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Colunas de Inaldo Leitão

Jornalista, advogado, ex-deputado federal


  • 16/03/2017

    A transposição


     "A cada um o que é seu." Santo Agostinho

    A disputa pela paternidade da transposição de águas do Rio São Francisco dispensa investigação.

    Foram muitos os governantes que tiveram a ideia de realizar a obra, de Dom Pedro II a Fernando Henrique Cardoso, passando por Epitácio Pessoa.

    Mas quem tomou a decisão política e iniciou a obra foi o ex-presidente Lula. A ex-presidente Dilma deu sequência, embora em ritmo lento.

    Coube ao presidente Temer a responsabilidade de priorizar, agilizar e dar a tacada final para levar as águas ao solo paraibano.

    Ou seja, em menor ou maior grau, são três os pais da transposição: Lula, Dilma e Temer.

    Quanto aos demais políticos que estão tentando faturar algum mérito pela obra, a lista é do tamanho do canal. Não conheço um político que não tenha defendido a transposição (inclusive eu), sobretudo os paraibanos, cearenses e norte-riograndenses. Pernambucanos e baianos eram contra.

    Estejamos sempre atentos à lição (acima) de Santo Agostinho. Adicionando que a verdade dos fatos deve estar acima da vaidade política.


  • 22/02/2017

    Os ciganos de Sousa


    Os ciganos Calon chegaram no Brasil em 1554, fugindo de Portugal. No início dos anos de 1970, um grupo se fixou em Sousa sob o comando de Vicente Vidal de Negreiros (falecido em 2016 aos 94 anos). Era o fim da vida nômade.
    Um dos hábitos dos ciganos sousenses é o de adotar nomes de políticos para seus filhos.
    No acampamento deles o visitante vai encontrar Antônio Marques da Silva Mariz, Clarence Pires de Sá, Sinval Gonçalves Ribeiro, Eilzo Nogueira Matos, John Johnson Gonçalves Dantas de Abrantes, Mauro Abrantes Sobrinho e João Marques Estrela e Silva, entre outros.
    Esse ciganinho que aparece ao meu lado na foto chama-se Inaldo Rocha Leitão.
     


  • 06/02/2017

    Dr Clarence Pires, um homem de bem


     Clarence Pires comemora com familiares e amigos os seus bem vividos oitenta anos, com a marca da dignidade, da moralidade, da honra marcando toda sua vida, todos os seus atos de cidadão na vida publica e privada. Do seu casamento com a filha do cel Emidio Sarmento, Risélia, deixa os filhos Ney, Daisy e Clarice. Todos herdaram a esmerada educação dos genitores. Vale a pena viver uma vida assim. Prefeito duas vezes do município de Sousa, deputado estadual representando a região, diretor executivo de empresa pública, o seu comportamento no desempenho desses mandatos honrou os cargos para os quais foi escolhido, marcou a sua passagem com a elevação ética de sua conduta. Descende de famílias ilustres, os Pires e os Sá, ligadas à historia do município desde a sua criação, com inegáveis e valiosos serviços prestados à sua terra e à sua gente.


    O exercício da medicina lhe conferiu a legenda da competência profissional, e do respeito às normas contidas no juramento que prestam os diplomados. Recorro, portanto, à humanidade e credibilidade do mito contido em Hipócrates. Há poucos dias no balcão de uma farmácia em Sousa, encontrei a minha amiga de geração Ilza Brasil, que há muito tempo não via. Nos abraçamos, comentamos a vida da cidade, e num suspiro de convicção e lembrança ela perguntou: “Ah! Você tem visto dr. Clarence? Eis um nome da nossa terra que não desaparecerá nunca. Dê-lhe minhas lembranças.” Hoje ainda falam no seu nome, como se vê.


    Amigos no tempo de criança, na juventude, companheiros na vida política e partidária, entendo que cumprimos o nosso dever. E atra-vessando os dias e os anos sertanejos, desfrutamos “Vaquejada, apar-tação Futebol e carnaval / Véspera de ano e natal/ De São Pedro e São João/ Dança, novena e leilão/ E encontros em botequim/ Comícios e eleições...” Exatamente assim, como cantou Pinto do Monteiro, e emendei com o verso final. Impossível negar.


    Como amigo e companheiro de grupo político, posso testemunhar a sua coragem ao enfrentar desafios, em superá-los, à sua respeitada liderança nos momentos de decisão. Recorro como sertanejo recolhido à paz catingueira, à exaltação do poeta caririzeiro, num repente que se ajusta muito bem à presença do cidadão Clarence Pires na sua incomparável generosidade e bondade pessoal, no impoluto enfrenta-mento das campanhas eleitorais, no exercício da gestão pública, e de mandatos que lhe outorgaram e conquistou com glória e brilhantismo, é preciso salientar. Cantou o poeta: “Trabalhou com todo afinco / Nas obras monumentais / O que ele fez ninguém faz...” Por isso mesmo todos ainda falam na sua fina educação e na sua bondade, na sua capacidade administrativa. Afastado das salas e dos salões, aqui está, nestas palavras, na minha modesta erudição sertaneja, o retrato de Clarence. 


    A Clarence devo o decisivo apoio nas minhas eleições para de-putado estadual. Sem a sua postura ética e expressão familiar, o grupo Mariz não teria tido sustentação em Sousa, rejeitado pelos aliados do passado. Talvez sequer tivesse existido como grupo, outro seria o seu destino, a sua representação histórica, outra a ideologia. Não nego as qualidades pessoais e de homem público de Antonio Mariz, que ele as tinha de fato, refiro às condições do momento histórico que nos ligou: ele, eu, e Clarence.


    Não. A história de Sousa não pode ser mal compreendida, e, menos ainda divulgada escondendo interesses puramente familiares, exaltando glorias pessoais que não existiram, porque incompatíveis com os sadios princípios da sã moralidade. Ninguém ignora as conquistas do passado, de que nos orgulhamos, e as fases negras da vida municipal dominada pela incompetência, a corrupção, a imoralidade dos costumes políticos e administrativos, que tolheram os passos de nossa cidade. Éramos a terceira do Estado em população, arrecadação fiscal, eleitorado. Hoje amargamos um lugar, talvez o vigésimo ou mais.


    Encerro esta breve rememoração, num apelo à memória dos sou-senses, solfejando as notas e letra do seu hino de candidato à prefeito, tiradas da vivência sertaneja na alegria das roças: “Milho novo pendoou,/ Vai pendoar,/ No terreiro da Fazenda...” Este o nosso mundo. A poetisa Célia, quase menina ainda, assim parafraseou: “Clarence clareou / Clareou, vai clarear/ Esta eleição ele mesmo vai ganhar...” 


    Eis a clareza de idéias e intenções que norteiam a vida dos jovens, centradas no patriotismo do trabalho, da roça: essa é a mensagem da poetisa menina, puxando a sua sanfona, que conquistou os mais velhos, a população. E ficou na lembrança, dentro dos corações dos sousenses para sempre. ...
    .


  • 11/12/2016

    ‘Todo feio‘, eu?


     O ex-amigo e atual canalha Claudio Melo afirmou, na sua delação, que eu recebi 100 mil da Odebrecht na campanha de 2006. Como esse fato já faz 10 anos, não lembro exatamente o valor recebido, mas sei que foi em caráter oficial.

    E que fique claro: o delator confessa que me fez a doação por eu ter um cunhado trabalhando na empresa e por amizade pessoal, MAS SEM QUALQUER CONTRAPARTIDA.

    Nunca tive relação de negócio com a Odebrecht, jamais fiz qualquer pagamento à empresa nos cargos que exerci e tampouco apresentei projeto de lei ou relatei proposição do seu interesse, direto ou indireto, na Câmara dos Deputados. Isso inclui qualquer outra empresa.

    O delator afirma que os personagens delatados retribuíram a doação recebida por diversos meios e formas. MENOS EU.

    Moro em Brasília desde 2007 pagando aluguel. Em 40 anos de atividade profissional (advogado, procurador do Estado e professor da UFCG), fui também Secretário de Estado por três vezes, Delegado do Mec, Deputado Estadual, Presidente da Assembleia Legislativa, Deputado Federal por duas legislaturas e o único patrimônio imobiliário que tenho é um apartamento em João Pessoa (bem de família).

    Ou seja, nunca me utilizei da carreira pública para acumular patrimônio ilegalmente. Nesse quesito, ocorreu o contrário: só perdi. E não me arrependo, pois jamais tive como objetivo de vida a riqueza.

    Outra coisa que não gostei nessa delação do canalha Claudio Melo foi codinome de "Todo Feio". rsrsrsrsrs Não é bem assim, né? Se fosse escolher um codinome para esse delator, ficaria em dúvida entre Todo Horroroso ou O Mentiroso.

    P. S. Ora, ora, ora...

    Acabei de ter acesso ao texto da delação do canalha Claudio Melo. Diz ele: "Durante a campanha de 2010, recebi um pedido do Ex-Deputado Inaldo Leitão para que reforçasse junto ao Pacífico, DS das regiões norte e nordeste e amigo pessoal de Inaldo, a solicitação que ele havia feito a Pacífico de contribuição financeira. Reforcei o pedido junto a Pacífico até porque tenho tenho uma relação com o parlamentar e o mesmo tinha capacidade demonstrada de ser um futuro líder na Câmara, já tendo sido membro da CCJ. Ressalto, ainda, que este ex-Deputado tem relações antigas na empresa, além de familiares."

    Detalhe: NÃO FUI CANDIDATO EM 2010!!!

    Outro: como esse sujeito pode dizer que eu vou ser líder de uma bancada que ainda não existe e só será conhecida depois da eleição?


  • 24/11/2016

    Doutor Grilo


    A natureza fez Doutor Grilo fora dos padrões anatômicos. Normalmente quando o sujeito é magro é também alto, como eu. Ele era baixinho e magérrimo. Um graveto. Para completar, era danado de feio e parecia ter nascido antes do tempo. Porém, em compensação, Deus deu ao meu amigo e boêmio um vozeirão de barítono.
    Na ausência de instrumentos musicais, Doutor Grilo deslizava uma caixa de fósforo sobre a mesa do bar e cantava afinado as músicas de seu repertório. Uma delas, talvez a preferida, era de Waldick Soriano, que começava assim: Sua beleza com o tempo vai embora/Em vez de rir você virá chorar comigo...
    Era justamente a voz que dava o sustento a Doutor Grilo. Os lojistas (principalmente Rosil Camilo, da rua Cel. José Gomes de Sá) costumavam contratá-lo para anunciar, na calçada e pelo microfone, as mercadorias que estavam no "queima". Quando a frequência de clientes esfriava, o locutor abandonava os anúncios e engatava uma canção, atraindo a atenção de quantos passassem por ali. Calçada cheia, voltava aos anúncios. E ficava nesse vai e vem.
    Nunca vi Doutor Grilo com uma namorada ou algo do tipo. Estava sempre só. Parecia que a bebida que consumia insaciavelmente preenchia todos os seus vazios. Certa vez eu estava bebendo com ele no Chabocão e, depois embalar algumas canções, disse:
    - Doutor Inaldo, eu tenho um amor secreto, mas o nome dela eu vou levar para o túmulo.
    Dito isto, começou a cantar A Pobreza (Leno e Lilian): Todo mundo tem/Um amor na vida/E por ele tudo é capaz/Eu tenho uma paixão/Que é proibida/Só porque sou pobre demais...
    Antes de terminar, lágrimas começaram a escorrer pela face. Ele disfarçou e foi no banheiro. Não precisei disfarçar: derramei minhas lágrimas na ausência dele. Chorei em homenagem à tristeza do amigo pobre e que levaria para o túmulo o segredo de uma paixão impossível. A bebida, claro, ajudou.


  • 09/09/2016

    A Matriz da Fé


     

    Pouco importa a idade. A "Festa de Setembro" é e será um marco definitivo na vida dos sousenses, naturais ou adotados, crianças, jovens ou adultos. Embora atemporal, esse monumental evento religioso deixou até hoje em mim o cheiro da infância. Olho para trás e vejo cenários inesquecíveis: o Parque Lima, uma multidão marcada pela diversidade social, o Padre João Cartaxo Rolim com sua bata preta, o leiloeiro expondo as galinhas, o bêbado ‘rico‘ oferecendo um lanço acima das posses, o ‘vale‘ que nem sempre era pago e Maria Morais circulando elegante, tudo sob o ‘testemunho‘ da histórica Igreja Matriz com suas imensas torres.

    Vejo Maria de Miguel vendendo suas incomparáveis palmas, Dodora expondo seus deliciosos pastéis, Zé Mendes saciando a sede dos cervejeiros, Doge Engraxate em dia de folga, Doutor Grilo emborcando um copo de pinga, Braz de Mané Sibito todo de branco, os membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento paramentados, a Igreja lotada, a multidão em procissão de fé e os bilhetes dos enamorados na difusora propondo namoro ou rompendo a relação.

    Lembro também do repertório musical, sendo a mais marcante a ingênua Meu Lulú Au! Au!. Mas tinha a linha dos românticos, roedores ou algo do tipo: Te Amo, Te Amo, Te Amo (Roberto Carlos), A Última Canção (Paulo Sérgio), Banho de Lua (Celly Campello), Diana (Carlos Gonzaga), Sentado à Beira do Caminho (Erasmo Carlos), Negue (Nelson Gonçalves), Querida (Jerry Adriani), Coração de Papel (Sérgio Reis), Doce de Coco (Wanderley Cardoso) e Prova de Fogo (Wanderléa).

    Dois parênteses: (1) a Igreja Matriz de Sousa teve a construção iniciada em 1814 e só foi plenamente concluída em 1942, merecendo destaque a obstinação do Vigário José Antônio Marques da Silva Guimarães, que conseguiu o apoio da aguerrida população sousense para tocar a obra; (2) Nossa Senhora dos Remédios ficou marcada como a Santa do Resgate, da Liberdade e do Remédio. Mas essa é outra história.

    Pois bem. Mergulhado hoje cedo nessas lembranças, já estou de malas prontas e passagem comprada para desembarcar na Festa de Setembro, hoje comandada pelo Padre Milton. Vou para abraçar a saudade e fortalecer a minha fé.

    P.S.: Heloisa Gadelha, você lembrou bem os famosos jornais da festa, editado por Tota Matos e Castelo Sá, entre outros. Quem se lembra de algo mais?


  • 23/05/2016

    O presidente do STF na presidência do Senado


    O Brasil costuma copiar certos modelos institucionais sem observar os devidos fundamentos. Foi o que aconteceu com o art. 52, parágrafo único, da Constituição Federal. Lá está escrito que, no caso de julgamento do Presidente da República e outras autoridades por crimes de responsabilidade, cabe ao Presidente do Supremo Tribunal Federal funcionar como Presidente do Senado.
    Essa regra foi extraída da Constituição dos Estados Unidos da América. Tudo bem se não fosse por um detalhe fatal: nos EUA o presidente do Senado não é um Senador, mas o Vice-Presidente da República. Logo, no caso de impeachment, o Vice-Presidente não preside a Casa porque é beneficiário direto do impeachment do Presidente. Por tal razão, é chamado a comandar o processo de impedimento o Presidente da Suprema Corte Americana.
    No Brasil, conforme é do conhecimento geral, quem preside o Senado é um Senador, que não é beneficiário direto do impedimento do(a) Presidente da República. Pior do que isso só na Constituição de 1967, que conferia ao Vice-Presidente da República a função de Presidente do Congresso Nacional (art. 78, § 2º).
    Tem jurista afirmando por aí que o Presidente do STF é chamado a presidir o processo de impeachment para garantir maior isenção e imparcialidade no julgamento e respeito ao rito. Balela. É o mesmo que dizer que o Senado precisa de tutela para cumprir a Constituição.
    Ora, se durante o julgamento houver ofensa, por exemplo, ao devido processo legal (due process of law) ou ao direito à ampla defesa, caberá ao STF restabelecer o respeito a esses princípios. Independente de quem esteja na presidência.


  • 14/04/2016

    Sobre intolerância e ódio


    Enquanto o Papa Francisco faz uma cabal manifestação pela compreensão entre as pessoas e apela para o respeito às diferenças, o Brasil vive um momento de intolerância e ódio ante o processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff.

    Ontem eu fui agredido verbalmente - e quase fisicamente - porque ousei divergir de um exaltado defensor do impedimento de Dilma. O detalhe curioso é que tenho o agressor como amigo. Porém, a intolerância falou mais alto e o sujeito estava lamentavelmente descontrolado.

    Desde 2010 estou afastado de mandatos eletivos e cargos públicos, com foco na advocacia. Mas continuo detentor da minha própria opinião sobre os variados temas políticos. Não conheço muro e digo o que penso. Respeito quem defende teses diferentes das minhas. E exijo o mesmo respeito em relação a mim. Em certo momento do embate verbal, perguntei ao ensandecido agressor se tinha votado na Dilma. Respondeu que não. Aí arrematei: então você perdeu a eleição e é melhor esperar 2018, você vai à urna, vota de novo e perde ou ganha. 
    Assim funciona a democracia.

    Qualquer um pode divergir do que vou escrever a seguir. Quem quiser se manifestar sobre o conteúdo, favor dirigir-se ao personagem que vou mencionar. Não a mim.

    Hoje o portal Uol publica entrevista com o ex-Procurador-Geral da República Roberto Gurgel, que atuou no rumoroso processo do "Mensalão. Perguntado se o processo de impeachment da presidente é golpe ou não, eis a resposta textual: "Eu acho que se coloca em relação ao impeachment uma falsa questão. (...) Evidentemente, há uma previsão constitucional sobre o impeachment. Então dizem: "ah, se está na Constituição, então não é golpe". Sim...Mas resta saber a utilização que se faz desse instrumento. Devo dizer o seguinte: a mim impressiona muito mal que começou-se a falar de impeachment imediatamente após a reeleição da presidente Dilma".

    O entrevistador insiste: "Essa é a sua impressão hoje"? Gurgel responde: "Acho que hoje surgiram outros fatos e o panorama mudou um pouco, mas esse vício de origem continua me impressionando e continua me colocando em dúvida se realmente estamos perseguindo um meio de corrigir crimes de responsabilidade e de responsabilizar a presidente por crimes de responsabilidade ou se estamos utilizando esse instrumento legal e constitucional com a finalidade de tentar reverter um resultado desfavorável na eleição". E mais: "Por mais que sejam graves e são gravíssimos todos esses fatos que estão surgindo, relacionados entre outros ao PT, até agora não há nada que se atribua diretamente a ela, salvo a questão das pedaladas fiscais".

    Eis uma opinião que converge com a lucidez e vem temperada pela sabedoria, livre de paixões políticas raivosas. Enquanto o procurador aposentado Gurgel, pela posição que ocupou, precisa ser mais contido, a tradução mais direta de suas afirmações é: terminada a eleição de 2014, a oposição, inconformada com a derrota nas urnas, empunhou a bandeira do impeachment, quando nem se falava em pedaladas fiscais. Quanto aos desmandos da Petrobrás, que os responsáveis sejam julgados e, sendo o caso, punidos. Mas não se pode transferir para a Presidente Dilma uma responsabilidade que ela não tem. E "não há nada que se atribua diretamente a Dilma", repiso o que diz o insuspeito Roberto Gurgel.

    Em conclusão, devo dizer que torço para que esse processo de impeachment seja encerrado o mais rapidamente possível, possibilitando que o povo brasileiro reencontre o caminho da paz, do entendimento e da convivência harmoniosa, respeitadas as diferenças de opinião e as ideias divergentes. Que os políticos respeitem sempre os resultados proclamados nas urnas, conferindo aos candidatos legitimamente eleitos o direito de cumprir com o mandato conquistado.


  • 09/03/2016

    Quando a defesa é uma acusação


    O arbitrário juiz Sérgio Moro justificou com outras violações ao Código de Processo Penal e à Constituição Federal o ato de condução coercitiva do ex-presidente Lula.

    Segundo ele, outras 177 pessoas foram conduzidas sob vara para prestar esclarecimentos ou depoimentos à Polícia federal SEM PRÉVIA INTIMAÇÃO ou resistência
    Com essa ‘defesa", Moro se acusa de ter violado a ordem jurídica 188 vezes.

    No Supremo Tribunal Federal, outros Ministros fizeram coro ao colega Marco Aurélio de Melo de reprovar a conduta inconstitucional e legal do juiz paranaense, que se sente dono da lei.

    O Estado Democrático de Direito exige de todos o respeito à lei, sobretudo quando se trata de alguém que é responsável pela sua correta aplicação. E exige também punição para os que a infringirem - seja lá quem for -, assegurado o julgamento justo e observância ao devido processo legal (cláusula pétrea da Lei Fundamental).


    UMA HISTÓRIA SOUSENSE

     

    Acordei lembrando de uma história sousense. O personagem principal, de saudosa memória, era bastante conhecido na cidade e respondia pelo nome de Dão Nonato. Quem o conheceu sabe o seu biotipo: fortão, estatura mediana, sem barba ou bigode, calvice precoce e tinha o hábito andar com dois ou três botões superiores da camisa fora das casas.

    Eu já convivia com o amigo Dão desde a juventude. Nas festas do Sousa Ideal Clube, ele costumava exibir duas habilidades: era bom de copo e de dança. Era também um bom contador de histórias - reais ou inventadas. Tico Coura, seu cunhado, dizia brincando que quando Dão estava contando uma história e parava para fungar e passar a mão no nariz, era sinal de que estava ali uma grande invenção. Apresentado o personagem, vamos ao causo.

    Eu havia saído de uma sessão do Tribunal do Júri, onde tinha defendido e absolvido um réu em parceria com o advogado Doca Gadelha. Já era final da tarde e fomos comemorar a vitória na Sorveteria Flor de Lis. Lá encontramos outros amigos e formamos uma mesa de mais ou menos dez pessoas. E aí chegou quem nunca faltava: o também hoje falecido Paulo Vieira, o Paloca, especialista em discursar nas mesas de bar.

    Depois da chegada do curso de Direito, Sousa ficou conhecida como a terra de muitos doutores. E assim criou-se o hábito de chamar todos os diplomados de "doutor" - fossem advogados ou bacharéis. Quando a bebida chegou naquele ponto de animar a turma, Paloca se levantou, pediu silêncio e mandou ver:

    - Neste souvenir, quero saudar o Dr. Doca Gadelha, quero saudar o doutor Inaldo Leitão...e saiu relacionando os presentes: doutor José Vicente, doutor Dedé Veras, doutor Manoel Emídio, doutor Maurício Abrantes, doutor Jonas Gadelha, doutor Mozart Gonçalves...(pausa) e quero saudar também ...

    ...o analfabeto Dão Nonato!

    Aí o tempo fechou. Enquanto a turma caiu na gargalhada, Dão se levantou, a cadeira foi cair longe e partiu dedo em riste na direção do orador. Seguramos o ‘ofendido‘ e acertamos com o ‘ofensor‘ o necessário pedido de desculpa. E o fim da farra foi antecipado. Paloca cumpriu uma pena pela brincadeira de mau gosto: passou um tempo proibido de discursar em mesa de bar.

    P. S.: apesar da política de Sousa ser marcada pelos ânimos exaltados, era possível reunir numa mesma mesa adversários políticos.


  • 15/02/2016

    Orgulho sousense


     Um dos maiores patrimônios (material e imaterial) de Sousa é, sem dúvida, o Campus da Universidade Federal de Campina Grande. O curso de Direito foi avaliado pelo Conselho Federal da OAB como um dos melhores do Brasil.
    Originariamente Faculdade de Direito de Sousa (Fadisa), a instituição foi encampada pela UFPB (hoje UFCG) em 1980 e já conta com outros três cursos: Administração, Ciências Contábeis e Serviço Social.
    Sob a liderança de Antônio Mariz, a Fadisa foi criada pela ação de pessoas ilustres como Clarence Pires de Sá, Eilzo Nogueira Matos, Sabino Ramalho, Martinho Salgado, Madre Aurélia, Maria dos Remédios Morais e José Job, contando com a contribuição de Gilberto Sarmento, Jonhson Abrantes e Sinval Gonçalves, entre outros.
    Coube a Mariz articular junto ao ex-Reitor Lynaldo Cavalcanti a federalização da Faculdade, daí surgindo o Campus VI.
    Tive o privilégio de ser o primeiro Chefe do Departamento de Ciências Jurídicas ELEITO pelo voto da comunidade universitária (1981-1983).
    Também fui honrado com o cargo de Diretor do Campus (1984-1988), igualmente eleito pelo voto direto de professores, alunos e funcionários.
    Ao entregar o cargo ao meu sucessor, professor Jarismar Gonçalves Melo, estava criado na minha gestão o Centro de Ciências Jurídicas e Sociais (CCJS), o que significou a autonomia plena daquela unidade de ensino superior.
    É com orgulho que vejo o nosso curso de Direito ser considerado entre os melhores do país.
    Parabéns aos que fazem o Campus de Sousa hoje e os que o fizeram no ontem!


  • 16/12/2015

    O imobilismo do Congresso X ativismo do STF


     

    A lei do impeachment tem o número 1.079 e é de 10 de abril de 1950. Há meses que a discussão sobre o impedimento da Presidente Dilma vem sendo discutido e o Congresso Nacional não atentou para adaptar a idosa lei ao texto da Constituição Federal de 1988.

    O resultado é esse imblóglio em torno da correta aplicação da lei para definir o chamado rito do impeachment. O ministro do Supremo Luiz Edson Fachin vai sumeter ao egrégio colegiado aquilo que ele entende com o rito processual adequado, harmonizando a lei e a CF.

    Aliás, nessa matéria, ninguém se entende. Ministros e ex-ministros da Corte Suprema vêm manifestando opiniões divergentes. Juristas do Brasil inteiro também.

    Tudo isso teria sido evitado se o Congresso tivesse cumprido o seu principal papel - o de legislar. A exemplo do que ocorreu com outros temas acerca dos quais o Congresso não deliberou, coube ao STF (aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo) assumir o papel do Legislativo.

    Uma lástima.

    P.S.: De fato, Irapuan Sobral Filho e Eilzo Nogueira Matos, a Lei do Impeachment foi alterada pelas Leis 8.038/1990 (antes do parecer de Antônio Mariz) e 10.028/2000 (após), mas não enfrentaram as questões que são objeto de interpretações divergentes pelo STF, as duas Casas do Congresso e os juristas. Como visto, já são decorridos 16 anos da última alteração.


  • 23/11/2015

    Tia Neném, um cartomante especial


     Há quem não acredite em cartomancia (arte de prever o presente e o futuro, através da leitura de cartas de baralho). A imensa maioria que manuseia as cartas faz dessa atividade uma profissão. Não era o caso de Tia Neném, que usava esse dom natural para atender familiares e amigos.

    Tenho boas lembranças dela. Casada com Dedé Leite e irmã do meu pai Francisco Leitão, foi mãe de dez filhos (ou nove?) e gostava de hospedar quem mais aparecesse na sua casa do bairro Jardim Queiroz ou na Fazenda Pé Rapado, em Patos. Eu e meus irmãos fomos incontáveis vezes acolhidos por Tia Neném e o também receptivo Tio Dedé.

    Ela era baixinha, cabelo mais para curto e mesmo em casa estava sempre arrumada. Além de simpática, tinha uma voz cuja sonoridade transmitia paz, harmonia e delicadeza. Desde criança eu já sabia dessa sua habilidade com as cartas, pois meu pai sempre recorria a ela para saber se determinado negócio ia dar certo. O tempo passou, eu a visitava sempre que podia, mas um dia...

    Bem, um dia eu ia passando por Patos com destino a Sousa e me lembrei de Tia neném e suas cartas. É que eu estava disputando a eleição para Deputado Estadual (1990) e queria saber se realmente tinha chance de vencer. Cartas na mesa, ela se concentrou, fez a leitura e disse com voz suave, sem querer me desanimar: "Meu filho, você precisa trabalhar muito." Eu traduzi aquelas palavras assim: hoje você não ganha. E, de fato, não ganhei.

    Veio a outra eleição (1994). De novo pedi para por as cartas na mesa e ela disse: "Não se preocupe, meu filho, continue trabalhando, você vai sair vitorioso." E assim aconteceu, ganhei a eleição e me elegi Deputado Estadual. Hoje eu lembrei dela e de suas cartas certeiras. Sempre que estou diante de um desafio, a lembrança me traz de volta a imagem dessa minha querida Tia, que há alguns anos passou a habitar com justeza o Reino de Deus.


  • 17/11/2015

    O dia do meu adeus a Paris


    Antes de contar minha visita a Paris, devo registrar que nada justifica esse ataque desumano (como disse o Papa Francisco) a essa que é uma das mais belas cidades do mundo, protagonizado pelo Estado Islâmico.

    Foi numa noite de novembro de 2000 que eu e Aíla desembarcamos em Paris, vindos da China. A temperatura registrava 7 graus. Fomos direto para o hotel, que ficava na Avenue Champs Elysées, dormimos e acordamos por volta da 6 da manhã. Tentei tomar um café preto, mas o serviço do hotel ainda estava desativado. O jeito foi sair e procurar na famosa avenida um café aberto. Estava tudo escuro, pois o sol nessa época do ano só desponta lá pelas 8 horas.

    Tomamos um susto quando um veículo de passeio com quatro jovens embriagados passou por nós gritando e fazendo gestos que entendi como ameaçadores. Com alegria, chegamos a um café que acabara de abrir. Com meu francês de turista, dirigi-me ao senhor de cabelos grisalhos e barriga protuberante que arrumava a louça:

    - Bonjour, un café, s‘il vous plaît!

    A resposta foi desaforada e incompreensível. O francês falou tão rápido que era impossível entender em qualquer tradução: osbdndg jland aoieytfvdbn!!! Ele deu a entender que ainda estava abrindo o estabelecimento. Dei o troco, na nossa língua e como vingança, dizendo: vá tomarno no c.! Minha sorte foi o sujeito tembém não entender o meu xingamento. Saimos sem o café.

    Esse tratamento inamistoso, quase agressivo, foi o que recebemos em bares e restaurantes de Paris até a hora do embarque de volta ao Brasil. Eu já sabia que os franceses eram chatos e tratavam imigrantes, turistas ou algo assim com preconceito. Eles são xenófobos e racistas por natureza. Foi que conferi.

    Bem, já que estávamos lá, cumprimos nosso roteiro turístico tradicional: Museu do Louvre, Catedral de Notre Dame, Arco do Triunfo, Torre Eiffel e outros, sempre observados pelo Rio Sena. Tudo belo e maravilhoso.

    Porém, jamais sairei do Brasil para pagar caro e ser maltratado. Já dentro da aeronave, tomei a decisão: não voltarei a Paris. Não voltei. Adeus, parisienses.

    A não ser... que os franceses parisienses voltem a tratar os não franceses com respeito. Que esse atentado covarde e reprovável sirva pelo menos de lição para eliminar uma ideia estúpida que eles têm: de que são melhores do que nós outros.


  • 18/09/2015

    Marcas de quem se foi


     

    Na manhã do dia 1º de janeiro de 1995, Antônio Marques da Silva Mariz tomou posse como Governador da Paraíba. No discurso de posse, publico excertos que carregam em si as marcas do que seria o seu governo.

    (...)
    “Tentarei um governo de equipe voltado, antes de tudo, para a solidariedade que faz da dor de um a dor de todos e da alegria de todos a alegria de cada um.

    “A solidariedade tem como primeira e absoluta prioridade o resgate da cidadania. E este resgate começa pela eliminação da fome. Cidadão que não se levanta porque a fome não deixa, também não trabalha porque lhe falta a força e não participa porque perde a crença nos outros cidadãos.

    “Peço a colaboração das elites e garanto, desde já, a presença do governo nas favelas e nos bolsões de pobreza. Não para catar votos nem fazer promoção, apenas para ajudar, pelo combate à fome, no resgate da cidadania.

    “É triste, sabemos todos, ter de começar assim. Mas a verdade social é tão gritante que outro começo seria mais uma das tantas injustiças sociais que vimos acumulando no país, há anos.

    “Não estou recomendando nem sancionando o assistencialismo que depreda a própria independência dos cidadãos...mas procurando criar condições mínimas para que os cidadãos pobres...garantam a renda e a alimentação suficiente e contínuas.

    “Muitos que me ouvem podem pensar que estou sendo utópico. Mas a utopia é que move os homens, sobretudo quando sabem fazer passar a estreiteza da realidade pelo ilimitado do pensar mais alto”.

     

     

    O FIM DO CAMINHO

     

    "Há homens que lutam um dia, e são bons; 
    há outros que lutam um ano, e são melhores;
    há os que lutam muitos anos, e são muito bons;
    mas há os que lutam toda a vida,
    estes são imprescindíveis". (Brecht)

    A caminhada política de Antônio Marques da Silva Mariz começou em Sousa, em 1963, como Prefeito, e terminou num dia como hoje, 16 de setembro de 1995, como Governador.

    Foram 32 anos que tiveram a marca sem trégua da ética, da honestidade, da simplicidade, da verdade, da eficiência e da coragem.

    Seus ideais estão vivos na lembrança dos paraibanos, sua história eternizada e a saudade fez morada definitiva nos nossos corações.

    Mariz era um desses homens a que se referiu o poeta e dramaturgo alemão: imprescindível.


  • 08/09/2015

    20 ANOS SEM MARIZ: O detalhe


     No dia 15 de novembro de 1982, foram realizadas as eleições para governador, senador, deputado federal, deputado estadual, prefeito e vereador. Na Paraíba, como é consabido, o deputado federal Antônio Mariz foi o candidato do PMDB a governador. Apesar da mobilização de setores influentes da sociedade e da grande euforia que se via pelas ruas, o candidato peemedebista sabia que a peleja não era fácil.

    Acuado nas regiões sul e sudeste, o regime militar montou um bem elaborado plano para vencer as eleições na região nordeste, com a remessa de verbas da União para os governadores biônicos e a vinculação geral de votos. A Paraíba, evidente, entrou no arrastão eleitoral. Como escreveu o historiador José Octávio de Arruda Melo, a disputa paraibana de 1982 foi travada entre a sociedade e o estado - com a vitótia deste último.

    Na época, a apuração começava após encerrada a votação e demorava uns três dias, pois o voto era dado através de cédula. Em Sousa, a contagem dos votos ocorreu na Câmara Municipal. Era lá que Mariz se encontrava e só saimos com ele do ambiente depois de conhecido o último voto. Fomos massacrados. Além da derrota para governador, perdemos a eleição municipal, com a vitória de Cozinho Gadelha (PDS).

    Enquanto as bombas espocavam pelas ruas de Sousa, nós tentávamos dormir. Deve ter sido a nossa pior noite de sono - ou insônia. Mariz convocou reunião do partido para o dia seguinte ao encerramento da apuração, dia 19, na Lagoa dos Patos de Dezinho Queiroga, que ocorreu à tarde.

    Entre os presentes, o prefeito Sinval Gonçalves, Bosco de Zuca, Tico Coura, Orlando Xavier, Jucélio Rocha, Mundinho de Nezinho, Laércio Pires, João Estrela (os dois últimos derrotados para prefeito, em sublegenda), Homero Pires, Sinval Mendes, Zier Pires, Clarence Pires (eleito deputado estadual), Zelito Facundo (tesoureiro), eu e outros que me fogem à lembrança.

    Antônio Mariz fez uma avaliação da campanha, citou algumas causas da derrota, lembrou que o PDS venceu nos nove estados nordestinos e conclamou os companheiros para continuar a luta. Mas eu desonfiava que aquela reunião não tinha apenas aquele objetivo. Devia haver algo mais urgente. E havia. A preocupação imediata dele logo seria revelada:

    - Zelito me disse que temos várias pendências da campanha. Perder eleição é algo que pode acontecer a qualquer candidato, outras eleições virão. Mas um partido que não paga suas contas fica desmoralizado na cidade e isso não podemos deixar acontecer.

    O tesoureiro fez um balanço das contas e apresentou o valor devido, sobretudo a pessoas humildes. Eram débitos da banda de música, pintura de muro, escola de samba, fogos, aluguel de veículos e combustível, basicamente. O próprio candidato a governador deu a primeira contribuição e nós rapidamente fechamos o valor necessário para quitar integralmente o débito.

    Essa atitude de Mariz pode parecer de menor importância. Mas não é. É por um pequeno detalhe que um candidato sofre um grande impacto na credibilidade. Como ele disse, outras eleições viriam. E vieram com vitórias sucessivas: 1986 (Burity governador, Humberto e Lira senadores, Mariz deputado federal mais votado), 1988 (João Estrela prefeito), 1990 (Ronaldo governador e Mariz senador), 1992 (Marizinho Abrantes prefeito) e 1994 (Mariz governador, Humberto e Ronaldo senadores, eu deputado estadual)


  • 22/08/2015

    Eracliton de volta pra o aconchego


     

    Que peça a morte nos pregou! Arrebatou do nosso convívio a alegria intensa, o sorriso aberto e a alma pura do meu querido amigo Erácliton Ramalho!

    Conheci o odontólogo e irmão de Elba Ramalho em 1991, quando trabalhávamos juntos no Governo Ronaldo Cunha Lima. A empatia foi imediata. Também pudera! Como seria possível alguém conhecer Eerácliton e não se encantar com aquele cara com "cabeça de homem e coração de menino", como canta Roberto Carlos?

    Fosse na minha casa, no Gambrinius, no La Veritá ou no Cassino da Lagoa, estávamos sempre nos encontrando para virar o copo e ouví-lo cantar. Na mesa, podíamos contar com a presença de Nonato Guedes, Ricardo Barbosa, Biu Ramos, Rui Barroso, Erialdo Pereira e Itamar Cândido, entre outros.

    Erácliton abraçava o violão e, com o movimento concatenado dos dedos, produzia os acordes perfeitos da música que mais gostava de cantar: De Volta Pro Aconchego, letra de Dominguinhos e interpretação magistral de Elba Ramalho. Como era também uma das minhas preferidas, pedia ao amigo para repetí-la abusivamente. Ele gostava desse meu ‘abuso‘.

    Ontem, a conjugação de uma moto envenenada e um motoqueiro irresponsável tiraram a vida do meu querido amigo e calou para sempre a sua voz, que neste momento reentra pelos meus ouvidos - viva, suave e vibrante.

    Erácliton partiu para o novo Aconchego, a Morada Celestial. Espero que possa chegar de violão na mão e adentrar o ambiente cantando e fazendo a alegria de Ronaldo, Itamar, Otacílio Silveira e da multidão de amigos que para lá partiu.

    É duro ficar sem você para sempre, amigo, parece que falta um pedaço de mim. Leve na bagagem a minha saudade e a dor de não poder estar contigo de novo. Ah, segura firme na mão de Deus - e vá.


  • 19/08/2015

    Dezinho, a saga de um sertanejo


     “Aquele que crer em mim, ainda que morto, viverá”.

    Jesus Cristo

    Imagine um jovem de apenas dezesseis anos e habitante do pequeno povoado de São Francisco que resolve antecipar a maioridade civil e embarca para uma aventura na gigantesca cidade de São Paulo, no já distante ano de 1951. Esse jovem existiu e respondia pelo nome de Deusdete Queiroga de Oliveira, que a Paraíba inteira conheceu como Dezinho de Louro (referência a Louro Nascimento, seu pai).

    Nascido em 27 de junho de 1935, Dezinho subiu ao Plano Celestial no último dia 4 de agosto, pouco depois de completar 80 anos bem vividos. Levou na bagagem uma história de bondade, de amor à família, de lealdade aos amigos, de solidariedade ao próximo, de vida inteligente, de empresário empreendedor, de político ativo e de homem criativo. Esse justo reconhecimento não é só meu – é de todos que o conheceram de perto.

    Conheci Dezinho ainda na infância. Na época, já havia deixado para trás a experiência vivida em São Paulo, como motorista de ônibus, e fixara residência em Sousa, onde instalou uma fábrica de cadeiras de ferro, bem próxima à minha casa da Rua Sinfrônio Nazaré. Era de lá que ele vinha ao encontro do meu pai, Chico Leitão, para um jogo de cartas ao lado de outros amigos. O que me impressionou nele foi aquele jeitão animado, descontraído e brincalhão.

    Esse seu espírito, digamos, carregado de energia positiva, acompanhou-o pelo resto da vida. Bem, faltou mencionar mais uma de suas qualidades: o excessivo otimismo. Reunindo todos esses traços de seu perfil, decerto estava escrito nas estrelas que Dezinho não tinha como destino ser apenas um empresário local. Seu mundo já era maior do que São Francisco na adolescência e seria maior do que Sousa na fase adulta.

    Com a visão sempre à frente e dotado de privilegiado talento, Dezinho trocou as cadeiras por caminhões-caçamba e enveredou pelo caminho da construção de estradas, começando pela rodovia federal que hoje liga João Pessoa a Cajazeiras, à época construída pelo Grupamento de Engenharia do Exército. Pela qualidade e eficiência dos serviços prestados, ganhou a respeitabilidade do contratante e as tarefas foram se multiplicando, transpondo os limites territoriais sertanejos.

    Foi a partir daí que o sagaz Dezinho descortinou novos caminhos, avançou por outros Estados e transformou sua empresa, a Cociga, numa referência para além do horizonte paraibano. Tal não ocorreu, à evidência, por um passe de mágica. Foi preciso trabalho intenso, renúncia de toda ordem e foco nos objetivos. Rapidamente a empresa não era mais a mesma: ampliou a oferta de serviços, dispunha de avião, dezenas de empregados e uma invejável carteira de clientes.

    Poucos sabem que saiu da cabeça de Dezinho a urbanização dos bairros sousenses Frei Damião, Palha, Zú Silva e Dr. Zezé. Na época Antônio Mariz era diretor do Banco Nacional da Habitação (BNH) e fui chamado por ele para levarmos o projeto ao líder, que o aprovou prontamente. Foi a maior intervenção urbana da história de Sousa, levada a cabo em parceria com a Companhia Estadual de Habitação Popular (CEHAP), no ano de 1985.

    No entanto, o novo rico empresário, que se fez por si – o self made man, como dizem os americanos do norte – não tinha vocação apenas para os negócios. Era também político por natureza. Ligado a Antônio Mariz, passou a fazer um contraponto a outro poderoso empresário do grupo político adversário, o industrial José de Paiva Gadelha. “Dezinho é o nosso Zé Gadelha”, gabavam-se os marizistas. De fato. Nas campanhas eleitorais, Dezinho transformava a Lagoa dos Patos em um supercomitê.

    Por lá transitavam políticos de mandatos, aspirantes a cargos eletivos, lideranças comunitárias, cabos eleitorais e pedintes em geral. Nenhum saía sem um sorriso estampado no rosto. Na eleição de 1988, em que seu então genro Ricardo Augusto era candidato a vice-prefeito de João Estrela, Dezinho contratou a banda João de Orestes para abrilhantar os comícios na campanha toda e ainda trouxe Genival Lacerda para animar a festa em várias ocasiões. Tudo por conta e iniciativa dele.

    A campanha de Deusdete, o filho, para deputado estadual em 1990 colocou Dezinho ainda mais no centro da política paraibana. Migrou para o PRN de Tarcísio Burity e estadualizou o prestígio, embora tenha se afastado partidariamente do amigo Mariz. O filho acabou sendo o mais votado do Estado. Os dois amigos se reencontraram no segundo turno da eleição no apoio a Ronaldo Cunha Lima para governador, estiveram novamente separados na eleição municipal de 1992 (quando Deusdete Filho disputou a prefeitura de Sousa contra Marizinho Abrantes), mas se realinharam definitivamente na eleição seguinte, quando Mariz disputou e venceu para governador.

    Mas não há como falar em Dezinho como o empresário de visão e o político vibrante sem destacar outro traço dele, talvez o mais substancial – seu lado humano. Sua solidariedade com as pessoas, próximas ou não, era invariável. Praticava a caridade sem interesse ou distinção. Quando Lindinalva, sua querida e inseparável esposa, foi acometida de uma doença grave, considerada incurável, ele deixou de lado todas as atividades e seguiu com ela para São Paulo, Capital, dedicando-lhe por três anos assistência integral.

    A meu juízo, a morte de Lindinalva provocou mudanças profundas em Dezinho. Eu notava que ele se esforçava, mas não conseguia esconder um forte traço de tristeza que sentia bem lá no íntimo. Foi paulatinamente se isolando em casa, se afastando dos amigos e mantendo seus contatos quase completamente restritos aos familiares, sua mais arrebatada paixão.

    Quando recebi a notícia de sua morte, repassei na mente todos os momentos que pude lembrar da nossa convivência. Entre estes, ouvia sua voz pedindo a Navinha para mandar fazer um café novo pela minha chegada à Lagoa dos Patos; gritando pelo Nêgo Valdemar; fazendo gracinha com o sobrinho Sandro; mandando o avião buscar Pinto do Acordeon de última hora para puxar o fole, depois de sorver alguns goles de cerveja; trazendo o Rei Luiz Gonzaga para Sousa; pregando peças em Zé Pordeus; armando as redes no terraço da casa; delegando missões aos irmãos Sezino e Olímpio; embarcando com ele no Sêneca; dizendo que não saia de carro na posição de ré; ou me convidando para explorar uma mina de talco em São Francisco.

    Eis um pouco da saga, das paixões que cultivou e das coisas que Dezinho de Louro gostava. Não é qualquer um que larga o cabo da enxada em São Francisco do Chabocão e aprende a dirigir pelas ruas de São Paulo. São poucos os que trocam o volante de um ônibus pelo manche do avião. São raros os homens que deixam para trás uma fabriqueta de cadeiras em Sousa para erguer uma construtora que ganhou o Brasil.

    Há homens que não morrem, se encantam, como recitou Guimarães Rosa. Perdemos Dezinho ante a inexorável finitude da vida, como bem retratou Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão, mas fomos presenteados por ele com uma história imortal, uma biografia decente e uma imensurável fé em Deus. Seu lugar, ao lado do Pai Eterno, é o nosso conforto. Sim, Dezinho não morreu.


  • 07/08/2015

    A última viagem


     Herdei do meu pai a amizade de Deusdete Queiroga de Oliveira, conhecido em Sousa como Dezinho de Louro. Tenho na lembrança a primeira imagem dele: chegando à minha casa da rua Sinfrônio Nazaré para jogar um pif paf com Leitão. Na época (anos 60 para 70), ele tinha uma fábrica de cadeira de ferro bem na esquina do armazém de Zuca Teodoro. O sagaz Dezinho provaria, tempos depois, que fabricar cadeiras não era seu único destino.

    Trocou as cadeiras por caminhões-caçamba, meteu-se na construção de estradas e criou um império chamado Cociga – Construções Civis Queiroga Ltda., da qual eu seria lá na frente consultor jurídico. Mas nossa relação transcendeu os limites profissionais – ficamos amigos íntimos. Fosse na Lagoa dos Patos, na sua casa da Basílio Silva ou em João Pessoa, nossos encontros eram frequentes e regados a bons copos de cerveja, uísque ou Ron Montilla.

    Dezinho era um sujeito espirituoso, brincalhão, trabalhador e extremamente inteligente. Tinha uma dedicação especial à família e aos amigos. Gostava de viver cercado de gente, bem longe da solidão. Sua relação com Lindinalva, a dedicada esposa que chamava de Navinha, de saudosa memória, e com os filhos, era profunda, respeitosa e regida pelo amor sem fim.

    Já contei uma história engraçada vivida com Dezinho e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Tenho outras para contar e contarei em breve. Porém, neste momento de luto, dor e tristeza, só resta me despedir desse grande amigo que nos deixou no dia de ontem. A todos os familiares, apresento os meus pêsames e a solidariedade neste momento de lágrimas. Lágrimas que são de dor, mas ao mesmo tempo são de orgulho pela honrada passagem dele pela terra.

    O homem que muitas vezes subiu aos céus a bordo de seu famoso Sêneca, fez agora seu voo para a vida eterna. Vá em paz nessa última viagem, meu amigo, para um lugar que está reservado ao lado do Senhor. E parta levando uma certeza: você jamais será esquecido pelos que, como eu, tiveram o privilégio de sua convivência, amizade e carinho.


  • 07/07/2015

    Ladrões


     A conta de luz vem subindo sem parar desde o início do ano. O aumento da minha já passa dos 100%. Hoje, no Bom Dia Brasil da TV Globo, uma "autoridade energética" fez uma declaração estarrecedora.

    Disse que o custo da energia sonegada pelos "gatos" é rateada entre os consumidores honestos. Dá para acreditar?
    O negócio é o seguinte: os ladrões roubam a energia e a empresa fornecedora põe a conta do roubo na nossa conta.
    Vou ser mais direto: gatunos e empresas de energia formaram um conluio para nos roubar. O que significa que ambos são ladrões.
    Que interesse tem a empresa em fiscalizar os "gatos", que implica em custos, se há quem pague o produto do roubo?
    Eu mesmo não sabia disso.
    A pergunta: para que serve a ANEEL?

    ESCLARECENDO: do libelo acima não escapa ninguém, do governo federal a todos os estaduais, estes últimos responsáveis pela fiscalização das empresas de energia ´por eles privatizadas.


  • 01/07/2015

    Aos jovens advogados


     Se eu fosse um jovem advogado, adotaria de pronto a sugestão que vou dar agora.

    Instalaria o meu escritório de advocacia especializado unicamente em mediação, conciliação e arbitragem. Não que o Judiciário seja imerecedor da minha confiança, mas o sistema judicial não tem estrutura para acompanhar o assustador e crescente número de conflitos submetidos ao seu julgamento.

    A dados de 2013, são quase 120 milhões de processos em trâmite nas diferentes áreas da Justiça. Hoje esse número já deve passar dos 140 milhões.

    Os Estados Unidos adotaram, desde 1976, esses meios alternativos de resolução de conflitos, chamados de multiportas, diante de uma situação semelhante ao que hoje ocorre no Brasil: congestionamento do aparelho judicial.

    Vejam o que disse Alberto Pasqualin, Presidente do Conselho Nacional das Instituições de Mediação e Arbitragem:

    "Quando acabam os processos, depois de anos nos escaninhos do Judiciário, o mundo já não é mais o mesmo. As partes envelheceram ou morreram. As empresas fecharam, faliram ou foram vendidas. Os governos e os políticos mudaram. A solução judicial demorada acaba e sai num mundo novo, fora do tempo, muitas vezes inadequada e inútil para compor o antigo litígio entre as partes".

    Pensem nisso, jovens colegas, e atuem para romper a velha cultura da judicialização de conflitos. E recebam seus honorários com rapidez e satisfação.


  • 29/06/2015

    Um dia com o Rei do Baião


     O telefone tocou por volta da 7 horas da manhã do dia 13 de dezembro de 1982. Só podia ser uma notícia ruim, pensei comigo mesmo. Não era. Atendi e do outro lado da linha ouvi a inconfundível voz do meu amigo Dezinho Queiroga.

    - Primo, se prepare que nós vamos viajar para Exú - disse, em tom sentencial.

    Era um domingo do sol na quieta Sousa , onde eu morava na rua Galdino Formiga. Pulei da cama, me arrumei e corri na minha manjada Caravan azul para a Lagoa dos Patos. Entramos no Sêneca, pilotado por Marcos Bateria e co-pilotado por Deusdete Filho, cuja comitiva incluia Tico Coura e o dono da aeronave, e subimos aos céus.

    E lá fomos nós para Exú, terra natal de Luiz Gonzaga e para onde ele voltaria a morar. Pousamos por volta das 10h e fomos direto para o palanque armado no centro da cidade. Lá estavam, além do filho de Januário, o governador eleito de Pernambuco Roberto Magalhães, o senador eleito Marco Maciel e o governador tampão José Ramos. Os repentistas Pedro Bandeira e Ivanildo Vilanova travavam um duelo verbal em homenagem ao mais ilustre filho da terra.

    Lembro de um mote que Marco Maciel dera à dupla: "o Rei volta pra casa novamente/ pra viver sossegado no sertão." Um detalhe da festa, que também inaugurava o Parque Aza (com z mesmo) Branca, era a liberação de todos os bares com bebida gratuita. Também presentes, estrelas da música como Elba Ramalho, Fagner, Gilberto Gil, Dominguinhos e Gonzaguinha, filho do anfitrião.

    Do palanque seguimos para a casa de Gonzagão, que ficava dentro do Parque. O prestígio de Dezinho com o velho Lua (que completava 70 anos no dia) era enorme. Tanto que fomos conduzidos por ele para bebermos no lugar mais íntimo da residência: o amplo quarto dele, restrito a nós e aos famosos que lá estavam.

    De volta ao avião, por volta das 17:30h, fomos surpreendidos por Dezinho, já animado pelos muitos copos de cerveja:

    - Vamos terminar a farra em Salvador!

    Por essa ninguém esperava. Mas Dezinho era assim, um tanto extravagante e bom de copo. Para ir a Salvador, era preciso abastecer a aeronave em Petrolina (PE). E foi lá que combinamos fazer uma pressão sobre ele para ficarmos ali mesmo, na cidade pernambucana. Vencemos a rebeldia do nosso ‘chefe‘ e nos hospedamos no Hotel Grande Rio, tomamos todas e fomos dormir.

    Tremendamente ressacado, Dezinho me pediu para fechar a conta da hospedagem. Tinha uma placa enorme na recepção: NÃO ACEITAMOS CHEQUE DE PESSOA JURÍDICA. Só faltava essa. Pedi para falar com o gerente, pois só quem tinha talão de cheque era Dezinho - e da Cociga (empresa dele).

    - Meu amigo, o senhor Deusdete Queiroga tem que pagar a conta com cheque da construtora dele. Se o senhor não aceitar, não terá pagamento.

    O gerente retrucou, inflexível:

    - Não aceitamos cheque de pessoa jurídica e não abrimos exceção.

    Aí eu apelei:

    - O senhor Deusdete é um dos homens mais ricos da Paraíba e é também muito abusado. A última vez que recusaram um cheque seu, ele comprou o hotel e demitiu o gerente. O senhor, por favor, aceite o cheque e consiga um transporte para nos conduzir até o aeroporto, onde se encontra o avião particular do senhor Deusdete.

    Acertei na mosca. O gerente, gaguejando, aceitou o cheque e ele próprio nos acompanhou até o aeroporto, numa kombi do hotel. Talvez tenha ido conferir se a menção ao avião era verdadeira. Pediu tantas vezes desculpas que quase não nos deixava embarcar.

    Nota 1: hoje Dezinho completa 80 anos de vida e essa aventura vai completar 33 anos.
    Nota 2: o tempo é como o vento, voa.


  • 21/06/2015

    As canções que você fez para mim


     

    As músicas têm o poder de marcar o tempo e o lugar em que você estava quando as ouviu. As canções de Roberto Carlos, todavia, produzem esse fenômeno com maior intensidade. Uma das razões deve ser porque o Rei é único. Paulo Sérgio (1968) lançou-se na música com uma voz muito parecida com a do Roberto. Ele respondeu com o LP O Inimitável (1969). Como explicar o sucesso de um cantor que lançou o primeiro disco em 1963 (Splish Splash) e hoje, aos 70, continua fazendo coro com os passarinhos nas alturas das paradas?

    Vou tentar uma explicação. Toda vez que ouço as canções de Roberto Carlos, penso que foram feitas para mim, tamanha é a identidade que tenho com elas. Vocês não sentem o mesmo? Se ouço Detalhes, logo me transponho para os anos de 1970 e me vejo nas tertúlias de Sousa ou do Recife, onde estudava. Com minha calça desbotada ou coisa assim, lembrava dos detalhes de um amor que partiu, mas fazia uma ressalva soberba: não adianta nem tentar me esquecer.

    E Ana, alguém lembra? Quem não procurou uma Ana pelo caminho da vida, chegou à conclusão que não ia achar sozinho e, ao perdê-la, não confessou (?): “que saudade de você”. Quem não tem uma história pra contar debaixo dos caracóis dos seus cabelos, longe dos seus e do lugar que lá deixou? Quem já não parou diante do portão, viu que tudo estava igual como era antes e voltou? Sim, voltou pra ficar, porque aquele é o seu lugar.

    Muitas vezes olhei para o céu, vi uma nuvem branca passando e bradei: “Jesus Cristo, eu estou aqui!” E pedi paz e fé para a multidão que ia caminhando. Quantas vezes, diante de nossas perdas, as flores do jardim da casa não morreram de saudade de quem partiu? E aquela namorada que vivia tão longe de você? Não adiantavam as cartas, era preciso ouvir a tua voz. E quem nunca sentiu ciúme e ficou louco procurando por você? Quando o coração tem amor demais, meu bem, essa é a razão.

    Já pensou em ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar (viver)? Não é bom ter um amigo de fé, irmão, camarada, cujo coração é uma casa de portas abertas e o mais certo nas horas incertas? Ou dizer para sua mãe que quer ser novamente um menino e pedir para te contar uma história que te faça dormir? E aquele seu querido, seu velho, seu amigo, de olhar cansado e cabelos brancos, que tanto te ensinou do mundo, com suas rugas marcadas pelo tempo?

    Por vezes me desespero a procurar alguma forma de lhe falar tudo aquilo que minha alma sente. Nestas horas, contemplo as pessoas que amo e sai lá de dentro um grito de silêncio, que diz: como é grande o meu amor por você. Esse é o Roberto Carlos que canta, encanta e é o intérprete mais completo do sentimento da saudade, do amor, da vida e da fé. Vida longa para o Rei!

    P. S.: texto escrito por ocasião do aniversário de 70 anos de RC, nunca publicado e que ora compartilho com os amigos do Facebook.


  • 14/06/2015

    Do outro lado da vida


     Nunca duvidei do sobrenatural. Significa que sou sensitivo. Herdei do meu pai, Francisco, o medo de alma (hoje mais ou menos superado...rsrsrsrsrs). Ele partiu desta para outra vida há exatos dois anos, dia dedicado aos namorados. Coincidência, ele deixou na terra aquela que foi sua namorada durante 63 anos - minha mãe, Francisca.

    Voltemos à alma. Dia desses acordei suavemente de um encontro com Leitão. Parecia uma coisa real, mas era um sonho.

    Por vezes sinto sua presença do meu lado, bem forte. Recebo essa graça como uma súplica – aí eu rezo por ele que, em seguida, parte. Sua partida é como a chegada: silenciosa.

    Há momentos em que vejo sua imagem como se carregasse alguma angústia. Seria saudade? Preocupação com os que ele aqui deixou? Tristeza porque partiu? Não sei. Seja o que for, quero continuar sentindo sua presença e vendo-o como se fosse real. Só assim será possível senti-lo vivo, como antes.

    Para descontrair, uma dúvida: será que meu pai ainda tem medo de alma, sendo ele uma delas? Acho que não. E possivelmente ele queira me dizer que não há razão para temê-la. Mas essa resposta eu quero que ele mesmo me dê. Volta sempre, Leitão, e me abraça quando quiser e puder. Só assim eu espanto essa imensa saudade. Sem medo do outro lado da vida.


  • 11/06/2015

    150 anos de Epitácio Pessoa


     A Câmara dos Deputados, por iniciativa dos deputados Rômulo Gouveia, Wilson Filho e Efraim Filho, homenageou hoje o paraibano EPITÁCIO Lindolfo da Silva PESSOA, nascido em Umbuzeiro, no ano de 1865.
    Político e jurista, Epitácio foi Presidente da República, Deputado Federal, Senador, Ministro do Supremo Tribunal Federal, Ministro da Justiça e Procurador-Geral da República, entre outras missões relevantes que exerceu.
    Uma curiosidade: Epitácio faz parte da galeria de Presidentes da República NORDESTINOS, que representam nada menos que 30% dos presidentes que o Brasil teve desde a instauração da República. 
    Todos os cargos exercidos pelo notável paraibano tiveram a marca da ética, da honestidade e da eficiência.
    Além dos pronunciamentos dos parlamentares, representou a família do homenageado o brilhante advogado Carlos Pessoa de Aquino, que fez um belo pronunciamento.


  • 04/05/2015

    Pequeno mundo


     Ninguém dita o lugar para nascer e muitos não escolhem onde vão morar. Nasci em Sousa por que meus pais, a natureza e Deus assim quiseram. Fui morar no Recife para estudar. Voltei a Sousa para trabalhar. Fui de mudança para João Pessoa para exercer cargo público (secretário da Justiça) e mandato eletivo (deputado estadual). E, enfim, vim para Brasília por força do mandato de deputado federal.

    Continuei morando em Brasília por razões profissionais, ou seja, minha atuação como advogado e procurador é nos Tribunais Superiores e no Supremo Tribunal Federal. Que, por óbvio, só existem aqui. Aonde eu vou, porém, carrego minha origem sousense na bagagem. Um exemplo?

    Vou dar. Na semana Santa viajei com Aília para os Estados Unidos, fora do tradicional roteiro Nova Iorque-Miami-Orlando. Na companhia do casal-compadre Barreto e Cristina, fomos hóspedes do Pastor Inaldo Camelo em Henrico, um condado que fica colado em Richmond, capital da Virgínia. Nossa escolha foi esta: visitar o interior norte-americano.

    Foi uma viagem deliciosa por diferentes razões. Uma delas foi porque reforcei minha convicção de que este mundo é mesmo pequeno. Como se verá adiante.

    Pegamos a estrada e conhecemos várias pequenas cidades, mas duas foram marcantes. Williamsburg (16 mil habitantes), um importante palco da Guerra Civil americana, foi a primeira. Logo que entramos na cidade, avistei uma senhora elegante, cabelo arrumado (parecia ter saído dos bobes), sandália de salto e bem esguia saindo da Universidade local. Era a cara de quem? Ora, Maria Morais, minha secretária no Campus VI.

    Foi passando na rua um fotógrafo com as pernas cambotas, andar desordenado, bigode fino e calvice avançada: Bosco fotógrafo. Um sujeito magro, usando tênis, cara de estressado, sempre coçando a cabeça e o cabelo caindo, só podia ser Maurício Abrantes. Sentamos na área externa de um bar e veio o garçom: moreno, bigodudo, calça pegando marreca e andar preguiçoso: Valmir Garçom.

    Um homem de branco estava sentado na praça bem perto da réplica de Thomas Jefferson. Calado, olhar sereno, cabelos prateados e ar despreocupado: Zé de Tosinho. Entrei numa Delicatessen para comprar chocolate e do outro lado do balcão estava o (provável) dono em camisa de punho, sorriso fácil, a careca disfarçada e bem energizado: Antônio Marmo.

    A outra cidade chama-se Annapolis (38 mil habitantes), no Estado de Maryland. Saimos caminhando pelas ruas e tinha um cantor se apresentando ao ar livre. Se não fosse pelo cabelo longo, a semelhança era absoluta: Ivan Rosendo. Entramos numa casa de vinhos e uma dupla atendia a clientela. Um deles era barbudo, cabeleira mais branca do que preta, gordo, baixa estatura, óculos e cara de preocupado: Bosco de Zuca. Seu parceiro era menos obeso, mais alto e os cabelos totalmente brancos: Zé Marques.

    Entramos em um clássico Saloon americano e logo dei de cara com um cantor de música country que era a réplica de Tôsinho (ex-Uirapuru Zimbo): brancoso, testa protuberante e sorriso contido. Numa mesa, na companhia de dois colegas de copo, estava um camarada que parecia frequentar o bar todos os dias: barrigudo, pose de rico, denotava simpatia e não parava de conversar. Quem? Dão Nonato.

    Vou parar por aqui...mas tem mais sousenses por lá.

    Já no avião de Washington para Brasília, dei um cochilo e quando acordei pensei que tinha ido a Sousa.


  • 27/04/2015

    Candidato sem dinheiro


     Quem for disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2018 deve se preparar para ter no bolso nada menos que 10 milhões de reais. Esse é o orçamento previsto em média para o Brasil.

    O candidato também deve estar preparado para ser preso, pois poucos dispõem de tamanha cifra pelos meios legais.

    Por vezes tenho uma ideia maluca na cabeça: e se eu me candidatasse a deputado federal SEM DINHEIRO, a não ser para fazer cartazes, ter alguns carros de som e aparecer no guia eleitoral, quais seriam as minhas chances, de zero a dez?

    Bem, foi mais ou menos assim que Antônio Mariz se elegeu quatro vezes deputado federal. Mariz conseguiria tal façanha hoje?

    E que ninguém pense que uma reforma política vai moralizar o sistema eleitoral.


  • 14/04/2015

    RC apartou minha briga


     O episódio que vou contar aqui é publicado a pedido do intrépido Otacílio Trajano, um cajazeirense sousado que adora um moído. Em 1979, eu e Dr. Titi fazíamos o programa Encontro Marcado na Rádio Progresso de Sousa, das 11h ao meio dia. Como controlista de som e coprodutor, o próprio Otacílio.

    A ideia inicial era fazer um programa cultural-musical. O formato não deu certo porque na minha cidade não se vive sem respirar política. Fomos evoluindo na abordagem dos mais diferentes temas, inclusive...políticos! Polêmica era o que não faltava.

    Uma delas eu travei com o advogado e vereador Gilson Gadelha Cordeiro. Não lembro bem como começou o embate, nem por qual razão. Bem, o motivo certamente era banal para que me fugisse à lembrança. Mas o bate-boca não tinha trégua.

    Até que em certo momento o radialista, jornalista e teatrólogo Chico Cardoso veio me entrevistar para o seu borbulhante “Caldeirão Político”. Resolvi colocar um ponto final na briga verbal. “Eu acho que Gilson deveria parar com essa frescura e ir cuidar da vida dele.” Bomba!

    O caldeirão ferveu. Gilson botou na cabeça que eu o havia chamado de fresco. “Se ele me mandou deixar de frescura, é porque está me chamando de fresco”, raciocinou enviezadamente o suposto ofendido. Por mais que eu explicasse que aquela era uma expressão sem essa conotação, mas apenas uma forma de dizer que aquela era uma discussão exagerada, sem sentido e inútil, não adiantava.

    Pelo repertório musical daquela época desfilavam nomes como Gal (Força Estranha), Bethânia (Explode Coração), Zé Ramalho (Avohai), Wando (Emoções), Roberto Carlos (Na Paz do Seu Sorriso), Rita Lee (Mania de Você), Belchior (Medo de Avião), Carlos Alexandre (Feiticeira) e o hino de todos os bregas, Garçom (Reginaldo Rossi). Eram as músicas que mais ouvíamos em lugares como o Castelinho de Walter, o BNB Clube, a Churrascaria de Diassis, o Campestre, o Bar de Zé Mendes e na Festa de Setembro.

    Dia seguinte, ouvindo o rádio do meu carro, toca a música Além do Horizonte, do Roberto Carlos. Há um trecho que diz assim:

    BRONZEAR O CORPO TODO SEM CENSURA
    GOZAR A LIBERDADE DE UMA VIDA SEM FRESCURA...

    Como não me lembrei da música antes? Agora Gilson ia entender que a palavra não era ofensiva, já que o Rei não ia mandar o Brasil inteiro virar fresco. Levar uma vida sem frescura significava deixar de lado manias bestiais e ser leve e feliz. Na abertura do programa, pedi a Otacílio Trajano que tocasse a melodia. Ofereci a Gilson. E ele finalmente entendeu. Tempos depois reatamos nossa amizade.

    A lição que fica: se você é ligado em frescuras, deixe essa coisa de lado e abra o sorriso para o mundo. Faz bem à saúde.

     

     

     


  • 30/03/2015

    inimigos por engano


     

    Se você já passou dos 50, 60 anos (meu caso), deve ter o hábito de revolver histórias do passado, ainda que sejam histórias simplórias, como a que vou contar agora. A isso se pode dar o nome de saudosismo – ou nostalgia.

    Foi o que aconteceu ontem. Ao acordar, lembrei-me de uma história envolvendo dois personagens sousenses, com os quais convivi, conhecidos como Nêgo João e Arroz. Vivíamos os anos 60. Pedro Dário Formiga, que morava na rua Galdino Formiga (conhecida como Rua das Princesas), ao lado do casarão de João Cazé, acordou bem cedo e se dirigiu ao seu Jeep Willys para ir à Fazenda, como de hábito.

    Na calçada, encontrou Arroz com uma lata e uma flanela na mão. Enfiou a mão no bolso, sacou uma cédula de alguns cruzeiros e a entregou ao lavador de carros, sem nada dizer. O sortudo recebeu o dinheiro, agradeceu e pensou que aquele era um ato de generosidade do proprietário do carro.

    Não era. Na verdade, quem havia lavado o Jeep era Nêgo João. No final da tarde, este vai cobrar a lavagem a Pedro Dário, que esclareceu haver pagado o serviço a Arroz. No primeiro encontro, os dois lavadores quase vão às tapas, ou coisa pior, não fosse a interveniência de terceiros. Ficaram ‘intrigados’ pelo resto da vida.

    Nêgo João poderia ter evitado a inimizade se tivesse invocado um dispositivo do Código Civil de 1916 (art. 934) e mantido no atual (art. 308): quem paga mal paga duas vezes.

    Bem, ao lembrar dessas três figuras, fiquei imaginando como era Sousa naquela época. Os anos 60 foram ricos em inovação. Enquanto os homens passaram a usar o “cabelo na testa”, como fazia Vandinho Dantas cantando a Jovem Guarda, as mulheres adotaram a minissaia e mascavam chiclete Ping Pong.

    Os carros que circulavam por Sousa eram na maioria Jeep, Rural e Caminhão. Já Aero Willys, Sinca, DKW Vemag, Gordini e Fusca existiam em menor quantidade. Contrastando com a frota, Zé Gadelha desfilava pela cidade com o seu imponente Impala Rabo de Peixe. Meu pai, Francisco Leitão, dono de uma loja de automóvel, de vez em quando aparecia na área com algum importado: lembro de um Citroen e um Oldsmobile, câmbio automático.

    Foi também a época da chegada das sandálias havaianas, dos refrigerantes Crush e Coca-Cola, do Toddy, do sorriso Colgate, do sabonete Lux, do Conga e do biotônico Fontoura.

    Além da bicicleta Monark, os mais afortunados deslizavam pelas ruas sousenses exibindo suas lambretas. Jucélio Rocha, Zé Virgínio, Bosco de Zuca, Rômulo de Lafayette, Galego Estrela (BNB) e outros cobiçados rapazes da cidade eram donos desse privilégio.

    Lembrei também do meu avô Emídio Sarmento lendo a revista o Cruzeiro no alpendre de seu sobrado. Na última página da publicação, a famosa coluna O Amigo da Onça....

    Opa! Acho bom parar por aqui. Já conversei demais.

    P.S.: esqueci de dizer que a partir daquele dia Nêgo João passou a chamar Arroz de O Amigo da Onça.


  • 21/03/2015

    Mariz, Afonso e as bombas


     Nas eleições municipais de 1988, Sousa estava diante de duas escolhas para prefeito e vice: João Estrela e Ricardo Augusto, pelo PMDB; e Gilberto Sarmento e Chico de Clota, pelo PFL. Entre os inúmeros candidatos a vereador, o que fazia mais barulho era Afonso Marques, filho mais novo do saudoso Zuca Teodoro.

    Quando era anunciado no palanque para falar, Afonso mandava acionar no sistema de som uma animada música da Xuxa (adaptação de Ilariê), que fazia a galera cantar e dançar. Ele soube que Antônio Mariz, então deputado federal, gostava muito de fogos.

    Eu, Tico Coura e Dedé Job éramos os principais responsáveis pela logística, estratégia e programação da campanha. Aproveitamos uma passagem de Mariz pela região e acertamos com ele uma participação no comício do Conjunto André Gadelha.

    Palanque armado (um ônibus que Tico transformara em palanque móvel, conhecido como o Carro da Maçã), oradores perfilados e o bairro em peso no comício. A presença de Mariz é anunciada e provoca grande euforia. Afonso força a barra e nos convence a falar no momento da chegada do líder maior, o que era um privilégio.

    Afonso tinha contratado dois sujeitos para soltar uma quantidade enorme de pistolas e bombas, justamente para agradar a Mariz. O que ninguém sabia era que os camaradas estavam completamente embriagados. Um deles acendeu o pavio de uma bomba em conexão com as outras, enquanto o outro direcionou várias pistolas para a multidão. Com isso, várias bombas explodiram ao mesmo tempo no palanque e o fogo das pistolas seguiu na direção da plateia, provocando uma debandada geral. O comício praticamente acabou. Ficaram só uns gatos pingados.

    Conversamos com Afonso para “demitir” os dois bêbados (pelo menos dessa função) e esquecer fogos. Ele concordou com a primeira sugestão, mas em relação aos fogos não abriria mão: “Eu mesmo vou soltar os meus fogos, não se preocupem com isso.”

    Concordamos. No próximo comício, no Jardim Brasília, a trapalhada se repetiu. Desta vez quem tinha tomado todas era o próprio candidato, no papel de fogueteiro. O espocar dos fogos em bloco quase provoca uma tragédia no palanque e na plateia, deixando algumas pessoas com queimaduras leves. Aí baixamos uma ordem: só quem solta fogos nos comícios é o fogueteiro oficial. E dissemos a Afonso, em tom de brincadeira: - Se você quiser soltar fogos, que o faça no palanque do adversário.

    Alguns dias depois nos chegou a notícia de que no palanque de Gilberto e Chico bombas e foguetes tinha acabado o comício deles, provocando pânico geral. Alguém teria copiado o modus operandi de Afonso na arte de soltar fogos? Ou então...

    Bem, eu, Dedé e Tico nos olhamos e dissemos ao mesmo tempo: só pode ter sido Afonso!!! Ou os dois bêbados. Não se sabe até hoje.

    P.S.: João e Ricardo venceram Gilberto e Chico por uma diferença de 2.138 votos. O bombado Afonso se elegeu vereador.


  • 05/03/2015

    Sousense, profissão: delegado


     A notícia se espalhou com a velocidade da luz – de que eu era o novo Delegado do Ministério da Educação e do Desporto na Paraíba. Nomeações de pessoas para cargos públicos repercutem mais na mídia do que assuntos realmente relevantes. Jornais, rádios e emissoras de TV elevam esse tipo de notícia à categoria de manchete.

    Porém, um popular sousense e meu amigo que tomava todas em tempo integral não entendeu bem qual era o meu novo papel. Respondia pela alcunha de Chico Elefante. Ouviu na rádio que eu era delegado federal e logo pensou que era da Polícia. E saiu de bar nem bar propagandeando:
    - Quem, menino? Quer dizer que o homem agora é delegado da polícia federal e é meu amigo do peito. É o fraco!

    Tanto repetiu essa sua versão pelos quatro cantos da cidade que os demais colegas de mesa de bar seguiram na mesma linha de raciocínio. Todos se sentindo imunizados contra eventuais prisões ou reprimendas da polícia civil. “Quero ver quem é que me prende agora”, bradavam todos entre um gole e outro de pinga. Muitos já anunciavam que conseguiriam um porte de arma federal comigo.

    Alguns dias depois da posse no novo cargo, fui visitar Sousa e rever os familiares e amigos. Cumprida a agenda, fui tomar uma no bar de Chico Saquinho com alguns companheiros. Logo fui cercado por vários bêbados que me cumprimentavam exageradamente pelo novo posto e davam os efusivos parabéns. Fiquei desconfiado. Como um cargo na área da educação poderia despertar tanto interesse em pessoas com esse perfil?

    Algo estava fora do lugar. E estava mesmo.

    Logo chegou um sujeito com a notícia de que o meu amigo a que me reportei lá em cima estava preso e pedia para ir soltá-lo. 
    - Mas o que foi que ele fez? – indaguei.
    - Nada demais, doutor. Só disse ao delegado que era seu amigo e que o senhor agora era policial federal.

    Liguei para o delegado, que deu a versão mais completa. Disse que o bêbado chegou à calçada da Delegacia, deu uma esculhambação pública na polícia civil e desafiou o delegado a prendê-lo. Já tinha várias entradas no xadrez por excesso de embriaguez, mas disse que “a partir de hoje ninguém me prende mais, pois sou amigo do delegado federal Inaldo Leitão.”

    Como não tinha cometido nenhum crime, convenci o delegado a me entregar o bêbado e me responsabilizei de levá-lo para casa. Antes disso, ele sentou-se à mesa comigo e desabafou: “pensei que o senhor era um delegado que prendia e soltava, mas esse tal de delegado do MEC nem sei pra que serve.”

    Perdi meu prestígio com esse bêbado – e os outros perderam a euforia anteriormente demonstrada. Como se eu tivesse sido “rebaixado”.


  • 22/01/2015

    Polêmica em dose dupla


     O deputado eleito Renato Gadelha está questionando a dupla eleição da Mesa da Assembleia Legislativa. O grupo que apóia Adriano Galdino quer eleger, numa tacada só, duas Mesas para dirigir a Casa nos próximos quatro anos.
    Trata-se de um procedimento estranho, de legalidade duvidosa e eticamente reprovável. Gadelha tem razão.
    A reação de Galdino é pior do que a dupla eleição. Disse ele: "vou ensinar a Renato Gadelha que o Plenário é soberano."
    Soberano, sim, mas para fazer o que é certo, legal, moral e legítimo!
    O £4o. do art. 59 da Constituição do Estado dispõe que a Assembleia Legislativa reunir-se-á a patir de 1o. de fevereiro para a posse de seus membros e eleição da MESA, para mandato de DOIS ANOS.
    Como a norma constitucional não recepciona interpretação extensiva, mas restritiva, não pode o soberano Plenário entender que pode eleger DUAS MESAS para um mandato conjugado de QUATRO ANOS.
    Até torço pela vitória de Galdino, pois é politicamente inconveniente que o deputado Ricardo Marcelo se perpetue na cadeira de presidente.
    Só há uma explicação para essa manobra inusitada: os grupos de Adriano Galdino (PSB) e Gervásio Maia (PMDB) se desconfiam entre si.
    Se essa moda pega, logo vamos ver dois prefeitos querendo se eleger ao mesmo tempo.


  • 19/01/2015

    O impossível acontece


    Pensei já ter visto de tudo no meio político - ou quase tudo. Mas há coisas que são impensáveis.
    Aqui em Brasília, na Paraíba, em Sousa e alhures a briga por cargos é feroz, certo? Os partidos são insaciáveis, certo?
    Certo.
    Mas em João Pessoa está acontecendo o contrário. O PT está oferecendo cargos ao PSB. E o PSB diz não quer.
    Entendeu? Nem eu.

     

    BIRUTA DE AEROPORTO


    O eleito paraibano está feito biruta de aeroporto: sabe pra onde foi nas últimas eleições, mas jamais saberá onde estará na próxima.
    Em 2010, Ricardo Coutinho, Cássio Cunha Lima e Efraim Morais armaram o palanque para enfrentar Zé Maranhão, Wilson Santiago ,Vital do Rego e o PT
    Em 2014 foi a vez de Ricardo Coutinho, Zé Maranhão, Vital do Rego e o PT armarem palanque para confrontar Cássio Cunha Lima e Wilson Santiago.

     

    LIVRE-PENSAR (como dizia Millôr Fernandes)


    Pela presidência da República do Brasil passaram 35 personagens. De todos, apenas quatro tiveram uma passagem marcante: Getúlio Vargas, pelo trabalhismo; Juscelino Kubitscheck, pelo desenvolvimentismo; Fernando Henrique Cardoso, pela estabilização da economia; e Luis Inácio Lula da Silva, pela inclusão social.
    Dilma Rousself não concluiu o projeto de governo e ainda não tem uma marca, mas será lembrada na história, no mínimo, como a primeira mulher Presidenta do Brasil.

     


  • 16/12/2014

    Sousa e o grito de independência


     Já defendi aqui a criação da Universidade Federal de Sousa. É a única forma de avançarmos na consolidação de um verdadeiro projeto educacional de nível superior para desenvolver a nossa cidade e região.

    A existência independente do sistema de ensino superior sousense será um passo decisivo na ampliação da oferta de cursos, melhoria da qualidade do ensino e na melhor estruturação dos equipamentos universitários (biblioteca, por exemplo).
    Para tanto, é preciso: a) que a comunidade acadêmica se mobilize; b) que as forças vivas da cidade apoiem a causa; e c) que se encontre um deputado federal disposto a abraçar a causa e apresentar uma proposição legislativa, chamada INDICAÇÃO, dirigida ao Poder Executivo, para que a Presidenta Dilma encampe a ideia e subscreva o Projeto de Lei.
    Segue um modelo de projeto de lei que cria a Universidade Federal de Sousa, adaptado da Lei nº 10.419/2002. Essa a ferramenta da luta! Vamos encarar?

    PROJETO DE LEI Nº /2014

    Dispõe sobre a criação da Universidade Federal de Sousa – UFS, com o desmembramento da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, e dá outras providências.

    O Congresso Nacional decreta:

    Art. 1º - Fica criada a Universidade Federal de Sousa – UFS, através de desmembramento da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG, instituída pela Lei nº 10.419, de 9 de abril de 2002.
    Art. 2º - A UFS, de natureza autárquica, vinculada ao Ministério da Educação, será instalada com sede e foro na cidade de Sousa, Estado da Paraíba, onde funciona o Centro de Ciências Jurídicas e Sociais da UFCG.
    Parágrafo único. Após o desmembramento previsto no art. 1º, a UFCG manterá sua denominação, natureza autárquica e sede e foro na cidade de Campina Grande, Estado da Paraíba.
    Art. 3º - A UFS terá por objetivo ministrar ensino superior, desenvolver a pesquisa nas diversas áreas de conhecimento e promover a extensão universitária.
    Art. 4º - A estrutura organizacional básica e a forma de funcionamento da UFS, observado o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, serão definidos nos termos desta Lei, de seu Estatuto e da legislação pertinente.
    Art. 5º - Até que seja aprovado o seu Estatuto, a UFS será regida pelo diploma correspondente da Universidade Federal de Campina Grande, no que couber, e pela legislação federal.
    Art. 6º - Fica mantida a atual estrutura da UFCG, ressalvado o desmembramento do Centro de Ciências Jurídicas e Sociais, independente de qualquer formalidade.
    Parágrafo único. Os alunos, regularmente matriculados nos cursos ora transferidos, passarão a compor o corpo discente da UFS, livre de adaptação ou qualquer outra exigência legal.
    Art. 7º - Ficam redistribuídos para a UFS todos os cargos da estrutura organizacional existentes no Quadro de Pessoal da UFCG, relacionados com a instituição ora criada.
    Art. 8º - Ficam criados os cargos de Reitor e Vice-Reitor da UFS.
    Parágrafo único. O Ministro de Estado da Educação providenciará o remanejamento dos cargos de Direção – CD e Funções Gratificadas – FG entre a UFCG, o Ministério da Educação e a UFS, para compor as respectivas estruturas regimentais.
    Art. 9º - A administração superior da UFS será exercida, no âmbito das respectivas competências, a serem definidas no Estatuto e no Regimento-Geral, pelo Reitor e pelo Conselho Universitário.
    § 1º - Cabe ao Reitor exercer a presidência do Conselho Universitário da UFS.
    § 2º - O Estatuto da UFS disporá sobre a composição e as competências do Conselho Universitário, de conformidade com a legislação pertinente.
    § 3º - O Vice-Reitor, nomeado na forma da lei, substituirá o Reitor em suas faltas ou impedimentos.
    Art. 10 – O patrimônio da UFS será constituído:
    I – pelos bens e direitos que atualmente integram o patrimônio da UFCG tombados no Campus onde funciona o Centro de Ciências Jurídicas e Sociais, os quais ficam automaticamente transferidos para a UFS;
    II – pelas doações ou legados que receber; e
    III – por incorporações que resultem de serviços realizados pela UFS.
    § 1º - A transmissão dos bens imóveis enumerados no inciso I será efetiva por escritura, precedida de avaliação.
    § 2º Os bens e direitos da UFS serão utilizados exclusivamente para consecução de seus objetivos, vedada a alienação, salvo nas hipóteses e condições previstas em lei.
    Art. 11 – Os recursos financeiros da UFS serão provenientes de:
    I – dotações consignadas no Orçamento Geral da União, créditos especiais, créditos adicionais e transferências ou repasses que lhe forem conferidos;
    II – auxílios e subvenções que lhe venham a ser feitos ou concedidos pela União, Estados e Municípios, ou por entidades públicas ou privadas;
    III – recursos provenientes de convênios, acordos ou contratos celebrados com entidades e organismos nacionais e internacionais;
    IV – resultado de operações de crédito e juros bancários, nos termos da lei;
    V – receitas eventuais a título de retribuição por serviços de quaisquer natureza prestados a terceiros; e
    VI – saldo de exercícios anteriores, observado o disposto na legislação específica.
    Art. 12 – A implantação e o consequente início do exercício contábil e fiscal da UFS, como autarquia, deverão coincidir com o primeiro dia útil do ano civil subsequente à publicação desta Lei.
    Art. 13 – Fica o Poder Executivo autorizado a:
    I – transferir saldos orçamentários da UFCG para a UFS, observadas as mesmas atividades, projetos e operações especiais, com respectivas categorias econômicas e grupos de despesas previstas na lei orçamentária; e
    II – praticar os demais atos necessários à efetivação do disposto nesta Lei.
    Parágrafo único. No período de transição da transferência autorizada na forma do inciso I, correrão à conta dos recursos constantes no Orçamento da União destinados à UFCG as despesas de pessoal e encargos, custeio e capital necessários ao funcionamento da UFS. 
    Art. 14 – Enquanto não for implantada a estrutura organizacional da UFS, na forma de seu Estatuto, os cargos de Reitor e Vice-Reitor serão providos, pró-tempore, pelo Ministro de Estado da Educação.
    Art. 15 – As instituições resultantes da edição da presente Lei encaminharão, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, contado de sua publicação, suas propostas estatutárias ao Ministério da Educação para aprovação pelas instâncias competentes.
    Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

    Brasília, 11 de dezembro de 2014.


  • 10/12/2014

    A vida e o tempo


     “Os cinco arrependimentos de pacientes terminais.” Em tradução livre, este é o título do livro lançado nos Estados Unidos pela enfermeira Bronnie Ware, especialista em pacientes com morte iminente.

    São lições de quem vai morrer para pessoas que precisam saber viver:
    1. Eu gostaria de ter tido coragem de viver uma vida fiel e mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim.
    2. Eu gostaria de não ter trabalhado tanto.
    3. Eu gostaria de ter tido coragem de expressar meus sentimentos.
    4. Eu gostaria de ter mantido contato com meus amigos.
    5. Eu gostaria de ter me deixado ser mais feliz.

    FICA A DICA: coisas importantes devem ser feitas enquanto temos tempo.


  • 25/11/2014

    Em memória de Luiz Rocha Sobrinho


     Faleceu em Campina Grande, onde era radicado havia décadas, o advogado, poeta, escritor, contador de causos e piadista Luiz Rocha Sobrinho, filho dos meus bisavós José Ferreira Rocha e Maria Olívia. Sousense da Fazenda Lagoa Redonda, Tio Luiz era extremamente afável no trato pessoal, tinha um bom humor invariável e via na família seu maior tesouro.
    Casado com a professora Margarida da Mota Rocha, ex-secretária da Educação de Campina Grande, deixa nove filhas, todas realizadas profissionalmente.
    Como quase todo pai, Luiz Rocha queria um filho homem. Parou de tentar quando tinha sete meninas. Anos depois, decidiu com a esposa fazer a última tentativa. Aí nasceram duas meninas gêmeas.
    Além da família, meu tio tinha outro xodó: a Fazenda Lagoa Redonda. Publicou um livro sobre o seu paraíso preferido, Memórias do Sertão, através do qual revolve todo o seu passado e registra os momentos que lá viveu.
    Com 89 anos de uma história decente, o que nos conforta e aplaca a dor da perda, é saber que Luiz Rocha já tinha um lugar reservado lá no Céu. Ele tinha Deus no coração.


  • 18/11/2014

    O promotor sem lei


     O Promotor de Justiça Walfredo Alves Teixeira ameaçou uma família inteira de Sousa, precisamente no Campestre Clube, incluindo uma criança de apenas 7 anos. Ele disse que acabava com a "raça toda" da família. Vejam o vídeo.
    Esse atrabiliário Promotor já é habituado ao cometimento de ameaça, abuso de poder e de autoridade, entre outros crimes.
    A família precisa representar contra esse fora da lei no âmbito judicial, administrativo e no Conselho Tutelar.
    Ele infringiu o Código Penal (art. 147, entre outros dispositivos), a Lei Orgânica do Ministério Público da Paraíba (art. 207) e afrontou o Conselho Tutelar, que deve instaurar procedimento para proteger a criança da ameaça (tutela inibitória).
    O mínimo que esse sujeito deve ser é demitido do serviço público, pois sua "incontinência pública e escandalosa" compromete a dignidade da Instituição que ele integra.


  • 25/10/2014

    O veneno da Veja


     A revista ‘Veja’ circula nos sábados. Faltando poucas horas para a eleição presidencial, a revista circula desde ontem nas redes sociais com uma capa criminosa contra Lula e Dilma. “Eles sabiam de tudo”, diz a manchete, numa referência ao larápio confesso Alberto Youssef, preso na carceragem da Polícia Federal, envolvido no escândalo da Petrobras.

    Não é a primeira vez que a ‘Veja’ tentar “eleger” um presidente da República com base em mentiras, calúnias, injúrias e difamações. Ela tentou derrotar Lula e Dilma utilizando os mesmos artifícios de agora.
    Por que isso?

    A ‘Veja’ é apenas um detalhe de um grupo empresarial poderoso da família de imigrantes italianos, os Civita, sediada em São Paulo. Seus interesses no mundo dos negócios são variados, incluindo um imenso parque gráfico que atende a diversos governos estaduais controlados pela oposição.

    Mas a grande ambição da ‘Veja’, negada pelos governos Lula e Dilma, é ter um canal de televisão. Daí a fúria da revista. Ora, quem vai confiar uma emissora de TV a um grupo que é capaz de produzir reincidentemente manchetes criminosas como essa?

    A propósito, o advogado do doleiro Youssef, Antônio Figueiredo Basto, já desmentiu a ‘Veja’. E no depoimento que prestou em juízo, que é o que vale, o criminoso não fez a afirmação que a ‘Veja’ agora faz.

    E mais. O doleiro propôs um acordo de delação premiada, ainda não deferido pelo Poder Judiciário, o que o impede de falar fora dos autos.

    No domingo, a ‘Veja’ vai sofrer a quarta derrota em eleição presidencial.


  • 13/10/2014

    Entrevista com Pepê


     Hoje, 12 de outubro, resolvi inverter os papéis. Ao invés de falar sobre o meu filho mais novo, Pepê, preferi entrevistá-lo, para que falasse dele mesmo. O que pensa uma criança nascida no dia 18 de agosto de 2001? Quais são seus sonhos, suas crenças, seus ideais, suas convicções e suas expectativas quanto ao futuro? É o que vamos saber na entrevista a seguir.

    P – Quem é você?
    R – Eu sou Pedro Henrique Rocha de Sá Leitão, tenho 13 anos e estudo o 7º ano no Colégio Galois, em Brasília.
    P – Você ainda é uma criança?
    R – Sou criança até completar 16 anos. rsrsrsrsrs
    P – O que você quer ser no futuro, profissionalmente falando?
    R – Quero ser médico cirurgião-plástico e pretendo fazer especialização fora do Brasil.
    P – Qual é o bem mais importante que você tem?
    R – Minha família.
    P – Qual o melhor livro que já leu?
    R – Labirinto dos Ossos, de Rick Riordan.
    P – E da literatura brasileira?
    R – Contos e Lendas Afro-brasileiros, A Criação do Mundo, de Reginaldo Prandi.
    P – Nas férias de final de ano, qual livro pretende ler?
    R – O Código Da Vinci, de Dan Brown.
    P – E seu filme preferido?
    R – O Menino do Pijama Listrado, referente ao período nazista.
    P – Você gosta de política?
    R – Mais ou menos.
    P – Você vai bem nos estudos?
    R – Estou muito bem, minhas notas estão perfeitas e sem risco de ficar em recuperação.
    P – Qual a disciplina que mais gosta?
    R – Biologia.
    P – E a quem menos gosta?
    R – Português.
    P – Se você votasse, quem seria seu candidato a Presidente da República, independente da minha posição?
    R – Dilma, porque ela deu continuidade ao que Lula fez.
    P – E a governador da Paraíba?
    R – Cássio Cunha Lima, porque é o melhor para a Paraíba.
    P – Na sua opinião, qual o maior problema do Brasil?
    R – Corrupção.
    P – Gostaria de citar outros?
    R – Educação, Saúde e Segurança.
    P – Acredita em Deus?
    R – Sim.
    P – Qual é a sua religião?
    R – Católica, porque eu acredito em Santos.
    P – Que mensagem você passaria às crianças do Brasil?
    R – Estudem para que vocês tenham um futuro brilhante.
    P – Você é feliz?
    R – Sou.
    P – O que é ser feliz?
    R – É ter uma família que se importe com você, ter amigos, ter fé, ter saúde e enfim viver com alegria.


  • 29/09/2014

    Corrupção


     Toda vez que eu faço uma postagem sobre a eleição presidencial e manifesto minha preferência por Dilma,sofro alguns ataques, como se tivesse apoiando a praga da corrupção.
    Sugiro aos atacantes que revisitem a história do Brasil desde o Império, ou de Getúlio Vargas até aqui (para ficar na história recente) e me digam qual foi o governo que evitou completamente a presença de corruptos em seus quadros.
    A diferença é que no Brasil de hoje os corruptos são descobertos, punidos e presos.
    Dilma demitiu todos os envolvidos em atos de corrupção e não há uma única insinuação de que a Presidenta esteja envolvida em malfeitos.
    Dilma tem as mãos limpas e uma história de vida que jamais foi manchada por essa praga abominável.
    Desonestos? Todo partido tem os seus. E o seu partido também.
    É Dilma 13 para o Brasil continuar mudando!


  • 20/09/2014

    Corrida presidencial


     O Datafolha divulgou pesquisa hoje sobre sobre a disputa para a presidência da República.
    Dilma tem 37% das intenções de voto, Marina 30% e Aécio 20%. No segundo turno, as candidatas estão empatadas: 46 a 44 pró-Marina.
    Desde que os eleitores passaram a conhecer melhor a candidata da Rede-PSB, ela só faz cair.
    A ligação de Marina com os banqueiros talvez seja uma das causas mais fortes. Segundo a Folha de S. Paulo (19/09), o Instituto Marina Silva recebeu de Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú, R$ 1 milhão em 2013, o que corresponde a 83% dos custos da entidade no ano passado.
    Como a rejeição da ambientalista subiu de 11% para 22%, há quem diga que o segundo turno deverá ser disputado entre Dilma e Aécio.


  • 09/09/2014

    Na conta alheia


     Muita gente anda debitando na conta da presidente Dilma todos os problemas na área da educação pública. Uma falácia, para não dizer injustiça. Vamos à verdade.

    A responsabilidade pela execução das políticas públicas da educação é repartida entre a União, Estados e Municípios. Os estados respondem pelo ensino médio e os Municípios pela educação infantil e fundamental, entre outras competências.

    Já a União responde pelas universidades e escolas técnicas federais.
    Destes três níveis de ensino, só um funciona com nível de excelência: as universidades e escolas federais. O ensino nos níveis médio, infantil e fundamental são de qualidade bem inferior.

    É certo que a União tem o papel de, além de repassar recursos financeiros, induzir e sustentar políticas para a melhoria do ensino nos Estados e Municípios. Mas a GESTÃO é de competência exclusiva destes entes federados.

    Outra coisa. O Brasil gasta 5,7% do PIB em educação, índice superior aos gastos de países como Reino Unido, Canadá, Rússia, Alemanha e Estados Unidos.

    Portanto, vamos reclamar da qualidade da educação, sim. Mas o endereço principal é o de gestores que estão bem pertinho de nós - governadores e prefeitos.


  • 02/08/2014

    Parece, mas não é


     Carlinhos Beauty é, na expressão mais sofisticada, um famoso coiffer de Brasília. Quando, na infância, morava em Sousa, vendia os pastéis de Dodora na rua com grande desenvoltura e se chamava Chico Chagas. 

    Mas foi aqui na Capital da República que o sousense adotou o novo nome e descobriu a profissão que exerce hoje com brilho, glamour e admirável talento. Ele é o que os americanos chamam de self-made man.

    Chegou a Brasília lá pelos anos de 1970 e através do então deputado federal Antônio Mariz conseguiu uma colocação na área de serviços gerais da Câmara. Nas horas vagas, fez o curso de cabeleireiro por correspondência, descoberto casualmente na revista Contigo, e tornou-se o profissional de sucesso que é hoje.

    Depois de perder a eleição de governador em 1982, Mariz fora nomeado Diretor do BNH e fixara residência no Rio de Janeiro. Carlinhos considerava Mariz um verdadeiro pai e privava da intimidade da família do falecido político paraibano. No carnaval de 1983, Carlinhos se manda para a capital carioca para participar do Gala Gay, famoso baile carnavalesco da Cidade Maravilhosa. Do aeroporto, vai direto para o BNH e segue com Mariz para o apartamento.

    A família (Mabel, Adriana e Luciana) já tinha ido para João Pessoa e Mariz viajaria no dia seguinte. Os dois chegaram ao prédio, subiram juntos no elevador e enquanto o dono da casa assistia o noticiário pela TV, o hóspede se produzia para ir ao tradicional baile. E eis que Carlinhos surge na sala fantasiado de...baiana! Despedem-se e a “baiana” segue pelas ruas do Rio com destino ao baile gay.

    Mariz ficou refletindo sobre aquela cena e veio aquele estalo: “o que o porteiro do prédio vai pensar de mim? Subo aqui no apartamento com um sujeito, que depois desce vestindo roupa de mulher! Será que ele vai pensar que sou...?” Ele vai ao hall do prédio, puxa conversa com o funcionário, arrodeia o mundo todo, até explicar em detalhes quem era aquele hóspede, de sua origem sousense e da relação de amizade que tinha com sua família.

    Antônio Mariz me contou essa história dando boas gargalhadas. Quando perguntei se o porteiro tinha acreditado nas explicações dele, respondeu com aquela voz grave: sem dúvida, sem dúvida.


  • 29/07/2014

    Voto cruzado


     O eleitor paraibano não está nem aí para os palanques, as coligações e os candidatos em geral.
    A pesquisa divulgada pelo Correio da Paraíba aponta Dilma (PT) com 47,4% do eleitorado e Cássio (PSDB) com 45,5%. O mesmo cenário se repete em todas as demais pesquisas.
    Para os que confiam neste tipo de amostragem, o voto paraibano está cruzado, isto é, a escolha preferencial recai sobre dois candidatos de partidos adversários no plano nacional.
    Acredite se quiser.

     

    PESQUISA


    O Correio da Paraíba divulga pesquisa neste final de semana para o Governo do Estado, encomendada ao Instituto Souza Lopes.
    Segundo a amostragem, se a eleição fosse hoje, Cássio Cunha Lima (PSDB) seria eleito no 1º turno com 45,5% dos votos, contra 29,2% de Ricardo Coutinho (PSB) e 4,4% de Vital do Rego (PMDB).
    Traduzindo em números, e considerando o mesmo número de eleitores paraibanos das eleições de 2010, Cássio teria, em números redondos, 861 mil votos, Ricardo 553 mil votos e Vital 83 mil votos.
    Foram apurados na última eleição de governador na Paraíba 1.893.926 votos.
    Bem, tem gente acredita em pesquisa - e tem os que não acreditam.


  • 22/07/2014

    Surrealismo


     Há candidato disputando a eleição deste ano sem ser candidato. São os 21 suplentes dos senadores que disputam os cargos de governador de Estado e até de presidente e vice da República
    Esses "candidatos" sortudos são parentes ou foram financiadores da campanha eleitoral dos titulares em 2010.
    Chama a atenção o caso do candidato a governador Eduardo Braga (PMDB-AM), cuja suplente é a própria mulher, Sandra Braga.
    E assim caminha o sistema eleitoral brasileiro: com candidato que é, sem nunca ter sido.

    SIGNO


    De vez em quando leio meu signo nos jornais, escorpião. Herdei isso do meu supersticioso pai Leitão, mas não com o mesmo entusiamo dele. Na maioria, o meu signo passa longe do que sou e diz coisas que nada têm a ver com o meu dia. Alguns coincidem. E outros somam nada com nada. Foi o que aconteceu hoje.
    Vejamos a pérola. "ESCORPIÃO. Tudo, afinal, depende do humor em que você se encontrar. As pessoas dizem bobagens a maior parte do tempo, mas as falam de um um lugar que não é sério. Levá-las a sério é um erro que torna tudo desproporcional."
    Quem escreveu essas bobagens foi um certo Oscar Quiroga. Se você é de escorpião e entendeu algo, me ajude a decifrar isso.


  • 18/07/2014

    Joaquim nunca me enganou


     Esse Joaquim Barbosa nunca me enganou. Primeiro, porque não acredito em juiz que substitui a noção de Justiça pela de Justiciamento. Segundo, pelos truques jurídicos que imprimiu no julgamento da Ação Penal 470 (chamado mensalão), a exemplo da teoria do domínio do fato.
    Sem falar que, ao comprar um imóvel em Miami, criou uma empresa de fachada e deu como endereço o apartamento funcional do Supremo Tribunal Federal, onde reside; foi assistir a um amistoso do Brasil no Maracanã à custa do STF; e recebeu diárias para passear na Europa em pleno período de férias.
    Furacão midiático que angariou a simpatia de milhões de brasileiros, Barbosa amanheceu hoje na FOLHA DE S. PAULO, acusado de ter adiado a aposentadoria precoce para manter 46 assessores seus pendurados na folha do Supremo. 
    Aos 59 anos, o barulhento ministro vai passar o resto da vida recebendo o maior salário do Brasil SEM TRABALHAR.

     

    COMPRA DE VOTO
    O QUE DIZ A LEI...
    ...constitui captação de sufrágio o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública (art. 41-A, da Lei 9.504/1997).

    E O QUE DIZ SUA EXCELÊNCIA, O FATO...
    ...com eleições cada vez mais caras, a eficácia do predito dispositivo depende de um detalhe: combinar com o eleitor. Ou prever punição também para quem vende o voto.

    P.S.: ressalvo aqui a postura de eleitores que não se vendem (são poucos, mas existem).


  • 12/07/2014

    Deu na Folha


     Esse Joaquim Barbosa nunca me enganou. Primeiro, porque não acredito em juiz que substitui a noção de Justiça pela de Justiciamento. Segundo, pelos truques jurídicos que imprimiu no julgamento da Ação Penal 470 (chamado mensalão), a exemplo da teoria do domínio do fato.
    Sem falar que, ao comprar um imóvel em Miami, criou uma empresa de fachada e deu como endereço o apartamento funcional do Supremo Tribunal Federal, onde reside; foi assistir a um amistoso do Brasil no Maracanã à custa do STF; e recebeu diárias para passear na Europa em pleno período de férias.
    Furacão midiático que angariou a simpatia de milhões de brasileiros, Barbosa amanheceu hoje na FOLHA DE S. PAULO, acusado de ter adiado a aposentadoria precoce para manter 46 assessores seus pendurados na folha do Supremo. 
    Aos 59 anos, o barulhento ministro vai passar o resto da vida recebendo o maior salário do Brasil SEM TRABALHAR.


  • 30/06/2014

    Análise do jogo


     Em matéria de futebol, não sou babaca como Galvão Bueno e nem um expert como Felipão. Mas vou dizer umas coisas. Contra o Chile, Neymar não fez gol, Júlio César engoliu um frango, Fred continuou no zero e o juiz roubou um gol do Brasil. Nos penaltis, Hulk e Marcelo furaram e o chileno carimbou nosso goleiro, que defendeu um único penalti (o outro foi na trave). Sem essa de Júlio César herói, ok?
    Não vamos nos enganar: com esse futebol irregular, o Brasil ainda está longe de ser o favorito.
    Continuemos na torcida. Brasil sempre!


  • 15/06/2014

    O pagamento - uma história de Sousa


     Cervejeiro dos bons, socialmente muito ativo e presença desejada nas melhores mesas sousenses. Seu nome era Expedito Oswaldo de Sousa, mas era conhecido mesmo (não sei a razão) como Carrapeta. Costumava contar causos, verdadeiros ou não, sobre si mesmo.

    Vou recordar um deles, que ouvi do próprio. Ele me contou que devia um dinheiro ao industrial Luis Pereira de Oliveira, fruto de um adiantamento que pedira para pagar com algodão, logo após a colheita. Como o inverno não veio, o algodão não apareceu. Seca, mais uma, eis o problema.

    Foram inúmeras as cobranças, mas Carrapeta sempre conseguia postergar o pagamento da dívida. Até que um dia o espirituoso devedor compareceu no escritório de Seu Luis e bradou: “vim pagar minhas promissórias com juros e correção”. O credor, estupefato, logo se apressou a abrir o cofre, recolher a papelada, fazer os cálculos e exibir a conta.

    Como um raio, Carrapeta preencheu o cheque e saiu dali com um punhado de notas promissórias amarrotadas pelo tempo. Quase com a mesma velocidade, o industrial pegou seu guarda-chuva e seguiu direto para resgatar o cheque no Paraiban. Fila grande, mas a paciência de Seu Luis suportava qualquer sacrifício para dar um fim à longa espera do surpreendente pagamento da velha conta.

    Diante do caixa e com um discreto sorriso estampado no rosto, o portador
    entregou a cártula e ficou esperando contar o dinheiro. O ar sorridente se esvaiu quando o caixa informou que aquele “cheque” não tinha qualquer valor – era uma requisição de talão de cheques.

    Não sei se os dois personagens acertaram a conta um dia, porque também não sei se essa história é real. Talvez tenha sido uma bravata de Carrapeta com o intuito de provocar gargalhadas nas ruas de Sousa.

    P.S.: Luis Oliveira era uma das figuras mais admiráveis que conheci. Homem de posses, tinha uma postura serena, um silêncio que falava e uma simplicidade exuberante. Carrapeta, com sua cabeleira branca e sempre sorridente, foi um querido amigo e personagem singular da terra sousense. Além de ser tio de Aíla.


  • 12/06/2014

    O cordão dos puxa-sacos - I


     O que não falta em governos, qualquer um, é puxador de saco, conhecido no meu tempo de Sousa como xeleléu. A principal característica do puxa-saco está na capacidade que ele tem de derramar elogios no chefe – imerecidamente, frise-se. O patrão fez um discurso ruim, fora da curva e com um turbilhão de erros conceituais e gramaticais? O xeleléu corre em direção ao orador e dispara: brilhante, chefe!


    Outra coisa que eles fazem com maestria é adotar os hábitos do governante. Quando Tarcísio Burity assumiu o governo da Paraíba (1979), difundiu-se seu gosto pela música erudita. Foi o suficiente para transformar em eruditos os ouvidos dos auxiliares. Beethoven, Bach, Mozart, Vivaldi, Tchaikovsky e Strauss não conheceram época de maior popularidade em terras paraibanas do que na gestão Burity. Pelo menos no núcleo do governo, incluindo a turma do interior.

    Exagero dos exageros, alguns especialistas em bajulação resolveram aprender a tocar piano, como fazia Burity, e outros decidiram ler sobre Filosofia do Direito, especialidade do chefe. Diz a lenda que um desses cupinchas foi ao oftalmologista porque queria usar óculos, tal qual o governante. O exame de vista revelou que os olhos do examinado dispensavam o uso do objeto. Mas ele não se conformou e comprou os óculos. O grau das lentes? Zero.

    E ainda teve um prefeito que, para ficar parecido com o governador, removeu o bigode que usava havia 20 anos. E só devolveu os pelos ao visual quando o governo se foi.


  • 29/05/2014

    Trois fois vingt ans


     Você conhece o exame da trena, possivelmente inventado pelo ministro José Múcio? Então saiba aqui como ele é feito. Quantos anos você acha que vai viver? 80 anos? Já chegou aos 60? Pois tome nas mãos uma trena de um metro, subtraia 60 cm de 80 cm e o que sobrar é o resto da vida que você tem – 20 cm. Não fique triste, deprimido ou algo assim. Antes, agradeça pelo tempo que você viveu, pelas coisas que você viu, pelas alegrias que sentiu, pelos relacionamentos que teve, por tudo que produziu e até por fatos tristes que, vistos pelo prisma natural, lhe deram maturidade e trouxeram experiência.

    A cada aniversário, sobretudo a partir dos cinquenta, costumamos experimentar invariavelmente o sentimento da nostalgia. Comigo é assim. Um aniversariante com o meu perfil tem tudo para explodir de alegria e ao mesmo tempo fazer uma viagem pelas estradas do passado. É como rebobinar um filme adormecido na alma e fustigar na lembrança os momentos mais marcantes da quase longa caminhada. Não se trata de uma nostalgia que venha a produzir sentimentos ruins, mas uma forma de revolver o calendário, olhar para o atrás que não volta e sentir o coração pulsar. Elejo aqui um extrato das lembranças simples.

    Deixei em Sousa a maior parte das imagens da minha infância e adolescência. Dei uma passada rápida por Patos, cruzei o Piauí, em Floriano, aportei em terras cearenses, o Crato, até chegar a Catolé do Rocha para ser aluno operário no colégio agrícola. Naqueles tempos de ruas descalçadas guardo os cenários de banhos de bica na chuva, de bolas de futebol de borracha ou meia, de cidades sem trânsito, de políticos honestos, do gado que pedia passagem pela rua principal, da caça às rolinhas com baleeira, das parteiras que atendiam à domicílio, das bodegas que vendiam fiado, do padre que mandava em todo mundo, do delegado respeitado, do juiz íntegro e do professor austero. 

    Ah, Sousa. Por onde anda Zé Noca, os irmãos Nêgo João e Biano, Anchieta Cezarino, Arimatéia de Manoel Galdino, Deda de Mestre Deoclécio, Rommel de Luiza Leôncio, Chaguinha de Felizardo Marchante, Geraldo de Seu Chico do Queijo e até as raparigas de Terto, que adornavam o bairro da Palha? Numa certa esquina ficava o bar de Zé Mendes, no final da grande avenida a Boate Luar, no centro tinha a feira livre, mais ao lado a de mangai, numa rua escondida a oficina de Valmir, e ainda: o bar de Firmo com seus pássaros cantantes, o Cine Moderno com seus filmes de Tarzan e depois de uma boa caminhada a barragem de Seu Azarias. Belos tempos, velhas e inapagáveis lembranças.

    Após, foi a vez de pisar no asfalto do Recife e ser apresentado a objetos estranhos: elevador, escada rolante, ônibus elétricos e arranha-céus. De assistir Romeu e Julieta no luxuoso Trianon, peças de Ariano Suassuna no Teatro do Parque e exposição de artes plásticas nas galerias de Olinda. De incursionar pela noite esquentando o sangue com o chope do Mustang, depois dançar no Clube Internacional ou na boate Ferro Velho, até encerrar a jornada etílica na Cantina Star (que galeto!). Foi na Capital pernambucana que entrei de cara no mundo literário.

    Encontrei-me com Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Raquel de Queiroz e outros consagrados escritores brasileiros, temperando com Shakespeare, André Gide, Kant, Hermann Hesse, Sócrates, Aristóteles e Platão, entre outros autores permitidos pela ditadura militar. Li o proibido Capital de Karl Marx clandestinamente, não entendi bulhufas, mas era leitura obrigatória no nosso meio: até quem não havia lido devia dizer que leu. Ou era um out side. Naquele tempo não era permitido pensar diferente, falar diferente e expressar uma arte, por exemplo, que fosse incompatível com o establishment dos generais.

    Há muitos outros momentos marcantes que vivi. Em todos fui muito feliz e mais feliz ainda nas dificuldades que superei e nas batalhas que venci. Já fiz de quase um tudo. Até chegar a Brasília, onde estou hoje, há muitas outras histórias para contar. Nestas linhas estão poucas cenas de um longa-metragem. Ou fragmentos de histórias completas. Em tempo: quer saber a minha idade? Basta traduzir o título acima – deste texto e do filme de Julie Gavras. 

    P.S.: republicado a pedido da saudade.


  • 23/05/2014

    O cordão dos puxa-sacos


     O que não falta em governos, qualquer um, é puxador de saco, conhecido no meu tempo de Sousa como xeleléu. A principal característica do puxa-saco está na capacidade que ele tem de derramar elogios no chefe – imerecidamente, frise-se. O patrão fez um discurso ruim, fora da curva e com um turbilhão de erros conceituais e gramaticais? O xeleléu corre em direção ao orador e dispara: brilhante, chefe!


    Outra coisa que eles fazem com maestria é adotar os hábitos do governante. Quando Tarcísio Burity assumiu o governo da Paraíba (1979), difundiu-se seu gosto pela música erudita. Foi o suficiente para transformar em eruditos os ouvidos dos auxiliares. Beethoven, Bach, Mozart, Vivaldi, Tchaikovsky e Strauss não conheceram época de maior popularidade em terras paraibanas do que na gestão Burity. Pelo menos no núcleo do governo, incluindo a turma do interior.

    Exagero dos exageros, alguns especialistas em bajulação resolveram aprender a tocar piano, como fazia Burity, e outros decidiram ler sobre Filosofia do Direito, especialidade do chefe. Diz a lenda que um desses cupinchas foi ao oftalmologista porque queria usar óculos, tal qual o governante. O exame de vista revelou que os olhos do examinado dispensavam o uso do objeto. Mas ele não se conformou e comprou os óculos. O grau das lentes? Zero.

    E ainda teve um prefeito que, para ficar parecido com o governador, removeu o bigode que usava havia 20 anos. E só devolveu os pelos ao visual quando o governo se foi.


  • 07/05/2014

    Minha vida de engraxate


     Desde os tempos de menino eu sempre tive uma queda para ganhar uns trocados seja lá no que fosse. Certo dia, quando tinha mais ou menos 10 anos de idade, resolvi comprar escova, flanela e latas de graxa nas cores preta, marrom e incolor. A partir de então passe a ter uma profissão: engraxate.

    Exerci esse ofício nas casas de parentes. Clarence Pires, casado com minha tia Risélia, passou a ser meu cliente, ao lado de Jucélio Rocha e outros. Com o ganho, não precisava pedir dinheiro aos meus pais para ir ao cinema assistir Rocky Lane, Doutor Satan ou Tarzan no Cine Moderno e cobrir outros gastos.

    O que eu não esperava era que minha nova ocupação fosse interrompida por um problema que surgiu dias depois. É que em Sousa tinha um engraxate chamado Doge, um cidadão de meia idade, baixo e que engraxava calçados à domicílio. Tinha mais quilômetros rodados pela cidade do que o caminhão de Seu Varela. A cada dez metros de caminhada pelas calçadas, parava e bradava com a força dos dois pulmões: engraxaaaaaaaaate!!!

    Senti que havia tomado alguns clientes de Doge. Eu ainda não sabia o que era concorrência desleal, mas hoje sei que o sentimento era esse. Tinha pena do velho engraxate toda vez que o via caminhando e gritando pelas ruas. Abandonei a nova profissão, aliviado.

    Bem, Sousa perdeu um engraxate. Mas ganhou o que eu fui em seguida e sou até hoje.

    Moral da história: estudar é preciso.


  • 30/04/2014

    Ciganinho aboiador


     Ontem Aurélio Rocha me colocou na linha com Ciganinho Aboiador, que já morou na casa dos meus pais e é considerado um irmão de criação. Aí eu me lembrei dessa história.

    Fui com Luis de Lauro Rocha, meu querido primo e amigo, para uma vaquejada em Tenente Ananias (RN). Luis namorava uma distinta e cobiçada moça, filha de um rico minerador chamado Miguel Alves. 

    Estávamos numa imensa mesa com comida e bebida fartas, quando chega Ciganinho Aboiador e dispara os aboios. Falou bem de mim como advogado e filho de Chico Leitão e Chiquitinha, derramou loas sobre o rico Miguel Alves e outras figuras da mesa, mas esqueceu de Luis.

    Pedi ao poeta que homenageasse o meu primo, para fazer uma média com o anfitrião e futuro sogro. Luis se ajeitou na cadeira para receber os elogios e Ciganinho acunhou essa: Luis de Lauro Rocha/Seu nome é destemor/Já brigou com delegado, juiz e promotor/O homem é tão afoito/Que só na comarca de Sousa/De processo tem dezoito...

    O reboliço estava feito. O pai da moça mandou que a filha acabasse o namoro imediatamente. Luis queria partir para dar uns sopapos no aboiador, mas eu o convenci de que Ciganinho disse aquilo pensando que estava exaltando a bravura dele. Além disso, não valia a pena incluir na coleção mais um processo. Deu certo.

    P.S.: não sei de onde o repentista tirou aquela ideia de que Luis tinha dezoito processos.


  • 22/04/2014

    Perdido na rua


     Ontem acordei com uma ideia estranha. Queria andar pelos lugares de Brasília e conhecer um mendigo. Conversar com ele. Saber da sua vida. 

    Fui ao Setor Comercial Sul e lá estava quem eu procurava. Seu nome era composto: José Francisco. “O nome do Papa e do Santo”, foi logo me dizendo. Eu emendei: e do meu pai também! Como tem Francisco e José neste mundo, pensei comigo mesmo.

    Sentado na calçada, sujo, barbado, cabelos retorcidos, roupas puídas e uma latinha na mão para recolher as moedas doadas acidentalmente, o meu interlocutor não fez uma única queixa da condição de miserável. “Esse é o meu destino, estou aqui para pagar pelo que fiz em outra vida”, filosofou.

    A história de Francisco José pode ser a reprise da de outros mendigos espalhados pelas calçadas do desamparo. Perdera a mulher precocemente no parto daquele que seria o primeiro filho, abandonara o trabalho de servente de pedreiro e mergulhara no alcoolismo desenfreado. 

    Agora estava ali: solitário em meio à multidão, faminto na maior parte do dia e sempre aflito com a chegada da noite – não gostava do escuro. Associava a escuridão com a morte e quase sempre acordava com a sensação de que algum mal feitor estaria a caminho para tirar-lhe a vida.

    Dei-lhe uma cédula que ele jamais havia visto, desejei-lhe boa Páscoa e ele, com 51 anos e cara de 70, abriu o sorriso desdentado e disse: “Deus lhe pague!”. Amém.

    Apesar de pesares como este, vamos seguir em frente com fé em Deus e Jesus no coração. Feliz Páscoa a todos os amigos e amigas que a vida me deu de presente.


  • 18/04/2014

    O silêncio de uma voz


     Ele nasceu em berço de ouro, tinha pinta de galã, se vestia como galã, andava e cantava tal um galã. Esse era Vandinho Dantas, o artista que representava a Jovem Guarda sousense lá pelo final dos anos de 1960.

    Lembro bem dele cantando nessa época na Praça do Bom Jesus sucessos de Roberto e Erasmo Carlos, entre os quais A Garota do Baile, Brucutu e Festa de Arromba.

    Calça boca de sino, cinturão largo, casaco vistoso, um par de botas e uma cabeleira à John Lennon emolduravam o artista sousense no mesmo figurino dos ídolos cariocas. Ou dos Beatles.

    Vandinho tinha tudo para seguir a carreira artística, sua mais visível paixão. Criou sua própria banda, cantou em festas de clubes e embalou em sonho esse projeto. Andou por São Paulo, talvez em busca de uma chance, mas acabou retornando à cidade natal. Já um pouco fora do ramo, dava uma ‘canja’ nos intervalos das festas e deslizava pelo amplo salão do Sousa Ideal Clube cantando Django, do argentino Luis Bacalov, e Zingara, do italiano Gianni Morandi. A plateia aplaudia fortemente e o cantor ficava em êxtase.

    Bem, de cantor a outras profissões exercidas ao longo da vida, Vandinho foi aquele que jamais se deixou desanimar. Adoeceu, amputou uma perna, substituiu o andar cadenciado pela cadeira de rodas, enfrentou dificuldades de toda ordem e mesmo quando virou vendedor de espetinhos, manteve seu charme e bom humor.

    Com a partida para os céus, sua voz silenciou, mas ficou ecoando na lembrança de cada um de seus admiradores, a começar por mim. A minha querida amiga Socorro Formiga, e familiares, o meu pesar – com a voz do coração.


  • 09/04/2014

    Entre dois amores


     Houve uma eleição que ficou na história de Sousa por duas ordens diferentes de razão. A saber.

    Foi no ano de 1947 que a eleição sousense foi polarizada entre o Major Emídio Sarmento de Sá (PSD), meu avô, e o Coronel José Ferreira Rocha (UDN), meu bisavô. Ou seja, o inédito confronto era entre genro e sogro. Na incômoda posição de escolher entre o marido e o pai – seus dois amores –, estava minha avó Maria Olívia. 

    Certa vez perguntei a ela em quem tinha votado. “Depois que a mulher casa, deve acompanhar o marido. Votei em Emídio, mas não deixava ninguém tirar voto do meu pai”, disse, com orgulho e firmeza.

    E contou um fato ocorrido no dia da eleição. Era tradição naquela época o candidato matar bois e preparar o almoço dos eleitores. Já passava do meio dia quando um cidadão da zona rural desmaiou na frente do sobrado do candidato Emídio. Foi socorrido para o interior da residência e, quando recobrou os sentidos, veio a saber que estava na casa do candidato do PSD. Desesperado, pediu para sair dali, pois votava no candidato adversário, José Rocha.

    Quando percebeu que os cabos eleitorais tentavam convencer o homem a mudar o voto, minha avó interveio com firmeza. ”O senhor não vai sair daqui agora, vai almoçar e depois vai votar no meu pai”, sentenciou.

    Meu avô venceu a eleição com 2.519 votos, meu bisavô obteve 2.063 e Eládio Melo (PDC) 1.611. Terminada a apuração, o candidato da UDN foi jantar na casa do candidato eleito do PSD. Hoje, o encontro entre vitorioso e derrotado depois da proclamação do resultado da eleição pode terminar em bala.


  • 03/04/2014

    Eu, Mariz e talvez você


     Eu, Mariz e talvez Você
    O 16 de setembro de 1995

    Já não sei mais onde me encontrava naquele sábado escuro. Mas sabia que a qualquer momento a notícia chegaria. Em estado de pré-coma desde o dia anterior, o mais importante doente da Paraíba estava prestes a partir para a eternidade. O telefone tocou. Era o vice-governador José Maranhão. A agonia de Mariz, disse, chegara ao fim.

    Corri em direção à Granja Santana. Àquela altura a notícia já se espalhara com a velocidade da luz. Rádio ligado, ouvi do carro a voz do secretário de Comunicação Social, jornalista Walter Santos, anunciando à imprensa o falecimento do governador Antônio Marques da Silva Mariz, 57 anos, às 18h58, na residência oficial do governante. Embora já houvesse uma natural expectativa para aquele desfecho triste, o fato é que a comoção tomou conta de cada um dos cidadãos de todos os municípios do estado.

    Eu já chegara na área externa da Granja, completamente atordoado, quando fui abordado pelo radialista Luiz Otávio (Rádio Correio, já falecido) para prestar uma declaração sobre a morte de Mariz, mas a voz fora cortada pelo choro convulsivo. Não conseguia falar. Havia uma intensa movimentação de pessoas que chegavam ou saiam do local, sobretudo de deputados, prefeitos e auxiliares do governo, além de familiares e amigos do falecido. Segundos após o anúncio do falecimento, muitos aproveitaram a ocasião e saíram em desabalada carreira do interior da Granja para fazer uma aparição na televisão e no rádio, no papel de porta-vozes não autorizados da má notícia. 

    Começamos a falar sobre os preparativos do funeral, essas coisas que vão nos conduzindo ao enquadramento real da situação. O caixão, o velório, o horário do sepultamento, a nota oficial a ser publicada nos jornais, o convite público para a última homenagem ao morto, a passagem pela Assembléia, a organização da visitação pública em Palácio. Mariz morto? Impossível acreditar que aquele gigante da política estivesse agora sem vida, impotente, inerte, sendo embrulhado num palitó e logo em seguida conduzido por várias mãos para dentro de um caixão que, horas depois, seria depositado numa vaga do jazigo familiar do Cemitério Senhor da Boa Sentença.

    Líder do governo na Assembléia Legislativa, cabia-me o papel de, juntamente com o presidente Carlos Dunga, mobilizar o colegiado para as homenagens de estilo. Foi difícil conciliar a emoção provocada pela perda do líder e amigo com os procedimentos comuns a ocasiões como aquela. Escalado para fazer o discurso de despedida em nome dos colegas, dirigimo-nos da Assembléia ao Palácio da Redenção e postamo-nos diante do caixão, colocado estrategicamente no salão de entrada, facilitando o acesso direto do grande público para o último adeus a Mariz. Confesso que me preparei para a ocasião, mas fui um fracasso total. Ao fitar o corpo imóvel daquele verdadeiro El Cid paraibano, na feliz comparação do jornalista Anco Márcio, não passei de algumas palavras e logo as lágrimas me impediram de prosseguir na oração. Fui socorrido pelo então deputado federal Gilvan Freire.

    A Paraíba toda estava parada, perplexa, triste, de luto. As emissoras de rádio, de Cabedelo a Cajazeiras, substituíam a programação normal para intercalar música fúnebre com depoimentos sobre a figura do falecido governador. A Rádio Tabajara, que tinha como superintendente o jornalista Petrônio Souto, liderou a maior cadeia de emissoras de rádio da história da Paraíba na cobertura de um evento. O passo a passo – do anúncio do óbito ao sepultamento – foi acompanhado em tempo real pela emissora oficial e resultou no livro O ADEUS A MARIZ – A Cadeia da Solidariedade (A União, 1995). 

    Para o sepultamento de Mariz vieram o presidente da República em exercício, Marco Maciel, e os governadores: Miguel Arraes (PE), Mão Santa (PI), Garibaldi Alves (RN), Antônio Brito (RS), Divaldo Suruagy (AL), Albano Franco (SE) e Moroni Torgan (CE, em exercício). Além de políticos, autoridades, intelectuais, empresários e pessoas das elites em geral, o que teve de mais significativo foi a participação popular. Os microfones da Tabajara ficaram congestionados com ligações telefônicas vindas dos mais distantes lugares, inclusive da zona rural. Eram pessoas simples e humildes que ligavam de telefones públicos para manifestar seu pesar pelo falecimento de Mariz, com a sincera intimidade que tinham com o líder. Sim, porque Mariz tinha, digamos, uma linha direta com as pessoas comuns e uma incomum paciência para ouvi-las. Durante anos de convivência, fui testemunha dessa interlocução de sinceridade e pureza entre o líder e liderados.

    Ao contrário do que muitos imaginam, a doença do inveterado fumante Mariz não fora causada pelo enfisema pulmonar. Ele teve câncer de reto, que se manifestou no ano de 1992. Lembro da primeira visita que lhe fiz no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, após a cirurgia. Estava acompanhado do então prefeito de Sousa, Mauro Marizinho Abrantes, e do médico sousense João Bosco Gadelha de Oliveira, já falecidos. Envergando um estranho jaleco branco (ou uma bata), essas roupas de doente, tomei um susto. Aquele não era o Mariz dos palanques, o gigante das ruas, o político dos debates, o parlamentar dos discursos brilhantes, o homem que transpirava coragem e seriedade na sua trajetória de vida pública. Ou privada.

    - Tudo bem, Inaldo? Tudo bem, Marizinho? Tudo bem, Bosco?, repetiu, no seu estilo característico de mencionar o nome de cada interlocutor. – E as coisas em Sousa?

    Respondemos quase em coro que tudo ia bem e que todos lá torciam por sua recuperação.

    - Estou sentindo falta do cigarro, lamentou. – Mas consegui fumar um escondido atrás do biombo, disse com um sorriso tímido e quase envergonhado pela dependência do free longo box. Mas, ao mesmo tempo, como se tivesse feito uma travessura bem sucedida.

    Não devíamos demorar muito, a cirurgia era recente e o paciente precisava de descanso. Na época eu era Secretário de Cidadania e Justiça do governo Ronaldo Cunha Lima, justamente indicado por Mariz. Indagado por ele, informei que Ronaldo estava fazendo uma excelente gestão, tinha uma boa dinâmica de trabalho e, apesar do quadro econômico difícil no país (Fernando Collor era o presidente), as coisas estavam indo bem. Despedimo-nos, enfim, mas eu, particularmente, sai do encontro carregando uma imensa tristeza, embora não fosse médico e não pudesse dimensionar a real gravidade da situação. Porém, só em saber que era câncer...

    De fato, essa impiedosa doença não largou Mariz nos anos seguintes. Submetido ao doloroso tratamento, enfrentou-a com serenidade e coragem, embora com a aflição presente em certas ocasiões. Passou a ter uma vida mais limitada, reduziu o ritmo das viagens, economizou ainda mais na bebida. Só não conseguiu se livrar do cigarro e diminuir a paixão pela política.

    Já governador, Mariz embarcou para Sousa no dia 1º de maio de 1995, data que era uma de suas preferidas, desde quando era o jovem prefeito de Sousa, em 1963, e comemorava com entusiasmo o dia do trabalhador. Na noite anterior, 30 de abril, participamos do carnaval fora de época da cidade, o Sousafolia. Embora estivéssemos no camarote, não conseguimos nos proteger totalmente da chuva fina com vento que animava a festa. Acredito que a neblina tenha provocado a gripe seguida de pneumonia que lhe acometeu. Às 7 horas da manhã seguinte, Mariz compareceu à missa na Igreja do Bom Jesus Aparecido e sentiu os primeiros sintomas da gripe, associada com a fragilidade de seu estado de saúde. Teve um quase desmaio no templo religioso e foi levado para descansar em casa. Isso não o impediu de cumprir agenda no gabinete da presidência da Câmara Municipal e lá receber prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias e gente do povo. Um tumulto.

    Como o quadro estivesse se agravando, o retorno do governador a João Pessoa fora antecipado para aquele mesmo dia. O consenso era um só: Mariz devia ir para São Paulo imediatamente. Mas ele não queria. Cheguei na Granja Santana de manhã e o vi respirando através de um pequeno equipamento de oxigênio. E fumando. Conversei com Mabel (esposa) e ela disse que Mariz não queria se tratar fora da Paraíba, mas ia insistir. Liguei para os senadores Humberto Lucena e Ronaldo Cunha Lima e combinamos uma pressão conjunta sobre o rebelde doente. Depois de muita conversa, respiramos aliviados. Ele iria para São Paulo, precisamente para o Hospital Albert Einstein. Aí surgiu um novo problema. Liguei para o chefe da Casa Militar, coronel Lima Irmão, comunicando a decisão e solicitando as providências para a viagem, principalmente a locação de uma aeronave.

    -Viajo no vôo comercial, não há necessidade de locar um avião, até porque é muito caro, falou no seu estilo austero.

    Foi necessária a intervenção da equipe médica que o assistia, à frente Ricardo Maia, determinar expressamente que ele tinha que viajar numa aeronave especial, devidamente equipada e com um médico e uma enfermeira a bordo, acompanhando-o durante o percurso. Ainda hoje lembro da expressão no rosto de Mariz na hora da partida. Subi na aeronave, ele estava na poltrona bem reclinada, apertou forte a minha mão e eu lhe disse para voltar rapidamente e curado, pois a Paraíba precisava dele. Embora não fosse possível esconder a debilidade física, seus olhos tinham um brilho especial e bonito, como que revelando, em contraste, a enorme vontade de viver.

    Fui inúmeras vezes a São Paulo visitar Mariz no Hospital. Numa das últimas visitas, estávamos eu, Mabel, o secretário de Infra-Estrutura Carlos Pereira e o coronel Lima Irmão, chefe da Casa Militar e que cumpria mais do que uma obrigação do cargo: revelou-se um desses raros amigos que a vida nos oferece. O governador chamou Pereira, um auxiliar de sua escolha pessoal e velho amigo. Depois foi a minha vez. Começou a falar com algum esforço e na primeira frase já fui percebendo que aquele era um encontro de despedida. 

    - Já conversei com Carlos Pereira e com Maranhão. Quero entregar minhas bandeiras a vocês. As estradas de Sousa precisam ser feitas (ligação para Santa Cruz, São José da Lagoa Tapada, Nazarezinho e Lastro), esses foram compromissos que assumi. 

    E saiu listando as ‘bandeiras’, que era como se referia ao que julgava como as primeiras ações do governo: o canal de transposição de águas Coremas/Sousa; o projeto dos Ciganos, que consistia em instituir um meio de vida para aquela comunidade discriminada e ex-nômade; o programa estadual de combate à fome e à miséria; e a construção do Centro Cultural de Sousa, cujo projeto fazia questão que fosse de Oscar Niemayer. Sai da conversa arrasado. Tomei um táxi para o hotel e fui tomado por uma estranha falta de ar. Mandei o motorista parar, paguei o percurso utilizado e segui caminhando pelas ruas de São Paulo. Só assim voltei a respirar normalmente (descobri depois que tanto no período de tratamento quanto após a morte de Mariz contrai uma doença chamada síndrome de pânico. Minha cura foi rápida). 

    Sempre que visitava Mariz em São Paulo, ele falava sobre a data do casamento da filha Luciana. Eu percebia que ele gostaria de viver até aquele dia, ainda que não dissesse (claro) expressamente. Data marcada, fui a Brasília para a cerimônia. Tomamos o café da manhã no seu apartamento. O prefeito Marizinho e a primeira-dama Maria do Socorro estavam comigo e Aíla. Mariz se contorcia muito. Sentia dores e não encontrava posição para sentar fixamente na cadeira. Conversamos sobre várias coisas e saímos dali melancólicos.

    De noite, na Igreja, o coronel Lima Irmão me informou que Mariz não teria condições de conduzir a noiva da entrada da Igreja até o altar. Era o jeito entrar pela porta lateral e fazer um trajeto bem menor. Feito isto, foi providenciada uma cadeira de almofada para que o pai da noiva assistisse à cerimônia sentado. Ainda assim, Mariz demorou-se mais do que o previsível na recepção, que ocorreu numa casa de festas do Lago Sul. A alegria pelo casamento de Luciana era o combustível para a resistência heróica do doente Mariz. Aquele quadro de debilidade, entretanto, aprofundava minha tristeza, apesar de ser um dia de festa.

    Depois daquele início de maio, Mariz só voltaria à Paraíba no terceiro decêndio de agosto. O desembarque ocorreu no Hangar do Estado na tarde de um domingo, sendo do conhecimento de um restritíssimo grupo de pessoas. No dia seguinte fui chamado pelo governador à residência oficial. Cheguei bem cedo. 

    -Tudo bem, Inaldo? E as coisas, como vão?, perguntou-me.

    -Agora estão bem, com a sua chegada... – respondi, meio acanhado, pois tomei um choque ao ver Mariz numa cadeira de rodas, se contorcendo um pouco, usando óculos que antes não tinha (a não ser para leitura) e um tanto envelhecido e magro. Mas, ao mesmo tempo, fiquei feliz em tê-lo de volta, vivo, respirando e com a cabeça em ordem.

    -Gostaria de reunir a bancada (estadual) do governo hoje aqui na Granja, você acha possível?

    -Bem, apesar de ser uma segunda-feira, com os deputados quase todos viajando para o interior, eu posso tentar, vou iniciar os contatos imediatamente.

    E assim fiz. A notícia do retorno do governador era suficiente para que os deputados retornassem com incrível rapidez para participar da reunião à noite, apesar de ser um dia impróprio, pois a segunda-feira é um dia reservado aos parlamentares para visitar as “bases.” Outro motivo talvez não fosse capaz de tamanha façanha.

    Às 19 horas eu já estava na Granja. Minutos depois os deputados começaram a chegar, de modo que antes das 20 horas todos, sem exceção, estavam presentes. Mas aí aconteceu um imprevisto. Mariz estava com muitas dores e não tinha como participar da reunião. Fui chamado por Cláudio de Paiva Leite, seu amigo pessoal e chefe de Gabinete, até o quarto para falar com o governador.

    - Estou com uma dor de lascar e sei que os deputados estão aí. Vieram todos?

    - Todos, nenhum faltou, seu prestígio com a bancada é muito grande, registrei.

    - Pois é, o problema é que não posso me levantar, disse, queixoso. O que fazemos?

    - Eu tenho uma idéia: se você concordar os deputados virão ao seu quarto em grupo de três. Nada de despacho, só vão lhe cumprimentar e sairão daqui satisfeitos e certos de que você está bem e vivo, ponderei, em tom relaxado, meio moleque.

    Mariz concordou com a solução apresentada e assim foi feito. A cada grupo que entrava Mariz dava um show de boa memória e isso impressionou os parlamentares. Perguntou a todos por pessoas a eles ligadas por laços de parentesco ou da relação política. Com isso, sua prodigiosa memória compensou a debilidade física. Deputado vive de prestígio, real ou aparente. Na manhã seguinte, na sessão da Assembléia, os parlamentares se revezavam na tribuna e concediam entrevistas no Comitê de Imprensa para narrar o contato com o governador, enfatizando que Mariz estava com “a cabeça ótima”. Ora, para se governar, mais vale o cérebro do que as pernas. A missão estava cumprida. Por enquanto.

    O último esforço público de Mariz ocorreu em 21 de agosto daquele 1995, no dia seguinte ao encontro com a bancada. Ele concedeu uma entrevista coletiva na Granja Santana, ocasião em que deixou claro o seu compromisso prioritário com os servidores públicos estaduais, reafirmou a necessidade de levar adiante a reforma administrativa, falou sobre sua participação nas eleições municipais e de seu estado de saúde. A uma pergunta sobre o que mais queria fazer depois do seu retorno à Paraíba, a resposta bem traduzia a personalidade do governador: “O que eu mais queria, mais quero, é ter um contato mais direto com o povo paraibano, porque quero estar me deslocando, participando das inaugurações, do início das obras, em suma, receber as pessoas, conversar com elas. Isso é realmente muito importante, que é ouvir as pessoas”. Pronunciadas por outro político, podia gerar a suspeita de que fossem palavras demagógicas. Jamais seria o caso de Mariz – ele era assim mesmo, sinceramente.

    Os dias seguintes foram complicando o quadro de saúde do governador. As dores aumentavam. A agenda de trabalho era cada vez mais reduzida. Era a conseqüência da metástase que se espalhava pelos órgãos vitais e pelos ossos, incluindo a calota craniana.

    Acho que dei uma das últimas alegrias a Mariz. Ele queria construir um Centro Cultural em Sousa e seu arquiteto seria Oscar Niemayer, o gênio da arquitetura brasileira, idealizador de Brasília e reconhecido mundialmente. Pediu-me para, juntamente com Carlos Pereira e Iveraldo Lucena (secretário de Educação), viajar ao Rio de Janeiro e convencê-lo a elaborar o projeto. Como nossa agenda não coincidia, resolvi ir sozinho. Voei para a Cidade Maravilhosa cedo da manhã, conversei com Niemayer no seu escritório na avenida Atlântica e retornei a João Pessoa na noite do mesmo dia com a boa notícia: o projeto seria elaborado pelo grande arquiteto. Na manhã do dia seguinte aportei na Granja, fui até seu quarto e comuniquei o fato a Mariz. Nem as dores que estava sentindo naquele momento foram capazes de lhe retirar um sorrriso de felicidade. Seus olhos expressaram uma alegria especial.

    Essas lembranças estavam comigo no velório, no trajeto para o cemitério, na hora do sepultamento, tudo embalado pela voz da cantora lírica Ana Gouveia ao entoar a Oração de São Francisco. Parece que nesses momentos, em que perdemos uma pessoa querida, o passado revolve a nossa mente. Aquilo era como um filme. Eu via Mariz em vários momentos de nossa convivência. Na “Casa Grande” de Sousa, em que uma animada conversa na sala principal reunia os correligionários mais fiéis nas suas visitas à cidade, às vezes varando a madrugada. O grupo variava de acordo com o poder político que Mariz detivesse na ocasião. Depois que perdeu a eleição de governador em 82 e ficou sem mandato, os freqüentadores rareavam. Ou no terraço da casa de dona Noêmi, sua mãe, onde costumávamos colocar os assuntos em dia, exercitando nosso senso crítico. O ‘filme’ passava também as imagens das campanhas eleitorais, da apuração das eleições, dos comícios, das passeatas e carreatas, das alegrias e das tristezas com o resultado das urnas.

    E agora eu estava ali, comprimido entre uma multidão de pessoas tristes e que rezavam – certamente as mesmas que foram às urnas na última eleição e depositaram as esperanças de dias melhores no governador – acompanhando todo aquele ritual de tristeza, frustração e lágrimas, muitas lágrimas. O momento final foi o mais triste e impactante. O caixão descia lentamente cova abaixo, e o coveiro, impassível (os coveiros são assim, naturalmente), procurava fazer os ajustes necessários para o encaixe preciso naquele cubículo. Só aí eu percebi realmente que Mariz havia partido de nossa vida, saído de nossa história e sumido dos nossos olhos – para sempre


  • 03/04/2014

    Entre dois amores


     Foi no ano de 1947 que a eleição sousense foi polarizada entre o Major Emídio Sarmento de Sá (PSD), meu avô, e o Coronel José Ferreira Rocha (UDN), meu bisavô. Ou seja, o inédito confronto era entre genro e sogro. Na incômoda posição de escolher entre o marido e o pai – seus dois amores –, estava minha avó Maria Olívia. 

    Certa vez perguntei a ela em quem tinha votado. “Depois que a mulher casa, deve acompanhar o marido. Votei em Emídio, mas não deixava ninguém tirar voto do meu pai”, disse, com orgulho e firmeza.

    E contou um fato ocorrido no dia da eleição. Era tradição naquela época o candidato matar bois e preparar o almoço dos eleitores. Já passava do meio dia quando um cidadão da zona rural desmaiou na frente do sobrado do candidato Emídio. Foi socorrido para o interior da residência e, quando recobrou os sentidos, veio a saber que estava na casa do candidato do PSD. Desesperado, pediu para sair dali, pois votava no candidato adversário, José Rocha.

    Quando percebeu que os cabos eleitorais tentavam convencer o homem a mudar o voto, minha avó interveio com firmeza. ”O senhor não vai sair daqui agora, vai almoçar e depois vai votar no meu pai”, sentenciou.

    Meu avô venceu a eleição com 2.519 votos, meu bisavô obteve 2.063 e Eládio Melo (PDC) 1.611. Terminada a apuração, o candidato da UDN foi jantar na casa do candidato eleito do PSD. Hoje, o encontro entre vitorioso e derrotado depois da proclamação do resultado da eleição pode terminar em bala.


  • 27/03/2014

    O passado não morre


     Eu não sabia que tinha tantos amigos da saudade, como mostram os comentários e as curtidas na postagem de ontem sob o título acima. A pedido, vou produzir esta última parte, com o perdão pelo involuntário esquecimento. Vou começar lembrando...
    ...Zuca Gordo sentado numa enorme cadeira no armazém; Valdecírio vendendo gás butano; João Cazé dirigindo a Rádio Progresso; Tosinho Teodoro jogando pif com Manoel Galdino; Doutor Grilo cantando O Nosso Amor Durou Somente uma Semana; Maria de Miguel vendendo sonho na festa de setembro; Pedro Gadelha abrindo a padaria às 4 da manhã; Doutor Marinho extraindo dente sem anestesia; Joel Lunguinho vendendo sandália japonesa na feira; Zamba dando um banho de cuia; Lauro Nobre esbanjando elegância; e Izonel Guimarães recitando Ivanildo Vilanova.
    MAIS? Nias Gadelha tocando sax; Luziné fazendo um gol do meio do campo; Zé Honório, todo zen, me dando lições de sabedoria; Padre Dagmar trocando o sermão pelo carão; Rômulo Pires soltando suas gracinhas; Márcio Paiva imitando Padre João; Neném de Lígia acordando de ressaca; Chico Malota contando piada no Bar da Bosta; Chico Camarão trocando o dia pela noite; Merico recebendo o troféu de folião no carnaval do Ideal Clube; Pilóia, quase invisível, andando no sol quente; Valdemar da Brasília, míope, andando de bicicleta; e Clotário dirigindo seu Dodge Dart.
    O FINAL DO FINAL: Seu Chico Job mandando jogar no macaco 17; Lafayette entrando na camionete 5 da manhã; Doutor Zezé manobrando seu carro importado; Zé de Salé pedindo esmola na Sinfrônio Nazaré; Ema dormindo na calçada do Beco do Açougue ; Chico Elefante bebendo, caindo e levantando; Zabilo contemplando o infinito do terraço de sua casa; Célio Pires incendiando o palanque; Sales Facundo, o matemático, se antecipando ao chip; Doutor Tomaz me ensinando geografia; Dão Nonato arrematando uma galinha; Chico de Josias contando as novidades no Calçadão; Seu Zé Batista consertando o caminhão; Zélia de Verônica fazendo pose na janela; e Seu Toinho me dando um merecido carão na Escola Comercial.
    CONCLUSÃO: a vida é uma passagem de vinda e volta. Rápida, penso eu. Ame o próximo, seja feliz, deixe uma história bonita na terra e não esqueça: brigar faz mal à saúde.


  • 18/03/2014

    Aguinaldo, despedida vitoriosa


     Em mais de 120 anos de República, a Paraíba teve estes ministros: José Américo de Almeida, João Agripino Filho, Abelardo Jurema, Cícero Lucena, Fernando Catão e Ney Suassuna.
    Amanhã, às 10 horas, nosso Estado deixa de ter nessa galeria Aguinaldo Ribeiro, o ministro das Cidades, que se afasta do cargo para disputar um novo mandato eletivo.
    Aguinaldo deixa a pasta depois de uma gestão absolutamente vitoriosa, com um grande legado para o Brasil e especialmente para a Paraíba. É uma despedida vitoriosa e que orgulha seus amigos e eleitores conterrâneos. 
    Parabéns, camarada!

    P.S.: todos os ministros paraibanos entraram e saíram pela porta da frente.

     

    CARGA PESADA


    Só de imposto de renda e previdência, o governo abocanha 30% do meu salário todo mês. Na fonte. Isso corresponde a quase cinco meses do meu trabalho. Parece escravidão. Sem falar em ICMS, IPI, COFINS, IOF, IPTU, IPVA e uma parafernália de outros tributos.
    Só há um jeito de o governo (qualquer um) diminuir essa gula confiscatória - gastando menos. Mas aí...

     

    HOJE EU ACORDEI ASSIM...

    ...lembrando o sempre atual José Américo de Almeida: ninguém se perde no caminho da volta. 
    ...adaptando Alceu Valença: voltei, Paraíba, foi a saudade que me trouxe pelo braço.
    ...e invocando Max Weber: há dois tipos de políticos: os que servem à política; e os que se servem da política.


  • 09/03/2014

    O impagável contador de causos


     Era uma manhã de sábado de fevereiro ou março de 2007 e o meu celular acusa uma chamada não atendida (eu estava no banho). Retornei a ligação e logo reconheci a voz em tom forte, grave de Zeca. Queria saber onde eu ia almoçar.
    Só para recordar. 2006 talvez tenha sido o pior ano da minha vida. Havia perdido a reeleição de deputado federal, gastei cada centavo que tinha e o pior: saí devendo. E não tinha a menor ideia de como pagar as contas. Também não tinha bens para quitar as dívidas, pois na campanha vendi um pequeno apartamento e depois dela me desfiz de uma camioneta SW4.

    Portanto, economizar dinheiro, qualquer dinheiro, era uma regra na minha rotina. Fui com Zeca e a família almoçar no Carpe Diem, que serve uma das mais completas feijoadas de Brasília, pela metade do preço do Piantella. Para meu alívio, o nosso convidado resolveu tomar cachaça, normalmente mais barata.
    Para quem não conheceu o personagem, Zeca devia ter esse apelido porque sua boca era enorme. Quando ria, ia de orelha a orelha. Lembro que nesse dia ele dizia, todo vaidoso, usar calça e camisa da Brooksfield, tênis da Adidas e um boné também de marca. Herança de alguém, talvez.

    Voltemos ao restaurante. Zeca tomava já umas dez lapadas de aguardente, não parava de contar histórias e, com isso, fazia da nossa mesa a mais animada do ambiente. Quando o garçom foi servir a 11ª dose, eu quis saber que cachaça era aquela. Tomei um susto com a informação: era a mineira Havana, envelhecida 10 anos, e cada copinho custava... R$29,00!!! Zeca havia gostado do nome da cachaça e o garçom, malandro, daquele tipo que pensa que todo deputado é rico, escondeu o preço. E nem sabia que eu era ex-deputado.

    A vida, porém, é feita de recompensas. Paguei a conta satisfeito. Fiquei pensando na vida de Zeca Boca de Bacia. Sem dinheiro, sem emprego, sem rumo, boca-livre, esse andarilho das ruas de Campina Grande e que de vez em quando vinha a Brasília nas asas do favor alheio era feliz, divertido e irradiava alegria por onde passava. Eu não tinha motivos para permanecer na tristeza ante a derrota eleitoral. Deus haveria de me abrir outras portas. E abriu. Muitas. Aquele sábado com Zeca e sua Havana cara não teve preço.


  • 03/03/2014

    Além do castigo


     Logo nos primeiros dias após assumir o cargo de Secretário da Justiça (1991), acertei com a equipe várias visitas aos estabelecimentos penais do Estado. E chegou a vez do Bom Pastor, presídio feminino da Capital. Percorri todos os espaços físicos do ambiente e recolhi de inúmeras internas reivindicações e queixas. Uma delas era a falta de espaço decente para elas receberem os maridos, namorados ou companheiros para “encontros íntimos.” 

    Determinei à diretora, que se chamava Vitória (sousense, por sinal) que reservasse uns ambientes decentes para que as apenadas pudessem desfrutar desse convívio íntimo. Ordem dada, ordem cumprida e com desvelo: higiene absoluta, cama impecável e camisinhas. Em tom de deboche, o jornalista Luiz Otávio (Correio Debate) espalhou na época que eu havia criado um motel no Bom Pastor. Nem liguei.

    Não lembro o nome, mas vamos chamá-la de Socorro. Na visita seguinte, com tudo funcionando, ela me chamou num canto e disse justamente o que eu pensava: a perda da liberdade já era castigo suficiente para uma apenada. Ser privada dos poucos direitos a elas deferidos, no entanto, significava a aplicação de uma pena que transbordava o castigo imposto pela lei. O drama dela era não ter alguém com quem pudesse manter relações sexuais. E me fez um pedido pra lá de incomum:

    - Peço ao senhor para me arranjar um homem, nem que seja um preso do Róger (presídio masculino).

    Aí já era demais. Socorro queria que eu fosse seu cafetão. Disse-lhe que não podia ajudar nessa matéria. Resignada, disse que queria assim mesmo frequentar os novos quartos. Sozinha.


  • 23/02/2014

    Aborto vivo


     Já recebi de eleitores pedidos os mais inusitados. Vou contar um deles. Na campanha de 1994, uma amiga e eleitora queria falar comigo com urgência e em caráter reservadíssimo. Agendei o encontro e ela, trêmula e chorando, revelou o drama que estava vivendo: engravidara de um homem casado e se seu pai, ultraconservador, soubesse ia ser um Deus nos acuda. Queria, pois, que eu pagasse o aborto.


    Fiquei dividido entre o desejo da amiga, o voto da eleitora e a minha consciência. Decidi, afinal, que não atenderia seu pedido. “É melhor enfrentar o preconceito do que sucumbir à fraqueza”, disse-lhe francamente. “Conte comigo para pagar o parto”, acrescentei. Decepcionada, ela ficou furiosa e rompeu comigo.


    No final do ano passado, eu estava em João Pessoa e encontrei um amigo nosso em comum. Perguntei por ela. Estava bem, morando na mesma cidade e trabalhando no hospital. E veja que surpresa agradável: o filho da minha amiga, agora com 18 anos, havia passado no vestibular de medicina. Era o ex-aborto. Vivo.


    P.S.: soube também que ela jamais deixou de votar em mim naquela eleição e nas seguintes.


  • 12/02/2014

    Uma secretária turnbinada


     Ela era diferente em tudo. Bebia mais que a família Leitão inteira, não soltava o cigarro nem tomando banho, parecia ter a rapidez de um trem-bala e nunca soube o que era preguiça. E ainda por cima tinha um belo tempero. Seu feijão, por exemplo, podia ser consumido solitariamente.
    Assim era Neta, nossa inseparável empregada por quase 20 anos, somando o tempo de João Pessoa e Brasília. Ela sabia que o meu whisky era sempre o Johnnie Walker Red (8 anos, R$70,00). Certo dia combinei com Aíla de receber uns amigos para almoçar conosco. Um momento adequado para servir aos convidados ilustres o Johnnie Walker Blue (envelhecido 60 anos, mais de R$400,00) que eu havia ganhado de um amigo há algum tempo.
    Todos à mesa e lá venho eu envergando o nobre malt para abrir o apetite dos comensais. Ao despejar a primeira dose no copo, vi logo que o whisky estava quase branco. Pensei que estava estragado, claro. Não estava. Descobriria em seguida que Neta havia consumido o precioso líquido e completara a garrafa com água.
    Aíla foi tomar satisfação com nossa secretária e ela deu uma explicação lógica: 
    - Como dr. Inaldo só gosta do whisky vermelho, eu tomei o azul, que estava aí há muito tempo e deve ser mais barato.
    O jornalista Hélder Moura tomou conhecimento do fato e o publicou no espaço da coluna reservado ao folclore político. Na manhã seguinte, Neta estava com as malas prontas para ir embora, toda emburrada. Ela soubera por uma amiga que seu nome havia saído no jornal, como se fosse uma ladra.
    Foi difícil convencer Neta de que aquela coluna era política – não policial. Felizmente ela desistiu de ir embora e ficou conosco por mais uns 10 anos. Tomando todas. Não por acaso, uma de suas músicas prediletas aqui em Brasília era “Beber, Cair e Levantar”.


  • 11/02/2014

    Zeca Boca de Bacia


     Campinense do bairro Zé Pinheiro, Zeca Boca de Bacia era uma das figuras mais conhecidas da cidade, sobretudo porque era um exímio contador de história, tinha o bom humor sempre ativo e se fosse possível não largaria a mão de um copo de qualquer bebida – desde que contivesse álcool. 
    Dinheiro no bolso de Zeca era coisa rara, mas sua presença nas mesas era tão prazerosa que não faltavam convites para sua companhia. Não era do tipo que namorava e, como o apelido sugere, guardava imensa distância do que se pode chamar de padrão de beleza.
    Eu e o inseparável colega e amigo fraterno deputado Ricardo Rique fomos almoçar no Piantella (ponto brasiliense de encontro de políticos) e convidamos Zeca. Rique levou uma garrafa do vinho Chateau Latour, orçado entre R$2.500,00 e R$3.000,00, que tirara de sua adega. O Piantella permitia que o cliente levasse o vinho, desde que pagasse a rolha.
    Taças na mesa apropriadamente servidas, Ricardo Rique ergue a sua para o tradicional brinde e provoca:
    - Zeca, diga quanto custa essa taça de vinho que você vai tomar agora.
    - Deve ser bem uns dez real! (sic)
    - Quinhentos reais, rapaz!
    Rápido no gatilho, Zeca desiste do brinde, pousa a taça sobre a mesa e acunha:
    - Pois me dê o meu vinho em dinheiro mesmo, deputado!


  • 30/01/2014

    Um Kojak em Sousa


     Sousa, 1980. Juntamente com Doca Gadelha, João Estrela, Jonas Abrantes Gadelha e outros advogados, iniciamos um movimento suprapartidário para que o governador Tarcísio Burity nomeasse um Delegado de Polícia de carreira para a cidade. À época, respondia pelo cargo um sargento da Polícia Militar. Nada contra o PM, mas Sousa era sede de curso de Direito (Campus VI da UFPB), o que por si evidenciava a justeza do pleito.
    Burity acatou a reivindicação e o delegado fora nomeado. Severino Olímpio, agente de Polícia, iniciou a coleta de doações para que o nomeado fosse recepcionado festivamente no BNB Clube. Todos colaboramos com bebida e dinheiro, principalmente o comércio. A festa tinha que ser grande, dizia Severino.
    E chegou o grande dia. O veículo do novo delegado deixou a BR 230, vindo de João Pessoa, e parou direto no estacionamento do clube. Aí desce o homem da lei de terno e gravata, cara de valentão, mas ao mesmo tempo simpático. A entrada no interior do clube foi triunfal: as palmas quase não paravam. Depois de umas e outras, era hora dos discursos de praxe, algo que não pode faltar nessas ocasiões.
    Saudado por vários oradores, principalmente nós advogados, o homenageado é anunciado, empunha o microfone e pronuncia um curto e curioso discurso, com sotaque que lembrava os filmes policiais americanos:
    - Muito bem, muito bem, muito bem...obrigado por esta recepção. Eu vou ser bem direto, hã?: a partir de hoje está decretado o fim da criminalidade nesta cidade. Tolerância zero com os bandidos! Esse é o meu lema. E tenho dito.
    Aquele sotaque me soou familiar e eu pensei comigo mesmo: esse camarada imita Kojak (personagem interpretado por Telly Savalas em uma série de TV dos EUA, exibido na década de 70). Não deu outra.
    No dia seguinte, chegando bem cedo na Delegacia, um Kibon na boca, o nosso Kojak encontrou um sujeito sentado no sofá da sala e foi logo dizendo:
    - Ora, ora, ora, preso outra vez, hã?
    - Não, doutor, eu não estou preso, vim aqui tirar um atestado de residência - respondeu o nervoso cidadão.
    - Você não mudou nada, hã? Sempre com gracinha. Raimundo (Jerônimo, escrivão), recolhe esse indivíduo para averiguações! Aos costumes.
    Foi preciso Raimundo explicar que conhecia o dito cujo e que era um cidadão de bem. ‘Kojak’ acatou a ponderação e liberou o suplicante. Em seguida o escrivão anuncia que outro cidadão, vítima de furto, deseja falar com o delegado para registrar uma ocorrência.
    - Well, well, well, já não nos vimos antes?
    - Não doutor, é a primeira vez que vejo o senhor.
    - Eu quase nunca me engano, hã? Você parece com um famoso 157*!
    O Kojak ‘sousense’ seguiu com o hábito da desconfiança em relação a todos quantos fossem à Delegacia. Ficamos um tanto frustrados com o resultado da nossa luta, até pensamos em pedir a volta do sargento, mas o novo delegado era um boa praça e isso compensava o lado um tanto atrapalhado, meio fanfarrão, daquela autoridade policial.
    *Artigo do Código Penal que prevê o crime de roubo.


  • 21/01/2014

    Meu primeiro cliente


     Você já deve ter vivido as dificuldades de conseguir o primeiro emprego ou de ter os primeiros clientes na atividade profissional liberal.
    Recém formado, abri meu escritório de advocacia em Sousa no ano de 1978. Ficava na rua Galdino Formiga. Sem dinheiro, recorri ao amigo Lulu, gerente do Banco Mercantil, para fazer um empréstimo para comprar o mobiliário e ajustar a estrutura física da casa, alugada a João Cazé. Meu avalista foi meu sogro à época, Dr. Valdemar de Sena Moreira, de saudosíssima memória.
    Tratei de algumas demandas no início, mas eram de pessoas pobres que não podiam pagar e diziam respeito a coisas simples: justificação judicial e retificação de nome no registro civil. Fiz de graça, mas sempre pensando no empréstimo bancário. Será que ia poder honrar as prestações?
    Aí apareceu um cliente de posses, daqueles que deixa o advogado todo animado. Seu nome: José Almir de Sousa, líder político de São José da Lagoa Tapada (parece que era prefeito na ocasião). Ele já vinha de outro escritório, que lhe receitara este remédio heróico pela via judicial:
    - Dr. Inaldo, quero lhe contratar para impetrar um mandado se segurança.
    E contou a razão: ele indicara a diretora do colégio estadual da cidade, que fora nomeada, empossada e estava impedida de assumir o cargo porque a ex-diretora se negava a entregar as chaves do estabelecimento. O jeito, disse ele, era recorrer ao judiciário.
    - Zé Almir, o senhor não precisa de um advogado e tampouco de mandado de segurança. O senhor precisa é de um chaveiro. Mande fazer as chaves de todas as portas do colégio, pois a nova diretora tem legitimidade para ingressar no estabelecimento e exercer seus plenos poderes.
    Os olhos dele brilharam. Os meus também, apesar de ter perdido a oportunidade de ganhar meus primeiros honorários. Mas é aquela história: mais vale o conceito profissional do que a esperteza.
    P.S.: graças aos muitos clientes que vieram depois, paguei as prestações do Banco, as despesas do escritório e ainda ganhei um bom dinheiro nos 12 anos que advoguei em Sousa.


  • 17/01/2014

    Paloca


     Meu amigo "in memoriam" Paulo Vieira, que Sousa inteira conhecia como Paloca, casou, segundo os nossos padrões, fora de época. Já beirava ou passava dos 50 anos. Todos queriam saber como estava se sentindo o inveterado boêmio com a vida de casado. Alguns dias após as núpcias, Paloca reapareceu nos bares sousenses.
    - Paloca, que tal a vida de casado?
    - Estou muito bem! Mas o casamento tem um problema. A mulher só sabe dizer três coisas todo dia: cadê, me dê e trouxe.
    Pra quem nunca tinha entrado numa padaria...

     

    DEU NO ESTADÃO


    De 20 a 30 de janeiro o ministro-presidente do STF, o 'austero' Joaquim Barbosa, vai sentar praça em dois endereços nobres do planeta: Paris e Londres. Fará três palestras e receberá do Supremo R$14.142,60 de...diárias! Como cada exercício verborrágico do Barbosa não durará mais que 2 horas, totalizando 6 horas, o ínclito juiz (que por sinal está de férias) terá 234 horas de...lazer! Vai levar na bagagem um assessor, também movido a diárias.
    Isso lembra o velho ditado: faça o que eu digo, não faça o que eu faço.


  • 14/01/2014

    Animais


     Cristóvão Tadeu, cartunista e humorista dos bons, contava esta piada em seus shows nos anos de 1990.
    O sujeito chega no cartório para registrar seu filho e o tabelião pergunta qual será o nome do rebento.
    - Antônio Cachorro da Silva!
    - Esse nome eu não posso registrar, vai expor seu filho ao ridículo! – retruca o tabelião.
    - O senhor está dizendo isso porque sou pobre. Mas a cidade está cheia de gente importante com nome de animal: Carneiro Arnaud, Assis Camelo, Inaldo Leitão, Nelson Coelho, Castro Pinto, Carlos Aranha e até Leão. O que o senhor tem contra o cachorro?
    P.S.: pode parecer estranho, mas tem lógica...


  • 03/01/2014

    Maconha no Róger


     A história que vou contar agora tinha uma única testemunha – que faleceu. Significa que se eu mesmo não contar, ninguém poderá fazê-lo.
    Aconteceu no Presídio do Róger, em 1991. Como Secretário de Justiça e Cidadania, adotei como norte do meu trabalho no sistema prisional aquele conhecido lema de Che Guevara: ser duro, mas sem perder a ternura. 
    O estabelecimento prisional em causa era um caldeirão prestes a explodir, sobretudo pela superlotação. Determinei o fim da tortura e exigi disciplina dos presos. Andava leve e solto no meio deles. Nomeei diretor o Coronel PM Afonso, de saudosa memória, um simpático militar que tinha autoridade sem ser autoritário.
    Tomei conhecimento de que havia muitas armas nas celas (estiletes, serras, escovas dentais com a ponta afiada etc.). Chamei o Coronel Afonso e determinei uma operação pente fino, secreta, para depois de meia noite. Comuniquei o fato ao juiz da Execução Penal, que fez questão de acompanhar o procedimento. A imprensa estava presente.
    Chegada a hora, fiz as recomendações de praxe ao Diretor. A ordem era apreender armas e drogas. O juiz lembrou que devia haver muita maconha nos cubículos. Terminada a preleção, chamei o Coronel em particular e fiz uma ponderação:
    - Coronel, mande a tropa apreender armas e drogas pesadas, mas deixe a maconha dos presos em paz.
    - Mas como, Secretário? O juiz disse...
    Aí eu exagerei nas minhas atribuições:
    - O juiz cuida dos processos judiciais e eu da administração penitenciária. Outra coisa, Coronel, nós temos até vinte presos ocupando o espaço de seis nas celas deste inferno. Se ainda não tivemos um motim, deve ser justamente por causa da maconha, que acalma e dá um sono danado.
    A operação foi bem sucedida, a maioria dos presos a aprovou e muitas armas foram recolhidas. No meu período como Secretário, não houve um único motim no sistema prisional. Não estou dizendo que foi por causa da maconha...


  • 23/12/2013

    Na corrente de fé


     Com 49 anos de carreira, o quase setentão Reginaldo Rossi, Rei da MBB (Música Brega Brasileira) luta neste momento contra um câncer. Essa luta só será vitoriosa se conjugar dois fatores: a ciência médica e a fé. Eu faço parte da equipe de fé e espero que meu amigo RR supere este momento e volte a alegrar os corações apaixonados Brasil afora.

    Conheci Rossi em 1971, no bairro da Ilha do Leite (Recife), ocasião em que nos reuníamos na Pracinha e ele cantava algumas músicas que faziam sucesso apenas na capital pernambucana. O PÃO, por exemplo: "Olha nunca mais eu quero/Saber de você/Você maltratou meu pobre coração...

    Depois veio a explosão do sucesso: mais de 300 composições gravadas, 14 discos de ouro, 3 de platina e 1 de diamante. De norte a sul, de leste a oeste, Reginaldo Rossi voou pelo Brasil inteiro e suas canções ainda ecoam nos nossos ouvidos. Gosto de todas, mas três são especiais na hora de tomar uma: Garçon, A Raposa e as Uvas e Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme. 

    Saúde, meu Rei!


  • 16/12/2013

    O estranho assalto a Tota Agra


     Tota Agra era deputado estadual na legislatura 1995-1999 (faleceu no penúltimo ou último dia do mandato) e tinha como principal bandeira a descriminalização da maconha. Presidente da Assembléia, recebi Tota no gabinete, todo agitado. 
    Faria um pronunciamento da tribuna defendendo a legalização da droga e elencando os seus vários benefícios, sobretudo medicinais. Ele já havia feito várias manifestações sobre o tema, mas naquele dia trazia uma novidade. Só não quis dizer qual era.
    Na tribuna, microfone em punho, o deputado do Partido Verde soltou o verbo a favor da maconha e, depois de repetir os argumentos utilizados em ocasiões anteriores, apresentou o “fato novo”:
    - Senhor Presidente, Senhoras Deputadas e Senhores Deputados, este terno que estou usando agora foi feito com as folhas e os galhos da cannabis sativa. Isso significa que, além da utilização para fins medicinais, a maconha pode ser empregada em larga escala para fins industriais, gerando riqueza para o nosso país.
    No início da noite, Tota Agra seguiu com destino a Campina Grande, sua principal base eleitoral. Ao chegar no bairro Zé Pinheiro, o “Zepa”, numa rua bastante escura, foi abordado por dois ladrões armados:
    - Um assalto!, gritaram os fora da lei.
    - Caras, eu sou Tota Agra, não tenho dinheiro, relógio ou qualquer objeto de valor.
    - Num queremo essas coisa, mermão, num viemo te roubar. Viemo te fumar.
    E levaram o terno de Tota, que ficou entre espantado e aliviado. Podia ter sido pior.
    P.S.: os ladrões ouviram pelo rádio a repercussão do pronunciamento do parlamentar.


  • 12/12/2013

    A morte de Antônio


    Antônio Pordeus Mariz era uma figura muito popular em Sousa e por diferentes razões. A principal delas era pelo fato de ser um homem muito prestativo. Trabalhava na Prefeitura Municipal de Sousa, que abrigava o único Posto Telefônico da cidade. Frequentemente recebia ligações de parentes que moravam fora e queriam fazer contato com a família, sobretudo de São Paulo (SP). Antônio marcava hora, fazia os contatos e deixava todos felizes. Também trabalhou na Maternidade, onde fez muitos favores.

    Era de tal forma querido pelos conterrâneos que nas datas especiais recebia presentes os mais variados. Galinha, queijo de manteiga, rapadura, doces caseiros e outros mimos. Certo dia uma notícia triste correu os quatro cantos da cidade: a morte de Antônio. A cidade quase parou, perplexa e desolada. O falecido devia ter menos de 40 anos e morrera repentinamente. A causa, provável, era infarto.

    E chegou a hora do enterro. Uma multidão acompanhara o caixão pelas ruas da cidade, na Igreja e a caminho do Cemitério, sem falar nas pessoas que ficavam nas calçadas de suas casas para reverenciar o extinto e talvez rezar por sua alma. Nas imediações da Usina de Luis Oliveira, por exemplo, depois do Beco do Açougue, ainda hoje é comum as famílias ficarem sentadas nas calçadas altas assistindo a passagem de defuntos a caminha da última morada.

    No Cemitério, antes do caixão descer à sepultura, alguém teve a ideia de abri-lo para o último adeus ao prestigiado Antônio. Quando a tampa foi aberta, eis que o ‘defunto’ abriu os olhos e, mais que espantado, falou:
    - Onde estou? O que está acontecendo?

    Foi o suficiente para a multidão partir em desabalada carreira, passando por cima de covas, atropelando cruzes e promovendo uma ensurdecedora gritaria. “Um fantasma”, diziam alguns. “Isso é coisa do outro mundo”, falavam outros. A cena que se viu em seguida era essa: a procissão que seguiu para o Cemitério em passos cadenciados, agora voltava na carreira em sentido contrário; as pessoas que estavam nas calçadas se trancavam em suas casas, sem nada entender; e o ex-defunto, de mortalha, corria atrás da multidão, mas não conseguia falar com ninguém para saber o que danado estava ocorrendo.

    A partir desse dia, Antônio viu seu sobrenome ser substituído pela palavra Morreu. Ele ficava furioso quando o chamavam de Antônio Morreu. Dava azar, dizia ele, e trazia más lembranças. Na verdade, Antônio teve um ataque de catalepsia, cujos sintomas aparentes se confundem com a morte. Solteiro, ou “rapaz velho”, como se dizia na época, baixinho e com a cabeça precocemente branca, esse personagem que ficou na história de Sousa por ter morrido ‘duas vezes’, era irmão de Dona Noêmi, esposa do ex-prefeito Tosinho Gadelha. Sua morte de verdade aconteceria anos depois.

    Hipocrisia


    Se o mundo que se uniu ao redor de Nelson Mandela morto, tivesse feito o mesmo quando ele era vivo, o líder sul-africano não teria passado 27 anos na cadeia pelo ridículo crime de opinião na sua luta pela igualdade, pela paz e contra a intolerância racial.


  • 09/12/2013

    Oposição vence Governo



    O placar das eleições para o governo da Paraíba de 1982 a 2010 é este: Oposição 5X3 Governo. Vamos lá.


    1982 - Wilson Braga (PDS), candidato do governo, derrota Mariz (PMDB).


    1986 - Burity (PMDB), na oposição, derrota Marcondes Gadelha (PFL).


    1990 - Ronaldo Cunha Lima (PMDB), vence a eleição na oposição contra Wilson Braga (PDT) e João Neto (PRN).


    1994 - Mariz (PMDB) derrota Lúcia Braga (PDT), apoiado pelo governador Cícero Lucena (PMDB).


    1998 - José Maranhão (PMDB), no governo, se reelege e derrota Gilvan Freire (PSB).


    2002 - Cássio Cunha Lima (PSDB) vence o candidato do governo Roberto Paulino (PMDB).


    2006 - Cássio (PSDB) vence, mas o TSE proclama vitorioso José Maranhão (PMDB), da oposição.


    2010 - Ricardo Coutinho (PSB), de oposição, ganha de Maranhão (PMDB), que tentava a reeleição sentado na cadeira de governador.

     

    O BODE E O POETA

    A história que vou narrar agora já correu mundo. Eu mesmo já contei dezenas de vezes aqui em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Roma, Paris, Nova Iorque e até na China. Na Paraíba, essa do folclore político muda apenas de lugar. Eu mesmo juro que foi no Lastro.

    Nas eleições de 1990, ganhou as ruas a notícia de que o candidato a governador Ronaldo Cunha Lima (PMDB) tinha um prato preferido sobre qualquer um outro: bode. Assim, na casa aonde o Poeta chegava, haja bode. 

    Ele fazia uma campanha frenética para vencer o candidato favorito nas pesquisas Wilson Braga (PDT) e o concorrente apoiado pelo governador Tarcísio Burity, João Agripino Neto (PRN). E o homem não parava, parecia elétrico. Almoçava e jantava nas casas de lideranças políticas até quatro vezes por dia. E haja mais bode.

    Ronaldo já não suportava o cheiro do quadrúpede, de tão empanzinado. A caminho do Lastro, para um comício, parou na casa de Antônio Raimundo, à margem da estrada, e lá estava a mesa farta: arroz vermelho, feijão de corda, macarrão com salsicha fatiada, batata doce, salada maionese e...bode! O anfitrião recebe o Poeta, mostra a longa mesa de madeira, aponta para o guisado de bode e, como se não soubesse a preferência do convidado, pergunta:
    - Governador, o senhor come bode?
    O espirituoso Ronaldo, que perde o eleitor mas não a piada, responde:
    - Se tiver quem segure...

    MINHA VIDA DE ATOR

    Entre as muitas profissões ou atividades que já exerci na vida, tem uma que pouca gente sabe: já fui ator. Quando ingressei no curso de Direito da Universidade Católica de Pernambuco (Recife), em 1973, lá funcionava um teatro chamado TUCAP. Quando estava prestes a ingressar nele, a ditadura obrigou o Reitor a fechá-lo, sob a alegação de que seus integrantes eram um bando de subversivos.

    O então diretor, o paraibano Marcus Siqueira, recorreu a Dom Hélder Câmara e conseguiu instalar o grupo no Palácio do Bispo, na rua Rui Barbosa. Fui sonoplasta do monólogo O Diário de um Louco (texto de Nicolai Gogol) e atuei em O Uivo, de Allen Ginsberg.

    Mas a atuação mais intensa eu tive na peça “Tudo Começou com Ele”, sobre Tiradentes, encenada em 29 bairros periféricos do Recife, depois da qual era apresentado em forma de jogral o poema “Essa Nêga Fulô”, de Jorge de Lima. Durante a leitura do texto (laboratório), ganhei os papéis de Tiradentes e Dom João VI, embora não tivesse a barba do primeiro nem a barriga do segundo.

    Eis que na apresentação do bairro Mustardinha, como sempre o espaço lotadíssimo, um bêbado rompe o silêncio da plateia e solta o vozeirão:
    - Cadê a barba desse Tiradentes?
    - Tá embaixo, bebo cego!, emendou um gaiato, que nunca falta em plateia nenhuma.

    Aí a risadeira foi geral. Foi nesse dia que descobri que jamais seria um ator de verdade. Desconcentrei-me, caí na risada e custei a me restabelecer no papel. Deixei o teatro e me fixei na profissão que até hoje exerço: advogado. E professor.


  • 03/12/2013

    A diversidade como ela é


    O mapa ideológico do Brasil está quase completo. A esquerda tem dois candidatos presidenciais, Dilma (PT) e Eduardo Campos (PSB). O de centro-esquerda é Aécio, do PSDB. O da ultraesquerda é Randolfe Rodrigues, do PSOL. Falta um candidato da extrema-direita. É aí que entraria o ministro Joaquim Barbosa. Os extremistas não têm chance de vitória, mas é bom que componham o cenário.
    Na hora de governar, porém, prevalece a lógica do violino e sai de cena essa história de ideologia: o candidato ganha (segura) com a esquerda e governa (toca) com a direita. É o que se chama política real.

    E LÁ SE FOI DEDA


    Meu amigo, ex-colega na Câmara dos Deputados e governador de Sergipe, partiu hoje para a eternidade Marcelo Deda, com apenas 53 anos. Extrovertido, alegre, elegante, bom de papo e inteligentíssimo, Deda foi um dos mais entusiastas da minha candidatura a presidente da CCJ (2001), embora estivéssemos em posições políticas opostas.
    Suas intervenções nos debates da CCJ eram lúcidas e brilhantes. O auditório calava para ouvir a voz da sabedoria. Hoje tem festa no céu.

    DILMA SOBE, A OPOSIÇÃO DESCE

    A notícia é péssima para os meus amigos anti-Dilma Rousseff. E é um tapa na cara da grande mídia, destacando-se a furiosa revista Veja, que tenta rimar mensalão com eleição. Em vão, como dizem os números.
    Se a eleição fosse hoje, Dilma venceria no primeiro turno com 47% dos votos. Aécio e Eduardo, em queda, teriam respectivamente 19% e 11%. E se o candidato fosse Lula? Aí o pau come: 56%!
    O suposto candidato da extrema-direita, ministro Joaquim Barbosa, aparece com 15%. 
    A pesquisa foi feita pelo insuspeito Datafolha.

    O MUNDO DE CHICO CAMARÃO

    Quem conheceu Chico Camarão sabe como ele era. Caladão, passos lentos, bom de copo e do bem. Foi meu amigo de infância e, antes de casar com Marília, fez do Bar de Zé Mendes seu endereço predileto. Tomamos muitas na nossa juventude.
    Numa certa fase da vida de solteiro, Chico passava a noite bebendo e o dia dormindo.

    Nesta rotina, perdera a noção do tempo. Até que um dia sua mãe balançou o punho da rede e disse-lhe que já passava da hora de acordar. Chico abriu os olhos, passou as mãos sobre eles para desembaçar, contemplou a escuridão e disse, sonolento:

    - Mãe, esse mundo tá doido!

    - Por que, meu filho?

    - Essa porra num tem mais dia não? 


  • 26/11/2013

    A primeira vez de Itan


     O professor Itan Pereira da Silva era Pró-Reitor do Interior da UFPB e eu diretor do Campus VI. Terminamos nossa maratona de reuniões pelas 23h (o que não falta nas Universidades é reunião!).
    - Mago, vamos tomar uma cerveja e comer alguma coisa.
    O problema é que o dia era segunda feira e não tinha nada aberto. A não ser...o cabaré de Célia. Como eu não ia deixar Sousa passar vergonha, levei Itan para o primeiro andar, na Estação. Ele era ex-padre e jamais tinha entrado naquele tipo de ambiente. Quando viu as luzes vermelhas e muita gente nas mesas, Itan comentou:
    - Sousa está muito avançada, que lugar movimentado!
    Eu fui logo falar com Célia e pedi que não deixasse as moças assediarem o meu amigo, avisando que o homem não sabia que o lugar era "aquele". Avisei tarde. Quando retornei à mesa, já tinha uma \'moça\' conversando animadamente com o \'padre\'. Quase sentada no colo. E ele se afastando, encabulado.
    Ele tomou umas cervejas, eu tomei meu rum com Coca-Cola, dispensamos as \'donzelas\' e comemos alguma coisa (que Célia mandou buscar no Bar Sem Porta).
    Saímos dali e Itan continuou elogiando a noite sousense. Se fosse em Cajazeiras, dizia ele, não ia ter nada aberto àquela hora. Orgulhoso com aquele comentário e sem coragem de dizer ao inocente amigo onde nós havíamos ido, guardei comigo o segredo.
    Talvez Itan tenha morrido sem saber que um dia frequentou um cabaré.
    P.S.: minha secretária Maria Morais e o professor Dedé Job sabem dessa história.