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Colunas de J.M.Victor

Escritor e teatrólogo


  • 26/03/2018

    Volta Isabel!


     O colecionador é um garimpeiro e a coleção só perde a graça quando não existe mais material para garimpar. Uma coleção da obra de Chico Buarque é infindável. Lp, compacto simples e duplo, fita cassete, cd, dvd, livro (teatro, poesia, novela, romance). Tenho mais de quarenta anos nessa labuta. Só esse mês comprei três publicações editadas fora do Brasil.  "Spilt Milk", edição de 2012 em língua inglesa;  "Quand Je sortirai D ICI" , edição francesa de 2009 e uma edição portuguesa do livro ‘Estorvo",  fora o Cd de comemoração dos dez anos das "Mulheres de Chico". Adquiri  no início do século no Pará um raríssimo Lp do conto infantil "Chapeuzinho Amarelo".

    O disco não estava na relação do site oficial do compositor, então tomei a iniciativa de mandar um e-mail e quem me respondeu foi Wagner Homem, que é curador e editor do site, perguntando o porque. Wagner informou que "Chico não o considerava da sua discografia". O Lp tinha sido musicado por ilustres desconhecidos.  Depois perguntei porque algumas músicas do início da carreira do artista tinha sido excluídas da relação do site. Essa última pergunta não foi respondida. Consegui a relação das músicas quando li uma propaganda do repertório do cantor na partitura da música "Volta Isabel" de sua autoria. Quem já ouviu essas músicas de Chico Buarque: Alvorada, Na base de Bach, Peço, Rancho dos Namorados e Violão quebrado? Acredito que um restrito número de pessoas tem conhecimento dessas músicas desaparecidas. Qualquer dia entregarei a partitura a um músico para poder ouvir:

    "Volta, volta Isabel,
    Que o nêgo chamou.
    Volta, volta Isabel,
    Que o tempo chegou".


  • 17/03/2018

    E agora, José?


     Não me lembro em que ano, foi na década de oitenta e sei que já era octogenário. Na televisão o entrevistador perguntou o  que ele estava lendo. O Itabirano respondeu que estava na idade do reler. No momento estava relendo as fábulas de La Fontaine. Deu uma pausa e acrescentou: - No original! Agora consigo entender um pouco dessas releituras do poeta Carlos Drumond de Andrade.

    Às vezes passo horas numa livraria procurando um livro para comprar e não consigo encontrar. Quando encontro um novo poeta, como Zack Magiezi com o seu "Estranheirismo", o meu coração é invadido por uma grande emoção e festa. A metade dos livros expostos numa livraria são de uma mediocridade terrível. Existe nesse meu tempo a vontade de reler alguns clássicos e algumas obras fundamentais.

    Na Universidade, por ter sido do  Diretório Acadêmico, tive que ler alguns livros de Estratégias como "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel, "A Arte da Guerra" de Sun Tzu e "O Livro dos Cinco Anéis" de Miyamoto Musashi. Naquela época algumas traduções não eram boas, a maioria eram realizadas a partir de edições francesas e não da língua original do autor. Um exemplo clássico do que estou dizendo é a recente tradução definitiva dos "Irmãos Karamázov" diretamente do russo pelo paraibano Paulo Bezerra que estudou língua e literatura russa na Universidade de Lomonóssov, em Moscou. 

    Recentemente reli "O Príncipe" porque encontrei na minha biblioteca um estudo de Caso do Curso de  Introdução à  Ciência Política sobre o livro  de Maquiavel editado pelo Serviço de Ensino à Distância da Universidade Federal de Brasília que era coordenado pelo inovidável Tarcísio Meira César, intelectual da melhor estirpe e poeta patoense de primeira grandeza. Quando completou vinte anos de sua morte fiz uma sessão solene na Câmara Municipal e um discurso emocionado intitulado "O Homem que Gostava de Conhaque" .


  • 17/03/2018

    O gaveteiro do Ingá


     Márcia quando perde algum objeto e não consegue encontra-lo só tem uma fórmula eficaz: Fazer o Pelo Sinal das Almas. É impressionante como logo em  seguida ela  consegue encontra-lo, mas é importante saber que esse pequeno milagre não é tão fácil assim. É toda uma história de vida e fé rezando diariamente para as pessoas que se encantaram.

    Quem é capaz de refutar as palavras de William Shakespeare? "Existe mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia". Já no meu caso que não tenho esse dom e prestígio tive que desenhar um móvel que denominei de "O Gaveteiro do Ingá".

    A peça foi fabricada por um marceneiro das Espinharas e pintada pelo meu amigo e artista plástico José Carlos que vive enclausurado no seu ateliê. Pintou no tampo do móvel as inscrições rupestres da Itacoatiara do Ingá. Nele coloco pequenas peças, documentos, fotografias, monóculos, flâmulas, slaides, negativo de fotos, cartas, postais, bússolas,  relógios de bolso, carteira de trabalho e estudante, flores murchas, lembranças, segredos, lágrimas, alegrias e tristezas. Recentemente, por acaso, encontrei num envelope duas fotografias raríssimas da primeira aula espetaculosa de Ariano Suassuna que aconteceu na cidade de Patos na década de setenta.

    Ele registra esse acontecimento no seu livro "O Jumento Sedutor". As fotos já estão aprisionadas no gaveteiro para o bem da nossa memória cultural. Ainda não encontrei nos meus arquivos duas fotos da inauguração do famoso Hotel JK. Uma Jucelino Kubitschek desfilando em carro aberto pelas ruas da cidade e a outra no descerramento da placa. Tem também um fluxograma da peça "A Morte do Padre Aristides" que ainda não escrevi porque o perdi  entre o meus papéis. Poderia até escrever a peça, mas prefiro a criatividade  daqueles meus trinta anos quando fiz o fluxograma.


  • 15/03/2018

    Pontomisso


    Quando Portugueses e Espanhóis se lançaram ao mar em busca de um Mundo Novo a frase mais esperada era: Terra a Vista! Com esse sentimento entrei no mundo encantado da Universidade. Um mundo novo que precisava ser explorado não só na Engenharia, mas em todos os seus aspectos. Como ator participei do Primeiro Festival Universitário de Teatro promovido pela UFPB, em Cajazeiras, com a peça infantil "T" de Terra e "B" de Brasil. 

    No segundo festival já participei com uma peça de minha autoria dirigida por Everaldo Vasconcelos que hoje é professor de Teatro da UFPB. A peça tinha o nome de "Ponto Final". Para ser apresentada tinha que passar pelo crivo da Censura Federal. Um dia recebi um telegrama me convocando a comparecer a PF. Dia e hora marcada. Era no tenebroso tempo da Ditadura Militar. Tempo em  que o povo não tinha o direito de escolher o seu presidente, governadores e prefeitos das capitais. Corria o ano santo de 1977.

    Na Polícia Federal mandaram mudar o título da peça e sem pestanejar e nem entender o motivo disse simplesmente com meu jeito desabusado de sertanejo: "Coloque Pontomisso". O funcionário me olhou atravessado e liberou a peça toda marcada com carimbo vermelho em vários diálogos: "CENSURADO". Para a peça ser apresentada o censor também tinha que assistir o Ensaio Geral. O nome do nosso Grupo era "Resistência" e para honrar o Grupo apresentamos a peça em Guarabira, Mamanguape e Solânea sem levar em conta os carimbos vermelhos da Polícia Federal. No ano seguinte escrevi "A Cruz da Menina" inspirado na filosofia de Paulo Pontes que dizia: já que não podemos colocar, no palco,  o drama do povo em todas as suas consequências pelo menos que se coloque a cara do povo do jeito que ela é.