiro, que está na ordem do dia do PT.

     
     
     
     
     


  • 11/01/2015

    Para Inaldo Leitão


     "INALDO LEITÃO A famosa “Rede Social” que asseguram, elegeu um negro presidente do racista EUA, permitiu o meu reencontro com o pensamento político do conterrâneo Inaldo Leitão. Ele com as suas e eu com a minhas ideias. Ele firme no seu “cada qual” e eu enveredando por outros caminhos do meu pensa-mento “cada qual”. Comentarei de leve. Como fala o povo, com frases esquisitas e pertinentes quanto à rea-lidade, no meio onde passei a viver nos últimos quarenta anos de minha vida: “cada qual com o seu cada qual”, repito que é verdade insofismável. Melhor explicando: a consciência de classe dita pensamentos e ideias a ela inerentes. É o caso dele e o meu também. Inaldo pertence a uma das ricas e tradicionais famílias autóctones, eu de um ramo imigrante da minha família, marcada pela decadência e perda da fortuna em bens e tradição política na chefia do lugar, restando-lhe a crônica do destaque no passado cenário es-tadual. Inaldo, naturalmente, sempre defendeu privilégios, alcançou des-tacada posição na política estadual, chegando ao governo do Estado. Eu militante da magoada classe média onde me encontrei ressabiado, frequen-tei salões e côrtes, disputei a inclusão entre os privilegiados, hoje pobre moro no mato. Mas dei duro, e conquistei dos ínclitos clãs e geração de altos infantes, como diria Camões, algo representativo na minha passagem na cena social. E tudo partiu objetivamente do apoio decidido da área propriamente domes-tica e familiar de Inaldo com largo prestígio na cidade e na região. Pois bem. Pelas razões acima, hoje pensamos e temos ideias dife-rentes. Só um exemplo, a avaliação e nominação de momentos hitóricos nacionais, especificamente na presença de Fernando Henrique Cardoso, com-provadamente um esquerdista de fachada, que será contestada, mas dele não me afasto. E acrescento a questão da Paraíba. Vejamos Inaldo no Facebook: 7 de janeiro às 13:38 • “BIRUTA DE AEROPORTO O eleitor paraibano está feito biruta de aeroporto: sabe pra onde foi nas últimas eleições, mas jamais saberá onde estará na próxima. Em 2010, Ricardo Coutinho, Cássio Cunha Lima e Efraim Morais armaram o palanque para enfrentar Zé Maranhão, Wilson Santiago ,Vital do Rego e o PT Em 2014 foi a vez de Ricardo Coutinho, Zé Maranhão, Vital do Rego e o PT armarem palanque para confrontar Cássio Cunha Lima e Wilson Santiago.” Meu comentário na mesma data no Facebok: Eilzo Nogueira Matos “ Ricardo é esperto, safado e competente nas suas ações. Nada de socialismo mais. Sabe que a Globalização é fruto do neoliberalismo, que tem na supremacia do Mercado a sua realização. Conhece a cotação, a potencialidade eleitoral do momento, o valor de cada liderança no balcão de negócios, regateia paga o preço, ganha a eleição. Assim será enquanto prevalecerem os preceitos de Ali Babá.” Inaldo escreveu: “marcante: pelo desenvolvimentismo; Fernando Henrique Cardoso” Meu comentário: ”Acompanhei através da imprensa, o trágico e doloroso processo de privatização de empresas públicas nacionais, com a submissão do governo brasileiro às normas do "neo-liberalismo" que entregava o destino da população de todo o mundo ao Mercado Global. Aqui foi perpetrado o maior e mais vergonhoso assalto ao patrimônio e honra de uma nação, preci- samente no governo de Fernando Henrique Cardoso o mais venal e achaca-dor propineiro de todos os tempos no nosso país. Denunciei a ação lesa pá-tria iniciada com Delfim Neto e sua gangue na ditadura militar. Nos meus arquivos tenho esses documentos. Pronunciei palestras na "tribuna do povo" na Câmara Municipal de Sousa contra a privatização da SAELPA e do Banco do Estado da Paraíba. Alertei sobre o erro da estratégia ou mancomunação do PT com Lula à frente, assinando a "carta ao povo brasi-leiro" aderindo às teses de FHC. De lá pra cá a soberania nacional sobre os seus negócios desapareceu. Tenho em meu poder dois volumes de "O Brasil Privatizado", do jornalista Aloysio Biondi que detalha o procedimento legal e corrupto da venda do patrimônio nacional a preço de banana, como o pai de família empobrecido vende a honra da filha menor para a feira da semana. Na verdade é muito descaramento aceitar estatísticas fabricadas isoladas, contrarias ao interesse coletivo, nacional, como identificadoras do desen-volvimento. Beneficiam na verdade, os que manobram o Mercado.”"


  • 04/01/2015

    Prosa Caótica II


     "ATENÇAO. Importante ler. Dada a dificuldade de contratar a editoração e publicação do livro abaixo nomeado, intercalo às notas diárias, a partir de hoje, trechos da referida obra. DURO RECOMEÇO - PROSA CAÓTICA II (TEXTOS POLÍTICOS E LITERÁRIOS 1980-2014) Prefácio Os textos a seguir organizei-os num mesmo volume, dada a identidade estilístico-temática que os reúne – memória, biografias –, e a unidade ideológica que os integra. Em primeiro lugar combino lembranças e reflexões, que denomino literariamente “jornal”, o que se torna óbvio pela sua leitura. Colijo artigos e o que chamo de perfis e pequenos ensaios, sobre temas para mim relevantes. Alguns textos foram publicados em jornais ou revistas, outros divulgados em sites na internet. Como afirmei em outras oportunidades, ao longo de minha vida, amadureci ideias, conceitos, convicções. Muito jovem, ainda, aí pelos dez anos de idade, a candidatura de um parente (Manoel Mariz de Oliveira, tio-afim) a deputado estadual pelo Partido Comunista, chamou a minha atenção para os valores sociais, em razão das discussões sobre o assunto no seio da minha família religiosa, conservadora. A nossa cidade, na época, secularmente se curvava às exigências e ao domínio tutelares da Igreja Católica Apostólica Romana, que “amparava as oligarquias mediante o controle do movimento sindical e popular, deles expurgando qualquer traço esquerdizante, fosse radical, socialista, comunista ou mesmo liberal maçônico.” Em breve noticia autobiográfica, alinhei referências sobre a minha participação na política partidária da minha cidade, que teve início na Década Sessenta do século passado, ao lado de Clarence Pires, Antonio Mariz, Romeu Gonçalves e outros conterrâneos e amigos. Em eleições seguidas marchamos numa frente de atuação comum, tendendo às posições ditas de esquerda no cenário político nacional. A história local confirma os lances dessa militância político-partidária. Considero um dever frisar que, para a avaliação de minha efetiva participação na luta política que dominava o país, a militância levou-me – estudante ainda da Faculdade de Direito do Recife –, na aliança operário-estudantil, em algumas oportunidades, a entrincheirar-me nos piquetes de violentos protestos do proletariado pernambucano, nas greves da “Tecelagem de Macaxeira”, do Sindicato dos Comerciários, na Rua da Imperatriz. Os ideais reconhecidamente “apaixonantes e otimistas do marxismo-leninismo e os triunfos imperiais dos exércitos do generalíssimo” (Stálin) na Segunda Guerra Mundial infundiam persuasão e esperanças na juventude que comentava e estudava a história nas universidades, através de leituras, na imprensa, de debates nos encontros político-culturais. Passei, por fim, como cidadão e profissional, a vivenciar os pro-blemas do povo e do país, na urgência do momento, do agora. Buscava um modelo na história brasileira e encontrei-o no reformismo constitucional, dúbio é verdade, que nos legou a chamada Revolução de Trinta. Lutava como ainda hoje o faço, por um governo nacionalista no âmbito da cultura e da economia. Mas, igualmente fraterno, como anunciava o internacionalismo proletário prometido pelo socialismo de Estado em voga. E dele não me afastei. Concluo estas considerações, que visam esclarecer a minha participação nos fatos da história política de Sousa e do país, ao raciocinar em termos atuais, com o sociólogo Emir Sader no seu “As Ruínas da Democracia” (Correio Brasiliense 24 de outubro de 1999), que: “Nós já tivemos mais clareza sobre o que é uma democracia. Hoje as coisas são menos claras.” Era no tempo em que “a imprensa e os meios de comunicação representavam no contexto democrático, um recurso dos cidadãos contra os abusos dos poderes”. Foi essa peculiaridade corretiva, chamada de Quarto Poder, ao lado do Legislativo, Executivo e Judiciário, poderes “que podiam falhar, se equivocar, cometer erros”. (Ignácio Ramondet “Le Monde Diplomatique 2006). Por certo período, jornalistas destemidos pagaram caro pela defesa desta tese, foram vítimas de atentados, desaparecimento. Por último, com o advento da globalização liberal e o surgimento de um novo tipo de capitalismo, agora especulativo, eles perderam totalmente a importância e função de instrumentos do contra poder, no processo de comunicação de massa. A mídia teve de se organizar em gigantescas empresas, superpoderosas, cuidando desde a produção ideológica de textos até a sua massiva distribuição, assumindo no confronto brutal entre o mercado e o Estado, a defesa do setor privado em oposição aos serviços públicos. Já não era mais “a voz dos sem voz.” Não foi possível fugir ao impasse. Era a globalização liberal que chegava feroz e implacável. Ficou claro que o novo modelo que assume o capital especulativo formando megaempresas, atuando em escala planetária, tornou o peso dos seus negócios mais importantes que as decisões de governo e de Estado. A mídia participou do processo, incorporando-se aos blocos. Em meu auxílio menciono o instigante e oportuno ensaio de Ignácio Ramonet, lido na internet, que aprofunda a análise do tema. A consciência política da realidade que nos é imposta, de modo cruel e impassível, motivou o protesto do patriota Oduvaldo Vianna Filho que em 1974, antes de falecer denunciava e argumentava: “Reduzir uma sociedade de 100 milhões de pessoas a um mercado de 25 milhões, exige um processo cultural muito intenso e muito sofisticado. É preciso embrutecer esta sociedade com uma força que só se consegue com refinamento dos meios de publicidade, com um certo paisagismo urbano que disfarça a favela, que esconde as coisas.” Tal realidade, produzida por descuidados ou cooptados intelectuais então atuantes no cenário cultural, arrancou, mutatis mutandis, o oportuno grito de protesto do filósofo Olavo de Carvalho: “foi preciso que este país decaísse muito para que se pudesse assistir a este triste espetáculo...” Aí se escondem a manipulação de ideias e de processos, que absorve acriticamente uma coletividade dominada pela incerteza, mas enfatuada, incapacitada intelectualmente para a reflexão e o confronto. Nos primeiros anos do Século XXI, passadas apenas três décadas da afirmação de Vianninha, a problemática do Brasil não difere historicamente da do capitalismo internacional como modelo de Estado, alega o citado mestre universitário. É apenas um sócio minoritário e dependente do sistema central, que desempenha um papel “hegemônico” no processo (Florestan Fernandes). Finalizando estas considerações acerca da imprensa, recorro ao irretocável argumento do jornalista Sérgio Halimi através do Financial Times: “Se o fim dos regimes policiais na Europa oriental e o desmoronamento dos dogmas referentes à natureza humana que lhes eram atribuídos nos ensinaram alguma coisa, não foi a necessidade de outro totalitarismo e outra tirania – a dos mercados financeiros. Foi o valor da dúvida e a necessidade urgente da dissidência.” (E as suas reflexões que seguem, aplicadas ao jornalismo e à mídia esclarecem. http://l.facebook.com/l/tAQFDIl7kAQE_Mocr2G_pDBAl6Ri_VJo0UrEVtplks2RuGA/resenha.com.br/esp2991208.htm). “Se aceitarmos a legitimação adulatória de uma nova ditadura, a política não será mais do que o palco de um pseudo debate entre partidos, que exageram a dimensão de pequenas diferenças para melhor dissimular a enormidade das submissões e proibições que os unem... Neste mundo globalizado e totalitário, poderemos ainda, os jornalistas e intelectuais, ser o contrapoder, a voz dos sem voz? Reconfortar os que vivem no conforto? Como fazer isso quando, alguns de nós, já pertencem à classe dominante?” Esta é a grande indagação. Quanto a especulações de natureza religiosa, direi como escreveu Herberto Sales: “Não tenho em mim encontrado forças para trocar por outra a minha religião”. E eu acrescento: católica, apostólica, romana, embora sem presença nos atos cerimoniais e orações. Não conheço outras, quando muito, raras seitas na perorações de evangélicos espertos, e blá-blá-blá teosófico de fundamentalistas pentecostais ou autistas desorientados. Sousa, agosto de 2007 EILZO MATOS"


  • 02/01/2015

    Antônio Vital do Rego - in memoriam


      (“Aonde foi, ocupou todos os espaços. E aonde não pôde ir, sua imagem humana se projetou; sua voz vigorosa se fez ouvir; sua ação benfazeja promoveu o bem-estar de muitos. Cumpriu bem a sua missão superior, quer onde esteve, quer aonde chegou com sua mensagem de tranqüilidade e do bem-fazer”.Evaldo Gonçalves de Queiroz). Começo a minha breve e diria curiosa memória de Vital do Rego, com esta epígrafe, acima, retirada de um texto do imortal Evaldo Gonçalves, colunista do blog “Vitrine do Cariri”, que retrata de forma definitiva o indelével vulto campinense. Era a Década Cinqüenta do século passado, no Recife, aonde fora mandado para estudar. Nos meus passeios solitários pelo Bairro da Boa Vista onde funcionavam pensões e morava a maioria dos estudantes que vinham dos estados vizinhos, as ruas vazias de automóveis, recolhia-me em meditações. Naquele tempo se podia caminhar horas inteiras pela Mauricéia, sem receio de qualquer agressão. Reencontrava, então, episódios da história literária e política do país. Como não? Freqüentaram aquelas avenidas e praças vultos notáveis. A juventude cultuava sua memória: Castro Alves, Fagundes Varela, o Leão Coroado, Borges da Fonseca, Maciel Pinheiro, Augusto dos Anjos, José Lins do Rego, José Américo, Ariano Suassuna... A minha Paraíba dominava a cena. Em ruínas, abandonado, resistia como marco histórico o “castelo” dos Pessoa de Queiroz. Marcado por buracos de balas, portas e janelas espatifadas, paredes ene-grecidas pela fumaça da guerra, ocupava quase um quarteirão, no começo da avenida Manoel Borba. Olhava para o Colégio Salesiano e para a Praça Chora Menino. Protegido por pesadas grades de ferro trabalhado, firmado em pilares com insólitos capitéis, mostrava-se o edifício no heroísmo trágico de sua legendária resistência. A arquitetura art-nouveau com torres e janelas esguias, quase góticas, salões e aposentos nos três andares da construção, despertava curiosidade. Ali também estava escrita a história da Paraíba. A Revolução de Trinta o comprova. Detive-me inúmeras vezes apreciando o edifício, a paisagem, impregnando-me de sentimentos indefinidos e nostálgicos, trazidos pela ruína urbana e memorial, que os meus familiares rela-tavam, posso dizer. Pois nesse Recife, de tanta tradição desaparecida, de tantas memórias gastas, conheci o conterrâneo recentemente falecido, de quem me tornei amigo, o brilhante advogado, o tribuno e político Antonio Vital do Rego. * * * Primeiro foi na Faculdade de Direito. Quando cheguei ele já estava lá: eu de calção de banho, “fera”, contrafeito; ele “veterano” em posição de comando, vestido elegantemente, compenetrado supervisionando a preparação do famoso e tradicional “trote” que era aplicado aos que concluíam as provas do exame vestibular. Seria mais um extenso, fascinante e mágico cortejo pelas ruas centrais: Hospício, Imperatriz, Nova, Aurora... com fantasias, figurações e dísticos que divulgavam a crítica política e social da época, ao som de fanfarras, bombas, muita gritaria e pancadaria. Acon-tecimento esperado e prestigiado, aplaudido pelo povo que aprovava a crítica, e pela elite social orgulhosa, representada pelos seus filhos que ali estavam em maioria. Depois aconteceu num ambiente popular de bebida e merenda, como se falava. No apinhado desconfortável ele apareceu vestido como um galã de cinema, jovem, bem penteado, com um livro grosso na mão. Procurava o primo Virgínius Figueiredo da Gama e Melo jornalista político e crítico literário, habituê ali, do papo e da cachaça com as infalíveis “frutas da estação” para tira gosto. Cumpria Vital do Rego um duplo dever de urbanidade: era acadêmico de direito e neto do coronel Chico Heráclio de Limoeiro. Isto valia muito naquele tempo, e criava deveres. Virgínius afável e sorridente, sempre ouvido, introduzia o parente: “Este é Tonito meu primo, acadêmi-co de direito e neto de Chico Heráclio”. Todos se voltavam surpresos. A fama do poder e prestígio dos coronéis tornara-se uma verdade indiscutível para os pernambucanos. Eles é que continuavam casando e batizando nos grotões. Os mais notórios eram Chico Herálcio, em Limoeiro, Vere-mundo Soares, em Salgueiro, Chico Romão, em Exu, Zé Abílio, em Bom Conselho de Papacaça, e o Coronel Quelé, patriarca dos Coelho em Petrolina e adjacências. Corria a versão de um telegrama do coronel José Abílio, em resposta ao go-vernador Agamenon Mangalhães, que lhe advertia sobre a condenação pela opinião pública de certos atos discricionários praticados por ele no seu município. Leiam o texto. “Governador Agamenon Magalhães. Palácio das Princesas. Recife. Em resposta à sua carta informo que continuará a contar com o amigo de sempre. Importante para o governo é o apoio dos coronéis que é forte e tem sustança. A opinião pública é um cheque sem fundo. Saudações. José Abílio”. * * * Localizado na rua detrás do edifício do Jornal do Comércio que olhava para a Biblioteca Pública, a joalheria Krause, ao lado do famosíssimo Café Lafayete na Rua do Imperador, o bar “A Portuguesa” exibia mesas de pés de ferro negro e pedras de mármore branco, cadeiras também de ferro e assento desconfortável. Uma nobre- za exagerada do tempo. Perpassava no pequeno salão um cheiro brando e caracterís- tico de latrina e lodo nos dias frios e chuvosos. Ninguém reclamava. A proximidade da Pracinha do Diário de Pernambuco, do Tribunal de Justiça, do Teatro Santa Isabel, do Palácio das Princesas, o seu nome, ofereciam-lhe freqüentadores habituais. Recebia clientes que procuravam a caninha, a cerveja, o café pingado com inhame e pão com manteiga, faziam a sua fezinha no jogo do bicho. Entre outros, encontravam-se carregadores de frete, comerciantes, comerciários, funcionários públicos, repórteres, literatos, jornalistas de coluna assinada, artistas e políticos atraídos pela notoriedade que conquistara o ponto de encontro, na ubiqüidade de sua localização. O garçom de nome Espedito, baixinho e expedito no atendimento da freguesia, tornava-se amigo de alguns freqüentadores como o introvertido teatrólogo premiado Aristóteles Soares e o bacharel Xavier Maranhão, quixotesco na figura alta, magra, teso, teatral nos gestos, extremado no partidarismo político. O bicheiro Abelardo insinuava-se na interpretação de sonhos e decifração de palpites, travava inauditas discussões com o letrado professor de Direito, catedrático Samuel McDowell da família do barão de Camaragibe, educado na Inglaterra, tradutor dos sonetos de Shakespeare, viciado na bebida, jogador compulsivo, inveterado. MacDowell furtava jóias da família para empenhar ou vender, pagar os pules das apostas. Carlito, cinqüentão de cabelos louros finos e brilhantes colados na cabeça, surrado terno de linho cinza, de gravata, bem barbeado, bochechas flácidas, os olhos azuis protegidos por delicados óculos, não conseguia esconder a pobreza, mas assu-mia postura de conselheiro, tocado pela sorte, olhado com admiração. Era assessor imediato do mestre e da tavolagem. Feita a aposta, ao chegar o resultado, Mac Dowell certificava-se da perda, mas Carlito confortava: “Perdemos por um dente de roda (roleta), somente”. * * * Quando concluí o meu curso, Vital já era deputado e genro do governador do Estado. Virginius regressara à Paraíba, e nos nossos encontros, quando eu passava de viagem para o sertão, entre uma cerveja e outra, entrosamos um projeto, para Vital contribuir com um “pro-labore”, para ajudar nas nossas confraternizações. Nada político. Franca amizade, apenas. Afinal para que se governa um Estado? Muitos pensavam assim. Guardo carta de próprio punho de Virginius, comunicando-me o atendimento ao seu pedido. O “pro-labore” fora autorizado, coisa de um salário, sem obrigação de freqüência e presença no expediente. Não me lembro quanto tempo durou a franquia, nem quantas “grades” de Brahma e Artártica consumimos na Bambu e na Canadá. Quanto a projetos, inúmeros. Mas que foi providencial a ajuda foi. Ali conheci o impoluto Elzo Franca, o suave Elcir Dias, os não biqueiros Paulo Melo e Marcos Tavares, o inesquecível Valdemar Duarte da UBE, Balduino Lélis, e bota gente boa nisso. Pois do fundo desse sertão, compungido com a notícia do falecimento do eminente conterrâneo, mando as minhas condolências para a família do ilustre desaparecido. ....Sertão, fev/2010....."


  • 28/12/2014

    A emboscade de Evanro Nóbrega


      I Escondido detrás do pau ou da pedra, me esperando, invisível a figura, mas guardando a intenção preclusiva ele deu o bote fatal, no estilo patins do majó migué. “PREZZADO ammiggo Eilzo Nogueira Matos: Acabo de lhe enviar um e-mail para sua conta do Yahoo...” Tinha de ser assim, parafusado, helicoidal. Preso e solto, imóvel e girante. Impossível reagir, parei ali ofegante, estonteado. Desapareceu-me o tino, o siso, o juízo. Entreguei-me vencido. Pois, na verdade, se tudo o que tenho feito na vida ociosa é criar e enfrentar desafios, espero sempre, des-cuidadamente, estes acontecimentos, que são frequentes. Então lá vai. Arrisco-me de inicio, enfrentar um protesto, como indiciado-réu num processo judicial, ou uma insinuação insidiosa, porque encontro no negro Thomas Sowell (EUA), a forma mais recente de conhecer e interpretar os fatos e os mitos da sociedade dos homens, e por esta circunstância, preconce-bidamente racial, não nego, boto um pé atrás. Ele me entrega Evandro, de bandeja nas 510 páginas de “OS INTELECTUAIS E A SOCIEDADE”, tradução, Realizações Editora, São Paulo, Coleção Abertura Cultural. Confiram. Nele encontro uma explicação para o eruditismo, diria melhor a erudição dos Dante, Cervantes, Evandro Nóbrega, José Ronald Farias, Câmara Cascudo, Mário de Andrade, Wilson Martins e companhia, que antecedem o arquivo-Google, a inernet, no registro em bico de pena e na memorização da suma do conhecimento humano. Chega a parecer, eixo-personagem, fan-tástico, o recurso que executa tal procedimento. O mais não passa de crendices fundadas na teosofia cristã, jesuítica no caso, dos colonizados. Como nos castelos medievais, as casas grandes do Nordeste deviam ter o seu preceptor residente, para educação da família do senhor, no caso um sacerdote católico, um padre. Expressão da vida e da resistência, da conservação pretendida por todos dos seus heróis, das suas histórias que serão as verdadeiras porque vieram de lembranças que não se apagam, jamais desaparecem e renascem quando a mente necessita de in-teligência e sucessos que são de imediato entendidos, não admitem refigurações, porque então seria outra coisa com o acréscimo do detalhe que o explicaria e o distinguiria. Não existem matrizes antropológicas, sociais, mas fenômenos carac-terísticos mais observados, como representativos na estética que sintetiza padrões. Não se trata da história, mas da poesia como conceitua e conclui Aristótoles nas revelações de fatos do homem e da vida. Enfim, algo arle-quinal como imagina e descobre Mario de Andrade e exprime como itinerário laboral-social do tipo, do modelo, da personalidade. O desenvolvimento o devir, não simplesmente o porvir, insinua-se, mostra-se essencialmente filosófica, aristotelicamente explicativa, podemos dizer. Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Nenhum poema em todas as nações, acredito que conceitua e con-sagra a saudade da infância como feliz fase da vida individual, em todas as literaturas, igual a estes versos. Variações de linguagem, linguística, nomenclaturas. “Caramuru! Cara-muru!” O temível filho do trovão, é expressão de um grito que recolhe e confirma toda uma história de crenças e memórias, envolvendo propriamente o risco fatal de vida e morte, o combate, a batalha da nação, o nascimento e origem da endogamia, no nosso caso brasileiro. Por estas razões que tais, vem de muito este medo real e resistência ao diálogo e troca de opiniões com Evandro, que me assalta. Não quero, nem adianta discutir ou comentar sobre o que ele fala ou escreve, dado o meu fraco banco de reflexões e estofo intelectual. Conheço-o de longa data, do tempo de Betinha de Eládio Melo, o intelectual francófilo da minha terra, minha conterrânea, sua primeira esposa. Por isso esclareço: insisto, mas no meu padrão, e não desisto. Nada de erudição, somente o raciocínio sertanejo revidando de tocaia, nos lances variados da vida: o inverno e a seca, o sol e a chuva, o lajeiro e o chão de terra, a mata, a capoeira grossa e a capoeira fina, a caranguejeira, o lacrau, a cascavel e a jararaca, para sobreviver. As abelhas, o maribondo caboclo, então, um perigo real. As mansas de melhor mel, as jandairas, desapareceram. Muita vida mais experiência. Agora a fala ancestral do judicioso matuto sertanejo lido e conhecido: “ - Evandro é profundo! “ Tinha de ser, e o que tem de ser tem muita força. A propósito, tratei de passagem, dias atrás, da ecdótica e do poeta Augusto dos Anjos - este para mim a expressão lírica, trágica e cultural mais representativa nos dois hemisférios do nosso planeta -, como assinalei; e referências impressionantes, inseridas, e posso dizer, constitutivas do teor, do valor de sua obra poética o mostra. Eis que sou chamado de volta, provocado e convocado pelo insuperável citado Evandro Nóbrega - inevitavelmente e com certeza cooptado, abduzido pelo saber do traiçoeiro Merlin da Várzea do Paraíba, o Conde Alexandre -, para falar sobre o vulto Parfeno que arrancou os olhos de um vivente, mito ou lenda, um Deus certamente. Evandro voa alto como o urubu, diferente do voo rasteiro da juriti por dentro das moitas, mas sabe mergulhar rasteiro, igualmente, para colher o sustento de suas teses. A sua curiosidade mostra-se inesgotável. E pessoalmente ele decifra e revela-se nele mesmo. Sobre o Conde Alexandre, trata-se de personagem e autor da mais extraordinária e maravilhosa crônica dos nossos arroubos e quebrantos exis--tenciais, - um Quaderna especial - transformado em livro genial, que nada deve à Pedra do Reino, de Ariano, em fatos, conjuminâncis e prosápia, genealogia e heráldica, malandragens estafermianas, espertas da Lapa carioca. Eventos e acontecimentos super espantosos presenciados por mim, de que dou testemunho, como estimulantes, no campo do incriado e maravilhoso, que foi a súbita e insólita aparição da Nave de Ezequiel, do Pavão Misterioso, desta figura nebulosa porém real do performático jogral e feiticeiro, em Pernambuco e na Paraíba, nos anos Cinquenta/Sessenta do século passado, dominando o cenário em procelas e desaparecimentos esquisitos, recolhimentos, súbitos e frequentes no mesmo nível do Conde Alexandre. Nobre de fraque e casaca, capa negra esvoaçante, cartola, levando ao delírio a nobreza dos engenhos e das usinas paraibanas, pernambucanas e sabe maias por este Brasil afora. Os homens se embebedavam, as mulheres deliravam mostrando partes íntimas decretadas pela moda. O misterioso tem de se cercar dessas conjuminâncias, repito. E a vida tem muitos mistérios, alguns indecifrados. Todos sabem de Antonio Con-selheiro, do Padre Cícero, de Brancaleone, dos samurais, de irmãos siameses, de Drácula, de Mefistófeles, e superando todos, assim também do Conde Alexandre. Agora para embasbacar mesmo, entre as bilionésimas, quem sabe muito mais leituras e recitações dos versos do Poeta do Eu, que guardam a sua biografia, a sua sabedoria e as suas fontes (também dele Evandro), arranca um verso: "Senti o assombro que sentiu Parfeno,/ quando arrancou os olhos de Dionisos"... Imaginava tudo explicado. Ledo engano, restava o Parphéno de Evandro. Chegaremos a ele, o decifraremos? Sim e a ama de leite guilhermina (continua)"


  • 24/12/2014

    Dilma, Lula, o Mensalão do PT e a Petrobrás


     Em razão do desespero provocado pela corrupção que domina o governo do país, o povão criou uma frase: “se roubarem um pão ou um avião o PT está no meio.” Por sua vez, um eminente causídico num papo entre juristas soltou esta: “no Brasil não se coloca um paralelepípedo no calçamento sem pagar ou receber comissão.” Todos sabem que é verdade. Ele queria acabar com a falsa moral da presidente Dilma, Lula e apaniguados. Não absolvo os que os antecederam. Vejamos: 1) MENSALÃO, assim foi batizado pela mídia, o vultoso desvio de dinheiro público pelo governo do PT, para subornar parlamentares de outros partidos e controlar as decisões do Congresso Nacional. Hoje réus condenados, os indiciados cumprem pena de prisão. Aguarda-se a devolução do produto do roubo. 2) CPI DA PETROBRÁS investiga no Congresso Nacional o escândalo da corrupção que grassa na Petrobrás. A Polícia Federal e o Ministério Público, na chamada “Operação Lava-jato”, identificaram empresas privadas e dirigentes da estatal, em conluio criminoso, que fraudaram obras de construção civis e técnicas, operacionais, comerciais, alcançando o prejuízo da nossa petroleira alguns bilhões de dólares. Denunciados pelo MP, presos, agora réus, resta a perplexidade nacional, e a desconfiança de que tudo pode “virar pizza”, isto é, dar em nada, em face de declarações da presidenta, que, como sempre argumenta, exige provas. Ora, é desdenhar do sistema legal, do poder judiciário. Provar mais o quê? O Procurador Geral da República exigiu a demissão de todos. Mas Dilma o contradiz: “A Graças é ética. Não a demitirei, ela permanecerá na Petrobrás.” Coço a cabeça, fogem as ideias. O povo ficará lambendo a rapadura da bolsa escola, família, etc. Esta briga é de cachorro grande, de bilhões. Os acontecimentos indicam outra forma de entendimento dos fatos da sociedade. Reconhecer, provar é ver com os olhos e pegar com a mão. A propósito, argumentava um rábula sousense no tribunal do júri para os jurados perplexos: “dicere e non probare non dicere,” nesta língua esquisita. Chego a uma conclusão, algo insólita, sobre a sociedade dos homens, fruto da elucubração machadiana, firmada no “humanitismo”. Pois o argumento do jurista prático sousense, exclui petistas e agregados dilmeanos, lulistas da área da criminalidade. Enterraram o defunto Celso Daniel? Caso encerrado era preciso ver e pegar com a mão. Nada de corrupção petista. Quanto a mim, paraibano da galera do bar “A Portuguesa”, no Recife, na pauta do Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco, que abrigava literatos e políticos em busca de notoriedade, e servia “caninha com frutas da estação”, criação de Virginius da Gama e Melo, resta-me reconhecer ainda com o insosso Nelson Rodrigues que “a vida é o que ela é”. Maquiada, perfumada, mesa farta, Dilma anunciou para comensais e para o mundo: “A Graça é ética. Conheço a Graça. Ela permanecerá na Petrobras.” Deprimente. Por sua vez Lula berrava no passado: “Não sei de nada.” Mas a Polícia Federal e o Ministério Público identificaram os “patricidas”, a midia divulgou os seus nomes e os bancos onde estão depositados os dinheiros roubados, a queda de valor da nossa empresa, de suas ações. E procedimentos judiciais são ajuizados nos tribunais internacionais para ressarcir danos provocados pela administração corrupta brasileira. Uma vergonha! Mas Dilma e o seu partido criaram a política social de “cotas”. Negros, aleijados e brancos analfabetos funcionais enchem as universidades. O que existe e funciona com qualidade no Brasil, são empreendimentos patrocindos pela Banca Internacional que não geram prejuízo para seus agentes, nem lucro para os brasileiros: montadoras de veículos, celulares, fertilizantes e praguicidas para a lavoura e a pecuária, etc. Afinal, voltamos à condição ainda colonial de atividades extrativistas primárias: mineral, agrícola, madeireira e pecuária. E olhem lá os prejuízos, com o Mercado controlado pelo neoliberalismo global."


  • 20/12/2014

    Lira senador


     O SENADOR RAIMUNDO LIRA FOI ELEITO NA DÉCADA DE 90 APOIADO PELO GRUPO MARIZ, NA ÉPOCA INFLUENTE, QUE INDICOU O CONTERRANEO SINVAL GONÇALVES RIBEIRO COMO SEU SUPLENTE. ESPERÁVAMOS A SUA CONVOCAÇÃO PARA ASSUMIR O MANDATO, COMO ACONTECEU COM AUGUSTO GONÇALVES, SUPLENTE DE ARGEMIRO FIGUEIREDO, E OUTROS NA PARAIBA. LIRA NOS DEU AS COSTAS, PARA SORTE NOSSA QUE NÃO FOMOS ENVOLVIDOS NA SUA CONDUTA IRREGULAR. AFINAL ELE É DE OUTRO ESTOFO MORAL E ELEITORAL. LEIAM A MÁTÉRIA ABAIXO. Postagens • Novo senador da PB que hoje assume mandato já foi censurado por colegas em Brasília Postado por Tião Lucena, 17 de Dezembro de 2014 às 09:27 O empresário Raimundo Lira (PMDB), que na condição de primeiro suplente do senador Vital do Rego Filho (PMDB) acaba de ser premiado com o mandato de Senador da República por conta da nomeação do titular para o Tribunal de Contas da União (TCU), e que na década de 90 já esteve no desempenho do cargo, chegou a ser acusado por parlamentares da Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional, que presidia, de desservir ao Brasil e representar tão somente os interesses de um grupo empresarial. Lira toma posse hoje à tarde em Brasília, horas antes da posse de Vitalzi nho como ministro do TCU. O senador naquela época era filiado ao PFL e até colegas da legenda assinaram um documento pedindo o seu afastamento da comissão a fim de dar aos trabalhos a “transparência que a sociedade brasileira reclama”. Outros ilustres signatários do documento foram os deputados paraibanos Ivandro Cunha Lima e Francisco Evangelista, que não concordavam com as ações de Raimundo Lira e requeriam, assim, a sua destituição da presidência. Lira dispunha de uma assessoria de comunicação extremamente competente, chefiada pela jornalista Lena Guimarães, que veio a ser editora do jornal Correio da Paraíba e mais adiante secretária de Estado da Comunicação no Governo Maranhão III, e passava para a Paraíba sempre as melhores notícias relacionadas ao seu mandato, omitindo obviamente aquelas que lhe deslustrassem. A notícia de que Lira estava sendo omisso na questão orçamentária vazou para a Paraíba e causou reboliço. Foi divulgada somente no jornal estatal A União e em A PALAVRA. O senador até tentou desmenti-la, mas não deu. Datado de 30 de agosto de 1994, o documento que os dois jornais publicaram era assinado por parlamentares de vários partidos, inclusive do PFL. A insatisfação dos signatários com Lira era muito grande. Acusavam-no de ter se omitido no processo de discussão sobre o projeto orçamentário do Governo, uma vez que ele não convocou os membros da comissão e nem substituiu os senadores e deputados faltosos. O documento pedia ao presidente do Congresso Nacional a imediata aprovação do relatório do deputado Marcelo Barbieri (PMDB-SP), relator-geral da Comissão Mjsta de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização do Congresso Nacional, sobre o projeto orçamentário do Governo Federal para o exercício financeiro de 1994, que deveria ter sido aprovado desde dezembro do ano anterior. O deputado Francisco Evangelista, que era candidato à época ao Governo do Estado, disse através do jornal A União que Lira representava um grupo empresarial que não tinha o menor interesse na aprovação d o projeto orçamentário, razão pela qual teria se negado a convocar os 120 membros da comissão para discutir a matéria e elaborar os relatórios setoriais, indispensáveis para a aprovação da matéria em plenário do Congresso. GRANDE EMPRESÁRIO Raimundo Lira é hoje um mega empresário brasileiro e mantém a maioria dos seus negócios no Distrito Federal, onde reside, embora continue com empresas funcionando em Campina Grande. Primeiro suplente, Lira explicou que desde a fase de pré-campanha havia revelado a Vitalzinho que somente teria interesse em assumir se fosse diante da sua ascensão a um cargo de ministro ou se o mesmo viesse a conquistar outro cargo eletivo. “Por ter já ter assumido a titularidade do Senado eu me adequaria melhor na hipótese do senador Vital vir a assumir um ministério, por exemplo, e não com essas licenças de três meses volta e meia se registrando na Casa”, disse a jornalistas logo após ser eleito. Raimundo Lira afirmou que tem um relacionamento político muito bom com o senador Vital e seu irmão Veneziano Vital, dentro de um padrão bem resolvido e de cumplicidade. “Desde a fase anterior à campanha já havia revelado este meu posicionamento em conversa com os dois”, reiterou."


  • 16/12/2014

    PT e o crime lesapátria


     O ócio imerecido na terceira idade (melhor teria sido na mocidade), no fim da vida, tem-me custado dores e tristes momentos perdidos em buscas inalcançáveis. O que passou, passou. Tenho sofrido dores e penas na leitura de livros velhos que guardo na estante. Livros velhos que adquiri na juventude vivida em Campina Grande e no Recife, para cumprir os graus do ensino que não existiam na minha cidade, e onde despertei para verdades da vida. 

    Recolhendo e fazendo de lembranças dos outros as minhas lembranças, da memória alheia a minha memória, e chorando uma saudade que não me pertence, na mistura de sentimentos, na comemoração de legendas e mitos de outras cidades, diria melhor de comunidades irmãs. Mas muito lhes devo. Assim entende o entre todos consagrado poeta T. S. Eliot, na reverência aos manes e penates que ouviram a sua invocação, o acolheram como estrangeiro, quando outras terras demandou. 
    Porque aqui, onde nasci e moro, nesta extensão imensa de terras de costumes arraigados no nascimento e fixação da população, existe uma sociedade característica originária e autônoma no Estado brasileiro, com hábitos e memória valiosas nacionalmente, como os ciclos do vale do Nilo e das montanhas da Macedônia de Felipe e Alexandre. Revelarei fatos e nomes. 
    Falo nos sertão dos rios do Peixe, Piranhas e Piancó, nas serras do Comissário e de Santa Catarina, na Paraíba, cuja tradição com os seus heróis valorosos e inesquecíveis, em revoluções e pegas de gado, em colheitas fartas ou escassas, em procissões e acompanhamentos religiosos e comemorativos. Ah, os padres Correia de Sá, o sargento Edésio de Carvalho, o milagre da Hóstia Consagrada, e muito mais.Valiam a tradição e a pátria.
    Nosso relevo geológico formador de conglomerados, fomentador de surtos inimagináveis de aparição de feras, gigantes e bruxos no estilo, não direi chinês, embora mais ideogramático, mas quixotescos, que nos falam da nossa herança ibérica, comum e a nossa linguagem culta e bela registra. Marchamos para a realização do grande sonho nacional de progresso, grandeza, soberania, independência econômica e cultural. 
    Pena que a política econômica e sociall adotada pelos governos do PT, tenha deixado de lado o patriotismo do passado, e destroçado os projetos sociais em desenvolvimento, que vinham da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, da inveja e do fratricídio de Caim e Abel, do casamento cristão. Evolução e desenvolvimento bíblico, parabólicos, proverbiais, origem da moral universal. O social da nova nomenclatura pseudo-acadêmica trocou a fazenda pela comunidade, o amor pela lubricidade, a expressão filial pelo crime hediondo de ter a criança o pai João e mãe Pedro, ou a mãe Maria e o pai Marina. 
    Quanto aos crimes lesa-pátria, começando pelo Mensalão e chegando aos apurados na Operação Lava-Jato, que destroçaram a Petrobrás e a moralidade nacional, a trajetória criminosa do PT na cena política desacredita internacionalmente o nosso país. 
    Falou um advogado numa reunião de causídicos famosos: “Todos sabem que no Brasil não se coloca um paralelepípedo no calçamento sem pagar ou receber comissão.”
    E um cidadão do povão liquidou o assunto: “No Brasil se roubarem um pão ou avião o PT está meio.”

     
     
     
     


  • 06/12/2014

    Avacalhou geral


     

    Procuro na história, para meu convencimento, e também na literatura, por hábito, modos de conduta moral de personagens que figuram na cena social. Na Bíblia, em Dante, Shakespeare, Balzac, Eça, no nosso Machado, todos enfim, cuidam ou descuidam da moralidade pessoal ou do comportamento ético indispensáveis na vida pública. É o que se discute no mundo inteiro. Mas para o governo do PT o Brasil está fora dessa nomenclatura. Aqui prá nós: avacalhou geral. O quadro nacional certamente me inquieta. Ruge a garganta rachada do senador Humberto Costa e se levanta mais o nariz arrebitado da senadora Gleisi Hoffmann, certamente perfumados, “produzidos”, cuidando da elegância palaciana, do desfrute do mando e do poder. O PT tirou-os da pobreza. Assim impressionam a chamada massa ignara. Justo porque sabem que pobre sonha com riqueza, ama e cultua o rico como tipo ideal de beleza, felicidade e realização pessoal. Ontem, seguidos por outros parlamentares, de preço tabelado legalmente pela presidenta (estudanta?) debulharam na tribuna do senado, regras inéditas e insólitas na afirmação da moralidade, da falta de decência como metas e resultados da ação do governo federal na construção de uma verdade com vistas ao bem estar nacional. Encanta e assaca e epistemologia petista, acima da reles ciência acadêmica, numa investida tragicômica. Pois bem. Vem de longe esta prática malsã, mas nos governos do PT contrariando essas regras., chegamos a avacalhação geral O excesso de gastos (39 ministérios 39000 gratificações) e a submissão do nosso país a critérios do interesse financeiros da Banca Internacional (desindustrialização), determinaram a ocorrência de um profundo processo de corrupção na prática administrativa, na tomada de posições em qualquer ajuste envolvendo o poder público e instituições públicas ou privadas nacionais e estrangeiros. Resumindo: Um bravo e destemperado advogado, numa roda de causídicos famosos, liquidou numa frase a momentosa questão nacional, que todos conhecem e fingem que não, no tocante a atividades e serviços em marcos regulatórios ou não a cargo do poder público em departamentos administrativos ou empresas, autarquias e burocracias outras. Falou alto e grosso: “Todos sabem que no Brasil, não se coloca um paralelepípedo no calçamento sem pagar ou receber comissão.” Não se trata somente de Friboi, Eike Batista e congêneres. Porventura Lula, Dilma, os preclaros senadores, a corja petista ignoram esta malsinada realidade? Acredito que não. Eles patrocinam tal procedimento. Eles o ampliam. É o que resta provado. E para confirmar a avacalhação geral, o hiperfamoso delator premiado Paulo Roberto Costa, afirmou que no Brasil tal procedimento vem de longe, e eu completaria da dependência colonial. Depois da consagrada política lulista de “tapar um buraco e destapar outro”, marca da velhacaria, e sair de uma dívida que pagava juros de 1% para outra de mais de 11%, e ser elevado por este fato a condição de heroi nacional, pouco ou nada mais há a fazer."
     


  • 20/11/2014

    Lula, Dilma e Ricardo


     Tião Lucena comentou no seu blog a parola da “Casa sem Dono.” É aquela história que ele conhece desde os seus velhos tempos de Princesa: do pobre em moagem de rapadura, que se intromete e se lambuza na rapa da caixa e do taxo. 

    Na verdade são os debaixo que chegam e veem com muita sede ao pote. Os de Lula impossibilitaram, além dos seus delitos conhecidos, o balanço econômico-financeiro anual do Governo Dilma. Quer a presidenta (estudanta?), como afirmou o senador Cristovão Buarque ontem em sessão no senado, mudar a contabilidade pública (LDO) para incluir como saldo o que deve arrecadar no próximo ano, e como despesa o que será aplicado em obras também no ano vindouro.
    Por seu turno o governador Ricardo ficou calado com a boca aberta, quando o senador Cássio Cunha Lima argumentou: "Este governo funciona como aquele sujeito que bate a carteira e sai gritando: Pega ladrão! Pega ladrão!”, e o seu opositor silenciou. Isto antes de se reportar a um dos mais graves episódios que foram alvos de denúncias na atual campanha, como o famoso “inquérito do propinoduto” – que trata do envolvimento direto de casos de propina do irmão do governador (Coriolano Coutinho) e secretários de Estado que precisam, sim, ser debatidos, pela gravidade do fato. Li na rede social.
    Segundo tinha afirmado Ricardo Coutinho ao longo do primeiro turno, ele tinha encaminhado o documento ao Ministério Público, mas a instituição desmentiu o procedimento, no início desta semana. 
    Cássio lamentou que, a exemplo desse episódio, existam tantos outros fatos nebulosos na atual gestão, envolvendo compras suspeitas, licitações irregulares e um sistêmico processo de deterioração dos procedimentos administrativos à luz da ética e da licitude.
    Lulistas e Ricardistas sem possibilidade de defesa, aludem simplesmente a erros e crimes contra a administração pública praticados por outros governantes, como se tal argumento os eximisse de culpa.

     
     


  • 13/11/2014

    A questão sulistas / nordestinos


     Aqui nasci, aqui moro no meu esbraseado, fértil, rico e amado sertão nordestino. Aposentado do serviço público, recolhi-me a uma morada no mato, numa pequena e primitiva fazenda. Sinto-me bem até demais. Impossível negar a importância deste território com uma população que sustentou em apelos e surtos migratórios, o crescimento do Sudeste, ocupou extensas áreas na Amazônia como “soldados da borracha”. Venceu condições naturais e sociais adversas e deixou a marca de sua presença, do seu trabalho na construção de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Brasília, para falar só nestas três cidades, que outras por este imenso Brasil muito lhe devem. E fixou-se, instalou unidades de povoamento, adentrando a mata ciliar, nas margens dos grandes rios do Acre ao Pará. O que seria do nosso país sem os nordestinos Rui Barbosa, Castro Alves, José Lins do Rego, Clóvis Beviláqua, José de Alencar, Graciliano Ramos Rachel de Quiroz, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Augusto dos Anjos e tantos outros nomes no mundo das letras? Uma sombra, uma cópia estupidamente alienígena de mamulengos. Na sua coluna no Correio da Manhã de abril de 1952 (Obras Completas, Telefonema, Editora Globo, 2007) escorreito protestava Oswald de Andrade a ação de uma política segregacionista do governo de São Paulo, que oferecia ajuda financeira e bilhetes de passagem para correr para trás a população de nordestinos que passara a morar na Pauliceia. Leiam: “Por que em vez de impedir não incentivar a migração dessa raça magnífica que é nossa? Até quando São Paulo será povoado da escória desajustada da estranja e verá prosperar somente o judeu asqueroso, o sírio bestial e o italiano ladravaz? Que venham essas levas nativas que trazem além dos braços, o coração brasileiro. Que venham fazer submergir aqui o estrangeiro velhaco, restaurando se possível a nossa amável cultura tradicional. Nós paulistas já sentimos que a pátria nos foge dos pés, porque nela só transitam o usurário, o avarento e o crapuloso achacador dos dinheiros privados e públicos. Que essa injeção generosa de sangue nordestino venha reabilitar a vida nacional que aqui se perdeu.” Afinal o Nordeste é o berço da cultura brasileira. Aqui aportaram as caravelas de Cabral, teve início o processo de construção da nossa pátria."


  • 08/11/2014

    Novos sujeitos sociais


     O protesto generalizado varreu as ruas, chegou à depredação de bens públicos e privados, alcançou o clima temido da guerra civil. O sacrifício geral levava à constatação da inviabilidade do modelo vigente de governo, que, espetacularmente ganhou a parada nas eleições. Com efeito, sobram empregos: do escalão técnico superior ao nível modesto do ajudante. Carência de informações? Protesto silencioso? Desobediência civil? O governo está assustado. Como pode? “Nós avançamos um pouco”, esclarece Tasso Genro, comunista, um dos responsáveis pela “criação” do PT e do governo Lula, da tese dos novos sujeitos sociais. Ele, porém, adverte: “São pessoas que jamais aceitarão ficar à margem de um processo de demanda”. Pois está aí a explicação para o tumulto urbano. A reivindicação de hoje, eu advirto e acentuo que é salarial, remuneratória, de condições dignas de trabalho, restauradora de estatutos e direitos sociais entre nós, revogados pelo Mercado Neoliberal que domina o Estado Mínimo. Restam, ainda, aquelas outras pessoas, referidas pela presidente Dilma como as que vivem em situação de humilhante dependência e pobreza, entregam-se a atividades ilegais, porque, produzir rendimentos pessoalmente, não sabem como fazê-lo. Para estes, o seu governo anuncia outro modelo: a “inclusão produtiva”. Ainda bem. Supre a lacuna existente, explicitada e deixada pelo ex-presidente, como a importância de oferecer capacitação e acesso da população para o trabalho – ensinar a pescar, semanticamente traduzido em Pronatec. O que fazer? Católico na infância, e marxista na juventude, a que fui levado pelas noções de base científica dos iluministas sobre a racionalidade da existência, e Gérard Duménil, Jacques Bidet e Alain Touraine, pensadores atuais que identificam novos protagonistas, figurantes e sujeitos no mundo “pós industrial”, entrego-me a reflexões. Não pretendem eles substituir o princípio da luta dos contrários como fator determinante da existência e do desenvolvimento da natureza e da sociedade. Simplesmente estes empurram com a barriga o problema para depois. As descobertas no campo das ciências e da tecnologia, mostram que as mudanças alcançam a vida social. Urge, portanto, conhecermos e nos ajustarmos às novas teses sobre o homem e a organização da sociedade, que assoberbam a nossa existência, inapelavelmente. Sigo nestes caminhos. A infinita varia-bilidade da conduta humana indica esta direção. Sinal dos tempos que mudam, sucedem-se na evidência de uma verdade única, mesmo assim momentâneo, como síntese da realidade. Assim é a vida: já tive um par de esporas de prata que usava quando saía a cavalo para reuniões de muita gente, para namorar. Gastou-as o tempo e o uso. Desapareceram o senhor e a montaria de festa, de trabalho. Hoje, na terceira idade, não sei das butucas, já não uso cavalo, mas quadricíclo, percorrendo roças desertas. Aquele tempo passou. Assim, no processo social de desenvolvimento de suas relações, de natureza múltipla, ocorrem mudanças, e se transformam os sujeitos. Ao capital e ao trabalho, os novos filósofos agregam um terceiro fator de ponderável e inegável importância na determinação do processo econômico-social, de mudanças: os organizadores e gestores privados e públicos. A moderna luta de classes agora é um jogo a três, não mais a dois. Em busca de perpetuação, o sistema capitalista através de seus porta vozes, tenta um equilíbrio, comprovadamente impossível de ser obtido, como o demonstrou Marx, refutando Proudhon na “Miséria da Filosofia”. Mas são circunstâncias e fatores de fato avaliáveis e que determinarão, eventualmente, a sobrevivência do sistema, nas suas crises. Outro autor, também ator na cena, baseia a sua tese no que chama “sociologia da ação”, quando “a sociedade molda o seu futuro através de mecanismos estruturais e das suas próprias lutas sociais”. Este ajudou, ele afirma, no “nascimento” do movimento “solidariedade” na Polônia, o PT no Brasil, que lamentavelmente cederam às pressões do neoliberalismo, num fracasso redundante. Na sua vertente, salvam-se particularismos do funcionamento da sociedade por ele chamada “pós moderna”, que retratam somente momentos, não processos que revelem a realidade dialética de enfrentamento dos contrários. Faltam-lhe as características descritas por Gramci, de construção de uma ética vinda de baixo para se impor pelo consenso às elites dirigentes. Congratulo-me com a presidente Dilma pelo seu programa de inclusão produtiva. À ética de-mocrática que vem de baixo. O Pré-Sal é nosso. Era o que faltava, e mais educação em tempo integral para crianças, e professores treinados, melhor remunerados, como preconizavam Brizolla e Darcy Ribeiro. Depois dos quinze anos, a consciência juvenil a que faltou educação eficiente, volta-se para um comportamento aventuroso e inevitavelmente criminoso. Vira para trás a pala do boné."


  • 28/10/2014

    O País de São Saruê


    As serras azuis, paralelas, “nascem com o sol e se põem com ele” – formam cadeias –, costumam dizer orgulhosos os caçadores, os homens que andam a pé ou a cavalo, e ainda não usaram o automóvel para vencer grandes distâncias. De uma para outra distam mais de dez léguas. A que corre pelo sul, é a de Santa Catarina, de linha regular, altas elevações, grutas misteriosas, grandes maciços de granito. No inverno as cachoeiras rugem nos seus flancos e a mata – verde toda vida – levanta-se mais, cresce mais, redobra o vigor, guarda nas suas sombras e locas, todos os bichos que ainda vivem no sertão. Quando o Aracati sopra forte escutam-se estrondos. O vento explode nos penhascos. Serra quase virgem, onde minerais raros afloram derramados nas grupiaras, ou em filões gigantescos, que se entremostram em escarpas perigosas, delas os homens têm poucas histórias para contar, exceção faça-se de Pedro Gato, caçador manhoso, tocaieiro invencível. Pelo norte arrasta-se a Serra do Comissário, irregular e antiga, abaixa-se aqui, alteia-se acolá, parecendo até um cordão-de-serras e não uma formação única. Dominada pelos homens que se instalaram no seu topo, lá em cima existe uma verdura eterna, e “em se plantando tudo dá”, como ainda dizem os seus habitantes, servos dos Silveiras, dos Elias, dos Queiroga, encolhidos no frio das noites. Na seca as suas ilhargas verdejantes, transmudam-se em esqueléticas catingas de paus ressequidos. Os homens que moram nas alturas do “Comissário” pouco sabem do mundo, do sertão lá embaixo. No meio do calçamento em Pombal ou em Sousa, suam por todos os poros, sentem escurecimento de vista, chegam a desmaiar com o calor, excessivo para eles. Por isso evitam descer de suas moradas, e no sertão ondulado ente as duas serras, vive mesmo o povo de lá: os que nasceram e se criaram pelas várzeas e tabuleiros, pastorando gado, plantando milho, feijão, cana, algodão, fazendo vazantes na seca na represa dos açudes, até que passam a morar nas cidades, arruinados, doentes, inutilizados para o trabalho; alguns vieram de fora, de outros lugares, têm alma de sertanejo. Passando de arribada a pé, de trem, de carro, num relance entendem que devem parar a viagem, procurar moradia, viver no sertão. Nas vastidões entre as duas serras, no entorno, estiram-se estradas trepidantes, poeirentas e esburacadas pelos pneus dos jipes e caminhões, pelas patas dos animais, rasgadas pelas águas das chuvas. Por ali correm no inverno os rios do Peixe, Piranhas e Piancó, e alguns riachos valentes de águas barrentas, de férteis baixios nas suas ribanceiras, onde a agricultura rende mais, plantam-se os sítios, reserva-se um refrigério para o gado na seca. As cidades, vilas e povoados, as fazendas, espalham-se no chão ora em negro aluvião, piçarra ou massapé, ora em elevações pedregosas, rebrilhando grãos de malacachetas e quartzo, dominadas todas pelo desenho das serras distantes, misteriosas, atraindo imigrantes. Aglomeram-se em garimpos, pessoas ambiciosas em busca de fortuna. Obliquamente aos dois grandes maciços, erguem-se formações elevadas com várias denominações: aqui Serra do Formigueiro, acolá Serra dos Macacos, adiante Serra das Angélicas, de extensão e altura inferiores. “Serrinha caxexa”, comenta Pedro Gato quando Horácio Vaqueiro descreve-lhes a natureza agreste, os grotões profundos varejados por ele no encalço de gado escondido nas malhadas, nos bordos de olhos dágua. Um silêncio de morte quebra a voz dos ermos. E a gente? E o mundo em redor? A vida começa a chegar mudando os ciclos do lugar. Vertentes, correntes, bolandeiras, fábricas, engenhos de pau, sindicatos de pobres e também de ricos espertos. Médicos, bodegueiros, marchantes, funcionários públicos. Cercas de vara e cercas de arame, currais de mourões travejados, gado ferrado, vacinado, criação miúda de canga. Questões de terra falam em datas e sesmarias, nas petições dos bacharéis. Poetas e versejadores, pistoleiros, prefeitos e deputados, aviões, os governadores, planos para construir, para demolir. Corta a faca o fio da teia que a vida teceu no pingo do meio dia, nas noites de tempestades. Os santos estrangeiros e os beatos do lugar, conhecidos e respeitados, são venerados em procissões e romarias. Sertão de 1710 nas igrejas de Sousa, de Piancó e de Pombal, no Jardim do Rio do Peixe, no Velho Arraial do Piranhas e Piancó, nas terras foreiras do patrimônio dos santos, na proteção distributiva das indulgências plenárias para a salvação das almas."


  • 25/10/2014

    Governo da corrupção


     “Ricardo Coutinho tem se notabilizado pelas compras superfaturadas que faz no Governo. O gestor que aumenta o valor na compra até de papel higiênico é capaz de tudo”. A declaração foi dada pelo deputado Manuel Júnior, referindo-se a recente compra de material didático no valor de R$ 10.588.92, “sem licitação, o que é um fato estarrecedor em pleno processo eleitoral”.

    Conforme publicação do Diário Oficial do Estado, o Governo do Estado fez essa aquisição junto à Editora Grafset, dispensando a abertura de processo licitatório. Para o deputado, “todas as operações, em pleno processo eleitoral, são passíveis de uma investigação, porque é muito suspeito uma compra dessa magnitude, sem licitação, quando já estamos no final do ano letivo”.

    Pelo menos até esta sexta-feira (dia 24), o Governo do Estado ainda não havia se manifestado em face da denúncia do deputado do PMDB.

     

     

    Ricardo caindo

    RICARDO CANTAREIRA CONTINUA CAINDO. NÃO DÁ PRA ACREDITAR NAS MANCHETES DO AMIGO TIÃO LUCENA. OUTRAS SÃO CONHECIDAS. FALTOU A PRIMEIRA DAMA NA GIRASSOCA. SABEMOS QUE O CORCUNSPECTO MARANHÃO NÃO É DE MUITA FOLIA. E NÃO DÁ. A REVISTA ÉPOCA MOSTRA A VERDADE SOBRE O “SACO DE GATOS” DO ESQUEMA FURADO DO GOVERNADOR. 
    -Manifestantes constrangem governador em Monteiro
    -Secretário nega ter oferecido dinheiro em troca de adesão ao 40
    -Servidores vão às ruas protestar contra desmantelamento do serviço público
    -Conselho revela que Paraíba perdeu 460 leitos nos últimos quatro anos
    -Aracilba vai depor na Assembleia sobre “grande desvio da Suplan”
    - A polêmica começou quando Pâmela Bório criticou a declaração de apoio a Dilma feita pelo músico Chico Buarque. Também no Instagram, ela publicou uma imagem intitulada “Por que Chico Buarque bajula tanto DIlma?”. As repostas incluem o fato de Ana Hollanda, irmã do compositor, ter sido ministra de Dilma e de o governo ter concedido incentivos da Lei Rouanet para sua sobrinha Bebel Gilberto, seu genro Carlinhos Brown e sua namorada Thaís Gulin. Diante do questionamento e de críticas de seus seguidores, Pâmela disse: “Eu só informei sobre os vários motivos que Chico têm para declarar voto em Dilma, qual o problema disso? Esquecem que sou jornalista?”. Em outro, deixa claro que não votará na presidente. “Por isso eu fui às ruas no ano passado, junto com milhares de brasileiros pela mudança. Já são 12 anos de PT!”, escreveu.”


  • 20/10/2014

    Compra de votos de RC


     Socorre-me a desconfiança brejeira, assimilada na convivência de mais de dez anos na política paraibana com o preclaro senhor de engenho Waldir dos Santos Lima, destacado e temido prócer que vem do confronto violento entre liberais e perrepistas do princípio do século passado. Ele conhecia, e denunciava as falcatruas eleitorais. Com ele muito aprendi. Ameaçado, protestava: “ O dinheiro tá correndo frouxo!”. Sabia do que falava. E argumentava: “ - Matos Rolim (assim me tratava), sei que você é agricultor e criador de gado no sertão, mas a sua pobreza que dá na vista, comparada com a fortuna e os gastos de Carlos Pessoa mostra que você é um incompetente no ramo.” E judicioso acrescentava: “Nunca vi trabalhador no engenho, brigar por um prato de angú. Se brigar tem carne debaixo do angu”. È o caso de Ricardo Coutinho. Esta corrida desenfreada e atropelada para se encostar no governador, apoiar a sua candidatura, ele, verdadeiramente tido e havido como carrancudo e abusado, desperta suspeita. Assim Waldir contestava os altos rendimentos da pecuária do seu adversário Carlos Pessoa, os apoios recebidos em adesões. Este, eu registro, pelo menos tinha fortuna pessoal. Quanto a Ricardo sei somente da sua ficha criminal, envolvido em delitos das mais variadas tipicidades, desde a corrupção, desvio de dinheiros públicos, falsidade ideológica, formação de quadrilha, calunias, injurias, lei maria da penha e vai por aí. Mentira muita mentira tem na divulgação de realizações de sua administração. Mas tratando-se de um desclassificado moral não dá para surpreender. Que falem os “inocentes” Cassio, Maranhão, Luciano... Eu de minha parte apenas sofro crises de irritação, solitário aqui no mato, mas com acesso a internet para registrar o meu protesto contra o Ricardo “asa negra de corvo, asa agoureira...” E lamentar que “Ah um urubu pousou na minha sorte... (da Paraiba). Mas me consola a experiência de saber que a Justiça cochila mas não dorme. Aguardemos."


  • 18/10/2014

    RC Maria da Penha


     Noticia o indefectível blog do amigo Tião Lucena, o propósito do governador Ricardo Coutinho, em declaração prestada no TV Master, ao suave evangélico Alex Filho, de processar os “iconoclastas” - os que denigrem e desfiguram a sua imagem pessoal. Ignoro se de simples cidadão ou de homem público, porque nas duas opções, as incriminações, a chacota e a gozação se lhe ajustam como luvas.
    Como sempre, o Ric Oportunista revela-se tal qual ele é: um aproveitador de oportunidades, procurando dissimular o caráter amoral de sua vida na sofrida sociedade paraibana, que suporta à duras penas a sua vigarice diplomada. Aproveita-se da evidência das “ilusões necessárias” definidas por Chomsky (MIT-USA), que ins-trumentalizam os cidadãos através dos mais poderosos meios de manipulação de mas-sas criados até hoje pelo o homem: a imprensa, o radio e a televisão. Vale a pena conferir os gastos do seu governo com adrede arregimentação de coletividades para glorificar o seu nome, a divulgação de comentários falaciosos sobre a sua administração. 
    O Ric Crueldade arroga-se detentor de vitoriosa “carreira política”. Como diziam Machado e Bilac eu repito: “Ora... ora.” As coligações partidárias que organizou e defenderam suas candidaturas, tornaram-se conhecidas como “Coligação Cano de Esgoto” porque recolhiam o rebotalho moral da Paraíba. E ciente desta realidade reagi em exclamações sentidas, umas tiradas do nosso Poeta do Eu: “Asa negra de corvo... asa de mau agouro... Ah! Um urubu pousou na minha sorte!” 
    O problema consiste no que Ricardo foi, é e no que representa como ocupante de cargos públicos, como detentor de mandato eletivo. Fala-se de lágrimas de cidadãos humildes, de funcionários modestos afastados do seu gabinete, colocados injustamente sob suspeição. Ele mudou de partido político para não debater teses - queria impor unilateralmente a sua opinião. Incensado por bajuladores abandonou as ideias socialis-tas de sua juventude (se as teve). A História e a Psicologia como ciências humanas, de Nero a Hitler explicam personalidades assim, de intenções sinistras.
    Ricardo ligou-se com ideias preconcebidas e subalternas, aos movimentos de caráter humanístico que se infiltram no ambiente das lutas sociais contemporâneas, desvirtuando-lhes os objetivos. Considera-os simples massa de manobra. Os artistas e aficionados que o digam.
    Aí está Ricardo, portanto, com mandato eletivo, mas sem programa partidário, indiferente aos princípios éticos que se impõem no relacionamento pessoal ou funcional com os que o cercam. Uma excrescência jurídico-democrática, como se vê.
    Ele é temperamental, psicótico, sofre de um mal conhecido como desvio da personalidade, um trauma que guarda por ter sido pobre quando jovem. Nada demais. Mas tentou entrar na nobreza das famílias ricas da Várzea do Paraíba que assassinaram camponeses, incendiaram moradas humildes. Dizia que era para realizar sua obra. Nero, o tirano romano fazia assim. Assassinou a própria mãe. 
    Aí está Ricardo, portanto, com mandato eletivo, mas sem programa partidário, indiferente aos princípios éticos que se impõem no relacionamento pessoal ou funcional com os que o cercam. Agora, a tragédia familiar avulta a gravidade de sua ficha criminal: em análise interpretativa do tipo penal, ele incorreria na infração de dispositivos da chamada Lei Maria da Penha. (Notas da fazenda).


  • 13/10/2014

    Dia da Consciência Negra


     Essa data serve como um momento de conscientização e reflexão, sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura brasileira. Os negros africanos colaboraram durante nossa história, nos aspectos políticos, sociais, gas-tronômicos e religiosos de nosso país. Falam em Zumbi dos Palmares e esquecem José do Patrocínio. Valorizam o sofrimento, a tortura, esquecem qualidades morais, in-telectuais. Valem, todavia, os registros, os esforços de cada um. Muita matéria para um texto breve, mas tentarei. Leitura para quem dispõe de tempo.
    Tenho com os negros uma relação próxima da amizade, desde o tempo de criança. Décadas 30 (final) e 40 do século passado. Viva era a lembrança da escravidão na nossa cidade. Negros freqüentavam a minha casa – os homens para lascar lenha, carregar objetos pesados, as mulheres lavadeiras de roupas, cozinheiras, engomadeiras, empregadas da cozinha, da arrumação da casa, dada a situação de quase absoluta dependência em que ficaram essas pessoas, durante muito tempo, com o advento da Lei Áurea. 
    Em Sousa lembro-me de algumas famílias de negros como os "Toicinhos'', ''Reis", "Carlotas", “Constantes” e outras agregadas a casas de brancos afortunados. O negro Chico Pé Torto, engraxate, animava uma congada. Destacava-se entre todos, para alguns curiosos, o negro José Reis, professor de primeiras letras, famoso pela sua pal-matória, que dava aulas usando palavras estrangeiras, em imaginárias viagens partindo de Sousa para qualquer outra cidade de qualquer continente. Era usual, as famílias valerem-se do seu nome para ameaçar crianças preguiçosas, que se recusavam ir para a escola. 
    Ele aprendera tudo ali mesmo. A carapinha branca e a roupa modesta, limpa, de tecido de saco alvejado, chamavam a atenção, impunham respeito. Ele começava a viagem imaginária (aula de geografia) partindo no trem de Sousa para o Recife, e de lá no vapor (navio) para outros portos e mais trens e meios de transporte para o destino indicado. O avião era praticamente desconhecido como meio de transporte. Falava de países, reinados, repúblicas, cidades, montanhas, rios, desertos, florestas, animais estranhos, selvagens, tribos de índios, beduínos, etc. etc. Um encantamento. Estava na moagem, no gado, no milho, no feijão, no carro de boi a sua teoria econômica. Um mestre que antecedeu o famoso Paulo Freire no “modo inclusivo da realidade” na prática do ensino, na pedagogia. Mas passado aquele momento voltava a ser o negro Zé Reis visto nas missas, nas procissões, mas ausente nos clubes e outros ambientes burgueses a que os negros não tinham acesso, embora nenhuma lei o proibisse, mas eles evitavam, se escusavam. Outro negro, Biluto, padeiro, destacava-se porque pegava sozinho saco de cereais de oitenta quilos. Os demais eram chapeados comuns e cachaceiros, ofereciam-se nas portas para serviços eventuais. Eram pobres. 
    Conheci em Sousa, na década de cinqüenta, um negro velho que falava com ódio dos tempos do cativeiro. A marca ficara-lhe no espírito. Nascera, segundo dizia, livre, beneficiado pela chamada Lei do Ventre Livre. Alto, magro, a pele retinta e reluzente, a carapinha embranquecida, trôpego pela avançada idade, reagia com dignidade à chacota dos desocupados que lhe apontavam no pescoço, nos tornozelos e nos pulsos, marcas inexistentes de grilhões. Ameaçava com uma “relação” ao Presidente, encaminhando queixa para reconhecimento do seu direito declarado em Lei. Egresso da riqueza de um engenho de Brejo de Areia, vivia com parentes do Professor Senhorzinho, numa fazenda perto da cidade. Conhecera a escravidão de ver os seus submetidos ao tratamento desumano, e por relatos dolorosos. Perdia o controle algumas vezes: “Filho da Puta!” Reagia às provocações. 
    A rejeição ao negro manifesta-se em uns quanto ao biótipo, o odor característico; em outros à enraizada intolerância aristocrática. Assim, esses homens e mulheres oferecem em todos os países para onde foram levados, uma saga de luta e sofrimento para realçar a sua negritude, a sua condição humana. Entretanto, quantos brancos de-dicaram-se à sua causa! A discriminação, portanto, diz respeito ao dinheiro não à raça. A marca indelével da condição de escravo. Conheço, entretanto, para comprovar a minha tese, negros endinheirados, que não cedem em reuniões a cadeira para branco se sentar. Uma nova realidade social. Entendo que o acesso ao que é público é direito de todos. O congraçamento, o estreitamento no tratamento grupal ou pessoal, entretanto, é decisão própria, específica dos que o pretendem. 
    No exagero sustentam-se os que buscam privilégios, vantagens em relação aos demais. Eis o racismo ou discriminação. E o exagero se especializa a cada dia. Espero e não desacredito em Medida Provisória, que ampliará à inclusão de negro, gay ou índio, etc. a soma de categorias outras, de canhoto, aleijado da perna, do braço, da coluna, cardíaco, aidético, asmático, míope, etc, como diversidade ou diferença. É a multi-plicação das vantagens ditas inclusivas. Sacanagem mesmo para consumo dos tolos.
    Sou admirador da negra Benedita da Silva que venceu na vida, como se usa dizer. Lavadeira de roupa num morro carioca, de família numerosa, inteligente, chegou ao senado, ao governo do Estado, foi ministra e hoje é deputada federal. Mas para mim é uma negra feia que só o cão. Não posso, entretanto, emitir tal opinião, porque incorrerei nas penas aplicáveis ao crime de racismo. Mas posso afirmar que Sharon Menezes é uma negrinha linda. Quanto aos homens, todos acham o afilado Thiaguinho um tipo clássico do negro preto, padrão de beleza masculina, e que o Paulo Paim é solidário. 
    Resta-me dar a mão à palmatória. Acho a notável Benedita uma negra feia, cha-boqueira; Emilio Santiago advogado, um ótimo cantor, Pinxinguinha melhor sax e compositor, que se destacaram sem cotas; aventuro-me a dizer que Chico César é um negrinho agradável quando quer, mas vai vencer pelo tipo esquisito que explora malandramente, não pelas cotas, mas pela boa música, que aos críticos tidos como renomados lhe atestam. Quantas pessoas brancas, negras, amarelas assim adotam a moda de esnobar: sim é sim não é não! Tive e tenho amigos e amigas negras. Esta relação flui naturalmente. Existem mulheres e homens brancos que não tolero ver, muito menos com eles conviver. Que envergonham não somente a raça, mas a espécie humana.


  • 02/10/2014

    O golpe da intendência


     (Fatos da história de Sousa). Na agitação do período eleitoral, quando muito se discute a política local, entro também no assunto, para falar da velha política de Sousa, de fatos quase perdidos na lembrança ou esquecidos pelo dilatado passar dos anos. A exaltação marca para a história, o desenvolvimento característico dos acontecimentos políticos em todos os quadrantes da terra. As circunstâncias que envolvem a disputa revelam a maior ou menor freqüência das ações leais ou insidiosas. Assim nos deparamos com a violência, a integridade, a traição, a competência, a pérfida esperteza. Para uns vale a ética nos seus compromissos de campanha; para outros importa o fim que buscam alcançar, utilizando quaisquer meios, mesmo os condenados pelos bons costumes, pela lei. Dessa maneira conquistam os seus títulos, o seu galardão, a exemplo de Tiradentes, Herói da Pátria, Honra da Nação; e Silvério dos Reis, Traidor da Pátria, Vergonha da Nação. A cada um, portanto, conforme a sua conduta. As palavras acima servem de intróito apenas, a um breve comentário sobre um fato da história política de Sousa, fundado em documento incontestável. E de reconhecido valor, por revelar as relações sociais da época, retratadas na conduta política dos seus representantes. O texto é autêntico, divulgado pelo importante jornal “Estado da Paraiba”, que circulava na capital do Estado, tirado de exemplares datados de 09 de fevereiro de 1892, e de 18 de fevereiro de 1892. Naquele tempo os “coronéis” ainda exerciam as funções que, pelo seu fundamento e sua origem pertencem ao Estado. Acentua o historiador honoriano José Octávio de Arruda Melo no seu “O Problema do Estado na Paraíba: Da formação à Crise (1930 – 1996)”, que, aquelas (funções) somente com a chegada de João Pessoa ao governo, apoiado na ascensão da “nascente classe média foram tornadas públicas, tais como arrecadação fiscal, segurança, crédito, estruturação agrária, obras públicas e organização municipal. Nesse momento o Estado adiantou-se à sociedade.” (pág.12). Vejamos a redação das notícias na ortografia e no estilo da época: “CIDADE DE SOUZA. Cartas recebidas dálí em dacta de 22 de janeiro ultimo contam: No sabbado, 16 do corrente um pequeno grupo, composto dos cidadãos Antonio Joaquim de Mello, Galdino Ferreira de Souza Formiga, Francisco de Assis Garrido e Pedro Baptista Gambarra, acompanhados de uns moradores do professor Nabor Meira de Vasconcellos, foi à casa da intendencia municipal (então na Igrejinha do Rosário), violentou uma das portas da mesma casa e se fizeram acclamar intendentes.” Isto feito, redigiram um officio e mandaram levar ao presidente, tenente-coronel José Gomes de Sá, que o devolveu incontinenti, por não reconhecer nelles autoridade alguma e antes reputal-os criminosos perante as leis do paiz. “A intendencia legal continua no seu posto.” “Ameaçaram tambem ao digno procurador da justiça, nosso illustre amigo Dr. Mattos Rolim, Procurador da Justiça (meu avô paterno), que teve apoio franco de amigos sinceros. Consta que o Dr. Mariz escreveu ao Dr. Mattos, dando-lhe satisfação, e allegando que, apesar de serem aquelles seus cunhados e sobrinhos, nenhuma parte tinha tomado em tais movimentos.”"


  • 28/09/2014

    Casa-Grande & Senzala


     (Monteiro Lobato: “... O Brasil... vai ser o que Gilberto Freyre disser...” (1944); Darcy Ribeiro: “Casa-Grande & Senzala é o maior dos livros brasileiros e o mais brasileiro dos ensaios que escrevemos...” (1977); Fernando Henrique Cardoso: “De alguma forma Gilberto Freyre nos faz fazer as pazes com o que somos (2003) 

    Como tem acontecido muitas vezes, para encher o meu tempo, retiro da estante para releitura e consulta um livro entre os guardados, há algum tempo. Hoje CASA GRANDE & SENZALA (tomado por empréstimo à Biblioteca Municipal de Piancó, Dr. Firmino “Ayres” - mera retaliação -, na verdade Leite seu sobrenome materno, com o qual era de fato conhecido). Mas falemos do livro, objeto de elogios e chacota pelos partidários da esquerda e da direita na universidade dos anos Cin-quenta/Sessenta em Pernambuco. Aos setenta e oito anos de idade vivo comodamente numa fazenda velha de minha propriedade, que serviu no passado para prática da agricultura e da pecuária, mais qualificativa do que rentável, dada minha ocupação profissional como advogado que me proporcionara verdadeiramente rendas financeiras e prestígio social. 
    Recolho na memória, fato marcante na minha vida de acadêmico, nascido no sertão semiárido da Paraíba, atrasado e pobre. Era modestíssima a minha formação intelectual, literária direi melhor, pois o ensino secundário e superior na primeira metade e primeiras décadas da segunda metade do século XX, ainda estava localizado nas capitais dos Estados, ou nas grandes cidades que começavam a aparecer. Na verdade, desde o tempo das capitanias, e no século XIX as famílias ricas encaminhavam os seus filhos para a Europa, para Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, principais cidades do país, mais acessíveis aos nordestinos. A ascensão da classe média me levou para a Faculdade de Direito do Recife.
    Ali cheguei já cultivando preconceitos culturais, próprios da sociedade que foi colonial na sua origem. A evolução política da região, fundada nos mestres europeus do Iluminismo e do Marxismo, em oposição a ideologias conservadoras, ao dogmatismo da teologia tida como inimiga do progresso, que atravessara a Ásia e a Europa e chegara à América Latina. 
    O ambiente acadêmico era agitadíssimo, dominado pelas discussões do Direito − meio e modo da vida social organizada. Pátria de mártires na luta pela liberdade, Pernambuco guardava na sua história a violência na repressão a tais princípios e propósitos. Desde a expulsão dos holandeses, o fuzilamento de Frei Caneca, a execução de um estudante num meeting, na Pracinha do Diário, à deposição e exílio do governador Miguel Arrais, travava-se uma luta de vida e morte entre os grupos contrapostos. 
    Na campanha nacional contra a ditadura, Gilberto Freyre ingressara na formação do grupo que daria nascimento à UDN, partido que era então considerado o mais "entreguista" no país, elege-se deputado federal. Vem daí, acredito, a minha in-disposição com o homem público e escritor, pois a minha família militava no núcleo que formou o PSD, e na faculdade eu formava na esquerda. Assim eram os costumes no meu tempo, na Paraíba e em Pernambuco.
    Retirei, pois, como falava, o volume da estante. Edição especial, comemorativa dos 70 anos de Casa-Grande e Senzala, patrocinada pelo MEC, “venda proibida". Um monumento como usamos dizer. Fora eu, noutro tempo, um leviano e reles crítico de Gilberto Freyre, desconhecendo inteiramente a sua obra, patrulhado ideologicamente pela esquerda radical a que me ligara na Faculdade de Direito do Recife. Vinha tal procedimento de influência familiar (um tio-afim foi candidato a deputado estadual pelo Partido Comunista em 1946) e iniciação nas ruas e nos estudos secundários em Campina Grande, essa ligação com os socialistas militantes. 
    Vivendo o exílio doméstico − o afastamento do núcleo familiar −, assimilei até certo ponto, a nostalgia ressentida dos exilados políticos. Gilberto Freyre pertenceu à última categoria: “Em outubro de 1930 ocorreu-me a aventura do exílio.” Assim inicia GF o prefácio da 1ª edição do seu “livro perene”. Hoje eu vivo um novo e espontâneo exílio, afastado da convivência social a que me habituei na minha vida social e política. O que fazer? É a vida como ela é. 
    Este breve registro, nas anotações de minha memória, não receio dizer, pouca importância possuem, além do mero gesto de comentar fatos da minha vida, dada a desimportância dos meus escritos do ponto de vista das letras propriamente literárias, e também em qualquer ramo das ciências humanas. Considero importante assinalar que as pesquisas e conclusões do pensamento humanístico e também científico do mestre de Apipucos, pouco serão lembrados e referidos pelos estudiosos da nossa sociedade, em razão da irreversibilidade do êxodo das populações do campo para a cidade, nascido entre outros fatores demográficos, pelo desenvolvimento do comércio e da indústria. 
    A criação e fabricação de produtos e equipamentos destinados ao uso doméstico, medicinal e atividades de larga escala, a conservação de alimentos, eliminaram o pilão, o moinho, os purgadores. A senzala hoje é outra, “pesquisantes” a serviço do governo para insinuar mudanças para o bem dos escolhidos e garantir ganhos pessoais, começaram com “cadeirantes” e “brincantes” chegaram à pedra-filosofal, de que não tratou o mestre Giba, dispensado, portanto, de referência pela inatualidade do seu pensamento. Tem mais para comentar sem recorrer ao Google. Mas o fundamental, é que as mudanças globais confirmam que o método dialético do conhecimento e do desenvolvimento na natureza e na sociedade ensina que dois termos essenciais, somente, o novo e o velho sobreviverão sempre, e que o passado alicerça a construção do futuro. E para falar dos costumes, da vida das pessoas, ninguém melhor, no caso brasileiro, do que o Mestre Gilberto Freire. (continua: ENCONTROS E DESENCONTROS. GILBERTO FREYRE, II - Cidade Ultrajada APOLOGIA PRO GENERATIONE SUA. (Revista do Norte, Recife, 1924).

     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     


  • 15/09/2014

    Sangue, suor e lágrimas


     Para evitar vaias, Lula e Ricardo usam discrição. Ele não foi anunciado no Sambódromo. Ricardo escondeu-se, fugiu na campanha de sua candidata Estleisabel. O presidente Lula e a primeira-dama, Marisa Letícia, assistiram na noite de ontem ao primeiro dia de desfiles das escolas de samba do Rio. Para evitar as vaias, como ocorreu na abertura dos Jogos Panamericanos, em 2007, Lula chegou de forma discreta ao Sambódromo. O nomedele não foi anunciado pelo locutor oficial do desfile. Deu em O Estado de S. Paulo - Fonte: http://l.facebook.com/l/IAQEp60nuAQGG0FMnMqnR8S-AtKZxPbzhKtkiqLAQsv1MCg/oglobo.globo.com/pais/noblat/ Algo está errado. Que atroz pressentimento domina o popular mandatário da nação? O senador pernambucano Jarbas Vasconcelos fez ao país uma denúncia grave: o desajustamento do governo Lula, interna e externamente considerado. Mesmo com a sua disparada consagração, comprovada nas pesquisas de opinião. Onde está a verdade? O senador pernambucano argumenta: "O marketing de Lula mexe com o país. Ele optou pelo assistencialismo, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo". O governador Cássio Cunha Lima foi cassado, denunciado por haver comprado votos. Seria o mesmo caso, ou diferente? Dá para pensar. Dois pesos duas medidas? Não seja por isso... Nem sempre, a maioria e a unanimidade sustentam-se na ética. “Um Inimigo do Povo”, famoso texto teatral de Ibsen, retrata a tragédia da porfia social. Vivemos em dois mundos? O affaire que expulsou do cargo a ex-ministra Marina Silva, que se batia pela preservação do meio ambiente, considerou-a uma inimiga do povo, concluindo, em conseqüência, que os madeireiros e especuladores que destroem os recursos naturais, apoiados pelo presidente, são os salvadores da pátria. Ficou claro que não se trata de erro ou engano, mas falam de má fé e corrupção de verdade. Como aconteceu com o malogrado e sacrificado projeto do cientista-personagem do drama norueguês. A vida é um duro combate: viver é lutar! Cantou o poeta. Lula e oRicardo Coutinho alcançaram a posição de grande homem, dirigentes de um país rico na potencialidade dos seus ambicionados recursos naturais. E com uma população que “vai na onda”, como tem acontecido até agora. Fácil de envolver, dominar. Mas resistindo sempre. Em data próxima ele tem encontro marcado com o popular presidente Obama. Estão na crista da onda. Podemos compará-los a Churchill que enfrentou a blitzkrieg nazista, afirmando em discurso no Parlamento: "...Não tenho nada a oferecer-vos senão sangue, trabalho, suor e lágrimas..." conquistando assim, a confiança dos seus concidadãos, a paz para o seu país. Lula e Ricardo por sua vez, tinha de soltar a sua frase declarativa, como fazem os grandes, e, em clima de frevo pernambucano, axé baiano, samba carioca, sapateado gaúcho, sem envolvimento em qualquer guerra, garantiu na cerimônia de sua posse na presidência: “Nenhum brasileiro, depois do meu governo, irá para a cama com fome". Resultado: lucro para o empresariado nacional e estrangeiro e para o mercado financeiro internacional, que o homenageiam, deixando o país em vias de perder de vista o seu futuro, enquanto proliferam os presídios, e a população é atacada por doenças antes desaparecidas, lepra e outras. Assim se comportam os homens: os bons e os maus. Deitam as suas “falas do trono”. Apenas os diferencia o caráter pessoal e do comunicado. Onde moro não circula jornal. Leio O Norte acessível na Internet, o Correio não o é. Leio sempre Gonzaga Rodrigues. Ele tem aquele raciocínio engajado que se revela sem subterfúgios. Jamais pulará a cerca, tomará outra estrada. Um caminho que me agrada, que percorro consciente na formulação de algumas teses sobre a sociedade dos homens. Sabe como é: num irresistível processo centrífugo o pensamento voa, voa, mas é levado ou arrastado para raciocínios que não chegariam a outro destino senão ao centro que determina a atração, a mudança, à força direcionada inelutavelmente, como nas leis da física. Falo da formação da nossa consciência crítica, da origem e direcionamento dos nossos pensamentos e ações. E tudo vem a propósito de uma numerosa legião de mocinhas, que vejo cedinho quando passo, saindo de favelas em bairros afastados, em demanda de ruas localizadas no centro urbano da cidade, onde moram famílias melhor aquinhoadas financeiramente, e elas trabalham como “domésticas”. É a mão de obra que existe nesses aglomerados – que as mulheres velhas rapam panelas aproveitando restos de comida, buscam na vizinhança empréstimo de algo para forrar o estômago vazio. Os rapazes, e muitos homens feitos, nus da cintura para cima, com a camisa desleixadamente no ombro, jogam sinuca, bebericam aguardente, postam-se acocorados em reuniões e discussões que não falam do trabalho nem do país. Talvez de mulheres, preferencialmente comentam o que viram e escutaram no rádio e na televisão sobre novos programas e projetos públicos voltados para a assistência e amparo das ditas famílias pobres. Por fim concordam, batem palmas. Um diz: – Lula vai aumentar! Todos advinham que se trata de vantagens. Outro, completa: – Agora todos em casa podem ganhar. Antes só menino de escola, agora rapaz e moça ganham. E a cesta básica vai chegar no dia certo, o pão e o leite também aumentam, contando as pessoas. Um mais idoso informa: – Lá em casa tem três meninas “buchudas” que vão render um extra perto de 3000 de “natalidade”. Com dois aposentados e um “encostado” (seguro doença) vamos chegar perto de 2000 por mês. E tem a bolsa carinhosa, bujão, o hospital, o medicamento, o Ministério público para nos defender. Rico agora vai pagar a conta velha. Assim Gonzaga Rodrigues perdeu os seus biscateiros, se não na fila da Bolsa Família, mas na do Hospital, o que dá no mesmo. Coisa de governo. O senador Jarbas Vasconcelos disse, numa entrevista que Lula botou no mato o dinheiro farto do bom momento da globalização ao fazer assistencialismo. Na verdade fomos puxados para cima pela China e pela economia estadunidense, pela recuperação do saldo comercial, período que poderia ter sido melhor aproveitado pelo Brasil, como afirma Ieda Paulani mestra da USP. Lula por algum tempo usou a surrada frase gritada nas panfletagens desaparecidas do PT: “Devemos dar o peixe como fazemos, mas também ensinaremos a pescar”. Deixou de lado a promessa, como no seu estilo. Não existem empregos. Por isso volta a importância de conceitos como o de capital fictício, que Marx trabalha na seção 5 do livro 3 do Capital, como ensina a mestra paulistana. O que tenho repetido. Com quem está a razão? Como poderemos nos livrar da “Servidão Financeira” que Lula alimenta com os juros ditados pelo Banco Central? E o que fazer com a dissimulçao, a desonestidade e as mentiras de Ricardo? Para finalizar transcrevo afirmações e ações de FHC, que o PT e Lula condenavam e hoje defendem ou silenciam. “A globalização é o novo Renascimento da humanidade”, falou o sociólogo de obra alheia, o citado FHC.. O mesmo que mudou o nome da Petrobrás para Petrobrax, para tentar privatizá-la, vendeu 1/3 de suas ações na bolsa de Nova York e de São Paulo e quebrou o monopólio estatal do petróleo. Tem muito mais, anotado por Emir Sader. Fácil de conferir. Sobre os governantes, o que divulga a imprensa nacional a respeito de Lula (Dilma) e Ricardo Coutinho, leva a entender: "Chegou finalmente o tempo, em que os acertos de Vossa Majestade per-suadem... daqui vem o parecermos, que Vossa Majestade não só nasceu para reinar, mas que já sabia reinar quando nasceu". (filósofo Mathias Pascal) Aí chegamos a Albert Camus com a sua literatura, o seu teatro do absurdo, num estúpido mascaramento da realidade - certamente atento aos expedientes recomendados por Brecht, a que podemos recorrer, para passar verdades em tempos difíceis, ou o seu próprio entendimento sobre os meios e modos próprios da arte: Cena. Uma praça em Cádiz (Espanha de Franco). Personagens: burocrata, cidadão: "Burocrata - Enquanto isso, vós, guardas, vendereis nossas insígnias. Bom dia. Desejais comprar uma insígnia? Cidadão - Que insígnia? Burocrata - A insígnia da Peste (bolsa família, guias de trânsito,etc). Aliás, sois livre para recusar. Não é obrigatório. Cidadão - Então, recuso. Burocrata - Muito bem... Perfeito. Desejo simplesmente, advertir-vos de que todos aqueles que se recusarem a usar esta insígnia serão obrigados a usar a outra insígnia. Cidadão - Qual? Burocrata - Bem... A insígnia daqueles que se recusam a usar a insígnia. Assim podemos reconhecer, à primeira vista, com quem temos problemas"."


  • 01/09/2014

    A pobreza e a riqueza das Nações


     “ As armas e os Barões assinalados / Que da ocidental praia lusitana [...] Entre gente remota edificaram [...] Novo reino que tanto sublimaram. [...] Cantando espalharei por toda parte/ Se a tanto me ajudar o engenho e arte”.

    Estes imortais versos dos Lusíadas, revelam que começa na luta capitalista pelo poder, a nossa história nascida em Portugal. Impossível negar, esconder.
    Afinal o que nos trouxe até aqui, e o que nos conduz em trajetórias realizadas ao longo dos dias? Chegamos? Partimos? Início ou conclusão de um ciclo, de um pro-cesso? Palavras e fatos o comprovam; fatos e palavras o negam. Eis o choque de opiniões − da caverna de Platão ao metrô soviético a verdade nos confunde. Neste passeio no campo da observação e do pensamento, lembro as “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garret, na identificação jornalística, memorialista do Portugal de glórias passadas, fundadas no conhecimento de ciências políticas e econômicas do tempo, ligadas à navegação, elevando na grandeza de sua economia entre as nações, a pátria de Camões, alcançado pela decadência.
    Não pretendo desenvolver teses filosóficas, nem políticas, mas “filosofar” simplesmente. Diria até ingenuamente. Buscar o passado e antever o futuro do Brasil, nos meandros das decisões políticas. E valho-me da palavra, da avaliação lingüística como ensina o socialista libertário Chomsky, no caso a literatura e as ciências humanas, em raciocínios no estilo pessoano com os seus heterônimos. Falo pela boca dos outros. Entender o acerto de decisões governamentais no interesse da população, como no Leilão do Campo de Libra para arrecadar fundos financeiros e cobrir as perdas, o patrimônio e as rendas assaltadas pela banca financeira internacional, esta é a minha questão. O povo usurpado na sua riqueza, pela ação de réprobos governantes. O PT, para mim, mutatis mutandis hoje semelha um falanstério – primitivo e cruel.
    Com certeza a realidade é o tempo. Metáfora geométrica. A finitude e a orga- nização material-biológica dos seres é a expressão filosófica da existência do mundo. Eis o que seria o enigma da vida. Supostamente decifrado à partir de conquistas e decifrações em termos abstratos, que valem para uns, para outros não.
    Viver não é simplesmente existir, mas participar ativamente no sentido objetivo da racionalidade, buscando o desenvolvimento e aprimoramento das relações essenciais na sociedade razoável.
    Não falo de ideias e de ações, somente, mas de causalidade, improvável porém comprovada, de fatos conhecidos através de leis ditadas na convivência de degredados, aventureiros e selvagens, em qualquer estágio organizacional. Como nós, eles se reúnem em tribos, em famílias, definidas como as nossas, com as suas características e peculiaridades biológicas, mas sempre ajuntamento, sempre contemporaneidade. E somos levados a escolher entre o Estado e o indivíduo. Onde está a razão? Com Rousseux, com Marx?
    Dor de cabeça. Prolegómenos nascem da dificuldade de conceituar, como expressões objetivas a palavra e o fato. “Começamos todos com o realismo ingênuo, quer dizer, com a doutrina de que os objetos são assim como parecem ser. Admitimos que a erva é verde, a neve é fria e as pedras são duras. Mas a física nos assegura que o verde... o frio... a dureza que conhecemos por experiência... (é) algo totalmente diferente... A ciência parece estar em contradição consigo mesma; quando se considera extremamente objetiva, mergulha contra a vontade na subjetividade... o realismo ingênuo na medida em que é conseqüente é falso, logicamente falso. Portanto falso. Esta perplexidade que atormenta pensadores como Einstein, as considerações de Russell sobre o conhecimento motivam o desencontro de opiniões na vida dos indivíduos e das nações.
    Kant, um filósofo notável, afirmou que mais temia ser mal interpretado do que refutado. É o que acontece com a presidente Dilma e com o PT. Defesa do país, ou crime lesa-pátria? “O conhecimento perfeitamente definido pertence a uma ciência que confina com uma área circundante do desconhecido. Quando se chega a regiões limítrofes e se vai além, essa atividade consiste na filosofia. Direi na política. Restam entretanto, problemas dos limites e formulação do método. A dupla prova, esta é a grande questão, a questão final.” A parolice metafísica e o predomínio da razão. 
    Trocando em miúdos, Lula e FHC representam o prestígio da política em referência, e, como se diz popularmente, tudo farinha do mesmo saco. Vêm da ilusão bastante aristocrática, do poder da percepção ilimitada do pensamento e do realismo ingênuo, segundo o qual os objetos são a pura verdade dos nossos sentidos.
    Pound narrou, vaticinou:
    “E pois, com a nau no mar. / Assestamos a quilha contra as vagas.../ “Por artifício de Circe / A deusa benecomata... / Até que ouvisse Tirésias.” 
    Concluo: que a oposição política e partidária na democracia brasileira é uma ação meramente encabulada, mascarada como nos bailes monumentais de Veneza: esconde os traços fisionômicos do palhaço, mas deixa vivos os seus sentimentos submissos à mais vergonhosa prática social: a dissimulaçao, a felonia.. Em suma, uma democracia falaraz. Marina Silva o fato político do momento. O resto é o resto. ---------------
     — com Bruno Steinbach Silva eoutras 17 pessoas. (6 fotos)


  • 28/08/2014

    Marina Silva - vida e liberdade


     Na ocupação diária de releitura (vista d´olhos) dos mestres, de quem herdamos dúvidas e certezas, eu, um ocidental, visito textos que trazem as perspectivas de pensadores eruditos sobre o tema que atrai a minha atenção: vida e liberdade, deixando de lado o mundo oriental, tendo em vista que “os dois mundos se desenvolveram isolados um do outro, de modo que é admissível fazer um estudo independente...” (BERTRAND RUSSEL, “História do Pensamento Ocidental, Ed. Nova Fronteira, 2013). 

    Reconheço tal distinção, como simples fonte geral, resultado de apanhados que consignei no campo da epistemologia. Chego, por fim, ao conceito político-literário “in media res” de Horácio e Bobbio. Sempre o meu caminho. Nada freudiano. Nestas condições, dispenso o radicalismo cientista de Karl Marx e seus seguidores, e o dogmatismo metafísico e cristão de verdades “reveladas” por Deus aos escolhidos, contidas na Bíblia (que tenho como repositório de sabedoria) além de outros livros religiosos, conhecidos somente pelos seus títulos. 
    Buscando no mundo que nos rodeia a explicação de acontecimentos assaz compreensíveis, é na ciência, como sustentáculo de alguns conceitos filosóficos, que a encontro. Chego, então, ao notável entre os mais notá-veis, nos dias atuais Albert Einstein, pela sua denominada “teoria da relatividade”, pouco lida e entendida, reconhecida, entretanto, como ápice do conhecimento alcançado para explicação do Cosmo, e das definições sobre leis que o identificam, conforme a sua existência. E aí se encaixa, inapelavelmente, a nossa expressão material e humana − honra paraibana −, definidas nos versos do Poeta do Eu, como “filho (s) do carbono e do amoníaco.”
    Assim, finaliza e externa o eminente cientista nuclear, detentor de Prêmio Nóbel de Física, a sua análise do mundo e da vida:
    “Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro porque estou na terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo, para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas. [...] E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida – integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos... [...] Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. [...] Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo é absurdo.” (EINSTEIN, Albert – Como Vejo o Mundo – Ed. Especial, Nova Fronteira, 2011).
    Entretanto, sinto-me livre para seguir em frente. O que me pro-porciona a aceitação de tais conclusões estranhamente confusas para uns e esclarecedora para outros? O desejo de mudanças, a intuição da ética como padrão irrenunciável de conduta na sociedade dos homens. Como consegui-los? As regras coercitivas que determinam o comportamento social mostram-se a cada momento. Agora temos as eleições, que nos poderão mostrar o caminho certo para conseguirmos mudar e incluir o que é preciso mudar e incluir. Candidaturas estão colocadas pretendendo a direção como gestores da vida social. 
    Candidaturas? Entre as anunciadas somente uma, pelo seu padrão de conduta se mostra a melhor: A de Marina Silva, pela sua origem na divisão da sociedade em classes, pelo seu passado, pelo seu presente como militante das causas pela eliminação de diferenças, de integração do indivíduo na sua vida coletiva. 

     
     
     
     


  • 16/08/2014

    Eduardo Campos


     Na minha passagem em Pernambuco (que durou 12 anos) acompanhei alguns passos dessa família nascida em Sanharó, com barão, capitão de indústria, governador e tudo mais nos ramos de sua crônica genealógica. Foi no tempo dos coronéis famosos pelo seu prestigio e reverência que desfrutavam na sua cidade natal, estendendo-se pela vizinhança. Assim foi em Limoeiro, Bom Conselho, Exu e outras, cujas chefias levavam a discordância firme e altiva com os governadores a que estavam ligados politicamente. Célebre tornou-se o telegrama do coronel José Abílio dirigido ao governador Agamenon Magalhães, que pedia e recomendava a sua compreensão evitando possíveis ofensas à opinião pública em assuntos da política e da administração estadual. Esta foi a resposta: “Recebi vosso telegrama. Ciente vossa recomendação, lembro que o governo precisa do apoio dos coronéis que é forte e tem sustança.” 

    Na Paraíba vultos veneráveis adotavam postura igual à dos pernambucanos. Era coisa do tempo. Para não ir longe lembro os Gonçalves no Lastro, os Pereira em Princesa, os Maia em Catolé do Rocha. À parte vocação pessoal, assim chegaram à política pernambucana Cid Sampaio e Miguel Arrais. Um sustentado na tradição local narrada nos livros de Machado de Assis, o outro, um Fabiano, do livro de Graciliano Ramos, retirante do Ceará. Nada teriam subido no cenário político, e pouco teriam alcançado sem a tradição “Jenipapo” da família Sousa Leão, de Sanharó, com o título de nobreza do Barão de Vila Bela, com suas fazendas de gado leiteiro e engenho de rapadura.
    Pois vejam só, Cid e Arrais eram concunhados, casados com as irmãs Dulce e Célia, Jenipapo, foram deputados, governadores, um passou o governo do Estado para o outro. Tudo isso li na imprensa da época, escutei em discussões e comentários nos bares, nas bibliotecas, nos corredores da faculdade de direito, falando em politica e namoro. Ainda hoje “rola esse papo” lá e cá. O que dizer dos Maranhão, dos Cunha Lima, dos Veneziano, dos Gadelha, dos Maia. e dos novatos Morais e Santiago. Identifico: de Santa Luzia e de Uirauna. E para ir mais longe dos Bush no EUA!
    Essa mania de “passar de pai para filho” invade o campo do direito, encarnada em princípios legais no campo da doutrina civil. E a história o registra. Regredimos, e pouco alcançamos nas pretensões republicanas anunciadas, reconhecendo embora, o humanismo e heroísmo da esquerda que caracterizou a postura de Cid e Arrais: o primeiro opôs-se ao regime militar de 64, o segundo foi deposto do governo e condenado ao exílio pelo mesmo movimento reacionário dominado por interesses contrário aos do país.
    Caindo na realidade atento para a tragédia que enfrentamos com a morte inesperada do jovem Jenipapo Eduardo Campos candidato a presidência da república.
    Ontem, contrafeito, sobre o assunto citei o governador. Falou corretamente. Hoje, transformado em copidesque da mídia social, leio e repito pelo valor literário, jornalístico do texto o que escreve Martinho Moreira Franco, que além de saudosista, tem a profundidade de observação dos fatos e a coragem de anunciá-los próprios dos jornalistas e o faz. Ele escreveu. Leiam a transcrição abaixo:
    “Por fim, não conseguia assimilar o jeito Aécio Neves de ser – a voz algo hesitante, o sorriso maroto, uma certa falta de segurança, sei lá! Contribuíra para isso uma apreciação feita por Sebastião Nery, sobre Eduardo e Aécio, em entrevista ao jornal “Estado de S. Paulo”, que guardei em minhas anotações eletrônicas. 
    ... O Aécio fez um brilhante governo em Minas, mas ele não tem a característica do sujeito que brilha para conquistar as coisas. O povo quer um político que tenha posições claras. O Aécio gastou um ano no Senado e ninguém sabe o que ele pensa. A gente pensa que ele é uma liderança, mas não é. ... O projeto do Eduardo é de candidatura contra o PT, porque o PT evidentemente terá candidato depois de oito anos de Dilma. O governador de Pernambuco Eduardo Campos, presidente do PSB (Partido Socialista Brasileiro), e a ex-senadora ex-ministra Marina Silva, fundadora da REDE-Sustentabilidade, deram ao pais uma lição magistral da verdadeira política. Jogaram na campanha de 2014 não “uma pitada”, mas “uma bacia” de social, de democracia, seriedade, honestidade, não-corrupção, não-Mensalão, não-Chaves, não-Lula, não-PT. A juventude que foi às ruas cantando esperanças, a Nação que foi às praças sangrando desesperanças, têm em quem votar. Tenho em quem votar.”
    MARINA REPRESENTA A VONTADE NACIONAL DE MUDAR, A CORAGEM, A FORÇA DA MULHER, A NOVA GERAÇÃO DE POLÍTICOS TRANSFORMADORES. CONTRIBUÍU E DEU FORÇA AO IDEÁRIO DE EDUARDO CAMPOS

     
     
     

     


  • 02/08/2014

    Um dia triste


     Faleceu, inesperadamente para mim, o advogado sousense Assis Tomé que morava na capital.Um dia triste. Velho e bom amigo que frequentava a alta roda em que qualquer sociedade. Usava roupas de grife. Tenho sempre à mão para caminhadas e entreveros possíveis, um facão que ele me presenteou quando passei a morar na fazenda. Utilíssimo para entrada nas capoeiras da catinga sertaneja. Bebericador,namorador, sempre se destacava. Não frequentava as camadas desassistidas. Jamais votaria no PT ou partidos assemelhados. Era um homem da elite dominante, pensante. Assim se apresentava. Morreu alegre e feliz sem pesar a ninguém. Não se destacou como políticio nem milionário, porém, o que é essencial, como pessoa. Deus lhe reservou um bom lugar, tenho certeza.

     


  • 27/07/2014

    Ariano Suassuna


     

    Sou como Ariano Suassuna paraibano de nascimento, com as almas presas,
    entretanto, ao nativismo e patriotismo pernambucano, que vem desde a expulsão de colonizadores batavos, do fuzilamento de Frei Caneca (que dormiu aqui nesta fazenda), da eleição de Pelópidas Silveira e Miguel Arraes. Bebemos o mesmo elixir, do orgulho e do conhecimento, ministrado na famosa Faculdade de Direito do Recife. O Iluminismo, chegando ao marxismo ditava o nosso comportamento político. Ah! Tempo da juventude, tempo de amor e de guerra. Na festiva vida universitária namorei, meio assustado, confesso, uma colega de faculdade, da família Ferraz que sustentava uma guerra familiar secular com os Novaes, de Floresta do Navio. Morreu muita gente. Ela morava nas imediações do Rosarinho onde passei meses no meu tempo de estudante. Era a circumvizinhança dos Aflitos, Tamarineira, Encruzilhada, Casa Amarela. Ariano sabe desta história. Da guerra, esclareço.
    Ouvi falar, por sinal, que o imortal aqui presente, defendeu ou defende um novo hino para Pernambuco, seria o “Madeira de Lei que cupim não roi”, hino do bloco carnavalesco Madeira do Rosarinho, de autoria do célebre Capiba. Verdade ou não, assino embaixo. Vejam apenas estes versos.
    “Queiram ou não queiram os juízes/ O nosso bloco é de fato campeão/ E se aqui estamos cantando essa canção/ Viemos defender a nossa tradição/ E dizer bem alto que a injustiça dói/ Nós somos madeira de lei que cupim não rói.”
    Uma luta em favor da Justiça, no estilo de Ariano.
    Esta fazenda Acauã, foi adquirida pelo seu pai, então governador do Estado, para aqui viver. Infelizmente uma bala traiçoeira e assassina tirou-lhe a vida. Sei deste acontecimento que ultrapassou o envolvimento familiar, tornou-se fato poli-tico estadual, migrou para a literatura, o que ele explicou à sua maneira, no “O Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do vai-e-volta.” Uma tradição lusitana-sertaneja-nordestina, que torna este pedaço de chão o “cerne da nacionalidade”. Em 1970 comprei o livro que me agradou logo à primeira vista: o volume era grosso, ficava em pé sem encosto, atendia a recomendação do poeta campinense Adabel Rocha, major da nossa Polícia Militar. Narrativa cíclica, como o “Cem Anos de Solidão” de Garcia Marquez. Lá a Macondo e os Buendia; aqui a Paraíba e os Suassuna.
    Prezado Ariano, o meu propósito, além da participar desta colenda reunião, de comentar este evento glorioso para as cidades de Sousa e Aparecida, é solicitar do Acadêmico Ariano Suassuna, a sua palavra em favor do funcionamento do Centro Cultural do Banco do Nordeste, instalado em Sousa, ameaçado do encerramento de suas atividades, fun-damentais para o desenvolvimento e favorecimento da indústria cultural, do amor à arte na nossa região. Adianto-lhe Ariano, que, esta é com certeza a opinião do seu primo e sócio no criatório de cabras, Manelito Villar, com a qual concordo: o retorno dos lucros do BNB na manutenção desta agência de cultura, é a forma mais compensadora no balanço de suas atividades na região. Promoveu inicialmente com estudos e aporte de recursos financeiros o crescimento da vida comercial e da agropecuária do nosso sertão, e o retorno dos seus lucros aplicados no do Centro Cultural de Sousa, é uma ação meritória em todos os sentidos, permitindo a defesa da nossa tradição e a visão do seu futuro no desenvolvimento eco-nômico e cultural. Uma palavra sua basta, na condição de paraibano, de brasileiro, de integrante da Academia Brasileira de Letras e da congênere paraibana, que eu represento nesta ocasião. Com a sua autorização a levaremos ao conhecimento da presidência do Banco do Nordeste.
    Finalizando este pronunciamento, registro e me associo à oportuna sugestão do senador Cássio Cunha Lima, propondo na tribuna do senado a indicação do nome do paraibano Ariano Suassuna para disputar o prêmio nobel de literatura. Com efeito, o mérito intelectual e criativo de Ariano no campo da literatura, transpõe para o romance e para o teatro a memória efetiva nacional, a partir do Descobrimento, fincada no Nordeste onde aportaram as caravelas de Cabral. Outros momentos representativos do processo civilizatório nacional existiram, como ressalta Darcy Ribeiro, porém a babel sulina confunde, fala de outro mundo, igualmente nacional, reco-nheço, mas sem raízes na tradição ibérica, africana, tupi, tapuia que deu origem ao tipo nacional mesmo.
    No seu ROMANCE DA PEDRA DO REINO E O PRÍNCIPE DO SANGUE DO VAI E VOLTA, Ariano Suassuna revela-se no vivido, defrontando-o à realidade decadente da vida sertaneja, deformada pelo colonialismo cultural e econômico, destruidor e indesejável. E o perpassar dos fatos da política. A sua concepção da vida e da arte é a de que tudo se realiza num mundo miserável, da vida, em face do mundo que é representado na figura de uma onça que via se desfazer “em pó, em cinza, em sarna, o que ainda lhe restava de sua vida demente e sem grandeza”, é revelada por Quaderna que vê os homens como uma raça piolhosa, “raça também sarnenta e sem grandeza, coçando-se idiotamente como um bando de macacos diante da 
    ventania crestadora, enquanto espera a morte, à qual está, de véspera condenada.”

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  • 20/07/2014

    Sousa, o CCBN, Collor, Ariano...


     Afora aulas do ensino de primeiro e segundo graus, os frequentadores do Centro Cultural do Banco do Nordeste, em Sousa, tem recebido, em boa hora, a oportuna contribuição oferecida em valioso e específico acervo bibliográfico, principalmente no ramo das leituras sobre folclore e cultura nordestina, de inegável valor histórico e etnográfico, social, enfim. Jovens em grupos ou pessoalmente, se fazem presentes utilizando a biblioteca e demais serviços na busca de informações, manuseio e leitura das obras que formam as variadas coleções especializadas em cultura regional, volumes de atualização literária lançados no circuito nacional. Uma riqueza de oportunidades na biblioteca. Algo estranho, contudo, acontece no país e nos atinge. Mostras e exposições temáticas em telas, fotografias, documentários em vídeo, representação teatral, dança, palestrantes e textos de artistas e pesquisadores fazem a pauta rigorosa da programação do CCBN. A região desfruta um panorama de expressiva animação cultural. Sousa é uma cidade, cuja vocação tem oferecido ao nosso Estado, e se desenvolvido satisfatoriamente, mercê do apoio recebido desta instituição cultural, braço estendido do Banco do Nordeste. Ampliando o BNB a sua ação, além da presença área da economia e do crédito voltado para o desenvolvimento da agropecuária, do comercio, da indústria local, alcança a saga literária de seus filhos como ensaístas, romancistas poetas, pesquisadores e produtores culturais como seria melhor qualificá-los. Mas existe um problema, repito, para levantar e para lamentar. Vejamos: “A situação educacional no Brasil, em números, revela uma posição de vergonhoso atraso perante outros países. Deprimente, em razão de frequentarmos o cenário internacional alinhados a outras nações, que conhecem este e outros números relativos à educação e mais aspectos da administração pública no Brasil. - 70% dos que freqüentaram escola de qualquer nível, concluído ou não o curso, são considerados ´analfabeto funcional´, aquele que sabe ler e pouco ou nada entende do que lê. O hábito da leitura lhe é estranho, ele não se interessa por livros, jornais, revistas, qualquer material impresso.” (Fonte reunião da Comissão de Infraestrutura, presidida pela Senador Fernando Collor – TV Senado 05 de outubro de 2013). Por sua vez, Ariano Suassuna, cortejado e admirado artista e escritor nordestino, no campo do regionalismo sertanejo do semiárido, escusou-se de responder indagação que lhe fiz em reunião com a imprensa no CCBN de Sousa, sobre o boato de encerramento das atividades desta instituição cultural, ao mesmo tempo que pedia a sua solidariedade, solicitava a sua posição contrária a tão inominável procedimento. Simplesmente Ariano respondeu que nada tinha a responder nem comentar porque não conhecia o assunto. Para usar o nosso jargão fiquei chateado. Ele ficou “em cima do muro”. Tanto que, ofendido nos brios locais, não li a saudação escrita, laudatória que lhe faria à noite em Acauã. Mas a verdade sempre aparece. Dias depois, deparei na internet com a matéria da imprensa do Ceará, a seguir transcrita: “Arte como Missão: novo projeto de Ariano Suassuna desembarca em Fortaleza. O projeto vai além da aula-espetáculo. [...] “Eu acho que tenho a obrigação de mostrar ao povo uma alternativa para essa arte de quarta categoria que anda se espalhando por aí, corrompendo o gosto do nosso povo, procurando nivelar tudo pelo gosto médio". Palavras dele. Preocupado estou. Indago-me. Algo acontece, porventura, no CCBN, no nível da constatação do senador Collor de Melo acima transcrita? Pouco importa. “Acauã Produções Culturais” dos filhos de Aparecida, nos abrigará, apoiará a nossa causa. A fazenda colonial dos padres Correia de Sá, abrigou o Frei Caneca com outros sousenses e sertanejos do Rio do Peixe, na luta pela criação da república brasileira, quase um século antes da Proclamação. Lá em Acauã faremos nossa sede de arregimentação, de luta, comemoraremos a vitória da nossa causa."


  • 15/07/2014

    Ressaca da Copa


      "PÁTRIA E NEGÓCIO. A RESSACA DA COPA Jovens, tesudos, dinheiro caindo na sua conta ultrapassando milhões, qual o papo dessa galera protegida por seguranças particulares, forças policiais, militares de terra mar e ar, municipais, estaduais, federais? Naturalmente esbórnias casanovescas , aventuras perigosas à Capone, grandes negócios: afamadas agências operadoras financeiras, criação de marcas comerciais, casamento à Ronaldo Fenômeno em castelo francês, ilhas gregas, fazendas no Pantanal, na África do Sul, iates, jatinhos executivos último modelo, etc. Estes premiados do destino, trazem no corpo a resistência forjada nos primeiros anos da vida, catando restos. E se regozijam. Nada de disputa esportiva.

    CHEGAMOS NÓS, anuncia a legenda heráldica no busão pagodeiro. O IDH anunciado pelos governos permite estas mudanças. Com efeito, depois de mais de cinco séculos é permitido o acesso da população à rede educacional de ensino primário, de péssima qualidade, é preciso salientar. Todos os dias meninos e meninas são mandados para comer merenda na escola, de boa qualidade nutritiva, para economizar a cesta básica de casa, recebida do governo. Daí a clamorosa injustiça das vaias dadas na presidenta do país. O caso é que a classe média que frequenta as “arenas” entrou na cota do sacrifício para comparecer ao conclave. Tocantins, Eslovênia? De que se trata? Ignoram a geografia do planeta e do seu lugar. Comida, bebida, modalidade esportiva? Deixa pra lá. Tudo passa a rolar por conta de cartolas tecnocratas organizados em bandos, como gangues no meio artístico e esportivo, de bombas de efeito moral. Um paraíso. Duvido que milionário brasileiro ou armador grego (ainda existe?) sejam melhor cuidados, no dia a dia de sua vida quanto à segurança, saúde, aos seus negócios do que esses mágicos astros da felicidade acontecida, divulgada no nível mais alto da notoriedade! Falta tempo para compromissos éticos. Mas o inevitável acontece quando é deixado de lado o sucesso financeiro e colocado em pauta o patriotismo, os compromissos da honra, da lealdade. O catatau acima trata da Copa 2014. ATENÇÃO NÓS CHEGAMOS.

    A COPA É NOSSA. Este o sentido arrogante da legenda inscrita no “busão” luxuoso que transporta a matraca gloriosa, pagodeira, no cenário do HEXA. Deu no que deu. Craques invisíveis, derrotas humilhantes. Não podia ser diferente. Mas é preciso reconhecer a Inclusão geral. Como negar?"


  • 12/07/2014

    Leitura selecionadas


     

    Pudera! Ainda um projeto. Completei oitenta há uma semana. Milhares de páginas para ler e ainda a inevitável reflexão sobre a vida e o destino do universo.
    Separados, colocados na mesa na minha frente vejo os volumes escolhidos, os títulos no dorso, suspiro ante o peso do compromisso comigo assumido. Reler e anotar cada título. Acho que é bom saber do que pensam e falam os nossos maiores nos escritos que nos deixaram.
    Por enquanto, 
    NOSSA ORIGEM PORTUGUESA. 
    1 Camões, Lusíadas. 2 Gil Vicente, Teatro. 3 Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero. 4 Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras.5 Garret, Viagens Na minha Terra. 6 Fernando Pessoa, Livro do Desassossego. 7 Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Estes, entre outros resumem o sentido humano da alma e da língua portuguesas, no contexto universal de pátria e de pessoas.
    NOSSA LITERATURA BRASILEIRA
    1Ambrósio Fernandes Brandão, Diálogos das Grandezas do Brasil. 2 Bento Teixeira, Prosopopéia. 3 Gonçalves Dias, I-Juca-Pirtama.4 José de Alencar, As Minas de Prata. 5 Castro Alves , Espumas Flutuantes. 6 Euclides da Cunha, Os Sertões. 7 Oswald de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar. 8 José Lins do Rego, Banguê. 9 Graciliano Ramos, Vidas Secas.10 Dionélio Machado, Os Ratos. 11 Mario de Andrade, Macunaíma. 12 Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala. 13 Carlos Drummond de Andrade, Poesia. 14 João Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas. 15 Ariano Suassuna, A Pedra do Reino. 16 André Figueiredo, Labirinto. Aí estão o Brasil e os brasileiros.
    Resta a literatura estrangeira.
    É melhor parar. Antes, uma reflexão de Mário de Andrade sobre a vida que lhe restava, que não corresponderia talvez a dez por cento da que já tinha vivido. Esta minha situação. O que fazer? Seguir o conselho do sambista: levantar sacudir e a poeira e dar a volta por cima. 
    O povão sabe das coisas.


  • 21/06/2014

    Tempo de estudante


      "Sou como Ariano Suassuna paraibano de nascimento, com as almas presas, entretanto, ao nativismo e patriotismo pernambucano, que vem desde a expulsão de colonizadores batavos, do fuzilamento de Frei Caneca (que dormiu aqui nesta fazenda), da eleição de Pelópidas Silveira e Miguel Arraes. Bebemos o mesmo elixir, do orgulho e do conheci-mento, ministrado na famosa Faculdade de Direito do Recife. O Iluminismo, chegando ao marxismo ditava o nosso com-portamento político. Ah! Tempo da juventude, tempo de amor e de guerra. Na festiva vida universitária namorei, meio assustado, confesso, uma colega de faculdade, da família Ferraz que sustentava uma guerra familiar secular com os Novaes, de Floresta do Navio. Morreu muita gente. Ela morava nas imediações do Rosarinho onde passei meses no meu tempo de estudante. Era a circumvizinhança dos Aflitos, Tamarineira, Encruzilhada, Casa Amarela. Ariano sabe desta história. Da guerra, esclareço. Ouvi falar, por sinal, que o imortal aqui presente, de-fendeu ou defende um novo hino para Pernambuco, seria o “Madeira de Lei que cupim não roi”, hino do bloco car-navalesco Madeira do Rosarinho, de autoria do célebre Capiba. Verdade ou não, assino embaixo. Vejam apenas estes versos. “Queiram ou não queiram os juízes/ O nosso bloco é de fato campeão/ E se aqui estamos cantando essa canção/ Viemos defender a nossa tradição/ E dizer bem alto que a injustiça dói/ Nós somos madeira de lei que cupim não rói.” Uma luta em favor da Justiça, no estilo de Ariano. Esta fazenda Acauã, foi adquirida pelo seu pai, então governador do Estado, para aqui viver. Infelizmente uma bala traiçoeira e assassina tirou-lhe a vida. Sei deste acontecimento que ultrapassou o envolvimento familiar, tornou-se fato poli-tico estadual, migrou para a literatura, o que ele explicou à sua maneira, no “O Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do vai-e-volta.” Uma tradição lusitana-sertaneja-nordestina, que torna este pedaço de chão o “cerne da na-cionalidade”. Em 1970 comprei o livro que me agradou logo à primeira vista: o volume era grosso, ficava em pé sem encosto, atendia a recomendação do poeta campinense Adabel Rocha, major da nossa Polícia Militar. Narrativa cíclica, como o “Cem Anos de Solidão” de Garcia Marquez. Lá a Macondo e os Buendia; aqui a Paraíba e os Suassuna."


  • 09/06/2014

    O padre Aristides e a Coluna Prestes


     Ainda há tempo para reabilitar a honra e bravura dos filhos de Piancó, manchadas por indivíduos, que falseiam a verdade dos fatos ocorridos na passagem da Coluna dos generais Miguel Costa/Siqueira Campos em Piancó, Naquele tempo Prestes era um simples capitão, não comandava, e não se falava ainda politicamente em comunismo. Só muito tempo depois de dissolvida a Marcha, ele viajou para o estrangeiro e fez leituras de caráter político-marxista. O governo brasileiro e a igreja católica decidiram na luta política internacional: capitalismo/socialismo combater Luiz Carlos Prestes que se tornara o líder nacional da linha socialista. Então, a mídia programou tudo em defesa do sistema. O “comunismo” era referido na mídia e acusado do assassinato de padres e de destruir a religião e a família, numa exploração subliminar. A marcha passou a ser chamada Coluna Prestes. Todos estão lembrados.

    Aproveito a oportunidade, para tornar a dizer que a coluna e o governo estavam em confronto. A família Leite Ferreira estava na oposição, não era governo, cabia, portanto, ao padre Aristides que era governo seguir a sua orientação. A família Leite Ferreira, ao tomar conhecimento da passagem da Coluna na região, procurou recolher-se às suas propriedades rurais como o fez porque Piancó não estava em questão. Se estivesse os Leite Ferreira se fariam presentes, como sempre o fizeram. Homenagem, devemos e eu presto aos heróis daquela data, alguns anônimos, sacrificados pela leviandade traiçoeira do Padre Aristides
    Desejo adiantar e ressaltar que os Leite Ferreira não pedem licença a ninguém para estarem presentes na história verdadeira e oficial de Piancó, porque são a expressão dessa história. Clodoaldo Brasilino, Chico Job, Celso Mariz, Cônego Florentino Barbosa, Cônego Manoel Otaviano, José Octávio de Arruda Melo, Humberto Cavalcanti, todos da APL e do IHGP, e outros intelectuais, já os citaram como personagens principais da vida local, com expressão estadual e federal; desde a sua chegada à região no tempo do Brasil colônia, mandados pela Casa da Torre, o que foi patenteado em conferências, livros, jornais e revistas.
    Em tão dilatado espaço de tempo, para enfrentar os Leite Ferreira, os adversários muitas vezes derrotados politicamente, tiveram de criar um mártir na controvertida figura do Padre Aristides Ferreira da Cruz. Queriam fazer o padre herói, mesmo na base da mentira; usá-lo como instrumento de uma luta inglória. A popularidade do padre Aristides, que marcava a sua vida, sustentava-se em negócios escusos, chegando ao roubo de gado, de animais, crimes infamantes naquele tempo.

    O que resta comprovado extreme de dúvidas, é que o padre Aristides provocou levianamente o confronto com a marcha militar. Quanto ao seu heroísmo, tal não impressiona, porque não existiu. Ele era um pedófilo, um desajustado, em conflito com Igreja Católica, réu condenado pela legislação canônica, proibido de ministrar os sacramentos, feroz defensor de privilégios. É verdadeiramente uma figura de nenhuma importância do ponto de vista da ética social, política e religiosa. Pelo contrário. Era somente um pretenso coronel protetor de cangaceiros no estilo da época. Não passava disto. 
    Encerrando querelas de uma vez por todas, deixo claro firmado em depoimentos e documentos, que Piancó paga muito caro, o imenso prejuízo moral e cívico de sustentar a estupidez, a burrice, a fraqueza moral de fazer do Padre Aristides o seu herói. Não culpo somente o empresário Teotonio Neto, porque todos sabem que ele pagava casa, comida, hotel na capital, alfaiate, roupa lavada, recrutando com objetivo político eleitoral, guarda avançada para o seu batalhão de falsários da história, para derrotar os Leite Ferreira. Os vaidosos que usavam ternos de tropical inglês, linho diagonal, sapato Fox, nas mesas de bar e de pife pafe, conhecidos, todos diziam: “Este é eleitor de Teotonio.” O suborno dominava avassalador a cena política local, dava curso à falsa criação de um mártir.
    Mas deixa pra lá. O Senado anulou a ata da sessão que declarou vaga a presidência da república e cassou o mandato do presidente João Goulart empossando um substituto fabricado. Foi ressalvada a verdade histórica, a moral da pátria pelo Congresso Nacional. Agora, repito, já que as chuvas voltaram, os tempos são outros, cabe à Câmara Municipal de Piancó e aos cidadãos, apagar da sua história o lábaro de feroz inimigo das liberdades democráticas, da modernização dos costumes políticos, que norteavam o ideário de coluna patriótica dos Tenentes. Foi a mancha vergonhosa fruto da sangrenta emboscada que o padre Aristides comandou contra as forças militares em marcha através do país, que defendiam o voto secreto, o ensino primário obrigatório, direitos sociais, trabalhistas. 
    Não acredito que os piancoenses contestem estes princípios republicanos, formadores da cidadania.


  • 01/06/2014

    Súmula brasileira I


      Em sotavento as proas Rumam a Calecute. Missão d ´El Rei anima O sangue de Amadis. Ânsia na calmaria. Resiste a lusa gente - A frota assaz pequena - No tropical tormento. Deitada em berço de ouro, Da capitânea nau à vista, A Terra de Santa Cruz Sonha com a aurora pascal. II Caem as âncoras, o porto é seguro. Em terra, arredios, os autóctones Excitam a cupidez dos viajantes E de Roma o apostólico ofício. Ergue-se a cruz, o cenário é perfeito. O rosário, o sabre, o arcabuz Disputam para as cortes de Europa Do gentio as almnas e o braço forte. III Indulgente, Portugal entrega ao filho Os negócios do povo aqui nascido, Da riqueza quase despojado Mas em bravura sempre respeitado. Consttrída, a pátria brasileira Levou muito alem de Tordesilhas, Em vôos condoreiros a Liberdade, A Igualdade e a Fraternidade. IV De África os filhos já libertos, Os ideais da nacionalidade Consolidam, e aguerridos defendem Postulados de ordem e progresso. Em recuos e avanços - presa fácil - O Estado enfraquece, o povo exânime, Odor de ruínas e de morte respirando Canta o verde das matas e céu azul."


  • 12/05/2014

    O ex-futuro de Princesa


     O que foi, foi. O que passou já era.” Uma explicação sobre a indiferença em relação ao passado. O presente está na inauguração de novos pontos de bebedeiras ditas “conveniência”, de novos modelos de objetos: roupas, equipamentos eletrônicos, de gatas incrementadas, que bar, cabaré “já era.” Coisa do tempo e do homem. Negar, contestar, quem ousará? Escutei a frase de um boy-vaqueiro, sem gibão, nu da cintura para cima, com a camisa no ombro, numa conversa no balcão da bodega de Severino Loiceiro, no aceiro de uma manga de gado, no corredor da estrada que leva do Riacho do Cabresto para a minha propriedade. Ali estava a verdade nua e crua. O negro velho que também vendia fumo de rolo, café em caroço cru para torrar e pilar, remexia no terreiro de trás as panelas, potes, tigelas, quartinhas de barro, como o café, para queimar no forno afunilado. A freguesia desfrutava a bodegueira. Um ambiente mais do que ótimo, como diz Tião Lucena. Animado pelo atendimento da cobiçada Maria de cabelo comprido descendo nas costas, o rosto lindo na sua juventude requestada, a saia curta, deixando de fora as coxas e a bunda salientes, os peitinhos em pé furando a blusa fina. Uma pequena roda se formara, e comentavam sobre o “bolão” que aconteceria à noite na pista do Catolé, correndo o gado de Chico da Pedra Rachada, o olho na menina. Coisa extra-especial, diziam. Matutei que não compareceria, porque (imaginem!) desde o século retrasado e o passado frequentávamos vaquejada de dia. Agora no claro da noite alumiada pela energia elétrica. Um avanço que o cansaço da minha idade não valorizava, sabem como é. Pois bem até o nome e o sentido social do festejo mudaram. Vaquejada, Bolão. Novos tempos. A vaquejada induz noções de cavalo e gado, coragem e destreza. Quanto ao bolão fala mais de dinheiro, da quadra de dança, de mulheres assanhadas do que no sucesso da pareia vaqueiro-cavalo. Razões tais, porque, falando a linguagem daqui da estrada, constato que a perda de Sousa e Princesa dos seus museus, ambientes de requintada cultura não dá pra perturbar a galera do “levanta o pé do chão”, do “chupa que é de uva”, do “lepo lepo”. O que vale e resta de verdade é o instinto. Recolhi-me em casa, e conversando com o vaqueiro apressado para o “Bolão do Catolé” eu pensava na menina Maria de Severino Loiceiro. Inútil reflexão que daria em nada, como ensina a sentença universal no in pulvis reverterum”. Desculpem o latim. Feliz Dia das Mães para os que ainda as têm, e saudade imorredoura para os que, como eu, as perderam para o Céu que é o lugar delas."


  • 16/04/2014

    Semana Santa,nenhuma tese


     Quem toca sino não acompanha procissão (Diário da Fazenda) Desde a mais tenra idade – ainda criança de colo, escutava o cochichar e o ecoar de orações e de cânticos, o desenho e o traçado de linhas ordenadas roçando na pele, que representavam sinais voltados para outro mundo. Era o comportamento religioso próprio das pessoas naquele tempo, que foi, de certo modo, o princípio do tempo de cada um. E muito antes, ainda na vida intrauterina – acreditando no que afirma a medicina de hoje, numa anamnese que reflui dos computadores – escutávamos tilintar de campainhas, distinguíamos cheiro de incenso, a cada momento, em cada ambiente. Por que não? Estes e demais expressões do relacionamento materno/filial, constituíam por si sós, atos e eventos de cunho religioso dentro dos lares, calcados precisamente nos ensinamentos bíblicos, na palavra de Deus revelada aos seus Profetas e Apóstolos. Comecei, a freqüentar a Igreja Matriz dos Remédios, de Sousa, minha cidade de nascimento, levado pela ama da casa dada a espairecer em qualquer ambiente. Perfumado e penteado, vestido com ostentação pela minha mãe, vaidosa, para o cerimonial que admitia tal exibicionismo, na imponente e gigantesca edificação, cheia de gente, que dominava a praça que deu origem à povoação. Chegou depois a hora de receber aulas de catecismo ministradas na nave central do templo, pelas idosas senhorinhas Jerônima Ribeiro e Milu Fontes, das mais importantes famílias da terra, que pertenciam à Irmandade das Filhas de Maria, com os seus laços de fita azul-claro. Esporadicamente o vigário aparecia para rápida argüição sobre o nosso aprendizado. Relembro a cabeça branca do cônego José Viana, de quem os impenitentes Pordeus e filhos do maestro Nicodemos, entre outros, faziam o humor local, zombavam e criavam anedotas imitando a sua péssima dicção, deixando dúvidas sobre comentários nos sermões das missas costumeiras; o padre Oriel que condenava ao fogo do inferno as costureiras que faziam vestidos e blusas sem mangas, ditas “mangas japonesas” que as moças usavam deixando os braços desnudos; ainda refiro o chamado “politiqueiro” padre João Cartaxo Rolim, meu parente, um avançado para a sua época, apoiando a luta pela sindicalização dos trabalhadores rurais. Coisa de comunista, diziam. * Com outros meninos eu brincava e corria nas vastas calçadas que circundavam a Matriz. Crescido já, respeitosamente adentrava o templo deserto, com os companheiros e vizinhos de rua, benzia-me contritamente diante do altar-mor e nichos outros, alcançava a escada e assomava o coro somente freqüentado em missas solenes, com a presença de cantantes, quando era acionada a serafina. Não galgava as torres como outros mais afoitos o faziam. De janelas no elevado pé-direito, descortinava casebres de taipa afastados do centro da cidade, onde moravam famílias pobres, e a paisagem de fazendas encravadas nas várzeas e serrotes, cobertos de juazeiros, oiticicas, car-naubeiras, madeiras nobres e arbustos: ao nascente as terras dos Elias, dos Sá, dos Queiroga, no poente as terras dos Pires, dos Estrela, ao norte e ao sul as dos Pinto, Gonçalves, Vieira, Rocha, Mariz, Pordeus... Perdia-me em sonhos, sem indagações. * Ah! Como povoam a minha memória as lembranças da Semana Santa de outro tempo, então voltada para a reflexão sobre o sacrifício de Jesus, em liturgias a atos solenes monumentais: procissões via sacras, jejum. Hoje chocolates e iguarias raras, quase festivamente marcam a data histórico-religiosa, como outras do culto oficial cristão: o Natal a Festa da Santa ou do Santo Padroeiro do lugar. Sentia de perto no comportamento doméstico, com a cobertura dos santos com tecido roxo, entre o Domingo de Ramos e a Sexta da Paixão e Morte do Senhor, quando se impunha o negro do luto. Assim era no interior da Matriz. E o aprovisionamento da despensa para oferecer o “jejum” aos pedintes: bacalhau, sardinhas, cereais. Orgulhava-me da prática que ditava a Fé. Os sinos, então, sabíamos o que anunciavam. Hoje mal podem ser ouvidos, sufocados pelos ruídos infernais e medonhos de motores e buzinas de veículos, que também movem indústrias, acionam trovejantes “serviços de som” e nos ator-mentam. Funcionavam os sinos como relógio da cidade, que marcava e informava horários, sobre os acontecimentos: as chamadas para a missa, a novena, o lúgubre anúncio de morte. Dobravam finados gravemente, pausadamente em bemol, para os adultos; repicavam como campainhas, em sustenido, quase alegremente o passamento de crianças que subiriam ao Céu. * Refiro finalmente o bater das matracas. Estranho instrumento, para mim. Não procurei saber por que calavam a nobreza, a beleza dos sinos naqueles dias. Fato curioso. Descobri na internet uma explicação razoavelmente convincente: “E os sineiros, guardiões dessa peculiar forma de comunicação, em suas sucessivas gerações, anunciam e pontuam diversas ocasiões com seus festivos repiques ou lúgubres dobres. Do alto dos campanários delas participam à distância, ano-nimamente. Afinal de contas, quem toca sino não acompanha procissão”(Google). Assim o meu destino, vivendo hoje entre os simples de idéias, mas lógicos no comportamento, explica a coerência imperturbável do Cosmo. Os meus momentos existenciais entre iluministas e marxistas, levam-me a relatar lembranças, que não se pejam de citar o nosso Euclides de “Os Sertões”, quando afirma no seu “À Margem da História – Estrelas Indecifráveis”: “Conta-nos São Mateus daqueles três reis magos, que abalaram de seus países em busca do Messias recém-nado, conduzidos por uma estrela extraordinária que, imprevisamente, resplandeceu na altura, em plena luz de um firmamento claro. Não critiquemos impiamente, a narrativa singela do primeiro evangelista. Justifiquemo-la”. Na objetividade de suas observações, o trágico esteta-cientista que só tinha compromisso com a verdade, apoiava-se na melhor ciência da época, como afirma o professor Rolando Morel Pinto, um estudioso de sua obra. * Hoje os atos do cerimonial católico são realizados na Igrejinha do Rosário “dos Pretos”, em razão do desmoronamento das torres da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, e pela realização de trabalhos na sua reconstrução. Fechado há muitos anos o belo e sagrado templo de linhas barrocas, torre mourisca, os negros não mais escravos, salvaguardam a fé cristã dos brancos. 


  • 10/04/2014

    O inferno na Paraíba


    Reencontrei, inesperadamente, José Ronald Farias, de antiga e amistosa convivência, que há muito não via. Não nos ligava amizade estreita, mas simpatia recíproca, somente. Discretamente ele aproximou-se da mesa onde eu conversava com amigos no Manaira Shopping, sentou-se, mostrou-me um livro que trazia − o seu romance O DIABO CHEGA PRIMEIRO, cujo personagem, digo de passagem, não encontrei ao longo da narrativa, mas o inferno inteiro. Algo como na “História Universal da Infâmia”, de Borges, que copia autores, tendo o nosso romancista preferido a própria vida, a sociedade onde habita, infinitamente variável na sua totalidade, não em mostras, para montar a sua obra. A modesta edição, de capa em cartolina lisa, de um amarelo impreciso, trazia curiosa ilustração do busto de uma mulher visto de perfil, com a cabeça levemente caída, os cabelos longos e o design indicativo de uma ex-pressão do pensamento: num círculo figuram dois homens de pistola em punho, num enfrentamento mortal: o mais alto com a arma apontada para a cabeça do mais baixo que tinha o tronco levemente dobrado, numa posição de ataque mirando o peito do outro, ou, talvez, caindo baleado.
    Desde logo, por achar imprescindível, deixo clara a minha concepção sobre a arte, no caso a arte literária, particularmente a literatura imaginativa, como produto social e fenômeno de cultura, que comporta variados enfoques na abordagem e estudo crítico-interpretativos. Em muitos casos exsurge, de logo, a particularização irrelevante, o cientismo extravagante, frascário. Aqui não é o caso.
    Considero a acumulação de conhecimentos e a erudição, revelados na crítica, uma “faca-de-dois-gumes”. Seria também no romance? Com certeza. Se por um lado orienta o pensamento, leva à descoberta de aspectos singulares do desenvolvimento do objeto do estudo, por outro, facilita generalizações, elaborações teóricas que valorizam exclusivamente o texto em si, tornando-o um apêndice desnecessário. A construção da práxis.
    A expressão dialética de forma e conteúdo esgota o estudo da arte, objetivamente considerada, não me cansarei de repeti-lo, porque so-bejamente demonstrada por Georg Lukács, Ernest Fisher, entre outros, autores na minha linha de pensamento.
    Escrevi alhures. As questões essenciais da arte poética, ou literatura de ficção, conforme variam as denominações e a definem modernamente, continuam resolvidas na “Poética” de Aristóteles. Tal se entende quando à sua composição, submetendo-se à essência imitativa da arte, que se explica na solução do mito. A substância da criação literária resulta da racionalidade em que consiste o movimento da natureza e do pensamento. E imita homens “em ação”, que sempre desenvolvem caracteres definidos, quer de “alta ou baixa índole” – heróis individuais ou nações, indistintamente – por onde se vê que literatura de “nobres” ou de “plebeus”, de indivíduos e de castas, são imitações humanas, distinguindo-as apenas, aqueles aspectos da essência imitativa, de sua realização artística, e as circunstâncias de tempo e lugar. Eis o romance de José Ronald Farias.
    O romance, portanto, é obra de comunicador, carregado do peso ideológico inevitável. Instrumento de relações específicas, não propõe necessária e prioritariamente filosofias. Expõe fatos à luz de princípios, que os reduzem às categorias da conduta, do Ser. Se “retrógrados” ou “progressistas”, revelam o tecido social do comportamento humano, estímulos e reflexos múltiplos e variáveis, certamente observáveis à luz da ciência e da filosofia, mediante métodos apropriados, como na realização de uma anamnese num consultório médico. Milan Kundera ataca a “vulgaridade” e lamenta a morte do romance, acentuando que a literatura moderna acabou, só que não surgiu nada no seu lugar. E com o desencanto, que dá para perceber nas suas palavras, condena o uso de “compassos de uma sinfonia de Brahms na propaganda de papel higiênico”, e “aplausos para versões abreviadas de romances de Stendhal.”
    Mas, voltando ao inicio deste comentário, em certo momento antes de começar a leitura, quis pensar algo desagradável sobre o livro, e me contive. O autor não é do tipo de pessoas que se prestam à crítica ou à galhofa. Apesar do trato comum é personalidade destacada na capital. É PhD em física nuclear. Conversamos sem maior efusão. O livro que eu folheava, ele adiantou, fora prometido para outra pessoa, e dirigiu-se à livraria para pegar outro exemplar para mim. Agora sinto a complicação e dificuldade que tenho pela frente, sem maior experiência e conhecimento acadêmico da teoria da literatura (que se impõe), comentar e fazer análise crítica de tal autor. Farei apenas breve comentário apreciativo. Somente.
    A leitura logo nas primeiras páginas abalou-me. O livro é um monumento, falo como se designa popularmente algo acima do comum; tecnicamente e literariamente também, pois se trata de uma narrativa de fatos e descrição de raciocínios, da interpenetração de agendas, da elaboração de um estilo recriado ou aprimorado por ele, de um romance na linha moderna do realismo nada memorial, mas sem desprezá-lo, vivo em referências, algumas delas ilustrativas. O tema, recorrente por si, são os desajustes da vida das pessoas, o desenlace trágico de suas relações criminosas. Aí se encontram os grandes conflitos. O cenário é a nossa pequenina e heroica Paraíba, mulher macho sim senhor!
    De maneira curiosa, o autor começa, como é praxe nas peças musicais, com uma abertura (não um prefácio ou apresentação), um tanto patética. Talvez desarrazoada, intuitiva e pedagogicamente aliciadora. Deblatera um advogado (profissional maldosamente tido pelo populacho como símbolo do “jogo duplo”) imbuindo-se de sentimentos cristãos de justiça, e também acusatórios. Sim senhor, a overture é patética. Porventura atravessar uma rua onde trafegam veículos automotores não é algo arriscado? Em tudo há um misto de emoção e tragédia. Assim a vida é travessia, como assinala a nossa vã filosofia. Como a leitura deste romance.
    E o contexto, épico-picaresco (?) desta narrativa? Lembra, na caracterização dos personagens, um manual científico-técnico-descritivo de psiquiatria. Recorrendo à história, a imagens antigas, remonta a Felipe II de Espanha, e de circunstâncias atuais na vida dos personagens, que assimila o córtex cerebral, imagens laboratoriais. Em suma, uma verdadeira tese neuropsiquiátrica do fenômeno patológico da compulsão. Mas o que tem que a literatura de ficção com tais especializações? Indagarão. Tudo, eu respondo, porque a vida é constituída dessa interação espírito/matéria. (continua).
     — com Zé Euflávio Euflávio e outras 19 pessoas.


  • 03/04/2014

    O PT e a governabilidade


     Eu pergunto: 
    – Afinal, o que permite ao ex-presidente Lula, o desplante de bancar o salvador da pátria, o milagreiro? Noam Chomsky (Massachussetts Institute of Technology-USA) explica. Paciência. Chegarei lá.
    Ora, na pisada que vai, o país está com o potencial de algumas riquezas naturais em vias de esgotamento, outras inexploradas, reservadas e apropriadas por grupos alienígenas. E esses grupos agem criminosamente com absoluta proteção do governo. O poder de criatividade e resistência física dos trabalhadores brasileiros, que pouco recebe do fruto do seu esforço pessoal e coletivo, aproxima-se também do esgotamento. Mercê de tais fatores deletérios, explode a criminalidade e a violência. Os estrangeiros podem tudo, os nacionais nada a partir das bolsas de negócios, da ciranda financeira – a fase áurea e final do imperialismo, no capitalismo. Os presídios estão superlotados, hospitais em unidades insuficientes para atendimento da população doente, jogada na miséria mais dolorosa e vergonhosa que já se viu no país. Eles não querem acreditar. Mentem. Contratam e pagam estrelas da filosofia (Fukuyama diz que a história parou aqui), tangem o problema para depois. Só muito óleo de peroba mesmo para lustrar a carranca de capataz de Lula! Que ele não é “companheiro”.
    Para completar a permissividade de botequim de má fama, de negócios escusos que caracterizam o governo, os personagens que se arrogam todo o poder, e quando a crise se agrava afirmam como sempre com a maior cara de pau: 
    – É melhor garantir a governabilidade. Pior sem nós. 
    Trata-se verdadeiramente de uma chantagem, de ameaça embutida nas “ilusões necessárias” que embalam os patriotas brasileiros. Governabilidade tem sido a palavra, o modelo chave para salvar os corruptos da cadeia, da execração pública, sustentá-los do poder. 
    *
    É verdade que o Brasil está incluído, no quadro geral de crescimento e desenvolvimento econômico de alguns países, na atualidade. Mas um registro indispensável e alarmante não deve ser encoberto, dissimulado: a absoluta subordinação de toda e qualquer ação do governo brasileiro aos interesses do famoso G8, que gerencia no planeta terra o neoliberalismo como ideologia global, que em tirada hilária de mamulengo Lula critica,
    Falando com franqueza e sem colocar panos mornos como compressa, na fronte do doente (o Brasil), Lula, tenho certeza, nos levará à ruína patrimonial e moral. Vejam os personagens que dominam a cena; Sarney, Lulinha (filho), PT e partidos da base aliada no congresso produzindo "Marcos Valérios" espalhados no país. Confirmem na Paraíba o surgimento de fortunas fabulosas, ainda inexplicáveis. 
    Analisemos a justificativa e proposta do presidente aplaudido pelos seus asseclas, para sairmos da crise política de natureza eminentemente moral. Chegaremos à perda total da nossa soberania, já negociada e vendida, desde Collor e FHC, a que reagimos em atos públicos, em boa hora, e que resultou, infelizmente, na capitulação e retorno à velha prática de crimes de lesa pátria que nos envergonham perante outras nações. Exagero? Não.
    Governabilidade, eis a exigência, primeira a ser considerada, para que o país prossiga na sua marcha para o progresso, para salvar a riqueza do pré-sal, etc, etc. Este o argumento de Lula, Sarney et caterva. Significa dizer: eles devem continuar nos cargos e também os associados no assalto ao patrimônio público. A solução funciona como remédio único, que, como de outras vezes, consistirá em jogar a sujeira debaixo do tapete. 
    Governabilidade é o nome de fantasia da desmoralização, da avacalhação, da tragédia que se abate sobre a pátria brasileira.
    *
    O “Estado de São Paulo”, em oportuno editorial, denunciou dias atrás: “Segundo Chomsky a ‘fabricação de ilusões necessárias para a gestão social é tão velha como a história’... a instrumentalização dos cidadãos se faz através dos mais poderosos meios de manipulação de massas criados até hoje pelo o homem: a imprensa, o radio e a televisão”. Deles Lula se utiliza.
    Tenho dito que podemos reagir, utilizando os protocolos da internet, até onde vemos, livres para a divulgação da verdade e para o acesso dos cidadãos. Estes meios – blogs entre outros – contribuíram decisivamente para deslocar o eixo da opinião pública, do poder nos EUA, para as minorias discriminadas, o que possibilitou a vitória eleitoral do negro (impensável) Barack Obama.
    *
    Aqui na fazenda, alguns moradores marcam viagem para a cidade, para tratar de negócios, acessar caixas bancários eletrônicos para sacar dinheiro, desonerados de obrigações servis. Escuto-os argumentando sobre a garantia de liquidez para pagamento de suas “bolsas”, pois Lula grita que pagou a dívida do Brasil que hoje é um país rico. 
    Que eu saiba, como dizemos aqui, a nossa dívida era de seiscentos bilhões de reais no início do governo Lula e hoje ultrapassa dois trilhões de reais. Dá para tremer nas bases. Mas na Congresso Nacional funcionarão uma CPIs para investigar e conhecer sobre a dívida, wetc. Esperamos, com o coração na mão, com medo de algo pior.
    Um conselho final:
    “Se as pessoas com um poder limitado querem fazer algo, seja vencer o sistema de propaganda ou simplesmente adquirir algum controle sobre suas vidas, têm que criar organizações que lhes proporcionem uma força para contrapor aos principais centros do poder e quem sabe expandir essa força em outras direções.” Texto publicado no Anexo Cultural do jornal A Notícia (Joinville/SC), 1 de maio de 1996.
    Concordo com Chomsky.


  • 30/03/2014

    Depoimento de Argemiro


     Esta data, este o assunto. Alusivos à “Revolução de Março”? Guardo a memória do dia e do período em que aconteceram. No dia estava na Faculdade de Direito do Recife, concluinte do curso; no período vivia os entreveros da disputa Mariz x Gadelhas em Sousa. Algumas prisões escolhidas, por questões locais. Espetacularmente, nós tidos “de esquerda” ficamos no governo, e os Gadelhas tidos “de direita” foram jogados na oposição. Obra de João Agripino. O “Golpe” foi deixado para trás. Me-mória, memórias, quantas! Desculpem-me o introito impossível de es-quecer hoje. Valeu mesmo o alpendre, a rede, a preguiçosa, o patrão, o vaqueiro, o trabalhador do eito. Mas, tratemos do grande Argemiro de Figueiredo.
    Pois bem, aqui compareço, atendendo convite da preclara e no-bilíssima dama campinense Elizabeth Marinheiro − senhora da literatura e da sua teoria −, sobrinha de Argemiro Figueiredo, o homenageado, e prima entre outros, dos inesquecíveis e muito famosos amigos meus o beletrista Virgínius da Gama e Melo e o jurista Vital do Rego (Tonito para os íntimos), igualmente sobrinhos de Argemiro. Alegra-me a oportunidade de apresentar-me neste plenário, muito significativa para mim, entre as honras recebidas, a esta altura da minha vida. A presença ética, política e social de Argemiro Figueiredo na Paraíba, faz-nos sentirmos destacados entre outros Estados brasileiros.
    Argemiro Figueiredo − A Paraíba

    Ainda hoje, tendo em vista os recursos financeiros, modernas téc-nicas de urbanização e ambientação, disponíveis, Argemiro de Figueiredo , é considerado o administrador público que realizou as obras que embelezam e constituem ícones da nossa capital: A Lagoa do Parque So-lon de Lucena e o edifício do Liceu Paraibano, entre outras. E tem muito mais, relacionado com a crônica política do país: Argemiro deputado estadual, atuante em TRINTA, federal, senador duas vezes e governador duas vezes, uma como Interventor. Consolidada estava a sua imagem de político e de administrador. Sublimada, engrandecida está a sua memória.
    Filho de uma das mais tradicionais famílias campinenses, respeitada pela fortuna em propriedades e brilho intelectual, assumiu posições condizentes com a evolução política do país no surgimento de partidos e grupos políticos representativos dessa modernização. Independente liderou facções da opinião pública exerceu mandatos outorgados pela sua cidade,
    A Paraíba sempre deverá à Campina Grande mais do que pensa. E a Argemiro principalmente. A Paraíba nas décadas de Trinta, Quarenta e Cinquenta do século passado, considerada a maior produtora e exportadora de algodão em pluma para o resto do mundo, recebeu do eminente campinense atenção para esta atividade produtiva que gerava emprego e riqueza no Estado. Em legislação editada por ele tratou do zoneamento do plantio do algodão, conforme a variedade das sementes apropriadas para cada área com vista à produtividade e comprimento da fibra. E não ficou por aí. Protestou contra a invasão do Campus da Universidade de Brasília por militares armados, a prisão e coação de mestres e alunos no exercício da cátedra, nos fóruns de debates. Debateu e discutiu a SUDENE, no intuito fortalecê-la dada a sua vulnerabilidade de estrutura e de projetos. A decadência do modelo a destruiu. Um Varão de Plutarco.
    Argemiro Figueiredo - Campina Grande
    Depois das eruditas e patrióticas considerações sobre este evento, acredito nada mais seria necessário dizer. Tentarei, entretanto, uma breve digressão, que não ofende a memória de Argemiro Figueiredo, pelo contrário, exalta-o porque louva a sua terra, o seu povo. 
    Campina Grande tem para mim um significado profundo, inusi-tado para alguns, mas formador de um dominante estado de minha consciência. Vou ser franco: em Sousa nasci para a vida mas Campina me mostrou o mundo. Sou mais campinense roxo do que Agnelo Amorim e Cleidson Tejo. Quando chego lá eu sinto. Estou em casa. Seria influência do grandiloquente limeiriano Orlando Tejo, dos imortais Deodato Borges e Ronaldo Cunha Lima, de Eduardo Ramires, das cal-çadas da Maciel Pinheiro nos anos Cinqüenta ─ o lazer da época ─ ou “campinismo” mesmo, como zombam os despeitados do litoral? 
    Entre outras cidades, considero Campina maior e melhor, dada a sua localização histórico-geográfica num vasto mundo novo que não ignora as conquistas do mundo velho; privilegiada pela sua população contemplada com o tempero de origens em todos os continentes, hones-tamente, humanamente vivenciadas; possuidora de nomeada na ex-pressão dos seus heróis do trabalho, dos seus artífices e filósofos cons-trutores dos monumentos do conhecimento humano, feitos de pedra e de idéias. Pouco? Aí a humanidade está por inteiro, na presença e na visão cultural do bacharel Argemiro Figueiredo que bebeu a sua ciência e ilustrou a sua inteligência na tradicional Faculdade de Direito do Recife, fundada no Iluminismo que construiu novas linhas do pensamento uni-versal. Toda vida social conhecida abriga-se nessas condições circuns-tanciais, nessas teses evidenciadas. É a Campina de Argemiro que se ergue, distanciando-se inalcançável, inimitável.
    Passado algum tempo sempre volto a Campina onde fui aluno do colégio de Padre Emídio, o lembrado Pio XI dos anos de ouro da Rainha da Borborema. Argemiro está presente por onde ando. Não volto para o impossível reencontro boêmio, mas tangido pela saudade, para reviver nomes. Cito o poliglota Oinotna Sevla Searom (anagrama de Antonio Alves Moraes, ─ como ele gostava e se assinava) garçom do “Ponto Chic”, que falava, escrevia, lia e traduzia, alemão, espanhol, inglês, francês, latim, italiano, grego, também esperanto e tupi, que patrio-ticamente lecionava de graça (tudo aprendido em Campina), sem atentar para a tragédia pessoal do amanuense Policarpo Quaresma que sofreu e desapareceu nos desvãos do destino e de uma vida como a sua. 
    O atinado Gonzaga Rodrigues, seu colega de quarto em Campina, que ouvi declamar em língua tupi, numa mesa do Café São Braz, os versos de Gonçalves Dias “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...” vertidos para o idioma índio pelo comentado bardo, traçou-me aspectos da imagem deste poeta. Oinotna era assim. Ele tipifica Campina na auto realização do seu mito, imortal como a Hidra mitológica. Não dá para falar isoladamente de pessoas, na construção das imagens simbólicas que Campina propiciou, numa caracterização do sonho grego de uma civilização universal que se tornou única e insuperável. Tratemos de famílias e de tipos, de indústrias, no sentido de destreza, engenho e arte, que notabilizaram os seus cientistas-artesãos. Campina Grande fabricou um tanque de guerra e revólveres Smith&Wesson. Todos sabem. 
    Conhecemos e admiramos os Lauritzen, Figueiredo, Almeida, Cabral, Gaudêncio, Habib, Chabo, Procópio, Luna, Tejo, Caroca, Cunha Lima, Asfora, Barreto, Rique, Amorim, Celino, Mota, Agra, do Ó, Hamad, Wanderley, Dantas, Rego, Pinto, Soares, Afonso Campos, e outros e outros, e os tipos e as personalidades inconfundíveis de Ataliba Arruda, Otávio Amorim, Pinta Cega, Mário Araújo, Zeca Chabo, Zefa Tributino, Nathanael Belo, Moacir Tié, Paizinho, Dona Irene, Fausto Alfaiate, Maciel Malheiro, Oliveiros Oliveira, Soares, Seu Muniz, Moço Amorim, Antonio Bioca, Nereu do Cartório, Giseuda Moreira, dr. Zé Arruda e Manoel Pé de Rotor, o impertérrito e culto deputado e torcedor de futebol Orlando Almeida, as rádio Cariri, Borborema e Caturité e tan-tos e tantos. Ah! Imperdoáveis omissões. No tocante à ideologias e pro-selitismo, tivemos o comunista Peba que nunca esteve em Moscou em oposição a um empresário capitalista Barreto, que falava inglês e morou nos Estados Unidos.
    Tudo condiz com a nobreza familiar, a grandeza cívica de Arge-miro Figueiredo, a legenda de Campina Grande. A sua participação engrandece o fato. Assim, em razão do racha da UDN, rompeu com João Agripino e estruturou o PTB no nosso Estado, a que entre outras se integrou a minha família, por recomendação do meu tio então senador Salviano Leite, que fora seu colega de turma na Faculdade de Direito do Recife e guardavam forte e recíproca amizade. 
    Finalizo referindo o feito de Campina, como sempre marcante, pi-oneiro na transformação da arquitetura urbana das nossas cidades, que se orgulhavam dos seus sobrados coloniais vetustos com ornamentos clás-sicos e barrocos, mas desconheciam o progresso que ganhava os céus com a construção dos grandes edifícios, de muitos andares. Nesse campo, Campina mostrou o futuro à Paraíba, construiu o edifício para fun-cionamento do “Grande Hotel”, um mito aventuroso e romântico no mundo inteiro, na primeira metade do século passado, animando a vida empresarial e social dos esnobes daquele tempo.


  • 23/03/2014

    Ezra Pound e Hildeberto Barbosa


     Sessenta e oito anos de empenho foi quanto levou a composição do “CANTOS” de Ezra Pound (Nova Froneira 2012), ele o afirma, e também contam os biógrafos e estudiosos de sua extensíssima obra literária. Não me proponho tiradas de sua vida de polígrafo, somente algumas breves referências, e registros dos historiadores e críticos da literatura. E colocá-lo ao lado do poeta paraibano Hildeberto Barbosa Filho. Avulta neste mister, atenção às anotações de fatos sucessivos e curiosos da controvertida personalidade intelectual do primeiro, que dominou a poética do século XX, traçan- do novos rumos e construindo, na expressão de Hugh Kenner “uma épica sem enredo”. As considerações alinhadas, propõem-se chamar também a atenção, igualmente, para a construção da obra poética do paraibano, com o lançamento do seu “NEM MORRER É REMÉDIO, Poesia Reunida” (Ideia, Pb 2012), um misto de lirismo e épica apo-tegmáticas. Poeta completo, cuja poesia quer ser apenas poesia, sem significado encoberto em títulos e representações. Tão jovem ainda e já tem lar, conta no banco, biblioteca, paisagens, lembranças, amores, passado, tradição. 
    Os comentários aqui reunidos, simplesmente são visões breves, sem erudição e desenvolvimento necessários, para tese tão abrangente e ao mesmo tempo indutora no campo da crítica e teoria da literatura. Hildeberto, entretanto, isso quero dizer: não é nem será um anônimo intelectual, um suicida das letras. Pelo contrário, prende-se ao propósito de perpetuador da vida, porque, afinal, a manifestação maior de sua consciência é a antenada e inextinguível expressão do texto literário, que se propõe via e leito da crônica humana, como um ato da criação que se prende na eternidade. 
    TS Eliot explicou-se: “com tais fragmentos foi que escorei as minhas ruínas, pois então vos conforto”. Mas Hildeberto não falaria em ruínas, certamente o faria sobre arquétipos monumentais, da natureza humana em versos prosaicos ou, marcos para duração que se perderia no tempo, indestrutíveis, inapagáveis. A poesia tem essa força de criadora de mitos, de inspiradora de modos e modelos grandiosos.
    Acho interessante e curioso o sentimento pedagógico que está pre-sente na poética de Pound, na absorção e composição de palavras e textos em línguas estrangeiras, nos ideogramas chineses, no cavalheirismo e na ética provençal. Um cuidadoso mestre-escola, chega a parecer. São falas e comportamentos que ditam datas históricas. É um monumento literário descritivo de avaliações e julgamentos, como se fossem tirados da contabilidade de um banco, realidade tão recorrente na sua familiar crítica às construções financeiras, erguidas até ao relento e através de pilhagens sobre cadáveres insepultos pisoteados.
    Em poesia a forma é aglutinativa de sentimentos e palavras. Eis o que poderia ser considerado um axioma poundiano, envolvendo o ideograma e o metrômeno. Sempre ela a palavra, o Verbo, inscrito na voz dos poetas. Pound é mais narrativo, comparativo, exuberante: sabe do histórico e do eventual, do político, do brado e do silêncio; já Hildeberto, registrando até minudências intemporais, a sua vida, que é a de todos, debruçado talvez na mesa de uma estalagem maldita, tocan-do a face nas tábuas úmidas e gordurentas, copia um atribulado personagem de Conrad. Romantismo? Não sei. Cientismo, pode ser, que se depreende da escolha de um terceto do “Budismo Moderno” de Augusto dos Anjos, como epígrafe para o seu livro em questão. Nos dois o “espetáculo do amor em vastas e acesas clarabóias”.
    Inacreditável e legendário já se mostra, o fazer literário de Hildeberto, que descobre o “orgasmo das pedras” lavadas pelas águas em turvas imagens, de assaz insondáveis grutas − os escaninhos da vida reprodutiva, orgânica e inor-gânica, por contato, metamorfose. As grandes questões, os movimentos e momentos ditos imperceptíveis, se interpenetram na sua poesia como termos de uma equação sem incógnitas, O fascinante momento da submissão de elementos quânticos ondulatórios, à irresistível doçura do lirismo feito em palavras. O desenrolar da vida marcando situações humanas, reduzindo-a aos ínvios circuitos do destino, à metá-fora do rio, que reproduz coisas assim, de primitivas e gigantescas abduções, consumadas nas fraudes e nas seduções. Afinal disso vivemos e disso somente tratamos.
    Não foi por acaso, que Monsieur Jourdain descobriu, que durante toda a sua vida, sem o saber, dialogava e argumentava em prosa. Os poetas, também sensíveis criaturas do povo, conhecem este procedimento. Pessoas com a mente em perpétuo movimento aglutinativo ditam conclusões, criam conceitos, propõem regras. Aludem a questões acima de vultos e personagens eruditos e prosaicos, clássicos e ordinários. A sede de álcool de Hildeberto, leva ao delírio – mera psicopatia – e equivale ao equívoco ético-político de Pound, aderindo ao fascismo, mero estado d´alma. Fogem do seu mister, não criam versos exemplares, que preparam o cerimonial da própria morte, como acentuaria Rainer Maria Rilke. 


  • 18/03/2014

    O inverno e a seca


     Li, vi e escutei em Zé Euflávio sertanejo impenitente que mora na praia, mas não esquece o sertão do Piancó, Santana de Garrotes principalmente, a sua terra de nascimento. Ele recolhe, junta e publica no seu “afinadíssimo” Giro PB que reserva espaço e trata de assuntos do sertão brabo: a seca, o cangaço que o cercaram na infância, depois taludo e ele não esquece. E é comunista de carteirinha. Mas tem uma qualidade: não se filia aos “pêcês” de hoje que tem latifundiários, oligarcas e capatazes de relho na mão como diretorianos e articuladores da ação política. Falo porque é o que tenho visto na vizinhança e na minha cidade de Sousa, e parece-me que a situação é a mesma em todo pais. Daí que a burguesia dá risadas gostosas! Certo faz ele. Li nele.
    Pois bem. Neste meu turismo pelo interior que ora pratico, satisfaço a minha curiosidade e desfruto o fidelíssimo e probo prazer de reviver o que, malgrado Proust, não se ressuscita com a memória: só a cena viva o reconstitui somenos, o passado. O importante é viver. Pensar é consequência. Como dizia, a minha estrada real é a BR 230 (a estrada de João que estendeu o asfalto e iluminou o escuro da noite plantando postes, estendendo fios para levar sopesada a energia elétrica a rincões – eita diabo!).
    Como dizia, repito outra vez, pois a minha estrada sai de João Pessoa para Sousa e quebro de lado para conhecer os gentis burgos felizes e silenciosos, abusado que estou de Campina, Santa Luzia, Patos, Pombal, etc. Vejam só: visitei Puxinanã, terra de povo bem vestido como os pretendidos habitantes da Bruzundanga de Lima Barreto (seda, veludo e cetim), e a silenciosa e bíblica Areia de Baraúna entregue às reflexões possíveis, escutando mosca voar. Vivalma não vi na rua ao meio dia, e não tinha onde comer um prato nem sanduiche. Só guaraná, coca e biscoito, que descobri a muito custo, abordando um encantado personagem postado na porta fechada de um café, cochilando. Também pudera! Todos dormiam. Mas para encontrar o cão não é preciso sair de casa, diz o ditado: eis que ronca uma moto com dois homens montados. Estremece o chão.
    Assim nesses percalços, na última viagem tomei a esquerda rumo a Teixeira e passei em Taperoá. De boa vontade o jovem Arthur (com agá mesmo) universitário, neto de coronel, dirigia o meu carro. Ele aproveitava o transporte e eu o seu braço na direção. Era dia de feira, muita gente, indaguei e falaram que Balduino Lélis se não era doido parecia: não ligava dinheiro. Arthur falou alto: “Aqui ainda tem matuto, como Coremas no passado!” Uma verdade, porque em Coremas o povo não mora o povo desfruta. Visitem para conhecer. Até o famoso “peixe de Coremas”, disputado no comercio ambulante, nas bancas de feira, vem de fora: de Itaparica, Castanhão, do Maranhão e do Pará, do Pantanal e ninguém fala. Povo hábil, criativo e feliz.
    Estou de viagem marcada para Vista Serrana meio chateado (mudaram o condenatório e imemorial “desterro” para a alegria e orgulho do desfrute da paisagem. E na semana que vem vou descobrir Ave Maria nas perigosas serranias do Aguiar, Conceição, São José de Piranhas, quem sabe da Cachoeira do Urubu. Mas chegarei lá. Pode ter mudado de nome, o que não duvido, mas chegarei lá.
    Em tempo: Sobre Manelito Dantas falarei depois. Não é para esnobar mas já andei por Oropa, França, Baía e nada guardei do que vi, porque desnecessário: tudo está nos livros já lidos e repassados para a TV. Chau, chau.


  • 03/03/2014

    O PT, Lula e Bonaparte


     Desde que o homem reuniu-se em sociedade e definiu regras de parentesco e de propriedade de bens materiais e até imateriais, o poder tem sido exercido no modo: manda um, ou mandam todos. Assim na monarquia, quando somente um reina e transmite o poder aos seus descendentes na linha de sucessão; ou na república onde a variabilidade do com-portamento leva a associação de pessoas e interesses, criação adrede de sindicatos, es-miuçados na interpretação e conceituação oportunista, de pretensos direitos de grupos, e chegam ao governo. 
    O nosso amado Brasil, revelando a coerência histórica dos fatos no seu encadeamento, teve monarcas e presidentes, falando politicamente na origem e constituição do governo: império e república. Não falo de Aristóteles nem de Montesquieu. Mas da curiosidade e filo-sofice puramente humanas, que transformaram habilmente generalizações em parti-cularizações e vice-versa, numa babel de modos e conceitos definitivos explicando o poder e o governo. Tentam transmudar, como em Portugal “a desventura em cantos”.
    Advertia-me um amigo, crítico do modelo de governo estabelecido no nosso país, o “petismo”, que reputo impenitente, porque se esgota em especulações que nada mais são do que lucubrações sacanas, diria melhor patifes. Refugindo sempre, o Partido dos Trabalhadores despreza aquela classificação dual, e condecorando a profundidade de especulações e razões que levaram à criação da propalada “Bolsa Quenga” em preceito legal, encanta-se em varas desancadoras e mensuradoras. Por que não? Cria o terceiro modelo como outros que estão dando certo e julgam definitivos. Esgota-se como tal, isto sim. A não ser que pretenda reviver o modelo napoleônico do reles transformado em nobre: Lula transformado em Imperador. Aconteceu na França com Napoleão Bonaparte. E governou Europa, Ásia e África. O governo petista será maior, eles apregoam: global. Por que não com Lula e Dilma?
    Falava o amigo acima referido, cuja identidade não revelo, que chegaremos à reserva de cotas em concursos públicos e todos os modos de serviços, atendimentos e empregos para black blocs, etc. Por que não? Constituem um grupo de pessoas. Essa questão de “petismo” vem da formação da consciência (conferir Vicentinho e Ronaldo Caiado), agredida e premiada ao longo da existência da humanidade. No fim tornam-se iguais: relapsos, contumazes. Vejam que o jubilado e conspícuo senador Christovam Buarque, apresentou projeto de emenda constitucional estabelecendo a obrigação do Estado em assegurar a todos os cidadãos o direito à felicidade. Qual? Como? E em sessão recente do senado, opôs-se a criminalização da bagunça e violência nas manifestações de rua, porque os jovens poderiam se sentir tolhidos no direito de participar. Por aí se vê. Por aí vai.


  • 16/02/2014

    Teixeira de Jório Machado


     Semana passada no meu turismo pelo interior (como naquela marcha de carnaval "festa do interior", sem fagulhas nem pontas de agulhas), animado e feliz visitei Puxinanã, beleza de lugar com o encantado cognome cidade dos lajedos, deliciei-me na observação da criativa arquitetura incorporando o afloramento de rochas. E a população com o expressivo ar de felicidade estampado nos gestos, no andar, na tranquila paz dos rostos bonitos. Não quero rever a Paris e a Nova York que alegrou meus passeios, hoje entupidas de imigrantes miseráveis e impertinentes pedindo ajudas, com nos bares do passado em João Pessoa. O PT melhorou mesmo o Brasil: ninguém pede esmolas, todos trabalham, mesmo nos semáforos distribuindo panfletos, secretamente vendendo drogas, ponteando para "saidinhas de bancos" etc. O mundo é pra todos reafirma a presidente Dilma. Vinha eu de recente visita a Areia de Barauna, Boqueirão dos Cochos. Tudo o mesmo, até começo a me chatear: ninguem pede ajuda de nada. Aí me lembrei do amigo senhor de engenho Waldir dos Santos Lima, imprópria e ofensivamente apelido de "exasperado" por governador Ernani Sátiro quando ele lhe fazia oposição. Tem carne debaixo desse angu. Bem alcancei a conhecida Taperoá, perambulei no estilo sertanejo de quem se perda na rua, perguntei e um matuto da feira me indicou a casa onde morava Balduino Lelis, grande amigo, e em razão da intimidade, mas expressando humor na pergunta indaguei se era verdade que Balduino era doido. O homem respondeu em cima da bucha: "Mais ou menos." Reparei na casa bem cuidada como se via por fora, e concluí que o antropólogo-museólogo tem juizo até demais. Deixei a obrigatória visita para depois. Dalí segui meio receioso para Desterro, Teixeira, viva na minha memória pelo cangaceirismo de Silveira Dantas, Zé Lira, Luiz de Barros e Eudes Nunes, ex-prefeito, meu ex-colega de internato no "Colégio de Padre Vieira" em Patos. Quanto a este último, na ocasião prefeito municipal, acusado por ele, no meu gabinete de Secretário de Segurança Pública, de indiferença à criminalidade que reinava, ía andar armado de rifle de repetição, e capangas também armados nas ruas e nas praças da cidade. Gelei e esmoreci. Tinha outras pessoas presentes. Conhecia-o como disse, desde menino de colégio e todos reconheciam que ele era adoidado. Não fechei a cara mas repliquei: "Tudo bem. Vou recomendar a polícia para lhe dar cobertura, não lhe prender. Você é meu amigo de muito tempo e eu sei como todo mundo sabe que você é doido." Ele danou-se, pinotou e retirou-se mas afirmando olhando para trás que na Paraiba não tinha segurança. Com estas palavras. Encerro esta narrativa da memorial visita aos manes gentilicios do saudoso amigo Jório do Momento, registrando que não avistei como ele informou que existiam, casais em enlevos homógamos nos fins de tarde, no anoitecer frio da maior serra da Paraíba. Pelo menos.